segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

              A CULPA DE DOSTOIEVSKI


Textos Essenciais Sobre Literatura, Arte e Psicanálise: é o nome do livrinho onde bebi as informações que seguem. Autor: Siegmund Freud.  Edição Europa-América nos idos de 70, e um texto que aliás volto a ler num posfácio a Os Irmãos Karamazov da editora Relógio D’Água de 2012.
Foi o tema do parricídio que interessou especialmente o Dr. Freud na obra de Dostoievski. E com é costume há tendências e pulsões humanas que lidas através da lente de Freud não só intrigam como inquietam os espíritos menos cautos. O parricídio está nessa linha - e como não havia de estar…
Porque Dostoievski, segundo Freud, era umas poucas de complicadas coisas: escritor, neurótico, moralista, pecador.
Da parte do escritor estamos conversados. Freud senta-o numa carteira não muito atrás de Shakespeare e toma Os Irmãos Karamazov como o mais importante romance que alguma vez se escreveu.
Mas há também o moralista. Só respira as aragens mais rarefeitas da moralidade aquele que mais abaixo desceu na escada da imoralidade humana. É uma ideia, está bem. Outra é que o sujeito moral reage às tentações que o assaltam e não se deixa vencer por elas. 
Não pensemos no que peca e se arrepende, peca e se arrepende, continuadamente, e se oferece à censura do mundo pela comodidade que reveste o seu conceito de moral. Mas é a renúncia o motivo condutor de uma moral pessoal. Diz ele, Freud.  Os mais bárbaros dos antigos povos escaqueiravam o mundo, assassinavam a torto e direito e consolavam-se na penitência. Diz ele, Freud. E entre os exemplos avulta um, por sinal russo. Ivan, o Terrível. Cada penitência, cada contrição, autorizava automaticamente, moralmente, um novo assassinato.
Em Dostoievski havia a forte pulsão destrutiva. Podia ter sido um célebre criminoso se não tivesse toda a vida orientado essa pulsão contra si mesmo, expressa em masoquismos e sentimentos de culpa. Ainda assim, a tendência do grande homem para a irritabilidade e o gosto que o grande homem tinha em atormentar quem lhe fosse próximo, podem indicar a componente sádica da personalidade. Mas se se mostra sádico para os outros, também o é para si mesmo, o que Freud faz desembocar na condição de masoquista.
Neurose? Sim, não, talvez. Há masoquistas encartados que não são neuróticos. Não sabia. Eu. Quer dizer, não sabia nem deixava de saber. Acontece que Dostoievski era as duas coisas, masoquista e neurótico. Fico a saber. E mais que a neurose apresenta-se tão forte quanto maior for o combate do ego contra a complexidade que o oprime. Diz ele, Freud. 
Dostoievski era um epiléptico. Dostoievski eram ataques graves, perdas de consciência, espasmos e profundo mal-estar e abatimento logo a seguir. Uma neurose classificável como histero-epilepsia, ou histeria grave. Diz ele, Freud.
Mas os acessos de um status epilepticus, provocados por causas de tipo físico, podem nascer de uma causalidade psíquica. Diz ele, sim. O epiléptico pode aparentar apatia, pode sofrer de um deficiente desenvolvimento que poderá beirar a idiotia, a deficiência cerebral, e sem que isso se possa avaliar como sendo o essencial do quadro patológico. E daqui o caso do acesso epiléptico poder configurar um sintoma de histeria, e pela histeria adaptado e modificado, havendo portanto a distinguir entre uma epilepsia orgânica e uma epilepsia afectiva. 


