sábado, 17 de janeiro de 2015

          O NAZISMO ÁRABE
            
    Pois é. Mas percebe-se com relativa facilidade.
    Rudolf Hess era natural do Egipto. E era de mãe muçulmana. E era quem era no Reich, o Vertreter, o sub-führer, ou o vice-führer, o primeiro na linha de sucessão do führer - antes de lhe dar a louca e de desarvorar sozinho de avião para Inglaterra.

                                                                          

    Bom. Negavam-se os direitos individuais no nazismo, em troca de uma obediência cega ao führer, ao duce, ao chefe; negavam-se as prerrogativas individuais no puro e duro Islão pela obediência cega ao Profeta e seus sucessores e/ou representantes.

 

    Pois é. E percebe-se com mais facilidade ainda se se conhecer alguma coisa dos primórdios do nazismo e das sociedades secretas que se moviam na Alemanha. Desde sempre, já se sabe. Mas com acção particularmente intensiva e militante naquele pós-I Guerra. 

                      
                                                                             
    O Ordo Templi Orientis, uma dessas agremiações, com ligações umbilicais ao maluco arabista e inglês do Alistair Crowley, frequentador assíduo das paragens mais arenosas das arábias nos anos 20.
                    
                             
   
    E percebe-se ainda melhor se se souber que um jovem egípcio, de sua graça Hassan Al Banna, reuniu em volta dele um grupo de outros jovens nacionalistas a que chamou de irmandade. Irmandade Muçulmana, pois claro.


    Era admirador de Hitler o jovem Al Banna. Um entre tantos, naquelas épocas em que isso não deslustrava ninguém nem revestia a cor da ignomínia que hoje reveste. Hoje, é claro, já se sabe como o filme acabou. Naquela época o filme nem tinha ainda começado.


    Já se sabe como o filme acabou, ou não acabou. E se nos anos 20 o Al Banna tinha reunido a Irmandade Muçulmana, nos anos 30 ele declarava-se um seguidor de Hitler e punha-se a trabalhar para os serviços secretos do Reich. Quem diz isto é um certo John Loftus, homem muito ligado às coisas da informação que teve acesso a ficheiros reservados dos EUA e da NATO.


    Pois é. Os da Irmandade Muçulmana, muito naturalmente, se se pode dizer, como árabes que eram, odiavam os judeus. Sim, a história é velha. E odiando os judeus, não é preciso ser um génio da dedução para se alcançar o afã com que estes irmãos muçulmanos faziam o frete a Hitler no processo de extermínio dos mesmos judeus. E nem queriam nada com democracias. E falarem-lhes da cultura ocidental para eles eram facadas.


    Rebenta a guerra. O Reich estreita relações com a Irmandade e institui-lhes verbas de apoio como se de um braço de exército se tratasse.

                                                           

É quando Rommel vai para o deserto com as suas divisões de blindados. É quando a Irmandade jura (ficou escrito) o seu apoio a Rommel na campanha do Norte de África, e garante que daí para o mais próximo futuro nem um inglês ou americano há-de ser visto, vivo, nas ruas do Cairo ou de Alexandria.


Vá lá que esse apoio da Irmandade a Rommel não lhe valeu de muito. Ou antes, valeu-lhe de alguma coisa, sim, pelo que dizem os cronistas desses sangrentos episódios da II Guerra, e devido à acção dos batedores árabes que flagelavam frequentemente as tropas aliadas.


Mal a guerra acaba, quem vai a correr para o Egipto é o famoso oficial comando nazi Otto von Skorzeny – o que havia libertado Mussolini. 

                               

E no Egipto Skorzeny organiza uma espécie de Gestapo egípcia enquadrada por ex-oficiais SS. E apoiado por quem? Por Allen Dulles, homem das secretas americanas, da OSS, e fundador da instituição que sucedeu à OSS, a CIA. 

                                                                 

CIA essa estruturada na base dos ficheiros sobre a URSS que o génio da espionagem nazi, Reinhard Gehlen, havia recolhido durante os treze anos de nazismo, e que o mesmo Allen Dulles safou da Alemanha mesmo no fim da guerra e levou secretamente para a América.


