quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

      OS QUE CHEGARAM ANTES DE SÓCRATES,
         OU O HOMEM SEMELHANTE AO PEIXE


Disse um dos que chegaram antes de Sócrates, Anaximandro, que as coisas crescem umas à custa das outras. Ora bem, e a riqueza dos homens também, que é o que mais se tem visto já depois de Sócrates. Trata-se de um processo compensatório existente na vida social e que reproduz e se reproduz na natureza.


O infinito é o que não é finito. Ou seja, é o inacabado.

                                                                            

Uma coisa só pode permanecer separando-se das outras, o que dá numa espécie de egoísmo de persistência. Descartes viria a contrapor a Anaximandro outra visão da qualidade do infinito, e que é aquela que hoje funciona para nós.


As criaturas vivas nasceram do elemento húmido evaporado pelo sol. De princípio, o Homem era semelhante a outro animal, o peixe.


E foi por estas e por outras, e um pouco para além dos meados do século XIX, que pensadores houve a ver em Anaximandro um anunciador de Darwin. Mas outros não pensaram assim e atribuíram os aforismos de Anaximandro a resquícios de mitologias muito antigas. Porque, diziam, Anaximandro se limitava a narrar, enquanto Darwin observava. Também se contrapunha que Darwin, observando, não deixava de narrar – e este narrar leva um pouco o sentido do efabular.


Escritores houve que se inspiraram no que conheciam do pensamento (ou da efabulação) de Anaximandro. Eis um deles, Edgar Allan Poe: a minha proposta é esta: na interpretação original do ser primeiro está a causa segunda de todos os seres, e assim o gérmen da sua destruição.

                                                                                       

Um outro, um tal Ferenczi, de quem nunca ouvi falar nem antes nem depois de Sócrates, sustentava que todo o ser vivo procurava regressar a uma paz orgânica visando a anulação do nascimento e sendo o acto sexual a imagem desse desejo. É boa esta. Regressar à paz orgânica pelo acto sexual… confesso que nunca tinha pensado nisso. Mas, com a idade que tenho, acho que já posso encarar as coisas desse modo. Quem sabe do que eu ainda não serei capaz?          
Aristóteles estabelece para o popular Tales de Mileto a faculdade de indagação das causas naturais, chamando-lhe percursor da filosofia dos físicos, exactamente os que por sistema punham de parte a especulação da causa sobrenatural.


Tales vai a caminhar, absorto nos seus pensamentos e a observar o céu. Não repara no poço que lhe aparece aos pés e cai nele. Uma escrava da Trácia que vai a passar repara no acidente, vai-se à borda do poço e grita lá para baixo: 
- Atão, ó sô Tales, como é? O sô Tales anda tão preocupado com o que se passa acima da sua cabeça que nem é capaz de reparar no que está mesmo debaixo dos seus pés.
E só depois de lhe dizer isto a escrava se deu ao trabalho de ligar para o INEM…
Tales era pobre. E era criticado pela cidade por ser pobre – sim, pois, alguns dos que chegaram antes de Sócrates eram pobres, tinham vergonha de ser pobres, foram criticados e meteram logo em cabeça, indo para a política, tornar-se ricos, e muitos tornaram-se mesmo. Quase todos. Há quem diga que Sócrates incluído…


Como eu ia a dizer, Tales era criticado no sentido de se dizer que se o grande filósofo era pobre era porque, afinal de contas, a filosofia, o conhecimento, não serviam para nada – com Sócrates também se pensou nisso, se estou bem lembrado, e por isso ele, já cheio de outros conhecimentos mais rendosos se retirou para franças e araganças quando quis saber da Filosofia...
Mas enfim, picado com essa da inutilidade da filosofia, Tales, o pobre, continuou as suas observações astronómicas e previu para esse ano uma boa colheita de azeitona. E vai daí, do pouco dinheiro que tinha reservou uma verba e alugou a maior parte dos lagares de Mileto. Como ninguém acreditou nele, e porque a filosofia não tinha utilidade alguma, os lagares foram-lhe alugados muito barato, uma vez que não era previsível uma tão boa colheita de azeitona. 