Nessa conformidade, o epiléptico pode padecer de doença cerebral, ou ser “simplesmente” um neurótico. Se doença cerebral, a vida psíquica do epiléptico sofre uma perturbação que lhe é exterior; se neurótico, o epiléptico exprime somente os acidentes dessa sua vida psíquica. Talvez Dostoievski fosse um destes.
Freud elabora suficientemente a este respeito. Passemos isso por alto e detenhamo-nos no que mais directamente me interessa para agora. O parricídio. O parricídio como o mais principal crime da Humanidade. E também o mais antigo.
O parricídio, ensina ele, Freud, é a nascente essencial de todo o sentimento de culpa – talvez não a única, concede ele, Freud, porque as investigações do tempo dele não tinham chegado a conclusões exactas sobre a causa psíquica da culpa e da subsequente necessidade de expiação.

                             

E cá estamos no inevitável Édipo. Estava-se mesmo a ver. A relação do jovem com o pai, a ambivalência, o ódio, a vontade de eliminar o rival que vê no pai. E o quantum de ternura que da mesma penada pode sentir por ele. E a identificação. O rapaz quer estar no lugar do pai, admira-o, quer ser como ele e quer afastá-lo do seu caminho. Só a angústia da punição, que virá pela castração, e a vontade de preservar a masculinidade afasta (recalca) do jovem o desejo de eliminar o pai e possuir a mãe. Enquanto tal desejo lhe ocupar o inconsciente é o sentimento de culpa que vai crescendo dentro dele.
Entretanto, o jovem descobre a necessidade de aceitação do castigo, a castração, se quiser ser amado pelo pai. E porque o pai só poderá vir a amá-lo como se ele fosse uma mulher. Diz ele, Freud.
E daqui de parte para o tema da bissexualidade como uma das condições da neurose. Freud aceita sem pestanejar que em Dostoievski existiria uma predisposição do género bissexualidade, ou latência de uma homossexualidade. Como? Porquê? Pela importância que as amizades masculinas tiveram na vida dele, Dostoievski, pela singular ternura que manifestava pelos que com ele rivalizavam no plano amoroso. 
(A relevância ou não destas interpretações é com ele, Freud, não é comigo, ignorante e céptico, que acho sempre tudo isto muito engenhoso e romanesco. E fascinante.)
E se o o super-ego se torna sádico, o ego resvala no masoquismo, na passividade efeminada. Resta ao ego a necessidade da punição. Ou a submissão a um destino que até engendra satisfações no mau tratamento que o super-ego lhe inflige, e porque todo o castigo configura psiquicamente uma castração, e porque todo o castigo concretiza a anterior atitude passiva perante o pai – e porque o destino não é senão uma posterior projecção do pai.


O ego pode encarar os sintomas de morte (ataques epilépticos) como satisfação do desejo masculino, tanto quanto uma satisfação masoquista. Enquanto o super-ego verá nisso a satisfação punitiva, a felicidade sádica. E tanto uma coisa como outra só prolongam a presença e a função do pai.


Dostoievski, enquanto desterrado político na Sibéria em condições miseráveis, não sofria os seus costumados ataques de epilepsia. Porquê? Ele, Freud, explica: os ataques eram tomados pelo inconsciente como o castigo, e se agora, desterrado na Sibéria, sofria o castigo objectivo e suficiente, deixava de precisar de outro, já estava a ser punido pela sua culpa.
E assim viveu Dostoievski aqueles anos humilhantes e miseráveis sem se sentir muito abalado. Fora condenado injustamente por delito político, mas aceitou o castigo que o pai-czar lhe aplicara enquanto substituto da punição que o seu delito contra o verdadeiro pai estava a pedir. Não se auto-puniu, deixou-se punir pelo representante do pai.


A intenção de matar o pai. Essa intenção formou-lhe aquela má consciência que nunca lhe daria sossego. Em face do Estado e perante Deus comportou-se ele diante da representação do pai que estas duas instâncias podem conter, e submeteu-se à vontade do pai-czar. Perante Deus não logrou ele satisfação plena, posto que toda a vida hesitou entre aceitá-lo ou negá-lo. Teve, isso teve, esperanças de no ideal cristão deparar com a libertação da sua culpa, incorporando em si e no que sofreu o destino do próprio Cristo. Não lhe bastou.
E agora, passando à parte literária propriamente dita, há o seguinte: pergunta ele, Freud, se será por acaso que três das maiores obras-primas da literatura universal tratem o mesmo tema, o parricídio.


