segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

          


O HOMEM QUE EDUCOU SECRETAMENTE   OS FALHADOS ASSASSINOS DE HITLER,
    E OUTRAS HISTÓRIAS,
                            E OUTROS MESTRES


Fala-se de Stefan George, o poeta, o tradutor, o guru. Quem sabe se o charlatão? O auto investido guardião das doutrinas da Alemanha arcaica, tradicional. Ou até melhor: da Alemanha secreta.


Stefan George foi o mestre espiritual de boa parte dos oficiais que perpetraram a chamada Operação Valquíria, ou seja, o assassínio de Hitler no refúgio hiper-protegido de Rastenburg, em 1944, e entre os quais avulta a figura do coronel conde Klaus von Stauffenberg.


Figura impressionante e leonina, Stefan George ensinava uma moral e uma prática de vida ocultas, esotéricas, incluindo nelas a participação política activa. Queria rodear-se no seu círculo de uma elite da alma, com vista à restauração dos verdadeiros valores germânicos, os culturais e os morais. Porque pensava na Alemanha como uma nação que degenerara. Empédocles e Platão – e eu diria também Pitágoras – estavam-lhe nos horizontes.
Stefan George funda o seu círculo iniciático em 1892.
         A doutrina dele, vendo bem, não seria tão esotérica como isso, posto que, em simultâneo com a criação do seu cenáculo, publica uma revista, Blätter für die Kunst. Uma revista que ostentava como logótipo a suástica hindu, símbolo do sol, da luz, da vitalidade. Stefan George declara então as suas intenções. Quer ser professor e mestre cantor da alma alemã.


Em 1903, em Munique, Stefan George encontra por fim um adolescente de 15 anos e consagra-o como encarnação da perfeita beleza teutónica. O seu Siegfried. Chama-se Maximin. Foi tratado como um ídolo no circulo de Stefan George.
Morreria um ano depois.
Não sei como nem porquê.


Com ele morria a criatura que em si mesma e por si mesma seria a maravilhosa estrofe de um hino à nova e jovem elite viril pronta a renovar a decrépita civilização germânica.
Em 1928, Stefan George profetiza o futuro alemão. É um futuro ideal, digno de Hölderlin. E o emergente movimento nazi aproveita-lhe a profecia. Verifica que a mística de Stefan George encaixa bem no arsenal teórico e ideológico do movimento. Mas o próprio Stefan George nunca verá no nazismo e no Führer senão caricaturas muito grosseiras das suas concepções, entre as quais se contava a visão ideal de uma liderança nacional de tipo apostólico.

        

Ou talvez Stefan George se visse a si mesmo como o Führer de que a Alemanha precisava.  Talvez por isso ele se tenha auto exilado na Suíça. E talvez por isso tenha morrido em fins de 1933, justamente, como se sabe, e sei lá se profeticamente, na hora da chegada do partido nazi ao poder.
No cenáculo de Stefan George compareciam artistas, poetas, literatos, historiadores, aristocratas, rapazes destinados à carreira das armas e à diplomacia – caso flagrante dos irmãos von Stauffenberg.


Os judeus também eram admitidos. Por estranho que pareça.
Organizavam-se cerimónias. Os rituais eram interpretações, mais ou menos realistas do Banquete, de Platão, incluindo os fiéis vestidos à maneira helénica.
Stefan George assumia uma autoridade de tipo profético e intervinha até nos assuntos particulares dos seus discípulos. Estava absolutamente fora de questão um discípulo abandonar o mestre e o respectivo círculo iniciático. Mas aconteciam as traições – acto clássico da atitude mental do discípulo para com o mestre. Aconteciam expulsões que, não sei se alguma vez tomadas à letra, equivaliam a sentenças de morte.
Um dos nomes sonantes que se emancipou da tutela espiritual e magistral de Stefan George foi o poeta Hugo von Hoffmansthal, que viria a ser – se não o fosse já – o celebrado libretista de algumas das principais obras-primas de Richard Strauss.


