domingo, 21 de dezembro de 2014

             OS QUE CHEGARAM ANTES DE 
             SÓCRATES, OU SUBSÍDIO PARA     
          UMA REABILITAÇÃO FILOSÓFICA     
                      DE  LILI CANEÇAS


Um momento que já chegamos à Lili Caneças.

                                                                                

Primeiro temos que saber de uma primeira tentativa de desmitologização do pensamento. Ficou a dever-se a Xenófanes.


Que os homens caricaturavam os deuses e os concebiam antropomorficamente, atribuindo-lhes tudo o que entre os homens é pouca-vergonha. E ainda muito judiciosamente nota Xenófanes: os etíopes representam os seus deuses negros e de nariz achatado; os trácios dizem que os seus deuses têm olhos azuis e cabelos ruivos. Mas se os bois e os cavalos tivessem mãos e com elas pintassem, pintariam as formas dos deuses semelhantes às dos cavalos e dos bois, fariam os corpos dos deuses segundo a sua própria espécie.                                                                                   
                                                            

Xenófanes foi o chefe da escola eleática, ou seita eleática. Xenófanes é o pensador da unidade, o Todo, segundo a opinião de Platão. Xenófanes sobrepõe o saber à aparência. Os deuses possuiriam, eles sim, o verdadeiro saber; aos homens não restava mais do que a conjectura. E Xenófanes riu-se de Pitágoras. E Heraclito considerava Xenófanes um erudito pouco inteligente.


Mas é Parménides o fundador da doutrina eleática e com ela a ideia da unicidade do Ser.   


                                           

Platão afiançava para quem o quisesse ouvir que Parménides, já rapaz para os seus 65 anos, tinha ido pelo braço de Zenão passar uma temporada a Atenas, por volta do ano de 450, e que por acaso se chegara a encontrar com um jovem chamado Sócrates que andaria a tirar um curso qualquer. Não se sabe se é verdade. Não se sabe que curso. Não se sabe se chegou mesmo a tirá-lo.

                 

Não, não é a respeito desse curso de Sócrates. O que não se sabe se é verdade é que Parménides tivesse estado em Atenas e com o tal Sócrates se tivesse avistado. Ou então a prova de que se avistou ainda hoje faz parte do processo e deve estar em segredo de justiça, porque só Sócrates saberia onde estava em 450 antes de Cristo. E talvez já nem se lembre da cara de Parménides.



Se Xenófanes se riu das bacoradas de Pitágoras, a Parménides tocou gozar à parva com os ditos de Heraclito – isto de intelectuais, estamos conversados, são todos o mesmo por toda a parte e em todo o tempo… ainda um dia gostava de saber porque é que me tornei intelectual…
As águas que me transportam levaram-me tão longe quanto o meu coração poderia desejar. Sim, pois claro, a obra máxima de Parménides é um poema. As águas que o tinham transportado puseram-no na rota da deusa que dirige o homem que sabe através de todas as coisas. O carro de Parménides era guiado por donzelas e franqueou as portas do Dia e da Noite e ele apresentou-se à divindade que lhe deu as boas-vindas…
        Lindo.


Qual Lili Caneças da escola dos eleatas, Parménides arranca para a celebridade com o axioma sobre o Ser. Disse ele: o Ser é, e o Não-Ser não é. E por aqui poderia ter início uma campanha de reabilitação filosófica do pensamento de Lili Caneças, que tão gozada foi aqui há tempos quando disse, se não estou em erro, e com verdade irrefutável, que morrer era o contrário de estar vivo – e portanto que o viver é o estar vivo, e o morrer é o estar morto. E ninguém a levou a sério só porque mora aqui perto, na linha, e não se assenta à miserável e mediterrânica mesa de um destes filósofos de pé descalço que não tinham onde cair mortos, que não tinham empresas de construção civil e só por isso não eram convidados para as mesmas festas…


O Ser, sendo o que é – agora já não é Lili Caneças a falar (mas podia até ser), agora é o Parménides – o Ser, sendo o que é, não pode ser negado. Nem mesmo em parte. E sem recurso ao movimento, à mudança.
O Ser é. É, não sendo engendrado. É imperecível. Não tem um fim. Nunca era, ou será, porque é, agora, e por inteiro, uno e contínuo e contíguo a si mesmo. Indivisível. Imóvel. Fixo. Sem falhas. Concluído por todos os lados, como a curvatura de uma esfera e com raios iguais a partir do centro. O Ser nada sabe do que seja dispersão, ou reunião. Ignora o tempo. Nada tem a ver com o espaço.

