quinta-feira, 7 de agosto de 2014


        O CAOS DO NOSSO PASSADO



Os judeus, pois, sempre eles na corda bamba da História.


Não existiram campos de extermínio pelo gás em território alemão? Sei lá. Mas o próprio Simon Wiesenthal, notório caçador de nazis do pós-guerra, terá escrito em revista ou jornal, não sei bem, chamado Stars and Stripes, edição de 24 de Janeiro de 1993, que o gazeamento de judeus apenas teria acontecido na Polónia.


Holocausto. Negacionismo. Revisionismo. A História. Há modos vários de chamar à tendência de certos historiadores contemporâneos no desvalorizar ou no minimizar aquilo que o mundo depois de 45 considerou o martírio e o genocídio dos judeus às mãos de Hitler, o Holocausto, os muitos milhões de judeus exterminados nas câmaras de gás de vários campos de concentração. E historiadores desses há-os de extrema direita, e há-os de extrema esquerda, o que não deixa de ser intrigante.
Um tal Paul Rassinier era comunista em 1923, era esquerdista nos anos 30, era socialista em 34, era preso pela Gestapo em 43, deportado para Buchenwald, torturado. Regressa do campo inválido. Concorre às eleições francesas de 46. Perde. Escreve um livro em 1950. Nega a existência de câmaras de gás. É expulso do Partido Socialista francês, recebe apoio da extrema direita e de várias personalidades anti-semitas. Torna-se ferozmente anti-comunista. Dizem ser ele o primeiro negacionista no que toca ao Holocausto. Paul Rassinier.

                                                                                                   

Quem serão os negacionistas? Como será a sua estrutura mental? Leio que se distinguem por uma estranha mestiçagem político-ideológica, pacifistas, anti-semitas, anti-comunistas… e anti várias outras coisas, seguramente, e seguramente a favor de outras tantas que eu não sei quais são…


Há quem diga que são estalinistas e que para melhor esbranquiçar os crimes de Staline lhes convém por igual absolver o nazismo. Ou o contrário: para porem em melhor destaque histórico os goulags estalinistas convir-lhes-à branquear o nazismo, pôr o nazismo a salvo dos horrores que Stalin terá cometido – incluindo com judeus.
Mas não se deve poder negar a evidência de uma esquerda anti judaica (ou anti-sionista) e pró-palestina. Já a havia nos primeiros tempos do século que agora é passado.


Enfim, é o nosso presente que constrói o nosso passado, não tenhamos ilusões. Por isso é que não há presente. O nosso momento presente escoa-se a reflectir o passado, que é o único tempo que realmente existe, revisto, revisitado, reformulado, falsificado, reavaliado. E até porque foi no passado que germinou e começou a definir-se o nosso presente. A cada segundo do presente que passa, formando o passado e reconstruíndo o mesmo passado que o formou, há uma estória reescrita. A grande História reescreve-se pela experiência incerta e sufocante do tempo.


No caso do Holocausto, como noutros, estamos frente a frente com o passado. E o passado é um caos. Um caos arbitrário formado por uma multitude de acontecimentos. Não é conveniente enfrentar um caos sem uma consciência prévia dele, sem uma razão, sem uma hipótese, sem uma teoria.
Uma certa História só pode ter sido formalmente feita por certo tipo de homens. Por exemplo, nos tempos presentes, e sendo a circunstância das Forças Armadas portuguesas aquela que hoje é, nunca seria possível desencadearem-se  factos que agregados, contraditórios e aleatórios, formaram o corpo acontecimental que designamos por 25 de Abril.
Mas quem pode julgar moral e historicamente, num dado tempo e circunstâncias,  os homens que fizeram os factos dessa História noutro tempo e noutra circunstância? (Agora de repente lembrei-me da descolonização, a nossa, mas não é por aí que vou.)
Será que a História pode entender o homem que a faz? Ou, dizendo de outra maneira: será que a historiografia tem os meios de compreender a História que escreve?


Bom, acontecimento histórico quase se pode dizer que é o que acontece ao pensamento do historiador, no pensamento do historiador.
Ah, sim? E as fotografias e os filmes feitos depois da libertação nos campos de concentração alemães a mostrar as pilhas de cadáveres? São falsas?
Bem. Pois até que podem ser. Não seria difícil. Mas também pilhas de cadáveres não quer dizer que tivessem sido gazeados. Havia nos campos alemães muita epidemia e muita fome com que matar muita gente sem ser preciso gás.
Atacar a veracidade do Holocausto custará hoje tanto sofrimento moral aos hebreus como se estivessem eles a ser fisicamente atacados de novo. A memória do Holocausto é uma simbólica sagrada para os judeus e os anti-semitas de hoje bem o sabem.


Edgar Morin diz-nos que o pensamento, enquanto pensamento, não desempenhou na História um papel por aí além - Aristóteles não influenciou Alexandre com o seu pensamento, a não ser para caucionar certos factos consumados. Mas não é possível negar o papel que o pensamento, sem contudo a controlar, desempenha na História.


