sexta-feira, 14 de novembro de 2014

                           FALAR DE SI MESMO


Sou a favor do costume de se beijar as mãos de uma mulher quando somos apresentados. Afinal, é preciso começar por algum lado.


Esta interessantíssima personagem, autor da máxima supracitada, nasceu em S. Petersburgo, foi afilhado de baptismo do czar Alexandre III, e no dia em que nasceu (um bocadinho avermelhado, diz), o pai, contemplando-o, disse à mãe: é um monstro, coitadinho, mas não faz mal, vamos amá-lo na mesma.

                                                             

O pai, diga-se de passagem, era amigo pessoal de Tchaikovski – além de o ser de outras personalidades celebérrimas.
Esta personagem começou a escrever o livro de memórias em que me baseio precisamente no dia 21 de Fevereiro de 1934, dia em que completava 50 anos.


E para escrever as suas memórias, estribava-se num dito de Anatole France: censuram-se as pessoas por falarem de si próprias, e no entanto, é esse o assunto que elas melhor do que ninguém podem tratar.


E dizia mais: gostamos de ler confissões, diários, memórias; os escritores nunca nos aborrecem quando falam dos seus amores, dos seus ódios, das suas alegrias e das suas dores.
E pergunta-se a personagem em causa: Terei o direito de falar do jovem que fui agora que já não sou um jovem?
A personagem que hoje me interessa escreveu que a juventude dura só 15 anos, dos 20 aos 35, indo a idade madura dos 35 aos 50, e sendo a velhice a idade que mais tempo de duração tem. Pode durar 50 anos. É ela, velhice, a nossa finalidade. E sendo ela a finalidade, o melhor é chegar a ela o mais depressa possível.


A personagem a que hoje me dedico dizia boutades. Comecei por uma delas. Mas houve outras. Esta, por exemplo: Uma mulher que fuja com o amante não abandona o marido, livra-o de uma mulher infiel.
Dramaturgo, actor, encenador, cineasta, empresário, director de teatro. De seu nome Sacha Guitry, uma das mais importantes e diversificadas – e divertidas - figuras do teatro francês de todos os tempos – mais o comercial, sim, o de boulevard, do que o intelectual. E era, por sinal, filho de um dos maiores actores franceses também de todos os tempos, Lucien Guitry. Lucien Guitry que trabalhou anos e anos em S. Petersburgo para o czar das rússias, em companhias de teatro francês, então na moda, e que, femeeiro incorrigível, pouco depois do nascimento deste seu segundo filho se divorciou da mãe de Sacha.


Eu não me parecia muito comigo, mesmo quando tinha 30 anos. O meu físico não ia bem comigo.
O ideal seria passar da maturidade à velhice em cinco minutos. Isso seria feito cirurgicamente. Era-se anestesiado ainda jovem e acordava-se da anestesia com cabelos brancos, laço de comendador ao pescoço, respeitável e respeitado, e sobretudo livre da deplorável chatice que é o envelhecer.


Desde pequeno, cinco anos, parece que estava estipulado que Sacha faria em crescido o mesmo que seu pai. A enigmática questão, para o pequeno Sacha, era não saber o que o pai fazia. O sonho dele, desde pequeno, era vestir uma das indumentárias que havia lá por casa, abrir bruscamente a porta de um dos salões, e aparecer com aspecto terrível. Toda a gente ria. O sonho dele, e o maior prazer, era poder provocar o riso pela surpresa. E dizia ele aos 50 anos que não mudara muito desde esse tempo infantil.

                                                                                

Olhava para o pai, que ainda então era um homem novo, e fascinava-se, e via-o viver espantosamente admirado por todos.
Que teria ele a mais do que os outros?
 Porque é que ele me parecia diferente das outras pessoas? Que haveria nele de tão precioso?
Havia. Era o futuro.
Quando se acaba de ouvir um trecho de Mozart, o silêncio que se lhe segue ainda é dele.
Certas noites, Sacha observava o pai.


O pai acabava de jantar e mudava completamente de feições.
Erguia uma sobrancelha, apontava para um dos criados da casa e dizia:
- Senhor marquês, sois um gentilhomem e eu um carroceiro. Mas isso não me impedirá de vos dizer que todo o homem que insulta uma mulher é um cobarde.
Logo a seguir, o pai acusava-se das mais abomináveis malfeitorias e sem que os criados parecessem surpreendidos. Quando estava já pronto para sair, acariciava o filho e dizia com extrema doçura:
- Clémentine, por um beijo seu daria toda a minha vida.
Claro está que era o pai a repassar o seu papel para o espectáculo dessa noite.
Onde vai o papá à noite? – pergunta Sacha à mulher que cuidava dele.
- Vai trabalhar para ganhar para ti. Vai representar, filho.

                                                                                        

Sem dúvida que tem mais graça em francês. Il va jouer ce soir. E Sacha viu-se e desejou-se para conciliar o sono nessa noite, pensando que se podia ganhar dinheiro en jouant, e sem saber que jouer era – podia ser - sinónimo de travailler.
Em criança, chega a representar uma pantomima para o czar seu padrinho, fazendo de filho de Pierrot, e sendo o pai o próprio Pierrot. Na hora da ceia ficou sentado defronte de um jovem em cintilante farda branca que seria o futuro czar Nicolau II.
Sacha Guitry tinha um irmão mas velho, Jean, que ficara em Paris com a mãe, entretanto divorciada do pai, como já informei.
E um dia, a estada do grande Lucien Guitry na corte russa terminou, e ele e o filho regressaram a Paris.


Sacha e o irmão reencontraram-se depois de alguns anos de separação. Sacha chegava das rússias vestido de peluche verde e tendo na cabeça um largo chapéu enfeitado com uma pluma.
Os dois irmãos olharam um para o outro com alguma surpresa - o meu irmão tinha já aquele olhar espiritual e gozão que fez mais tarde o seu charme, e eu tinha aquele meu ar algo embrutecido que conservei por muito tempo.
Bom, a mãe empurra-os um para o outro. Abraçam-se. O irmão dá-lhe um beijinho rápido e pergunta-lhe baixinho ao ouvido:
- Porque é que eles te vestem de macaco?
Na escola, Sacha Guitry andou bastantes anos. Mas não passou da 6ª classe. Não sei a que corresponderia essa 6ª classe nos dias portugueses de hoje, mas a verdade é que nunca passou da 6ª classe.
Na época, em França, quando se mudava de colégio, para o colégio onde se ia repetia-se obrigatoriamente o ano que se interrompera no colégio anterior. Ora Sacha Guitry passou por onze colégios internos, suponho que sem concluir a 6ª classe, ou o 6º ano, em nenhum deles, e tendo que repetir essa 6ª classe ano após ano, colégio após colégio. Até que desistiu. O teatro começou a impor-se na vida dele. Daí o ele dizer muito mais tarde que o pouco que sabia o devia à sua ignorância. Frequentou onze colégios e andou n a 6ª classe até aos 18 anos.