                                                                   
 

O Rei Édipo, Hamlet, Os Irmãos Karamazov. Qual a motivação do delito em todas elas? Resposta: a rivalidade por uma mulher. Em Édipo é o herói o autor do crime. Mas há a culpa atenuada. O inconsciente do herói projecta-se no real. O herói desconhece o poder do seu destino. Não tem intenção de cometer o crime, nem há a mulher como motivação, uma vez que ele só conquista a mãe-rainha após o crime. 


Mas a culpa de Édipo é revelada. E do inconsciente, Édipo passa à consciência. E passado à consciência nada faz para alijar esse peso e aplica a si mesmo a punição como se consciente tivesse sido o seu delito.


Hamlet não comete crime algum, já se sabe. É aí que está a questão. Depois do ser ou não ser, o fazer ou não fazer. Hamlet não faz nada. Hamlet não comete um crime porque é outro que o comete, e sem que para esse outro o crime cometido revista de alguma forma a natureza de parricídio. A questão é que compete a Hamlet vingar esse crime que outro cometeu assassinando-lhe o pai. E Hamlet mostra-se misteriosamente incapaz de proceder ao acto de vingança. Também a culpa o paralisa. E assim porque o processo neurótico desloca o sentimento de culpa para a consciência da sua incapacidade de agir, de cumprir o seu dever moral.
No romance de Dostoievski é também um outro que comete o crime. Embora esse outro mantenha com o assassinado relação filial aparentada ao herói.
O epiléptico, o neurótico em mim é um parricida – escreveu o próprio Dostoievski.
Todavia, para a justiça, o culpado pode ser um, concreto, objectivo, enquanto para a psicologia o importante não é quem cometeu o crime, é, sim, saber quem no mais profundo do seu ser desejou esse crime e com ele se regozijou depois de consumado. É assim que todos os irmãos Karamazov são igualmente culpados, tanto aquele que é impulsivo e sensual como o outro que é um céptico e um cínico, como aqueloutro epiléptico e criminoso.
Dostoievski atinava com os criminosos. Faz lembrar, segundo o que ele, Freud, diz, o temor sagrado que na Antiguidade inspiraram os epilépticos e todos os outros espiritualmente perturbados.
O criminoso é um redentor para Dostoievski. O criminoso é redentor por ter tomado para si a culpa. Se não o fizesse, todos os outros, todo o género humano (diria eu) seria obrigado a carregar com essa culpa. Após o assassinato que o criminoso cometeu não serão precisos mais assassinatos. Ele já assassinou. Fiquemos-lhe agradecidos por não sermos nós forçados a assassinar.
E se Dostoievski tratou literariamente tanto o criminoso comum como o criminoso político ou religioso, diz ele, Freud, que só no final da vida Dostoievski se virou para o crime primordial, o parricídio.


E chega a época que na vida de Dostoievski é especialmente marcada pelo vício do jogo, em que ele é dominado pelo vício do jogo.


O principal era o jogo, sim, o jogo em si, o jogo por si. Jogava sem descanso, até ter perdido tudo. Era outra estratégia de auto-punição. Jurou mil vezes à mulher que deixaria o vício. Deu mil, vezes a sua palavra de honra de que não voltaria a jogar. E quebrou todos os juramentos e faltou a todas as palavras de honra. É a mulher que o revela nos diários que foi escrevendo.


Dostoievski sentia-se diabolicamente bem quando perdia tudo e caía na miséria, e para essa miséria arrastava a mulher. Era a grande e patológica satisfação da vida dele. Diante da mulher insultava-se a si mesmo, humilhava-se, exigia-lhe o desprezasse e amaldiçoasse a hora em que se tinha juntado com ele. Era o sumo prazer da expiação. Porque no dia seguinte tudo recomeçava. E a mulher habituara-se a este trem de vida. Compreendera o ciclo da salvação de vida do marido. Compreendia que a produção literária dele aumentava de volume e de qualidade assim que perdia tudo na roleta, assim que empenhava os parcos bens que ainda tinha. Porque Dostoievski se reconciliava pelos castigos que a si próprio impunha, e assim vencia toda a inibição para escrever.