                                                          

Para Parménides a eternidade não relevava de uma duração temporal. A eternidade era, muito simplesmente, a negação da existência do próprio tempo.
Por mais chata que esta conversa seja, às vezes é bom lembrar algumas coisas que o tempo globalizado e economicizado faz por esquecer nas circulares ruínas da contemporânea memória humana (e portuguesa, ainda para mais). E umas filosofadas de vez em quando mal também não fazem. E até porque nos recordam uma faculdade do ser humano para além do comer, do beber, do cheirar pó, do navegar na Internet, do rir alarvemente, do abanar o capacete, do conduzir com os copos a 200 à hora, do gritar pelo fêcêpê (FCP) ou pelo éssélebê (SLB)… antigamente havia outro por quem se costumava gritar… ai como era…
Em suma, umas filosofadas recordam-nos a faculdade que o ser humano também tem e que nas últimas e gloriosas décadas da economia global tão posta tem sido pelas ruas da amargura, e que é a tal faculdade de pensar uns centímetros para além do próprio umbigo o da própria ambição de ser rico…


O Não Ser não É e acabou-se a conversa. Lili Caneças poderia ter dito esta com originalidade se o estúpido do tal Parménides não se tivesse antecipado. O Não Ser não É.
E será possível conhecer o que não É? Será possível dar um nome ao que não É? Só se pode nomear o que É, o Ser, e esse é um princípio identitário de onde não se pode sair. Então e o erro?, perguntará mais tarde, sofisticamente, Platão.
Levando a ideia de Parménides à risca, o erro nunca poderia ser afirmado. O erro seria um Não-Ser – quer dizer então que o Ser nunca pode estar errado?, pergunta o meu deficiente espírito filosófico. Mas adiante. Se o erro é um Não Ser e o Não Ser não pode ser nomeado, ergo, o erro nunca poderá ser declarado. E por aqui se detectam as divergências de Parménides e dos eleatas com o heraclitismo. O Ser por um lado, o Devir por outro. Duas concepções do mundo e do Homem que se tentou harmonizar falando de um Devir no âmago do próprio Ser. Ou o contrário.


A divindade diante à qual Parménides foi presente olha muito séria para ele e diz-lhe: presta atenção no que te digo, rapaz, e guarda-o em ti mesmo. Há só duas vias de procura. Lembras-te da Lili Caneças? Ora ainda bem. A primeira, lá vai: o Ser é, e é impossível para ele não ser; o Ser é a via em que se pode confiar porque segue apenas a Verdade. A segunda é que o Ser não é, e que o Não Ser é necessário, e esta, digo-te francamente, filho, é a via onde nunca encontrarás seja o que for em que possas confiar.
Parménides escusava-se então de pensar o Não Ser. Não se devia nem ao menos pensar no que Não Era. Mas uma data de séculos mais tarde aparece um homem chamado Martin Heidegger para afirmar que Parménides pensava o Não Ser, ainda que declarando não o fazer – o que era um problema levado de seiscentos diabos. Parménides, para Heidegger, pensava o Não Ser, e mais, até o elevava ao nível de um conhecimento… e eu por acaso até acho bem…

                                                                                     

Para Heidegger, tanto a via do Ser como a via do Nada devem ser pensadas – também acho -, porque ao dizer-se do Nada que não é nada arriscamo-nos a ignorar eternamente tudo acerca do Ser. É assim mesmo.
Aprende a partir daqui o que os mortais têm em vista – a divindade a falar ao Parménides. E toma atenção, miúdo, anda cá… toma atenção à ordem enganadora das minhas palavras. Anda cá, rapaz, não te vás embora, anda cá… os mortais têm confiado na nomeação de duas formas, uma das quais nem deveriam nomear, e é aqui, percebes, é aqui que eles se afastam da verdade. Julgaram essas formas opostas e deram-lhes sinais diferentes, e é por isso que pensam, raios os partissem, que todas as coisas estão cheias ao mesmo tempo de luz e de treva.  
E aqui aparece a terceira via entre um Ser e um Não Ser: a opinião. Que não é via nem para o Ser nem para o Não Ser. Para alguns seria a via do erro, mais próxima do Não Ser do que do Ser.
Haveria portanto uma doutrina da verdade e uma doutrina da opinião. A alétheia e a doxa. E aqui está como os sapientes que vieram antes de Sócrates já previam o que aconteceria no tempo de Sócrates – é inocente?, é culpado?


Também alguns exegetas do eleatismo de Parménides pretenderam que a opinião fosse resultante de uma queda original. E daqui os erros das representações humanas. Erros evitáveis se pudéssemos contemplar unicamente a verdade. Pois era…


Mas haverá, minhas senhoras e meus senhores, uma necessidade de relação entre verdade e opinião. Haverá? Consta que sim. E lá vem outra vez o antipático Heidegger. Para Heidegger a terceira via seria a do aparecer – Ser, Não Ser e Aparecer – e essa seria a via dos pontos de vista, e considerando-a como pertencente à via do Ser. E o homem que na verdade sabe percorrerá as três vias, o Ser, o Não Ser e o Aparecer.