Nunca sabemos, aos dez anos, a que ponto somos inteligentes. Grande verdade, digo eu. Se soubéssemos…
E aos dez anos - continua ele – também não sabemos bem o que significa compreender. E ficamos admirados com tudo o que compreendemos quando tínhamos dez anos. Compreender é quase adivinhar, e nós adivinhamos tudo quando somos crianças.
Está visto que era um tempo em que não havia televisão nem Internet e ele vivia enclausurado num colégio interno.
Mas porque é que os nossos pais não se incomodavam muito com a maneira como tratavam os filhos nos colégios? Esqueciam-se de que também tinham sido crianças. Ou porque queriam que os filhos fossem tão infelizes quanto eles tinham sido em crianças?

                                                                               

Sacha Guitry tinha 16 anos e escrevia a sua primeira peça de teatro. Foi no Colégio Mariaud que ganhou o gosto pelo trabalho. Trabalho… mas, atenção… o trabalho a que não era obrigado nas aulas. Ganhou o gosto pela escrita. E era severamente punido de cada vez que um dos professores o apanhava a escrever… mas que mania que este rapaz tem… onde terá apanhado este vício?
(Bem, qualquer um destes dias, com a importância que está a ter a cultura neste mundo de finanças, estaremos na mesma…)   
Chama-se recreio ao momento que deixamos de trabalhar. Está errado. Não devia haver nada de mais recreativo do que o trabalho.
Os professores, a coisa mais horrível de suportar para ele: o tempo que nós perdemos na época mais preciosa da nossa vida, a hora em que a inteligência se abre. Nessa hora, os nossos pais confiam-nos aos padres, que nada sabem da vida, ou aos professores, que terão talvez demasiadas queixas da vida para conseguirem fazer-nos gostar dela.
Achava ele que ao princípio da instrução cada criança devia era ser confiada a homens notáveis. As aulas deviam ser apaixonantes. Mas para isso seria preciso que tivéssemos professores apaixonados pela grandiosa missão que cumpriam e não uns pobres diabos, normalmente medíocres, e tantas vezes mesmo reles – isto é Sacha Guitry a falar, note-se.


Somos extremamente inteligentes entre os 8 e os 14 anos e a maior parte de nós são-no menos entre os 14 e os 20 anos. Porquê? Porque quando saímos do colégio não sabemos nada da realidade da vida, saímos desarmados, razão pela qual fazemos os maiores disparates e as maiores patifarias por volta dos 18 anos.


E, enfim, terminei os meus estudos… sem nunca os ter feito.


Entretanto, o pai vivia a sua celebridade pelos teatros de Paris, nomeadamente nas companhias de Madame Sarah, e sendo ele o partenaire favorito (e segundo alguns também amante) de Madame Sarah - Sarah Bernhardt, já se percebeu.

                                                                                

A esposa ideal é aquela que permanece fiel ao marido, mas que tenta parecer tão charmosa como se o não fosse.


Os domingos dos filhos dos actores, pelo menos nestes tempos, eram bem diferentes dos dos filhos de quaisquer outros profissionais. Íamos dar um beijinho a Madame Sarah todos os domingos como outros iam à missa. E assim aconteceu durante uns dez anos.
Sacha deixa o colégio, começa a deitar corpo, o teatro preside à vida dele. Mme. Sarah Bernhardt era, para os filhos do seu colega Lucien Guitry, um ser a um tempo fabuloso e familiar. Quando lá iam ao domingo os irmãos entravam no salão da grande dama cada um com o seu bouquet de rosas ou violetas na mão. Sabiam que ela não era uma rainha, mas chegava para compreenderem que estavam diante de uma soberana.

                                                      

Saíam de casa de Mme. Sarah e iam almoçar com o pai. Depois de almoçarem com o pai iam ter com a mãe (que também era actriz, sem no entanto ter nada que se parecesse com a fama do pai) e iam para o Chatelet vê-la representar (dos bastidores).
Nessa época a mãe estava a fazer uma peça extraída do romance de Julio Verne Miguel Strogoff. Por vezes era substituída por outra actriz também amiga deles, chamada Marie Laurent, e quando tal sucedia Sacha ficava sem compreender patavina do entrecho da peça. Aquela personagem de Marfa Strogoff era a mãe. Quando aparecia outra cara e outro corpo a ser Marfa Strogoff a história para ele perdia todo o sentido.


Aos domingos à noite jantavam com a avó paterna, e depois de jantar iam ao Theatre de la Renaissance ver o pai representar. E tornavam a ir dar um beijinho a Mme. Sarah Bernhardt.

                                                                 

Sarah Bernhardt desempenhava um papel capital na vida dos filhos de Lucien Guitry. Era ela a pessoa mais importante do mundo para eles, depois do pai e da mãe. Oh, as árvores de Natal de chez Mme. Sarah, como eram maravilhosas!
Sacha e o avô materno (que era novelista de pouco sucesso) subiam a Rue Royale. 


Na esquina do Faubourg St. Honoré estava um cego a pedir esmola. O avô mete a mão ao bolso, tira umas moedas e dá-as a Sacha para ser ele a dá-las ao cego.
- Toma, dá este dinheiro a esse infeliz.
Sacha deitou as moedas no chapéu do cego e voltou a dar a mão ao avô. Andados quatro ou cinco passos, diz assim o avô:
- Sacha, devias ter cumprimentado o cego.
- Porquê, avô?
- É preciso cumprimentar os pobres a quem se dá uma esmola.
- Ó avô, mas a este não valia a pena… era cego.
- Sim, mas podia ser um falso cego.
Nota Sacha Guitry que o avô era daquelas pessoas que têm sempre resposta para tudo.

                               
         

O círculo dos amigos do pai Guitry era frequentado por alguns dos mais ilustres nomes das letras e das artes da França de então, Maupassant, Messager, Feydeau, Octave Mirbeau, Jules Renard, Alphonse Allais, Bourget, George Bataille, Anatole France, Tristan Bernard, Edmond Rostand e mais uma quantidade de outros, célebres na época e hoje esquecidos.

                                   

Lucien Guitry morava no número 26 da Place Vendôme. Morou lá entre 1894 e 1910.