Fotografias. Filmes. Testemunhos. Provas, em suma. Os revisionistas dizem não haver prova alguma do facto histórico do Holocausto. Há testemunhos. Individuais. Contraditórios. Quantos dizem ter visto realmente um gazeamento?
Documentos? Não os há. Ou não nos chegaram. Estatísticas.  O mesmo. Nada prova documentalmente – dizem – os abat jours feitos de pele humana. Nada prova a realidade de fornos crematórios preparados para calcinar milhões de corpos. Há testemunhos. Individuais. Contraditórios.
Neste particular do facto passado há sempre os que, eu diria instintivamente, desconfiam de todos os testemunhos que possam negar versões da verdade tornadas oficiais e que governos e partidos nos possam dar dos factos históricos. Assim como os há de posição contrária: tudo o que é versão oficial lhes cheira imediatamente a arranjo ou pura falsificação dos factos. Uns como outros praticam razoavelmente a ingenuidade. Talvez. Mas talvez mais uns do que outros. Quais? Se eu soubesse… se eu soubesse não estava aqui…


Depois da guerra havia milhões e milhões de judeus ainda vivos na Europa. E nisso acredita-se com facilidade. Mas outras centenas de milhar morreram efectivamente durante a guerra por variadíssimas causas. Muitos fugiram da Europa logo a seguir à guerra. Muitos emigraram. Para a América. Para a Palestina. Para tanto lado.


Poderia um extermínio maciço ser mantido secreto mesmo dos que sabiam que iam morrer? Dificilmente. Os gazeamentos que eventualmente houve também não foram em massa. E, pronto, aqui está o centro da querela: o extermínio judeu pode ter sido uma gigantesca manobra de propaganda. E, vejamos, a verdade é que os judeus por esse mundo fora, pelo seu poder financeiro sempre controlaram os meios de comunicação à escala mundial, jornais, revistas, rádio, televisão, cinema… é inegável…
Que aconteceu realmente no caos do nosso passado?
Nenhum acontecimento se destaca por si só  de outros acontecimentos – dizem os teóricos da História. Cada acontecimento é mais um, entre outros. A valorização dele não pode acontecer sem a existência de um sujeito valorizador.
Ah, mas os negacionistas conseguiram notas telefónicas de Himmler de 30 de Novembro de 41. Usam-nas como prova. Prova de quê?  Claro: de que não havia em curso nenhuma eliminação de judeus.
Transporte judeu partindo de Berlim sem liquidação - rezaria a sobredita nota de Himmler. Que significa? Como interpretará um historiador estas palavras? Que Himmler não queria que os judeus - ou pelo menos esses desse carregamento de Berlim - fossem liquidados?


Ah, mas parece existirem provas de que o conteúdo desse carregamento foi mesmo liquidado…
E se o Himmler não queria liquidação naquele caso, é porque havia mesmo liquidação.
Lutei contra os judeus de olhos abertos, à vista do mundo inteiro, e ficou claro que essa praga parasita da Europa seria finalmente exterminada – disse Hitler.
E não era propriamente uma crueldade, no pensamento de Hitler, exterminar os judeus. Se até criaturas inocentes da natureza, como lebres e veados, quando estão infectadas precisam de ser mortas para não contaminar as outras, porque é que as bestas que nos queriam trazer o bolchevismo deveriam ser poupadas? – continua Hitler a perguntar. Na volta, o grande problema para ele não eram os judeus, era o bolchevismo que os judeus poderiam querer implantar - e até porque, como é sabido, Karl Marx, Trotzki, Rosa Luxemburg eram judeus…


A História é uma escolha de acontecimentos. Não passa disso. E pior ainda: uma escolha preconcebida. 
                                                                                                   
                                                                                                       
E provas de que as câmaras de gás de Auschwitz, por hipótese, foram utilizadas para matar gente?
Os primeiros a entrar em Auschwitz na hora da vitória parece que foram os russos. E Auschwitz terá sido modificada a seguir à guerra. Terá sido construída uma sala suficientemente grande para parecer uma câmara de gás – custa um bocado a acreditar, não? Fred Leuchter, o maior especialista em design e construção de câmaras de gás (americano, por sinal) efectuou – terá efectuado - um cuidadoso exame em Auschwitz à tal sala, e a outras, e considerou absurdo dizer-se que o compartimento pudesse ter sido utilizado para execuções.
Auschwitz seria um centro de internamento e um complexo de manufacturas diversas onde se produziam variadas coisas, entre elas combustíveis sintéticos. Os presos internados em Auschwitz eram força de trabalho escravo, isso sim – e não é nada pouco.


Alguém daí terá lido – ou visto, no estrangeiro – uma peça de teatro que fez enorme furor pela Europa nos anos 50, ou 60, se não erro, de um senhor chamado Rolf Hochuht e intitulada O Vigário? Se leu, ou viu, na época, tomou pela primeira vez conhecimento de uma coisa chamada Ziklon B. O que era? Era um gás. Cianídrico. Um pesticida muito usado na Europa de então. Venenoso, claro. E alegadamente  utilizado para as execuções por gás em Auschwitz.


Mas seria o Ziklon B o gás ideal para o efeito? Dizem-me que não. Que era tão somente um pesticida. E que foi parar a Auschwitz para fumigar roupas e matar pulgas e piolhos, que era o que mais havia nos alojamentos dos prisioneiros, e daí as pestes e a mortandade devida ao tifo que os piolhos transmitem. Para matar gente havia gazes muito mais poderosos.
Serão precisas 20 horas para arejar uma casa depois de fumigada com Ziklon B.


