terça-feira, 13 de janeiro de 2015

          

           
            OS MASSACRES DE PARIS E O ERUDITO          
         QUINHENTISTA POLITICAMENTE CORRECTO

              Andávamos tão tranquilamente inquietos na austeridade e nem pelo nosso politicamente correcto e conformado pensamento passou que pelo Charlie Hebdo iríamos ser duramente interpelados no mais profundo das nossas ocidentais ambiguidades, no mais agudo das nossas democráticas e bem pensantes contradições.


Tolerância, liberdade de circulação, liberdade de expressão, respeito pelas privacidades, consideração pelas minorias étnicas (e outras) e risco dia a dia aumentado de desgraça pública, violência extrema e morte; com a triste alternativa de restrições à cidadania, de escutas intensivas, de vídeo-vigilâncias multiplicadas, de rédea curtíssima às minorias étnicas, de restrições à circulação Schengen… e risco só um pouco mais atenuado de desgraça pública, violência extrema e morte.


                                               

Os sanguinários protagonistas dos crimes do Charlie Hebdo e do supermercado Kasher estavam todos, todinhos, referenciados pelos serviços secretos franceses e americanos. Sim. Para quê? E depois? Depois, foi o que se viu.


Que tem isto a ver com a cultura e com o grande mestre pedagogo quinhentista Nicolau Clenardo (Nicolaus Clenardus; Nicholas Cleynaerts)? Tem. A questão islâmica não é de hoje, já se sabe.
Nicolau Clenardo foi, no século XVI, um notável percursor do estudo das línguas, as clássicas e as orientais – latim, grego hebraico, aramaico, árabe. Foi inovador – e um paladino do politicamente correcto na complicada relação do Ocidente com o mundo islâmico.


A inovação de Clenardo foi o introduzir nas técnicas de ensino das línguas a vertente prática em desdouro da livresca. Uma banalidade para nós, os de hoje. A repetição oral e escrita das frases como base do entendimento da língua. Uma secundarização da gramática e um incremento da audição, do diálogo, quer dizer, do contacto prático com a língua que se quer aprender.


Flamengo, religioso, mestre na Universidade de Lovaina, é precisamente aí que começa a estudar o árabe pelas técnicas livrescas e convencionais. E estudo do árabe é ele que o leva a envolver-se profundamente com o mundo muçulmano e decorrentes problemáticas sociais e religiosas. E tanto lhe interessaram os estudos arábicos que depressa se apercebeu do lugar onde privilegiado contacto poderia haurir com os temas muçulmanos. A Península Ibérica.


Expulsos há tempo mouros e judeus do território peninsular, a realidade era a dos cristãos-novos, que continuavam judeus e mouros de fé, ainda que abjurando formalmente das respectivas convicções e tradições religiosas, e sempre com a Inquisição (descrente dessas conversões) à perna.


Mergulhado na questão judeu-árabe nas suas diversas coordenadas, Clenardo observava que, não obstante as conversões forçadas, o islamismo e o judaísmo continuavam a agenciar adeptos entre os cristãos – caso que do século XVI, como se percebe, directamente nos transporta à mais premente actualidade, com o crescente número de jovens ocidentais (e alguns nascidos aqui pela linha de Sintra) fascinados por Maomé e a pegar em armas pelo islamismo.


Do que Clenardo discordava era da pressão psicológica e da força das armas como travões ao alastramento das heresias de Mafoma e Jeovah. Força bruta e força psíquica só em última instância. A via ideal era a do diálogo. Só poderia ser a do diálogo, e sendo a força filha da intolerância opressora das liberdades, e sendo a palavra o instrumento do respeito pela pessoa humana, da consideração pelo Outro – um políticamente correctíssimo do século XVI, um espanto! E sendo que esse diálogo só eficazmente funcionaria no caso de o dialogante dominar a língua que era veículo das ideologias erradas, designadamente o islamismo. Daí, então, a urgência do incremento dos estudos arábicos ao mais alto nível académico.


