domingo, 20 de julho de 2014

       A ATENÇÃO


 

Em ociosos tempos de férias, nos acasos de praia, tornei a ler um romance que havia lido pela primeira vez em estranha data para romances: Setembro de 1974. Chama-se A Atenção, e é de um autor italiano em tempos famosíssimo e na indiferença cultural de hoje provavelmente já esquecido. Alberto Moravia.

                                                             

Talvez lhe tivesse pegado nestas férias justamente por causa do título, esquisito título para um romance. Ou talvez por sentir que vivemos um tempo de pouca atenção, ou mesmo de completa desatenção ao que se passa à nossa volta, aos outros, e por vezes a nós mesmos.Ou seja talvez por pensar que muito do fundamento da nossa moral esteja numa maior ou menor atenção que prestamos às coisas, às pessoas, às instituições.
E porque também se dá o caso de pensar que a realidade que estamos a viver é mais mascarada – ou até pura e simplesmente ocultada - do que qualquer outra realidade vivida em qualquer outro tempo. Não me custaria admitir que no presente a comunicação de massas, conhecendo um desenvolvimento tecnológico que nunca nos passou pela cabeça possível, oculta, mascara, embeleza ou enegrece a realidade com mais sofisticação do que nunca – o caso Espírito Santo? O que requer da nossa parte mais atenção do que nunca às mensagens que nos chegam ao conhecimento.


Francesco Merighi, burguês, filho de burgueses, é jornalista. Casado. Vive com a mulher e com uma filha que a mulher, antes de o conhecer e em tempos de ocupação, teve de um soldado alemão.

                                                     

Francesco Merighi escrevia num jornal de esquerda. Porque era um homem de esquerda. Porque pensava o mundo à esquerda, não sendo embora filiado em qualquer partido. Uma dia, porém, oferece-se-lhe a oportunidade de colaborar num diário conservador de grande circulação e ele aceita. Continuando embora a ter ideias de esquerda.

  

Criticam-no. Era mais um que crescera e se valorizara à esquerda e se vendia à direita. Mas não era bem assim. Não lhe interessava o dinheiro e nem sequer mudara de ideias políticas. Limitara-se, quanto a ideias políticas, a pô-las de lado; compreendera que elas eram coisa de pouca importância na sua vida. A razão da mudança de jornal era a sua compulsiva necessidade de viajar, o que não lhe era fácil fazer num jornal de esquerda de baixo orçamento. Interessava-lhe viajar, estar longe da sua cidade natal, Roma, o máximo de tempo possível. Viajar era uma forma de não ser confrontado a cada momento com o seu passado.


E o problema do passado deste jornalista era a mulher.Passava dois terços ou mais do ano em reportagem no estrangeiro para estar o menos possível com a mulher.


A mulher dele era uma mulher do povo, filha de uma lavadeira e de um hortelão. Ele, burguês filho de burgueses abastados e com ideias de esquerda, achava o mundo falso e sentia-se de algum modo culpado dessa falsidade. Em 1947, encarregado de uma reportagem no pobre bairro romano Gordiani, conhecera a mulher, gostara dela e decidira que era aquela a mulher que procurara por tanto tempo.E nas condições que adquiriu de estabilidade familiar, começou a escrever um romance. Mas de repente…


De repente, Merighi descobriu que deixara de amar a mulher.
O que outrora vira na mulher, aquelas características de mulher do povo, deixara de ter valor para ele. E não só deixou de amar a mulher como sentiu nascer nele um sentimento de repulsa por ela. E recusava qualquer contacto físico. E afligia-se ao pensar como pudera ter amado aquela mulher, como se vivesse o dia seguinte a uma noite de bebedeira em que tivesse dito e feito uma quantidade de disparates.
Não a amava, ela causava-lhe repulsa. Mas também não a odiava.
Um dado sartriano, existencialista, na obra de Moravia, parece-me, esta inconsequência de vida, este não amar nem odiar, este não agir nem deixar de agir, este absurdo, esta inautenticidade, esta estranheza de si próprio, esta faixa cinzenta de existência inautêntica. O jornalista pensa que a Humanidade inteira, por séculos e séculos, agira por motivações inautênticas, multiplicando em progressão geométrica toda a irrealidade inicial.A História, a grande História, era um cemitério de ideias falsas, primeiro adoptadas com fervor e imediatamente abandonadas.


Na verdade, Merighi chegara a amar a mulher, e chegara a casar-se com ela. Mas tudo agora lhe parecia falso, inautenticidade irreparável.


  Mas do nada pode despontar o ser; e da irrealidade pode brotar a realidade.

                                                   

Bom, normalmente, um homem nestas condições ter-se-ia separado da mulher. Mas ele não o faz. A separação significaria a acção e ele sentia-se incapaz da acção. Agir significava mentir, criar uma nova inautenticidade sobre o cúmulo das outras que já se tinham consumado na sua vida, porque uma acção falsa se desenvolve noutra. E como tanto ele como a mulher eram economicamente independentes, cada um passaria a dormir no seu quarto, cada um faria a sua vida independente do outro, tudo o que respeitasse ao governo da casa ficaria a cargo dela e, em troca, ela – que tivera esta ideia quando confrontada com o desinteresse dele – só lhe pedia que não saísse de casa.


