domingo, 5 de outubro de 2014

                   COTTON CLUB


Bob Evans, o buliçoso e cocainómano produtor in charge de O Padrinho, passa o ano de 1983 a trabalhar noutro projecto de filme, Cotton Club. 


Precisa de dinheiro. É claro. Ou melhor, precisa de vender o projecto a quem o pague melhor, seja texano dono de poços de petróleo, seja empresário da construção civil, seja traficante de armas, seja cadeia de fast food. E para vender o seu peixe usa um argumento que julga forte:
- Isto que tenho entre mãos, meus amigos, é uma espécie… ou melhor, é a mesma coisa que O Padrinho. Mas em melhor. Porque é em música. É como vos digo, rapazes, gangsters, música e mulheres fáceis. Dinheiro em caixa! Essa é que é essa!


Até que aparece um financiador. Que traz dinheiro de Porto Rico. 
                                                                                 
Financiador que vem através de conhecimentos do motorista de Bob Evans, que lhe apresenta uma mulher, Lanie Jacobs, que por sua vez o leva a um empresário de espectáculos chamado Roy Radin que tem o sonho de ser produtor de cinema e que, como disse, traz dinheiro de Porto Rico.
Bob Evans aceita o compromisso com esse Radin e esquece a mulher, Lanie Jacobs, que lho apresentou. Mas as coisas não são assim tão fáceis. Pois não, as coisas não são fáceis porque a mulher, Lanie Jacobs, quer ser parte igual no negócio.
 Bob Evans está em Nova York a preparar a rodagem do filme e o financiador de Porto Rico nada de aparecer.
De facto, Radin, o financiador de Porto Rico, desaparece da circulação. Isto… negócios com Porto Rico, já se sabe… e até me vem à cabeça um nome português… mas não é esse que me interessa para agora…


Lanie Jacobs é que aparece em Nova York para comunicar a Bob Evans que Roy Radin, o de Porto Rico, foi assassinado.
Lanie Jacobs, que se apresentou a Bob Evans como uma trintona texana divorciada, era só dealer de cocaína e estava ligada à Mafia. E quer uma parte no negócio de Cotton Club. E Bob Evans não lha quer dar. Bom, nesse caso, o nome dele entrará numa lista e a vida dele vai desvalorizar bastante.


 Nos anos 80, Hollywood estava muito mudada. Nos anos 80, em Hollywood, já não eram bem as majors e os chefes dos estúdios os todo-poderosos. Eram as agências artísticas. Forneciam de um dia para o outro, em pacote, com que realizar um filme: argumentistas, actores, figurantes, produtores, cenógrafos, realizadores. Por atacado. E assim, os patrões dos estúdios prestavam vassalagem aos agentes. Os agentes eram como padrinhos do tipo Don Corleone, agradeciam as prendas e as gentilezas dos estúdios e ouviam os suplicantes. Só não tinham um anel para ser beijado.
Também se dera início à idade do vídeo. Por causa disso, o cinema nunca mais seria o que em tempos fora. E quando Bob Evans, no Festival de Cannes de 1980 tem a ideia para Cotton Club e julga poder vender essa ideia com toda a facilidade a um capitalista, não sabe no que se está a meter, não sabe que para ele está só a começar um pesadelo.


Cotton Club. Sim, sim, era mesmo um clube nos anos 20. Um clube ilegal. No Harlem. E eram raros os brancos que nessa época se arriscavam a entrar no Harlem. Ou então os brancos que se aventuravam a ir ao Cotton Club, eram ou gangsters ou celebridades do cinema. Iam até ao Cotton Club e sentavam-se em mesas minúsculas dispostas em ferradura para presenciar os shows dos negros que tocavam, cantavam e sapateavam – Owen Madden, Charlie Chaplin, George Raft, Fred Astaire, Dutch Schulz (o mafioso holandês), Douglas Fairbanks e Mary Pickford… - cá estão alguns desses brancos.

