domingo, 7 de setembro de 2014

O GIGOLO E A ESTRELA ASSASSINA



Lana Turner teve uma infância difícil, incluindo maus tratos por parte de uma família a quem fora entregue muito miúda.
O choque que sofri na minha infância pode ser uma boa desculpa para os meus comportamentos actuais. Isso pode explicar coisas que ainda hoje não consigo compreender.
Foi descoberta para o cinema aos 15 anos, quando andava no liceu de Hollywood, e contracenou com John Garfield em O Carteiro Toca Sempre Duas Vezes, em 1946. 
                                    
                                                                                          

Nos primeiros anos 50, Lana Turner já era uma estrela mundialmente aclamada, ganhava 5.000 dólares por semana e vivia numa mansão de 15 quartos, com uma fonte de soda para os whiskies, um salão de beleza com todos os matadores, dez criados, entre eles uma rapariga cujo único trabalho era pôr e tirar discos enquanto a patroa se maquilhava.Tudo isso até 1956. Em 1956 viviam-se maus tempos para os grandes estúdios, em boa parte devido ao incremento da televisão que fazia o público afastar-se das salas de cinema e ficar em casa. As receitas dos filmes de Lana Turner baixavam e a Metro negava-lhe a renovação do contrato. Lana sentiu pela primeira vez a carreira a declinar.
No ano seguinte é o divórcio do seu quarto marido, Lex Barker, um dos mais conhecidos tarzans do cinema, e tal acontece quando a filha, Cherryl, acusa o padrasto de a violar regularmente desde os dez anos. Lana fica desfeita e dá a Lex Barker vinte minutos para fazer as malinhas e se pôr a andar da mansão.


(Até à sua morte, em 1973, o pobre Lex Barker jurará a pés juntos a sua inocência.)
Lana Turner não se poupou nos casamentos. 
Entre outros menos assinaláveis foi casada com o músico Artie Shaw e com o milionário Henry Topping Jor., aquele que, ao propor-lhe casamento à mesa do Club 21 de Los Angeles, deixou cair um anel de diamantes dentro do copo de martini que Lana tinha na frente.E, para não variar, Lana Turner, uma estrela de cinema fisicamente entre Jean Harlow e Marilyn Monroe, também teve como amante o célebre mafioso Johnny Rosselli.
Calha bem aqui uma citação da própria Lana Turner, que embora fadada para viver histórias de alguma faca e algum alguidar não devia ser parva nenhuma. Dizia ela: O homem de sucesso é aquele que ganha muito dinheiro e é casado com uma mulher que o gasta. A mulher de sucesso é aquela que consegue encontrar esse homem.
Divorciada de Lex Barker, Lana Turner dá em acompanhar com um homem que diz chamar-se John Steele e lhe oferece flores e jóias. Mas, por intermédio de amigos, Lana vem a saber que o John Steele não era nada John Steele, que o John Steele era Johnny Stompanato. E, ah, é verdade, Johnny Stompanato era um gangster da seita do mafioso Mickey Cohen, já aqui mencionado anteriormente noutras histórias. Johnny Stompanato já por duas vezes havia sido constituído arguido, contudo sem nunca ter sido condenado.
Mais: Stompanato já se repartira por diversas actividades, vendedor de automóveis, armazenista de mobílias, proprietário de uma loja de animais, sendo porém a sua principal fonte de rendimentos a actividade de gigolo, para a qual uma actriz amiga de Lana Turner o dizia muito dotado.


Nunca se sabe se não foi deste ou de outro caso como este que BillyWilder retirou a inspiração para o filme Sunset Boulevard.
Para a polícia, Johnny Stompanato tinha ficha de extorsionário. Extorsionário com a mira assestada para mulheres ricas e sós. E Lana Turner, quando sabedora de tudo isto, passa uma temporada sem atender os telefonemas de Johnny. Johnny andava na roda de gangsters mafiosos e ela temeu a má publicidade que tal lhe traria à carreira.


E a partir daqui só contarei cenas que apesar de reais mais parecem cenas de um filme.
Uma noite, Stompanato, o gigolo, consegue introduzir-se em casa da estrela, acede ao quarto de cama e começa a querer sufocá-la com uma almofada. Sentindo que a actriz está a ficar-se, retira a almofada e desata a beijá-la. Ora, foi o bastante para Lana Turner se apaixonar demencialmente pelo mafioso gigolo. Era excitante até ao limite aquela relação. Aquela relação pedia-lhe um amor obsessivo, cimentado sobre violentas zangas e ternas reconciliações.


