sábado, 23 de agosto de 2014


                              SINATRA & FRIENDS



Escrevi aqui há dias da história da cabeça do cavalo, mas não contei tudo a respeito das ligações de Frank Sinatra aos amigalhaços da Mafia.
Vem ao caso, claro que vem, a Mafia e os mafiosos-modelo que inspiraram tantos neste nosso soalheiro Portugal…
              
                                                                           

E então, digamos que a primeira decisão do produtor da Paramount Robert Evans e do seu jovem realizador europeu pouco menos que desconhecido chamado Roman Polanksy para o projecto de filme Rosemary’s Baby – em português A Semente do Diabo – foi contratarem para o primeiro papel feminino uma rapariga decerto inexperiente como actriz, mas acabadinha de casar com Frank Sinatra, chamada Mia Farrow.


Para conseguir de Mia Farrow a expressão que queria, Polansky chegava a fazê-la repetir um plano 30 ou mais vezes, o que deixava a moça estafada.


Um dia, terminada a sessão, um representante do marido de Mia Farrow apresenta-se a um dos chefes de produção da Paramount e recomenda-lhe que ordene a Polansky que se contente com dois ou três takes de cada plano, em lugar da brutalidade dos 30. Era bom que as coisas se passassem como queria o marido de Miss Farrow. E se tal não acontecesse esse chefe de produção da Paramount arriscar-se-ia a passar uns tempos num hospital com as pernas partidas.

                                                                            

Por sinal, nos anos 70, com relações de proximidade à entourage do presidente Nixon, diz-se que Frank Sinatra influenciou o Departamento de Justiça no sentido de deixar de utilizar oficialmente os termos “Mafia” ou “Cosa Nostra”, é é então que começa a organizar grandes festas de caridade a favor dos mafiosos presos.


Havia de certo modo um lado moral nas ligações de Sinatra aos gangsters, porque os via revestidos de alguma legitimidade. Era amigo tanto de poderosos e notáveis deste mundo quanto de assassinos e vigaristas. Entendia que a Mafia não era a peste que diziam ser e caucionava-a por intermédio da sua celebridade artística.


Claro que, à semelhança de George Raft, Sinatra gostaria de ter sido chefe mafioso. O colega Bing Crosby assim pensava. E não pensava mal. O próprio Sinatra teria confirmado a outro colega, Eddie Fisher, que teria preferido ser um padrinho da Mafia a presidente dos EUA. Mary Sinatra, a mãe, já tivera ligações mafiosas, sim. Mas um dia fora espancada à matraca. Não me perguntem porquê. Só sei que foi durante uma operação de desembarque de álcool de contrabando.
Como Sinatra prezava os fracos e oprimidos, eis por que muda um dia de ideologia política - chamemos-lhe assim –, deixa o pessoal de Nixon e volta-se para o Partido Democrático. (Aliás, por onde já andara, tanto quanto me lembro nos tempos de Kennedy.) Para Sinatra, a Mafia tomava o partido dos humildes, dos que mal tinham direito à justiça oficial - justiça oficial que, de resto, Sinatra detestava. E também apreciava muito a particularidade de a Mafia desprezar as convenções sociais.

                                                                                       

Indo aos princípios, diga-se que para finais dos anos 40, Lucky Luciano destacou um dos seus homens mais novos, chamado Fischetti, para se ocupar da carreira de Sinatra. No entanto, e a dar-se o caso de o desenvolvimento da carreira de Sinatra precisar de um empurrão mais para o duro, havia de reserva Sam Giancana, padrinho de Chicago, antigo soldado de Capone, provavelmente um dos falsos polícias que naquele dia 14 de fevereiro de 1929, de S. Valentino, entrou a matar na garagem que era o cóio habitual do gang de Moran, rival de Capone.


Havia até de parte, nos cofres mafiosos, um fundo de 60.000 dólares, reunido através de quotizações, para ajudar a carreira de Sinatra - isto dito pelo próprio Lucky Luciano pouco antes de entregar a alma ao Criador. E como curiosidade, seja também dito que o avô de Frank Sinatra habitara a mesma aldeia onde nascera Lucky Luciano.

                                                                                

A divida de Sinatra ao gangsterismo era impagável – tanto a material como a moral, evidentemente. Mas engane-se quem pense que foi Sinatra o único a ver a sua carreira avançar graças à Mafia. Que dizer dos Irmãos Marx? Que dizer de Cary Grant, de Clark Gable, de Gary Cooper? E de Ronald Reagan e de Ed Sullivan. E de um certo Dino Crocetti, do Ohio, mais conhecido por Dean Martin…


E sabe-se lá de quem mais. As actrizes, por sinal, em termos de ajuda à carreira, não eram muito do agrado dos homens da Mafia. Engraçado. E significativo. Consideravam-nas de uma maneira geral esplêndidas idiotas…
Era o famoso Johnny Rosselli que em Hollywood fazia de talent scout, marcando aqueles que no show business revelavam um talento fora de série. Rosselli assinalava esse talento, comunicava-o ao boss Giancana. Este, se dava o agrément, encarregava o mesmo Rosselli de propor o nome do artista a um dos estúdios, sugerindo um contrato.