                                                                 

Aqueles homens, alguns deles autores dramáticos de renome, eu via-os de um pequeno salão contíguo, via-os chegar, sentarem-se à mesa, e começar a ler ao meu pai os seus manuscritos. E como eram apaixonantes as longas conversas que se seguiam a essas leituras! Diziam-se belas coisas àquela mesa. Que conselhos se davam – e se seguiam escrupulosamente! Quantos finais de actos eram imediatamente modificados! Quantas promessas de sucessos foram feitas ali, feitas e cumpridas! E projectos para a próxima temporada!
Diz Sacha Guitry que a vida parecia bela àqueles dois homens que se procuravam e se sabiam indispensáveis um ao outro, o dramaturgo e o seu actor; o autor e o seu indispensável intérprete. Porque, evidentemente, todos sonhavam ser representados por Lucien Guitry, e todos escreviam as suas peças e talhavam os protagonistas masculinos à medida do actor dos seus sonhos – e também à medida da actriz que mais ambicionavam para lhes dizer as réplicas: Sarah Bernhardt, pois claro.


Uma vez (estava ele presente) um senhor de grande talento foi cear a casa do pai para lhe ler a sua última peça. Cear, não cear, conversa para aqui, conversa para ali, o começo da leitura da peça - em voz grave e monótona – deitou para a uma da manhã. Logo na segunda cena, o pai pôs a mão em viseira sobre os olhos desculpando-se de estar mal desmaquilhado, e ele imediatamente compreendeu o que se iria passar. Cinco minutos depois o pai adormecia pesadamente, enquanto o autor recitava o seu texto na mesma voz grave e monótona.
Por debaixo da mesa, o pé esquerdo de Sacha chegou-se para junto do pé direito do  pai e quando sentia chegar o fim de cada acto dava-lhe um toque de aviso, o pai acordava e dizia “está bem, está muito bem”.
Eram quase três horas da manhã quando a leitura terminou. O pai levantou-se e disse ao autor: “meu caro amigo, a sua peça é admirável, mas não lhe vejo nenhum papel para mim, e sou eu o primeiro a ficar desolado por isso…”
Sacha Guitry ainda muito novinho assistiu até à primeira leitura que Edmond Rostand (autor do Cyrano de Bergerac) fez de uma das suas mais famosas peças, L’Aiglon. E Guitry pormenoriza que foi na casa da Place Vendôme e que foi num tamborete Luis XIV forrado de veludo vermelho que Rostand pousou o seu manuscrito. E o leu, pretendendo imitar um pouco do estilo e dos tiques de Sarah Bernhardt – que de facto haveria de criar a peça e com um sucesso formidável.


“Magnífico, magnífico!”, disse o pai no fim da leitura. “Então?”, disse Rostand. “Então… não vejo o que possa impedir-me de interpretar essa peça admirável”. Mas o pai adivinhava aquilo que o impediria mesmo de a representar. A personagem dele não entrava no último acto, tal como não aparecia no primeiro. Bom, um actor do calibre de Lucien Guitry não entrar no primeiro acto ainda vá que não vá… mas morrer antes do fim da peça…
E Rostand percebeu, alegou uma indisposição súbita, retirou-se, e foi às pressas a casa retocar o seu original de forma a poder contar com Lucien Guitry no elenco de estreia.

                                                                                     

Um dos homens do círculo do pai que Guitry admirava mais do que qualquer outro era Octave Mirbeau. Porque Octave Mirbeau todas as manhãs acordava cheio de cólera, convencido de que centenas de injustiças seriam cometidas nesse dia. Mirbeau era dos que se exasperavam por antecipação. Cada pessoa com quem Mirbeau falava era considerada à partida como seu adversário. Podia aconselhar a visitar uma exposição de Monet como quem faz uma provocação. E era um homem notável, como todos os que estão sempre dispostos a bater-se por uma ideia; como todos os que podem cometer as maiores injustiças ao serviço da justiça.


Dizia-se que todos os homens de letras detestavam Octave Mirbeau. Guitry diz que não era bem assim. Era ele que os detestava.
O jovem Sacha Guitry – atenção que este livro de memórias só contempla a vida de Guitry até aos 20 anos – passava as férias grandes metade em Aix-les-Bains com a família de mãe, e metade em Breuil, numa mansão de campo, com o pai.
Havia frescas florestas em redor, bosques encantados com alamedas arborizadas em forma de ogiva por onde ele passeava com o pai, ouvindo-o recitar versos numa voz que ressoava ali como numa catedral.
Fico aborrecido ao ver o cinema tomar nas nossas cidades o lugar que era do teatro. Foi o cinema e não o teatro que reconstituiu o passado aos olhos do grande público, em lugar dos nossos cenários de tela de má qualidade. O cinema mostrara-lhes exércitos em marcha, grandes batalhas navais, caçadas reais, interiores luxuosos, e mostrara-lhes homens jovens no papel de homens jovens e mulheres bonitas no papel de mulheres bonitas.


Na grande casa de Breuil havia galinhas, coelhos, cerca de trinta cães, uma águia, grandes pássaros exóticos e uma chimpanzé, chamada Lakmé, que sabia jogar às escondidas e que almoçava calma e limpamente com eles à mesa. Um animal terno e melancólico que também costumava passear de mão dada com o pai Guitry pela ala do bosque ogival e a quem o pai também recitava versos.
A maior grosseria que podes fazer a um homem que roubou a tua mulher é deixá-la para ele.
Na companhia de Sarah Bernhardt, segundo a tabela de serviço, os ensaios diários estavam marcados para a uma e meia da tarde. Mas a essa hora ainda só os figurantes tinham aparecido. Os actores, consoante o seu estatuto, iam chegando, agora um, daqui a bocado outro. Lucien Guitry não chegava ao teatro antes das duas e meia. O autor, no caso de um ensaio do L’Aiglon, Edmond Rostand, aparecia por volta das três.

                                                                           

Às quatro, entrava Mme. Sarah Bernhardt. Toda a gente se levantava e se descobria, e formava-se a fila para lhe beijar a mão. Como em cada dia de ensaio estavam no teatro cerca de 60 pessoas, o beija-mão podia prolongar-se por mais de meia hora. Findo o beija-mão, Mme. Sarah retirava-se para o seu camarim e vestia uma roupa mais funcional. E o ensaio começava. Mas interrompia-se mais ou menos às cinco horas por causa da chávena de chá de Mme. Sarah. E toda a companhia a rodeava e a admirava enquanto ela bebia a sua chávena de chá.