O contacto com o mestre mudava vidas. Mas também criava as mais ferozes inimizades.
Estes círculos mágicos, esotéricos, proliferavam pela Europa em fins do século XIX. Eram emanações da estranheza das almas pelo enfrentamento dos valores enigmáticos do novo século, dos novos tempos, dos novos poderes.


Na velha Inglaterra não faltavam os círculos esotéricos e místicos das mais variadas orientações e obediências, incluindo, e muito, nos meios universitários.


Havia os apóstolos de Cambridge; o culto rosa-cruciano. Havia os seguidores de Madame Blavatski – entre os quais o poeta Yeats. Havia a irmandade dos pré-rafaelitas. Havia a confraria da energia sexual, a sociedade do vril, ou a Golden Dawn, a que pertenciam notáveis vultos da aristocracia e da intelectualidade. Havia a seita de Gurdiev. Havia o grupo de Bloomsbury, com a escritora Katherine Mansfield.

  
                                               
Perante as incógnitas do novo século e a vulgaridade da sociedade tecnocrática e industrial, reagia-se pelo esteticismo. Procurava-se fugir ao vulgo, ao profano, à arregimentação dos espíritos pela sociedade massificada e de consumo que se anunciava.


Estava-se convencido de que a revelação que presidiria à resistência ao novo e à renovação do antigo se achava numa atitude de discipulado, de iniciação nas verdades ocultas.


O magistério iniciático respondia às músicas do tempo e profetizava-se a chegada dos governantes providenciais iluminados. Esperava-se a revelação pela palavra do duce, do führer. Esperava-se tudo das ideologias autocráticas e ditatoriais.
E é de facto o que acontece, o leninismo, o fascismo, o nacional-socialismo.
E no verão de 44, bom número de discípulos do guru Stefan George é massacrado depois de descoberta a conspiração contra Hitler. E é esse facto que vem de alguma forma a redimir o que aos ouvidos de hoje soaria a banalidade no ensinamento de Stefan George.


E  tudo isto também ilustrando o princípio de traição e de dissidência na relação mestre-discípulo.
E outras histórias, e outros mestres.
Freud, que nos pareceu sempre tão seriozinho (ou seriozão), pois olhem, oferecia anéis com motivos míticos, esfinges e assim. Ofereceu anéis desses a seis dos seus discípulos, os que elegera como seus delfins – e também Stefan George oferecia anéis no mesmo sentido.


A obrigação dos discípulos de Freud possuidores dos anéis era perpetuar pelos tempos, desaparecido o mestre, o ensinamento do credo psicanalítico e respectivas ortodoxias.


Bom, mas perguntava-se: qual deles seria o primogénito, chamemos-lhe assim, do mestre?


Naturalmente, desencadearam-se as rivalidades no círculo de Freud. Decidiram-se as cisões. Wilhelm Reich, Jung, Adler e Rank declararam hostilidade ao mestre e criaram as próprias escolas. Freud confrontou-se com as suas próprias teorias. Édipo o parricida...
O acto inaugural da civilização é o assassínio do próprio pai.
O mestre pode personificar o mal. Assim o entende o discípulo. E o mal é o mal da obediência cega e incondicional; é o que há de totalitário na disponibilidade. E tudo isso resultará em breve insuportável para o discípulo que se preze. E então esse discípulo não terá alternativa senão a fuga ao carisma do mestre. Não há outro modo de salvar a própria identidade.
Pitágoras visava dominar a cidade por meio da filosofia. Platão, mais tarde, como se sabe, viria a abraçar o mesmo ideal. Diz a tradição que Pitágoras teria sido forçado a fugir para o Metaponto. Onde morreria, depois de consumado um jejum de 40 dias.
No destino de um mestre está consignada a morte às mãos dos seus concidadãos. Era tradicional essa condenação à chacina dos que eram profetas ou mestres iniciáticos.
Por falar em ensino e em mestres, Empédocles, outro. Já anteriormente aqui mencionado. Empédocles que, das duas uma, ou é desterrado para o Peloponeso, onde vem a morrer; ou é enxotado pela canalha, despede-se do seu favorito, Pausânias, sobe ao monte Etna e precipita-se na cratera, deixando para trás uma sandália de bronze.
Nietzsche, a pensar em Empédocles, escreve uma tragédia quando escreve o seu Zarathustra. O mestre trabalhava para a desgraça do seu povo preguiçoso e medíocre.
A história das vocações. O ensino é um dom, uma vocação. E irresistível, quer-me parecer. E é invasivo. Torna-se perigoso. O mestre invade a alma do discípulo. Pode purificá-la. Pode destruí-la. O mau ensino é crime, é pecado.