                                                          

        Sim, senhoras e senhores, à Mafia devem-se prestimosos serviços à arte dramática e musical. A Mafia também foi agência artística, também por lá havia gente com sensibilidade e gosto. Mas com certeza que havia um  preço a pagar.
A gente ajuda-os um pouco na carreira, e pronto, eles pertencem-nos - chegou a dizer o mafioso-mor dessa época, Sam Giancana.
A Mafia interessava-se por um artista, abria-lhe as portas, mas fazia-lhe muito seriamente ver que se um dia a organização precisasse de um serviço dele, ele nem podia pestanejar. E quanto mais o artista se celebrizava mais o débito dele crescia nos livros da Mafia.
“Director de programas de divertimento”: fórmula usada para designar aqueles que no mundo do espectáculo trabalhavam para a Mafia.
Um dia, o tal jovem mafioso Fischetti que tratava da carreira de Frankie telefona-lhe e diz:
- Sabes, agora estou à testa do night club do Fontainebleau Hotel, de Miami, e um dia destes vou até Cuba, queres vir daí comigo?


Estava-se em 1947. E Fischetti tinha-se esquecido de comunicar a Frankie que nessa mesma data, em Havana, iria realizar-se um encontro do mais alto nível de mafiosos, e que esse encontro seria também ocasião para uma homenagem a Lucky Luciano que por lá andava de férias – ou, dito de outra maneira, que para lá estava exilado.
No processo de 1981 sobre as actividades mafiosas, a correr por iniciativa do Gaming Control Board, de Nevada, Sinatra presta declarações: a sua ida a Havana em 1947 não se destinara a nada mais do que a apanhar um bocado de sol.
É que, pouco antes de apanhar o avião para Havana em Fevereiro de 1947, Sinatra fora cantar a um casino da Florida, propriedade do mafioso judeu Meyer Lansky, e pernoitara na mansão de Lucky Luciano em Allison Island, junto a Miami Beach. O que ele não sabia era que andava a ser espiado por agentes do FBI.


Sinatra era um dos que levava uma mala de grande porte. Segundo os bófias, cada uma dessas malas conteria à volta de 6 milhões de dólares em notas. Interrogado a respeito da mala, Sinatra diz que era a sua mala das tintas e dos pincéis, dado que tinha como hobby a pintura a óleo. Aldrabice. Nancy, uma das mulheres dele, viria a declarar que ele só se começara a interessar pela pintura lá muito para o fim desse ano de 1947.
                                                                   
                                                                                                    

Apesar de as proteger, Sam Giancana, o grande patrão de Chicago, era de opinião que as estrelas de cinema só serviam para uma coisa de realmente útil à sociedade: transportar malas de dinheiro de um lado para o outro, e porque toda a gente ficava especada a olhar para a estrela, ali, em carne e osso, e a pedir-lhe autógrafos, e ninguém lhe reparava na bagagem. É Jerry Lewis que em 2003 virá a declarar que Sinatra fazia muito esse trabalho de transportar dinheiro. Um dia ainda foi detido. Levava na mala 3,5 milhões de dólares em notas de 50.

Voltando a Havana, a Mafia mandara reservar no Hotel Nacional, 37 suites. Tratava-se de um acto de vassalagem de todos os chefes mafiosos ao capo di tutti capi, Luciano: lá estavam Accardo, Anastasia, Frank Costello, Santo Traficante, Vito Genovese, Lucchese, Carlos Marcello. Também vinha um actor de 2º ordem, embora então muito popular, Bruce Cabot. 

Este encontro de mafiosos inspirará a segunda jornada da saga de O Padrinho, quando Michael Corleone vai a Havana visitar um gangster exilado, de nome Hyman Roth.


                                                                           

Foi nessa reunião de Havana de 1947 que Lucky Luciano assinou a sentença de morte do gangster cujo calibre era tal que vigarizara a própria Mafia em nada menos de que 600.000 dólares, Bugsy Siegel, pouco depois assassinado com tiros nos olhos.



Calhou que a secção de narcóticos do FBI tinha dois informadores no Hotel Nacional de Havana, um groom e um assistente de quartos. Ambos tomavam boa nota das idas e vindas deste e daquele à suite do 7º andar, que era a de Luciano. E havia fotos. E já se deixa ver que entre este e aquele que ia e vinha ao beija-mão estava o nosso artista, cara conhecida, imediatamente referenciado pelo FBI. Embora não fosse propriamente Sinatra o que mais interessava ao FBI.
Foi numa época em que no FBI havia quem não acreditasse na realidade palpável do crime organizado – ou tão bem organizado. E o primeiro a dizer que o crime organizado não existia, ou existia mas pouco organizado, é o chefe máximo do mesmo FBI, J. Edgar Hoover.
E porque dizia ele uma enormidade dessas?
Porque nem ele escapara à alçada da Mafia. Porque a Mafia o ameaçara? Sim. De quê? De morte? Não. Pior do que isso. Ameaçara revelar-lhe a homossexualidade.