Oh, mas quando chegou o tempo das colheitas, subitamente, dá-se uma reviravolta e toda a gente quer alugar os lagares que Tales tinha monopolizado, no que resultou ele tê-los subalugado aos preços que quis, ganhando muito dinheiro, já com posses para, se quisesse, comprar um belo apartamento no 16éme arrondissement, e provando que era fácil aos filósofos enriquecerem quando quisessem, ainda que não fosse esse o objectivo da sua vida.
Continuando a provar a validade prática da filosofia, e continuando a observar o firmamento, Tales previu o eclipse de sol que haveria de pôr fim à guerra entre os Medos e os Lídios. Foi isso a 28 de Maio (não sei como fizeram essas contas) do ano de 385 antes de Cristo. 

                                                    
 
Um círculo é dividido em duas partes iguais pelo diâmetro – grande questão de moral engendrada por Tales de Mileto.
Mas há outras: os ângulos da base de um triângulo isósceles são iguais.
E houve quem disse que o nosso amigo Tales teria tido a ousadia de estabelecer uma coisa disparatada de todo, nem mais do que a divisão de um ano em 365 dias e 12 meses, e, não contente com isso, atribuindo a cada mês a quantidade totalmente absurda de 30 dias. Só mesmo de quem chegou antes de Sócrates…


Vá lá mais esta: se duas rectas se intersectam, os ângulos opostos são iguais – uma coisa que até Sócrates devia saber…


Outra: o ângulo inscrito num semi-círculo é um ângulo recto – quando teve esta ideia peregrina, Tales, consta-se que para festejar, apanhou uma tremenda grossura e mandou assar um boi, porque um triângulo só se define se a base e respectivos ângulos são conhecidos.


E o tal teorema que fez furor na noite de Mileto: uma paralela ao lado de um triângulo determinará dois triângulos idênticos.


Tales mede a altura das pirâmides partindo da sombra delas e comparando a relação entre a medida de uma vara vertical e a da sua sombra. E como é que um homem aparecido neste mundo antes de Sócrates, e sem se licenciar, nem sequer ao domingo por nenhuma faculdade, já sabia fazer cálculos de engenharia?
A terra flutua sobre a água. A água é o princípio de todas as coisas. Não era novidade. Os babilónios e os egípcios já haviam incluído a água nas suas cosmogonias.
A filosofia antiga, dizem, não coloca o problema da matéria. Quer dizer, Tales, ao teorizar sobre a água, não se perguntou metafisicamente o que era a água antes de verificar as suas propriedades, causas e consequências. Tudo remetia, segundo Nietzsche, para uma unidade do ser, unidade que Tales consubstanciava na água.


Mas Tales também deixou dito, e ainda antes de Sócrates, note-se, que o mundo estava cheio de deuses. Que o mundo era divertido, animado. E que no íntimo das coisas mais pequenas havia o espírito que as animava.


Até há quem afirme que muito do que Sócrates dizia era falso. Vejam lá uma coisa destas! 

                        

Ou, se não era falso, já tinha sido dito pelos que vieram antes dele – isso também a gente sabe. Um exemplo: a terrível fórmula do “conhece-te a ti mesmo”. Sócrates deve tê-la ouvido a alguém lá por onde andou quando era novo, nas serranias, nas beiras, e deve tê-la passado ao povo que o escutava como se fosse de lavra sua. É verdade. Há quem diga isso.
Mas o que Tales disse (segundo Diógenes Laércio) foi que de todos os seres o mais antigo era Deus, o ser que não foi engendrado. 


E o maior era o espaço que tudo continha. 

                                                   

E que o mais rápido de todos os seres existentes era o espírito, o mais santo, porque errava por toda a parte - e talvez fosse mesmo o dono de tudo. 


E que o mais forte era a necessidade que triunfa de tudo o mais.