Outras histórias. Outros mestres.
(Agora que tanto se fala das provas dos professores.)
Segundo mestre George Steiner, o mau ensino diminui o aluno. O mau ensino reduz a uma inanidade cinzenta a matéria apresentada. Derrama sobre a sensibilidade da criança ou do adulto o mais corrosivo dos ácidos, o tédio, diz ele textualmente.


E, bem, deve ter sido o que me aconteceu. Sim, a mim mesmo. Deve ter sido essa a minha história de aluno, dado o eu ter sido sempre um mau, por vezes péssimo, aluno, completamente desinteressado fosse por que matéria fosse.


A tal história do ensino salazarista, o único sistema de ensino que conheci, hélas! E que hoje penso que devia seu mau e bom. Bom porque me incutiu disciplina e sentido do dever: exagerado, talvez, mas ainda assim disciplina e dever. E mau porque me condenava ao tédio e ao desinteresse que me prejudicaria (ou talvez não) mais tarde no capítulo curricular.
Enfim, não sei…
Sei o que diz mestre Steiner, que para milhões de cidadãos a matemática, a poesia, a gramática, a lógica, foram-lhes destruídos no espirito pela mediocridade do ensino de pedagogos frustrados – certamente chumbados nas provas do doutor Crato.


E estou tentado a acreditar, e por conseguinte a amaldiçoá-las, nessas infecundas jornadas estudantis do meu passado. Só não sei se os novos sistemas de ensino, e os novos mestres, tudo somado, serão melhores do que os ditos salazaristas. Não sei. Não é ironia minha. Confesso. Se por um lado, e tal… por outro… não sei. Sou incompetente para ajuizar.
Passo a palavra directamente a mestre Steiner: a maioria daqueles a quem entregamos os nossos filhos nas escolas secundárias pouco mais são do que amigáveis coveiros e trabalham para reduzir os alunos ao nível de fatigada indiferença que é o deles próprios.
E não se pense que a ideia do grande mestre é utopia. Houve quem conhecesse desses mestres, fossem eles Sócrates, Emerson, Nadia Boulanger, e muito outros, creio, poucos, decerto, que Steiner não cita. E não falando nos grandes mestres anónimos – não, não me refiro aos tais superiores desconhecidos.


Os grandes mestres anónimos podem ser os de todos os dias, os que emprestam livros, os que atendem qualquer aluno depois da hora da aula, os que, sim, esses, os que dão fogo a uma obsessão.
Outras histórias…
A história da remuneração do mestre.
Mestre Steiner pergunta-se: por que razão aceito pagamento por um trabalho de professor que é o meu oxigénio, a minha raison d’être?
Pois era, pagavam-lhe o próprio privilégio. Pagavam-lhe os momentos de graça que vivia a ensinar, a cumprir a sua vocação.
Alguém lhe deveria pagar só pelo facto de ele ser quem era, e para ele poder ser quem realmente era?
Sócrates, se não erro (não, o outro), ironicamente entendia que a sociedade não devia remunerar as grandes vocações. A sociedade devia pagar apenas aos medíocres, aos que dão de barato a vocação em favor do negócio. Para os grandes mestres somente o mínimo indispensável, semelhante aos frades mendicantes. Ou então que o grande mestre ganhasse a sua vida em actividades estranhas ao magistério, como mais tarde aconteceu com muitos.  