 

                                          



Os negros estavam no palco. Cotton Club tinha uma orquestra privativa de negros, dirigida por um rapaz a quem todos prediziam um brilhante futuro, chamado Duke Ellington.
Evans lá arranja 8 milhões para dar início aos preparativos do filme. Ainda lhe faltam 12 milhões. Trata com o negociante de armas suponho que iraniano, Adnam Kashoggi, mas o negócio vai por água abaixo. O preço dos trabalhos de pré-produção já sobe aos 140.000 dólares por semana.
E que tem Evans de concreto para arrancar com a fita? Um argumento de Mario Puzo – o autor de O Padrinho, recordo – mas um argumento que não impressionava ninguém; e o actor Richard Gere para o papel principal – Richard Gere que ao perceber os apertos do seu produtor ficou em pulgas para saltar fora do projecto. Bob Evans tinha umas acções da Paramount e vendeu-as para realizar capital.
Evans parece conseguir convencer uns irmãos libaneses proprietários de casinos, Frederick e Eduard Doumani. 
Conta-lhes que a mulher que queria uma parte na sociedade, a tal Lanie Jacobs, tinha encomendado a morte do primeiro financiador, Roy Radin, e que ele, Evans, estaria a seguir na lista dela. Os irmãos libaneses meneiam as cabeças, envolvem outro nome no negócio – não nos interessa para o caso – e preparam-se para financiar Cotton Club. Orçamento: 20 milhões.
Os libaneses, que também são donos do El Morocco de Las Vegas, são sócios do mafioso Joe Agosto e do mais conhecido Joey Cusumano. Estão metidos em sarilhos com as autoridades, são testemunhas-chave do processo em curso contra os chefes da mafia de Kansas City, que haviam feito mão baixa sobre os hoteis de Vegas.
Se calhar o eventual leitor não sabia que o mundo do cinema era um mundo perigoso. Eu, por mim, já tinha desconfiado, mas nunca imaginei que o fosse a este ponto…
Aquele Joey Cusumano era, estava-se mesmo a ver, um homem da Mafia; era o delegado da Mafia de Chicago em Las Vegas. E era perseguido pela ligação com um gangster, um tal Spilotro…
- Claro que sou amigo dele, mas o facto de se ser amigo de um cirurgião não faz de uma pessoa um cirurgião.
Lá isso é verdade…
Mas o FBI é que andava há dez anos em cima dele e não encontrara maneira de o incriminar.
O que ele, esse Cusumano, queria era ser produtor de cinema. Evans ouvia-o e pensava que ele estaria muito mais à vontade com uma metralhadora ou um revólver nas mãos do que a tratar de câmaras de filmar.
 E Bob Evans mete em cabeça ser ele mesmo a realizar o filme. Pede a Francis Ford Coppola, amigo desde a aventura de O Padrinho, que lhe reescreva o argumento e põe logo de parte a ideia de ser ele a realizar Cotton Club. Coppola, que está de novo à nora com dinheiros, pergunta-lhe se não quer que seja ele, além de argumentista, o realizador. Evans fica encantado da vida. Até eu ficava…
E escreve-se uma história que cheira à história real do já tantas vezes aqui falado gangster-actor George Raft.
O trompetista Dixie Dwyer – que seria Richard Gere – salva a vida do gangster Dutch Schulz. Como reconhecimento passa a figurar na lista de pagamentos do mafioso enquanto espião de Schulz em Hollywood, velando pelo andamento dos investimentos dele. E pronto, o trompetista ao serviço do gangster acaba por se apaixonar pela namorada desse gangster que lhe paga…
A 28 de Agosto de 1983 começa a rodagem.


Um caos. De princípio a fim. Desde logo pelo pormenor de Richard Gere fazer de trompetista branco, quando no Cotton Club dos anos 20 só eram admitidos músicos negros. Negro, no filme, é o dançarino de claquettes, Gregory Hines.