Mas se o comandante do campo de Auschwitz disse que os seus soldados entravam nas câmaras de gás para ir buscar os corpos 10 minutos depois da acção de morte… ui!, impossível: se os soldados lá entrassem 10 minutos depois levavam o mesmíssimo tratamento dos gazeados. E o comandante até disse que os soldados fumavam o seu cigarrito enquanto tiravam os corpos das câmaras de gás… ui!, falso: o Ziklon B é altamente explosivo.
Mas se os historiadores do Holocausto afirmaram que era possível cremar corpos em cerca de 10 minutos… ui!, não pode: um corpo leva coisa de hora e meia a ser incinerado, e descontando os ossos maiores, que precisam de um tratamento à parte.


Então vamos lá a ver… suponhamos um ciclo generalizado de serviço de gazeamento em todos os campos alemães… sim… muito bem, qual seria o máximo de corpos possíveis de cremar se todos os campos estivessem em funcionamento ao mesmo tempo? 430.600, grosso modo. E agora pergunta-se outra coisa: quantas toneladas de cinza iriam produzir 6 milhões de corpos carbonizados? Muitas toneladas. Tantas que seria inconcebível na Alemanha um depósito de cinzas tão grande…
Então como se explica que, se Auschwitz não era um campo de morte, o comandante tenha confessado que era?
Foi torturado pela polícia militar inglesa – dizem os revisionistas da História. Admissível, mas…
O Daily Express londrino, na sua edição de 24 de Março de 1933 anunciava em manchete: A Judeia declara guerra à Alemanha.


Que significa a travessia do Rubicão por César no ano de 49 antes de Cristo? Sim, quantas pessoas, aos milhares, não atravessaram esse riozito que me dizem ser o Rubicão sem que isso constituísse facto histórico, e o facto de ter sido César a fazê-lo tornou a travessia histórica - e atenção!, histórica não por ter sido feita por um imperador romano? Questão de contexto, tão somente. Questão de relação desse facto com outros. Concretamente, a travessia de César está relacionada com a queda do Império e com a iminência de uma nova ordem histórica mundial. Aí está.


O facto histórico tem relações com uma totalidade e é visto e interpretado desta maneira ou daquela segundo um dado sistema de referências – e de interesses - de quem o interpreta e no tempo em que o interpreta.
Um facto pode ser bruto. Sim, bruto como as casas. Ou pode ser resultado de uma intervenção teórica. Um facto bruto é, por exemplo, eu estar aqui chateado que nem um perú a escrever estas patacoadas às 11 horas da manhã do dia 7 de Agosto de 2014. Facto bruto. Brutíssimo. Mas será histórico? Espero que não…
Até aqui há uns anos seria histórico falar nas propriedades e particularidades do gás Ziklon B? Que teoria sustentará o facto de serem trazidas à baila as características do matador de piolhos chamado Ziklon B?
O que é que individualiza os acontecimentos? A sua diferença de pormenor? O que eles são em si mesmo? Pergunto.


E não se queira desencantar nas minhas palavras alguma inclinação para um lado ou para o outro do problema da verdade ou da mentira do Holocausto. Não sei. Não vi. Não estava lá. Como poderia eu saber? E então, claro que sou da sua opinião e da contrária, se for preciso. Como dizia o outro. Porque não tenho nenhuma verdade nem nenhuma fé sobre estes casos e nem um lado nem o outro da verdade me surpreenderia assim tanto. Não sei. Não vi. Não estava lá. Pergunto-me tudo isso a mim próprio. E se para uns o Holocausto é matéria indiscutível, e nem eu tinha o  direito de estar para aqui a falar nisso, para outros ele não existiu e ponto final, e para um terceiro grupo ainda, quiçá senhor de uma sensibilidade democrática mais aguda, ainda a dúvida lhe permanece no espírito e até acha muito bem que eu esteja aqui a falar nisso…


O que é um facto - ainda por cima histórico? O que é um acontecimento? Será que as coisas acontecem mesmo? Será que os factos nunca acontecem e são uma operação da nossa imaginação e do nosso ideal?
O que os individualiza – aos acontecimentos -  é o acto simples de… acontecerem. Acontecerem neste momento e não naquele ou no outro. Paul Veyne, o famoso professor, diz que a História não se repetirá nunca, mesmo que lhe aconteça repetir a mesma coisa.
          
                                                                                    

O cão que é atropelado neste dia não é aquele que foi atropelado na véspera. E só porque hoje não é a véspera.
O ouvinte quer coisa mais subjectiva do que a História? A historicidade é subjectiva. O historiador diz-se que tem o direito de escolher o itinerário para descrever um campo de acontecimentos, porque o curso dos acontecimentos não avança nunca por uma linha direita e perfeita.
A visita de uma delegação oficial da Cruz Vermelha Internacional a Auschwitz, em Setembro de 1944, relatou que os prisioneiros internados podiam receber pacotes. Quanto aos rumores que iam aparecendo na imprensa internacional acerca de câmaras de extermínio pelo gás, segundo o mesmo relatório… não puderam ser verificados…