 Jakob Boheme era sapateiro. 
Spinoza era polidor de lentes. 



Mais modernamente, Kafka era profissional de seguros.


 E devo dizer que gosto pessoalmente desta ideia.
Nas oficinas medievais e nos estúdios da pintura renascentista, os grandes mestres rodeavam-se de grandes quantidades de jovens aprendizes onde as invejas eram o pão-nosso-de-cada-dia, a competição, o plágio, a disputa dos favores do grande mestre. Enfim, embirrações e querelas que poderiam acabar em sangue vertido na esquina escura de uma viela de Florença.


Na investigação científica, o mesmo, os espíritos científicos nem sempre serão tão superiores, e as invejas campeiam, o divismo, os egoísmos, a concorrência. Quem é, por direito, o pai de uma descoberta, o patrão do laboratório, o mestre, que para o resultado final  pouco prego e pouca estopa meteu e só forneceu os meios para os assistentes poderem chegar a conclusões?
Outra histórias, outros mestres.
A de Flaubert e Maupassant.


No campo das letras o exemplo de mestrado e discipulado é mais esparso. E se emerge com clareza especial será no caso de Flaubert e do seu brilhante discípulo Guy de Maupassant.
Maupassant larga de mão a poesia, por influência de Flaubert, e passa para a prosa. Isto em 1870.
Flaubert lia tudo o que o jovem Maupassant lhe apresentava. Criticava os trabalhos atendendo aos mais pequenos detalhes tanto quanto às grandes linhas de força do conto. Deixava uma mensagem: mesmo a mais pequena coisa contém um pouco de desconhecido. Temos de o encontrar. Para descrever um incêndio ou uma árvore numa planície teremos de observar esse fogo e essa árvore até que não se pareçam com nenhum outro fogo, como nenhuma outra árvore.
E mais: não há dois grãos de areia idênticos. Seja o que for que pretendas dizer só há uma palavra para o exprimir, um verbo para o fazer mover, um adjectivo para o qualificar. O estilo é especificidade infinita. E um homem que decidiu ser artista perde o direito de viver como os demais.
Mas também, em Bouvard et Pécuchet, o mestre Flaubert recorreu  à colaboração do discípulo Maupassant.
Maupassant manda a Flaubert o original de Boule de Suif, e Flaubert, acabado de ler o conto, exclama: cela c’est d’un maître!


Claro que sim, digo eu, cabe ao mestre, também, a capacidade excelsa de reconhecer a capacidade a mestria oculta, quiçá irresoluta, do discípulo.
Amas-me?, pergunta Flaubert a Maupassant, se me amas fazes muito bem em amar-me pois este velho que aqui vês adora-te.
E outras histórias, e outros mestres.
Ezra Pound instruiu T.S. Eliot.

                                     

Gertude Stein foi muito mestra de Hemingway.

                                    

Tinham descoberto que era possível ensinar a inspiração
E à proliferação – também a meu ver suspeita – dos cursos de escrita criativa, Steiner pergunta o que será uma escrita não criativa. E a palavra tolerante de mestre Steiner quanto à utilidade destes cursos é que eles servirão para, ouvindo outras vozes, suavizar a solidão daquele que escreve.
Outra história, a do sucesso de um aluno.
Já todos sabemos que a vida de hoje, tão mediatizada, tão materialista, tão superficial, exige do jovem cidadão, mais do que da vida do jovem de qualquer outra época, uma coisa essencial: o sucesso.
Ele são sucessos atrás de sucessos, carreiras de sucesso, empresários de sucesso, jogador de sucesso, treinador de sucesso, sei lá mais o quê de sucesso -  mendigo de sucesso, sem-abrigo de sucesso, qualquer dia.