Tudo o que Sarah Bernhardt fazia era extraordinário, mas as pessoas que a rodeavam achavam absolutamente natural que ela não fizesse senão coisas extraordinárias.
Até que chega o dia em que na vida do jovem Sacha Guitry era chegada a hora de escolher uma profissão; ou, com mais propriedade talvez, de iniciar uma carreira. Actor? Autor? Cenógrafo? Decorador?
Não paravam de me perguntar o que faria eu mais tarde na vida. Insuportável. Eu nada sabia acerca de mim próprio.
A vocação teatral. Uma questão de moral. Para o filho de um burguês comum essa vocação teatral é (ou era, na época) uma espécie de fruto proibido, sonho de vida flauteada. O que não se passa (ou não se passava) com o filho de um actor. Para um filho de actor a profissão de actor era pura e simplesmente interdita. Pelo menos em princípio. E porquê? Porque era preciso ser digno de um nome. Tu, actor?, dirá o pai burguês, querendo dizer tu, herdeiro de um nome honrado e sem mácula, queres ir para essa vida degradante? O pai actor dirá ao filho: tu, actor!, querendo dizer tu, meu filho, queres arriscar comprometer o brilho do nome que te dei? Pensa bem, meu filho…
Sim, uma questão de moral…


Diz Guitry: uma pessoa não se torna actor como se poderia tornar notário.
E o pai burguês diria ainda: que o filho de um actor siga as pisadas do pai ainda é como o outro…
E o pai actor ainda diria: acredito mais na sincera vocação para o palco do filho de um burguês do que na do filho de um actor…
E Sacha informou o pai da sua disposição de seguir uma carreira teatral. E o pai respondeu-lhe numa carta.
Meu querido filho, precisamos de falar sobre esse assunto, e seguramente iremos falar. E pensa bem: homens, mulheres, príncipes, princesas, criados, patrões, ladrões, assassinos. O importante não é saber o seu papel. Sabe-se sempre o papel. O importante é possuir em si todas as expressões. Estás a ver como é simples?

                                                                      

E se o pai se opusesse? Sacha estava com medo. Actor? Autor? Decorador? Qualquer dos métiers se encaixava nas aptidões dele – ou que ele julgava ter.
Pode-se escrever, ou pode-se desenhar em casa, sozinho, em sossego, sem dar satisfações a ninguém. Ou trabalhar sob pseudónimo. Mas ninguém se pode esconder para ser actor de comédia. Pode usar-se um nome artístico, é certo, mas não se pode mudar de cara. Pode-se representar em casa, pode-se, para a família e para os amigos. Mas para se trabalhar num teatro é precisa a concordância de um empresário, de um director, de um autor, e dos outros actores também.


São duas da manhã de um domingo. Sacha Guitry acaba de escrever uma peça em verso de um acto, o avô entra na sala de jantar.
- Que estás tu aí a fazer?
- A trabalhar.
- Tu?
- Acabo de escrever uma peça.
- Uma peça? Então vais-me ler imediatamente o que escreveste…
O avô ouviu a peça, emocionou-se, felicitou o neto, confessou-lhe o seu espanto… e aconselhou-o a pôr aquela sua peça em um acto bem no fundo de uma gaveta.
Escrevera a peça por divertimento, tal como desenhava por prazer. E como escrevera aquela poderia escrever uma centena de outras peças. Porquê metê-la na gaveta? E pensando assim não seguiu o conselho do avô.


Na noite de 15 de Abril de 1902, no Théatre des Mathurins, a pequena peça em verso, de um acto, de Sacha Guitry, foi estreada. Não desagradou. 
                                                                                       

Um crítico respeitável, Gaston Leroux, até disse dela que provocava um riso enorme e tranquilo.
Mas Sacha continuava a querer representar. Um empresário não vai fora disso e quer mesmo pôr o nome dele no cartaz em letras garrafais, apesar da evidente falta de métier do rapaz. Era inquietante. Sacha percebeu. O homem odiava Lucien Guitry. E Sacha não aceitou o presente envenenado.
- Mas, meu filho, se tu te sentes mesmo um comediante, porque não? - era a continuação da conversa com o pai. - Não há profissão melhor do que a de actor. E já ficas sabendo que não farei nada para te impedir. Mas precisas de trabalhar. Vá lá. Recita-me aí qualquer coisa…
Ele recitou um monólogo do Cid.
- Não está mal. Mas podia estar melhor. E para estar melhor precisavas de umas lições. O problema é… com quem?
- Mas papá…
- Não, comigo não. Porque me faltaria a paciência e a severidade…
 E encaminhou-o para um seu colega.
- Ó homem, vai para o palco e representa – disse-lhe um outro colega do pai. - Representar é a melhor maneira de aprender a representar.


Oito dias depois, Sacha Guitry estreava-se como actor em Hernani. Um papel pequeno, já se vê. E um desastre. Não por causa dele, ou de algum dos outros actores. Foi por causa do meu irmão, que estava na plateia com uma seita de gigolos e gigolettes que desatavam às palmas e num berreiro de cada vez que eu abria a boca…
Estreadas outras suas peças, depois de ter sido aplaudido e depois de ter sido pateado e assobiado, só então, Sacha Guitry se considerou um verdadeiro autor dramático.


Diante do amor existem três tipos de mulher: aquelas com as quais nos casamos, aquelas que amamos e aquelas que pagamos. Todas essas podem muito bem estar numa só. Começamos por pagá-la, depois a amá-la e, por fim, casamo-nos com ela.
E cumprida uma formidável carreira no teatro, no cinema e nos salões mundanos, Sacha Guitry, rico e célebre como actor, autor, encenador e personagem do grand monde parisiense (havia quem lhe chamasse o Tout Paris), é preso no dia 23 de Agosto de 1944, por volta as 11 da manhã.


Cinco homens levam-no à Mairie do VII Arrondissement. Vai ser julgado como colaboracionista, e com a mesma sorte estão, entre outros, Maurice Chevalier, Mistinguett, Marcel Pagnol, Céline…
Culpam-no de inteligência com o inimigo mas não há conteúdo incriminatório objectivo. Era admirador confesso de Pétain, sim, e depois?
Cá está ele a ser interrogado.


Sentiu-se abandonado por todos os amigos e admiradores do tal tout Paris
E escreveu: o que eu estou hoje a pagar não é pelas minhas actividades nos últimos quatro anos. São os 40 anos de felicidade pessoal e de grande sucesso artístico que eles não me podem perdoar.
Fica encarcerado em Fresnes e é libertado dois meses depois.
O jornal comunista L’Humanité escreverá: O comediante nazi foi pura e simplesmente libertado.







domingo, 2 de novembro de 2014

CÂNDIDO DE OLIVEIRA
NÃO BEBEU
PELA  SUPERTAÇA

                                                                                                   
                                               
                                     


         Em 1941 estaria iminente a invasão da Península pelas tropas do Reich, invasão essa que eventualmente se combinava com a invasão de Portugal pelas forças espanholas conluiadas com Hitler. Lisboa era então, como se sabe, um formigueiro de exilados, refugiados judeus em trânsito para a América e espiões ingleses e alemães.