Clenardo vem de escantilhão de Lovaina para Salamanca pela mão de Fernando Colombo, filho de Cristóvão. Em Salamanca, aperfeiçoa consideravelmente o conhecimento da língua e cultura árabes que já trazia de Lovaina. Autodidacta, estuda a tradução árabe dos Evangelhos. Compreende finalmente a aplicação correcta das vogais, enfronha-se na gramática de Albucasim e assimila novos vocábulos.


Nisto, aparece em Salamanca o humanista português André de Resende. Vem a mando do rei de Portugal, D. João III, e atraído pelo renome intelectual do religioso brabantino. Quer trazê-lo para Évora. Faz-lhe a proposta. Clenardo aceita. E vem para Évora.


Na corte de Évora, Clenardo é nomeado nem mais nem menos do que perceptor de Teologia e Humanidades do Infante Henrique – mais tarde bispo de Braga, arcebispo de Évora, cardeal, e rei de Portugal.


Em Évora, e professor de árabe, pensa regressar em breve a Lovaina para aí continuar o magistério arábico, mas, instado pelo príncipe, e motivado pelas possibilidades de estudo aperfeiçoado da língua e cultura  arábicas, vai-se deixando ficar por Évora.
Concluídos os estudos com mestre Nicolau Clenardo, o príncipe é feito bispo de Braga. Clenardo fica portanto livre dos compromissos com a corte portuguesa, continuando embora a embolsar a pensão anual de 100.000 reais enquanto o discípulo for vivo.


No verão de 1538, Nicolau Clenardo ainda reside em Portugal, é assessor científico de Sua Alteza, o Príncipe, e encarregam-no de fundar uma escola de latim em Braga.
De vida oscilante entre duas vocações, a sacerdotal e a cultural, Clenardo está mais do que convencido da probabilidade de eximir os mouros aos erros teológicos em que laboram e de os converter a Cristo por meio do discurso e do diálogo desenvolvidos na língua mesma dos infiéis. É a única maneira verdadeiramente cristã e humanista de pregar as verdades evangélicas aos seguidores de Mafoma. Chama-lhe a cruzada pacífica.


Em causa estava o encontro de Deus com os homens. Um encontro que se daria unicamente na condição de ser realizado pela acção e pela palavra dos homens, e sendo a palavra o meio único de testemunhar a maravilha da revelação divina.
É nesse ano de 1538 que Clenardo segue para Granada. E é em Granada que ele abranda os imperativos científico-pedagógicos da vocação em favor da dedicação quase exclusiva aos imperativos evangelizadores e apologéticos.


Começara a estudar a língua árabe com via de compreensão mais afinada do hebraico, e pela afinidade entre as duas expressões. Não pensara então em combater a heresia. Foi em Salamanca que a missão de escrever contra Mafoma se lhe impôs, e porque toda a Espanha lhe parecia crescentemente contaminada pelo islamismo.


A missão obrigá-lo-ia a estudar detidamente o Corão. Não se pode atacar com competência o que a fundo não se conhece. Para as melhores refutações de Maomé bom seria penetrar nos mistérios da religião por ele fundada.


Um aspecto interessante do magistério e da missionação – e da correcção política avant la lettre - de Nicolau Clenardo é a intensa discordância dele quanto à repressão que os estados soberanos exerciam sobre muçulmanos e judeus na Península. Quanto aos processos da Inquisição, portanto. Tais processos inscreviam-se numa cruzada de armas e de martírios, ao que ele opunha a necessidade prática da tal cruzada pacífica. Os processos de morte deveriam ser abandonados e a ele deveriam sobrepor-se os processos dialogantes de teor religioso como instrumento óptimo da conversão dos muçulmanos. E isso porque o diálogo pressupunha um essencial ponto de partida, o qual seria o da liberdade dos dialogantes, e sendo essa liberdade o contexto atinente a uma conversão sincera e espiritual, não forçada pelas conveniências da sobrevivência.


Liberdade é capacidade de optar. E optar é resultado do comparar. Comparando os princípios e teses do cristianismo e do islamismo, segundo o bom Nicolau Clenardo, facilmente qualquer maometano se aperceberia dos erros e das falsidades da sua religião no confronto com os ensinamentos e práticas cristãs.