Ele corre o mundo em serviço de reportagem. Só está em casa o tempo bastante de redigir as suas crónicas. Da vida de casado, entre 1953 e 1962, guardava uma recordação confusa, em consequência de ter passado esses anos em estado de continuada desatenção.
E assim continuaria a viver em família como se vivesse num hotel.
Um inquilino. Um inquilino pode ser uma pessoa desatenta ao que se passa no prédio onde vive. Entra, sai, come, dorme ou trabalha, vive sob o mesmo tecto com pessoas em quem não repara, sabe que existem, mas ignora-as. Era a vida que levava em casa. Suspensão da atenção.


E voltou a pensar no seu projecto de romance. Teria que ser um romance da autenticidade. O rascunho que escrevera pareceu-lhe imprestável, por inautêntico. Rasgou-o. Naquele rascunho havia peripécias, acontecimentos, agia-se, quando na realidade da vida, segundo ele, não era possível agir de maneira autêntica. O que queria era um romance sem intriga, sem história, sem acção dramática.


O que é o contrário da acção dramática?
É o quotidiano, o rame-rame.
    Os dramas na vida de uma pessoa? Oh, muito raramente acontecem. O que mais acontece na vida é o quotidiano, é essa mesma vida a correr sem forma.
Um dia, Merighi recebe uma carta anónima. E resolve passar do seu estado de desatenção ao estado de atenção.


Vem a saber que a mulher, além da loja de modas, era também proprietária de uma casa de pouca permanência, que contratava raparigas muito novinhas para, nessa casa (uma vivenda um pouco retirada do centro da cidade) receberem cavalheiros. E vem a saber que a mulher, durante algum tempo, levara a essa sua casa a própria filha de catorze anos e que a filha estivera nessa casa com vários clientes. É a própria enteada que lho confessa.


O jornalista Francesco Merighi começa a ter pesadelos e numa noite de mau dormir saca da mesa de cabeceira o livro que estava mais à mão. O Rei Édipo, de Sófocles. “Onde encontrar o traço escuso de um delito antigo?”. “Procurando, ele encontra-se, mas se se descura, ele foge.”

                                                                   

O jornalista sente-se na mesma situação de Édipo. A cidade corrompida pela peste era a sua própria família e o responsável por essa corrupção era ele, e sem que, como Édipo, lhe fosse permitido punir-se ou expiar a culpa. Ou por outra… talvez houvesse para ele uma forma de expiação.

Uma breve memória da tragédia de Édipo.


Tebas está a ser devastada pela peste. O povo implora a Édipo, seu rei, que faça alguma coisa. Creonte, cunhado de Édipo acaba de escutar os oráculos. A terra de Tebas está manchada de um delito, de uma culpa que ainda não foi expiada. Enquanto esse crime não for expiado a peste não deixará de matar o povo.
Antes de Édipo tinha reinado em Tebas Laio, casado com Jocasta, actual mulher de Édipo. Laio fora assassinado e Febo (Apolo) exige que sobre os assassinos de Laio urgentemente caia o castigo. “Mas onde descobrir a incerta pegada de um antigo crime?, pergunta Édipo. Creonte replica: “nesta mesma terra; o que se procura obtém-se; só escapa o que se descura.”

                                                       

Todos sabemos a história, que é das mais perturbantes que a Humanidade alguma vez contou a si própria. Laio fora assassinado numa encruzilhada por uns viajantes. Morreram todos os que com ele iam, menos um, que fugiu. Aparece Tirésias, o adivinho. Mas recusa falar. Os factos falariam por si. Instado, profere na cara de Édipo: “o assassino que procuras encontrar, afirmo-to: és tu mesmo”.
E mais lhe atira Tirésias: ele, o rei Édipo, vive infames relações com os que lhe são íntimos e não é clarividente que chegue para compreender a sua própria miséria. “O motivo da tua ruína és tu mesmo”, remata Tirésias. E mais: “saberás tu, Édipo, de quem és filho?”
“O homem que queres encontrar está aqui. Será cego depois de ter visto a luz, será mendigo depois de ter sido rico; há-de mostrar-se irmão e pai dos próprios filhos, filho e marido da mulher que o gerou, herdeiro do leito conjugal e assassino de seu pai.”


Chamada a depor perante o povo, Jocasta esclarece um pouco as coisas. O oráculo predissera a Laio que iria ser morto às mãos do próprio filho. De forma que Jocasta e Laio, para contradizer o oráculo, logo que têm uma criança, entregam-na a alguém, amarrada pelos tornozelos e com o encargo de a fazer desaparecer numa montanha inacessível. Mas esse alguém, apiedando-se da criancinha, entrega-a ao rei de Corinto, Polibo, que a adopta. E quando Édipo, a meio de um banquete, sabe que não é filho natural de Polibo, coberto de vergonha, foge do palácio e põe-se a correr mundo.
Uma vez, na encruzilhada entre Delfos e Dáulia, Édipo matara um velho e mais quase toda a comitiva que o acompanhava.