E se os agentes da Gestapo procurariam criar as condições subjectivas e objectivas para uma invasão, os homens da intelligence inglesa, sob a direcção do chefe das operações secretas para a Península do MI6 - um homem que viria a tornar-se famoso alguns anos depois, Kim Philby, o traidor, o desertor para URSS; por acaso assessorado por outro homem então ainda não tão famoso como viria a ser, Graham Greene, o romancista; e tendo às suas ordens (e este a residir no Hotel Palácio do Estoril) outro romancista que viria a ser famosíssimo, Ian Fleming, o criador de James Bond – seria a organização de pontos de resistência, linhas de comunicação telefónica e radiofónica, desmascaramento de agentes da Gestapo e segurança de circulação dos seus elementos, tudo, enfim, que pudesse ser útil aos ingleses para enfrentar o invasor alemão.

                



A polícia política portuguesa, ao tempo a PVDE (Polícia de Vigilância e Defesa do Estado), antecessora da PIDE, persegue encarniçadamente as organizações subversivas a trabalhar no país, com especial predilecção pelas redes de espionagem aliada – mais especificamente a rede inglesa do SOE (Secção de Operações Especiais).

                                                                                    

A PVDE, pejada de oficiais corruptos e germanófilos (ao que se dizia nos meios secretos, a começar pelo seu chefe o capitão Agostinho Lourenço), mantinha colaboração estreitíssima com a sua congénere espanhola que era abertamente nem mais nem menos do que uma dependência da Gestapo. Mas o mesmo se poderia dizer da PVDE. 


Entre os mais notórios agentes duplos (PVDE/Gestapo) estavam o Henrique de Sá e Seixas – que tantas vezes eu vi muitos anos depois a tomar café na Brasileira; mais tarde guarda-costas de Salazar (ao que se dizia nos anos 60) e chefe do campo de concentração do Tarrafal; um tal capitão Cumano, homem forte da polícia – Cumano que era a adaptação para português do apelido da sua ascendência germânica, Kuhlman, ou coisa assim, e que despachava directamente com Von Kasthorf, o número um dos serviços secretos alemães em Lisboa; um Sidónio Vilasboas; um António Simões especialista de acções de propaganda; um Correia de Almeida – que torturava à base de longos duches gelados (estaria hoje na moda); um capitão Gaspar de Oliveira – que chegou a capturar e a submeter a interrogatório uma telefonista da embaixada inglesa, querendo saber: 1) onde era a sala dos telefones da embaixada e se era de acesso fácil; 2) se era fácil escutar as conversas; 3) o número de chamadas confidenciais recebidas do exterior; 4) quanto ganhava Miss Maria Silva, a telefonista.


Lisboa fervilhava de tensões. 

                                                                   

Os boatos circulavam a grande velocidade e o mais temido deles era os alemães estarem a preparar acções de sabotagem em pontos estratégicos, inviabilizando as defesas da cidade.


As tarefas essenciais da espionagem alemã (e italiana, não esquecer) em Lisboa incluíam a penetração quanto possível intensa dos círculos afectos aos Aliados, com vista a obter informações de tipo militar e a criar condições para o envio de agentes para as colónias, sem falar, evidentemente, das acções de contra-espionagem que comprometessem ou contrariassem as acções dos serviços aliados.


Especial atenção davam os agentes da Gestapo às casas de prostituição do Cais do Sodré.


Por estranho que pareça, fundaram e geriam (indirectamente) algumas. Mas não seria tão estranho assim, posto que o movimento do porto de Lisboa era muito, marinheiros de todas as nacionalidades chegavam e partiam, e, antes de partirem, iam a essas casas, obviamente, pôr a sua escrita sexual em dia, sempre deixando cair uma ou outra informação, sobretudo se estavam bêbedos, de onde vinham, para onde se dirigia o navio, como se chamava o navio, e por aí fora, informações que eram logo transmitidas aos submarinos alemães que infestavam o Atlântico e afundavam sem rebuço qualquer navio mercante com pavilhão aliado. 


De sociedade com os serviços espanhóis de fronteira, os alemães também contrabandeavam à vontade para fora do país, e em escala considerável, produtos de todo o género, alimentares, algodão, couro, minérios diversos (volfrâmio incluído, e sem prejuízo do que era exportado legalmente), óleos, lãs.

                                                                      

Em Março de 1942, em duas ou três semanas, a PVDE faz uma razia entre portugueses e estrangeiros. São presas 500 pessoas. Todas têm um ponto em comum: são suspeitas de trabalhar para a espionagem britânica. Algumas delas terão em comum ainda outra circunstância, que é a de pertenceram aos quadros clandestinos do PCP e fazerem oposição activa ao governo, em simultâneo com as operações da espionagem britânica. Entre esses elementos detidos está Cândido de Oliveira, conhecido homem do futebol.


        Na imprensa portuguesa nem uma linha a noticiar a leva de prisões.


Em Fevereiro de 1941, Cândido de Oliveira e mais dois companheiros jornalistas do Diário de Notícias e do Diário de Lisboa tinham sido convidados pelo British Council a deslocar-se a Londres para intercâmbios relacionados com o jornalismo desportivo. Eram tempos de guerra e os serviços ingleses de informação interna, o MI5, autoriza-os a entrar no país. Quem não os deixa sair é o portuguesíssimo Secretariado da Propaganda Nacional, personalizado em António Ferro.

                                                                                         

        Enfim, a temática desportiva era uma capa para assuntos mais sérios e secretos, porque o verdadeiro sentido da viagem eram os contactos políticos e uma provável formação em técnicas de espionagem, contra-informação e sabotagem. Além disso, a viagem de conceituados jornalistas desportivos portugueses à Grã -Bretanha servia a propaganda aliada num Portugal onde os germanófilos eram em número considerável (a Alemanha ainda estava a ganhar a guerra e o português, por atavicamente desinteressado do que é importante e sempre sem condições para pensar, gosta de alinhar ao lado do vencedor) e particularmente enquistados ao nível do aparelho de Estado e entre a média/alta burguesia.
     Dessa viagem constariam ainda – segundo o informador da Legião Portuguesa que espiava Cândido de Oliveira na redacção da revista Stadium – encontros com Churchill e De Gaulle, e do relato dela seriam editadas 1.000 cópias destinadas a serem apreendidas pela PVDE, e sendo um único exemplar enviado para o Brasil para então ser feita a partir dele uma edição em grande escala.
        É nesse ínterim do ir e não ir a Inglaterra que Cândido de Oliveira é preso.