Nas instruções que dava a quantos se propunham evangelizar os hereges muçulmanos, Clenardo exigia que no contacto com eles os missionários usassem a própria língua dos hereges. De nada serviria argumentar com os hierarcas muçulmanos em latim. O desejável seria utilizar uma arma de que o inimigo sentisse os golpes. E se a discussão teológica com os eruditos muçulmanos não fosse feita em árabe, o melhor que haveria a fazer era desistir da missão.


Atacava-se muito o Corão, mas ninguém se dava à tarefa de discutir o dogma na língua arábica. E o exemplo vinha dos próprios Apóstolos de Cristo, que Deus, por alguma razão, dotara do dom das línguas e que usavam no seu ministério sagrado as diversas línguas dos povos a quem em cada circunstância se dirigiam.  Porque a fé transmitia-se pelo ouvido, e o ouvido é o receptáculo do que a língua pronuncia.


O facto de os muçulmanos e judeus se converterem ao cristianismo pela força, e falsamente, não agradaria certamente a Deus. Mas sobre a Europa do tempo a ameaça islâmica era uma realidade, sobretudo na parte oriental do continente por acção guerreira dos turcos, e na Península Ibérica pela proximidade com o norte de África e pela ameaça do regresso do pessoal dessa zona a Portugal e Espanha.


Talvez daqui, desta iminência ameaçadora para a cristandade, se alcance um pouco mais da fezada do nosso D. Sebastião em ir combater a moirama no seu próprio reduto, por imprudente que fosse. 


A presença de Portugal em Marrocos era bem vista por Clenardo. Portugal era um baluarte de Cristo e a segurança da Península era garantida por Portugal no norte de África, e já que, por ocasião do nascimento do islamismo os reis ocidentais não tinham tido a força de contrariar o impulso de conquista de que a nova e herética fé dava eloquentes mostras.


Entretanto, a Inquisição deitava ao fogo os livros sagrados de judeus e mouros. Errado!, grita Clenardo. Uma afronta para os que nesses livros depositaram a sua fé. Os próprios judeus e árabes se encarregariam de deitar ao fogo os seus livros logo que finalmente estivessem convencidos da falsidade deles e convertidos estivessem ao cristianismo. Exemplo? Foi a pregação dos Apóstolos de Cristo a sugerir aos povos da idolátrica a destruição dos seus ídolos. Os livros sagrados de judeus e árabes eram para ser distribuídos pelas escolas e pelos teólogos. Só assim se teria acesso pleno e directo aos erros. E só assim esses erros seriam possíveis de rebater com propriedade.


Mas as teses de Clenardo, já se deixa ver, não colheram vencimento por parte dos inquisidores. E Clenardo avança um passo derradeiro. Escreve ao próprio imperador Carlos V. E o resultado é o mesmo – nem sei se Carlos V ao menos chegou a acusar a recepção da carta de Nicolau Clenardo.


E foi assim. No século XVI, perante a ameaça real e muito próxima de islamização da Europa, Nicolau Clenardo foi a alternativa intelectual, civilizada, politicamente correcta à força de repressão das armas e das torturas. Não teve sucesso. Quem pode saber se hoje, nas graves circunstâncias históricas que se apresentam, essa alternativa civilizada e politicamente correcta terá (teria) mais sucesso? 







segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

              A CULPA DE DOSTOIEVSKI


Textos Essenciais Sobre Literatura, Arte e Psicanálise: é o nome do livrinho onde bebi as informações que seguem. Autor: Siegmund Freud.  Edição Europa-América nos idos de 70, e um texto que aliás volto a ler num posfácio a Os Irmãos Karamazov da editora Relógio D’Água de 2012.
Foi o tema do parricídio que interessou especialmente o Dr. Freud na obra de Dostoievski. E com é costume há tendências e pulsões humanas que lidas através da lente de Freud não só intrigam como inquietam os espíritos menos cautos. O parricídio está nessa linha - e como não havia de estar…
Porque Dostoievski, segundo Freud, era umas poucas de complicadas coisas: escritor, neurótico, moralista, pecador.
Da parte do escritor estamos conversados. Freud senta-o numa carteira não muito atrás de Shakespeare e toma Os Irmãos Karamazov como o mais importante romance que alguma vez se escreveu.
Mas há também o moralista. Só respira as aragens mais rarefeitas da moralidade aquele que mais abaixo desceu na escada da imoralidade humana. É uma ideia, está bem. Outra é que o sujeito moral reage às tentações que o assaltam e não se deixa vencer por elas. 
Não pensemos no que peca e se arrepende, peca e se arrepende, continuadamente, e se oferece à censura do mundo pela comodidade que reveste o seu conceito de moral. Mas é a renúncia o motivo condutor de uma moral pessoal. Diz ele, Freud.  Os mais bárbaros dos antigos povos escaqueiravam o mundo, assassinavam a torto e direito e consolavam-se na penitência. Diz ele, Freud. E entre os exemplos avulta um, por sinal russo. Ivan, o Terrível. Cada penitência, cada contrição, autorizava automaticamente, moralmente, um novo assassinato.
Em Dostoievski havia a forte pulsão destrutiva. Podia ter sido um célebre criminoso se não tivesse toda a vida orientado essa pulsão contra si mesmo, expressa em masoquismos e sentimentos de culpa. Ainda assim, a tendência do grande homem para a irritabilidade e o gosto que o grande homem tinha em atormentar quem lhe fosse próximo, podem indicar a componente sádica da personalidade. Mas se se mostra sádico para os outros, também o é para si mesmo, o que Freud faz desembocar na condição de masoquista.
Neurose? Sim, não, talvez. Há masoquistas encartados que não são neuróticos. Não sabia. Eu. Quer dizer, não sabia nem deixava de saber. Acontece que Dostoievski era as duas coisas, masoquista e neurótico. Fico a saber. E mais que a neurose apresenta-se tão forte quanto maior for o combate do ego contra a complexidade que o oprime. Diz ele, Freud. 
Dostoievski era um epiléptico. Dostoievski eram ataques graves, perdas de consciência, espasmos e profundo mal-estar e abatimento logo a seguir. Uma neurose classificável como histero-epilepsia, ou histeria grave. Diz ele, Freud.
Mas os acessos de um status epilepticus, provocados por causas de tipo físico, podem nascer de uma causalidade psíquica. Diz ele, sim. O epiléptico pode aparentar apatia, pode sofrer de um deficiente desenvolvimento que poderá beirar a idiotia, a deficiência cerebral, e sem que isso se possa avaliar como sendo o essencial do quadro patológico. E daqui o caso do acesso epiléptico poder configurar um sintoma de histeria, e pela histeria adaptado e modificado, havendo portanto a distinguir entre uma epilepsia orgânica e uma epilepsia afectiva. 


Nessa conformidade, o epiléptico pode padecer de doença cerebral, ou ser “simplesmente” um neurótico. Se doença cerebral, a vida psíquica do epiléptico sofre uma perturbação que lhe é exterior; se neurótico, o epiléptico exprime somente os acidentes dessa sua vida psíquica. Talvez Dostoievski fosse um destes.
Freud elabora suficientemente a este respeito. Passemos isso por alto e detenhamo-nos no que mais directamente me interessa para agora. O parricídio. O parricídio como o mais principal crime da Humanidade. E também o mais antigo.
O parricídio, ensina ele, Freud, é a nascente essencial de todo o sentimento de culpa – talvez não a única, concede ele, Freud, porque as investigações do tempo dele não tinham chegado a conclusões exactas sobre a causa psíquica da culpa e da subsequente necessidade de expiação.