                                                   


E que o ser entre todos os seres mais sábio era o tempo, porque o tempo tudo descobre. E até Sócrates ainda virá a ser descoberto…



domingo, 7 de dezembro de 2014

    OS QUE CHEGARAM ANTES DE SÓCRATES

Bem, senhoras e senhores, antes de Sócrates… antes de Sócrates foi quem? Só pode ter sido o Santana Lopes, ou o Durão Barroso, ou o Guterres. O Cavaco no máximo. É o que as senhoras e os senhores quem têm a paciência de ler isto estão a pensar. 

        


Mas porque é que este nos vem agora desinquietar a memória tão boa que temos desses tão estimáveis senhores que não vigarizaram ninguém, que não estragaram nada, que não deram ensejo a qualquer corrupção, que não arruinaram nada, que nunca gastaram um tostão além da conta?
Não foi assim?
Se calhar não…
Se calhar, senhoras e senhores, nem tudo foi assim tão bom antes de Sócrates. Mas também nem tudo foi tão mau como está a ser depois de Sócrates.
É isso. Sócrates é um marco.


Mas não me perguntem o que é que não foi bom e o que é que não foi mau, porque eu, a dizer a verdade, passados estes anos, tantos, de vivência democrática já nem me sinto em condições de saber dessas coisas, o que foi bom e o que foi mau, quem foi e quem não foi, e porquê e porque não. Já nem quero saber!
Vejam lá ao que chegou o meu nível de cidadania, depois de levar 40 anos a perceber que não fomos governados nem por fascistas, nem por comunistas, nem por neo-liberais, nem por sociais-democratas ou socialistas: que fomos governados mais propriamente por uma ideologia que suplantou em Portugal as ideologias mais famosas: os vigaristas.
Pois é. Hoje em dia sabe-me tudo ao mesmo. E claro que é tudo muito mais complexo do que o comum das gentes possa pensar.

O que podemos é pensar noutras coisas, ou noutras pessoas que por acaso também tenham vindo antes de Sócrates e de quem já poucos se lembram, esses que não se chamavam nem cavacos, nem guterres, nem durões, nem barrosos, nem santanas.
Então como diabo se chamavam esses de quem a gente já não se lembra e que vieram antes de Sócrates?
Olhem, um: Tales de Mileto. Diz-vos alguma coisa? 


E Anaximandro, e Anaxímenes? Não vos dizem nada? Pois olhem que esses apareceram neste mundo antes de Sócrates.


E Pitágoras – o famoso Pitá da linha de Cascais lá de Siracusa? Ah, este já diz alguma coisa. É por causa do teorema. Mas o Tales também teve um teorema que fez o seu furor na longa noite da movida de Mileto. A quantidade de boa gente que por cá apareceu antes do Sócrates, senhores! O Parménides, o Heraclito, o Empédocles. Pois é desses que eu quero falar.
Ou julgavam então que eu ia perder o meu rico tempo e o meu rico espaço bloguista a bater no ceguinho, a murmurar contra quem já por cá passou e que se espera nunca mais volte a passar… não.
Sócrates. Porquê Sócrates? Porquê o prisioneiro de Évora, a quem agora, e por causa dos profundos estudos de Filosofia na Sorbonne, chamam o Kant alentejano?
Mas não é esse. É um outro, menos afamado, mas igualmente marcante. E principalmente porque foi ele uma espécie de pedra de esquina do pensamento ocidental, e até com a vantagem de não se saber ao certo se existiu mesmo.


Não, não quero fazer comparações, nem quero pôr em dúvida se qualquer outro Sócrates alguma vez tenha existido realmente, ou exista realmente neste momento; ou até se teve, ou tem, algum Platão que o tenha feito existir, ou ainda continue a fazê-lo existir como o outro teve, e lhe tenha escrito e publicado o pensamento, e lhe tenha andado a tratar da imortalidade.