O principal é o próprio jogo – escreveu ele numa carta dirigida não percebi a quem -, e juro-lhe que não se trata de avidez pelo dinheiro, embora eu esteja, acima de tudo, necessitado de dinheiro.

Oh, como gostava que o velho Freud tivesse podido analisar (psicanalisar) as relações dos portugueses com o Salazar – isto por falar em culpa e no prazer de uma expiação. É porque me espanta a bonomia incrível com que tanta gente insuspeita de salazarismo se refere a ele – ou também a memória do pai severo e castigador que todos queríamos ter assassinado e não assassinámos e deixámos ao destino esse encargo moral. 
Ele, Freud, talvez não fosse fora disso. Não sei.
  



terça-feira, 30 de dezembro de 2014

        OS QUE CHEGARAM ANTES DE SÓCRATES,  
         OU O MAGO DAS SANDÁLIAS DE BRONZE


Nessa época fui menino e menina, arbusto, pássaro e silencioso peixe do mar.


Nunca se sabe se foi deste poema de Empédocles de Agrigento que derivou aqui em Lisboa, aí pelos anos 50, a designação de peixinho do mar para todo o macho que exibisse tiques efeminados.
De que honras, de que alturas de felicidade eu caí para errar sobre a terra entre os mortais?


Foi por dizer destas que Empédocles criou nos seus conterrâneos a fama de ser meio homem meio deus. E dos que chegaram e pensaram antes de Sócrates é Empédocles aquele de quem se conservaram melhor e mais abundantemente os textos.


Mas sabe-se, ou julga saber-se, que Empédocles nasceu como homem na bela cidade de Agrigento em 490 A.C., e de um pai chamado Metão que fazia parte do governo da cidade.
Eu caminho entre vós como um deus imortal e não mais como um mortal, cumulado por todos de honrarias, como convém, e coroado de fitas e de coroas floridas.
Oh, como devia ser precioso e inefável este Empédocles. E pela descrição de si mesmo uma espécie de hippie avant la lettre. E também lhe chamaram Mago, Mago possuído pelo deus…


E vós, ó deuses, desviai da minha língua a loucura destes homens e fazei brotar dos meus lábios santificados uma nascente pura…
E tu, deusa de numerosos pretendentes, virgem de braços brancos, invoco-te. Dá-me o saber que as divinas leis permitem entender às efémeras criaturas, conduzindo um carro dócil vindo do reino da Piedade.
É tão estranho isto.
Dá-me o saber que as divinas leis permitem.


É estranho tomar conhecimento de quanto noutras eras o saber, a sabedoria, o conhecimento, eram anseios poderosos de tanta gente, eram meios de obtenção de prazer próprio e condição de ascensão na vida da cidade, e como no tempo desgraçado que vivemos, o tempo de Sócrates (ou do pós-Sócrates), o saber não é mais do que uma chumbada, quando os doutores que proliferam desprezam o saber e anseiam pela aparência dele em forma de diploma ou certificado de habilitações, e em que o saber e o respectivo sabedor chegam a ser desprezados como chatos insuportáveis e evitada a sua companhia, e só porque ela pode pôr em relevo a ignorância circundante dos que com ele poderiam conviver, e não convivem porque estamos no tempo que se pretende como novo, e em que tudo o que é velho, incluindo o saber, é para ser esquecido depressa e para evitar, como se nunca tivesse existido nem nunca pudesse tornar a existir…


É verdade, conheço directores disto e daquilo para quem um subalterno com o equivalente à antiga 4ª classe já é uma ameaça.
Todos os remédios que existem para te defenderes da doença e da velhice tu os aprenderás, porque só para ti quero realizar tudo isso. Tu amainarás o furor dos ventos infatigáveis que se precipitam sobre a terra e em trombas de água devastam os campos, e de novo, a teu gosto trarás de volta a brisa benfazeja.