                                                                     

Essa espionagem nazi-egípcia teria como inspiração a seita de Al Wahhabi, do tal Hassan Al Banna, então criador de uma juventude islâmica encarregada de velar pelos valores e pela moral muçulmanas.


E acabava a II Guerra. E acabada a II Guerra está na ordem do dia a formação do Estado de Israel. E visto isso, qual era a óbvia missão mais levada a peito pelos serviços secretos árabes? Está-se mesmo a ver, não está? Dar cabo do nascente Estado de Israel. 


Bate tudo certo. Foram esses árabes nazis os primeiros a dar luta sem quartel aos recém-instalados judeus. 

Os ingleses viram o furo. Podiam usar os árabes nazis como contrapeso aos árabes comunistas. Era moral. A URSS financiava os árabes comunistas, os ingleses e americanos financiavam os árabes nazis.


É quando o coronel Gamal Abdel Nasser, em 1954, expulsa do Egipto a Irmandade Muçulmana. E é a CIA que toma em mãos, pelos anos 50, a trasladação da Irmandade Muçulmana, da seita Wahhabi non grata a Nasser, para a Arábia Saudita.


Em tempo: um dos mais aplicados jovens da Irmandade Muçulmana transferidos para a Arábia Saudita chamava-se Osama Bin Laden.




terça-feira, 13 de janeiro de 2015

          

           
            OS MASSACRES DE PARIS E O ERUDITO          
         QUINHENTISTA POLITICAMENTE CORRECTO

              Andávamos tão tranquilamente inquietos na austeridade e nem pelo nosso politicamente correcto e conformado pensamento passou que pelo Charlie Hebdo iríamos ser duramente interpelados no mais profundo das nossas ocidentais ambiguidades, no mais agudo das nossas democráticas e bem pensantes contradições.


Tolerância, liberdade de circulação, liberdade de expressão, respeito pelas privacidades, consideração pelas minorias étnicas (e outras) e risco dia a dia aumentado de desgraça pública, violência extrema e morte; com a triste alternativa de restrições à cidadania, de escutas intensivas, de vídeo-vigilâncias multiplicadas, de rédea curtíssima às minorias étnicas, de restrições à circulação Schengen… e risco só um pouco mais atenuado de desgraça pública, violência extrema e morte.


                                               

Os sanguinários protagonistas dos crimes do Charlie Hebdo e do supermercado Kasher estavam todos, todinhos, referenciados pelos serviços secretos franceses e americanos. Sim. Para quê? E depois? Depois, foi o que se viu.


Que tem isto a ver com a cultura e com o grande mestre pedagogo quinhentista Nicolau Clenardo (Nicolaus Clenardus; Nicholas Cleynaerts)? Tem. A questão islâmica não é de hoje, já se sabe.
Nicolau Clenardo foi, no século XVI, um notável percursor do estudo das línguas, as clássicas e as orientais – latim, grego hebraico, aramaico, árabe. Foi inovador – e um paladino do politicamente correcto na complicada relação do Ocidente com o mundo islâmico.


A inovação de Clenardo foi o introduzir nas técnicas de ensino das línguas a vertente prática em desdouro da livresca. Uma banalidade para nós, os de hoje. A repetição oral e escrita das frases como base do entendimento da língua. Uma secundarização da gramática e um incremento da audição, do diálogo, quer dizer, do contacto prático com a língua que se quer aprender.


Flamengo, religioso, mestre na Universidade de Lovaina, é precisamente aí que começa a estudar o árabe pelas técnicas livrescas e convencionais. E estudo do árabe é ele que o leva a envolver-se profundamente com o mundo muçulmano e decorrentes problemáticas sociais e religiosas. E tanto lhe interessaram os estudos arábicos que depressa se apercebeu do lugar onde privilegiado contacto poderia haurir com os temas muçulmanos. A Península Ibérica.


Expulsos há tempo mouros e judeus do território peninsular, a realidade era a dos cristãos-novos, que continuavam judeus e mouros de fé, ainda que abjurando formalmente das respectivas convicções e tradições religiosas, e sempre com a Inquisição (descrente dessas conversões) à perna.