Vou tratar de moral. Portanto, vê-se logo, não? Moral, pensamento, conhecimento, linguagem, amor, ódio, vida, morte, milagres, natureza, peregrinação, transmigracão, metempsicose, devir, inteligência.
Vou tratar dos princípios fundadores da moral que a gente melhor conhece e vive, a ocidental. Vou tratar dos filosófica e historicamente chamados de pré-socráticos. Até porque, como digo, e se não o disse digo agora, já havia vida e ética e moral e pensamento e conhecimento… e crime, e corrupção, e traficância de dinheiros até antes de Sócrates ter aparecido. Parece que não havia, mas havia. E seja esse Sócrates qual for.
Questão de moral e de pensamento ocidentais formatados, digamos assim, pela tradição dos pré-socráticos, sim, mas também muitos especialistas se inclinam para a forte probabilidade de o pensamento e a tradição pré-socráticos deverem muito precisamente à influência oriental. Tanto é, que todos, ou a maioria dos que pensaram antes de Sócrates, serem provenientes da Ásia Menor.


E quem chegou da Ásia direitinhos à península helénica foram os aqueus. No segundo milénio antes do anterior ao presente. Mas os dórios perseguiram-nos e eles foram à Ásia Menor e lá fundaram cidades gregas, a Fócida, Colofon, Éfeso, Samos, Mileto, Smirna, Naxos, Lesbos. Há guerras com os medos, com os persas, enquanto os gregos da Hélada se defrontam com os cartagineses.


Havendo guerras há trocas. Os povos asiáticos tomaram contacto com a civilização grega. Diz-se que foi dos aqueus que os gregos receberam os fundamentos da sua língua e dos seus mitos; enquanto os gregos que colonizaram a Ásia Menor, em contacto com o Oriente e o Egipto, assimilaram destes a escrita, o cálculo, a astronomia.
É claro que os orientais construíram a ideia civilizacional de que tudo o que os gregos eram, valiam e conheciam lhes era devido.
O Egipto, segundo os seus sacerdotes, propaga a ideia de que o mesmo Egipto é o berço das civilizações ocidentais. Heródoto, o grande viajante, nem vai muito fora disso. Escreve sobre o Egipto e declara que a civilização grega nasceu no Egipto. Mas terá ele dito mesmo isso, ou isso não passará de tradição oral? Heródoto não lia egípcio, não decifrava papiros, apenas reproduzia o que ouvia dizer.


E falando de alguns dos maiores expoentes do pensamento que nesta vida existiu antes de José… ai, perdão, antes de Sócrates, fala-se do tal Tales, o de Mileto, segundo alguns grande viajante pelas ásias, discípulo de sacerdotes egípcios e de origem fenícia.
Outra grande estrela, antes da chegada da grande estrela Sócrates foi, como disse, o divino Pitágoras. O qual, ao que dizem os contemporâneos, muitas férias em turismo de qualidade pelo Egipto também passou. E Heraclito, outro que tal, muito influenciado pelos egípcios e persas e em particular por um moço amigo chamado Zoroastro.


E houve até quem garantisse que o próprio Sócrates, quem havia de dizer, não teria sido ninguém na vida se não tivesse concluído brilhantemente, como se sabe, os cursos ministrados… por um viajante indiano chegado a Atenas e tendo dele recebido os diplomas convenientes; enquanto outros consideram esta tese falsa como Judas, sendo difícil, como se vê, mesmo passado tantos séculos, e mesmo no que respeita a uma figura tão conhecida como Sócrates, apurar a verdade quanto aos estudos e às licenciaturas dele. Tudo em segredo de…


Sobre estas incógnitas quanto à génese filosófica e mística dos que viveram antes de Sócrates decorreram séculos e séculos de silêncio e de segredo. Foi preciso chegar o século XIX e seus influenciáveis românticos para se recomeçar a pensar nas tradições perdidas e a mitificar essa fantástica antiguidade de silêncios e segredos. E também, diga-se para se remitificar o Oriente como espaço espiritual fundador de todo o pensamento.
Os românticos europeus – mais propriamente os idealistas alemães – chegam a pontos de atribuir a Pitágoras uma estreita relação com a China; ou de dizer que os eleatas foram beber à Índia – economias emergentes, claro; ou que Empédocles reproduzia interpretativamente a tradição egípcia nos seus ensinamentos; ou que Heraclito aprendera tudo com os persas (o temível Irão!) e que os judeus (sempre eles) estavam na base das teses de Anaxágoras. Se uns pensavam e escreviam assim, outros, também alemães, refutavam em absoluto tais dizeres. O costume.
Mas, remontando aos textos dos gregos de antes de Sócrates, referem os investigadores que não existe indício algum de influência asiática no corpo das ideias gregas. Nem Marcelo Rebelo de Sousa, nem Pacheco Pereira, nem Aristóteles dizem uma acerca de tais influências. 