Quem leu ou viu a peça de teatro que atrás mencionei, O Vigário, talvez se lembre de que o centro do drama estava na posição que o papa Pio XII e o Vaticano tomavam ou não, já não só relativamente ao nazismo, mas mais em concreto em relação às câmaras de gás e ao extermínio dos judeus…
Dizem os mais duvidosos que a existirem evidências de campos de extermínio o Vaticano estaria em condições de o saber, e se o Vaticano ficou silencioso… é porque não havia campo de extermínio algum na Alemanha hitleriana… e isto pode ser uma descarada falácia, e para o autor da tal peça de teatro, Rolf Hochuht, o Vaticano e o papa conheciam de ginjeira o que se passava na Alemanha, mas ficavam calados e assobiavam para  lado.
Vá-se lá agora saber…


O que é um facto?
O acontecimento é o que se destaca de um fundo de uniformidade e é impossível de conhecer a priori.
Qual o real balanço do Holocausto?
6 milhões? 4 milhões? 2 milhões?
O grande número é de judeus que morreram de causas naturais ou que foram mortos?


Poderiam aqueles chuveiros ter sido usados como câmaras de gás?
Terá Hitler dado uma ordem formalizada para a solução final? Ou não?
Sim? Então onde está essa ordem?, perguntam os sacanas dos negacionistas.


Perguntas talvez de interesse relativo e mais especulativo do que outra coisa. Para mim é pouco importante. Nem que fosse só um. Basta-me saber que houve seres humanos que foram discriminados, assinalados, perseguidos, amontoados como porcos, transportados como gado, expostos a epidemias fatais, obrigados a trabalho escravo, obrigados a ser cobaias de experiências médicas, assassinados a tiro, à facada, à fome, à peste ou à pancada, para que a minha consciência moral se revolte, seja qual for o número deles e sejam eles judeus, comunistas, ciganos ou homossexuais.
Holocausto. Mas quantos morreram afinal de contas?
Os negacionistas estimam de 300.000 a 500.000. Uma diferença de 5 milhões e 700 mil relativamente à versão oficial.
E se alguns sobreviventes afirmam ter visto corpos atirados para fossas e queimados com gasolina, os revisionistas alegam que a falta de combustível na Alemanha desse tempo seria razão bastante para tal não ter acontecido tanto assim. Além de ser pouco provável que corpos humanos possam ser incinerados dessa maneira em fossas devido à questão do oxigénio.


Para ter a dignidade de ser histórico, um facto deve preencher um requisito único: ter acontecido mesmo. É do amigo Banana. Cada facto está revestido de uma espessa margem de não-acontecido e esse não-acontecimento ficará sempre implícito ao facto.
O facto é aquilo que o fazemos ser e quando parte dos factos históricos que sabemos são vulgata escolar, são sempre a menor parte do que poderíamos saber.


Porque os meios teóricos  de determinação do facto já constituem o próprio facto.
Ou será que o historiador  tem sempre de enunciar as verdades primeiras? Responde Paul Veyne: As verdades primeiras têm uma tendência vergonhosa para se substituírem às verdades verdadeiras. Se ignorarmos que as nossas concepções do céu, das cores e do lucro, justificadas ou não, não são eternas, não teremos a ideia de interrogar os documentos sobre estes assuntos, ou melhor: não perceberemos mesmo nada do que eles dizem. 

                         

Bem, mas, vamos lá a ver, se os números e as circunstâncias do Holocausto estão desajustados, são exagerados, foram sendo manobrados e manipulados para cima com o correr do tempo, podemos perguntar: a quem pode ter aproveitado essa manobra e essa manipulação? E a resposta dos revisionistas da História à pergunta afigura-se por demais óbvia: beneficia os próprios judeus, vitimiza-os, confere-lhes autoridade moral, política e fundamentalmente histórica para os colocar acima de toda a objurgatória, sequer de toda a crítica. São mártires.

  

Outros acrescentam que a propaganda do Holocausto ajuda à unicidade entre os judeus e os seus líderes; ajuda nas campanhas de angariação de fundos judaicos.
E agora a parte um pouco mais enxovalhada disto: a propaganda do Holocausto terá sido determinante nas quantidades fabulosas de dólares com que a Alemanha, pagando milhões e milhões a Israel e aos sobreviventes, reparou a sua maldade histórica; também terá servido de legitimação para a ajuda norte-americana ao estado de Israel quando usado como argumento de pressão política pelo lobby sionista, forçando o apoio do EUA à causa israelita no conflito no Médio Oriente, o que dá como resultado que o contribuinte americano contribua para Israel com biliões de dólares por ano. 
                                       
                                                          

Mas também, dizem, beneficiou os comunistas pela manobra de diversão que constituiu das atrocidades dos campos de concentração soviéticos de antes, durante e depois da II Guerra Mundial.
Escreveu o inevitável Ortega Y Gasset que há muitos anos atrás o pensador entendia que o conhecimento do mundo e da verdade não passava por nenhum outro caminho que o da ciência física e que nem outra verdade indiscutível seria cientificamente admissível para além da verdade física. Hoje, diz Ortega, já se duvida que a verdade não possa comportar outros tipos para além do físico. Há verdades não exclusivamente físicas.


Cito textualmente: Que seria o que chamamos de conhecimento exemplar, protótipo de verdade, se satisfizéssemos com precisão o sentido que leva em si a palavra conhecer?
Somente quando sabemos – prossegue Ortega y Gasset – o que é, na sua significação completa, conhecimento, poderemos ver se os que o Homem possui levam ou não essa significação, ou meramente se aproximam dela.