Édipo treme. Uma tirada de Jocasta dirigida a seu marido, Édipo: “Porque há-de um homem temer se está sujeito à lei do acaso e em nada lhe é possível um entendimento claro? Melhor será viver à deriva, como cada um puder. E não vivas no temor das núpcias com tua mãe. Muitos foram os mortais que em sonhos a sua mãe se uniram.”
E a verdade resplandece pela boca do mensageiro a quem fora confiado o bébé de tornozelos amarrados. Os factos falam. Édipo matou o seu legítimo pai, Laio. Chegou a Tebas. Mostrou discernimento e sabedoria na decifração dos oráculos e o trono de Tebas foi-lhe entregue, e com ele, por mulher, Jocasta, mulher de Laio e sua mãe. “Ai de mim. Tudo se torna claro. Ó luz, seja esta a última vez que te encaro, eu, nascido de quem não devia e assassino daquele que me era proibido assassinar.”
             


Jocasta é encontrada enforcada nos seus aposentos. Édipo crava nos próprios olhos as fivelas de ouro do seu cinturão e sai de Tebas cego, desgraçado, desonrado e sem destino, amparado pelas filhas.

E se a inautenticidade, a falsidade, estivessem instaladas no coração das coisas? E se a realidade fosse estruturalmente irreal e o seu significado mais profundo residisse na irrealidade?
O protagonista do romance de Moravia A Atenção, mantinha um diário para dele extrair um romance sem acontecimentos nem peripécias. Mas repara, logo no primeiro dia de escrita, que o dramático e o excepcional do acontecimento lhe explode entre as mãos. Estivera dez anos sem falar à mulher e à enteada vivendo embora com elas. Ao fim de dez anos, por intermediação quase trágica, quase grega, do deus ex-machina de uma carta anónima, vem a saber que sua mulher tem uma actividade de proxeneta e que prostituira a própria filha de catorze anos.
Inverosímil. Inautêntico. 

                                                                         

Francesco Merighi, o jornalista, vai pessoalmente à casa de passe da mulher e vê com os seus olhos. Era verdade. A sua família estava ferida de corrupção, tanto quanto a cidade de Tebas no reinado de Édipo.
Mas aquele sentido de corrupção familiar não era excepcional. A corrupção na sua família era continuada, fugia a um juizo moral, instilara-se no banal quotidiano, dava vida a esse quotidiano e alimentava-se dele, como se alimentava do fluir da atenção e da desatenção das coisas.
E perante os factos não restava senão uma suspensão dos juizos morais. E essa atitude seria igual à da contemplação inactiva dos factos e da vida. Estivera desatento e falhara na compreensão dos acontecimentos e das pessoas. Deveria estar atento, se queria mesmo atingir o nexo.


Há uma diferença entre a coisa que se imagina  e a coisa realmente acontecida, que é o que transcorre entre a realidade da mentira e o espaço que pertence à verdade, o facto mesmo, directo; sendo a realidade da mentira mediata e indirecta, fora do facto e apenas no significado dele.
A certa altura de uma conversa com o seu chefe de redacção, conta-lhe do seu projecto de romance. A Atenção. O chefe de redacção sustenta que nos tempos de hoje (já ontem: anos 60), por mais que queira, não há ninguém que consiga estar atento. Não se consegue a atenção. Tudo foge.

                                                   

Merighi não consegue abordar frontalmente com a mulher o assunto escaldante da segunda ocupação dela, a casa de meninas, as pobres raparigas, os clientes. Porquê?
Porque pensa: se falasse com toda a franqueza ou a condenava em definitivo, ou se tornaria seu cúmplice. E o romance, que queria liso e sem acontecimentos nem acção dramática, se ele lhe vertesse dentro a realidade pura do seu quotidiano, tornar-se-ia num dramalhão do pior gosto.
Merighi relê Édipo.


A questão de Édipo é uma questão de atenção e desatenção. Édipo passara anos e anos de esquecimento e indiferença, anos e anos entre os cidadãos de Tebas, anos e anos a dormir com a que fora mulher de Laio, no mesmo aposento que Laio habitara, sabendo que tinha na consciência um assassínio violento. Édipo, desatento, levou anos e anos sem querer saber. Sem querer saber que Jocasta, sua mulher, era sua mãe. E nunca falou com ela acerca dos acontecimentos criminosos que lhe haviam levado o marido, nem quis reconhecer na descrição de Jocasta o seu próprio crime. Édipo não quis saber. Édipo não quis praticar a atenção. Édipo quis estar desatento aos seus próprios e íntimos problemas, aos problemas da mulher, aos problemas da cidade. Quis ignorar a realidade. E conseguiu-o. E a irrealidade de uma vida só consegue suportar-se pela desatenção.
E porque estaria Édipo desatento?