Platão, que terá viajado numas férias grandes com a turma dele pelo Egipto, chega a estabelecer divergências substantivas entre as temáticas egípcias e as gregas. Que o espírito dos egípcios e fenícios era orientado pela técnica e voltado para o concreto e para as vantagens materiais (novas tecnologias, investimentos, off-shores, vai-se a ver já lá andava mãozinha de um certo Espírito santificado), ao passo que o edifício mental grego era todo orientado no sentido do conhecimento e o que constitui semelhança de pensamento talvez não possa ser chamado de influência real.
Semelhanças mitológicas podem ser devidas a uma origem indo-europeia comum. O alfabeto grego é de raiz fenícia e aparentado à escrita hebraica, e a medida do tempo é de proveniência caldeia.


                                                                      

O certo será talvez dizer que as fontes do conhecimento dos que chegaram antes de Sócrates estão perdidas – nunca acreditei nisso, mas enfim. A obra desses é uma obra perdida nos séculos (é capaz) e da qual sobrou apenas um conhecimento fragmentado transmitido através dos tempos de certa forma e em tons de carácter iniciático. E são os grandes românticos alemães que tentam reconstituir as problemáticas perdidas. Nietzsche.

                                                                                                 

Dizem alguns entendidos que os que chegaram antes de Sócrates são a tradição perdida do pensar – os mais viciados em política podem perguntar-se “pensar o quê?”, mas não, não é disso que estou a falar. Porque Sócrates, como digo (ou antes: como dizem) marcou uma viragem, um novo tempo. E a tradição perdida, e antiga, do filosofar, era profética, iluminada pela verdade de uma palavra suspensa nas estruturas do tempo – só se foi muito, muito antes de Sócrates, realmente. Mas enfim, uma palavra que invocada tomará o fôlego de uma mensagem. Uma mensagem que, difundida, sugere a imanência de um deus.
Os que chegaram antes de Sócrates eram algo misteriosos homens de missão – só se foi muito antes de Sócrates, realmente. Eram intermediários, meio feiticeiros, meio sacerdotes. A visão do Ser é o que inaugura o Homem. O Ser não É, É pela visão do Homem. Ao Homem não cabe definir nem construir o sentido das coisas pré-existente a ele. Ora aí é que está…
A natureza é uma força em desenvolvimento e dela não poderá o Homem ser o senhor.


E a medida não é uma quantidade. A medida é uma expressão. Expressão de algo. Expressão de quê? Ora ora… da harmonia entre o todo e as partes. Medida é moral, é ética, é Ser.
Nietzsche atribui aos que apareceram antes de Sócrates o pensamento trágico ligado ao problema do Ser. Também estou nessa.
Sócrates seria para Nietzsche o paradigma do pensador optimista? Não. Nietzsche também não foi tão longe. E nem eu queria ir tão longe.
Nietzsche, sempre paradoxal, considera os pré-socráticos os grandes inimigos do saber e ao mesmo tempo os grande adeptos desse saber. Os pré-socráticos terão querido viver no imediato tudo quanto aprendiam. Era a vida que servia o conhecimento e o pensamento e não o contrário.
E até Nietzsche, calcule-se, ataca Sócrates. Só faltava este.
 É verdade. Sócrates seria o responsável pela contestação ao valor dos instintos morais. É capaz de ter razão, o diabo do homem.