A Aparência. E cá temos de novo a querida LIli Caneças, a que ainda não se cansou de aparecer. Nas festas. Nas viagens. Na CARAS. Aparecer, ou seja, aparentar. Aparentar o quê? Juventude. Charme. Sedução. Fortuna.


Aparência. Como se os homens tivessem duas cabeças, uma para ver o Ser e outra para aperceber o Não Ser, errando, diz o filósofo, por aqui e por ali como estultos insensatos, sem poderem ver claro coisíssima nenhuma – como, repito, antes de Sócrates, eles já compreendiam o que se passaria no tempo de Sócrates…
Parménides aspirava a afastar o Homem do conhecimento sensível, tirar-lhe o vício de se deixar dominar pelo olhar, pelos ouvidos, pelas palavras. O Homem deveria ajuizar com a razão e com a razão percepcionar as coisas distantes como se estas estivessem mesmo diante dos seus olhos. Isso é que era bom. Que teria sido do Sócrates, e dos que vieram antes e depois dele, se os homens tivessem seguido o ensino do Parménides?
Pode parecer esquisito nos dias que vivemos, mas o certo é que não se pode pensar sem pensar alguma coisa. O pensar coisa nenhuma é um não-pensar, como o dizer coisa nenhuma é um não-dizer.

                                                                           
         
O Cristianismo. Não sei se digo uma baboseira, mas ao ler, mesmo por alto, as concepções destes pensadores que reflectiram sobre tanta coisa antes de Sócrates o ter feito, sente-se (eu pelo menos sinto) no pensar deles uma força que foi primórdio e inspiração de esquemas de raciocínio muito posteriores e que, devidamente adaptados ao fim em vista, nos vieram a ser transmitidos como doutrina cristã. Ou sentimos hoje a doutrina cristã como uma ressonância, aqui e ali mais ou menos presente, dos pensamentos pré-socráticos.


E claro que os pensadores cristãos e os doutores da Igreja, os clementes de Alexandria e tantos outros, estudaram em profundidade os sábios mais antigos e neles beberam alguns elementos estruturantes da sua doutrina. Heidegger, por falar nisso, acusa os pensadores cristãos de terem deformado o pensar de Parménides. Heidegger não concorda em que o Ser não seja mais do que acto de pensar.



O reino abrir-se-ia e se desenvolveria na luz, e assim o Ser seria o Aparecer, a manifestação – lá está a Lili Caneças a aparecer, a manifestar-se constantemente na CARAS. O conhecer deveria traduzir-se por um entender. Ou até por um atender, um ouvir, permitir a palavra, o testemunho. Entendimento daquele que concorda; atendimento daquele que ouve. Trazer ao Ser o que aparece. E detê-lo. Acho isto muito bonito, que é que querem? A Lili Caneças a aparecer em cada festa e a ser trazida ao Ser…


O entendimento e a razão de ser do entendimento são a mesma coisa  - disse Parménides. E disse mais: deve Ser o que pode ser pensado e de que se possa falar. Ou: é necessário que um pensamento e uma expressão sejam.
E tocamos o território do existencialismo. Com Heidegger. A essência do Homem seria afinal a sua existência. Enquanto o francês Ettiène Gilson diria que a doutrina de Parménides concluía pela oposição Ser/Existir, O que É não existe. Ou então, o que existe não É, se dermos existência a um devir do mundo sensível. Lili Caneças nunca iria tão longe, tenho a certeza…

                                                                              

Antes de chegarmos a outra estrela maior do firmamento das ideias, daquelas que vieram antes de Sócrates, Empédocles, consideremos outro grande actor da escola eleática: Zenão. E disse Bergson: a metafísica data do dia em que Zenão de Elea notou as contradições relativas ao movimento e à mudança tais como a nossa inteligência as representa – um bom assunto de meditação para Sócrates, depois do mestrado em Paris, e agora que ele não tem muito que fazer.