Pelo que nos diz o Prof. George Steiner, estes sábios dos tempos de antanho, com toda a razão anteriores a Sócrates (oh, muito, mesmo muito anteriores), eram, ou podiam ser, pregadores itinerantes e personagens enigmáticas. Empédocles, como outros, expunha a sua filosofia em versos, e porque não havia tão grande distinção entre o filósofo e o rapsodo, entre a pedagogia e a arte, e os tratados dos mestres pensadores podiam ser apresentados ao povo – e aos discípulos – em forma de declamação e de canto.


A mística do mestre e do aluno chegou-nos muito pelo que se conhece das hagiografias de Pitágoras e de Empédocles.


No tempo do Mago Empédocles as teorias do pitagorismo e do heraclitismo pululavam pela Sicília e incendiavam as mentes. Empédocles, crê-se, terá chegado à fala com Parménides e com Ésquilo.


         E havia as grandes correntes do misticismo de Dionisos. E por toda a terra da Sicília deambulavam os místicos errantes que exorcizavam os doentes, pregavam como oráculos e recitavam purificações. E era este o ambiente cultural em que Empédocles se movimentava e em função do qual se deu à composição da sua personagem, a meio caminho entre o mago taumaturgo, o rapsodo-cantor e o profeta.


Eis mais um excerto de uma das suas purificações: Após as sombrias chuvas criarás uma seca propícia. Para os homens, e de novo, após a estiagem do verão, trarás as chuvas que alimentam as árvores e caem do céu. E reconduzirás do Hades a alma de um homem já morto.


Empédocles reclamava-se do poder de curar e de ensinar aos homens o caminho da fortuna. A verdade só provém da divindade, que faz dele somente o seu intermediário, vagabundo exilado dos deuses, porque, diz, não se pode trazer o deus ao alcance dos nossos olhos nem com as mãos o agarrar; esses são os meios pelos quais a persuasão penetra no espírito dos homens.
O saber de Empédocles não é senão conclusão das reencarnações sucessivas de que foi objecto. Também ele está no número dos condenados à errância por anos e anos. E foi no decurso das transmigrações que adquiriu o conhecimento completo do ciclo dos seres. E por isso também ele (como Pitágoras) recorda as vidas anteriores.


Nessa época fui menino e menina, arbusto, pássaro e silencioso peixe do mar.
Empédocles reclama-se de ter vivido no âmago da mistura de onde nascem as coisas e o próprio Homem. E nessas andanças foi capaz de incorporar o segredo da multidão de forças que ora criam os elementos ora os destroem. Era senhor de poderes sobrenaturais, dizia-se. Arrogava-se a faculdade de poder dar ordens à própria morte.
Indo no plano prático e objectivo, parece certo ter havido na região algumas manifestações do poder de Empédocles. Diagnosticou a proveniência de uma epidemia de peste que infectou a cidade de Selinone: as insalubres emanações de uma água de nascente próxima. Como era homem que tinha de seu, chegou a pagar do próprio bolso os trabalhos de desvio do curso de rios com vista à purificação das correntes. E por ser assim os habitantes da cidade contribuíram para a fama dele: meio homem meio deus.


O clima mesmo da sua cidade, Agrigento, diz-se que ele o conseguiu modificar – na volta ainda é o nosso Empédocles, numa das suas transmigrações, que anda a tramar o clima destes nossos dias de Sócrates, pós-Sócrates. Pois bem, Empédocles mudou o clima de Agrigento mandando dispor peles de burro na passagem estreita por onde entravam os ventos etésios que ameaçavam as colheitas.
E foi também na medicina que o mago de Agrigento exerceu as suas faculdades. Uma mulher que havia um mês não respirava foi ressuscitada por ele. Como? Descobrindo um ponto de calor à flor da pele e percebendo que estava a lidar com uma histérica.