A vida estava má para todos naquele período, e Hollywood vivia um tempo em que os mafiosos a operar no terreno – segundo suspeitas da polícia – engendravam situações comprometedoras a algumas das estrelas maiores para depois as poderem chantagear. Um dos estratagemas era conseguir gravações de conversas privadas, íntimas, e depois comercializá-las no mercado negro, ou não comercializar, conforme o que o artista – geralmente uma actriz– estivesse disposto a pagar por elas. E as fitas gravadas com as discussões de Lana Turner e o seu gigolo não tardaram a chegar ao mercado e a valer cada conversa umas boas centenas de dólares.


Lana Turner tinha então uma sociedade independente de produção de filmes e o gigolo Stompanato conseguiu que ela lhe desse um lugar na estrutura da empresa, produtor delegado. E nesse pé partiram para Inglaterra para a rodagem do primeiro filme a produzir pela sociedade. O filme chamar-se-ia AnotherTime, Another Place, e a estrela contracenaria com Sean Connery.   
Mas durante as filmagens, Stompanato convence-se de que a amante está em vias de cair nos braços do seu parceiro no filme e um belo dia resolve invadir o plateau e avançar para Sean Connery de pistola na mão, ameaçando-o. Connery, rapidíssimo, aplica-lhe um banano certeiro e bem assente, tira-lhe a arma da mão e exige que ele nunca mais ponha os pés no estúdio.
A patroa Lana Turner demite o gigolo do seu lugar de produtor delegado e ele, quando sabe disso, vai para a estrangular. Falha por pouco, mas as cordas vocais de Lana ficam de tal modo afectadas que por três semanas ela só pode rodar planos sem diálogo.
É aconselhada a apelar à polícia. A Scotland Yard toma conta da ocorrência e opta pela deportação do desordeiro. Em 24 horas Stompanato aparece no aeroporto, pronto a ser recambiado para os EUA. No entretanto, comunica à amante que o nome dela até pode calhar em conversa quando ele falar com o pessoal da Mafia.


Em Janeiro de 58 as filmagens terminam em Londres. Lana concede-se um período de repouso no México. Apanha um avião que faz escala em Copenhaga. E quem está à espera dela em Copenhaga, quem é, rodeado de jornalistas e fotógrafos? Claro, Johnny Stompanato. E acabam por seguir os dois para Acapulco.
A actriz, que segundo todas as aparências transportava para fora dos plateaux as suas personagens, dirá mais tarde – sabe-se lá com que verdade – que foi à força de uma pistola encostada à cabeça que dormira com Stompanato em Acapulco.
Nomeada para um Óscar nesse ano de 58 – suponho que pela interpretação em Peyton Place –, Lana está presente na cerimónia, e, acabada a cerimónia vai para casa. O gigolo está à espera dela. Bate-lhe. Deixa-lhe a cara num bolo e os olhos negros.
A filha de Lana Turner tem agora 14 anos. A mãe confessa-lhe o medo que tem do amante. A miúda aconselha-a muito avisadamente a queixar-se à polícia, mas Lana recusa a ideia, o gang de Mickey Cohen, de que o amante fazia parte, com certeza que mais dia menos dia lhe faria a folha.


Em Abril ainda desse ano de 58, Lana Turner e a filha mudam-se para New Bedford Drive em Beverly Hills. Johhny Stompanato acompanha-as.
As discussões e as violências não cessam. Numa noite há gritos desgarrados no quarto do 1º andar. Só porque Lana Turner, extremamente susceptível no que tocava à idade, com 37 anos se sentia a envelhecer e a decair a olhos vistos, e descobrira que o amante era muito mais novo do que lhe dissera ser, e daí resultaria muito má publicidade para a carreira dela, sim, se se dissesse que ela se entretinha com homens mais novos.
Nessa mesma noite, Lana põe os pés à parede e decreta que as relações entre ela e Johnny Stompanato estavam terminadas. E intima-o a sair-lhe de casa. Ele não concorda e ameaça-a: se lhe der na mona até pode desfigurá-la; até pode fazer mal à filha. É só passar-lhe alguma coisa pela cabeça. 


Cheryl, a filha, está no quarto do lado a fazer os TPC e ouve o que se está a passar no quarto da mãe. E decide-se. Deixa os livros e os cadernos e desce à cozinha. A governanta da casa vê a miúda sair da cozinha com um cutelo de carniceiro de 20 cm., rais parta a miúda para onde é que ela vai com aquilo na mão? E Cheryl, cutelo na mão, sobe ao 1º andar.
Cheryl bate à porta do quarto da mãe. Os gritos continuam. Ouve a mãe gritar que está farta, que está pelos cabelos. Ouve o amante gritar ah, minha cabra que é mesmo esta noite que morres. Cheryl bate outra vez à porta. É a mãe que abre. Cheryl entra e vê Stompanato com um braço alçado. Palpita-lhe que ele vai agredir violentamente a mãe. 
Bem, Stompanato não ia agredir a mãe, estava de braço no ar porque estava compor os suspensórios nas costas. Mas quando vê a rapariga, o gangster precipita-se para ela, cai sobre ela e espeta-se no cutelo de carniceiro. A esvair-se em sangue, consta que terá dito Cheryl, meu Deus, que é que tu fizeste?
Stompanato é acometido por uma convulsão e cai morto no tapete do quarto. Cheryl remove calmamente o facalhão do corpo do gigolo, pousa-a na cómoda e sai do quarto aos gritos. Eram 9,20 da noite de 4 de Abril de 1958.