Coppola improvisa todos os dias, em vista das dificuldades que todos os dias surgem com isto ou com aquilo – Gere não se apresenta no plateau porque ainda não chegou a acordo quanto ao contrato, por exemplo.
Escolheram-se locais de filmagem que não vão poder ser usados. Construíram-se cenários que são para deitar fora. Ao improvisar a rodagem do filme, Coppola pensa na técnica de improvisação dos músicos de jazz. Mas a questão era improvisar num negócio de dezenas de milhões de dólares. Ao ponto de Coppola chegar a rodar uma cena que o seu co-argumentista lhe ia ditando de uma cabine telefónica.


Os músicos negros que representavam a orquestra de Duke Ellington foram trocados por brancos, e aos brancos foi exigido que reproduzissem o som da orquestra do Cotton Club dos anos 20.


O actor inglês Bob Hoskins fazia o papel do gangster Owen Madden - o padrinho de George Raft, já falámos dele. Na opinião de Bob Hoskins, o filme fora financiado por investidores de Las Vegas porque era uma boa oportunidade para lavar dinheiro. E ele diz isto porquê? Porque todos os dias o financiamento chegava em contado dentro de grandes malas que uns tipos mal encarados entregavam ao produtor Bob Evans.


Mas a chegada das malas do dinheiro era irregular, e assim, era impossível fazer contas, fazer previsões. Daí, em boa parte, a improvisação de Coppola. E depois, com as malas do dinheiro chegavam as malas com a cocaína - de que Bob Evans era grande consumidor.
E Coppola ia gastando o dinheiro, inventando na sua improvisação cada vez mais cenas dispendiosas. E os homens de Las Vegas viam o seu a arder e torciam o nariz. Não ficara estipulado no contrato que Coppola se responsabilizaria pelas despesas que excedessem o orçamento, e Coppola estava na maior, e os capitalistas viam a vida deles a andar para trás. O filme estava a importar em 1,2 milhões por semana.
Os homens de Las Vegas procuraram então um mafioso qualquer que metesse em respeito quem lhes estava a estafar o rico dinheirinho. E é o tal Cusumano quem lá está para isso. Chega todas as manhãs, senta-se a um canto, não diz uma nem duas, deixa correr.


Cusumano explicaria mais tarde:
- Antes de abrir a boca para falar preciso de saber de que é que estou a falar. Já o meu querido paizinho me dizia “não fales muito, filho, que os peixes só são apanhados quando abrem a boca”.
Porque Coppola tivera artes de apaparicar o mafioso. Mandara que pusessem para ele, ao lado da sua, uma cadeira de realizador – e com o nome dele escrito nas costas Joey.
Evans dirá que Coppola era um Maquiavel que conseguira transformar aquele que seria naturalmente o seu inimigo – estava ali para lhe cortar as vasas da megalomania – num colaborador e num aliado.
A ambiência das filmagens de Cotton Club faria então lembrar a magnífica comédia de Woody Allen (quem sabe se inspirada nas filmagens de Cotton Club) Balas Sobre a Broadway, quando um gangster enviado à Broadway para vigiar os ensaios do investimento numa peça de teatro do seu patrão mafioso começa pouco a pouco a dirigir ele a peça.


Cusumano diz aos homens de Las Vegas para não se aproximarem de Coppola. Coppola era um criador, não estava com paciência para ouvir falar constantemente em orçamentos. Cusumano respondia por Coppola.