Pela música apaziguava ele as paixões.
Um dia apareceu-lhe pela proa um jovem a acusá-lo de ter condenado o pai à morte, e ele não fez mais nada, começou a cantar-lhe uns versos da Odisseia, uma espécie de canção do bandido que fala de uma droga, o nepentés, que acalma e dulcifica a cólera e cura a maior parte das maleitas.
Porque, enfim, o Ser é a permanência – na visão de Empédocles. O caminho da verdade é o que conduz ao Ser e do Ser não há devir. Uma esfera. Sfaïros – a esfera imóvel contínua e contígua a si mesma, que para Parménides era o Ser. 


Sfaïros que Heraclito pusera em aparente movimento, um movimento que não lhe permite sair de si, porque no coração do Ser habita o Logos que dá o Sentido das coisas e dos seres. E Empédocles toma essa noção da esfera do Ser, Sfaïros, e diz que dela nada ainda divergiu porque é espírito sagrado, luz pura e ignara das sombras do Ódio que provoca as divisões.
Fixo no espesso invólucro da harmonia, o Sfaïros é alegre em sua revolução solitária. Não há discórdia nem luta entre os seus membros. É igual em todos os sentidos e semelhante a si própria e sem limites.
Sfaïros circular e alegre porque não se veem dois ramos soltarem-se do seu dorso. Não tem pés nem joelhos ágeis nem órgãos genitais. É esférico em todos os sentidos. Igual a si próprio.


Ao Ser divino e inacessível aos homens nada seria exterior. Não conhece a paixão, ignora o combate e o Múltiplo. Apenas… É.
Havia, segundo Empédocles, um paraíso, doravante perdido. Havia uma idade do ouro primitiva onde a inocência reinava. Mas de lá os homens foram arremessados sobre a terra e aí sim, ficaram entregues à luta dos contrários.
Só os piedosos voltarão para junto dos deuses para continuar a paz e a harmonia e conhecer de novo a era em que todas as criaturas eram familiares e doces, homens, aves, animais selvagens. Mas na terra o Homem é o ser exilado a expiar uma existência anterior.
Eu sou o vagabundo exilado dos deuses porque pus a minha confiança no ódio furioso. E chorei e solucei à vista desta terra insólita.


 É aborrecido, eu sei, falar disto nos tempos de hoje, quando ninguém está para se chatear por causa da cultura e do conhecimento, mas o mundo de Empédocles é uma tragédia cósmica onde lutam as duas forças que orientam os fenómenos do universo: o Amor e o Ódio. 


É o ciclo dos nascimentos e renascimentos que superintende à justiça do mundo. Há as potências que podem conduzir as almas ao mundo dos homens, dizendo: chegamos a esta caverna aberta e mundo é o lugar da infelicidade onde a morte e o ódio e os outros génios do mal e as doenças que destroem e as putrefacções e a dissolução vagueiam nas trevas pelas campinas da desgraça.
         Mas depois haverá seres privilegiados. Pitágoras. Empédocles. Esses, os que têm o poder de recordar as suas vidas anteriores e desse poder de reminiscência beber das fontes prodigiosas da sabedoria.
Porque o conhecimento não é proveniente dos sentidos nem do espírito. O conhecimento provém de uma reminiscência das vicissitudes dos elementos em sua jornada de misturas e divisões. O conhecimento é gnose. É iniciação, êxtase. Purificação.


