terça-feira, 16 de setembro de 2014

        MR. ALFONSO GABRIEL CAPONE

                  VISITA HOLLYWOOD




Em 1917, estavam os mancebos americanos a ser chamados às fileiras para combater em França, e justamente com 17 anos Alfonso Gabriel Capone era criado de mesa e moço de limpezas de um restaurantezeco de Coney Island. Um dia, em serviço, sentiu-se fortemente atraído por uma cliente que estava acompanhada por um cavalheiro, uma rapariga italiana muito bonita, e tanto cirandou em volta da mesa do casal que a certa altura não se conteve, inclinou-se para a rapariga e murmurou-lhe:
- Tesouro, sabes… tens um rabo muito bonito, e deves aceitar isto que te disse como um cumprimento.

                                               
Acto contínuo, o acompanhante da jovem levanta-se, prega um murro em Alfonso. Alfonso cambaleia, atordoado. O homem, que era irmão da rapariga e já estava bêbedo, saca de uma navalha, precipita-se sobre o jovem Alfonso e retalha-lhe a cara por três vezes. O sangue corre pelo chão do restaurante, há gritos. O homem, que se chamava Frank Gallucio, pega na irmã e sai porta fora.
O golpe maior na cara de Alfonso ia da orelha ao queixo e media 10 cm. Um outro golpe, 5 cm., cortava-lhe a face esquerda. E o terceiro nascia-lhe debaixo da orelha, a esquerda. Nunca mais um cabelo cresceria naquela parte da cara dele. Seria obrigado para o resto da vida a aparecer em público de cara empoada, graças aos montes de pó de talco que passaria a aplicar para disfarçar as cicatrizes. Pensa recorrer à cirurgia estética. Suponho que nunca o chega a fazer. Quando apareciam fotógrafos Alfonso Capone apresentava sempre o seu perfil intacto, o direito. Passaria a detestar a alcunha que o celebrizaria daí em diante, Scarface.


Alfonso pensa vingar-se de Gallucio. Gallucio recorre ao conselho de um assassino profissional, que por sua vez marca consulta com um gangster cerebral e já afamado, de nome Salvatore Luciana – mais tarde celebrizado como Lucky Luciano, homem temível, inteligente e muito polido.
Calha que Luciano, dois anos mais velho do que ele, andara à escola com Alfonso. Tinham nessa altura feito ambos parte de um gang de adolescentes.


E também calha que Luciano toma o partido do tal Gallucio das facadas – a honra de uma irmã tem de ser defendida. E por causa disso Alfonso ainda tem a obrigação de apresentar desculpas a Gallucio.
Alfonso tem de levar em consideração o parecer de Lucky Luciano, figura já prestigiada no mundo do crime, enquanto ele não passa de um gaiato de 17 anos, empregado de mesa e moço de limpezas, desconhecido no milieu. Luciano era uma personalidade. Alfonso não era ninguém.
Entre 1901 e 1903 para cima de um milhão de sicilianos, 25% da população da ilha, emigrou para os EUA. Uma vez lá chegados, competia-lhes arranjar trabalho. Muitos deles deles acharam-se em altas dificuldades e juntaram-se aos bandos de rua.
Alfonso Capone, que não era siciliano, era napolitano, transferira-se directamente dos bairros miseráveis da Nápoles natal para os bairros miseráveis de Nova York – Brooklyn, em pleno ghetto italiano. 


O pai era barbeiro. Na escola chegou a esmurrar um professor e depois disso nunca mais lá apareceu. Teve vários trabalhos, mas preferia vigarizar os colegas ou estar à coca à porta das escolas e roubar o dinheirito que os miúdos levavam para pagar o almoço. Depois encontrou-se com Johnny Torrio, um homem cuja missão era organizar como devia ser o crime na cidade de Chicago - Chicago, cidade descrita por H.G.Wells como uma mancha de sombra debaixo do céu.
1919 – O Congresso dos EUA proíbe a venda de álcool. A emenda que estabelece a interdição é ratificada a 20 de Janeiro de 1920.
Os anos de proibição vão revelar todas as potencialidades do crime organizado na América. 
Os americanos vão gastar por ano, em álcool, 5 milhares de milhões de dólares. E quem vai prover à insaciável sede dos americanos vão ser dois estrangeiros, dois italianos, Alfonso Gabriel Capone e Lucky Luciano. Só pelo contrabando do álcool a indústria americana do crime vai gerar 5% do PNB americano. E o gangsterismo vai adquirir um certo prestígio social, dado que até o presidente Harding mandará servir na Casa Branca whisky de contrabando.
Em Chicago, os gangs rivais combatem rua a rua, casa a casa, pelo controle do contrabando. Do álcool e do que mais vier. Pode-se dizer que a cidade é dominada por eles em quase todos os aspectos da vida.
Big Jim Colosimo, chefe do gang de quem Alfonso era homem de mão, chega uma noite a casa, entra o vestíbulo, vê uma sombra a mover-se e nem deve ter ouvido os tiros que lhe perfuraram os ouvidos e o cérebro.
A polícia não consegue encontrar o assassino de Big Jim Colosimo, mas uma testemunha, o secretário do próprio Colosimo, descreve a sombra assassina como um homem  forte com a cara cheia de cicatrizes do lado esquerdo.
O primeiro, ou um dos primeiros, assassínios supostamente consumados por Al Capone, o que acabei de referir, é encenado no filme Scarface, de Howard Hawks, de 1932 – e sobre o qual escreverei um  destes dias.
Só para polícias e outros funcionários da autoridade de Chicago, Alfonso Capone distribuía por ano qualquer coisa como 30 milhões de dólares. Para as suas despesas pessoais, Al Capone reservava 300.000 dólares. Por semana. Tinha 3.000 homens a trabalhar para ele. Na coluna das receitas, a facturação dos empreendimentos de Capone, jogo, álcool, prostituição, montava aos 10 milhões de dólares. Por semana.