                         
                                                          

O primeiro a chegar à cena do crime na noite de 4 de Abril foi o médico pessoal da actriz, que imediatamente a aconselhou a recorrer a um advogado da Mafia, Jerry Giesler, um que defendera Bugsy Siegel 18 anos antes. E quem vem identificar o cadáver do gangster não é outro senão o chefe dele na Mafia, Mickey Cohen. 
- Este assunto não me está a agradar nada- diz o mafioso aos jornalistas. - Palpita-me que ainda há muitas perguntas sem resposta, e eu preciso de saber a verdade custe o que custar.
O cutelo não tinha impressões digitais. Fora umas gotinhas num tapete cor de rosa, não havia sangue no quarto. Mickey Cohen era de opinião de que Lana Turner e a filha haviam assassinado Johnny Stompanato enquanto ele dormia.
Num hotel em Westwood guardava Stompanato as suas coisas. Tinha lá um quarto, tratava lá dos negócios, dormia lá de vez em quando. Um dos recepcionistas, ao ouvir falar do crime, usando uma chave mestra, introduziu-se no quarto. As luzes estavam acesas e havia indícios evidentes de arrombamento na janela da casa de banho. Uma das criadas do hotel viria a dar por falta de um saco cheio de cartas que estivera sempre guardado no mesmo sítio.


Cartas? O chefe do gang, Mickey Cohen escrevera essas cartas, endereçadas ao jornal Los Angeles Herald para que Stompanato as remetesse. Cohen queria vê-las publicadas, de modo a informar a opinião pública de que Johnny Stompanato jamais perseguira Lana Turner, como ela afirmava. O que acontecia era Stompanato estar muito apaixonado por ela.
O irmão de Stompanato vem recolher o corpo. Diz à imprensa não acreditar na versão de Cheryl e quer que Lana Turner seja sujeita ao detector de mentiras. E pergunta: como é que uma jovem de 14 anos que nunca na vida se servira de facas para acções violentas teria forças e destreza para assassinar à facada um matulão que tinha sido fuzileiro?

                                                                                     

 Também ele pensava que o irmão estaria a pegar no sono no momento de ser atacado e morto. E até um chefe de polícia de Beverly Hills viria a fazer irónico reparo no facto de os gangsters não poderem acreditar que uma adolescente fosse capaz de assassinar um dos deles.
Entre os objectos pessoais de Stompanato havia um revólver e negativos de fotografias onde algumas actrizes de certa nomeada apareciam nuas e em poses comprometedoras. Entretanto, os advogados de Lana Turner queimam uma quantidade de negativos em que a actriz aparece nua.
Vai tudo para tribunal.


A televisão começa a transmitir em directo as sessões do julgamento do assassínio de Johnny Stompanato. 11 de Abril de 1958. 
Os fans acotovelam-se à entrada do tribunal para ver passar a estrela, tailleur cinzento de factura italiana e cabelo cortado à garçonne-


No tribunal, Lana Turner fala durante uma hora. Há quem diga que foi a melhor interpretação da vida dela. Tudo o que se diga terá de levar o tribunal a acreditar que se tratara de um homicídio, por assim dizer, justificável.
Na assistência do julgamento, alguém se levanta e acusa os investigadores de quererem proteger a estrela de cinema.
Houve quem defendesse que Stompanato se teria também travado de relações íntimas com Cheryl, a filha de Lana. Houve quem pensasse que mãe e filha estariam ambas apaixonadas pelo gangster.


Em suma, as culpas acabam por recair na filha da estrela, Cheryl, de 14 anos.
 