                                                                                               


E ainda uma citação de Lucien Febvre: Reúnem-se os factos. Para isso vai-se aos arquivos, sótãos dos factos. Basta baixarmo-nos para os recolher. Cestos cheios. Poisam-se em cima da mesa. Faz-se o que fazem as crianças quando brincam com cubos e trabalham para reconstruir a bela imagem que baralhámos para elas. O jogo está acabado, a história está feita. O que é que se quer mais? Nada. Senão saber porquê. Porquê fazer História? E portanto, o que é a História?


quarta-feira, 30 de julho de 2014

                   CULTURA - PAIXÃO DE ESTADO,
              OU PROBLEMA MEU?

       José II, imperador austríaco, oferecia uma festa na corte. O conde de Rosenberg organizara uma representação com as óperas O Empresário, de Mozart e o Prima la Música e Poi le Parole, de Salieri.


        E agora podemos “ver” o imperador nos seus aposentos. Está ao espelho a acabar de se arranjar. O conde veio ler-lhe a lista dos artistas contratados, mencionando de caminho o cachet que o seu critério atribuíra ao merecimento de cada um deles. O conde de Rosenberg termina a leitura. Fica calado. Espera. Silêncio incomodativo. O imperador pede-lhe o papel que ele acabara de ler, toma a pena e acrescenta um zero a cada uma das gratificações propostas por Rosenberg. E diz assim: meu caro conde, esta festa é dada pelo imperador e não pelo conde de Rosenberg.

                                 


        Política de cultura em democracia? Em liberdade – isto é, em mercado? Só para não falarmos, ou falarmos menos, dos equívocos aspectos arqueológicos da política de cultura quando ela era cerzida na propaganda dos regimes autoritário-ditatoriais, os anos 20, 30, 40, dos lunatcharkis, dos jdanovs, dos goebbels, dos antónios ferro – política do espírito, ah, que vaporoso…


        Só se estamos hoje, em democracia, liberdade e mercado perante os mesmos problemas de política cultural, as mesmas vontades, a mesma paixão, o mesmo espírito que urge politizar – ou politificar. Estaremos? E essa vontade, e essa paixão serão do mesmo teor? Será ainda a cultura e respectiva política uma paixão de Estado ou só um problema meu, quer dizer, nosso?
        Poder-se-á dizer que política de cultura, ou cultura de propaganda, é algo que faz cada vez menos falta aos governos, ao sistema democrático-parlamentar, aos mercados. A democracia propagandeia-se, promove-se e vende-se por si mesma – quanto mais não seja por não haver, dizem, alternativa a ela.
Uma política de cultura pode ter servido à maravilha como propaganda de um partido da grande esquerda ou da mais imponente direita quando esse partido chegou ao poder por via revolucionária, e não quando, em democracia, a propaganda é feita a montante do poder, na manobra eleitoral que conduz ao poder.
  Em democracia representativa a política de cultura não vai confundida com propaganda de regime. Nem pode ser estratagema para o maior lustro institucional de um príncipe.
        O escritor Bruce Chatwin é que teve uma conversa com o ministro dos ministros da cultura de todos os tempos do Ocidente, André Malraux, e dessa conversa ficou-lhe a sensação de que um ministério de cultura estranhamente lhe cheirava a qualquer coisa de totalitário.
     

        É que isto da cultura, assim visto em grandes termos, pode dividir-se em dois (ou mais) ramos: as formas e modelos artísticos que o Estado institui, induzindo o meu gosto estético, ou impondo-me a estética dos funcionários ou das cliques imiscuídas na política de cultura; a cultura vista e apreciada pela subjectiva lente de cada um de nós, eu, tu, aquele, gente comum, na nossa relação pequena ou grande, boa ou má, com a arte e as coisas do espírito – uma relação mais de prazer pessoal do que de obrigatoriedade intelectual ou moda. 
        Ou uma política de cultura que não servirá para outra coisa de nobre para além de conceder a cada um o direito à pluralidade das escolhas, dos prazeres espirituais e por essa escolha formar o seu próprio gosto, com o Estado a obrigar-se a possibilitar a cada cidadão o cultivo desse gosto uma vez formado.
        Chata e complicada esta coisa da cultura, não? Também acho. E pelos vistos inútil…
        Mas o que acabo de escrever pode ser um problema do Estado como pode vir a ser um problema meu, homem comum pagador de impostos. Problema do Estado e dilema do Estado, do governo, se eles, Estado e governo, na sua paixão cultural entenderem que a melhor política de cultura é investir nos modos e nas formas estéticas com que o cidadão mais rápida e facilmente se identifique.
        Pois é, acho que a cultura é mesmo problema meu, homem da rua. E que por ser também problema meu caberá ao Estado mitigar-me a premência desse problema, desse urgente desejo estético. Quero ter ópera barata – o Estado terá que ma servir de bandeja e produzida ao melhor nível. 
   Quero ouvir música electrónica até me tornar um tipo psicótico – compete ao Estado encomendá-la aos especialistas, e pagá-la, pois então, para eu a ouvir bem instalado no meu desassossego.   Quero mais edições baratas das obras de… Alexandre Herculano… bom, aí já mete comércio e complexas redes de interesses privados, direitos, concorrências, preços. O Estado recuará. Ou avançará. É conforme.
          Mas não, afinal o que eu quero é mais estátuas nos jardins da droga – o Estado tem que as encomendar e pagar e velar pela protecção delas contra o vandalismo.
        Será que compete ao Estado incentivar e proteger as artes que estão moribundas e que não despertaram capazmente a vivíssima gula dos comerciantes? Será que compete ao Estado fazer com que as coisas culturais existam, e até incentivar as artes que não me interessam para que eu hoje ou amanhã possa vir a interessar-me? 
          Será que compete ao Estado dar fogo a artes ou formas ou estéticas de que eu não sei se gosto porque não tive contacto com elas e por isso o Estado deveria pôr-me em contacto com elas para eu saber se gosto ou não gosto?
         Eu sei lá.
      Neste momento preciso da História da vida humana, momento globalizado e selvaticamente (des)capitalizado, perguntar-se-á que importância têm de facto estas coisas bizantinas, as artes, as letras, coisas que para pouco servem, a menos que dêem bom dinheiro a ganhar a alguém.
        E porque é que o bom Estado liberal e mercantilista há-de ter a obrigação histórica de pagar e gerir artes e letras que não servem para nada? Nada de lucrativo, bem entendido – ou imediatamente, ou altamente lucrativo. Ao menos os concertos de rock sempre dão bom dinheiro a ganhar aos empresários e promotores, e por isso não precisam do Estado para coisíssima nenhuma - pelo menos aparentemente. Ao contrário da ópera, do bailado, do teatro dito sério, do cinema de arte, dos museus, da música sinfónica… pois é, coisas que parece não interessam já a ninguém e que, se ainda interessam a alguém, foi porque o Estado, numa qualquer viragem da História das vidas lhes deu vida.