Capone tinha, naturalmente, um motorista particular. Que se chamava Filipo Sacco: Capone embirrava com aquele nome e aconselhou o chauffeur a adoptar um nome, por assim dizer, mais… glamoroso, e por outro lado mais americano. E o Filipo Sacco, motorista, começa a fazer-se de Johnny Rosselli, um nome de que estou farto de falar neste blog a vários e criminosos títulos, e que tempos depois estará no centro de muitos dos negócios da Mafia em Hollywood. Aliás, Rosselli apanha um princípio de tuberculose e é o patrão, Capone, quem o manda à Califórnia para se recompor e, ao mesmo tempo, estudar as possíveis oportunidades de negócio que se oferecem na indústria do cinema. Johnny Rosselli passará desde então a ser uma espécie de chefe da delegação da Máfia em Hollywood.
O gang de Alfonso Capone obrigava os trabalhadores a sindicalizarem-se. Não era, já se vê, pelos lindos olhos dos trabalhadores, mas era porque a sindicalização do maior número proporcionava ao gang grossos rendimentos. O gang obrigava os trabalhadores a aderirem ao sindicato para meter ao próprio bolso o dinheiro das quotizações. E tinham preferências. Preferiam os sindicatos fabris, os dos transportes e os que enquadravam pessoal de bares e afins. Capone tinha um nº 2, Frank Nitti, encarregado do caso, quer dizer, obrigar os trabalhadores a sindicalizarem-se à força de ameaças – de morte inclusivé. Eram sindicatos livres, americanos, democráticos. Felizes.
Chicago, à época da Proibição, era um dos mais importantes centros cinematográficos da América. 1/5 dos filmes americanos dos anos 20 eram produzidos em Chicago e boa parte dos indivíduos que se tornaram grandes patrões em Hollywood eram oriundos de Chicago: Carl Laemmle, fundador da Universal Pictures; Adolph Zuckor, da Paramount; Leo Spitz, da RKO. A norte da cidade ficavam estúdios de filmagem de certa importância, e só não se produziam lá filmes de cow-boys por causa do mau tempo que assolava frequentemente a cidade.
Nos começos de Hollywood, os banqueiros mais conservadores entendiam o cinema como um sector proibido, por incapaz de fornecer garantias de retorno de um investimento – isso para além do irónico facto de ser domínio de judeus. Mas é o Banco de Itália o primeiro a aceder emprestar dinheiro aos empresários de Hollywood. E fá-lo na base de um princípio inatacável: àquele que controlar o negócio do cinema será dado o poder de controlar o pensamento do mundo inteiro - é por essa razão que os olhos deitados nestes meus textos, também e indirectamente, sobre a democracia americana nos seus desenvolvimentos já do século XX, passe essencialmente pela entidade emissora de ideologia, prática e comportamentos que é o cinema, que foi Hollywood.


A Mafia compreendeu tudo muito cedo, e compreendeu que para os seus negócios era tão indispensável controlar Las Vegas como controlar Hollywood.
Dizem alguns analistas que o mundo do cinema, concretamente o mundo hollywoodesco, pode ser tão duro, ou mais, parecendo que não, do que o mundo marginal das mafias. O que não é de admirar quando sabemos da forte implantação dos mafiosos nesse mundo do cinema.
O certo é que tanto a Mafia como Hollywood, depois de infiltrada pela mesma Mafia, funcionavam como sociedades secretas, inexpugnáveis aos não-iniciados, aos estranhos, e onde reinava a mística da omertà siciliana, a lei do silêncio, o segredo.
Para dar uma fachada de respeitabilidade ao negócio, os primeiros magnates da indústria recorreram aos serviços do célebre inquisidor e censor William Hays – autor do chamado Código Hays que censurava moralmente os produtos de Hollywood. 
Acontece então, em 1920, na vida privada de uma estrela de então, o cómico Fatty Arbuckle, um escândalo que mete orgias sexuais e um assassinato. E é então que a indústria, para se proteger, deita mãos ao moralista Hays de modo a abafar o caso.
E os homens fortes de Hollywood perguntaram-se: se houve quem se saísse bem na vida a fazer todo o tipo de contrabando atrás da fachada legal de empresas de limpeza a seco, porque não usar esta técnica de disfarce com a indústria do cinema?


Aos 25 anos Alfonso Capone estava fabulosamente rico. Rico, mas entalado numa guerra de gangs. Rico mas histérico e esquizofrénico e bipolar e o mais que se quisesse, permanentemente a alterar a exaltação com o desespero. Rico, mas completamente agarrado pela cocaína.


E Chicago estava a ferro e fogo. Chicago estava nas mãos dos gangs. Reinava a anarquia criminosa. Nos anos 20, num curto período de quatro anos, deram-se em Chicago muitos assassínios, e, entre esses, 200 deles nunca a polícia os soube, pôde, ou quis resolver.


Acontece que, sabedores do sucesso fulgurante de Capone no contrabando do álcool em Chicago, os seus congéneres em Nova York tiveram sempre em vista a ambição de o ultrapassar. Capone produzia em Chicago a sua própria cerveja e o seu próprio whisky, e os bares que controlava em Chicago eram providos de caves de acesso interdito à maioria do público e onde o álcool corria. Caves que estava ligadas entre si por quilómetros de corredores subterrâneos que possibilitavam cargas e descargas clandestinas, tanto quanto eram utilíssimos para fugas quando era caso de alguma rusga policial.


É pelo fim do ano de 1927 que Alfonso Capone visita pela primeira vez Los Angeles. Em Los Angeles abundava a cocaína e os milhares cheios de ilusões que aguardavam a sua oportunidade na indústria do cinema – entretanto tornada a quinta indústria mais importante da América: Hollywood empatava mais dinheiro a imprimir os filmes do que o Tesouro a cunhar moeda. Capone ia estudar atentamente as chances que se lhe ofereciam ao negócio e entretanto investia umas centenas de milhão de dólares na aquisição de propriedades na Califórnia do Sul.
Em Los Angeles, Alfonso Capone instala-se no Biltmore Hotel e prepara-se para visitar Hollywood.