O tribunal decide colocar Cherryl sob tutela num centro para delinquentes juvenis. Esteve lá três semanas e depois foi enviada aos cuidados da avó. Fez duas tentativas de suicídio.
Stompanato teria dito à Turner que a Mafia sem dúvida o vingaria se lhe acontecesse alguma, e Lana Turner muda de poiso. Declara ter recebido cartas anónimas com insultos e ameaças de morte. A polícia vigia-lhe a casa dia e noite.
Lana Turner estava crivada de dívidas, dívidas aos advogados, dívidas até à Metro Goldwyn Mayer. Temia nunca mais vir a ter trabalho depois de tudo aquilo. Mas pouco tempo depois há um produtor que a contrata e lhe propõe o papel de protagonista no remake, dirigido por Douglas Sirk, do filme  nos anos 30. Imitação da Vida. Uma intriga a girar à volta de uma mulher egoísta que ora mimava ora desprezava a filha, e estando ambas apaixonadas pelo mesmo homem.
O filme foi feito e rendeu muito bom dinheiro. Bom dinheiro esse dividido entre o produtor, Ross Hunter, e a estrela. E de tal modo o filme vendeu bem que Lana Turner terá ficado milionária e recomposto as finanças.
O público convenceu-se de que a história do filme, tal como êxito de outro filme anterior, Peyton Place, se relacionava com a própria vida privada da estrela, e talvez daí o sucesso.
Mas o que dá a ideia é de que, na volta, claro, tão mafiosa era a estrela como o seu gigolo. Provavelmente até mais ela do que ele. Ou mafiosa e criminosamente engenhosa, ela ou quem a terá aconselhado a cometer o crime, bem como quem a terá industriado sobre a técnica de o ocultar.
A partir de 1970 Lana vive com um ex-cabeleireiro e ex-professor de dança, Eric Root de seu nome. É este homem que muitos anos depois declara ter-lhe a actriz contado a verdade.
E a verdade (ou a suposta, embora plausível, verdade) é que teria sido a própria Lana Turner a assassinar Johnny Stompanato.
- Matei esse filha da puta… e se tivesse que voltar a fazê-lo não tenhas dúvidas de que o faria.
O tal Root escreve um livro. Nesse livro uma outra versão dos factos aparece à luz do dia.
E recapitulando (flashback)… perante o crime consumado, como já foi dito, comparecera o médico pessoal da actriz que a aconselhara a chamar o advogado Jerry Giesler. Jerry Giesler aparecera, sim senhor, acompanhado por um detective particular. Tudo isto antes da chegada da polícia. O trabalho deles fora o de convencer Lana a deixar que fosse a filha a suportar a responsabilidade do crime em lugar dela.
É o detective particular que limpa os vestígios, todas as impressões digitais do cutelo, afinal as impressões digitais da própria Lana - detective particular foi ele (Frank Otash) que também apareceu, dizem, na cena final da vida de Marilyn Monroe.
- Parece que vocês vieram matar um porco para cima da cama - terá dito o detective particular diante do espectáculo de sangue.
Um escritor virá a classificar o caso como uma luta de poder entre concorrentes, um mistério que se adensou em todas as suas infinitas complicações.  
Mesmo assim, Lana Turner voltará aos estúdios e regressará ao êxito com Um Solteirão no Paraíso (ao lado de Bob Hope), Retrato a Negro e Madame X. Virá ainda, nos anos 80, a aparecer na série televisiva Falcon Crest.
E Lana Turner morre de cancro na garganta em 1995, com 74 anos.

 


Esther Williams, a actriz, declarou um dia que ninguém nunca virá a saber a verdade toda sobre o assassínio de Johnny Stompanato. E porquê? Porque as provas de um delito costumam desaparecer muito naquela zona do mundo chamada Hollywood. E porquê? Porque Hollywood procura sempre, e antes de tudo o mais, proteger-se.    

terça-feira, 2 de setembro de 2014

A FRÁGIL NORMA JEAN

   E OS QUE NUNCA MORREM NACAMA




Quando Fidel Castro entra triunfante em Havana à cabeça dos seus barbudos, Janeiro de 59, uma das primeiríssimas medidas a sair-lhe do saco é fechar os casinos, os montes de casinos de que se abrilhantavam as noites de Havana, e correr com os mafiosos que os exploravam. E esse gesto, compreendamos, não caiu bem no seio da Mafia. Não se faz. Assim como não caiu bem  a Washington saber que passado coisa de um ano de ter colaborado um pouco na revolução cubana para derrubar o ditador Batista, e por mor de uma repentina reviravolta ideológica do chefe revolucionário, passaria a ter um aliado da URSS, uma ponta de lança comunista a poucas centenas de quilómetros da sua costa.

        

Johnny Rosselli, Sam Giancana e Santo Trafficante – o boss mafioso da Florida – seriam, com toda a lógica, os aliados naturais de Washington para fazer a cama a Fidel Castro, sob a batuta operacional da CIA. E já se sabe que diversas maneiras de acabar com Castro foram ensaiadas e todas elas falharam, a culminar no célebre desastre da baía dos Porcos.


Johnny Rosselli é julgado e condenado em 1968. Por ser um criminoso? Qual quê! Nem por sombras! Julgado e condenado por residir ilegalmente nos EUA. A viver na América desde os anos 20  nunca requerera permissão de residência. Condenado à deportação para o país natal. Qual país natal?  Itália. Mas a qualidade e a fama de Rosselli eram tais que até a Itália se recusou a recebê-lo e ele ficou nos EUA.
 