        O Estado tem (terá?) a vocação, ou mesmo a obrigação de pagar as actividades culturais de interesse histórico, tradicional, mesmo que nas presentes encruzilhadas da História, da cultura e das tradições tais actividades tenham deixado de interessar à grande maioria do público e por isso já não sirvam para nada? Ou será que no tempo que passa quanto mais o Estado nas coisas intervém menos essas coisas existem – ou servem?
        Aduzirão alguns que a categoria filosófica Estado sempre foi cultural. E que o Estado, fosse qual fosse o cariz e o espírito que tivesse ao correr das épocas (principesco, absolutista, totalitário, democrático), foi o muito estimável patrão das artes. Tempos que já lá vão, claro. Os Medici, os Sforza, os Gonzaga, os Visconti aplicavam a sua munificência individual de príncipes e sobrepunham-se aos considerandos da comunidade, para a qual, aliás, se estavam bem nas tintas, porque era o lustro deles próprios que comemoravam em competição com outros príncipes.


        Parecendo que não, e por insignificantes que pareçam, estas coisas da cultura trazem os seus problemas.


E por falar em príncipes munificentes, há a dizer que a igreja de Roma não se deixou ficar na competição cultural principesca. Leão X, aliás Giovanni Lorenzo de Medici, o último papa que não foi padre, estoirou com as finanças vaticanas por não estar habituado a passar mal culturalmente na sua abastada Florença natal. Vai daí, elevado ao trono de Pedro, e como um Medici da melhor cepa (filho do grande Lorenzo de Medici), achou por bem rodear-se do bom, do melhor e do mais caro que em poetas, músicos, actores, cantores, pintores e escultores havia pelas itálias, e por causa disso arranjou um trinta e um de alto lá com ele. Com os cofres à míngua e com a Igreja falida, a ver se ganhava algum, Leão X inventou as bulas papais que limpavam as almas mais branco do que o TIDE. Vendeu então a salvação das almas a alto preço e lá foi equilibrando a contabilidade. Mas o diabo, como sempre nestas coisas que metem religião e cultura, estava à espreita. Com a venda das bulas Leão X irritou o obscuro frade alemão Martinho Lutero e deu fogo à peça da Reforma que deixaria a Europa a ferro e fogo por mais de um século. E tudo por causa de uma paixão de Estado, quer dizer, de príncipe, pela cultura.


Bem, mas também a criação artística é, ou pode ser, a manifestação do resto de religiosidade (profana embora, mas não interessa) ainda possível de desencantar na alma de um homem, um último alento de divindade recebido pelo Homem do supremo criador de tudo, Deus. Sabe-se lá se o bom Leão X não pensou assim…
No léxico artístico-cultural não são poucas as fórmulas sacrais. E se, para Marx, a religião não passava de um ópio para os povos, que dizer das virtualidades da arte nesse campo opiáceo? Malraux até comparava as casas de cultura por ele acabadinhas de inaugurar a modernas catedrais. Ou talvez que o ministério adstrito aos assuntos culturais assuma, quem sabe, veleidades de actividade pastoral, magistério sagrado, gestão das almas, múnus salvífico, e tendo em vista a actual e profunda crise da fé – digo, da paixão.