Capone, segundo alguns comentadores, estava agarrado por uma droga que se dizia ser ainda mais perversa do que a cocaína: a publicidade. Ele era o modelo do gangster-estrela. E adorava esse estatuto. Dava conferências de imprensa muito concorridas, recebendo os jornalistas na sua suite do Biltmore. Fazia vender jornais, logo, era um produto muito rentável a explorar. Acusavam-no os jornalistas de assassinar pessoas, mesmo numa sociedade tão democrática e puritana, gente que ele tomava como rivais. Capone ouvia-os e ria que nem um perdido. Era um homem de negócios e os assassínios não eram nada boa coisa para o negócio.
Los Angeles era uma cidade aberta onde não havia donos para o crime. Um El Dorado para Capone. Era só questão de se pagar bem a polícias, a promotores públicos, a advogados e a juízes e a protecção das actividades ilegais estava garantida – fala-se de álcool, cocaína, jogo e prostituição. Em Los Angeles, só os casinos e as casas de prostituição podiam render à Mafia os seus 50 milhões por ano. Houve delegados, promotores, magistrados, comissários de polícia, advogados e juízes enviados pelo governo a Los Angeles para pôr um fim à corrupção, mas todos eles, perante a cultura da cidade e o espectáculo que nesse aspecto a cidade lhes oferecia, preferiam fechar os olhos e deixar-se corromper também pelas generosas gratificações mafiosas.
Capone chega a ser visitado em Los Angeles por agentes da autoridade. Recebe-os gentilmente – era um cavalheiro cheio de charme, diga-se de passagem – oferece-lhes um café, nada tem a ver com actividades ilegais, é um turista em gozo de férias. E dedica-se a visitar os estúdios de cinema. E também as residências das míticas vedetas. Fica especialmente impressionado com a casa de Mary Pickford e Douglas Fairbanks. Tudo lhe cheira a dinheiro fácil.

                             

Numa noite em que Capone regressa ao hotel depois de uma das suas visitas a Hollywood, encontra a rua pejada de gente, polícias, jornalistas, fotógrafos, pagode. É intimado a abandonar a cidade. Johnny Rosselli, o antigo motorista Filipo Sacco, e agora delegado de Chicago em Los Angeles, intermedeia a crise e propõe que Capone e a sua equipa fiquem uns tempos  na sua própria casa. A polícia recusa. No dia 12 de Dezembro desse ano de 1927, Al Capone e respectiva entourage são escoltados pela polícia até à estação ferroviária de Santa Fé e despachados em grande velocidade para Chicago. Capone vai fascinado com o estilo e a vida das stars. Há uma margem imensa de vigarices a experimentar em Hollywood e ele pensa instalar-se por lá em definitivo.


- Fiz muito dinheiro em Chicago, tenho muito ainda para gastar em Hollywood - diz ele a um jornalista do Los Angeles Times. - Não pensem que se livram de mim assim com duas cantigas. Voltarei. E mais breve do que julgam.
Mas por acaso nunca mais voltou. 
Os negócios duros de Chicago ocupavam-no a tempo inteiro. Havia que tomar conta dos novos gangs entretanto decapitados dos respectivos chefes. Havia que andar de olho nos outros gangs activos e exterminá-los logo que possível. Resta-lhe a solução de enviar a Hollywood o seu irmão Ralph. E Ralph Capone, em vista das centenas de dólares que os magnates e as estrelas de cinema dispendiam nos restaurantes de Hollywood e de Los Angeles, começa a ameaçar os proprietários no sentido de estes lhe venderem os negócios ao mais baixo preço.
Penso poder jurar que todos os leitores deste blog já viram o filme Quanto Mais Quente Melhor. Muito bem. Quero falar em especial da cena em que os dois músicos desempregados de Chicago, Jack Lemmon e Tony Curtis, entram por acaso numa garagem para irem buscar o carro de uma namorada e são testemunhas de um ajuste de contas da Mafia, sob a forma de um assassínio colectivo, em massa.
Os dois músicos são detectados pelos assassinos, estão para ir também desta para melhor por serem testemunhas perigosas, mas conseguem fugir. Sentem-se perseguidos. Disfarçam-se de mulher e conseguem emprego numa orquestra feminina itinerante – orquestra em que Marilyn Monroe toca okulele – e vão dar a Miami. E logo com tanto azar que em Miami se vai realizar uma espécie de convenção de mafiosos, e que depois de muitas peripécias eles são detectados e perseguidos.
O filme é uma obra-prima da comédia cinematográfica, mas o ponto de partida é uma charge ao que sucedeu de facto em Chicago no dia de S . Valentim de 1929. Al Capone não vê alternativa senão destruir para sempre e de uma vez só o gang que se lhe opõe, chefiado por um tal George Bugs Moran. O quartel general deste Moran é justamente numa garagem em North Clark Street. E nesse dia 14 de Fevereiro de 1929, dois polícias entram na garagem, ordenam aos homens de Moran que lá estavam para se virarem para a parede. Os gangsters de Moran pensam que se trata de uma rusga normal, a que já estavam habituados, e obedecem. Entretanto, aparecem dois tipos à civil e esvaziam sobre os homens de Moran virados para a parede os carregadores das suas metralhadoras.


