segunda-feira, 16 de março de 2015

                   


                       O REINADO DE LEÃO X


O cardeal Giuliano Della Rovere, feito papa com o nome de Júlio II, e sob o nome de Júlio II um dos mais importantes e famosos papas – um dos meus preferidos – entre muitas outras coisas pela necessidade que tinha de se rodear dos maiores artistas do mundo do tempo, sentiu a vida a fugir-lhe em 1513, em Fevereiro, no dia 21, e nesse mesmo dia entregou a alma ao criador.
Mas o populacho de Roma não queria para sucessor do grande Júlio II um papa que se parecesse muito com ele. Nem o povo nem a cúria. Júlio II subira à cadeira de São Pedro já com os seus bem passados sessenta e cinco anos, e o que o povo gostaria era de ter um príncipe jovem. Júlio II era turbulento, era impaciente e colérico, e o povo sonhava com um papa mais brando e mais amigo dos prazeres da vida.
Tudo indica que Deus (o Espírito Santo, sempre ele) ouviu as orações dos romanos e lhes fez a vontade.

                                                                                    

Extra Omnes
Estavam vinte e quatro cardeais fechados a sete chaves em conclave e faltava um, Giovanni de Medici.
Giovanni de Medici partira de Florença mal se soubera do passamento de Júlio II, mas fora obrigado a viajar lentamente, em liteira, em razão de uma doença, não sei qual, que acusava muito dolorosamente os solavancos da carruagem.
       Dizem fontes históricas que Giovanni de Medici fora cardeal aos treze anos. E porque logo aos oito anos o menino Giovanni, filho de Lorenzo, o Magnífico, e de Clara Orsini, um Medici portanto, teve o destino marcado como homem da Igreja ao receber as ordens menores. Stendhal diz que à data do conclave para eleger o sucessor de Júlio II Giovanni de Medici era apenas diácono. Não sei. Nem sei se uma coisa contradiz a outra ou não. Mas também pouco importa para o caso.


Giovani de Medici chega a Roma a 6 de Março. É o último a aparecer para o conclave. Estamos em 1513. Tem trinta e nove anos. No dia 11 desse Março está ele de serviço ao escrutínio e procede à contagem dos votos. E talvez não fique muito confuso quando a contagem que faz dá como resultado a sua própria elevação ao soberano pontificado. Pode pensar-se que tudo estava combinado, que o poder de Florença tinha comprado os precisos votos. Mas não. Diz a História que não. E ademais o poder de Florença não era nessa altura grande. Diz a História que Giovanni de Medici é feito papa numa eleição limpinha, limpinha, e só porque Júlio II abolira terminantemente dos Estados papais a simonia, não permitindo que nenhum cardeal comprasse os devidos votos para se fazer eleger papa.
         - Bem, já que Deus no-lo deu, toca-nos disfrutar do papado – disse Giovanni de Medici depois de eleito, e depois de escolhido o seu nome de papa, Leão, o décimo da ordem.
         Um certo jovem cardeal Alfonso Petrucci, filho do tirano de Siena, foi dos que mais trabalhou para a eleição de Giovanni, e com base no slogan propagandístico eleitoral “Viva a Juventude!”
Giovanni de Medici é ordenado padre à pressa. É ordenado sacerdote no dia 15 de Março e coroado papa no dia 19.
Stendhal achava pilhas de piada a este papa amável e divertido, e eu também. É um dos meus favoritos. Pode ter sido, e foi, um papa nocivo para os interesses político-financeiros da Igreja, mas era um homem culto e ilustrado, um humanista. É o que me interessa.
E talvez interesse também recordar que foi o amável Leão X que recebeu a embaixada do amável D. Manuel de Portugal, entrada em Roma no dia 12 de Março de 1514. Era de bom tom reiterar a obediência do rei português ao novo papa numa embaixada festiva, como ele gostava, e concorrida de umas cem individualidades (ou figurantes?), com Tristão da Cunha à cabeça, secretariado por Garcia de Resende. E prendas das que o novo papa mais apreciava: pedrarias, tecidos, jóias, um cavalo persa, uma onça (e se calhar o respectivo amigo), um elefante que fazia espectaculares habilidades.