Poderá a cultura, como queria Nietzsche, assumir o encargo de domesticar a besta humana?
Ou será destino da arte e da cultura em geral problematizar a vida humana para lá do evidente, inquietar a tranquilidade amorfa da espécie, desvelar o Homem a si próprio, revelar-lhe a natureza verdadeira daquilo que lhe empana a felicidade, discutir, criticar-lhe as instituições, desmascarar-lhe os reis nús?
Por agora, fico-me mais pela segunda hipótese. Que por sinal explica alguma coisa sobre o sinal que os tempos actuais nos dão.
O porquê de um desinvestimento dos estados na cultura?                                                                       O porquê de ser cada vez mais difícil podermos ver estreado nos cinemas um daqueles grandes filmes que já não se fazem, não só porque ficam caros para os critérios culturais de agora, mas também, et pour cause, porque já não vão aparecendo os grandes artistas para os fazerem?
O porquê de não se verem jeitos de aparecer o grande romance que fosse para o séc. XXI o que A Montanha Mágica, A Náusea, O Som e a Fúria, O Estrangeiro, o Quarteto de Alexandria, o Por Quem Os Sinos Dobram, O Grande Gatsby, A Condição Humana ou os Cem Anos de Solidão foram para o séc. XXI?
O porquê de não se vislumbrarem as guernicas do séc. XXI?
O porquê de não estarem a aparecer no séc. XXI os poemas que se equiparassem em profundidade e importância civilizacional a Os Cantos Pisanos, a Residencia en la Tierra ou The Waste Land (por exemplo); ou as peças teatrais que dessem sequência ao Rei Ubu, À Espera de Godot, ao Círculo de Giz Caucasiano, ao Soulier de Satin, à Morte de Um Caixeiro Viajante, à Longa Jornada para a Noite, a Um Eléctrico Chamado Desejo, à Visita da Velha Senhora (por exemplo)?
O porquê de não aparecerem na grande música do séc. XXI os émulos da transcendência musical do séc. XX, a Noite Transfigurada, a Sinfonia dos Mil, Wozzeck, a Sagração da Primavera?
O porquê de as iniciativas e formas culturais estarem obrigados, se quiserem ver a luz do dia, a oferecer às maiorias acéfalas e infantilizadas, antes de mais e de tudo, divertimento e mais divertimento?
O porquê…
A magna questão está no pensar. Pensar ou não pensar. A conveniência e a inconveniência de pensar. Quem pode pensar e quem não pode pensar. Para quem é útil pensar e para quem é perigoso pensar.
Para que o dinheiro triunfe em toda a linha como valor civilizacional máximo e pensamento único será bom evitarem-se pensamentos outros, e plurais.


Nos momentos trágicos que vivemos o alvo é o Homem. Há que destruí-lo na sua inteireza espírito/matéria. Há que reconstrui-lo sob um primado único e material.

É obrigatório que as massas deixem de pensar. O Homem não pode tornar a interrogar-se como o fez no pós-II Guerra ou nos idos de 60, em pleno Vietnam, em cheiro de guerra fria. É obrigatório infantilizar a cidadania, reduzi-la ao acto de consumir, e de se endividar para melhor cultuar o dinheiro e consumir mais e mais; de se endividar para cair no incumprimento e na pobreza por forma a que o preço do trabalho diminua até à insignificância, e que a alienação aumente até à indiferença.


Não pensar. Não afinar a sensibilidade. Não cultivar o espírito – na contrapartida de cultivar até ao grotesco o corpo. Porque o homem que pensa levanta inevitavelmente problemas e não mais que problemas. O homem que pensa pergunta. E não resolve os problemas nem obtém as respostas às perguntas que faz. E se obtém respostas é garantido que elas não agradam à sua condição de homem e de cidadão. O dinheiro não tem boas respostas para os que persistem em conservar esses estatutos – de homem e de cidadão.


E o homem sem respostas às perguntas que faz ao mundo e à vida pode revoltar-se. O homem que procura o conhecimento incomoda o dinheiro, porque já de si o conhecimento dá respostas incómodas. E o homem que obtém algum conhecimento aspira sempre a novo conhecimento. E o homem que conhece pode indignar-se. E o homem que conhece pode revoltar-se. E as consequências da acção de um homem revoltado são imprevisíveis e ameaçam a sacro-santidade de toda a ordem dos equilíbrios.


Pois são muitos, variegados e desvairados os problemas colocados pelo que se vulgarizou sob o genérico nome de cultura. E quem coloca as questões são os que lêem (ou leram) os grandes livros e os grandes poemas, viram os grandes filmes e o grande teatro doutros tempos, ouviram a grande música, contemplaram os grandes quadros. São esses os que ainda colocam no ar as interrogações incómodas para o equilíbrio das taxas de juro, dos movimentos da Bolsa, do mundo laboral, interrogações incómodas, em suma, para a dominação total dos sistemas partidário e bancário – às vezes, a brincar a brincar, as coisas andam ligadas...
Investir na cultura é doravante risco elevado para as novas idades do ouro. Não é paixão que chegue ao sensível coração dos estados. É somente problema meu.
Os estados e os governos dependem em periclitância dos tais equilíbrios da finança e do intocável bem-estar dos investidores. Exactamente os que criam a estabilidade/instabilidade do emprego/desemprego; os que criam a estabilidade/instabilidade das maiorias governantes, alimentando os partidos e conduzindo-os ciclicamente à vitória/derrota eleitoral; os que criam, enfim, a realidade para que eu a viva na ilusão de que ainda me resta a cultura.