Consequentemente, quem procura para si uma educação, para si, para os filhos, para os netos, aconselha os cursos que abram mais depressa as portas do tal sucesso. E constando esse sucesso - mil vezes mais do que a realização espiritual, a satisfação pessoal ou a felicidade íntima e individual de um vocação – de uma vitória de ordem material, financeira. Ganhar dinheiro. Ganhar todo o dinheiro possível, todo o dinheiro que houver. Assim se explica, parece-me, o actual declínio dos estudos de artes, letras ou de filosofias, em favor das matérias económico-financeiras, de gestão, de engenharia, de informática – do Direito, de certo modo.
E posto isto, talvez seja interessante saber que do ensinamento de um dos mais notáveis mestres do pensar francês, Alain, constava uma estranha regra moral: ne pas réussir. Evitar ter sucesso.
O sucesso implicaria o compromisso com o que impediria a realização pessoal e completa do indivíduo, com o que se desviava da vocação, exagerando-a, ou distraindo-a do caminho natural.


Alain também entendia que o ensinamento a transmitir deveria estar acima do alcance do aluno. Só para lhe estimular o gosto de aprender. Só para o obrigar ao esforço, à vontade, à disciplina, etc.
Havia de ser hoje… hoje, quando o gosto e a vontade de aprender são escassos e até estimulam alguma aversão por quem sabe. Hoje! Hoje, quando a vontade de ter sucesso é imperiosa, obsessiva, compulsiva.
Outros mestres. Outras histórias.
De judeus. Mestres judeus.
Todo o Velho Testamento, e mais  a Tora, constituem programas de estudo e manuais para uso quotidiano, e quando é dito que o judeu está permanentemente a ser examinado.
O judaísmo teve os seus mestres lendários.
Sem forçar a paciência do eventual leitor, referirei um ou dois deles. Um, Maggid de Mezritch, para quem o universo só era entendível a partir dos métodos educativos de Deus.


Maggid ensinava, mas nunca revelava quais dos seus discípulos interpretara correctamente o que dele ouvira. A missão dele era tão só acender velas na consciência do discípulo.
A pedagogia de Maggid era marcada pelo êxtase ascético. E, como é da tradição dos maiores mestres, não escreveu nenhum livro. Só autorizou que alguém lhe fosse anotando as palavras. A obra deste mestre reside não em livros e manuais mas no material humano vivo que foram os discípulos que o ouviram.
Maggid teve um filho, o rabino Abraham, outro grande mestre cabalista que ultrapassou o pai no elitismo pedagógico. Teve apenas um discípulo. No entender dele, a revelação de uma experiência interna pelo ensino era o mais indigno, era descer ao nível mais baixo para um mestre cabalista.


O rabino Nachmann ensinou na Palestina em 1798. Na opinião dele, cabia ao mestre escutar do discípulo as mais secretas intuições. Acreditava no milagre da ressonância. Uma frase: a alegria fornece ao espírito uma morada fixa; a tristeza leva-a ao exílio.
Ah, o Oriente dá cartas de pedagogia. A luz. As revelações ocultas. As técnicas de purificação, de meditação, que elevam ao transcendente. Ah… os gurus (aliás, inventados por hindus e sikh’s). As passagens para a India dos grandes espíritos do Ocidente (e segundo alguns do próprio Jesus Cristo).
Zen. Taoismo. Confucionismo. Budismo. Nirvanas. Yogas. Acumpuncturas. Ascetismos …


O mestre murmurara apenas duas palavras quando o discípulo adormeceu e começou a ressonar. O mestre ficou encantado – “o corpo do meu discípulo parece madeira morta, o coração ele é como cinza fria. Agora atingiu o conhecimento verdadeiro. Agora sim, libertou-se de todo o conhecimento adquirido. Não tem mais pensamentos. Já não preciso discutir com ele”crónica de um mestre confucionista.
Outras histórias e outros mestres.
Koun Ejo, mestre zen, fala ao discípulo, depois de lhe aperfeiçoar algumas técnicas de auto aniquilação: mesmo que dentro de ti surjam e desapareçam 84.000 pensamentos ilusórios, se não lhes deres importância e os deixares estar poderá nascer em cada um deles o maravilhoso prodígio da luz da grande sabedoria.