O conhecimento mergulha nas profundezas do tempo, imune às divisões que separam e à multiplicidade que dispersa.
O Amor e o Ódio, como eram antes, assim serão, e jamais o tempo infinito será despojado deste par.
A união de todas as coisas provoca o nascimento e a destruição.
Mas como aparece o ódio se no pensamento de Empédocles não entra a ideia de criação?
Talvez o ódio, como o amor, sempre tenham existido, incriados, e como sempre haverão de existir, dado que o tempo jamais prescindirá deste par.
E poetiza Empédocles: enquanto tudo se reunia, o ódio era atirado para os extremos limites. E isto enquanto o amor se acharia no núcleo do turbilhão da unidade, atraindo tudo a si de forma a poder constituir o Uno. O pior foi quando o tempo se completou e deu voz ao ódio que estava segregado nos limites.


Quando o ódio começou a prevalecer houve movimento no Sfaïros e todos os membros do deus foram abalados.
Às vezes, sob o efeito do amor, todos os membros que o corpo possui se reúnem no Uno, no auge da vida florescente. Outras vezes, dispersos pela nociva desavença, erram por sua vez, até às mais longínquas margens da vida.
E dir-te-ei ainda outra coisa: das coisas mortais não há criação nem desaparecimento na morte funesta, mas apenas mistura e dissociação do que foi misturado.
Sim senhor, porque o conceito de criação foi atribuído pelos homens ao fenómeno das metamorfoses no interior de um ciclo.
Quando os elementos combinados surgem à luz sob a forma de um homem, ou sob a forma de qualquer outro animal ou planta, então os homens dizem que houve um nascimento. E quando os elementos se separam os homens chamam a isso morte funesta e não utilizam os termos que a justiça exige.


A teoria empedocliana das raízes das coisas. A água para Tales. O ar para Anaximandro. O fogo para Heraclito. E para Empédocles? A terra. A terra de onde saem os seres vivos e à qual regressam.
Crescem impelidos pelo calor que existe na terra como se fossem partes dela.


A respiração é, no domínio da fisiologia de Empédocles, o fenómeno capital, o acto elementar que, pelo ritmo, conserva a vida e permite a união do que somos a tudo o que nos rodeia. E onde também prevalece o tema da mistura e da luta, sangue e ar, que se perseguem mutuamente.
As diferenças individuais. E no centro delas está o desejo que empurra os seres uns para os outros, não obstante essas mesmas diferenças que os deveriam manter para sempre afastados.
A sensação. A sensação é como a respiração pela qual o que percebe se apercebe do percebido. E permite ao Homem a comunhão com o que o circunda, como nos versos seguintes de Empédocles: assim o doce se apercebe do doce e o amargo se precipita para o amargo, o ácido para o ácido e o quente para o quente. É no Homem que residem as raízes do universo, e por ser assim recebe o Homem do universo a mensagem.
Para Empédocles, o maior dos crimes era o crime de sangue. E não era por mais nada, era só por poder interromper o ciclo das reencarnações. E assim que para ele, como para Pitágoras, também fosse de proibir comer carne e oferecer sacrifícios.
Julgo que segundo uma tradição oral pouco segura, e dentro do âmbito de uma decisão política que lhe coube, Empédocles terá ordenado algumas execuções capitais dos seus inimigos, em resultado do que o povo se teria levantado contra ele, desterrando-o para o Peloponeso. No entanto, por outro lado, antes de morrer, o pai de Empédocles trabalhava numa constituição democrática para a cidade. E quando o senhor morreu os aristocráticos sublevaram-se, o que terá levado Empédocles a tomar o partido da democracia. Não ponho as mãos no fogo por nenhuma das hipóteses.


Disse-se que o quiseram fazer rei e que ele recusou. E objurgou duramente todo aquele que pretendesse obter algum privilégio social ou político. Também se diz que politicamente Empédocles era um liberal que atraía a si grande popularidade e consequentes invejas e inimizades – coisas que aconteciam até antes de Sócrates. E até ao dia em que lhe deu na veneta pôr-se a viajar.
Foi à Grécia. Em Olímpia mandou cantar, não sei se um cego, mas pelo menos um rapsodo, um tal Cleomenes. Mandou-o cantar alguns dos seus versos e purificações. Talvez tenha feito algumas compras nos elegantes centros comerciais de Atenas. Não está provado. Até ao dia em que lhe apeteceu regressar a casa, a Agrigento. Mal sabia o que o esperava.