Porque Sócrates teria baseado no conhecimento a via da virtude. O mal seria soberano no território onde faltasse o conhecimento. E Nietzsche diz que os pré-socráticos são os verdadeiros filósofos gregos. E quem sou eu para discutir isto?
Quem pôs os problemas do devir? Heraclito. Anaximandro. Quem diz que é a inteligência que determina os fins desse devir? Anaxágoras. Quem definiu o fenómeno e levantou a questão a existência do Ser? Os eleatas.


E eu de facto, não é por nada, mas já tinha reparado que Sócrates nunca tinha falado em tais coisas. Só se começar a falar agora, depois dos estudos filosóficos na Sorbonne e com tempo de sobra para reflectir…


Bom, mas já nos tempos mais recentes, Heidegger também se dedicou aos que chegaram antes de Sócrates. Até esse nazi de uma cana! E Heidegger lá entendeu que esses não se afastavam muito do Ser em função do existir. Lá entendeu terem sido os que chegaram antes de Sócrates a marcar a oposição entre o Ser e o Devir, a estabelecer ligações entre o Ente e o Nada, ou a definir verdade não como relacionamento lógico, mas como abertura e manifestação. Irra!
Houve quem dissesse ser impossível compreender Heraclito sem ter lido e assimilado Heidegger – um dos tais casos, como na música, em que o intérprete reinventa o autor e a ele se sobrepõe. Como se, afinal, os que chegaram antes de Sócrates, fossem discípulos dos filósofos contemporâneos – ou, enfim, como se os que chegaram antes de Sócrates tivessem aprendido alguma coisa com ele, Sócrates, e mais com os da sua corte...


Até os surrealistas meteram o bedelho no caso, apontando Heraclito, entre outras coisas, como o campeão da luta dos contrários. Ou dizendo que os que chegaram antes de Sócrates haviam sido uma espécie de homens-deuses, nem menos, investidos da força transcendental do mundo e no intento de restituir ao Homem um estado primitivo de filho do Sol. Duvido muito. Quem não os conheceu que os compre. Francamente. Fizeram trinta por uma linha, está bem, mas…



Hegel, Nietzsche, Heidegger foram intérpretes do pensamento dos pré-socráticos. Claro que resta saber com que graus de liberdade e de autenticidade os interpretaram, mas isso já não é da minha conta, porque tudo é imensamente discutível, e tudo neles, acerca desse ponto, pode ser flagrantemente original.


Depois de Sócrates... Bem, não falemos de coisas tristes. E ainda não sabemos da missa a metade…
Seja como for, são os que vêm a seguir a Sócrates que vão citar e vivificar a memória dos que vieram antes. Uma grande verdade. 

              



Mas não, não é desses que falo. Falo de Platão e Aristóteles, evidentemente. E Cícero. E Plutarco. E Clemente de Alexandria e seu aluno Orígenes. E o chamado bispo natural da Palestina, Eusébio, é verdade, o Pantera Negra de Cesareia, que já faleceu, coitadito, no ano de 315. Já não falando de Écio, de Estobeu, de Ário Didimo, e de outros nomes de que quem lê os jornais, vê a televisão e toma atenção ao que diz Marcelo Rebelo de Sousa se recorda perfeitíssimamente.
Chamaram aos que vieram antes de Sócrates, calcule-se, os primeiros sábios do Ocidente. Não riam, por favor. E primeira razão para insulto tal foi a singularidade de terem sido os primeiros a separarem-se do mito para descortinar a razão, embora, ainda assim, subsidiários da primitiva mentalidade - deve ter sido isso o que lhes acrescentou o fascínio. Só que nenhuma escola filosófica posterior a Sócrates deriva das que existiram antes de Sócrates. Pois não, a qualidade das coisas desta vida vai-se degradando. Muito diferentemente, neste ponto andou-se de frente para trás. Os pós-socráticos descobrem e identificam-se com os pré-socráticos, e avaliam-nos, inevitavelmente como os pós-socráticos que eram, e apreciaram-lhes o conhecimento em função do seu próprio conhecimento.
Os mais religiosos viram no pensamento dos que chegaram antes de Sócrates uma teologia dita natural, porque decorrente de uma sabedoria da natureza das coisas, sem especulação sobre os mitos, ou sobre a artificial categoria do Estado. Na filosofia deles haveria uma indagação do divino, donde o poderem ser seus herdeiros não os filósofos mas sim os teólogos cristãos. Como de facto parece que de certa maneira foram.