Claro que os policias eram falsos, eram gente de Capone disfarçada, e entre esses estaria um certo Sam Giancana, que anos mais tarde ocuparia o lugar do padrinho da Mafia de Chicago, amicíssimo de Frank Sinatra, por sinal, como já tivemos ocasião de verificar em textos anteriores.
No filme Quanto Mais Quente Melhor não se fala do nome de Capone, mas é fácil de atingir que o gangster bem vestido, de polainas brancas, a quem chamam de Spats (polainas) Colombo não é senão uma figuração de Capone. E o engraçado é que, no filme, o papel de chefe do gang, ou seja, de Al Capone, é desempenhado com muita propriedade por aquele tal actor muito tido e achado nos meios mafiosos de que já aqui falei, George Raft.
Nos dias seguintes, a imprensa comentou o massacre de S. Valentim sempre no pressuposto de que fora obra de polícias comprometidos nalgum caso de corrupção. Com o andar do tempo, vem a descobrir-se que se tratara de uma encomenda de Capone e tornou a haver pressões sobre a autoridade do estado federal. Havia que fazer alguma coisa para pôr fim ao crescimento do gangsterismo e consequentes carnificinas.
Quem ficou preocupado a sério com o audacioso golpe de Capone para se descartar do gang chamado de North Side, foi Lucky Luciano no seu quartel general de Nova York. Curiosamente, a Mafia novaiorquina onde pontificava Luciano, era chamada de Sindicato.
Lucky Luciano era um criminoso de vistas largas, correctas  e democráticas, e projectava reestruturar e modernizar o mundo do crime organizado. Desse processo não fazia parte o recurso a massacres como o de Chicago do dia de S. Valentim. É então que Luciano convoca todos os chefões mafiosos para uma reunião magna atinente à adopção de novos processos. Mas tudo teria de ser feito democraticamente – sim, senhores, o crime foi também uma instância da democracia americana. É essa convenção mafiosa que Billy Wilder retrata com pilhas de graça em Quanto Mais Quente Melhor. No filme, o conclave terá lugar em Miami; na realidade, aconteceu mesmo, entre 13 e 16 de Maio de 1929, no President Hotel, de Atlantic City. E lá apareceram os nomes mais sonantes do crime americano da época, Capone, Lucky Luciano, Alberto Anastasia, Bugsy Siegel, Longy Zwillman. A imprensa estava presente.
Luciano propõe exactamente a formação de uma comissão de âmbito nacional onde, democraticamente, todas as famílias estivessem representadas, e ficando democraticamente assente que todo o assassinato a ser cometido só o seria depois de autorizado pela tal comissão. Tudo claro, limpo, democrático.
- Se os tiroteios e os massacres não acabam depressa, não faltará muito para estarmos todos inscritos no desemprego – tirada final da alocução de Lucky Luciano. 
Que diria a isso o napolitano Mister Alfonso Gabriel Capone?
Sim, alguém pergunta ao empoado Alfonso Capone se está disposto a apresentar-se voluntariamente à prisão e cumprir uma levíssima pena, só para aplacar a opinião pública e fazer as coisas acalmarem. A resposta de Capone foi levantar-se de repente, atirar com a cadeira e desferir um irado chorrilho de obscenidades, gritando:
- Deixem lá, rapazes, descansem… descansem que vocês ainda vão  ouvir falar de mim!
Discutido o melindroso item com os seus conselheiros, Capone teve de dar razão ao seu inimigo de infância, Lucky Luciano. A prisão podia resultar numa chance para ele.
Dois dias depois, Capone e um dos seus capangas são detidos por posse ilegal de armas e levados para a penitenciária de  Filadelfia. Os polícias que o foram prender, claro, faziam parte da lista de pagamentos do gang. Aliás, Capone pagou 20.000 dólares a cada um deles pela sua própria prisão. Dez meses de prisão numa cela atapetada, telefone para longa distância, cómoda, sofá e um rádio.
O telefone do irmão, Ralph, que ficou à testa dos negócios, é que estava sob escuta, e por aí a policia tomou conhecimento de muitos dos negócios ilegais de Capone, designadamente, e em tempo de lei seca, uma quantidade de cervejarias. Essas cervejarias clandestinas começam então a ser invadidas e destruídas pela polícia federal.
O homem que vai andar furiosamente na cola de Capone é um detective federal chamado Eliot Ness, imortalizado pela televisão e por um filme de Brian de Palma, Os Incorruptíveis  - com o Kevin Kostner
A guerra mais a sério contra Capone arranca depois de o presidente Hoover ter visitado em Miami Beach um bairro de gangsters. Hoover afirmou ter visto mulheres nuas a dançar em volta de uma fogueira enquanto alguns dos gangsters disparavam para o ar. 
Não sei se o que impressionou mais o presidente Hoover foram as mulheres nuas se os gangsters aos tiros. O que se sabe é que Hoover declarou que era finalmente preciso fazer alguma coisa contra aquele estado de coisas.
A Capone teríam que lhe pegar pelo lado da contabilidade. Da contabilidade com o fisco. Mas começariam pelo nº 2 de Capone, Frank Nitti. Calcularam-lhe os ganhos e as despesas e não viram documento probatório de que tivesse algum dia pago impostos. Cadeia com ele. 18 meses. E multa de 10.000 dólares.
A seguir foi o irmão de Capone, Ralph. Três anos numa penitenciária do Kansas.
Al Capone nunca conseguiria realizar o sonho de voltar a Los Angeles e por lá se radicar. E assim porque nunca conseguiu infiltrar-se nos sindicatos do crime que dominavam Hollywood, roubando as quotizações aos associados, extorquindo dinheiro aos estúdios. Não o fez Capone em Hollywood. Mas houve muito quem o fizesse.


A Proibição acaba em 5 de Dezembro de 1933. Às mafias toca-lhes inventar novos meios de enriquecimento ilícito. Hollywood acena-lhes. Hollywood é uma tentação. 
E Capone tem sucessores em Chicago. Sucessores mais modernizados e profissionais do que ele, e que planeiam alto e em grande. Por exemplo, apoderarem-se das grandes companhias produtoras de filmes.
   





quinta-feira, 11 de setembro de 2014

                              REPRESENTAR



(…)
Ele não respondeu, de modo que Julie teve de falar de novo.
       - Não és feliz?
       - Sou perfeitamente feliz – respondeu, sorrindo.
       - Que desejas então?
       Uma vez mais, Roger fitou-a de uma maneira desconcertante. Era difícil saber se estava sério, pois os seus olhos tinham um leve fulgor zombeteiro.
       - Desejo a realidade.
       - Como?
       - Tenta compreender: tenho vivido sempre suspenso numa atmosfera de ilusão. Quero pisar terreno firme. Tu e o pai dão-se muito bem respirando esse ar. Não conhecem outro, e pensam, naturalmente, que é o ar do céu. Eu, porém, sinto-me sufocado.
       Julie escutou-o atentamente, procurando compreender o sentido das suas palavras.
       - Somos actores, e actores de sucesso. Foi por essa razão que pudemos rodear-te de todo o conforto desde que nasceste. Poderias contar pelos dedos os actores que mandam os filhos para Eton.
       - Estou muito grato por tudo o que têm feito por mim.
       - Então porque nos censuras?
       - Não estou a censurá-los. Vocês fizeram por mim tudo o que podiam. Mas, infelizmente, fizeram-me descrer de tudo.
       - Nunca interviemos nas tuas crenças. Sei que não somos pessoas religiosas. Somos actores, e, depois de oito representações por semana, não se sente vontade de nos entregarmos à devoção ao domingo. Esperei, naturalmente, que o colégio cuidasse de todas essas coisas.