Zenão era mesmo de Elea. Nascido talvez em 489. Foi político e lutou contra a tirania. Entre outras coisas, produziu uma interpretação de Empédocles. Zenão, para Aristóteles, teria sido o pai da dialéctica. Porque apanhava uma das essenciais hipóteses da tese do seu adversário e alargava-se por ela, tirando dela conclusões contraditórias.
A celebridade de Zenão foi consagrada pelo que se chama de aporias. As aporias de Zenão. Aporia que, grosseiramente falando, se pode dizer uma figura de retórica pela qual o orador parecia hesitar sem conseguir uma conclusão, uma espécie de pensamento circular.
Zenão criticava os pitagóricos nas suas convicções acerca do Múltiplo. A teoria pluralista não servia para demonstrar o movimento
Eram quatro as aporias de Zenão. Já agora que estamos a falar nele…
Dicotomia. Aristóteles expõe o problema. A impossibilidade do movimento. Um móvel transportado deverá primeiro atingir a metade do espaço antes de atingir o seu fim. Nem é bom pensar ou especular sobre o movimento, porque o movimentado terá de atingir o meio de um dado percurso, a seguir o meio do percurso que falta, e ainda o meio do percurso que ainda falta, e assim até ao infinito. Aproximar-se-á do fim, mas nunca o poderá atingir.
        É muito para mim…
Aquiles. Aquiles (o veloz) e a tartaruga (a vagarosa). O mais lento a correr nunca será alcançado pelo mais rápido – ora aqui está um argumento que bem podia ser usado pelo Comité Olímpico Português para transformar os nossos corredores em vencedores pré-socráticos…


Bem, o perseguidor deve começar por atingir o ponto de onde o fugitivo partiu, e daqui o avanço do mais lento. Organizando uma corrida entre o fulminante Aquiles e a pachorrenta tartaruga e concedendo a Aquiles uma breve desvantagem, quando ele chegou ao ponto onde estava a tartaruga ao partir, o ponto T, já a tartaruga lá não está, já estará em T 1; e quando Aquiles chegar a T1 já a tartaruga irá em T2. E Aquiles não só nunca poderá ultrapassar a tartaruga como nem sequer a alcançará. Só se aproximará dela. Até ao infinito.
(A chatice é que isto é tudo a pensar no infinito…)
E veio séculos muitos depois Henri Bergson criticar o bom do Zenão e descobrir-lhe a careca do erro. O erro foi acreditar que uma corrida de A a B seja composta por uma soma de corridas sucessivas. Zenão estaria certo se, quando Aquiles está no ponto em que estava a tartaruga na partida anterior, fizessem parar os corredores, dando seguidamente a partida para uma outra corrida. E não me perguntem mais nada a respeito desta aporia…
                                                                                   

E vem agora a seta. Quando atirada, a seta está em estado de paragem, em repouso. Uma coisa só pode estar em repouso quando ocupa um espaço igual ao seu volume. E se depois de atirada a sete continua a ocupar um espaço igual ao seu volume é porque está em repouso, nunca chegará a nenhum alvo.
(Não, esta não.)

                                                                                


Ah, cruel Zenão de Elea, tu me varaste com essa seta alada que vibra, que voa e que não voa, é o silvo que me cria e é a seta que me mata – escreveu Paul Valéry num poema de Le Cimetière Marin.
O estádio. Duas multidões iguais, em velocidades iguais, devem percorrer espaços iguais em tempos iguais, movendo-se ao encontro uma da outra a partir das extremidades do estádio. E se duas multidões se movem assim, cada uma gasta para correr o comprimento da outra metade do tempo que gastara se uma delas estivesse parada, porque, para Zenão, a metade do tempo é igual ao seu dobro.


E não, não me perguntem mais nada, porque isto, devo confessar, é mesmo muito para a minha inteligência, ou como diz a sabedoria do povo: é muita areia para a minha camioneta.
O espaço e o tempo são norma de pluralidade das coisas e de mudança, e se eles se apresentam contraditórios revelam apenas que a mudança e a multiplicidade são contraditórias. Quer dizer: irreais.
Sempre me tinha palpitado qualquer coisa do género…

               



segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

       OS QUE CHEGARAM ANTES DE SÓCRATES,
        OU OS IRMÃOS DO MAIS ALTO SEGREDO


          É verdade. Antes de Sócrates já havia comentadores político-sociais impolutos, isentos e imparciais nos seus juízos que passavam férias de luxo em mansões de banqueiros no Brasil.

                                                                                             

          Mas também antes ainda de Sócrates apareceram no firmamento filosófico os mestres do mais alto segredo (sim, sim, lojas, aventais, e altos segredos -  de justiça, também, quero crer), os grandes iniciados na gnose antiquíssima, firmes esses, parece-me a mim, na convicção de que o mais alto conhecimento exige o mais alto segredo (lá está, lojas, aventais,); o mais alto conhecimento não pode estar acessível ao vulgo (pois claro que não, colheres de pedreiro, esquadros e compassos), aos simples, porque nunca se sabe o que, na sua ignorância e boçalidade, o vulgo pode obrar de maléfico quando de posse de um conhecimento reservado e correlativos poderes – aliás tem-se percebido isso ao longo dos tempos, dos últimos tempos, das últimas figuras mandantes, antes e depois de Sócrates.


O mais imponente desses mestres do mais alto segredo foi sem dúvida Pitágoras.