        Foi no dia 1 de Março já de 1942, em casa, eram 5 horas da manhã. E diz ele que nada sabia dos motivos da prisão. Ninguém se dera ao cuidado de o avisar de que a PVDE tinha dado início a uma vaga de prisões visando elementos da rede secreta do SOE – serviço de operações especiais controlado pelos serviços secretos britânicos do MI6 – com quem ele estaria em contacto.
                                                                 

    
     Objectivamente, a acusação que pesa sobre Cândido de Oliveira é a de organizar comunicações rádio e alugar apartamentos para encontros secretos de agentes e base de acções de espionagem.
    Na realidade, Cândido de Oliveira é um categorizado agente do SOE (ramificação do MI6), com responsabilidades numa rede secreta na área das comunicações, para a qual tinha a vantagem prática de ser inspector superior dos CTT em Lisboa, podendo por isso fornecer caixas-postais para o movimento clandestino de informação.


    Na PVDE, Cândido de Oliveira recusa-se a responder a quaisquer perguntas. E leva um primeiro tratamento… violentamente agredido por quatro agentes que me partiram os dentes do maxilar superior e me racharam um lábio e a cabeça com um banco… é o que ele alega em carta aos seus contactos.

       
    (Atenção, que me estou a basear numa leitura recente do livro de Rui Araújo O IMPÉRIO DOS ESPIÕES – edição Oficina do Livro -, e porque achei piada à ligação bizarra e de todo imprevisível de um nome histórico do futebol português a acções de espionagem já de um certo coturno. E por essa leitura também fico a saber que o acervo documental referente a Cândido de Oliveira, passados tantos anos, ainda continuava classificado no arquivo dos serviços secretos de Sua Majestade, e só desclassificado por diligência do autor do livro.)


      Depois do tratamento da PVDE, Cândido de Oliveira acaba por admitir uma ligação acerta rede secreta, porque percebe que um elemento dessa rede, preso e provavelmente torturado, o denunciara. Cândido de Oliveira fica portanto identificado como importante chefe de um sector de operações clandestinas sob o pseudónimo de Dr. Menezes – um Dr. Menezes que a polícia internacional até aí se esfalfara para identificar e não conseguira.
        A outra identificação de Cândido de Oliveira no trabalho secreto era PAX. E os relatórios do SOE continuavam a mencioná-lo… a organização PAX continua intacta à excepção da arreliadora prisão do próprio PAX, denunciado por um contacto que foi preso.
        E um PAX recalcitrante vai dar com os ossos no segredo. Nove dias – segundo a espionagem britânica. Depois, é posto incomunicável. Atiraram com ele (segundo conta) para uma cela húmida onde a escuridão era total e onde diz que viveu dez dias como um bicho, comendo no chão, sem assistência médica…a polícia pensava que eu era um comunista, um traidor que queria derrubar o governo – e se calhar, digo eu, até pensava bem…
O estado de saúde dele agrava-se e mandam-no para o hospital prisional de Caxias. Estamos, contudo, em contacto com ele desde o dia em que foi preso. E esse contacto é feito por carta ao chefe operacional do SOE, o major John Grosvenor Beevor, adido militar à embaixada inglesa, e intermediado por um dos guardas prisionais metido na conspiração.

                                                                             

        Fui ontem interrogado desde as 15 até às 5 horas da manhã. Ficou tudo na mesma porque eu nada mais sei nem posso acrescentar.
        O que Cândido de Oliveira gostaria de saber era quem estava também preso, para se poder precaver nos interrogatórios. Gostaria de saber, mas o seu chefe não solta essa informação para ele.
      Quem se mexe é a embaixada inglesa. Um protesto em forma ao Ministério dos Negócios Estrangeiros contra a brutal agressão a Cândido de Oliveira. 


   As acusações contra Cândido de Oliveira discriminadas pela PVDE incluem ainda a organização de grupos de resistência activa e passiva na eventualidade da temida invasão alemã; a oposição às actividades ilegais dos serviços secretos alemães em Portugal – bombas a colocar em navios ingleses e montagem de emissores clandestinos; o envio para a Alemanha e territórios ocupados de propaganda dos Aliados. Uma questão crucial ocupava entretanto o espirito de Cândido de Oliveira na prisão… compreendo que não vou ser libertado já, porque as provas demonstram que participei na preparação de uma acção em nome dos Aliados para o caso de a Alemanha invadir Portugal. Mas, sublinho, é importante determinar se essa acção seria executada caso a entrada dos alemães fosse solicitada pelo governo português. Esta hipótese tem, obviamente, que ser encarada, mas não me ocorreu antes…
        E o que os da polícia política portuguesa mais queriam com os tratamentos dados a Cândido de Oliveira era que ele confessasse, pelo meio das actividades a favor da espionagem inglesa, outras actividades possíveis, a saber: a preparação de um golpe de Estado contra o governo português que coincidisse com o também possível desembarque em Portugal (talvez nos Açores) de tropas anglo-americanas. O que seria bem pensado, diríamos nós hoje, mas que Cândido de Oliveira negara com a veemência que lhe terá custado alguns dentes e o lenho na cabeça.


Digo “lhe terá custado”, porque a PVDE, sabedora do protesto de YP (embaixador inglês Sir Ronald Campbell), imediatamente refuta as acusações que lhe são feitas. É falsa a afirmação de que o nacional Cândido de Oliveira foi agredido, e mais falsa ainda a afirmação de que o brutal tratamento era para conseguir a confissão de que as actividades referidas se destinavam a preparar um golpe de Estado contra o governo português.

                                            

A PVDE atira com a informação de que a revista desportiva Stadium (fundada pelo próprio Cândido de Oliveira) era financiada pelos serviços secretos ingleses, era um cóio de espiões e era por conseguinte uma capa para actividades de espionagem cuja caixa de correio que havia na porta não serviria para outra coisa senão para a circulação de mensagens secretas.

 

(Porque que é que o desinteressante e pretensioso cinema nacional não aproveita estas histórias reais.)
        Num dia de Maio desse fatídico ano de 1942, John Beevor, o contacto dos serviços secretos ingleses, prevê para breve a libertação de Cândido de Oliveira. Previsão errada. Tal não acontece.