Quando a despesa passou do milhão e meio verificou-se que as caixas e as malas do dinheiro estavam vazias e que por aquele andar o custo do filme chegaria aos 48 milhões de dólares. Os rapazes da Mafia de Las Vegas que tinham adiantado o dinheiro a Bob Evans para lançar a produção, telefonam-lhe. Pois era, ou recuperavam o seu dinheiro, e depressinha, ou haveria chatice da grossa. E os telefonemas sucediam-se. E Evans andava num virote. E pediu três milhões e meio a um agiota a uma taxa de juro de enlouquecer. E hipotecou a casa.
- Esta gente de Las Vegas não se preocupa mesmo nada com as coisas artísticas.
Envia um cheque de 46.000 dólares aos credores. Cusumano informa Coppola: as filmagens terão de ficar concluídas a 23 de Dezembro desse ano de 1983. Coppola terá de condensar as cenas principais num plano de filmagem de três semanas – não era problema que ele não tivesse já tido em O Padrinho. Depois de O Padrinho, no entanto, Coppola tornara-se um perfeccionista. Podia filmar sete vezes a mesma cena. Pois bem, em Cotton Club seria obrigado a aprontar 40 sequências em três dias.


Cusumano, o mafioso, ia creditado no filme como produtor executivo, andava cheio de ilusões a respeito da indústria cinematográfica, estava convencido de que o seu destino era a 7ª arte, pensava a sério em mudar de vida, em transferir-se de Las Vegas para Hollywood.
- Compro uma casa na praia, meto-me no cinema e levo uma rica vida.
Coppola até lhe escreve uma carta de recomendação lá para Hollywood.
(Anos mais tarde, este Cusumano levaria quatro anos de prisão por burla no sindicato dos empregados de restauração de Las Vegas e por fraude a uma seguradora.)
Evans acusava os tais irmãos libaneses, os Doumani, de o terem ameaçado de morte. E para honrar as dívidas, renuncia à sua parte nos lucros de Cotton Club.


E Cotton Club é um flop comercial e de crítica – embora eu o ache um excelente filme.


Talvez a esta hora já não se lembrem de Roy Radin, o tal empresário de espectáculos que se apresentou como primeiro financiador de Cotton Club com uns dinheiros de Porto Rico e que desaparecera como o fumo, e que depois a Lanie Jacobs informou que fora assssinado
Na realidade fora assassinado mesmo. E pela própria Lanie Jacobs, de conluio com uns gandulos. O conflito entre eles tinha tido a ver com o assalto à casa da Lanie. Assalto esse em que lhe tinham sido roubados 10 kg. de cocaína e 270.000 dólares. E Lanie lá entendeu que Radin não era estranho àquele assalto e que pelo menos devia saber onde estavam os 10 kg da coca e os 270.000 dele. Porque depois também ela ficou em cheque perante os fornecedores da droga, que queriam saber por miúdos como tinha sido isso do roubo.
A 13 de Maio de 1983, Lanie e Radin tinham marcado um jantar em Beverly Hills. Lanie tinha chegado à porta do hotel onde Radin se hospedara. Mas o Radin tinha medo daquela mulher que se pelava e pedira a um amigo para seguir o carro de Lanie até Beverly Hills. Radin entrara na limousine de Lanie… e nunca mais ninguém lhe pôs a vista em cima.
        
                               

Lanie Jacobs - entretanto casada com um suspeito de tráfico de droga colombiana - vem a ser presa e acusada da morte de Radin em 1991. (Poupo-vos os pormenores, por fastidiosos.) Mas, por qualquer razão que desconheço, os homens do ministério público querem à viva força que Bob Evans também seja implicado no crime – afinal de contas, era gente envolvida no plano de financiamento do filme Cotton Club que ele queria produzir. E o que seria um caso relativamente corriqueiro por aquelas paragens, um assassínio ligado a um roubo de droga, tornou-se um caso mais complicado. O procurador-geral entendia que a causa do rapto e assassinato de Radin não fora motivado por outra coisa senão por uma disputa sobre os lucros de Cotton Club. E se calhar tinha razão…