E é claro que, passeando por Roma, dedicando muito devotada atenção ao governo dos papas e recorrendo às fontes históricas disponíveis em 1824, Stendhal não perde a ocasião de se alargar sobre este período crucial da História de Roma, da História da Igreja e da História da Europa. Por causa de Leão X, tudo na Igreja e na vida política europeia mudaria para sempre. Leão X estará no epicentro do sismo religioso (mais tarde político, mais tarde militar) que varreu a Europa nas primeiras décadas do séc. XVI.
         Depois da coroação em São Pedro, o novo papa insiste em fazer-se coroar de novo em São João de Latrão, sede do bispado de Roma – toda a gente deve saber que o papa tem dois títulos, o de papa propriamente dito, e por inerência, o de bispo de Roma; ou vice-versa, é capaz disso, primeiro bispo de Roma e por inerência soberano pontífice, não tenho certeza nenhuma.


         Seja como for, Giovanni de Medici, Leão X, é coroado bispo de Roma no dia 11 de Abril de 1513. Dia escolhido por simbolismo, pois que a 11 de Abril do ano anterior caíra prisioneiro dos franceses em Ravenna. Está visto que Giovanni gostava das cerimónias da memória. E para a coroação como bispo de Roma foi ainda mais longe no memorial e escolheu montar o mesmo cavalo que montava na batalha de Ravenna ao ser feito prisioneiro.
         O espavento das cerimónias da coroação de Leão X ficou nos anais. Indicava desde logo aos romanos e ao pessoal vaticano o tom do reinado do novo papa.


A severidade económica de Júlio II era menosprezada pelo novo papa em vista da pompa e do espectáculo que lhe rodearam as festividades da coroação. Pompa e espectáculo que custaram aos cofres de São Pedro cem mil florins, o que devia ser obra para a época, mas não mais do que uns trocos para o florentino Giovanni de Medici, habituado na corte do pai a viver à grande e à florentina.
         A primeira coisa que faz é conferir o arcebispado de Florença e o chapéu cardinalício ao primo, Giulio de Medici, apesar da pouca idade dele – era filho de Giuliano, assassinado na própria catedral de Florença durante a famosa conspiração dos Pazzi. Ao moço Giulio nem passa então pela cabeça poder vir a ser ele um dos próximos papas. Que foi. Clemente VII. Um fraco papa, ao que se disse.
    Stendhal chama a Giovanni “o amável filho de Lorenzo, o Magnífico”. E parece que sim. Que ele era amável. Parece que era mesmo um tipo pachola, sem nenhumas peneiras de ser filho de quem era, simpático, bon vivant. E rico de família. E habituado ao mais alto luxo e à maior despreocupação de vida. E por isso mesmo a corte de Leão X foi a mais sumptuosa do tempo, o mais brilhante ornamento do universo, como Stendhal disse. E cá está ele mais o primo Giulio (à esquerda) retratados por Rafael.


Enquanto papa Leão X, o “pobre” Giovanni de Medici teve famas de tudo, tanto de homossexual como de heterossexual devasso – consta ter morrido na cama enrolado numa jovem -, e finalmente ateu. O que ele era antes de mais era um bem disposto. E um espírito livre. E generoso. E literato, e músico. E sendo isso tudo também podia ser aquilo de que o acusavam, evidentemente. Um papa que não estava para se chatear muito com a vida, que fora habituado a gozar bem a vida.
Já que Deus nos deu o papado toca-nos disfrutá-lo.
Leão X era um artista. Segundo Stendhal, apreciava as maravilhas da arte com a sensibilidade de um artista. Um homem fora de série dentre os homens singulares que o acaso ia fazendo subir aos tronos da Europa. O homem que soube gozar a vida como homem de espírito, o que muito encolerizava os pedantes mais tristes.


 Não terá estimulado por aí além Miguel Ângelo como o fizera o seu predecessor. A Rafael sim. Tinha Rafael a pintar os aposentos vaticanos e muito apreciava a doçura de carácter do grande artista.


    Stendhal é de parecer que conquanto Leão X fosse homem incomparavelmente mais amável do que o grande papa a quem sucedera, a política por ele seguida, sendo menos firme, menos bélica e desassombrada, foi mais pérfida do que a seguida por Júlio II.


         A Itália, constantemente invadida por estrangeiros, minada por sangrentas desavenças internas, e portanto campo de batalha dos mais ferozes antagonismos europeus, estava arruinada, devastada. Leão X convoca o rei de França para uma conferência em Bolonha. Era o galicanismo, a tendência separatista do catolicismo francês (como qualquer pessoa pode ver na Internet) e o princípio de independência da Igreja de França relativamente à Santa Sé que incomodava o papa. E aqui Leão X obtém uma apreciável vitória diplomática, levando Francisco I a dar de mão das liberdades da igreja galicana.
         Andava a falar-se da reforma da Igreja havia séculos. Mas até aí nem sombra de reformas. E nesse sentido também Leão X convoca o Concílio de Latrão. Aprovam-se reformas de fundo, sim; promulga-se uma bula, muito bem. Mas nada disso tem consequências. Fica tudo no papel.