                                                                             

Rosselli divorciara-se em 1942 e começara a sair com actrizes de maior ou menor nomeada, Betty Hutton, Ann Corcoran, desde que fossem bonitas e dessem nas vistas. Já se vê. Nessa altura começa a andar com uma jovem que queria ser actriz e que lhe fora apresentada pelo irmão do rei dos reis dos estúdios, Joe Schenck. Chamava-se a rapariga Norma Jean e era loura. Mas não seria por esse nome que viria a ser conhecida no mundo inteiro, como se sabe.


Foi em 1948 que o patrão mafioso Tony Accardo deu instruções ao seu representante em Hollywood, Johnny Rosselli, no sentido de impor à Columbia Pictures um bom contrato com uma desconhecida de nome Norma Jean. Harry Cohn, o já aqui muito falado todo-poderoso da Columbia Pictures, obedeceu sem um ai à ordem da Mafia – sabia o que devia a Tony Accardo e a Rosselli quando quisera ficar dono e senhor da Columbia…
Escusado dizer que a doce e frágil Norma Jean compensava com favores sexuais qualquer empurrão que alguém lhe desse na carreira, de preferência mafioso, os que pareciam ser quem mais mandava chover na indústria.


No princípio, no meio e no fim da carreira, uma certa Jeanne Carmen, vizinha de Norma Jean (que entretanto estava a deixar de ser Norma Jean e a passar a ser Marilyn Monroe), não parou de registar a presença do gangster Johnny Rosseli em casa dela.

                                                 

Em 1948. Joe Schenck ia na sua limousine a atravessar os estúdios da Fox quando viu uma rapariga loura e muito bonita a caminhar ao lado do carro. Joe Schenck ordena ao motorista que pare, convida-a a entrar, e ela entra.
- Como te chamas, minha filha?
- Norma Jean, sir.
- Oh, mas que gracinha… o nome da minha primeira mulher…
Joe Schenck tinha então 70 anos.
A moça estava presa a um contrato com um estúdio e queria voar mais alto. Schenk dá-lhe um cartão com um número de telefone e nem pela cabeça lhe passa que a rapariga se chame Norma só porque quem lhe pusera o nome o fizera por admiração e como homenagem à tal primeira mulher dele, Norma Talmadge, famosa artista de cinema, julgo que ainda mudo. 


Pois a seguir, de Norma Jean sai Marilyn Monroe, uma criação da agência artística William Morris, com o sexo em pano de fundo até chegar aos píncaros, e daí a uns anos, assinará ela o melhor contrato de toda a História do cinema até então.
A vida dela mudou, depois disso? Não mudou? Claro que mudou. Amigos perguntam-lhe o que terá concretamente mudado na vida de Marilyn Monroe depois de assinar aquele maravilhoso contrato, e a resposta franca de Marilyn foi que deixara de passar tanto tempo de joelhos diante de um homem.
                    
                                                                                                  

O sexo conhecia-o Norma Jean desde tenra idade, violada, segundo disse, logo a começar na infância, num orfanato para onde a mandaram, e desde então decidida a fazer carreira no cinema, a especializar-se, por assim dizer, no sexo com homens muito mais velhos e de preferência os mais poderosos do ramo.


Mas se Norma Jean não o sabia, Marilyn começou a sabê-lo: uma mulher não se pode tornar uma estrela apenas por obra e graça do felatio e pela frequência de muitas camas poderosas – ela mesma o disse. É preciso bem mais do que isso – embora, sem dúvida, isso possa ajudar, digo eu, ajudar e bem, digo eu cinicamente, e mais ainda no tempo em que os homens importantes do show business, tivessem a idade que tivessem, ainda gostavam de mulheres…
Norma Jean, já Marilyn Monroe, confessaria a um jornalista inglês sem evasivas que nos meios do cinema, em falando-se de camas, começara logo com o velho Joe Schenck, o que a fizera entrar para a limousine quando atravessava os estúdios da Fox. Depois, Joe Schenck telefonara a Harry Cohn a dar ordens para que fosse contratada aquela pequena.
Cohn não apreciava especialmente em Marilyn a artista. Apreciava muito mais o corpo. Calma… sim, o corpo, mas o corpo enquanto virtual chamariz de bilheteira.

                                                                                   

Marilyn fazia pequenos papéis, e um dia, estando Cohn a ver os rushes de um filme, começa aos gritos com o produtor:
- Mas porque é que tu puseste aquela galinha gorda no filme? Também tu dormes com ela?
Nos anos 50, as ligações de Marilyn com a Mafia também despertaram o interesse das autoridades. Foi espiada. E foi vista, em 59, a sair de um restaurante de Sunset Boulevard acompanhada por dois mafiosos, sendo um deles Mickey Cohen, o herdeiro de Bugsy Siegel, um que já teria ajudado Sinatra a refazer a carreira. E Marilyn entra com os dois homens num motel. A cena repete-se dias depois com outro mafioso Sam Lo Cigno, o que leva a polícia a pensar que Marilyn estaria a ser vítima de chantagem, sem contudo se ter chegado a conclusão alguma.