Disse uma analista americana destas vidas, Joan Didion, que não há como Hollywood para que o móbil de um crime esteja relacionado com financiamentos absolutamente hipotéticos de um filme absolutamente hipotético. E se a Los Angeles dos anos 80 subsistia era em grande parte devido aos abusos de confiança. Los Angeles era uma cidade mantida pelo cinema e pelos negócios da droga.
O advogado de Bob Evans – mais tarde também de O. J. Simpson – aconselha-o a invocar a 5ª Emenda e calar-se. E Bob Evans cumpriu aquilo à risca e parece que até hoje nunca mais disse nem uma nem duas sobre os acontecimentos ligados ao filme Cotton Club.
A cocaína é factor decisivo na vida de Hollywood e muitos afirmam que os anos 80 do mafioso John Gotti por aquelas bandas se pareceu muito com os anos 20 de Al Capone. Em Hollywood não haverá argumentista, actor, produtor ou realizador que não seja viciado em cocaína, e até os agentes artísticos não se importam nada de ser pagos em cocaína.
O excedente de tesouraria da Reserva Federal de Los Angeles aumentou, entre 1985 e 1987, 2.300 %, 3,8 milhares de milhões de dólares. O que para muitos entendidos é um indicador da quantidade de dinheiro proveniente do tráfico de coca que é injectado no sistema. O Departamento de Justiça compara mesmo a economia de Los Angeles a um mar de dinheiro, salgado pela droga.
Dodi Al Fayed, lembram-se? A princesa do povo, Diana, o desastre, a morte, o pai dono do Harrods e do Ritz de Paris que suspeitava que o seu filho e mais a princesa do povo tinham sido mortos por ordem de Buckingham, etc..
Pois era um grande aficionado da cocaína, aquele Dodi, que Deus o tenha em descanso. E chegou a produzir (ou co-produzir) filmes. E comprava a cocaína a um tal Tony Fiato, homem de mão da Mafia de Los Angeles. Os mafiosos disseram dele que se servia das pessoas e que quando menos se esperava se punha na alheta e deixava atrás dele um comboio de dívidas.
Isto só mesmo os muito ricos para se endividarem. Ou os muito ricos, ou, como os exemplos cá da terra nos têm mostrado, os que se querem fazer passar por ricos.
E com mais ou menos Mafia pelo meio, O Padrinho  volta a estar na berlinda.
A Paramount era accionista de uma empresa italiana que branqueava para a Mafia dinheiros da venda de heroína. Mas a Paramount lá entendeu que a Mafia lhe deveria render lucros de várias maneiras, a bem ou a mal, pelo legal ou pelo cambalacho; pela realidade ou pela ficção. Tanto que em 1980 quis por força produzir uma terceira sequela de O Padrinho.
Coppola outra vez? Não, basta! Falemos de Scorsese, de Lumet, de Michael Cimino. Que tal?

                                          
Bom, nada, nenhum deles. Acabou por ser de novo Coppola: 6 milhões de dólares de cachet e 15% das receitas. Coppola andava mais uma vez às aranhas com dívidas e estava em riscos de perder os hectares de vinha de Napa Valley comprados com o dinheiro do primeiro O Padrinho.
Mario Puzo é chamado outra vez para dar uma mão no argumento. Seis meses para escrever o guião, pede Coppola. Seis semanas, concede-lhe a Paramount. O filme teria de estar pronto nas férias de Natal de 1990.
Interessante: Coppola recorre como inspiração a fontes literárias, Rei Lear, Titus Andronicus, Romeu e Julieta, e, espanto, à ópera: Rigoletto.
Mas às tantas desistiu da inspiração literária e operática. Decidiu que O Padrinho 3 seria o retrato do estúdio que o produzia. Isso mesmo: da Paramount.


E Coppola vá de rechear o seu último O Padrinho de teses bem perigosas e mal comportadas, sustentando que a verdadeira Mafia não era outra senão a própria igreja católica – estava maluco de todo aquele Coppola! -, e que era ali, na Igreja, que estava o verdadeiro poder; era ali que residia o secretismo, o mistério, a lei do silêncio.