Mergulhado na questão judeu-árabe nas suas diversas coordenadas, Clenardo observava que, não obstante as conversões forçadas, o islamismo e o judaísmo continuavam a agenciar adeptos entre os cristãos – caso que do século XVI, como se percebe, directamente nos transporta à mais premente actualidade, com o crescente número de jovens ocidentais (e alguns nascidos aqui pela linha de Sintra) fascinados por Maomé e a pegar em armas pelo islamismo.


Do que Clenardo discordava era da pressão psicológica e da força das armas como travões ao alastramento das heresias de Mafoma e Jeovah. Força bruta e força psíquica só em última instância. A via ideal era a do diálogo. Só poderia ser a do diálogo, e sendo a força filha da intolerância opressora das liberdades, e sendo a palavra o instrumento do respeito pela pessoa humana, da consideração pelo Outro – um políticamente correctíssimo do século XVI, um espanto! E sendo que esse diálogo só eficazmente funcionaria no caso de o dialogante dominar a língua que era veículo das ideologias erradas, designadamente o islamismo. Daí, então, a urgência do incremento dos estudos arábicos ao mais alto nível académico.


Clenardo vem de escantilhão de Lovaina para Salamanca pela mão de Fernando Colombo, filho de Cristóvão. Em Salamanca, aperfeiçoa consideravelmente o conhecimento da língua e cultura árabes que já trazia de Lovaina. Autodidacta, estuda a tradução árabe dos Evangelhos. Compreende finalmente a aplicação correcta das vogais, enfronha-se na gramática de Albucasim e assimila novos vocábulos.


Nisto, aparece em Salamanca o humanista português André de Resende. Vem a mando do rei de Portugal, D. João III, e atraído pelo renome intelectual do religioso brabantino. Quer trazê-lo para Évora. Faz-lhe a proposta. Clenardo aceita. E vem para Évora.


Na corte de Évora, Clenardo é nomeado nem mais nem menos do que perceptor de Teologia e Humanidades do Infante Henrique – mais tarde bispo de Braga, arcebispo de Évora, cardeal, e rei de Portugal.


Em Évora, e professor de árabe, pensa regressar em breve a Lovaina para aí continuar o magistério arábico, mas, instado pelo príncipe, e motivado pelas possibilidades de estudo aperfeiçoado da língua e cultura  arábicas, vai-se deixando ficar por Évora.
Concluídos os estudos com mestre Nicolau Clenardo, o príncipe é feito bispo de Braga. Clenardo fica portanto livre dos compromissos com a corte portuguesa, continuando embora a embolsar a pensão anual de 100.000 reais enquanto o discípulo for vivo.


No verão de 1538, Nicolau Clenardo ainda reside em Portugal, é assessor científico de Sua Alteza, o Príncipe, e encarregam-no de fundar uma escola de latim em Braga.
De vida oscilante entre duas vocações, a sacerdotal e a cultural, Clenardo está mais do que convencido da probabilidade de eximir os mouros aos erros teológicos em que laboram e de os converter a Cristo por meio do discurso e do diálogo desenvolvidos na língua mesma dos infiéis. É a única maneira verdadeiramente cristã e humanista de pregar as verdades evangélicas aos seguidores de Mafoma. Chama-lhe a cruzada pacífica.


Em causa estava o encontro de Deus com os homens. Um encontro que se daria unicamente na condição de ser realizado pela acção e pela palavra dos homens, e sendo a palavra o meio único de testemunhar a maravilha da revelação divina.
É nesse ano de 1538 que Clenardo segue para Granada. E é em Granada que ele abranda os imperativos científico-pedagógicos da vocação em favor da dedicação quase exclusiva aos imperativos evangelizadores e apologéticos.


Começara a estudar a língua árabe com via de compreensão mais afinada do hebraico, e pela afinidade entre as duas expressões. Não pensara então em combater a heresia. Foi em Salamanca que a missão de escrever contra Mafoma se lhe impôs, e porque toda a Espanha lhe parecia crescentemente contaminada pelo islamismo.


A missão obrigá-lo-ia a estudar detidamente o Corão. Não se pode atacar com competência o que a fundo não se conhece. Para as melhores refutações de Maomé bom seria penetrar nos mistérios da religião por ele fundada.