Foi preciso que 58 mafiosos fossem presos em Nova York, dez anos depois, para Hoover admitir que se enganara. Quer dizer, enganar-se não se enganou ele…
Em Havana, Sinatra alinhou para todo o lado de braço dado com Lucky Luciano, no casino, nas corridas de cavalos, às refeições, nas noitadas com raparigas.

  

Sinatra era uma figura pública. A imprensa entendia que lhe ficava mal alinhar com tipos daqueles, ele, de cujas canções a juventude ficava suspensa. Era uma questão de moral para quem (segundo alguma imprensa dizia) deveria ser um agente da educação dos jovens americanos.

                                                                        

Não é preciso dizer que Frank Sinatra passou a vida a negar ter voluntariamente frequentado gangsters de alto coturno. Vem a dizer que só encontrou Luciano duas vezes durante a estadia cubana. E que só lhe dirigiu a palavra por uma questão de boa educação. Que quando apertava a mão a uma pessoa não lhe passava pela cabeça pôr-se a investigar o passado dessa pessoa.
Em 1962, em Nápoles, na casa de Lucky Luciano, a polícia encontrará uma cigarreira de ouro com as seguintes palavras gravadas: ao meu camarada Lucky, do seu amigo Frank Sinatra – pois foi, a pepineira das fotografias que se tiravam naqueles encontros de mafiosos foi por muito tempo o calcanhar de Aquiles de Sinatra.
Também anos depois, em 1978, numa audiência preliminar na comissão do Senado para o controlo do jogo ilegal, há exibição de fotos, e Sinatra aparece aos abraços e aos beijos a Carlo Gambino (patriarca da família Gambino), Paul Castellano, Jimmy Fratiano. Sinatra alega não conhecer as pessoas que aparecem nas fotos. Jimmy Fratiano, ouvido pela comissão, declara que sim senhor, conhece Frank Sinatra desde os anos 50. Sinatra recalcitra: são os encontros normais da vida artística. Não sabe nada do passado das pessoas que lhe pedem para tirar fotografias com ele.


Certo dia sai no New York Mirror uma crónica cultural em que um crítico de cinema chamado Mortimer lhe chama Frank (Lucky) Sinatra. Sinatra procurou o tal Mortimer, aplicou-lhe um murro e teve de lhe pagar 9.000 dólares de indemnização. Mais tarde, esse Mortimer morre de ataque cardíaco. Diz o actor Brad Dexter, amigo de Sinatra, que este se deslocou propositadamente ao cemitério onde fora enterrado o jornalista Mortimer para lhe urinar sobre a sepultura.
Em 63, Sinatra quis vender à Warner a quase falida empresa de produção de discos que tinha – em 61 zangara-se com a editora e resolvera fundar uma etiqueta própria. Na negociação com Jack Warner, Sinatra é muito claro. Aquele negócio não tem nada a ver com os seus amigos de Chicago: ele não quer de maneira nenhuma ter mais alguma coisa a ver com a Mafia.
Jack Warner pede-lhe para deixar de se dar com Giancana; pede-lhe para vender as partes que lhe tocam nos hoteis Cal Neva Lodge, de Nevada e no Sands de Las Vegas. Satisfeitas estas condições, a Warner comprava-lhe a falida casa de discos por 2 milhões de dólares, comprometendo-se SInatra a entrar com 500.000 dele e comprar 1/3 do capital da nova sociedade a criar, a chamar-se Warner Reprise. O milhão e meio que resta é para ele. E como contrapeso teria ainda o direito de ser considerado “assistente especial de Mr. Jack Warner”. 


Os advogados de Sinatra arranjam maneira de o cantor ficar ainda mais rico daí a cinco anos quando uma sociedade de parkings e de agências funerárias relacionada com a Mafia comprar a Warner Brothers.
Em suma, Sinatra afastava-se do grande amigo Giancana. Giancana fica para morrer. Que raio de mafioso de coração de açúcar era ele que se deixava trair por todos, os Kennedy, naquela história das campanhas eleitorais, como veremos brevemente, e agora o grande amigo que ele tanto estimava?
Nesse ano de 1963, Sam Giancana toma a decisão de que nunca quisera ouvir falar: eliminar Frank Sinatra. Sinatra até já devia estar  morto. Só não estava porque a Mafia da costa leste o impedira.  
  

Calha bem hoje, e porque também era um dos friends perigosos de Sinatra, determo-nos um bocadinho sobre esta personalidade, que acaba por ser fabulosa, de Johnny Rosseli.
      