       Ele hesitou um pouco antes de falar novamente. Dir-se-ia que fazia um certo esforço sobre si mesmo para continuar.
       - Quando ainda era um rapaz de catorze anos, fiquei uma noite nos bastidores a ver-te representar. A cena deve ter sido muito boa. Dizias as coisas que tinhas a dizer com tanta sinceridade e as palavras que pronunciavas eram tão comoventes que senti vontade de chorar. Fiquei abalado. Era uma emoção que nem sei explicar. Fiquei como que suspenso. Tive tanta pena de ti! Via-me como um pequeno herói e achei que não devia fazer mais nada que pudesse contrariar-te. E então vieste para o fundo do palco, bem perto de onde eu estava, ainda com as lágrimas a deslizar pelas faces. Voltaste as costas à plateia e perguntaste ao contra-regra com a voz mais natural deste mundo: “que é que o raio desse electricista está a fazer com as luzes? Dei ordem para tirar o azul.” E depois, no mesmo momento, voltaste-te novamente para o público num grande grito de angústia e continuaste a cena.
       - Mas, querido, o teatro é assim mesmo. Se uma actriz sentisse as emoções que representa ficaria em pedaços. Lembro-me perfeitamente da cena. Eu fazia a casa vir abaixo. Nunca ouvi tantas palmas em toda a minha vida.
       - Creio que fui um tolo em levar aquilo a sério. Pensei que estavas a sentir tudo o que dizias. Quando vi que era só fingimento alguma coisa morreu dentro de mim. Desde então nunca mais acreditei em ti. Tinha feito papel de parvo, e intimamente decidi que isso não sucederia outra vez.


       Ela lançou-lhe o seu sorriso que seduzia e desarmava.
       - Querido, acho que estás a dizer tolices.
       - É claro que pensas isso. Não conheces a diferença entre a verdade e a ilusão. Nunca deixas de representar. Já é para ti uma segunda natureza. Representas para os criados, representas para o papá, representas para mim. No que me toca, fazes o papel de mãe ilustre, carinhosa e indulgente. Não existes, és apenas uma série de papéis representados. Pergunto muitas vezes a mim mesmo se não houve uma criatura humana em ti ou se foste sempre um meio de expressão para todas essas outras pessoas que finges ser. Quando te via entrar num quarto vazio sentia várias vezes o desejo de abrir a porta de repente, mas tive receio de não encontrar ninguém lá dentro.
       Ela fitou-o vivamente. Estremeceu, pois as palavras do filho causaram-lhe uma sensação arrepiante. Escutou-o atentamente, com certa ansiedade, pois havia percebido pelo tom sério de Roger que ele exprimia alguma coisa que o torturara durante anos. Em toda a sua vida nunca ela o ouvira falar tanto.
       - Achas que sou apenas simulação?
       - Não é bem isso. Porque simulação é tudo o que tu és. A simulação é a tua verdade. A margarina também faz as vezes da manteiga para quem não sabe o que é realmente manteiga.
       (…)


       Julie quis sorrir, mas não deixou que a expressão de dignidade ofendida lhe fugisse do rosto.
       - É a nossa fraqueza e não a nossa força que nos torna estimados por aqueles que nos amam.
       - Em que peça disseste isso?
       Julie reprimiu um gesto de irritação. A frase viera-lhe aos lábios naturalmente, mas pertencia a uma peça. Atrevido! Mas a conversa entre os dois continuou muito cordialmente.
       - És grosseiro - disse num tom queixoso. Começava a sentir-se cada vez mais a mãe de Hamlet. – Não sentes amor por mim?
       - Sentiria se pudesse encontrar-te. Mas onde estás? Se te arrancassem do teu exibicionismo, se te tirassem a técnica teatral, se te descascassem como se descasca uma cebola, extraindo-se película após película de simulação e insinceridade, farrapos de velhos papéis e retalhos de emoções fingidas, seria encontrada finalmente a tua alma? – fitou-a com os seus olhos sérios, melancólicos, e depois sorriu um pouco. – Mas eu gosto de ti mesmo assim.
       - Crês que te amo?
       - À tua maneira.


       (…)
“Quantas idiotices Roger proferiu no outro dia! E o pobre Charles que parecia levá-lo a sério… ele não passa de um pedantezinho.” Fez um gesto na direcção do salão onde se dançava. As luzes tinham sido reduzidas e, donde ela estava, o ambiente tornara-se ainda mais parecido com uma cena de teatro. “O mundo todo é um palco e todos os homens e mulheres são apenas actores.” Mas através daquele arco havia a ilusão. “Nós, os actores, é que somos a realidade.” Essa era a resposta a dar a Roger. “Em geral, as pessoas são matéria bruta. Nós é que damos sentido às suas vidas. Apanhamos as suas tolas emoçõezinhas e transformamo-las em arte, com elas criamos beleza. O valor que possuem é o de formar a plateia que devemos ter para nos realizar plenamente. São os instrumentos que tocamos. E que vale um instrumento sem alguém para tocá-lo?”