E ainda: aprender e pensar é ficar à porta. Assumir a posição do lótus é voltar para casa e sentar-se em paz.
Despertar – ensinamento chave do zen: a criança dorme ao lado dos pais; sonha que foi espancada; seja qual for a angústia da criança os pais não lhe podem valer, porque ninguém pode entrar nos sonhos de outra pessoa. Mas se a criança acordar sozinha ficará livre do seu sofrimento.


Ikkyu Sojun disse: a caminho com as minhas sandálias e o meu bastão procuro os burros cegos que podem andar em busca da verdade.
Não sente o caro eventual leitor o fascínio estranho e musical de cada uma destas frases orientais?


Pois é. Na mística japonesa o discípulo terá de passar por desconsiderações, humilhações e rejeições primeiro que um mestre o aceite. Seguirá o mestre aos mais distantes ermitérios, às mais altas montanhas, e esperará anos, antes que o mestre lhe reconheça a presença.
É só depois de ascender ao abstracto, ao Nada profundo, que o discípulo inicia o caminho de uma solidão de vários anos, preparando-se para transmitir os próprios ensinamentos.

O vazio perfeito.


segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

                            O NAZISMO ÁRABE 3

       Hassan Al Banna é assassinado em 1949, mas a Irmandade Muçulmana não afrouxa nos propósitos de envolver todo o mundo árabe numa causa comum e vai combater os nacionalistas de Nasser. 

                                                       

         O ideal era fundar um Estado sobre a base da lei corânica, a Charia. É o que pretende Sayyd Qutb, o herdeiro político de Al Banna quando desencadeia os sangrentos motins de 1952 contra o ocupante inglês.


         A base. A base teórica do islamismo. A Base. Al Qaeda – que quer dizer isso mesmo, a Base. Al Qaeda, a Base, que nasce dos movimentos insurrecionais e vai, muito mais tarde, criar o seu campo de acção globalizado e aplicar no terreno as teorias interpretativas radicais do Corão caras aos seus antepassados anti-colonialistas.


Mas só em 1980. E no Afeganistão. Um Afeganistão em armas contra outros ocupantes, os soviéticos. 

                                                     

Está declarada guerra ao exército vermelho, mas é claro que os afegãos não têm quaisquer hipóteses. A desproporção de meios e de forças é monstruosa e era óbvio que alguém teria de se chegar à frente e auxiliar a depauperada força islâmica que combatia o ocupante russo. E quem haveria de ir em socorro dos mujahedin para combater o inimigo russo, para além dos estados árabes mais poderosos, e quando o inimigo do meu inimigo, meu amigo é? Os EUA, está bem de ver. 600 milhões de dólares anuais de ajuda. Conselheiros militares às carradas. Armamento moderno em barda, com o protagonismo nos famosos mísseis terra-ar Stinger.


Os militantes da Irmandade infiltram facilmente os guerrilheiros afegãos. São os tais wahhabi. Vêm da Arábia Saudita e trazem com eles outros dos países do Golfo, da Palestina do Magreb. Trazem até com eles uma quantidade de voluntários americanos e franceses acabadinhos de converter à leitura fundamentalista do Corão, à Base.
                                  
                               


Mas os chefes da resistência afegã, com o notório comandante Ahmed Massoud à frente, não vêem com bons olhos tanta mistura, quer dizer, a rede internacionalista que acorre às montanhas afegãs para prestar uma ajuda que podia trazer certa água no bico.


Nasce aí o fundamentalismo islâmico, do qual temos hoje tantas e tão desgraçadas notícias. É a Base. Al Qaeda.


O Afeganistão vai tornar-se naqueles anos 80 um campo de experiências político-militares. Morrem muitos. Mas isso é o menos. O fundamentalismo interpretativo das leis corânicas não se comove com mortos e feridos e vê mais longe. A Charia tem que ser imposta aos países da vizinhança e às repúblicas islâmicas da Ásia Central. A força teórica dominante chega do Paquistão, e os mais radicais dos teóricos sectários são intelectuais, engenheiros, médicos, a maior parte deles egípcios.