                                                                                          

Já vimos como ele, de motorista de Al Capone, passa a delegado em Los Angeles e Hollywood do crime de Chicago, e como ele era homem para todo o serviço que fosse preciso nas amenas paragens da Califórnia. Mas o homem acaba por transcender esse papel de factotum da Mafia na indústria do cinema e aparece envolvido em negócios secretos da mais alta política. E sabe-se disso quando em Junho de 75, Rosselli é presente ao U.S.Senate Commitee para os assuntos de espionagem, presidido pelo senador Frank Church.
O comité do Senado quer ouvir as histórias maravilhosas que Rosselli tem para contar a respeito das ligações da CIA à operação Mongoose, qualquer coisa como mais um atentado contra Fidel Castro, um empreendimento conjunto entre a CIA e a Mafia.

                                                                                    

Por volta de Setembro de 1960, os directores da CIA Richard Bissell e Allen Dulles negociaram com algumas notórias figuras mafiosas, Giancana e Rosselli entre elas. Objectivo? Assassinar Castro. 

                                            
                                                 

A Rosselli são então entregues, no princípio de 61, umas pílulas envenenadas para deitar no leitinho de Fidel Castro logo pela manhã e mais 10.000 dólares. Rosselli passa as pastilhas a um tipo afro-cubano ruivo, chamado Rafael Macho Gener. Com todas as recomendações.
Mas a Rosselli e à Mafia tanto fazia que Castro fosse assassinado ou não. A ideia mestra deles era associar a Mafia ao governo americano nesse assassínio de um líder estrangeiro, e com vista, já se percebe, a aumentar à mesma Mafia a margem de manobra , de negociação e de chantagem quando fosse preciso.


A  chantagem ocorreria , provavelmente, daí a pouco tempo, quando fosse o caso de assassinar não Fidel Castro, mas o próprio presidente Kennedy. Chantageada pela Mafia, a CIA encobriria todas as acções nesse sentido.
E todos sabemos como Castro – pelo menos aparentemente, e talvez não por muito tempo – ainda está vivo, e que o presidente Kennedy já está morto.


 Portanto, se as tentativas para assassinar Castro - que foram muitas – falharam, as tentativas contra Kennedy resultaram em cheio. Mas só à terceira. 


Realmente, este rapaz Frankie Sinatra, apesar dos amigos e de tão más companhias, cantava lindamente. E é isso que fica da memória dele antes de qualquer outra coisa. De qualquer outra coisa de tipo moral. Como acontece com muitos artistas. 



        Mas descansem que esta conversa ainda não acaba aqui.





























sexta-feira, 22 de agosto de 2014

              OS FINANCIAMENTOS DE CAVACO

Ricardo Salgado doou (à campanha presidencial de Cavaco Silva) o valor máximo permitido por lei – 22.482 euros -, e o mesmo fizeram António Ricciardi e José Manuel Fernando Espírito Santo. A estes juntaram-se donativos de outros membros do ‘núcleo duro’ da família, como José Maria Ricciardi, presidente do BESI, que financiou a campanha de Cavaco Silva com 15 mil euros.
Banqueiros como João Rendeiro, Horácio Roque e Paulo Teixeira Pinto também contribuíram para o financiamento da campanha cavaquista, com 22.482, 20 mil e 5 mil euros, respetivamente. E outros, diz o DN, deram dinheiro às duas campanhas – de Cavaco e de Soares. Foram os casos dos banqueiros Jardim Gonçalves e José Oliveira e Costa, então presidente do BPN.
José Guilherme, o construtor envolvido no processo Monte Branco, também deu importantes contributos à campanha do atual Presidente. No total, o construtor da Amadora e a sua família doaram àquela campanha 55 mil euros, sendo que do bolso direto de José Guilherme saíram precisamente 20 mil euros. No nome da sua mulher foram doados, precisamente no mesmo dia, outros 20 mil. E cerca de 10 dias depois foi a vez dos dois filhos do casal, José e Paulo, doarem cada um a generosa quantia de 15 mil euros.
Grandes empresários de vários ramos também tiveram um papel significativo nesta matéria. Américo Amorim, João Pereira Coutinho, Dionísio Pestana, António Mota (Mota-Engil), Manuel Fino (SDC Investimentos), Manuel Violas (Solverde) ou Nuno Vasconcelos (Ongoing) foram alguns nomes que fizeram da campanha de Cavaco a mais financiada por empresários naquele ano - 2006.

 
               
                                                                                                    


                                                       

     E então os queridos estavam à espera de que ele pugnasse pelos mais desfavorecidos da sociedade, que atentasse às injustiças, que velasse pelos fracos e oprimidos do grande capital, que deitasse mão aos desequilíbrios sociais, que fizesse alguma coisa para minorar o desemprego, que cumprisse e fizesse cumprir a Constituição da República…
   Só não sei como ainda há gente tão ingénua – ou tão não sei quê, estupida, será? – que ainda vai votar, e, votando, legitimar – quase sacralizar – este e outros dos negociantes e mercenários de uma ideia que originalmente era para ser muito nobre, isso, que se chamava política.