                                             

Porque lhe convinha. Amava Jocasta. Um amor incestuoso que dizem mais forte e irrecusável do que um amor normal, tal como acontece com tudo o que é proibido.
E a Édipo convém a desatenção porque também ama o poder.
Francesco Merighi, o jornalista do romance de Moravia, convencia-se de ser ele, como Édipo, o culpado da corrupção da sua família, por ter deixado de amar a mulher e na sequência disso ter destruído nela a vontade de um viver regular em família, desencadeando nela a vocação secreta que já teria em tempos de ocupação alemã e de fome, quando morava no bairro popular onde a conhecera e onde quase todas as raparigas se prostituíam um pouco. Mas a interrogação de Merighi persiste, centrada na razão por que tinha deixado de amar a mulher; ou, antes, na razão por que a tinha chegado a amar.


Porque se ama ou desama uma pessoa? – pergunto eu. Quais, na verdade, os elementos constitutivos do amar?

                                                      

Merighi tem uma explicação com a mulher. Não percebe por que razão aquele amor, que foi autêntico, se esvaiu dentro dele. A mulher sugere-lhe que teria sido por ela ter deixado de lhe dar certa coisa. Que coisa? Ele procurara uma mulher de um certo género, do povo, ela era-o quando se conheceram, e depois deixara de o ser. Deixara de a amar por ela ter deixada de ser a pobretanas que era. Ele procurava então o autêntico, o genuino, o verdadeiro. E julgava tê-lo encontrado nela. Porque entendia que essas características eram mais encontráveis no povo do que na sua classe.
Pergunta da enteada: “que amavas tu nela e na família dela?” A pobreza. Pobreza e verdade deviam ser sinónimos. Mas agora deixara de acreditar nisso.


O homem era o clássico intelectual de esquerda, o primordial idealista pequeno burguês, cheio de sensações de culpa social que se quer socialmente avançado e pronto a fazer opções de classe. E a mulher ensina-o. O povo não é como ele pensava que era. O povo não é mais autêntico do que as outras classes sociais. O povo é como as classes altas e a diferença está no mais ou menos dinheiro. O que lhe interessava na mulher era o ser pobre e, ocasionalmente, até um tanto venal sexualmente. E ele odiava as mulheres da classe dele com tanta intensidade que ela lhe perguntou se ele era comunista. E ele disse que sim, que até estava filiado no partido. O que não era verdade.
Uma ideia do romance: muitas vezes a razão de ser de alguém reside exactamente no não-ser, embora fingindo ser. Cada um de nós pode ser o facto de fingir o que não é.

                                                                           

Merighi descobre que a mulher se não está tuberculosa anda lá perto. E, à semelhança de Édipo, engendra para si uma forma de expiação pela corrupção familiar de que se sente responsável, um equivalente à cegueira voluntária de Édipo.
Tenta convencer a mulher a ir tratar-se num sanatório de montanha, comprometendo-se a deixar de viajar e a fazer-lhe companhia pelos dois ou três anos que durar o tratamento. E consegue chorar só de pensar nisso.
Mas a mulher não aceita. Por outro lado, no fundo da sua alma, o que ele espera é que a mulher sucumba repentinamente de hemoptises. Uma esperança de que um deus ex-machina de teatro grego resolva as coisas e o exima da expiação que voluntária e inautenticamente se propôs. Porque toda a acção o faria cair de novo na inautenticidade.
Era uma ideia falsa que escondia, contudo, em si, alguma coisa de verdadeiro. Fazer companhia à mulher que deixara de amar, num sanatório, e viver o resto da vida com ela – falso. Desejar que a mulher morra depois de ele ter feito a promessa e antes de se ver obrigado a cumpri-la. Verdadeiro.
Repito: e se a inautenticidade, a falsidade, estivessem instaladas no coração das coisas? E se a realidade fosse estruturalmente irreal e o seu significado mais profundo residisse na irrealidade?


Francesco Merighi, o jornalista, está apaixonado pela enteada. É correspondido. Revela que a tal carta anónima lhe viera parar às mãos dez anos antes do que dissera e do que tinha escrito no seu diário. Ignorara-a durante dez anos. Procurara deliberadamente estar desatento. E revela que a mulher lhe mandara a casa por várias vezes várias das raparigas que se prostituíam para ela. A ideia era continuar a manter uma relação com ele, mesmo que por interpostas pessoas. Mais: revela que a mulher, disfarçando a voz, certo dia o convidara a ir a certa casa onde lhe estava reservada uma surpresa agradável. E ele foi. E era a vivenda onde funcionava a casa de passe. E ele entrou, e entrou num dos quartos. E quem o esperava no quarto? A própria enteada, de catorze anos, e pela qual, mesmo sem ter tido nada com ela, se apaixonara.
Talvez não interesse muito saber os complicados pormenores com que Moravia termina o seu romance. Ou o romance dentro do romance - ou ainda melhor: o diário dentro do romance dentro do romance. É uma metáfora para dizer que a escrita de um romance pode ser a única maneira de manter uma relação com a realidade. 