Pois Anaximandro, um pessimista, ao contrário de Sócrates (que apesar de tudo, e segundo as testemunhas que o visitam, anda muito bem disposto) mas, chegado antes de Sócrates, foi o primeiro a sentenciar sobre a natureza. No ano de 547. Parece que foi ontem. Anaximandro desenhou um mapa da Terra e disse que a Terra era esférica e ocupava o centro do mundo – Deus queira que algumas importantes pessoas que eu conheço e que são, elas sim, na verdade, o centro do mundo, nunca saibam disto.
Aquilo de que os seres tiram a sua existência é aquilo a que regressam quando da sua destruição - também disse Anaximandro. E ele lá sabia a sorte que estava reservada ao pobre do Sócrates.
Nietzsche tinha grande simpatia por este Anaximandro. Anaximandro teria tido a originalidade de pensar que o Devir era uma emancipação culposa relativamente a uma eternidade do Ser, era uma iniquidade, o Devir, iniquidade que se pagava com a morte.
Porque as coisas ao desprenderem-se da sua unidade primitiva e divina, ao nascerem, portanto, e em vias de atingirem o seu ser particular, cometeriam uma acção ímpia pela qual estariam condenadas ao supremo castigo da destruição. Este Anaximandro é fogo, cuidado com ele…
       Mas isto não acaba aqui. A era do antes de Sócrates foi muito fecunda.




quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

                       FALANDO DE ECONOMIA,
                     DE FINANÇAS E DE JUSTIÇA


Relatório da Direcção-Geral de Saúde - somos o país Europeu com maior consumo de ansiolíticos, sedativos e hipnóticos. Um em cada cinco portugueses sofre de perturbações psiquiátricas.


Somos um dos países do Ocidente com taxas mais altas de prevalência de doenças do foro psíquico, com os mais altos valores de prevalência de perturbações psiquiátricas (22,9%), apenas comparáveis com a Irlanda do Norte (23,1%) e com os EUA (26,4%).


domingo, 30 de novembro de 2014

                     AS CALÇAS DO JUIZ ALEXANDRE

        Então não se lembram de o ver, rompendo por entre os repórteres, negando a cara às ávidas câmaras televisivas, a fugir a sete pés pelo campus da Justiça, tronco em blazer azul normal, pernas embaraçadas no excesso de pano das calças?


        Li na Internet um depoimento do advogado Proença de Carvalho, e deduzi que aquelas calças bambalhonas, não sei se já repararam, dois ou três números acima do tamanho mais conveniente a um juiz de instrução, guarda um simbolismo. Simbolismo esse que o advogado Proença de Carvalho me descodificou. É que o juiz Alexandre, a esta hora, já podia estar sossegadíssimo na Relação. Uns números acima, portanto, de ser juiz de instrução. E se não está – e continuo a servir-me do advogado Proença de Carvalho – é porque não quer. E se não quer é porque não gosta cá de relações. Gosta de poder. E nesse poder está compreendido o poder de mandar para a pildra, nem que seja preventivamente, ou provisoriamente, alguns poderosos. Ou antigos poderosos. Quem sabe até se alguns futuros poderosos que pela acção do homem das calças largas, o juiz Alexandre, nunca atingirão o estatuto de poderosos mesmo. Quem sabe…


        O poder? O poder de quê? Ora, o poder modernamente dos mais apetecidos. O poder de julgar, sim, está bem, e o poder do sensacionalismo mediático, é pá este juiz sim, não tem medo deles, é um gajo de tomates negros. “O juiz dos tablóides”: classifica o douto Proença de Carvalho.
                                               

        E esse gosto pelo sensacional poder mediático traduz-se nas mãos únicas do juiz Alexandre e na concentração de uma carga de processos dos mais retumbantes que se possam arranjar aqui na parvalheira.