                                                                                                      

Temos o caso da seita religiosa dos judeus do tempo de Cristo, os essénios. É o historiador judeu Flávio Josefo que admite que os essénios levavam uma vida e praticavam um pensamento próximos dos do núcleo de iniciados que seguia Pitágoras. Embora outros mantenham que as analogias tinham como referencial idênticas fontes da sabedoria dos persas.
Tudo é número – proclama Pitágoras, ainda antes dos negócios de Sócrates.


Mas Pitágoras, que nasceu uns redondos 500 anos antes de Cristo começou a sua carreira indo de terra em terra para ouvir certos pregadores famosos. Ouviu Anaximandro em Mileto, por exemplo, e aí conheceu Tales. E de tal sorte impressionou Tales que levou este a dizer que o jovem Pitágoras possuía um génio ainda superior ao seu – o que, entre intelectuais, não é muito comum.
O próprio Pitágoras começa a pregar, atraindo seguidores, com os quais organiza uma comunidade de homens, mulheres e crianças. Uma comunidade que o era também de bens, onde o que era de um era de todos e em que os principais valores a cultivar eram a concórdia… e o segredo, o mais alto segredo. 

                                                                           

Imediatamente em volta de Pitágoras se tecem as lendas. Dizem-no filho nem menos que de Apolo. Atribuem-lhe milagres. Falam-lhe do dom da ubiquidade, ou da capacidade de deslocamento físico imediato. Admitem-lhe o poder de evocar existências muito anteriores à sua.
E também, e mais emocionante ainda do que as trapalhadas e as ideias de Sócrates, foi ter eu lido nalgum lado que Pitágoras era nem mais nem menos do que aquele que judaica e biblicamente ficou conhecido pelo nome de Moisés.


Pitágoras era um aristocrata, um elitista. E como hiper-dotado era um homem enigmático. E também intervinha na política da polis. Quer dizer, como Sócrates, e muito antes dele, tinha todas as condições para atrair tanto discípulos ferrenhos e fiéis como as antipatias do povo. E de tal ordem eram os seus inimigos que quando os governos aristocráticos que os pitagóricos apoiavam foram postos em causa por um movimento democrático, rebentou uma revolta na cidade e os seguidores de Pitágoras foram massacrados.
Não é certo o que terá acontecido depois a Pitágoras. Terá sido queimado. Terá fugido para o Metaponto e aí morrido.
Mais tarde, a comunidade pitagórica vem a restabelecer-se em Crotona, obrigada embora a modificar os seus estatutos e práticas.


Conta a lenda que um dos iniciados, agente secreto de Siracusa, traiu a memória do mestre e vendeu três livros contendo os ensinamentos secretos. E conta também a lenda que Platão, em vilegiatura pela Sicília nas férias grandes, terá adquirido esses livros com a doutrina esotérica de Pitágoras, servindo–se deles na sua própria obra.
Mas julgam que qualquer um assinava uma proposta e era admitido assim de pé para a mão na comunidade pitagórica? Engano. A doutrina pitagórica era uma doutrina total e abarcava, ou pretendia, todos os ramos do conhecimento e todas as manifestações da actividade humana, que será o mesmo que dizer que os pitagóricos não constituíam só uma escola de pensar, mas também grupo de acção, um partido político, sim, no tempo velho muito antes de Sócrates em que nos partidos políticos ainda se pensava para agir – e eu diria mais da escola pitagórica, ou seja, diria o óbvio, que ela era um primeiro esboço de organização maçónica, sendo que, como tal, ainda, o recrutamento dos membros obedecia a regras estrictas.

                                               


Nas provas de selecção para as escolas pitagóricas tinha-se em conta o aspecto do candidato – não sei se preferiam os altos, os louros, ou os baixotes e morenos. Atentava-se no modo de andar do candidato – o que por sinal eu também acho um dado importante no imediato (e superficial, claro) conhecimento de uma pessoa; assim como também já eu tinha reparado que o andar de um fulano do PC não se parece nada com o andar de um PS, e muito menos a maneira de andar de um militante do PSD tem alguma semelhança com a maneira de andar de um elegante, culto, bon vivant, bem falante e aristocrático militante do Bloco de Esquerda. É uma coisa que se vê mesmo à vista desarmada.
Obediência. Culto do “ele disse” – ele, Pitágoras, está visto. Orações. Jejuns. A iniciação pitagórica durava entre dois e cinco anos e era fundamental, porque a iniciação não era – não é - outra coisa do que uma peregrinação interior, ou uma preparação interior para receber o conhecimento, e sendo ele mesmo, Pitágoras, um alto iniciado no Egipto e na tradição da Atlântida.
        Uff!