                             

E cá estamos no inevitável Édipo. Estava-se mesmo a ver. A relação do jovem com o pai, a ambivalência, o ódio, a vontade de eliminar o rival que vê no pai. E o quantum de ternura que da mesma penada pode sentir por ele. E a identificação. O rapaz quer estar no lugar do pai, admira-o, quer ser como ele e quer afastá-lo do seu caminho. Só a angústia da punição, que virá pela castração, e a vontade de preservar a masculinidade afasta (recalca) do jovem o desejo de eliminar o pai e possuir a mãe. Enquanto tal desejo lhe ocupar o inconsciente é o sentimento de culpa que vai crescendo dentro dele.
Entretanto, o jovem descobre a necessidade de aceitação do castigo, a castração, se quiser ser amado pelo pai. E porque o pai só poderá vir a amá-lo como se ele fosse uma mulher. Diz ele, Freud.
E daqui de parte para o tema da bissexualidade como uma das condições da neurose. Freud aceita sem pestanejar que em Dostoievski existiria uma predisposição do género bissexualidade, ou latência de uma homossexualidade. Como? Porquê? Pela importância que as amizades masculinas tiveram na vida dele, Dostoievski, pela singular ternura que manifestava pelos que com ele rivalizavam no plano amoroso. 
(A relevância ou não destas interpretações é com ele, Freud, não é comigo, ignorante e céptico, que acho sempre tudo isto muito engenhoso e romanesco. E fascinante.)
E se o o super-ego se torna sádico, o ego resvala no masoquismo, na passividade efeminada. Resta ao ego a necessidade da punição. Ou a submissão a um destino que até engendra satisfações no mau tratamento que o super-ego lhe inflige, e porque todo o castigo configura psiquicamente uma castração, e porque todo o castigo concretiza a anterior atitude passiva perante o pai – e porque o destino não é senão uma posterior projecção do pai.


O ego pode encarar os sintomas de morte (ataques epilépticos) como satisfação do desejo masculino, tanto quanto uma satisfação masoquista. Enquanto o super-ego verá nisso a satisfação punitiva, a felicidade sádica. E tanto uma coisa como outra só prolongam a presença e a função do pai.


Dostoievski, enquanto desterrado político na Sibéria em condições miseráveis, não sofria os seus costumados ataques de epilepsia. Porquê? Ele, Freud, explica: os ataques eram tomados pelo inconsciente como o castigo, e se agora, desterrado na Sibéria, sofria o castigo objectivo e suficiente, deixava de precisar de outro, já estava a ser punido pela sua culpa.
E assim viveu Dostoievski aqueles anos humilhantes e miseráveis sem se sentir muito abalado. Fora condenado injustamente por delito político, mas aceitou o castigo que o pai-czar lhe aplicara enquanto substituto da punição que o seu delito contra o verdadeiro pai estava a pedir. Não se auto-puniu, deixou-se punir pelo representante do pai.


A intenção de matar o pai. Essa intenção formou-lhe aquela má consciência que nunca lhe daria sossego. Em face do Estado e perante Deus comportou-se ele diante da representação do pai que estas duas instâncias podem conter, e submeteu-se à vontade do pai-czar. Perante Deus não logrou ele satisfação plena, posto que toda a vida hesitou entre aceitá-lo ou negá-lo. Teve, isso teve, esperanças de no ideal cristão deparar com a libertação da sua culpa, incorporando em si e no que sofreu o destino do próprio Cristo. Não lhe bastou.
E agora, passando à parte literária propriamente dita, há o seguinte: pergunta ele, Freud, se será por acaso que três das maiores obras-primas da literatura universal tratem o mesmo tema, o parricídio.


                                                                   
 

O Rei Édipo, Hamlet, Os Irmãos Karamazov. Qual a motivação do delito em todas elas? Resposta: a rivalidade por uma mulher. Em Édipo é o herói o autor do crime. Mas há a culpa atenuada. O inconsciente do herói projecta-se no real. O herói desconhece o poder do seu destino. Não tem intenção de cometer o crime, nem há a mulher como motivação, uma vez que ele só conquista a mãe-rainha após o crime. 


Mas a culpa de Édipo é revelada. E do inconsciente, Édipo passa à consciência. E passado à consciência nada faz para alijar esse peso e aplica a si mesmo a punição como se consciente tivesse sido o seu delito.