Durante a convenção democrata em Los Angeles, em Julho de 1960, Jack Kennedy está tão seguro da sua nomeação como candidato que divide as suas noites de lazer entre Judy Campbell e Marilyn.

 

Verão de 1960. Reno, Nevada. Rodagem do filme de John Huston The Misfits - que deu em português Os Inadaptados-, realizado segundo o roteiro de Arthur Miller, então casado com Marilyn, e estando o casamento a passar por grave crise. Marilyn e Miller são convidados para o show de Sinatra no casino Cal Neva, que ficava a poucos quilómetros de Reno.


Sinatra estava a ser o confidente de Marilyn na crise do casamento com Miller. Miller que lhe tinha oferecido um caniche branco chamado Maf -  uma referência óbvia à gente com quem ela se dava.
Durante esse tempo de crise e pré-separação de Arthur Miller, os homens sucediam-se na cama de Marilyn, Giancana, Kennedy, Sinatra, Johnny Rosselli. Era um ver-se-te-avias. A frágil Norma Jean estava no seu auge de desorientação de vida.

                                                                      



Em Fevereiro de 1961, Marilyn dá entrada na clínica psiquiátrica do Hospital Presbiteriano de Nova York. George Cukor, que esteve para a dirigir em Somethings Got to Give, filme nunca acabado, diria que ela parecia sentir-se muito mais à vontade num hospital de alienados do que num estúdio de cinema. Era viciada em medicamentos.Tinha acessos de culpa e considerava-se responsável pelos seus falhanços matrimoniais.

                                                                              

Pois é verdade, falou-se sempre muito do amancebamento de Marilyn Monroe com o presidente Kennedy. 


Na visão de alguns ele não foi mais do que ocasional. Registaram-se alguns encontros, muito bem, em 1960, em Los Angeles e Nova York, e em 62, em Palm Springs. O FBI estava a pau, estava ao corrente, tinha informadores, e informadores que referenciaram orgias no Hotel Carlisle de Nova York, uma Marilyn para três homens, e quem desses homens assinava o ponto eram John Kennedy, o irmão, Bobby, e Peter Lawford.



Segundo o cabeleireiro da estrela, foi nos bastidores do Madison Square Garden, de Nova York, a 19 de Maio de 1962, quando ela cantou happy birthday, mister president, que ela se zangou com o Kennedy presidente. Jack Kennedy fazia 45 anos nesse dia. Zangaram-se e acabaram tudo, e a partir daí ela começou a dedicar-se a Bobby. Bobby ter-lhe-ia dito que ia deixar a mulher para ir viver com ela, e ela acreditou, e acreditou tanto que contou aos amigos já como facto consumado.


Passa o tempo a telefonar a Bobby Kennedy, mas Bobby tem ordens do irmão para não lhe atender o telefone. Alguém tenta convencer Marilyn a não insistir com Bobby.


Mais uma vez na vida a frágil Norma Jean se sente traída. 


Fala com Peter Lawford – outro gabirú que se aproveitava dela. E põe a hipótese de trazer a público as suas relações com os Kennedy. E até talvez se referisse às manigâncias deles para assssinar Fidel Castro – e Lawford, não sei, não estive lá, mas pode muito bem ter-lhe dito:
- Ai mulher não faças uma coisa dessas que ainda te aleijas… ainda te desgraças!
Não interessa. Se Bobby continuasse a ignorá-la ela convocava uma conferência de imprensa e punha tudo em pratos limpos.
- Eu sei que para o Jack e para o Bobby nunca representei mais do que um pedaço de carne.


Em Julho de 62, Sam Giancana convida Marilyn para um fim de semana no hotel do Nevada propriedade do gang, o Cal Neva Lodge. Está lá a seita do costume e mais alguns, como os gangsters Jimmy Alo e Johnny Rosselli. Marilyn bebe demais ao jantar e faz confidências a Giancana, antes de subir com ele para o quarto.
Marilyn confessará mais tarde ter dormido com Giancana nesse fim de semana. Também mais tarde, para os compinchas, Giancana fará troça do corpo e das performances sexuais de Marilyn, ao mesmo tempo que se gaba de a ter conquistado.
Também deste sujo episódio há conversas gravadas.




“Parece que estás muito entusiasmado por teres dormido com a que anda com os dois irmãos, não é?”Rosselli para Giancana. Tanto podia estar a referir-se a Marilyn como podia estar a referir-se a Judy Campbell, a call girl também metida com os manos….
Mas pelo testemunho do gangster Jimmy Alo, esse fim de semana no Nevada redundou em orgias ignóbeis. Sinatra e Peter Lawford drogaram Marilyn, fizeram-lhe toda a especie de poucas vergonhas e fotografaram o que se passou, as humilhações a que sujeitaram a frágil Norma Jean. De tal ordem que o elemento que tirou as fotografias aconselhou seriamente Sinatra a destruir os negativos.