SOMERSET MAUGHAM – Theatre (A Outra Comédia)
                                  Trad. Genolino Amado


Só uma pergunta minha sobre a estrutura da verdade e da mentira: será lícito (e lúcido) extrapolar esta ambiência de teatro e de actores para o mundo da política, dos políticos, dos jornalistas, da comunicação manipuladora de verdades e de mentiras, dos banqueiros, dos empresários, dos advogados, dos juízes, e respectivas verdades, sinceridades, honestidades e histrionismos que todos os dias vemos a vadiar pelos televisores em análises, debates, mesas redondas, comícios, e que cada um de nós vai descredibilizando a cada dia que passa até ao vazio, será?
Será que como o actor, que adquiriu com o tempo e a prática da profissão uma espécie de segunda natureza, também o político profissional (e o jornalista e o banqueiro e o empresário e o advogado e o juiz) a adquiriu – com o ónus terrível de estar a actuar sobre o drama real de milhões de vidas; ao invés do actor, que toda a gente, à partida, sabe não ser exactamente e pessoa que representa no palco, sendo-a todavia por umas horas?
A verdade pode não existir. A verdade pode constar de uma sobreposição permanente de bem concebidas ficções, ou mesmo mentiras, que adquire sentido e fulgor num dado momento para um dado grupo de pessoas.
        


domingo, 7 de setembro de 2014

O GIGOLO E A ESTRELA ASSASSINA



Lana Turner teve uma infância difícil, incluindo maus tratos por parte de uma família a quem fora entregue muito miúda.
O choque que sofri na minha infância pode ser uma boa desculpa para os meus comportamentos actuais. Isso pode explicar coisas que ainda hoje não consigo compreender.
Foi descoberta para o cinema aos 15 anos, quando andava no liceu de Hollywood, e contracenou com John Garfield em O Carteiro Toca Sempre Duas Vezes, em 1946. 
                                    
                                                                                          

Nos primeiros anos 50, Lana Turner já era uma estrela mundialmente aclamada, ganhava 5.000 dólares por semana e vivia numa mansão de 15 quartos, com uma fonte de soda para os whiskies, um salão de beleza com todos os matadores, dez criados, entre eles uma rapariga cujo único trabalho era pôr e tirar discos enquanto a patroa se maquilhava.Tudo isso até 1956. Em 1956 viviam-se maus tempos para os grandes estúdios, em boa parte devido ao incremento da televisão que fazia o público afastar-se das salas de cinema e ficar em casa. As receitas dos filmes de Lana Turner baixavam e a Metro negava-lhe a renovação do contrato. Lana sentiu pela primeira vez a carreira a declinar.
No ano seguinte é o divórcio do seu quarto marido, Lex Barker, um dos mais conhecidos tarzans do cinema, e tal acontece quando a filha, Cherryl, acusa o padrasto de a violar regularmente desde os dez anos. Lana fica desfeita e dá a Lex Barker vinte minutos para fazer as malinhas e se pôr a andar da mansão.


(Até à sua morte, em 1973, o pobre Lex Barker jurará a pés juntos a sua inocência.)
Lana Turner não se poupou nos casamentos. 
Entre outros menos assinaláveis foi casada com o músico Artie Shaw e com o milionário Henry Topping Jor., aquele que, ao propor-lhe casamento à mesa do Club 21 de Los Angeles, deixou cair um anel de diamantes dentro do copo de martini que Lana tinha na frente.E, para não variar, Lana Turner, uma estrela de cinema fisicamente entre Jean Harlow e Marilyn Monroe, também teve como amante o célebre mafioso Johnny Rosselli.
Calha bem aqui uma citação da própria Lana Turner, que embora fadada para viver histórias de alguma faca e algum alguidar não devia ser parva nenhuma. Dizia ela: O homem de sucesso é aquele que ganha muito dinheiro e é casado com uma mulher que o gasta. A mulher de sucesso é aquela que consegue encontrar esse homem.
Divorciada de Lex Barker, Lana Turner dá em acompanhar com um homem que diz chamar-se John Steele e lhe oferece flores e jóias. Mas, por intermédio de amigos, Lana vem a saber que o John Steele não era nada John Steele, que o John Steele era Johnny Stompanato. E, ah, é verdade, Johnny Stompanato era um gangster da seita do mafioso Mickey Cohen, já aqui mencionado anteriormente noutras histórias. Johnny Stompanato já por duas vezes havia sido constituído arguido, contudo sem nunca ter sido condenado.
Mais: Stompanato já se repartira por diversas actividades, vendedor de automóveis, armazenista de mobílias, proprietário de uma loja de animais, sendo porém a sua principal fonte de rendimentos a actividade de gigolo, para a qual uma actriz amiga de Lana Turner o dizia muito dotado.


Nunca se sabe se não foi deste ou de outro caso como este que BillyWilder retirou a inspiração para o filme Sunset Boulevard.
Para a polícia, Johnny Stompanato tinha ficha de extorsionário. Extorsionário com a mira assestada para mulheres ricas e sós. E Lana Turner, quando sabedora de tudo isto, passa uma temporada sem atender os telefonemas de Johnny. Johnny andava na roda de gangsters mafiosos e ela temeu a má publicidade que tal lhe traria à carreira.


E a partir daqui só contarei cenas que apesar de reais mais parecem cenas de um filme.
Uma noite, Stompanato, o gigolo, consegue introduzir-se em casa da estrela, acede ao quarto de cama e começa a querer sufocá-la com uma almofada. Sentindo que a actriz está a ficar-se, retira a almofada e desata a beijá-la. Ora, foi o bastante para Lana Turner se apaixonar demencialmente pelo mafioso gigolo. Era excitante até ao limite aquela relação. Aquela relação pedia-lhe um amor obsessivo, cimentado sobre violentas zangas e ternas reconciliações.


A vida estava má para todos naquele período, e Hollywood vivia um tempo em que os mafiosos a operar no terreno – segundo suspeitas da polícia – engendravam situações comprometedoras a algumas das estrelas maiores para depois as poderem chantagear. Um dos estratagemas era conseguir gravações de conversas privadas, íntimas, e depois comercializá-las no mercado negro, ou não comercializar, conforme o que o artista – geralmente uma actriz– estivesse disposto a pagar por elas. E as fitas gravadas com as discussões de Lana Turner e o seu gigolo não tardaram a chegar ao mercado e a valer cada conversa umas boas centenas de dólares.