   

O romance pode ser o mediador entre o autor e a realidade. Uma espécie de consciência. E até porque, segundo Moravia, nenhuma relação no mundo real é tão real como a que existe entre o autor e as suas personagens. Nem a relação de amor é tão pura e completa.
E, nem seria preciso dizê-lo: a atenção é muito relativa e flutuante, às vezes - isto digo eu. E às vezes para não nos aborrecermos demais é a nossa própria psique que nos comanda a atenção. E podemos viver a vida por desatenção; podemos amar e casar e desamar e descasar por desatenção; comer e beber por desatenção; ter opiniões e votar por desatenção; falar e calar por desatenção. Até podemos morrer, tal como viver, por desatenção.
A atenção é a mãe da memória. Coisa que nos vem faltando muito a nós, portugueses. E também pode ser, a atenção, uma questão de cidadania, de auto-estima, e até, quem sabe, de competitividade.
Estava o jornalista Francesco Merighi nos Estados Unidos em serviço de reportagem quando lhe chega a notícia da morte da mulher. Não tuberculosa. Por cancro no pulmão.
O deus ex-machina funcionou. A corrupção do quotidiano banal, que compreende até a morte por cancro, cumpriu-se.



Quando eu conto um sonho que tive alguém me pode dizer “não, estás a mentir, tu não sonhaste isso”?

sábado, 12 de julho de 2014


         AUTOBIOGRAFIA DE UM CÍNICO


Pelos meus vinte anos, os críticos diziam que eu era brutal – disse ele. - Aos trinta diziam que eu era irreverente, aos quarenta diziam que era cínico, aos cinquenta diziam-me competente, e agora, aos sessenta dizem que sou superficial. Fiz o que pude para me amoldar ao padrão desejado.


O que é passatempo para os outros é para o artista cruel preocupação – continua ele a dizer. - O artista cria os seus próprios valores. Os homens julgam-no cínico porque não dá importância às virtudes nem se irrita com os vícios. Aquilo a que os homens chamam virtudes e aquilo a que chamam vício não são coisas pelas quais ele se interesse. Os homens comuns têm toda a razão em indignar-se com ele.
Apesar de não serem palavras minhas, até nem vou muito fora delas. E mais estas:
O egoísmo do artista é chocante. O mundo só existe para que ele exerça os seus poderes de criação. Nunca sente as emoções comuns dos homens com seu ser inteiro, visto que tanto é espectador como actor. Isso faz com que pareça não ter coração. As mulheres põem-se em guarda contra ele. São atraídas por ele, mas sentem que não podem dominá-lo completamente como queriam.


E esta pergunta que no tempo menos fútil dos escritores e dos artistas fazia imenso sentido e ocupava os espíritos de muita gente: Que há com o escritor que ele não é um homem… é muitos? E só porque é todos pode criar tantos e a medida da sua grandeza está no número de eus que ele comporta.
William Somerset Maugham. Inglês. Dramaturgo, novelista e contista de ressonância mundial e de imenso sucesso no seu tempo – será que ainda hoje? – devido às suas intrigas magistralmente urdidas e à pintura tanto de paragens exóticas como de uma certa extracção da sociedade inglesa do virar do século XIX.
Pode nunca ter sido muito apreciado pelos críticos ou pelos teóricos da literatura, mas acham que ele se importou assim tanto com isso? Não creio. (E daí talvez.) Era apreciado pelo público. Óptima consolação. Vendia. Era rico. Os críticos, pff…
É mau viver-se com um artista. Ele pode ser sincero na sua emoção criadora, mas dentro dele há outro que é capaz de rir do exercício da emoção. O artista não merece confiança.
Dizia-se, provavelmente com razão, que Somerset Maugham não tinha o que se chamava propriamente de estilo. Não era de facto uma voz narrativa demasiado sonora. E também eu acho que não. Porquê? Porque as suas personagens eram sempre mais interessantes e mais fortes do que a voz que lhes narrava os feitos. Maugham como que se escondia, como que desaparecia por detrás das suas personagens, anulava-se como autor e deus ex-machina, dava a ideia de serem as personagens a escrever as suas histórias enquanto as iam vivendo. E se se pode falar do estilo de Somerset Maugham, convém dizer-se que era de uma concisão árida, seca, amarga. Como ele próprio.
Não tenho uma natural fé nos outros. Sinto-me sempre mais inclinado a esperar dos outros o mal do que o bem.
O sentido de humor é o que nos leva ao divertimento com as discrepâncias da natureza humana; leva-nos a desconfiar das grandes atitudes e a procurar os motivos indignos que essas grandes atitudes ocultam. A beleza, a verdade e a bondade não oferecem grande alimento ao nosso sentido do ridículo.
Maugham era um mestre da short story. Como outros grandes contistas, não tão apreciado no romance longo como no conto, o que não quer dizer que não os tenha escrito, e bons, ou pelo menos célebres, o autobiográfico A Servidão Humana, e um outro, conhecidíssimo, O Fio da Navalha. Há anos caiu-me nas mãos o seu ensaio autobiográfico Exame de Consciência e aqui há pouco tempo tive ocasião de o reler e de lhe apreciar a moral.
Somerset Maugham, na sua longa vida – passou dos 90, tanto quanto me lembro –, frequentou políticos. Não os achou brilhantes. Achou-os intrigantes. Pensou que não era necessário um certo grau de inteligência para governar os povos. Maugham intrigou-se com a mediocridade intelectual e espiritual dos políticos – e melhor para ele não os ter conhecido actuais… e portugueses.