   Só não sei como ainda há gente que toma os "padrinhos", quer dizer, os espíritos, os ricciardis, os motas, os amorins, os rendeiros por parvos que oferecem milhões a um contabilista saloio e ex-informador da polícia política, que social, cultural e politicamente não tem onde cair morto, para ele gastar à barbalonga e sem contrapartidas rigorosas de servidão a interesses privados...


terça-feira, 19 de agosto de 2014


   POR DETRÁS DE O PADRINHO


Por detrás de O Padrinho, estiveram, em considerável e negativa escala, as associações de ítalo-americanos.

                                                           

Os italo-americanos tinham (e ainda devem ter) bastante poder institucional e influência política na América, e encaravam com preocupação todo o produto mediático que os conotasse com o mundo do crime. Quando estava no ar a série televisiva Os Incorruptíveis, 1959, série cujo tema era exactamente a Chicago do tempo de Capone e da Lei Seca, e a luta das autoridades contra a Mafia, houve pressões sobre a cadeia ABC que transmitia a série. Sam Giancana, o então chefe máximo da Cosa Nostra, homem pouco dado a meiguices, pensou mesmo em mandar assassinar, nem menos, Desi Arnaz, o produtor.


A Mafia visou também o patrocinador da série, a tabaqueira Liggett & Myers (os cigarros L&M). Não era nada, mas poderiam vir a ter aborrecimentos se continuassem a patrocinar Os Incorruptíveis.
Os sindicatos de estivadores, desde sempre controlados pela Mafia, declararam para as primeiras impressões a sua recusa em carregar ou descarregar mercadoria destinada ou proveniente da L & M em todos os portos americanos e canadianos, e assim até ao dia em que a L & M deixasse de patrocinar a série que tão mal vistos deixava os italo-americanos.
E pronto, a L & M comunica a cessação do seu patrocínio a Os Incorruptíveis.
Uma Liga Italo-Americana dos Direitos Civis fora recentemente fundada pelo célebre mafioso Joe Colombo. Em 1970. E fundada foi ela para protestar contra os estereótipos. Porquê sempre os italo-americanos como os maus de todas as fitas? Será rigorosamente verdade que só os italo-americanos tenham cometido crimes neste país?

                                                                                    

O chefe da família Colombo abespinhava-se: 
- Não sou nenhum anjinho, mas também não posso ser tudo aquilo que as pessoas para aí dizem de mim. Que eu tenho instrumentos de tortura na cave, que sou um assassino, que sou o maior de todos os usurários. Por quem nos tomaram? E a que ponto pensam poder enganar o povo a nosso respeito? 
A Mafia era coisa que nem existia – sustentava Colombo. A Mafia era uma calúnia racista alimentada pelo FBI em nome do establishment
Organizaram uma manifestação defronte da sede novaiorquina do FBI, e, para grande surpresa geral, o FBI aceitou as reivindicações da liga dos ítalo-americanos: os títulos “Mafia” e “Cosa Nostra” deixariam de figurar nas notas de imprensa do FBI.


E a liga dos ítalo-americanos volta-se então contra o projecto de O Padrinho.

                                                      

Há um comício no Madison Square Garden, Frank Sinatra não podia lá faltar. Foi reunida uma quantia destinada a fazer abortar o projecto de O Padrinho. 600.000 dólares. Mais uma carta enviada à Paramount. Porque não produzir filmes sobre grandes italianos, Garibaldi, Marconi?
Entretanto, veladas ameaças de morte a Robert Evans, o produtor executivo. O projecto devia ser abandonado, em nome do… do bom nome dos ítalo-americanos. Telefonemas ao mesmo Evans. Se tu não desapareceres desta cidade, quem vai pagar é o teu filho; sabias que quando se quer acabar com alguém se aponta logo à cabeça?
          O verdadeiro produtor do filme era Al Ruddy. Que também teve a sua conta de ameaças de morte – alguém chegou mesmo a disparar para a janela do carro da secretária dele. Al Ruddy entendia que a Mafia não faria mal algum a quem trabalhasse no filme. O que queriam era boicotar a rodagem a um ponto que a tornasse impossível, e nesse contexto ergueram-se problemas com os sindicatos, ameaças de greve, além de se esperarem sabotagens.