         E virou-se Leão X para Siena. Não lhe convinha o estado político das coisas em Siena, e por isso não hesitou em correr de Siena a pontapés os familiares do jovem cardeal Petrucci, o filho do senhor de Siena que tanto o tinha ajudado a vencer a eleição. É a política.
Alfonso Petrucci fizera constar que em pleno consistório sacara da sua adaga e se atirara ao papa para lavar a honra da família. Sem sucesso, claro. O que o obrigava a inventar novo estratagema para se vingar. O veneno – uma das categorias letais mais em voga, juntamente com o punhal, na civilização itálica e na peripécia política renascentista.
Petrucci entra em conversações com o cirurgião do papa. Fica sabedor de que Leão X padece de uma certa úlcera a que todos os dias tem de ser aplicado um penso. A ideia é envenenar o penso, envenenar a úlcera, e assim ir limpando lentamente o sebo ao papa. Mas o jovem cardeal Petrucci devia ser imprudente e amador, e os serviços secretos do papa interceptam as cartas que ele envia ao seu secretário. E lá estavam escarrapachados os projectos mais atrozes de vingança.


        Leão X pretende enviá-lo ao juiz Carlos Alexandre… oh, perdão… à justiça eclesiástica, com base nas cartas. Mas Petrucci achava-se fora de Roma. E por isso o papa lhe escreve uma amabilíssima carta, a que anexa um salvo-conduto. E faz mais, dá a sua palavra de papa ao embaixador de Espanha, um intermediário, garantindo a Petrucci a total segurança se ele vier a Roma.
E o parvo do Petrucci acredita na palavra de um político e na honra de um papa do séc. XVI, mete-se na sua carruagem, vem por aí abaixo, entra em Roma, e assim que entra em Roma a carruagem é imediatamente desviada e vai direitinha ao Castelo de Sant’Angelo, a tenebrosa prisão dos papas.


         Alfonso Petrucci é misteriosamente estrangulado na prisão de Sant’Angelo no dia 15 de Junho de 1517. Estava Rafael a acabar os seus trabalhos nas stanze vaticanas. Andava já Martinho Lutero a tratar das suas teses.
Sim, daí a três meses o doutor Martinho Lutero pespega na porta de Wittenberg as suas 95 teses. Foi no dia 31 de Outubro de 1517.
         Enquanto soberano absoluto, Leão X ficava incomodado, ficava mesmo horrorizado, se algum assunto o obrigava a pensar noutra coisa que não fosse a vida de prazeres e de volúpias que queria levar. Ao tomar conhecimento da contestação de Lutero, julgam que se ralou muito? Ora, que aquilo não era mais do que uma zanga lá entre monges. Escreve-se-lhe uma cartinha e está o caso arrumado. Que é que temos hoje para jantar? Quem vem hoje tocar? Que poeta está contatado para o serão?
         Porque não foi só Petrucci a ser condenado aos suplícios por amável e voluptuosa vontade papal. Outros cardeais o foram. E se alguns se safaram de boa foi à força do muito dinheiro que tiveram de desembolsar para ajudar à festa do reinado do mais amável e estroina dos papas.


         O sacro colégio, na época, não contava mais do que doze cardeais. Doze cardeais de calças na mão à vista das medidas extremas de Leão X para quem ousasse fazer fora do penico, nem que fosse cardeal. E é nisto que Leão X aproveita o pânico da cúria para aumentar o número de cardeais, novinhos em folha, virgens ainda da intriga palaciana. Trinta e um deles de uma vez. E muitos deles oriundos das mais notáveis famílias romanas – uma maneira de compensar perante a opinião pública, se se pode chamar assim, os efeitos políticos das medidas punitivas.
       Mas a Santa Sé estava de tanga. Precisava urgentemente de fundos. De maneira que todos os cardeais recém-nomeados pagaram, e bem, ao papa o respectivo chapéu cardinalício. E os preços de cada chapéu variavam em função dos méritos de cada uma das cabeças que os iriam usar. Quanto menos mérito, mais caro saía o chapéu.