Hamlet não comete crime algum, já se sabe. É aí que está a questão. Depois do ser ou não ser, o fazer ou não fazer. Hamlet não faz nada. Hamlet não comete um crime porque é outro que o comete, e sem que para esse outro o crime cometido revista de alguma forma a natureza de parricídio. A questão é que compete a Hamlet vingar esse crime que outro cometeu assassinando-lhe o pai. E Hamlet mostra-se misteriosamente incapaz de proceder ao acto de vingança. Também a culpa o paralisa. E assim porque o processo neurótico desloca o sentimento de culpa para a consciência da sua incapacidade de agir, de cumprir o seu dever moral.
No romance de Dostoievski é também um outro que comete o crime. Embora esse outro mantenha com o assassinado relação filial aparentada ao herói.
O epiléptico, o neurótico em mim é um parricida – escreveu o próprio Dostoievski.
Todavia, para a justiça, o culpado pode ser um, concreto, objectivo, enquanto para a psicologia o importante não é quem cometeu o crime, é, sim, saber quem no mais profundo do seu ser desejou esse crime e com ele se regozijou depois de consumado. É assim que todos os irmãos Karamazov são igualmente culpados, tanto aquele que é impulsivo e sensual como o outro que é um céptico e um cínico, como aqueloutro epiléptico e criminoso.
Dostoievski atinava com os criminosos. Faz lembrar, segundo o que ele, Freud, diz, o temor sagrado que na Antiguidade inspiraram os epilépticos e todos os outros espiritualmente perturbados.
O criminoso é um redentor para Dostoievski. O criminoso é redentor por ter tomado para si a culpa. Se não o fizesse, todos os outros, todo o género humano (diria eu) seria obrigado a carregar com essa culpa. Após o assassinato que o criminoso cometeu não serão precisos mais assassinatos. Ele já assassinou. Fiquemos-lhe agradecidos por não sermos nós forçados a assassinar.
E se Dostoievski tratou literariamente tanto o criminoso comum como o criminoso político ou religioso, diz ele, Freud, que só no final da vida Dostoievski se virou para o crime primordial, o parricídio.


E chega a época que na vida de Dostoievski é especialmente marcada pelo vício do jogo, em que ele é dominado pelo vício do jogo.


O principal era o jogo, sim, o jogo em si, o jogo por si. Jogava sem descanso, até ter perdido tudo. Era outra estratégia de auto-punição. Jurou mil vezes à mulher que deixaria o vício. Deu mil, vezes a sua palavra de honra de que não voltaria a jogar. E quebrou todos os juramentos e faltou a todas as palavras de honra. É a mulher que o revela nos diários que foi escrevendo.


Dostoievski sentia-se diabolicamente bem quando perdia tudo e caía na miséria, e para essa miséria arrastava a mulher. Era a grande e patológica satisfação da vida dele. Diante da mulher insultava-se a si mesmo, humilhava-se, exigia-lhe o desprezasse e amaldiçoasse a hora em que se tinha juntado com ele. Era o sumo prazer da expiação. Porque no dia seguinte tudo recomeçava. E a mulher habituara-se a este trem de vida. Compreendera o ciclo da salvação de vida do marido. Compreendia que a produção literária dele aumentava de volume e de qualidade assim que perdia tudo na roleta, assim que empenhava os parcos bens que ainda tinha. Porque Dostoievski se reconciliava pelos castigos que a si próprio impunha, e assim vencia toda a inibição para escrever.


O principal é o próprio jogo – escreveu ele numa carta dirigida não percebi a quem -, e juro-lhe que não se trata de avidez pelo dinheiro, embora eu esteja, acima de tudo, necessitado de dinheiro.

Oh, como gostava que o velho Freud tivesse podido analisar (psicanalisar) as relações dos portugueses com o Salazar – isto por falar em culpa e no prazer de uma expiação. É porque me espanta a bonomia incrível com que tanta gente insuspeita de salazarismo se refere a ele – ou também a memória do pai severo e castigador que todos queríamos ter assassinado e não assassinámos e deixámos ao destino esse encargo moral. 
Ele, Freud, talvez não fosse fora disso. Não sei.