O outro é que a dizia bem: quando ouço falar de cultura puxo logo pela pistola.
Cultura como paixão de Estado autocrático a que se pode dar o nome alternativo de propaganda ideológica. Cultura como paixão do Estado demo-liberal a que se pode dar o nome de inércia (Dona Inércia, lá está!) ou indiferença, que é quando ela, cultura, passa a ser um problema exclusivamente meu.
É isso, pessoal. Pensamento único. Divertimento e imbecilização – até o futebol já foi, de longe, mais sério e respeitável do que é hoje. Alta rotatividade dos capitais. Racionalização de custos. Liberdade de escolha entre desemprego absoluto e fome absoluta, ou sub-emprego, salário de miséria e fome relativa. E cara alegre.
Sim, cultura é isto. Não sei se hoje é só isto, mas que também é isto, ai isso é.

                            

          

domingo, 27 de julho de 2014

     HONRA E GLÓRIA AOS MAIS ALTOS
                  VALORES PORTUGUESES DO SÉC. XXI

Era tudo mentira? Era. E era tudo verdade? Era. Que Deus abençoe o Dr. Ricardo Espírito Santo Salgado. 

                                                                            

Porque, afinal de contas, quase tudo funcionava no país em ligação directa ou indirecta aos interesses do BES, ou do GES. E sabe-se disso porquê? Por intermédio da detenção do Dr. Ricardo Salgado. E sabe-se, ou passará a saber-se, disso, porque pode ser que se comecem a destapar as fossas do BES e do GES, e da finança nacional, e do sistema de financiamento partidário, e da realidade das empresas e dos bancos, e pode ser que venha a ser possível desmascarar aos olhos do vulgo muita gente e muita coisa que passava por ser verdade. E era. Mas também era mentira.


Mas ai!, a verdade portuguesa é demagógica e populista. Só a mentira é elegante e correcta. Por isso podem as duas conviver saudavelmente no país. Pode ser que seja essa a maior desgraça nacional. Sim, desgraça. Nós é que não percebemos. Porque não podíamos perceber os escaninhos ocultos onde se tecem as verdades e as mentiras para consumo do vulgo pagante de impostos. E porque também não queríamos perceber e nos refastelávamos na comodidade da mentira e da verdade e quem viesse atrás que fechasse a porta.

                                                                                  

E como poderíamos nós perceber onde estava a verdade e onde corria a mentira se, devido ao génio do Dr. Ricardo Salgado, e de outros seus pares, nos deixámos intoxicar de probabilidades de consumo e sumptuária, e como crianças insensatas e mal criadas corremos atrás da música e dos fardamentos novos do crédito fácil que nos abria essa probabilidade desenfreada de consumo?


Não, não queríamos perceber. Portugal é um criador de cidadãos que preferem não perceber, e quando ao vulgo pagante de impostos deixou de interessar saber onde está a verdade e onde mora a mentira das suas instituições desde que alguém finja pagar-lhe os consumos e a sumptuária e o deixe fazer figuras de rico.
Como poderemos querer saber da verdade e da mentira se nós somos a mentira e a verdade engalanadas?
Honra e glória aos mais altos valores nacionais e ao Dr. Ricardo Salgado.

                                                                              

Era tudo mentira. E é tudo verdade. É pelos destinos do dinheiro que se percebe muita coisa, incluindo a mentira e a verdade. Tudo (ou quase) funcionava em função dos interesses do BES e/ou do GES e aos poucos talvez se destapem os esgotos da vida nacional, a maldição da dívida pública e privada, a peste do crédito mal parado, a infâmia dos deputados da nação (alguns empregados do BES ou do GES), unânimes em aumentar o próprio salário enquanto cortam no salário de quem os elegeu; o festim das autarquias; as guerrilhas da banca; a tragi-comédia do governo, do presidente e da oposição; a farsa do sistema de financiamento dos partidos (questão central da mentira portuguesa); as aparência da liberdade e da democracia; o espectro constitucional; a nebulosa da Troika; o ilusionismo do crescimento económico; o fantasma da transparência; as vergonhas do emprego/desemprego/sub-emprego; o venalismo da comunicação social. E até o mito fundacional destas coisas todas, o 25 de Abril. 
   Era tudo mentira. E é tudo verdade.
O Dr. Ricardo Salgado prestará decerto inestimáveis serviços ao país quando clarificar – quanto mais não seja provisória e parcelarmente – estes quarenta anos de vida chamada democrática. Pode ser que ele queira explicar algumas coisas – algumas coisas, bem entendido, que as autoridades queiram que seja explicado.


Era tudo mentira. E é tudo verdade.
Honra e glória, repito, aos mais altos valores nacionais do séc. XXI: a corrupção, o compadrio, o nepotismo, o roubo, a vigarice, a legal trapaça, a violência doméstica, o abuso generalizado – da autoridade às finanças, da confiança ao sexo.

                                                                           

E honra e glória ao Dr. Ricardo Salgado que tanto trabalhou para enaltecer e perpetuar esses valores.



E não foi ele o único, longe disso. Foi só o principal. O herói da finança. O magnífico. Por isso mesmo é que a nossa desgraça é grandiosa. Tão grandiosa como esses valores cimeiros da nossa consciência e da nossa nacionalidade para o séc. XXI.