            Ruddy resolve ir falar pessoalmente com o poderoso Joe Colombo.
Encontraram-se a 25 de Fevereiro de 1971, no Park Sheraton Hotel de Nova York.
Ao chegar à entrada do hotel, Al Ruddy fica para morrer. Largas centenas de membros da liga italo-americana estão a fazer uma manifestação. É então que ele começa a perceber qualquer coisa: que o projecto fosse para a frente e que o filme se fizesse, enfim, a liga até nem iria fora disso; o que a liga queria fundamentalmente era que no filme houvesse papéis para alguns dos seus membros e que outros fossem empregados como técnicos ou figurantes. Compreendendo rapidamente o sentido das coisas, Ruddy sai da limousine, encara de frente os manifestantes e começa a apontar uns e outros, como que prometendo-lhes entrar no filme. Ruddy é então aclamado.
Al Ruddy fala com Joe Colombo, um verdadeiro padrinho sobre O Padrinho. Cedências. Concessões. A Paramount está disposta a algumas concessões se a liga não continuar a dificultar o projecto.
Promessa: no filme falar-se—á de cinco famílias; nada de mafias nem de cosas nostras; nada de expressões italianas; uma ante-estreia garantida a favor de um hospital ou obra de caridade a indicar pela liga.
Estavam de acordo.
Depois da reunião com o produtor, o padrinho Joe Colombo reuniu com os seus homens e atirou a pergunta para o ar: será que se pode confiar naquele tipo? O estado maior da família Colombo achou que sim.
Al Ruddy diria por seu turno preferir negociar com Joe Colombo em vez de certa gente de Hollywood. E Mario Puzo bem afirmara que o mundo do cinema era o mais corrupto que conhecia. E como ele era jogador inveterado, tinha acrescentada autoridade quando dizia que, apesar de tudo, moralmente, Las Vegas era preferível a Hollywwod.  
Pior foi quando a liga publicou um comunicado, anunciando que a honra dos italo-americanos estava salva.
O Wall Street Journal sai logo à estacada proclamando que a Paramount cedera à Mafia de Joe Colombo.
As acções da Gulf & Western (esteio financeiro da Paramount) descem vertiginosamente. Al Ruddy tem que dizer à imprensa que o seu papel não é velar pelo preço das acções mas fazer realizar o filme.
E Bludhorn, o presidente da Paramount, não faz mais nada: despede Al Ruddy.


E Coppola não faz mais nada: ameaça desligar-se do projecto se Ruddy não for readmitido.
A liga faz outra manifestação. Ruddy recebe os membros mais proeminentes e diz-lhes estar atento aos preconceitos e ao sectarismo, quanto mais não seja por ele próprio ser judeu.
Um senador, John Marchi, escreve a Al Ruddy: abdicar face à liga será um insulto aos milhões de americanos de origem italiana leais ao país. 


Aparentemente, o senhor deixou-se convencer pelas absurdas teorias da liga quando ela julga poder exorcisar os demónios só por banir os nomes “mafia” e “cosa nostra” da língua inglesa. Fique sabendo, Mr. Ruddy, que a Mafia existe, e existe muito, e se o senhor se deixou convencer, penso que o conjunto da comunidade italo-americana se sentirá defraudada.
O New York Times entra em cena a favor do senador Marchi.
A maioria dos italo-americanos não pretendem deixar-se iludir pensando que a Mafia não existe só para conservarem o seu amor-próprio e o seu estatuto na sociedade americana. Se o simples facto de mencionar os nomes “mafia” e “cosa nostra” põe a comunidade italo-americana em perigo, eles sentirão que os estamos a insultar.
Os realizadores contactados pela Paramount andaram à volta da trintena. John Frankenheimer, Sidney Furie, Lewis Gilbert entre eles. Mas todos eles, politicamente correctíssimos, recusaram a ideia de cantar loas à Mafia.                                                                                              
                                                   

Sam Peckinpah ainda pensa no assunto, ainda pesa a oportunidade que a história lhe trazia para mais um dos seus ensaios formais sobre a violência…  mas o vice da Paramount lança logo para cima da mesa -  algo timidamente - outro nome: Francis Ford Coppola. Só para dar alguma sensibilidade italiana ao projecto.
E Coppola, à partida, também recusou. E recusou porque era imoral reabilitar a Mafia. A Mafia era uma sociedade secreta que maculava a sua própria ascendência italiana.
Mas o diabo é que Coppola estava crivadinho de dívidas. E por outro lado, ouvia toda a gente falar no livro, via toda a gente agarrada ao livro. E telefonou à Paramount. 
- Está bem, pensei melhor, talvez realize o filme. Mas ponho duas condições.


A primeira condição de Coppola era não aparecerem em momento algum palavras como Mafia ou Cosa Nostra ou gangster. A segunda: o filme não poderia incluir cenas violentas – Coppola concebia a ideia como uma saga familiar, a saga dos Corleone – como talvez os Buddenbrook, ou Os Thibault.
Bom… ponderam os produtores… entre a visão delicodoce de Coppola e a perspectiva sanguinária de Peckinpah, havia certamente de sair um bom filme
Mas todos os filmes de gangsters dessa época tinham sido flops comerciais. Robert Evans, o executivo da Paramount, joga uma última cartada para convencer o presidente da empresa: todos os filmes de gangsters fracassaram porque tinham sido realizados por judeus. Com O Padrinho, de certeza que os espectadores até poderiam sentir o cheiro do spaghetti. E porquê? Porquê? Porque só um italiano como Coppola seria capaz de o conseguir. Claro que o argumento era ridículo. Mas convencera o boss da Paramount.