Estava maluco, Coppola, embora, segundo o que constava (e do que sabemos hoje), pudesse não andar longe da verdade: o Vaticano branquearia dinheiro da Mafia, servindo-se de uma sociedade com o mesmo nome com que aparece no filme, Immobiliare. Sociedade essa que em 1970 comprara metade dos estúdios da Paramount, e com o agravo de aceitar a condição (escândalo!) de lá se poderem realizar filmes pornográficos.
- Não se dirigem os negócios da Igreja com avé-marias – disse Monsenhor Paul Marcinkus, um homem da igreja curiosamente nascido em Chicago (my kind of town), e que tratava das finanças do Vaticano em 1970.
E como alguns dos leitores mais atentos e de boa memória se recordarão - e no caso, está claro, de terem visto O Padrinho 3 - é a morte súbita do papa João Paulo I a linha de força do filme. E morte devida às complicações financeiras e mafiosas em que o Vaticano se via envolvido através de Monsenhor Marcinkus, e quando João Paulo I intentou pôr fim aos negócios escuros em que a Igreja estava metida.


Mas pronto, ficamos assim, chega de Mafia e de Hollywood. E acabaram as histórias morais sobre a exemplar democracia americana.
Ou não. Talvez só mais uma história… um dia destes…





 



domingo, 28 de setembro de 2014

                           O REI ESTÁ A MORRER


        Não, não se trata da peça do Ionesco… Le Roi se meurt… não, só se trata do testemunho a que achei piada de um psicanalista inglês, Ronald Fairbairn, ao tratar três dos seus pacientes nas vésperas da morte do rei Jorge V de Inglaterra, Janeiro de 1936, e as perturbações psíquicas que a iminência da morte do soberano provocou nesses três pacientes.

                                                                              

        Um jovem de 18 anos. É filho único até lhe nascer um irmão seis anos mais novo do que ele; e ainda, e de novo, filho único depois da morte desse irmão seis anos depois.
Não podia suportar a separação da mãe sem ser acometido de fortes ataques de ansiedade. Isso e mais uma situação hipocondriaca: sentia-se padecer de grave doença de coração. E com crises frequentes de palpitações violentas, e pânico ante a perspectiva de morrer.
A questão cardíaca radicava no medo de que a figura interiorizada da mãe o matasse; ou mais: que depois de o matar a mãe lhe devorasse o coração. Em sonhos vê um coração em cima de um prato e vê a mãe levantar uma colher.


Faltavam quatro meses para a morte do rei. Os boletins médicos começavam a ser emitidos do Palácio de Buckingham acentuando as complicações com o coração do rei. E foi então que os sintomas do paciente se exacerbaram depois de algum tempo de quietação. 
Mas não podia ligar o rádio. Se o fizesse ficava em pânico. Perturbações do sono, também. E a telefonar constantemente ao psicanalista em busca de alívio.
O rei Jorge V morre no dia 20 de Janeiro e o paciente só sabe da notícia na manhã seguinte. A noite que se segue é dormida por ele em sobressalto devido ao sonho em que ele próprio disparava uma pistola sobre um homem que identificava com o seu próprio pai; em que ele entrava numa sala e conversava com a mãe, e explicava à mãe o motivo por que atirara sobre o homem identificado como seu pai, e não era por detestá-lo, não, era por temer pela sua própria vida; e porque ao matar aquele homem matara-se a si mesmo e só lhe restava sujeitar-se a ser preso por seis anos; e é quando aparece uma jovem, e essa jovem passa a ser a pessoa que ele tinha matado, que de repente lhe parece ser o irmão – a morte real que lhe pesara na consciência por seis anos - mas que era a mãe, e a mãe representada como objecto de desejo sexual.  
Estaria perante a destruição de toda a sua família.
E na outra noite, outro sonho: a mãe, de pé no alto de uma escada, a adverti-lo para o perigo de comer geleia.