Sempre houve gente ansiosa por conhecer de perto as celebridades. Não tem outro intuito senão o de contar aos amigos que se conheceu de perto A ou B. Mas as celebridades não se mostram. Adoptam uma máscara. É o que mostram ao público e aos curiosos, ocultando a sua verdadeira realidade.
Como seria de esperar de um ficcionista, Maugham interessou-se sempre pelo género humano. Mas nunca por simpatia para com o género humano. Apenas por amor da sua obra. Claro! O Homem não era um fim em si mesmo, era material que lhe poderia servir ou não. E sempre preferiu conhecer os homens obscuros em detrimento dos mais conhecidos. Os obscuros, como nunca estiveram expostos, não viam necessidade de se ocultar. Revelavam algumas das suas originalidades porque nunca lhes passaria pela cabeça que pudessem ser originais. Maugham preferia passar um mês numa ilha deserta com um veterinário do que com um 1º ministro.
Cá está ele em discurso directo: um longo hábito tornou mais cómodo falar de mim por intermédio de personagens da minha invenção. Ninguém pode dizer toda a verdade a respeito de si, e quando sei uma coisa não tenho a mais pequena necessidade de a partilhar com os outros.
E falou abundantemente da pecha que os críticos lhe apontavam. O estilo. O grande estilo, diz, impressiona mais do que o singelo. Muita gente pensou que um estilo que não chamasse as atenções não era estilo.
Uso a palavra “artista” sem atribuir ao que ele produz algum valor especial. Não encontro palavra melhor. Criador?  - Maugham acha “criador” uma designação pretenciosa. Artífice também não lhe chega, porque um carpinteiro é um artífice, e mesmo que em qualquer sentido possa ser um artista não dispõe da liberdade de acção que, como ele diz, o mais incompetente dos escribas possui.
O artista pode fazer o que quiser da sua vida. O médico, o jurista, por exemplo, escolhido o caminho, adeus liberdade, as regras da profissão sujeitam-no e impõem-lhe padrões de conduta.
Só artista e o criminoso podem fazer o que quiserem da sua vida.
E sempre a questão social, a classe, a casta. Maugham, não obstante tudo, é um inglês. E conta-nos que Goethe, em jovem, não podia admitir ser filho de um advogado da classe média. Teria por força de ter sangue azul, de descender de algum aristocrata, algum príncipe passara pela cidade e conhecera e amara sua mãe e era ele o fruto de um rápido romance de amor. Ao que nos pode levar a presunção.
 Maugham comenta: quantos jovens românticos e imaginativos não terão brincado com a ideia de não ser filhos do seu medíocre e respeitável pai?
O grande Goethe? Bem, bem, não seria por escrever grandes  obras que um homem deixaria de ser um homem.
É bom não esperarmos muito dos outros. Se assim fizermos, ficaremos agradecidos se nos tratarem bem e imperturbáveis se nos tratarem mal.
Só pode ser a falta de imaginação o que impede as pessoas de ver as coisas de um ponto de vista que não seja o seu.
Somerset Maugham foi médico antes de ser escritor. Exerceu medicina muito jóvem em Londres, em hospitais de pobres e em ambulatório pelo bairro então miserável de Lambeth. Foram riquíssimas as experiências que colheu na sua clínica e que aqui, naturalmente, não posso referir por mais extenso – leiam o livro. Mas há uma reflexão que acho de uma verdade e de um cinismo tocantes perante o desespero ou a ilusão de um doente condenado. Vi o desafio que faz com que um homem acolha um diagnóstico de morte com um gracejo irónico por ser demasiado orgulhoso para deixar ver o terror da sua alma.


O medo destrói qualquer defesa – Maugham em palavras literais – e até a vaidade se sente enfraquecida pelo medo.