Pois foi. Ao chegar às portas da cidade, o serviço de fronteiras proíbe-lhe a entrada. Que eram ordens, que eram ordens. Na ausência, os inimigos tinham ganho preponderância política. E Empédocles foi posto à margem e viu-se na contingência de ter que peregrinar por esse mundo, exilado dos deuses, como ele dizia, acompanhado pelo discípulo dilecto, Pausânias, que mais tarde seria médico com consultório ali na avenida…       

 
Empédocles foi uma personagem fabulosa, rodeada de lenda. A pontos de impressionar a imaginação dos românticos alemães. Hölderlin. Nietzsche. Escreveram tragédias nunca acabadas sobre ele, o filósofo das visões trágicas. Foi eleito por eles um herói romântico assoberbado por um desejo de infinito. Ou o homem agonal de Nietzsche, cirandando entre o mito, a orgia e a razão. E Schopenhauer também lhe fica devedor. E também o dramaturgo contemporâneo Gerhardt Hauptmann. E até Freud.
Mas ainda falando da obra de Nietzsche, leio que para ele Empédocles era alguém que perversamente ansiava pela ruína do seu povo – que achava medíocre e preguiçoso – e que usara o conhecimento contra a sua própria pessoa, e referindo alguns estudiosos que Nietzsche, à sombra de Empédocles, não falara na sua tragédia de mais ninguém a não ser ele próprio.
Freud, já se sabe, via na filosofia grega a fonte das suas teorias, o mundo terrível onde se debatem Eros e Thanatos, as pulsões da vida e da morte.

                    

No século IV grego instala-se em Siracusa uma escola empedocliana de medicina.
E por fim, a fabulosa morte de Empédocles.


Não se sabe de certeza como morreu. A lenda que envolve a morte de Empédocles foi da ordem poderosa que substituiu a História, ou acabou por ser adoptada pela História, como eu acho que deveria acontecer sempre, quanto mais não fosse porque a lenda, a efabulação, pode ser mais bela do que a realidade, e prescrevendo eu por minha conta que a realidade só deveria alimentar a História no caso de ser mais bela e mais trágica do que a ficção.
Há quem diga que Empédocles se afogou. Há quem diga que foi por causa de uma ferida feita num desastre com o seu carro – talvez conduzisse sob o efeito do álcool, ou da droga, não me admiraria nada.


Empédocles dá uma festa com muitos convidados. Acabada a festa, os convidados vão para debaixo das oliveiras passar pelas brasas, enquanto Empédocles fica a meditar no lugar onde estava.
A madrugada vai alta quando os convidados acordam. Vão por ele e não o encontram. Entra um criado da casa. Ai, meus ricos senhores, ouvi uma voz muito forte a chamar Empédocles… Empédocles… e ao mesmo tempo, meus ricos senhores, vi uma luz a brilhar nos céus.


Entra o discípulo amado, Pausânias. Vão em paz e não procurem mais o mestre. O mestre tornou-se um deus. O mais certo é ter sido arrebatado da terra enquanto nós dormíamos e a esta hora já foi acolhido nos céus.
E sobre esta primeira versão da morte de Empédocles se forja a outra, complementar, de fazer delirar as mentes românticas. Empédocles teria saído de casa acompanhado por Pausânias, teria subido ao monte Etna, ter-se-ia despedido do discípulo amado e ter-lhe-ia pedido que o deixasse só no alto do monte para se precipitar em seguida para a cratera do vulcão, porque achara por bem purificar-se pelo fogo, mergulhar no centro da terra, tornar ao ciclo dos seres. E a prova de tais casos terá sido uma sandália de bronze de Empédocles que o Etna teria expelido dias depois para o exterior.


E não sei que mais possa dizer acerca dos que chegaram antes de Sócrates.
Porque no meio disto tudo chegou Sócrates.