Havia provas de silêncio – como escutar as lições do mestre e não pedir esclarecimentos. Aliás, os candidatos não viam o mestre, sempre encoberto por uma cortina. E quando passavam as provas do silêncio os candidatos subiam ao grau de matemáticos. Tinham a partir daí o dever de ensinar.


Proibido comer animais – pois não, não andavam a comer as mulheres uns dos outros. Proibidos os sacrifícios religiosos. Proibido comer favas – esta para mim é a mais intrigante das proibições, uma coisa tão boa, guisadinhas, com enchidos e entrecosto…

                                                                           

Tudo é número. Era a divisa da seita. Compreender é medir.


Terá sido Pitágoras, vindo ao mundo tanto tempo antes de Sócrates, o grande sacerdote da quantidade que tanto inflama o mundo de Sócrates – quantidade de suspeições, quantidade de votos, quantidade de euros?
Isso mesmo, resta saber de que Sócrates se fala, bem entendido…
Mas a concepção pitagórica do número podia ser diferente da concepção de Sócrates, seja esse Sócrates qual for, ou da concepção hoje reinante dos números no mundo formatado pelos Sócrates.
O número é uma colecção de unidades. 3 resulta de 1+1+1. Um número que nasce da repetição da unidade. É o que consideramos nós, hoje. Para Pitágoras, o número é o resultado da divisão da própria unidade. O Uno desdobra-se e o Um produz Dois – interpretou Aristóteles. Não há plural de uma unidade. O Uno é o número dos números; a mónada é o número das coisas numeradas.  
Para os pitagóricos o número é uma figura. O 3 é um triângulo. O 4 um quadrado. O 5 um pentágono. A soma dos números ímpares igual à sucessão dos números quadrados. De qualquer modo, é o Uno que encerra todos os números e se eleva acima dos contrários.


Os números são o Ser, o formal, o material, o causal.
Os números são os princípios que há em todos os seres da natureza, capazes de movimento, substância, matéria, princípio.
Os números são anteriores a todos os seres da natureza, transcendentes e imanentes em simultâneo.
Os números são coisas, porque as coisas são números.
                                               
                                                

Uma das razões porque me deu na cabeça escrever estas discursatas, além de falar dos que vieram antes de Sócrates, reside na beleza, direi mesmo na estética destes pensamentos. Há, a meu ver, uma beleza verbal, uma sonoridade musical em cada asserção, um esplendor objectivo e uma grandiosidade subjectiva que me traz a luz dos ciprestes, o odor das laranjeiras e das oliveiras do Mediterrâneo e do Egeu.
Falando de Pitágoras, é, já se sabe, obrigatório falar de música.

A harmonia é a proporção, a proporção que une, princípio conciliador dos princípios contrários que constituem um ser. A harmonia reconcilia os elementos em discórdia. A harmonia é o princípio fundador da música, no seu papel agregador de consonância e dissonância. Para Pitágoras a música era a aritmética oculta na relação entre número e proporção.

                                                             

Há uma harmonia sensível. Quem no-lo comunica são os instrumentos. Os pitagóricos estudaram as relações entre comprimento e espessura da corda de um instrumento e sequentemente a tensão a que o girar da cavilha sujeita a corda e o som daí resultante.


É Pitágoras quem estabelece o valor numérico dos intervalos musicais.

                                                                                              

E depois há a célebre experiência dos vasos percutidos, os sons e os volumes do som. Tomaram-se alguns vasos com a mesma capacidade. Um é deixado vazio e outro meio cheio (ou meio vazio). Percute-se cada um deles e tem-se a oitava, a consonância da oitava. E daqui derivou a construção dos instrumentos, cordas e sopros, e também a construção dos teatros e respectivas características acústicas. E mais se convenceram então os pitagóricos de ser a harmonia musical a presidir à concepção do mundo.


Os astros. As sete esferas determinam os sete sons da lira e os intervalos que os separam dois a dois, daí se seguindo uma harmonia – uma oitava. O mundo é uma lira de sete cordas. A escala musical é uma questão cósmica. A astronomia é a teoria da música celeste.
(Onde é que Sócrates se lembraria disto se não tivessem vindo os que vieram antes dele?)


Arquitectura. Sobre a noção de intervalo harmónico reina o número, origem de todas as coisas. E esse intervalo harmónico é verificável no cerne da ideia de uma arquitectura sagrada. O templo grego seria então uma peça de música petrificada. Estudando os intervalos entre as colunas do Parténon descobriram-se os números rigorosos e proporcionais de uma escala pitagórica.