De relevante importância seria a pessoa de Cândido de Oliveira para os ingleses, pois a 21 de Maio, o directório do SOE propõe ao Foreign Office o suborno de alguns guardas da prisão de Caxias, admissivelmente no sentido de preparar a fuga do seu agente PAX. O Foreign Office não diz que não a uma ajuda ao prisioneiro, mas não concorda com o suborno. Ou pelo menos não concorda sem o parecer de Sir Ronald Campbell, YP, o embaixador, e assim os planos de evasão ficam em águas de bacalhau.
Nada lhe fora solicitado, ou sequer sugerido, que não tivesse por motivação a esperada invasão de Portugal pelas tropas de Hitler, a acontecer em concatenação com um ataque a Gibraltar. Uma invasão que só não passou dos planos por consequência das derrotas na frente russa.


Mas será que Salazar pediria ajuda aos Aliados se a Alemanha invadisse de facto Portugal? Ou, inversamente, será que Salazar pediria socorro as forças do Eixo se se desse o caso de serem os Aliados a invadir Portugal?
Questões que lhe martirizavam o espírito em dias de solidão cativa.
        No dia 18 de Junho, pelas vias de comunicação clandestina habituais, é Cândido de Oliveira quem informa o seu controleiro do SOE da sua próxima deportação para o Tarrafal. Muito agradeço o auxílio à minha família. Eu parto com 5.000$00. Deve chegar-me por algum tempo, pois no campo de concentração não devo ter grandes despesas.
     Cândido de Oliveira parte a 20 de Junho no paquete Mouzinho. A revista Stadium é encerrada e o SOE paga as dívidas e os salários em falta.


        A 28 de Julho, do Tarrafal, Cândido de Oliveira escreve à irmã… minha boa Maria, do coração desejo que estejas bem; eu continuo em tão óptima disposição e excelente saúde que nada admira que obtenha uns cem quilos. Ao menos algo ganho e, quando voltar, estarei mesmo a pedir uma entrada para a troupe de lutadores do Coliseu! Diz-me também algo da bola, o que fizeram, etc., quem ganhou a Taça de Portugal (o Benfica: 5-1 ao Vitória de Setúbal na final – nota minha) e o que eles projectam para o futuro.
     No Tarrafal, Cândido de Oliveira goza de um regime especial, em comparação, claro, com o dos presos anti-fascistas (ou só anti-fascistas e sem protecção de embaixadas estrangeiras). Vive fora do arame farpado e não está sujeito a trabalhos forçados. Ele e os outros, já se vê, porque havia outros também integrantes da rede do SOE. Passeiam. E só são confinados entre as 8 da noite e as 5 da manhã. E é muito devido a esse regime de excepção, compreende-se, que ele pode montar uma linha de comunicação com os serviços ingleses.
      Mas os serviços ingleses não descansavam quanto ao destino do seu agente feito prisioneiro. E decidem raptá-lo. Não são de modas. E o plano é alinhavado. Contam com a colaboração de um navio francês fundeado ao largo da ilha de Santiago.


     Entretanto, intervém o irmão de Cândido de Oliveira, Leonel, que capitaneia um navio mercante português, o Alferrarede, e que sente o dever moral de ter parte activa na libertação do irmão. Entrava o ano de 43. A ideia era levá-lo para Bathurst, capital do que é hoje a Gâmbia, e daí regressar a Lisboa.
        Os homens do serviço secreto inglês pressionam o seu embaixador quanto à situação do agente PAX. Estará YP (o embaixador) na disposição de falar na libertação de PAX no seu próximo encontro com H.001 (Salazar)? Era uma questão de humanidade, mas questão de humanidade essa que YP considera irrelevante para o caso num contexto mundial em que tantos milhares estavam a morrer de morte violenta. 
      
                                                   

      
     E também seguramente que H.001 levaria isso à conta de ingerência nos assuntos internos de um país (apesar de tudo) soberano. O outro óbice era o seguinte: se YP tencionava pedir a H.001 para suster a actuação dos serviços secretos alemães e italianos em Lisboa, que moral teria se logo a seguir lhe solicitasse a libertação de um elemento dos serviços secretos ingleses? H.001 replicaria sem dúvida que, nesse caso, e dada situação portuguesa de neutralidade, teria de libertar igualmente os agentes alemães e italianos detidos – que pelos vistos também os havia...
        O que H.001 faz é considerar o homem do SOE, e adido militar britânico, John Beevor, persona non grata e expulsá-lo do país – teso aquele H.001…
     Leonel, o capitão de navio irmão de Cândido, borrega nas suas intenções de libertar o preso, mas os serviços ingleses não desarmam e esboçam um plano de rapto alternativo em que Cândido e mais uns quantos seus companheiros de cativeiro fugiriam do Tarrafal com a ajuda de um guarda entretanto subornado chamado Gonzaga, e tendo à espera deles na baía um vaso da Royal Navy, nem menos. Era a Operação Disgorge.


        O MI6 mandara um emissário, um tipo grego, ao Tarrafal, para ver como era e contar como foi. E o emissário elabora um relatório. O comandante do campo é um anglófilo que fora substituir um cruel germanófilo e autorizou o emissário dos serviços secretos ingleses a visitar o campo, incluindo o avistar-se com Cândido de Oliveira. As condições do campo haviam melhorado com a mudança de comandante. A alimentação era suficiente, apesar de básica – não sei se eles estavam habituados a lagosta e caviar – e os prisioneiros recorriam a produtos clandestinamente introduzidos no campo pelos guardas. Agora quanto à fuga a coisa fiava muito fino, fino de mais, era muito difícil fugir dali, o campo era constantemente patrulhado…
    Mas os serviços ingleses continuam a não desarmar. A certa hora previamente combinada da noite, um navio da marinha inglesa estaria fundeado na baía do Tarrafal. Cândido e outro safar-se-iam num bote salva-vidas, iriam ter ao navio e seriam embarcados. O bote seria abandonado de casco virado para cima, sugerindo que os fugitivos teriam morrido no mar. Tudo deveria passar-se depois do meado de Junho, por causa da ondulação forte no Atlântico por essa época.