Lana Turner tinha então uma sociedade independente de produção de filmes e o gigolo Stompanato conseguiu que ela lhe desse um lugar na estrutura da empresa, produtor delegado. E nesse pé partiram para Inglaterra para a rodagem do primeiro filme a produzir pela sociedade. O filme chamar-se-ia AnotherTime, Another Place, e a estrela contracenaria com Sean Connery.   
Mas durante as filmagens, Stompanato convence-se de que a amante está em vias de cair nos braços do seu parceiro no filme e um belo dia resolve invadir o plateau e avançar para Sean Connery de pistola na mão, ameaçando-o. Connery, rapidíssimo, aplica-lhe um banano certeiro e bem assente, tira-lhe a arma da mão e exige que ele nunca mais ponha os pés no estúdio.
A patroa Lana Turner demite o gigolo do seu lugar de produtor delegado e ele, quando sabe disso, vai para a estrangular. Falha por pouco, mas as cordas vocais de Lana ficam de tal modo afectadas que por três semanas ela só pode rodar planos sem diálogo.
É aconselhada a apelar à polícia. A Scotland Yard toma conta da ocorrência e opta pela deportação do desordeiro. Em 24 horas Stompanato aparece no aeroporto, pronto a ser recambiado para os EUA. No entretanto, comunica à amante que o nome dela até pode calhar em conversa quando ele falar com o pessoal da Mafia.


Em Janeiro de 58 as filmagens terminam em Londres. Lana concede-se um período de repouso no México. Apanha um avião que faz escala em Copenhaga. E quem está à espera dela em Copenhaga, quem é, rodeado de jornalistas e fotógrafos? Claro, Johnny Stompanato. E acabam por seguir os dois para Acapulco.
A actriz, que segundo todas as aparências transportava para fora dos plateaux as suas personagens, dirá mais tarde – sabe-se lá com que verdade – que foi à força de uma pistola encostada à cabeça que dormira com Stompanato em Acapulco.
Nomeada para um Óscar nesse ano de 58 – suponho que pela interpretação em Peyton Place –, Lana está presente na cerimónia, e, acabada a cerimónia vai para casa. O gigolo está à espera dela. Bate-lhe. Deixa-lhe a cara num bolo e os olhos negros.
A filha de Lana Turner tem agora 14 anos. A mãe confessa-lhe o medo que tem do amante. A miúda aconselha-a muito avisadamente a queixar-se à polícia, mas Lana recusa a ideia, o gang de Mickey Cohen, de que o amante fazia parte, com certeza que mais dia menos dia lhe faria a folha.


Em Abril ainda desse ano de 58, Lana Turner e a filha mudam-se para New Bedford Drive em Beverly Hills. Johhny Stompanato acompanha-as.
As discussões e as violências não cessam. Numa noite há gritos desgarrados no quarto do 1º andar. Só porque Lana Turner, extremamente susceptível no que tocava à idade, com 37 anos se sentia a envelhecer e a decair a olhos vistos, e descobrira que o amante era muito mais novo do que lhe dissera ser, e daí resultaria muito má publicidade para a carreira dela, sim, se se dissesse que ela se entretinha com homens mais novos.
Nessa mesma noite, Lana põe os pés à parede e decreta que as relações entre ela e Johnny Stompanato estavam terminadas. E intima-o a sair-lhe de casa. Ele não concorda e ameaça-a: se lhe der na mona até pode desfigurá-la; até pode fazer mal à filha. É só passar-lhe alguma coisa pela cabeça. 


Cheryl, a filha, está no quarto do lado a fazer os TPC e ouve o que se está a passar no quarto da mãe. E decide-se. Deixa os livros e os cadernos e desce à cozinha. A governanta da casa vê a miúda sair da cozinha com um cutelo de carniceiro de 20 cm., rais parta a miúda para onde é que ela vai com aquilo na mão? E Cheryl, cutelo na mão, sobe ao 1º andar.
Cheryl bate à porta do quarto da mãe. Os gritos continuam. Ouve a mãe gritar que está farta, que está pelos cabelos. Ouve o amante gritar ah, minha cabra que é mesmo esta noite que morres. Cheryl bate outra vez à porta. É a mãe que abre. Cheryl entra e vê Stompanato com um braço alçado. Palpita-lhe que ele vai agredir violentamente a mãe. 
Bem, Stompanato não ia agredir a mãe, estava de braço no ar porque estava compor os suspensórios nas costas. Mas quando vê a rapariga, o gangster precipita-se para ela, cai sobre ela e espeta-se no cutelo de carniceiro. A esvair-se em sangue, consta que terá dito Cheryl, meu Deus, que é que tu fizeste?
Stompanato é acometido por uma convulsão e cai morto no tapete do quarto. Cheryl remove calmamente o facalhão do corpo do gigolo, pousa-a na cómoda e sai do quarto aos gritos. Eram 9,20 da noite de 4 de Abril de 1958.

                         
                                                          

O primeiro a chegar à cena do crime na noite de 4 de Abril foi o médico pessoal da actriz, que imediatamente a aconselhou a recorrer a um advogado da Mafia, Jerry Giesler, um que defendera Bugsy Siegel 18 anos antes. E quem vem identificar o cadáver do gangster não é outro senão o chefe dele na Mafia, Mickey Cohen. 
- Este assunto não me está a agradar nada- diz o mafioso aos jornalistas. - Palpita-me que ainda há muitas perguntas sem resposta, e eu preciso de saber a verdade custe o que custar.
O cutelo não tinha impressões digitais. Fora umas gotinhas num tapete cor de rosa, não havia sangue no quarto. Mickey Cohen era de opinião de que Lana Turner e a filha haviam assassinado Johnny Stompanato enquanto ele dormia.
Num hotel em Westwood guardava Stompanato as suas coisas. Tinha lá um quarto, tratava lá dos negócios, dormia lá de vez em quando. Um dos recepcionistas, ao ouvir falar do crime, usando uma chave mestra, introduziu-se no quarto. As luzes estavam acesas e havia indícios evidentes de arrombamento na janela da casa de banho. Uma das criadas do hotel viria a dar por falta de um saco cheio de cartas que estivera sempre guardado no mesmo sítio.