    A Santa Sé estava de tanga e era imperioso avançar com a construção da Basílica de São Pedro. Mas era preciso muito dinheiro. Dinheiro que não havia nos cofres. E como não havia dinheiro nos cofres vaticanos, Leão X estava disposto a vender a salvação da alma a quem a pudesse pagar através da concessão de indulgências plenas sobre os pecados.
A dívida soberana dos Estados Pontifícios disparava a números incomportáveis. Em dois anos apenas Leão X dissipara toda a considerável herança do poupadíssimo Júlio II - que anualmente gastava 48.000 ducados, enquanto o menino Giovanni, o Medici, o papa Leão X, em dois anos estafara o dobro, fazendo orçar a quatro milhões e meio de ducados a despesa do seu reinado.


     Alguém escreveu: Leão X consumiu três pontificados num só: o tesouro de Júlio II, os rendimentos do seu próprio reinado e dos que lhe haveriam de suceder.
         Leão X sobe ao trono de Pedro no momento mais florescente da cultura renascentista. Homens de génio em plena carreira não faltavam nas itálias. Miguel Angelo, Rafael. Leonardo, Correggio, Tiziano, Andrea del Sarto, Ariosto, Aretino, Maquiavel, Pico della Mirandola, e mais uma quantidade considerável de poetas, desconhecidos já no tempo de Stendhal – e ainda mais desconhecidos hoje -, mas que na época de Leão X eram altamente apreciados.
         Cada refeição no palácio papal era um acontecimento, abrilhantado por músicos, poetas, bobos. Leão X nada tinha da enjoativa afectação das cabeças coroadas do tempo. Até se divertia e dizia piadas sobre a pomposa vaidade de quantos lhe faziam parte da corte. E pregava-lhes partidas e punha-os a ridículo. Até poderia conferir dignidades inesperadas (quiméricas, segundo Stendhal) ao mais néscio dos seus cortesãos que lhas pedisse, e isso como prémio pelo divertimento que as patetices do homem fornecia à corte pontifícia. E toda a Roma, gozadora e trocista se encantava com o espírito do seu príncipe.


         O palácio do papa estava transformado num teatro. Eram festas a toda a hora. Iam à cena peças teatrais de moralidade no mínimo duvidosa. E o papa nada sabia de economias quando era caso de convidar os grandes artistas para abrilhantar a corte vaticana. Em Roma tudo era alegria, divertimento. Leão X não queria como companhia à mesa quem não soubesse rir. Nada de carantonhas sérias, nada de olhares graves. Queria riso, piadas, anedotas. Se uma caçada lhe tinha corrido excepcionalmente bem, logo o papa cumulava de benfeitorias e benesses os que o tinham acompanhado nesse dia.
Roma era também um centro literário de ressonância mundial. Leão X, humanista, importava os mais preciosos manuscritos, chegando a ordenar, e a pagar, uma edição crítica (a primeira?) da obra de Dante.
Com respeito aos costumes do papa, bom, diz Stendhal que eles não eram nem mais sóbrios nem mais escandalosos do que os de qualquer outro grande senhor do seu tempo. E do maquiavelismo do pontificado de Leão X ninguém em Roma se apercebia tanto como isso.
Entretanto, Carlos I de Espanha viera a Aix-La-Chapelle para ser coroado sacro romano-germânico imperador contra o rei Francisco I de França, e à custa de uma fortuna colossal angariada junto da família de banqueiros Fugger, donos das multinacionais do comércio europeu de então. Fortuna essa que permitiu a Carlos comprar os votos necessários para os quais o rei francês não arranjou créditos. Foi no dia 23 de Outubro de 1520.
Mas alguém insuspeito e altamente colocado no mundo político europeu sempre conspirara contra as pretensões de Carlos. Esse alguém era o fútil papa Leão X. Saíram-lhe os cálculos furados, pois com a magna questão da Reforma em plena fervura o que mais havia na Alemanha eram ânimos anti-Roma.
Um alemão, Rudolph Hello, capitão da guarda do também amável Alfonso D’Este, duque de Ferrara, recebeu dois mil ducados, e por eles jurou matar o duque seu senhor e abrir as portas da cidade de Ferrara às tropas papais. E as tropas papais chegam às portas de Ferrara, e ali ficam um tempo a secar, antes de virem a saber que o alemão capitão da guarda afinal havia contado toda a trama ao duque Alfonso, seu senhor. E tudo isto acontece em 1820, ano da morte de Rafael.
Leão X verteu lágrimas de sangue na morte do grande artista, dizendo publicamente que a corte pontifícia havia perdido o seu mais esplêndido ornamento.
   A crise orçamental é que não se compadecia com artistas e ornamentos e tocara pontos absolutamente inusitados. Benesses, indulgências, jubileus, impostos eclesiásticos, transacções monetárias. Os pecados era preciso pagá-los por bom dinheiro e assim limpar a folha de assentos de cada um lá no céu. Tudo era negócio.
         E meteu-se o negócio alemão. 
   