                                                            

Orson Welles chegou-se à frente para o papel de Don Corleone.
  

 Laurence Olivier idem.

                                                                             

Edward G. Robinson idem.
E Coppola queria Brando. Já falei nisso. 
A Paramount recusava Brando, por mau comportamento profissional ao ponto de já muito poucos estúdios quererem trabalhar com ele. Mas depois houve o tal ensaio gravado em vídeo em casa do próprio Brando e a Paramount pareceu convencida.

 

Depois, novo problema, um problema com outro dos papéis importantes, o de Michael Corleone. Coppola queria um actor italiano de origem mas quase desconhecido, chamado Al Pacino. A produtora não queria. Queria Alain Delon, Robert Redford, Ryan O’Neal. Coppola está pronto a retirar-se do projecto se a Paramount não contratar Al Pacino…


Enfim, hoje toda a gente sabe quem fez e quem não fez este e aquele papel, mas não restam dúvidas de que alguém da Mafia, indirectamente, discretamente, impôs o nome de Al Pacino para o papel de Michael. E ainda bem.

                                 

Al Martino. Outro enrascanço. Al Martino era um cantor. Pouco conhecido, admito, pelo menos fora dos EUA. De qualquer modo, é ele o contactado para fazer o papel do cantor fictício Johnny Fontane. Johnny Fontane esse, sim, esse que toda a gente tomou por Frank Sinatra a usar a Mafia como trampolim para obter um papel em Hollywood.
Pois bem, a Paramount, nos preparativos para o filme, sabendo perfeitamente que se ia meter com uma celebridade do calibre de Sinatra, super famoso, poderoso e bem respaldado no mundo do espectáculo, temeu que ele, Sinatra, ao saber que se preparavam para se meter com a vida dele, arranjasse maneira de fazer parar as filmagens. E se o papel do cantor Johnny Fontane é relativamente curto e pouco importante, isso deve-se ao medo que a Paramount teve dos problemas com Frank Sinatra. Isto foi dito a Sinatra. Sim, que por causa das coisas iam dar pouco relêvo ao papel daquele cantor. Mas Sinatra não se dá por satisfeito.
Sinatra não se dá por satisfeito e começa a intimidar o tal Al Martino que lhe ia fazer o boneco. E a intimidá-lo no sentido de ele não aceitar o papel, fazendo-lhe ver os riscos de vário tipo, incluindo integridade física, que corria se aceitasse o papel.
Sinatra só não sabia que aquele Al Martino lá teria também as suas ligações obscuras.
Al Martino tira-se dos seus cuidados e põe-se em contacto com o amigo de Sinatra, o chefe da Mafia de Chicago, Sam Giancana. E é Sam Giancana que diz a Sinatra para deixar andar e não se ralar com o assunto.  


Em Abril de 1971, em Manhattan, começa a rodagem de exteriores. 

                                                             

O produtor Ruddy e o seu assistente começam uma vez por outra a ir beber um copo com emissários de Joe Colombo. James Caan, no papel de Sonny, um dos filhos de Vito Corleone, diria que foi nesses tipos que se inspirou para interpretar o papel – e também deve ter sido depois disso que Caan se associou aos negócios da Mafia por muitos e bons anos. Diz ele que imitar os gestos dos gangsters não era difícil, o difícil era imitar-lhes a linguagem, um estranho calão, nem inglês nem italiano.


O Padrinho deu emprego a muitos membros da liga dos direitos dos ítalo-americanos (conforme, aliás, o combinado), técnicos e figurantes, sobretudo.   

                                                                

12 de Abril de 1971. Bairro novaioquino de Little Italy. Marlon Brando em pessoa está no meio da rua a filmar, está junto de uma grossery store, é Don Vito Corleone, está a comprar fruta, não tardará nada será alvejado pelos rivais da família Sollozo. A multidão aglomera-se em volta do local para ver o grande astro do cinema de perto, em carne e osso.


Disseminados nessa multidão alguns homens observam a cena. Mas não estão exactamente interessados no astro de Hollywood. Há mafiosos verdadeiros entre a multidão que segue o desenrolar das filmagens naquele dia de Abril de 1972. A missão deles é tomar conta de cada gesto do actor, de cada peça do seu vestuário, enfim, de cada pormenor visual. Mas não por motivações artísticas, naturalmente. Querem confrontar o que se passa no filme com a realidade que conhecem bem de perto, com o estilo que conhecem, o estilo Mafia. Para depois, evidentemente, avaliarem se aquele filme é mesmo a respeito deles, se fala deles tal como eles são – ou julgam ser.