Norman Mailer escreveu uma biografia de Marilyn Monroe. Eis um fragmento: se alguém quisesse embaraçar os Kennedy e dar início a uma campanha de boatos que os destruísse completamente com vista às eleições presidenciais de 64 não podia haver melhor como estratégia do que mandar assassinar Marilyn e maquilhar a morte de modo a que parecesse suicídio, fazendo no entanto de tal sorte que essa maquilhagem fosse tão desastrada e grosseira que não tardariam duas semanas até que os jornais falassem de assassínio. E isso cairia em cima dos Kennedy. Dada a intensidade do boato, ninguém poderia em consciência dizer que eles não tivessem tido nada a ver com aquilo.
A pobre e frágil Norma Jean morre de facto na noite de 4 para 5 de Agosto de 1962, sob um nome falso – Marilyn Monroe. A governanta achou estranho, ou mesmo suspeito, que a senhora não se tivesse levantado toda a noite.

                                                                        

O médico legista estabelece como probabilidade o suicídio. 13 mg por 100 ml de pentobarbital no fígado de Norma Jean. Não sei o que isto quer dizer, mas leio que quer dizer Nembutal, e que quer dizer que Norma Jean tomou 10 vezes mais da droga do que o que seria normal.
O sangue de Norma Jean continha 8 mg por 100 ml de hidrato de cloral. Também não sabia o que que queria dizer, mas aprendi que representa 20 vezes a dose recomendada para dormir. Agora o que eu não percebo mesmo é porque é que na autopsia os médicos não lhe acham nem rasto de soníferos no estômago.
A serem verdadeiras todas as teses sobre a morte de Marilyn, nessa noite o quarto dela deveria parecer-se com o camarote do navio onde iam clandestinamente os Irmãos Marx no filme Uma Noite na Òpera, com tanto político, tanto detective, tanto médico, tanto mafioso a acotovelar-se lá dentro.

A ex-mulher do notório mafioso Murray Humphreys disse que os gangsters havia ficado curiosos a respeito uns dos outros, a tentar adivinhar que facção, que seita, que família poderia ter eliminado Marilyn – incluindo na seita os próprios manos Kennedy.
        Um detective da polícia de Los Angeles declarou-se convencido de que a Mafia teria jogado uma carta no aparente suicídio da frágil Norma Jean.
É verdade que Marilyn tivera aqueles desabafos, se o Bobby não lhe telefonasse e continuasse a não lhe ligar nenhuma, raios me partam se não chamo a imprensa e não descubro a careca a esses sonsinhos dos Kennedy que parece que não quebram um prato. Ameaçava por outro lado chibar a estrangeirinha que eles tramavam para matar aquele das barbas lá de Cuba.


Os especialistas do crime organizado acharam muito plausível que os mafiosos pudessem ter drogado Marilyn para ela, de algum modo, fazer saltar os Kennedy do pedestal; ou, sentindo-se mal, pudesse ter telefonado a Bobby a pedir ajuda, desmascarando-o imediatamente.

                                                                  

Já se dera um caso em que os da Mafia injectaram cloral  num político regional para o deixar inanimado, porem o corpo numa cama, chamarem uma mulher da vida, porem-na agarrada a ele em pose escandalosa e fotografarem tudo, e assim destruírem a carreira do homenzito se ele não lhes fizesse a vontade. Coisas da exemplar democracia americana.
O plano com Marilyn poderia ter  andado perto. Plano, diga-se, essencialmente para entalar Bobby Kennedy, um homem casado, provando pelas fotos que se tirassem que se ele estava madrugada alta em casa de Marilyn Monroe não seria para jogarem à batalha naval.


Pois é, mas Bobby pode ter mesmo atendido o telefonema dela e ter-lhe dito (ou pensado), está bem, filha, já te conheço, tu não bates bem da bola, e não penses que me entalas assim, recusando-se portanto a ir em socorro  de Marilyn, optando  por deixá-la morrer sozinha. Os defensores desta teoria no Departamento de Justiça, é interessante, mantiveram-se sempre no anonimato.
Também pode ser que, sabendo a Mafia que Marilyn estava a tornar-se perigosa com aquela ameaça de badalar sobre a conspiração cubana, intenção que já demasiada gente conhecia, Giancana resolvesse eliminar a actriz, fazendo recaír as responsabilidades sobre os Kennedy, que, obviamente, não quereriam nem por nada ver desmascarada a conspiração.
O chefe Giancana teria encomendado o trabalho a quatro duros, cada um deles residente muito longe de Los Angeles, mas todos lá arribados no mesmo dia. E uma vez lá chegados podem ter passado esse dia a ouvirem o que se passava lá em casa. Pois… porque o telefone de Marilyn estava sob escuta. Mas uma escuta privada. O telefone estava sob escuta por iniciativa de um mafioso do sindicato dos camionistas, o conhecido Jimmy Hoffa, e com o trabalhinho de montagem das escutas a ser realizado por um detective privado, Frank Otash, por sinal o mesmo que estivera em 1958 em casa de Lana Turner quando esta assassinou o namorado, e aparecido por lá antes da polícia chegar, e com o encargo de apagar todos os vestígios.