Somerset Maugham, não sei bem porquê, o nome, a obra, o tempo dele, sugerem-me sonoridades pianísticas. Deve ter a ver com um conto que li dele na minha tenríssima juventude e me deu muito que pensar, e que tratava o tema das vocações artísticas, sendo a personagem central um jovem pianista.
Aprendi que os homens eram movidos por um selvagem egoísmo, e que o amor era uma cilada que a natureza nos montava somente para prover à propagação da espécie.
Aquilo a que chamava a histeria do mundo repugnava a Maugham. Detestava ser tocado. Ficava horrorizado se algum amigo enfiava o braço dele no seu. Amara bastante, pelo que diz, mas não tivera aa experiência do beijo do amor correspondido. E por acaso até sabia que isso era das melhores coisas que a vida podia oferecer.
Quando alguém me amava sentia-me confundido. Nunca soube o que fazer com essas situações. E só para não ferir sentimentos alheios representei muitas vezes uma paixão que não sentia.
O mundo dos meus vinte anos era um mundo de meia idade, e a juventude era algo que teria de ser atravessado rapidamente para se poder atingir a idade madura.
Confessava-se incapaz de uma completa rendição. E como não sentira jamais algumas das fundamentais emoções do homem comum achava improvável que pela obra dele passasse aquele toque sereno e animal que só os maiores escritores podem oferecer.
Considerava-se não um escritor natural, mas um escritor feito, construído para um objectivo. Chama como exemplo os cantores, os naturais e os que aprendem bem uma técnica. Analisa o passado e descobre que trabalhara subconscientemente com vista a um fim. E o fim era desenvolver a personalidade e corrigir as deficiências do seu ser natural.


Estava capaz de afirmar que não posso passar uma hora na companhia de uma pessoa que não consiga material para uma história a seu respeito.
O devaneio é o campo de trabalho da imaginação criadora. É um privilégio do artista. E para o artista, tal devaneio não é, como para os outros, um caminho de fuga à realidade, é o caminho pelo qual consegue atingi-la. E é o que lhe dá a certeza da sua própria liberdade.
Maugham estabelece que o valor da cultura – muito importante - é o efeito que possa provocar sobre o carácter. Tem uma utilidade para a vida. O alvo não é a beleza. É a bondade.
Não leio um livro por amor do livro, mas por mim mesmo. Não é meu objectivo julgá-lo mas absorvê-lo.


As pessoas vivas, reais, como campo de trabalho do romancista. Somerset Maugham, com experiência longa e própria no ramo, alarga-se sobre a matéria. Nunca um escritor pode saber o suficiente sobre as suas personagens. As pessoas são difíceis de conhecer. Custa muito tempo levá-las a contar aquele pormenor especial a seu respeito que possa ser útil ao ficcionista. E, pior, acrescenta Maugham, não podemos olhá-las e pô-las de lado como fazemos com os livros. Temos de ler todo o volume, a maior parte das vezes para ficarmos a saber que não tinha muito para nos revelar.
O escritor, na solidão do seu espírito, constrói um mundo que é diferente do dos outros homens. O que faz dele escritor é o que o separa dos outros homens. E temos o paradoxo: seja o objectivo do escritor descrever verdadeiramente os outros, é o seu próprio dom que o impede de os conhecer como realmente são.
An? Como? Não sei se me expliquei bem. Ele que fale: muito bem…como se ele, escritor, quisesse ver urgentemente uma coisa e o acto simples de olhar essa coisa lançasse na frente dele um véu que a encobrisse.


O escritor pode ficar fora da acção em que está envolvido. Como o comediante que nunca se anula de todo no seu papel por ser ao mesmo tempo actor e espectador de si próprio.
Actores? Bom, o romancista, se for honesto, não pode negar uma afinidade com os actores. O carácter deles é, como o seu, uma harmonia implausível. Eles são todas as pessoas que podem representar. O romancista é todas as pessoas que pode criar.


As grandes verdades são demasiado importantes para serem novas. E as boas ideias não crescem nas moitas. Poucas pessoas numa geração podem descobrir novas.
Maugham fala dos ingleses – os ingleses, sejam eles  quem forem, não perdem pitada para falar de si mesmos: o que quer que eles possam ter sido na era isabelina não faz deles uma raça amorosa. O amor dos ingleses é sentimental, mais do que apaixonado. E são suficientemente sexuais para os fins da reprodução da espécie, mas não podem dominar aquele sentimento instintivo de que o acto sexual é repugnante. São mais atreitos a entender o amor como afecto ou benevolência do que como paixão.
Drama é ficção, pensa ele na sua vertente de dramaturgo, não lida com a verdade mas com o efeito. A verdade para o dramaturgo – e eu arriscaria dizer que também para o romancista – não pode passar de verosimilhança.
Outro aforismo  directamente apanhado de Somerset Maugham: os adultos revelam-se consciente ou inconscientemente aos muito jovens como nunca o fazem aos outros adultos. A criança tem consciência do seu ambiente, da casa em que vive, das ruas, da cidade, com uma objectividade que nunca mais torna a conseguir depois que uma multidão de passadas impressões embotou a sua sensibilidade.
Um escritor, terminado um livro, pode publicá-lo, em parte para ganhar a vida, claro, mas também porque não sabe o que é o seu livro antes que ele seja impresso. Só descobrirá os erros pela opinião dos amigos e da crítica.
Grande verdade esta.