                                                                                 

Um homem de 31 anos, solteiro, segundo caso, com dois anos e meio de análise à data da morte do rei.
Fora ao psicanalista por causa de uma vontade permanente de urinar, uma vontade que lhe ocupava todo o tempo de vida consciente – quer dizer, desperto.
Mas era um tipo mais ou menos inválido, ou meio inválido, desde os cinco anos, qualquer coisa forte no tórax, um empiema (acumulação de pus na cavidade pleural – Wikipédia), e antes dos sintomas urinários já ele revelava ansiedades pelos sintomas do torax.
Depois de algum tempo de análise, consegue-se que a ansiedade urinária desapareça, mas a ansiedade toráxica recorre. E um pavor de poder ser envenenado pela comida, e daí em diante a aparecerem-lhe sintomatologias gástricas. Que se atenuaram para dar espaço à ansiedade quanto ao funcionamento da garganta, uma amigdalite, nada de mais. Faltava pouco para a morte do rei.
E o rei morre e ele deprime-se e reverte para a morte do pai, irritando-se pelo excesso noticioso sobre a morte de Jorge V. Preocupa-se mais com a saúde, subvalorizando todos os interesses normais que pudesse ter na vida. Havia uma congestão geral a ocupar-lhe o corpo da cintura para cima e alguma força nociva começava a nascer dentro dele.


Passados quinze dias sobre a morte de Jorge V, o paciente tem um sonho. Vê os charutos do rei. Roubam-lhe o carro. Telefona à polícia. Recebe uma novidade: o pai acaba de chegar de uma longa viagem. Muito bem. Convida o pai para um jantar lauto. É quando o ladrão aparece com o carro e ele, paciente, se atira a ele, ladrão, e lhe deita as mãos ao pescoço. E eis o anuncio: os charutos do rei estavam à venda por 147£ a unidade.
O psicanalista Fairbairn fala à colação do caso no tema da reparação do objecto, reparação do pai, reparação do pénis do pai na simbologia onírica dos charutos e no sentido de uma satisfação oral do paciente.
O tema da reparação sobrevém algumas noites mais tarde. O paciente sonha que está a nadar com o próprio rei Jorge V. Não numa piscina, não numa praia, tudo se passa num espaço inundado no exterior do Palácio de Buckingham. O rei mantinha a cabeça debaixo de água por muito tempo. O sonhador queria salvar o rei e não conseguia. O rei afogava-se. E outra cena, em que surgem uns quantos polícias a retirar uns baús de um coche oficial, o que lhe sugeria um funeral, mas ao mesmo tempo o julgamento num tribunal. O sonhador seguia depois numa carruagem. Ao lado do rei. E muito feliz porque o rei recuperara a vida e a saúde.

                                             

E cá está - interpretação psicanalítica – a restituição do pai do paciente correlacionada com uma inundação, água, água que corre, o regresso à ansiedade urinária permanente. 
No terceiro caso pode estar-se em presença de uma mulher. E pode estar porque havia que contar com o defeito genital da (ou do) paciente, que deixava dúvidas sobe o sexo real do indivíduo.
Mas admitamo-lo como mulher. Cinquenta anos. Professora, embora não em serviço por ter abandonado a carreira. Razão para o abandono? Esgotamentos nervosos todos os três meses, ansiedade, depressões, pensamentos suicidas.
Do ponto de vista técnico, o Dr. Fairbairn fala de uma fase inicial maníaca em que ela começa a utilizar o mecanismo da projecção, ainda que suprimindo sintomas paranoicos pelos sintomas maníaco depressivos e mais tendências sado-anais recalcadas – é muito técnico para as minhas posses…
Mas adiante.
Na noite de 20 de Janeiro (o rei Jorge V estava a morrer exactamente nessa noite), a paciente vai-se deitar, ouve o rádio, ouve o boletim clínico, o rei piorava. E a paciente tem um sonho, um sonho em que o seu próprio pai morre.
Sabe da morte do rei ao acordar na manhã seguinte. Passa o dia muito perturbada, zangada mesmo. Não vai à consulta marcada com o psicanalista. Desmarca e marca para o dia seguinte. Sentia-se responsável pela morte do rei Jorge V.