Cartas? O chefe do gang, Mickey Cohen escrevera essas cartas, endereçadas ao jornal Los Angeles Herald para que Stompanato as remetesse. Cohen queria vê-las publicadas, de modo a informar a opinião pública de que Johnny Stompanato jamais perseguira Lana Turner, como ela afirmava. O que acontecia era Stompanato estar muito apaixonado por ela.
O irmão de Stompanato vem recolher o corpo. Diz à imprensa não acreditar na versão de Cheryl e quer que Lana Turner seja sujeita ao detector de mentiras. E pergunta: como é que uma jovem de 14 anos que nunca na vida se servira de facas para acções violentas teria forças e destreza para assassinar à facada um matulão que tinha sido fuzileiro?

                                                                                     

 Também ele pensava que o irmão estaria a pegar no sono no momento de ser atacado e morto. E até um chefe de polícia de Beverly Hills viria a fazer irónico reparo no facto de os gangsters não poderem acreditar que uma adolescente fosse capaz de assassinar um dos deles.
Entre os objectos pessoais de Stompanato havia um revólver e negativos de fotografias onde algumas actrizes de certa nomeada apareciam nuas e em poses comprometedoras. Entretanto, os advogados de Lana Turner queimam uma quantidade de negativos em que a actriz aparece nua.
Vai tudo para tribunal.


A televisão começa a transmitir em directo as sessões do julgamento do assassínio de Johnny Stompanato. 11 de Abril de 1958. 
Os fans acotovelam-se à entrada do tribunal para ver passar a estrela, tailleur cinzento de factura italiana e cabelo cortado à garçonne-


No tribunal, Lana Turner fala durante uma hora. Há quem diga que foi a melhor interpretação da vida dela. Tudo o que se diga terá de levar o tribunal a acreditar que se tratara de um homicídio, por assim dizer, justificável.
Na assistência do julgamento, alguém se levanta e acusa os investigadores de quererem proteger a estrela de cinema.
Houve quem defendesse que Stompanato se teria também travado de relações íntimas com Cheryl, a filha de Lana. Houve quem pensasse que mãe e filha estariam ambas apaixonadas pelo gangster.


Em suma, as culpas acabam por recair na filha da estrela, Cheryl, de 14 anos.
 

O tribunal decide colocar Cherryl sob tutela num centro para delinquentes juvenis. Esteve lá três semanas e depois foi enviada aos cuidados da avó. Fez duas tentativas de suicídio.
Stompanato teria dito à Turner que a Mafia sem dúvida o vingaria se lhe acontecesse alguma, e Lana Turner muda de poiso. Declara ter recebido cartas anónimas com insultos e ameaças de morte. A polícia vigia-lhe a casa dia e noite.
Lana Turner estava crivada de dívidas, dívidas aos advogados, dívidas até à Metro Goldwyn Mayer. Temia nunca mais vir a ter trabalho depois de tudo aquilo. Mas pouco tempo depois há um produtor que a contrata e lhe propõe o papel de protagonista no remake, dirigido por Douglas Sirk, do filme  nos anos 30. Imitação da Vida. Uma intriga a girar à volta de uma mulher egoísta que ora mimava ora desprezava a filha, e estando ambas apaixonadas pelo mesmo homem.
O filme foi feito e rendeu muito bom dinheiro. Bom dinheiro esse dividido entre o produtor, Ross Hunter, e a estrela. E de tal modo o filme vendeu bem que Lana Turner terá ficado milionária e recomposto as finanças.
O público convenceu-se de que a história do filme, tal como êxito de outro filme anterior, Peyton Place, se relacionava com a própria vida privada da estrela, e talvez daí o sucesso.
Mas o que dá a ideia é de que, na volta, claro, tão mafiosa era a estrela como o seu gigolo. Provavelmente até mais ela do que ele. Ou mafiosa e criminosamente engenhosa, ela ou quem a terá aconselhado a cometer o crime, bem como quem a terá industriado sobre a técnica de o ocultar.
A partir de 1970 Lana vive com um ex-cabeleireiro e ex-professor de dança, Eric Root de seu nome. É este homem que muitos anos depois declara ter-lhe a actriz contado a verdade.
E a verdade (ou a suposta, embora plausível, verdade) é que teria sido a própria Lana Turner a assassinar Johnny Stompanato.
- Matei esse filha da puta… e se tivesse que voltar a fazê-lo não tenhas dúvidas de que o faria.
O tal Root escreve um livro. Nesse livro uma outra versão dos factos aparece à luz do dia.
E recapitulando (flashback)… perante o crime consumado, como já foi dito, comparecera o médico pessoal da actriz que a aconselhara a chamar o advogado Jerry Giesler. Jerry Giesler aparecera, sim senhor, acompanhado por um detective particular. Tudo isto antes da chegada da polícia. O trabalho deles fora o de convencer Lana a deixar que fosse a filha a suportar a responsabilidade do crime em lugar dela.
É o detective particular que limpa os vestígios, todas as impressões digitais do cutelo, afinal as impressões digitais da própria Lana - detective particular foi ele (Frank Otash) que também apareceu, dizem, na cena final da vida de Marilyn Monroe.
- Parece que vocês vieram matar um porco para cima da cama - terá dito o detective particular diante do espectáculo de sangue.
Um escritor virá a classificar o caso como uma luta de poder entre concorrentes, um mistério que se adensou em todas as suas infinitas complicações.  
Mesmo assim, Lana Turner voltará aos estúdios e regressará ao êxito com Um Solteirão no Paraíso (ao lado de Bob Hope), Retrato a Negro e Madame X. Virá ainda, nos anos 80, a aparecer na série televisiva Falcon Crest.
E Lana Turner morre de cancro na garganta em 1995, com 74 anos.

 


Esther Williams, a actriz, declarou um dia que ninguém nunca virá a saber a verdade toda sobre o assassínio de Johnny Stompanato. E porquê? Porque as provas de um delito costumam desaparecer muito naquela zona do mundo chamada Hollywood. E porquê? Porque Hollywood procura sempre, e antes de tudo o mais, proteger-se.