Harmonias arquitectónicas presentes na construção dos poliedros e no desenho das figuras esotéricas, hexágono, rosácea, pentagrama. Uma herança pitagórica recolhida pelos primeiros maçons, quer dizer, os construtores das grandes catedrais medievas.
                                                              
                                         


É de Pitágoras que vêm os grandes símbolos maçónicos. O pitagorismo continuava o orfismo, os mistérios do culto de Apolo hiperbóreo, uma das tradições mais arcaicas da Humanidade.


É no número, é pelo número, que a harmonia e a proporção se transformam em corpo, em corpos. Intervalos temporais na música; intervalos espaciais na arquitectura; extensão e duração e o encontro delas no conceito de ritmo. 
Aritmética e música são as chaves do entendimento do mundo.


E depois a relação com a vida e com os homens. A música é labirinto de simpatias que produzem a consonância e transcendem os intervalos, que é o que separa os indivíduos uns dos outros, dando-lhes a faculdade de ressoar entre si, símbolos de notas da escala relativamente ao que os cerca.                                                                 
                                              

Números, quantidade e qualidade. Os números de Pitágoras continham uma carga espiritual – não sei se se passa o mesmo com os números de Sócrates. Os números de Pitágoras não eram meras quantificações – não sei se é assim com os números de Sócrates. Por exemplo, os números pares eram femininos e os ímpares masculinos. E os pitagóricos explicam: dividindo pares e ímpares em unidades, o par apresentará no meio um espaço vazio, quando o ímpar o tem sempre ocupado por uma das suas partes. Pode parecer pornográfico, mas é assim mesmo…
O 3 é perfeito. Tem princípio, meio e fim. E é ele o primeiro a tê-los. O 3 é linha e é superfície. É triangular, equilateral. É a potência do sólido, quando toda a ideia de sólido se apresenta em três dimensões.
O 5 também tem a sua piada. É de todos os primeiro que resulta da soma do primeiro número feminino e do primeiro masculino. E 6 é produto do primeiro masculino e do primeiro feminino. E o 7… bem, o 7…


O 7 não engendra nenhum dos números da década nem é engendrado por nenhum deles. Chamavam-lhe Minerva, deusa que não foi engendrada nem foi mãe; não foi resultante de união e, esperta, nunca se uniu a ninguém. Multiplicado por outro, o 7 não engendra nenhum dos números da década. Mas também não resulta da multiplicação de nenhum outro.


Tião de Smirna (não me vão dizer que nunca ouviram falar dele), fonte de conhecimento pitagórico, diria que é em 7 semanas que o feto atinge a perfeição e é no mês 7 que se torna viável. É aos 7 anos que as crianças ficam sem os dentes de leite e a puberdade acontece na segunda série de 7 anos, nascendo a barba na terceira série de 7 anos. An? 7 meses decorrem de um equinócio a outro. 7 orifícios tem a nossa cabeça. 7 vísceras tem o nosso corpo.
Chega.

                                                                          

Tetraktys. A década. A década que possui poderes. Sobre ela assentava o juramento dos neófitos do pitagorismo. A ela eram elevadas orações. Número divino gerador de deuses e homens. Contentor da raiz e dos fluxos criativos. Chave de todas as coisas. A década detém em si a natureza do par e do ímpar, do que se move e do que nunca muda, do Bem e do Mal. Encerra em si uma quantidade igual de números primos e de números compostos. 10 é igual a 1 mais 2 mais 3 mais 4.
4 vezes 2 engendra 8 e é engendrado por 2; 6 é resultado de 2 vezes 3 e não engendra nenhum número da década. Outros há que engendram, mas não são engendrados, o 3, o 5 – o 3 dá 9 e multiplicado por 2 dá 6, e o 5 multiplicado por 2 dá 10.
Nicómano de Gerasa (não me vão dizer que não se lembram dele) deixou dito que na década preexistia o natural equilíbrio entre conjunto e elementos. Por isso o deus, que por meio da razão tudo dispõe com sabedoria, se serviu da década como de um canon para o Todo e todas as coisas do céu à terra se relacionam na concordância dos conjuntos e das partes na década baseados e pela década ordenados.

                  


Pitágoras era um gajo do caraças – o mais nobre, elevando e poético que se pode chamar a um homem desta envergadura.
Pitágoras era menino para se recordar de vidas passadas, não sei se já o disse. Tinha (teria) portanto o dom da reminiscência. E lá dizia ele, se calhar com razão, que a alma era um ser demoníaco que tinha sido aprisionado dentro do corpo. Noutro tempo vivera ao pé dos deuses, a alma, mas acabou presa no corpo. Quando a morte do corpo acontece, a alma separa-se dele e vai uma temporada para o Hades a purificar-se. E depois regressará à terra e habitará um novo corpo. Isto mete-me um bocado de medo, que querem…