Nessa noite sonha em catadupa. Primeiro sonho, uma emoção desmesurada, todavia sem conteúdo particular, só terrores, infelicidade, desespero. Tacteava no escuro. Sentia-se enlouquecer. E ia ficando gelada a partir dos pés; dentro em pouco estaria toda ela feita um bloco de gelo e estaria definitivamente acabada. 

                                                                 
E agora vive numa casa onde tudo é perfeito; entra numa das salas e leva a mãe só para lhe mostrar aquela perfeição toda; subitamente, fica horrorizada, duas grandes ervas daninhas cresciam através de uma magnífica carpete em tons vermelhos; baixa-se, vai-se às ervas para as arrancar, mas não, não arranca coisa nenhuma, era muito difícil arrancar aquelas ervas...


 E de repente, estando em casa, sente-se num jardim público, sentada em cima de uma caixa que tem dentro um animal. aparece uma mulher com um cão; ouve-se um grito: “tire daqui esse cão!”, e há gente que corre atrás do cão, sem resultado, o cão foge, excitadíssimo, quase feroz; a paciente sonhadora, sempre sentada na caixa, ouve um rosnido próximo, era o cão, que procurava apanhar o animal que estava dentro da caixa e mordê-lo até o matar.

                                                                        

 A sonhadora teme pela própria segurança; ouve bater à porta de casa, corre para abrir, abre, dois polícias à chuva na noite escura, façam o favor de entrar, os polícias entram, ajudam-na a acender o candeeiro que está ao pé da porta e a luz do candeeiro sai vermelha, sinal de perigo, e é quando os dois polícias deixam de o ser e passam a ser três mulheres, e explicam-lhe a razão da visita, e ela a princípio não compreende o que dizem, mas sente que alguma coisa horrível acabou de acontecer a um homem a quem chamam Pequeno David, Little David… e é quando acorda.


Quando acorda pensa em quem poderá ser esse Little David e que relação poderá ter com ela.
Informa-se então que Little David era o petit nom familiar do rei acabado de entronizar sob o nome de Eduardo VIII. A coisa desgraçada acontecida a Little David fora a morte do pai, o rei Jorge V. E as figuras que a tinham visitado na noite escura, iluminada de vermelho pelo candeeiro junto da porta, eram os enviados do Super Ego, o que significava ser ela a responsável pela morte do rei.
Um parricídio. Mas como um parricídio se ela, quando recebe no sonho a notícia, nem sabe quem é Little David?

                                                                         

O analista interpreta. E interpreta o facto de ela se sentar na caixa contendo um animal que o cão pretende matar como a protecção que ela tenta fazer ao pai, um pai interiorizado pela sua líbido sado-oral, uma ameaça ao seu próprio Ego.
Uma interiorização do objecto decorrente da morte do rei.
Uma interiorização do objecto que é típica de uma crise depressiva, não guarda como finalidade a salvação, ou a protecção do objecto. Fico sabendo. (Pode ser que um dia, no futuro, me venha a ser útil saber isto.) Porque o dano já fora provocado quando a defesa da interiorização se desencadeou. O objectivo de uma interiorização destas é assimilar uma corrente de sadismo libertada pelo que o analista chama de “cheiro do sangue”.
Mas é assim mesmo. Parece que uma experiência que sugira a perda do real objecto amado depoleta o terror íntimo de perder também o mesmo objecto, porém na forma interiorizada.
Que engenhoso. Mas que querem, acho graça ao engenho das interpretações psicanalíticas. E é como dizia o outro, se non è vero è bene trovato…