Entretanto, os soviéticos começam a apanhar pela medida grande e já só mal e porcamente conseguem pôr meios aéreos em acção. Os misseis americanos, os tais Stinger, que a CIA ofereceu em 1986 dão cabo da aviação russa.

                                                                          

O Afeganistão é um imenso campo de treinos militares. E o nefando e enjoativo lugar-comum do bolo e da cereja aplica-se aqui à maravilha quando chega ao Afeganistão o sheik Abdul Rahman para dar o toque final nas recomendações teóricas e operacionais básicas. “Meus queridos irmãos da minha alma, fiquem sabendo que de hoje em diante todos vocês estão autorizados a executar barbaramente também os vossos irmãos muçulmanos que tenham a infeliz ideia de começar a fazer fora do nosso penico ideológico. É tudo em nome da jihad. E nós, no Egipto, pela nossa parte, já começámos, ao fazer a folha ao Anwar Sadate.”

                 
  
                                                

Era um tabu violado. Era uma cortina rasgada, uma proibida fronteira transposta. Era uma guerra santa. Que nem poupava os próprios irmãos de raça e fé. Era uma estratégia de sacrifício. Era uma ética gloriosa de martírio. Era a Al Qaeda.


O Islão sentia-se ameaçado. O sacrifício seria tanto mais glorificado quando mais contribuísse para a salvação dos valores sagrados do Islão. O militante deixaria de dispor do seu corpo, da sua vontade, da sua liberdade. Dos seus valores e obediências familiares, até. O compromisso com a causa do Islão teria de ser total e absoluto.


Há um militante wabbita que se destaca da massa dos outros e se impõe – pelo seu dinheiro, pelos pergaminhos e pedigree familiares. Chama-se Osama Bin Laden. Cortou relações com o regime da sua terra natal, a Arábia Saudita, a ímpia.
Bin Laden tem condições para federar as diversas redes operacionais do Afeganistão. Tem carisma pessoal que chegue. Tem larga fortuna pessoal. É um orador veemente. Tem aliança com os serviços secretos do Paquistão.


Paquistão onde fiéis fartamente endinheirados abrem os cordões às bolsas e financiam as operações da jihad. É um esquema financeiro clandestino que inclui comerciantes de todas as áreas, super-mercados, restaurantes, madrasas – viveiros inesgotáveis de recrutamento de operacionais e mártires.


Em 96 os talibans tomam o poder em Kabul, embora sem uma estrutura de Estado constituída. Os wahhabitas instalam campos de treino no inóspito território. Só com uma excepção, que é o vale de Panchir, onde pontifica o renitente comandante Massoud. Mas não há um projecto nacional. O território está politica e militarmente à mercê de quem tenha força e meios financeiros para fazer dele um santuário da causa islâmica. E Bin Laden tem isso tudo. E é a Al Qaeda que se agiganta. O Afeganistão será a base da Base.

                                                    

Mas a realidade é complexa. Os chefes talibans continuam porém a desconfiar dos sectarismos do internacionalismo que tomou conta do território e que não presta atenção de maior às prementes questões tribais. Os talibans reservam-se então o direito a uma identidade político-religiosa, fundada na pureza dos seus códigos de virtude – há um ministério do Vício e da Virtude. O pessoal da Al Qaeda quer instaurar o seu quero-posso-e-mando no todo ou em parte do território, preparando a jihad com todos os matadores – aqui com toda a propriedade – e exportando a jihad para outras paragens sempre que seja conveniente. As duas posições podem conciliar-se aqui e ali, e podem divergir neste ou naquele ponto. E logo se verá.


E logo se veria. E logo se veria porque – diferentemente dos nazis, e segundo o investigador Olivier Roy – a Al Qaeda não tinha qualquer projecto político. Não se conhecia a alternativa de Bin Laden à ordem estabelecida. Era uma organização islamita que Bin Laden governava sem o mínimo projecto de sociedade. Pelo menos publicado.