Mas o que vale é que há remissão para a alma. É durante as diversas transmigrações que as almas expiam as malfeitorias cometidas. E quando se acham dignas de ser libertadas do ciclo desgraçado das existências alcançarão a vida imortal.
Eu por acaso já há tempos que ando a tratar disso para mim, mas ainda me falta tempo, ainda não descontei o suficiente… e tenho uma coisa contra: gosto de bifes. Pois é. Enquanto comer carne estou feito (estou feito ao bife, não é?), não tenho hipótese.
Carne não. E porquê? Então não se está mesmo a ver porquê? Porque posso estar a devorar o corpo de alguém reincarnado num animal, o que pode dar uns gazes levados do diabo. E como ultimamente tenho tido uns enfartamentos e tenho andado com más digestões, só pode ser disso. Sabe-se lá quem é que eu tenho andado a comer… e sei lá quem é que qualquer dia ainda me há-de comer a mim… mal passado...


Tudo é número, meus amigos, essa é que é essa, por mais que nos doa. Tudo é número. O pós-socrático e diviníssimo Platão lá dizia que se roubássemos o número à raça humana nem chegaríamos a conhecimento algum.
E a propósito de números, também Platão lá pensava na dele que as indispensáveis matemáticas eram apenas um primeiro passo para o que realmente ao Homem importa aprender. Mas mesmo assim, e para aceder à escola platónica, se assim lhe pudermos chamar, a condição era ser um geómetra.
                                                                           
A sabedoria das quantidades não é certo que nos acrescente alguma sabedoria sobre a justa medida, precisamente a que repele de si tanto o excesso quanto o defeito. Insistimos na medida e não discernimos a medida do Bem e andamos perdidos na desmedida.
Há uma disciplina a que chamam de concepção residual de quantidade e que é a estatística. Pode-se dizer que vivemos uma moral de estatística. Claro que num tempo de Sócrates nem poderia ser de outra forma, temos de viver em pleno no reino do número, na civilização do quantitativo, do massificado, somos mestres da natureza, fomos libertados pela tecnologia. Mas libertados para quê? Exercemos o nosso domínio sobre a natureza exactamente para quê? Haverá em nós discernimento entre o que se faz e o que se devia fazer? Não estaremos já nestes tempos pós-socráticos e troikentos e salgadíssimos e espírito-santescos a confundir a quantidade com a qualidade. Ou pior ainda, a substituir uma por outra?


Podemos até neste arrazoado não sair do domínio da cultura, porque no próprio domínio da coisa cultural aconteceram as transformações morais da qualidade para a quantidade. Uma obra-prima da literatura não é, garantidamente, qualitativamente, um livro bem imaginado e bem esgalhado. É apenas um indício quantitativo. É apenas um livro que vendeu milhares ou milhões de exemplares. O grande pintor de hoje (e talvez não só de hoje) não é o mais interessante ou o mais estimulante para a alma, é o que vende bem. Músico bom é aquele cujo disco vendeu mais de um milhão de cópias. E o grande filme é o que obteve as mais chorudas receitas de bilheteira. E para que essas quantidades se consigam, a via não é a do incremento da qualidade do produto mas sim a quantidade investida na promoção desse produto, o que confunde os espíritos e nos baralha por completo a noção de qualidade de vida.
Pitágoras, um dos que apareceram antes de Sócrates, incitava os seus discípulos ao exercício da auto-análise, e todas as noites eles se perguntavam “que falta cometi?”, “que bem pratiquei?”, “que dever esqueci?”. Não sei se os de Sócrates ou os de depois de Sócrates – ou o próprio Sócrates - têm, tiveram ou terão este hábito…

                                                                                   

Ovídio fala de Pitágoras nos seguintes termos: o seu pensamento elevava-se às alturas, aos deuses do céu, e a sua imaginação contemplava visões além da vista mortal. Todas as coisas estudava com mente atenta e ávida, e levou para casa o que tinha aprendido, e sentou-se entre os homens ensinando-lhes o que era digno, e eles escutaram-no em silêncio.
A celebridade de Pitágoras propagou-se pelos séculos. Chamaram-lhe o Homem Universal e a influência dele alastrou na matemática, na cosmografia, na música, e antes de mais na conduta, no desejável ascetismo, na purificação. Está-se mesmo a ver que só podia ter aparecido antes de Sócrates…


Devia ser uma personalidade magnética o diacho do homem, e a realidade da maçonaria pitagórica, cheia de rigorosos mandamentos e intimidantes tabús, era uma fraternidade religiosa que intervinha sobre a política do sul da península itálica, e apenas porque Pitágoras ambicionara o domínio da cidade. O domínio da cidade, sim, mas atenção, através da filosofia.
Morre, ao que se disse, após quarenta dias de jejum – os quarenta dias do deserto.

                          

Uma pena não lhe terem tirado uma fotografia de jeito para eu pôr aqui…