                                                           

A primeira constatação é a da deficiência no estilo mafioso da personagem encarnada por Marlon Brando, é a de que ele não exibe os sinais exteriores de riqueza que um padrinho deve apresentar.
- Parece mais um vendedor de gelados diz um dos mafiosos reais que assiste.
Outro diz:
- Claro, um homem como ele devia ter estilo, devia andar pelo menos com uma pulseira de diamantes, devia trazer alguns anéis nos dedos, um alfinete de gravata de brilhantes.
- É verdade - murmura o outro - todos os velhos chefes adoravam os diamantes… e traziam-nos sempre à vista.
Outra coisa: chegam os fingidos gangsters de Sollozo, disparam sobre Brando. Brando deixa descair o corpo e despenha-se sobre um carro estacionado.


Os gangsters de verdade não acham piada à cena. A começar pelos fingidos assassinos de Brando, que não manejam as armas como deve ser.
- Estás a ver? Trazem as armas como se fossem ramos de flores.

                 

Foi dito que uma das personalidades reais sobre a qual Marlon Brando construiu a sua personagem de Vito Corleone também nesse momento andava por ali, uma ou duas ruas afastado da cena do filme.
E os mafiosos que assistiam às filmagens dirigem-se então a Grand Street. Param a uma esquina. Deitam uma vista de olhos.


Carlo Gambino bebe um café num bar de Grand Street. Está com o irmão, Paul, e atrás deles estão cinco guarda-costas.
Em certo ponto, Brando baseou-se na vida e hábitos deste chefe mafioso real, Carlo Gambino, um patrício com imenso carisma onde era impossível distinguir o pirata dos filmes pornográficos e muito menos o alto traficante de droga. A Jimmy Fratiano, um dos homens dele, Gambino lembrava uma ave de rapina, sempre na expectativa de uma presa a cair-lhe já morta aos pés.
Brando, ou Puzo, ou Coppola, inspiraram-se em Gambino pelo revivalismo das práticas do século XVIII siciliano em que o chefe mafioso se deliciava: na qualidade de chefe da sua família dedicava bastante tempo a escutar queixas, pedidos e reclamações da sua gente. Ou o pai desonrado por uma filha que lhe fugira; ou o marido traído pela mulher; ou parentes que lhe pediam ajuda para isto ou para aquilo; ou homens que esperavam dele a justiça que pelos canais oficiais não haviam logrado obter. 


Por outro lado, Joe Colombo saía ao mais famoso chefe de gang da América de todos os tempos, o seu predecessor Al Capone. E saía no sentido da publicidade da sua pessoa, que ele adorava, e não se sentindo bem se de vez em quando, por isto ou por aquilo, não chamasse sobre si as atenções da imprensa.
Não obstante todos os acordos feitos com a produção de O Padrinho, Colombo lembrou-se de organizar outra manifestação de ítalo-americanos. Desta feita em frente da sede da Gulf & Western. E para protestar, uma vez mais, contra os clichés que se criavam sobre os ítalo-americanos. Os outros padrinhos é que começaram a desconfiar de tanta exposição mediática do seu confrade.
E vamos a ver uma coisa, a liga dos ítalo-americanos não era uma simples e vulgar associação. A liga recolhia donativos de patriotas ítalo-americanos, donativos esses que em boa parte eram subtraídos por Joe Colombo e divididos com outros chefes mafiosos. Por isso mesmo, atrair em demasia as atenções da opinião pública era tentar o diabo, quer dizer, tentar a curiosidade incómoda dos jornais e das autoridades.
Manifestação convocada e o outro alto chefe mafioso dessa época, Carlo Gambino, pede a Joe Colombo para deixar de se armar em vedeta e tratar de desconvocar a manifestação. Colombo não atende o pedido de Gambino e a manifestação faz-se.
A manifestação faz-se, e a 28 de Junho de 1971, septuagésimo sexto dia de filmagens de O Padrinho, o padrinho Joe Colombo apanha três tiros na cabeça.


Quem organiza o atentado a Colombo é um tal Crazy Joe Gallo, assassino profissional às ordens de outro chefe mafioso, Albert Anastasia.


- Isto é incrível! - comenta Coppola. - Antes de começarmos o filme dizia-se “estes tipos da Mafia também não passam todo o tempo a matar-se uns aos outros”, e então pensava-se que o grande problema do filme seria não reflectir suficientemente a realidade.


Já agora, aquele Crazy Joe Gallo vem a ser por sua vez assassinado num restaurante da Little Italy. Um Crazy Joe Gallo, que quando não organizava assassinatos passava o tempo a ver filmes de gangsters, os de Edward G. Robinson ou de James Cagney, e por eles, e imitando-os, tinha a certeza absoluta de dominar o gestual mafioso.


      No próprio dia em que o assassinaram estivera ele com um actor que devia fazer o seu próprio papel num filme, e que lhe fora perguntar como falavam e como se comportavam os gangsters, ignorando que o que Crazy Joe Gallo sabia do assunto aprendera-o pelos filmes que passavam na televisão.



Na verdade, a fronteira entre a realidade da Mafia mesma e a ficção que dela se extraía para o cinema estava muito esbatida e era, com o andar dos anos e a vulgarização da televisão, menos perceptível, porquanto cada vez mais estas duas entidades se imitavam entre si.