O mullah Omar é o artista principal das estratégias talibans. Não quer chatices com a comunidade internacional, quando só três países (Paquistão, Emirados Árabes e Arábia Saudita) reconhecem o governo taliban. Ao passo que Bin Laden quer ir às últimas consequências no seu projecto exportador da jihad, e pode mesmo adoptar para tanto uma lógica suicidária num movimento político-militar com as suas discordâncias intestinas, a actuar numa táctica de grupos estanques, táctica semelhante à da guerra contra os soviéticos.
À sombra do regime dos talibans, a Al Qaeda assume um perfil meio clandestino. Bin Laden varia de esconderijo entre Kandaar e Jalalabad. As adesões à causa crescem e multiplicam-se. Chegam, são doutrinados e instruídos militarmente, e partem. Globalizar a Charia, eis a questão. Contra a vontade dos talibans, a Al Qaeda destrói as gigantescas estátuas de Buda. E é criticada por isso. E criticada até pela comunidade muçulmana.


O regime taliban está isolado. Era o que se pretendia. Era preciso isolar o Afeganistão do resto do mundo, de forma a alargar ainda mais as bases de treino da Base e a constituir-se como modelo de jihad.


E entra o mês de Setembro de 2001. É o passo mais grandioso da Al Qaeda. E é um princípio de declínio. O mundo toma, enfim, consciência aguda da realidade terrorista à inusitada escala mundial. 


O mundo compreende enfim o quanto está indefeso perante a ameaça e sua variedade táctica que até então não chegara a encarar com a devida seriedade. A CIA cai em si e na sua competência muitíssimo relativa para lidar com o fenómeno que não previu – só dois homens da CIA compreendiam o pashtun, a língua tribal em que se desenvolviam as comunicações dos terroristas. A CIA nem compreendeu o significado da morte do opositor islâmico maior da Al Qaeda, o comandante Massoud, assassinado por dois falsos jornalistas marroquinos, exactamente na véspera da tragédia do World Trade Center.


(Mas tudo isto, esta parte do 11 de Setembro, bem entendido, se tomarmos como boas as versões que foram oficialmente fornecidas ao mundo pelas autoridades americanas.)
Declarar guerra ao terror era o imperativo. Terror que era outra categoria fenomenológica da tão idolatrada globalização. E vem o 11 de Março de 2004 em Madrid. E vem o mês de Julho de 2005 em Londres. A exposição mediática da Al Qaeda tocava o seu ponto de excelência, e grandemente ajudado pelo próprio inimigo, o Ocidente e seus media. A guerra estaria para durar. De intensidade variável, sim, mas devastadora na sua imprevisibilidade ao colocar em causa a própria estabilidade dos países alvo.


 Guantanamo. A Al Qaeda fica em apuros pela prisão de alguns dos seus chefes. Mas é nesses apuros que cimenta novas forças, novas radicalizações, e mais perigosa quanto mais o Ocidente a mitifica e demoniza, esteja Bin Laden vivo ou morto.

                                              

Tantos anos passados depois do 11 de Setembro e o Ocidente ainda de calças na mão sem atinar com a forma de vencer um inimigo que se dispersa, que usa a seu favor e da maneira mais eficaz os meios que o Ocidente criou, a Internet, a grande circulação de capitais e de pessoas, a globalização que o Ocidente celebrou tão festivamente.



O investigador que já citei, Olivier Roy, negava a evidência de um choque de civilizações neste terceiro milénio. A violência extrema e o terrorismo seriam então somente um produto da desculturalização de alguns grupos religiosos, e desde o momento que as mais brutais das acções da Al Qaeda estariam a ser executadas por muçulmanos de segunda geração, ocidentalizados, muitos deles franceses, belgas, ingleses e americanos convertidos. Nada a ver com um projecto de sociedade islamita tradicional. Tudo a ver com o gratuito de tanta mortandade – o sinal dos estranhos tempos globais.