        O juiz Alexandre já foi bombeiro, é católico praticante, é filho de pessoas comuns, é o Garzon português (o Garzon verdadeiro só não é o Alexandre espanhol porque chegou primeiro do que o Alexandre aos holofotes da justiça), é ele  o justiceiro do Far-West em que a vida institucional portuguesa deu nos últimos tempos. E é sportinguista. E por aí deve ter muito de quem se vingar. Digo eu. Estou a brincar.


        Pois sim, já podia estar refastelado a desembargar num posto acima e não quer. Pela História jurídica, que irá falar dele. Pelas calças.


        No geral, mantém um número de roupa adequado à classe de juiz de instrução. Mas guarda a simbólica para as calças, dois ou três números acima da medida do mediano corpo de um juiz de instrução. E assim o juiz Alexandre está a significar a sua situação profissional aos media, ao mundo distraído e ignaro que não repara em certas coisas. 

                                                                          

      Podia estar mais alto e mais largo e mais comprido na carreira. Não está porque não quer. E não quer porque a sua alma ressentida de sportinguista (de católico, de filho de gente humilde) tem sede de justiça efectiva, e o seu corpo tem fome de notoriedade mediática, e as suas calças são à dimensão do crime que prevalece neste mundo perdido que ele anda a tentar redimir. 


        Ainda fazendo fé no advogado Proença de Carvalho, o juiz Alexandre podia ser o juiz natural – não sei o que seja, mas acho uma designação saudável, ecologista. Sim, podia ser. Podia ser e é. Digo eu. É. Excepto nas calças. Aquele par de calças a drapejar no campus em fuga aos fotógrafos é pouco natural. É o par de calças de quem quer julgar à larga, perigo de fuga e de destruição de provas, mas ó meretíssimo!, cale-se, detenção, mas ó meretíssimo, cale-se, senão também você vai dentro, que isto aqui é tudo à larga, falsificação, burla, branqueamento, fraude fiscal, mas ó meretíssimo!, cale-se, prisão preventiva. Já está. Outro! Mas ó meretíssimo… cale-se. Aqui é tudo à larga. Olhe para as minhas calças. Aqui é tudo pela medida grande. Já reparou nas minhas calças? Banqueiros, deputados, chefes de polícia, agentes secretos, ministros (ou ex-ministros, o que vai dar no mesmo), ex-chefe de governo…


        O sonho dele, antes de reduzir o número das calças, é apanhar um chefe de governo que não seja ex, raios me partam se não é.
        À larga. Tudo à larga. Tudo em grande. Tudo pela medida grande. Barulho. Televisão. Rádio. Jornais. A obra dele. Devia estar na Relação, pois devia, mas não está. A sua relação com a Relação fica-se, para já, pelas calças, bastante grandes para meter nos bolsos delas o mais que vier que dê direito a grande notícia, políticos, financeiros, tubarões, enfim, daqueles que mordem mesmo…

                                                                                  

           E por falar nisto…
      E por falar nisto, e tendo sempre como orientação de estudos as calças do juiz Alexandre, estou prestes a terminar a minha licenciatura de sofá em Processo Penal.
        Para mestrado e doutoramento devo ter que esperar. Esperar pelos recursos de uma data de condenações em 1ª instância. Pelos julgamentos do pessoal do BES e do BPN e do BPP. Pelo julgamento do “animal feroz”. Sei lá…

        Nessa altura já não estarei no mundo dos viventes, com toda a certeza. Mas mesmo assim deixo aqui o preito de gratidão académica aos meus insígnes mestres televisivos, Saragoça da Mata, Sá e Cunha, Rogério Alves, Rangel, Caiado Guerreiro, Inês Serra Lopes, Artur Marques, Magalhães e Silva. Fora aqueles de quem esqueci o nome. Nem sei o que mais haverá para aprender nos bancos de universidade para além do que eles têm ensinado ao povo pela televisão. E tudo isso à pala do juiz Alexandre e das suas calças largas.