Para Maugham, que enriqueceu pelos seus livros, o luxo com que o artista se gosta de rodear é apenas uma diversão. Casa, automóveis, jardins, quadros: brinquedos para lhe distraír a fantasia; sinais do seu poder. Sem contudo poderem penetrar a sua solidão essencial.
Quanto a mim, posso dizer que adquiri as boas coisas que o dinheiro pode comprar, mas poderia sem pena desfazer-me de tudo. Vivemos tempos incertos. Tudo o que temos ainda nos pode ser tomado. Alimentos simples, quarto próprio, os livros da biblioteca pública, pena e papel. Se tivesse apenas isso não lamentaria nada.


Pensa ele que muitos escritores precisam absolutamente do aguilhão da necessidade económica para escrever. Mas não será por isso que se possa dizer que escrevem por dinheiro. Haverá poucas ocupações em que, com tanta habilidade e aplicação, não possam ganhar mais dinheiro do que escrevendo. 
Quando, pela pena, o escritor não pode ganhar dinheiro que chegue deverá ter outro trabalho, sedentário de preferência. Um lugar numa repartição pública. Mas Maugham desvia o tema para a fulcral questão da língua em que o escritor se exprime como primeira condição para ganhar ou não ganhar a vida, e bem, pelo exclusivo trabalho da sua pena. A sorte dele foi escrever em inglês.


O afortunado escritor de língua inglesa poderá viver razoavelmente da pena. Embora Maugham afirme que o cultivo das artes é um pouco desprezado nos países de língua inglesa – mal agradecido, ele sabia lá do que estava a falar, digo eu, devia ter conhecido outros países. Mas enfim, nota ele que para os ingleses escrever ou pintar não seria bem um trabalho de homem. Era preciso força de vontade para, em Inglaterra, exercer uma profissão que expunha um homem a um certo grau de degradação moral. Ao contrário, diz ele, da França ou Alemanha, onde escrever é ocupação deveras honrosa. Muitos escritores resolveram-se pelo jornalismo para acorrer ao problema da subsistência. Achava perigoso.
Há no jornalismo uma impersonalidade que afecta o escritor. Os que escrevem para jornais parece que perdem a faculdade de ver as coisas por si mesmos. Vêem-nas de um ponto de vista geral, nunca com a idiossincrasia que pode dar só uma pintura pessoal dos factos, mas que é colorida pela personalidade do observador
Ouvi contar a alguém – agora falo eu, e falo das coisas daqui – que hoje em dia as “tias” da linha, quando se encontram, já não perguntam uma à outra “o que está a menina a ler?”. Agora perguntam-se “o que está a menina a escrever?”.
É verdade. De repente, não há cão nem gato que não escreva e que não tenha conhecimentos editoriais que lhe permitam publicar qualquer insignificante patacoada que escrevam. Maugham diz a isso: a técnica de escrever não é menos difícil do que a das outras artes, e, mesmo assim, só porque é capaz de ler e escrever uma carta, há quem se julgue capaz de escrever um livro. Escrever parece ser a distracção favorita da raça humana. Há quem corra para a pena como quem corre para a garrafa.


O êxito. Maugham não é da opinião de que o êxito deprave as pessoas, que as torne egoístas e vaidosas e complacentes consigo mesmas. É discutível isto, claro, há para todos os géneros. Mas neste ponto há uma coisa que ele diz e em que lhe dou inteira razão: mais do que o êxito é o fracasso que torna as pessoas amargas e cruéis.
Apesar da sua presunção e vaidade, o autor nunca está livre de dúvidas quando compara a sua obra acabada com o que pretendia que ela fosse.


O artista produz para libertação da sua alma. É da sua natureza criar como é da natureza da água correr vertente abaixo.


A criação artística é uma actividade específica que se satisfaz com o seu próprio exercício.


Sempre lúcido e desassombrado, Maugham refere amargamente o que os editores diziam quanto à vida de um romance. Não ia além dos noventa dias.


E depois conformamo-nos com facto de um livro  em que gastámos, mais do que o nosso ser inteiro, vários meses de ansioso trabalho, possa ser lido em três ou quatro horas e depois esquecido…
Pois é. Tanta conversa sobre escritores e tanta análise inteligente e tanta genialidade de observação e profundidades da alma… para que o resultado do trabalho desses seres seja esquecido e arrumado, ou deitado fora como um pacote imprestável de um produto de cozinha que se consumiu e no qual não se pensa mais.
Termino com uma última amarga e cínica asserção de Somerset Maugham na primeira pessoa: não tenho ilusões acerca da minha posição literária. Só dois críticos importantes do meu próprio país se deram ao trabalho de me tomar a sério, e quando os jovens esclarecidos escrevem sobre ficção contemporânea também não se dão ao trabalho de me tomar a sério. Não me sinto com isso.