Um aspecto interessante do magistério e da missionação – e da correcção política avant la lettre - de Nicolau Clenardo é a intensa discordância dele quanto à repressão que os estados soberanos exerciam sobre muçulmanos e judeus na Península. Quanto aos processos da Inquisição, portanto. Tais processos inscreviam-se numa cruzada de armas e de martírios, ao que ele opunha a necessidade prática da tal cruzada pacífica. Os processos de morte deveriam ser abandonados e a ele deveriam sobrepor-se os processos dialogantes de teor religioso como instrumento óptimo da conversão dos muçulmanos. E isso porque o diálogo pressupunha um essencial ponto de partida, o qual seria o da liberdade dos dialogantes, e sendo essa liberdade o contexto atinente a uma conversão sincera e espiritual, não forçada pelas conveniências da sobrevivência.


Liberdade é capacidade de optar. E optar é resultado do comparar. Comparando os princípios e teses do cristianismo e do islamismo, segundo o bom Nicolau Clenardo, facilmente qualquer maometano se aperceberia dos erros e das falsidades da sua religião no confronto com os ensinamentos e práticas cristãs.


Nas instruções que dava a quantos se propunham evangelizar os hereges muçulmanos, Clenardo exigia que no contacto com eles os missionários usassem a própria língua dos hereges. De nada serviria argumentar com os hierarcas muçulmanos em latim. O desejável seria utilizar uma arma de que o inimigo sentisse os golpes. E se a discussão teológica com os eruditos muçulmanos não fosse feita em árabe, o melhor que haveria a fazer era desistir da missão.


Atacava-se muito o Corão, mas ninguém se dava à tarefa de discutir o dogma na língua arábica. E o exemplo vinha dos próprios Apóstolos de Cristo, que Deus, por alguma razão, dotara do dom das línguas e que usavam no seu ministério sagrado as diversas línguas dos povos a quem em cada circunstância se dirigiam.  Porque a fé transmitia-se pelo ouvido, e o ouvido é o receptáculo do que a língua pronuncia.


O facto de os muçulmanos e judeus se converterem ao cristianismo pela força, e falsamente, não agradaria certamente a Deus. Mas sobre a Europa do tempo a ameaça islâmica era uma realidade, sobretudo na parte oriental do continente por acção guerreira dos turcos, e na Península Ibérica pela proximidade com o norte de África e pela ameaça do regresso do pessoal dessa zona a Portugal e Espanha.


Talvez daqui, desta iminência ameaçadora para a cristandade, se alcance um pouco mais da fezada do nosso D. Sebastião em ir combater a moirama no seu próprio reduto, por imprudente que fosse. 


A presença de Portugal em Marrocos era bem vista por Clenardo. Portugal era um baluarte de Cristo e a segurança da Península era garantida por Portugal no norte de África, e já que, por ocasião do nascimento do islamismo os reis ocidentais não tinham tido a força de contrariar o impulso de conquista de que a nova e herética fé dava eloquentes mostras.


Entretanto, a Inquisição deitava ao fogo os livros sagrados de judeus e mouros. Errado!, grita Clenardo. Uma afronta para os que nesses livros depositaram a sua fé. Os próprios judeus e árabes se encarregariam de deitar ao fogo os seus livros logo que finalmente estivessem convencidos da falsidade deles e convertidos estivessem ao cristianismo. Exemplo? Foi a pregação dos Apóstolos de Cristo a sugerir aos povos da idolátrica a destruição dos seus ídolos. Os livros sagrados de judeus e árabes eram para ser distribuídos pelas escolas e pelos teólogos. Só assim se teria acesso pleno e directo aos erros. E só assim esses erros seriam possíveis de rebater com propriedade.


Mas as teses de Clenardo, já se deixa ver, não colheram vencimento por parte dos inquisidores. E Clenardo avança um passo derradeiro. Escreve ao próprio imperador Carlos V. E o resultado é o mesmo – nem sei se Carlos V ao menos chegou a acusar a recepção da carta de Nicolau Clenardo.


E foi assim. No século XVI, perante a ameaça real e muito próxima de islamização da Europa, Nicolau Clenardo foi a alternativa intelectual, civilizada, politicamente correcta à força de repressão das armas e das torturas. Não teve sucesso. Quem pode saber se hoje, nas graves circunstâncias históricas que se apresentam, essa alternativa civilizada e politicamente correcta terá (teria) mais sucesso?