E, bom, o objectivo do mafioso do sindicato dos camionistas também eram os Kennedy, era preciso comprometê-los.
Também pode ter acontecido Bobby Kenedy ter acorrido mesmo a casa de Marilyn com um médico. Marilyn, ao vê-lo, teria tido um ataque de histeria e o médico ter-lhe-ia administrado um sedativo, e ambos, médico e Bobby, ter-se-iam posto na alheta  dali, e depressinha. E pouco depois, os gangsters teriam entrado na casa.
Com Marilyn sob o efeito do sedativo tê-la-iam amordaçado, aplicando-lhe um supositório de Nembutal e hidrato de cloral. Marilyn terá ficado inconsciente, os gangsters teriam retirado o material de escuta e teriam ido descansadamente à sua vida.
Será lógico pensar que nenhum dos gangsters mafiosos de quem venho falando tenha alguma vez sonhado acabar os seus dias na cama, rodeado por um rancho de filhos. Pois não, e nem Giancana nem Rosselli tiveram um fim desses.
Se dermos um salto, chegaremos a 1975 e veremos um Johnny  Rosselli  já entrado em anos chamado a depor perante o comité do Senado encarregado de investigar os assuntos de espionagem e contra-espionagem. E ele depõe. E os mafiosos ainda no activo ficam com a impressão de que o velho Johnny, outrora tão secreto, falara demais, inclusive divagara sobre a participação de Giancana e de Santo Trafficante nas conspiratas contra Castro em colaboração com a CIA.


Cinco dias antes de Rosselli teria sido a vez de Giancana testemunhar perante o tal comité. Teria sido, se fosse. Giancana não compareceu perante o Senado. Já não pertencia ao número dos vivos, coitadito.

                                                                       

Seis dias antes da data em que Giancana estava convocado para depôr, batem à porta da sua super-blindada e super-vigiada mansão de Oak Park, Chicago, Illinois. Quem é? Era um amigo do peito, quase um irmão: Johnny Rosselli. Giancana está a tratar ele próprio do almoço, a fritar umas salsichas. Aparece Rosselli. Abraços e beijos.


- Queres petiscar  das minhas salsichas Johnny? Oi… espera aí que eu deixei-as na frigideira a fritar e se não as volto ainda se me queimam. Anda daí. Vamos falando mesmo na cozinha.
Giancana vai para a cozinha. Rosselli vai com ele. Giancana pega na caçarola, começa a rolar as salsichas para não se queimarem, e estava nisto, a dizer uma piada, talvez, quando sentiu na nuca o cano de um .22 com silenciador. Ao mesmo tempo que ouviu o amigo e quase irmão Johnny Rosselli dizer-lhe:
- Ouve, Sam, enquanto puderes ouvir… isto é pela Marilyn…

                                                                  

Ah, Marilyn, a deusa de Hollywood, o sonho sexual de milhões de homens, a orfã Norma Jean tão maltratada na infância, a que por amor de um homem constava ter-se suicidado…
Diz que aquilo era pela pobre Marilyn e aperta o gatilho. A bala vara a cabeça de Sam Giancana e saí-lhe pela frente desfazendo-lhe a cara. Ninguém ouviu nada. E Johnny Rosselli sai sorridente da mansão de Oak Park.
Resta uma tese menos rocambolesca. Marilyn teria morrido de uma overdose acidental, depois de confirmada a rejeição de Bobby. Não era a primeira vez que as overdoses aconteciam na vida dela.
Em 1985, um quadro da polícia de Los Angeles pretende pôr um fim às especulações e às teorias de conspiração sobre a morte de Marilyn. Os ficheiros são revelados. O homem declara:
- Ela morreu por suicídio devido a uma overdose de barbitúricos. Não há nada mais de excepcional neste caso, a não ser o ter-se tratado de Marilyn Monroe.
E ela sim, morreu na cama…
  
                     


Um corpo em decomposição é encontrado a boiar dentro de um bidon de óleo por uns pescadores da baía de Dumfounding, a norte de Miami Beach. Está irreconhecível. As pernas, cortadas, também tinham sido metidas no bidon ao lado do corpo. A polícia recolhe impressões digitais. 


O FBI identifica o cadáver: Johnny Rosselli, 71 anos. Tinha falado demais. Estava velho. Estorvava.  Não podia morrer na cama.