        Diz o relatório da abortada Operação Disgorge: quando constatámos que muitos outsiders, incluindo o guarda, tinham conhecimento do plano, vimo-nos obrigados a propor a sua anulação. Logo que os ânimos apaziguarem poderá ser possível fazer escapar Oliveira sozinho. Mas nada se poderia fazer antes do outono.
        Era muita gente a querer pôr-se ao fresco dali, compreende-se. PAX informava que poderiam ser uns seis. E as repercussões políticas não seriam de desprezar. Tudo dependeria da importância das relações que a Grã-Bretanha pretendesse manter com Portugal. E quando H.001 concorda com as facilidades que os Aliados pediam nos Açores, o plano de fuga de Cândido de Oliveira é imediatamente cancelado pelo SOE.
        Em princípios de Dezembro de 43, a embaixada britânica em Lisboa transmite para o Foreign Office a probabilidade da próxima libertação do agente PAX. Afinal, tinha funcionado a pressão diplomática. Cândido de Oliveira poderia chegar a Lisboa no dia 20 de Dezembro, e se assim fosse os ingleses estariam prontos a compensar monetariamente o seu agente PAX pelos dois anos de cativeiro, pela sua acção enquanto agente do SOE, pelos maus tratos e pela perda do emprego.
        E assim acontece. No dia 13 de Dezembro de 43, Cândido de Oliveira e mais quatro embarcam para Lisboa com escala em Bissau.
        Cândido de Oliveira chega a Lisboa a 31 e vai recambiado para o Hospital Júlio de Matos de quarentena, por precaução contra a febre amarela.
        Mas libertado ainda ele não foi.
        Nem a prisão, nem o desterro, nem o paludismo, nem a maldita black-water fever (vi morrer 14, um dos quais tinha ido comigo), nem as ameaças e torturas me modificaram senão no sentido de ter ainda mais ânimo para a luta. Você contará comigo como antes – e como sempre.

                                                     

        Do Júlio de Matos, Cândido de Oliveira vai para a cadeia do Aljube, e da cadeia do Aljube segue direitinho novamente para o forte de Caxias. Andava de Herodes para Pilatos por causa da mesma temática da correlação de forças e liberdades entre agentes ingleses e alemães e italianos a operar em Lisboa.
     Da PVDE, um capitão Catela manda dizer que faziam tenções de libertar Oliveira quando ele regressasse do Tarrafal, mas o embaixador inglês tinha voltado a protestar junto de H.001 contra a ordem de libertação que fora dada para os homens da Gestapo, ao que H.001, teimoso como um corno, havia replicado a YP “pois então, os homens da Gestapo vão continuar presos e o Oliveira e os outros também”.


        Cândido de Oliveira está cheio de dívidas e foi demitido das funções de inspector superior dos CTT. Quando sair finalmente da prisão vai ficar na vida com uma mão atrás e outra à frente.
        Vibrando ligeiramente, na minha opinião, uma corda fadista, continua em comunicação com o seu contacto secreto… nem você nem os nossos amigos têm pois qualquer compromisso formal comigo. Sou o primeiro a reconhecer que os meus sacrifícios, nestes dois anos de prisão, nada são ao pé do sacrifício daqueles que já morreram na luta, dos que combatem nas frentes e dos que estão prisioneiros dos alemães… pois sim, mas também refere que saiu do Tarrafal com a vida completamente arruinada…a polícia, como deve saber, apreendeu todas as minhas economias (cerca de 35 contos) com a alegação de que devia ser dinheiro da Organização…


        
   Cândido de Oliveira, alentejano de Fronteira e casapiano, foi de facto um homem excepcional e uma personalidade das mais importantes do desporto português.


                                                                                               
Foi jogador de futebol, médio-esquerdo, no Casa Pia (cujo clube de futebol fundou) e no Benfica. Foi o primeiro teórico português de futebol – devem-se-lhe algumas máximas ainda hoje citadas: “o treinador quando ganha é bestial e quando perde é uma besta”; ou, por exemplo, que o avançado-centro (no tempo não se falava ainda em pontas de lança) pode passar o jogo todo sem tocar na bola, mas se toca uma única vez e com esse tocar marcar o golo que dá a vitória à sua equipa, pode ser considerado o melhor em campo. Estas e outras, que não conheço ou de que já me esqueci.


Foi o impulsionador da selecção nacional, de que vem a ser o primeiro capitão num Espanha-Portugal disputado em Madrid em 1921.

                                              

É o seleccionador nacional no primeiro brilharete do futebol português, nos Jogos Olímpicos de Amsterdão, 1928. Foi treinador, Académica (onde institui as tabelinhas, ou, acho eu, um tiki-taka avant la lettre), Belenenses, F.C.Porto, Atlético e até do Flamengo do Rio de Janeiro. É ele o treinador (talvez o primeiro) do mais histórico Sporting, o dos cinco violinos.
    Na outra vertente importante da sua vida desportiva há o jornalismo, Diário de Notícias, Século, Diário de Lisboa, talvez mais um ou outro¸ e fundador de jornais, a revista Stadium, e o mais importante de todos, com o seu grande amigo Ribeiro dos Reis, A Bola, em 1945 – acabadinho de sair do Tarrafal, como se viu.

                            

        Enfim, Cândido de Oliveira é libertado. 27 de Maio de 1944. Cinco meses depois de ter regressado do degredo no Tarrafal. E vai para casa de um irmão na Figueira da Foz.
 O SOE vai pagar-lhe daí a pouco uma indemnização de 150 contos. O que na época era dinheiro.
     Mas Cândido de Oliveira quer continuar no trabalho secreto e pede uma transferência para onde fosse possível. O Brasil, por hipótese. Permanecer em Portugal é que não, tudo lhe traz más recordações, maus momentos, má vida. A menos que o SOE ainda precisasse dele – fora de questão, acho eu, visto que era um elemento queimado e provavelmente vigiado pela polícia, e que nenhuma utilidade poderia ter para uma organização secreta. E ele sabe disso, com certeza que sabe. Pensa prosseguir uma actividade subversiva e clandestina mas sabe que tal actividade… de novo me levará às mãos da Gestapo luso-alemã…
        Porém, quando lhe propõem a ida para o Brasil que ele tanto almejava e havia sugerido, recusa.
        É condecorado pelos ingleses. Condecoração que ficará no esquecimento por motivos de ordem política.
        Para não aceitar a proposta para o Brasil – onde já tinha colocação à espera dele, aliás providenciada pelos serviços secretos ingleses a operar no Rio de Janeiro - alega razões de saúde.
         Não sei mais nada da vida secreta de Cândido de Oliveira. Só sei qualquer coisita da actividade desportiva de que falei atrás, a actividade que o tornou realmente prestigiado e famoso no país e impôs o seu nome para uma competição maior do futebol nacional, a Supertaça Cândido de Oliveira. Uma super-taça onde Cândido de Oliveira nunca seguramente bebeu, pelo menos entre 1941 e 1945.
        E sei que morreu a 23 de Junho de 1958, com 61 anos, em Estocolmo, onde, como enviado especial do jornal A Bola, cobria o campeonato do mundo de futebol – pneumonia e complicações cardíacas…