     Leão X vendia ao arcebispo de Magdeburg, Alberto de Brandenburg, dez mil ducados de indulgências e benefícios. A prazo, Alberto teria de reembolsar tudo isso ao papa, mas o papa autorizava-o a negociar indulgências plenas a quem tivesse de seu lá nas alemanhas e estivesse disposto a entrar com algum para a construção da inefável Basílica de São Pedro. Se o Alberto conseguisse bons negócios, o papa deixava-lhe metade dos lucros. E assim Alberto contrata Johann Tetzel, o pregador dominicano que passa a ser o grande propagandista das indulgências que garantiam o paraíso. E é ele o homem que realmente faz Lutero ir aos arames e ver-se obrigado a tomar uma atitude – eventualmente instigado pelos príncipes a quem o papa, com a história das indulgências, também estava a querer ir ao bolso.

                       

        Leão X, em toda a sua ligeireza de alma, vai ser, inadvertidamente, claro está, o motivo condutor da maior transformação da História da Europa (que era o mundo de então, evidentemente, porque o outro era ainda mal conhecido). A Reforma. Mas está bem de ver que não é o menino Giovanni de Medici, ou Leão X, que fica como protagonista desse lance da História. É Lutero. E os príncipes germânicos, que também devem ter metido para isso algum prego e alguma estopa.
Lutero contesta violentamente a venda de indulgências para acudir aos luxos vaticanos do papa Leão X.
Leão X até pode ter achado piada ao descaramento do irmão doutor Lutero e escreve-lhe uma carta registada com aviso de recepção, convidando-o amavelmente a retractar-se das enormidades que publicara. Lutero recebe a carta e ali mesmo, em público, à porta da estação dos correios de Wittenberg, rasga a missiva papal e pisa-a a pés.
É excomungado. Excomunhão que precisa ser homologada pelas autoridades civis. O que leva tempo. E enquanto o pau vai e vem instala-se a polémica, que da religião logo se transfere para o campo político.
No entretanto, Lutero alarga as suas objurgatórias a Roma. Nada de hierarquias clericais: sacerdócio universal. Fidelidade às Escrituras e rejeição da tradição romana de interpretação teológica. Nada de celibato para os padres. Acabe-se com a teologia dos sacramentos. Estipule-se que a salvação da alma se opera somente pela fé e nunca pelas obras. Nada de chefe terreno para a Igreja – a letra das Escrituras chega, dispensa qualquer outra autoridade. Nenhum poder eclesiástico pode suplantar um poder laico… 
E põe-se ao trabalho de traduzir a Bíblia para alemão.
Carlos V, imperador, vê o caso mal parado e manda chamar Lutero. Que venha cá e depressinha que eu estou-lhe cá com uma sede que vocês nem imaginam...

        

Lutero vai, não se intimida na presença do imperador e fica na sua, não, não e não. E chama ao papa de Anti-Cristo. É banido do império. Toma que já almoçaste.
Para além do caso escabroso das indulgências, é preciso ver que a Igreja de Roma estava atascada até aos cabelos (se os tivesse) em problemas e irregularidades a que alguém mais dia menos dia teria de deitar mão.
Sim, pois, teria de ser o Sumo Pontífice a fazê-lo, mas a verdade é que nenhum se chegou à frente para pôr cobro a uma serie de malfeitorias. Por exemplo, à adoração aos santos e às relíquias, que se tornara doentia. Por exemplo, às exaustivas e repetitivas peregrinações e procissões por tudo e por nada. Por exemplo, à obsessão colectiva pelos milagres, efeito do crescente pavor popular do demónio e dos infernos. Por exemplo, os abusos da excomunhão, a simonia e o nepotismo em barda. Por exemplo, a dependência da Igreja relativamente à nobreza ainda de feição feudal. Por exemplo, o baixo clero a viver na miséria mais negra, enquanto o alto clero dissipava riquezas em luxos e festanças. Por exemplo, e de bradar aos céus, a vida imoral de padres, monges e freiras que chegavam a fazer de alguns conventos dos Estados Pontifícios degeneradas casas de passe.


Historiadores também dizem que aquele era um tempo de maus cardeais. Maus cardeais que faziam eleger maus papas. Maus papas que depois de eleitos, em contrapartida, nomeavam ainda piores cardeais. E ai do papa que quisesse pôr cobro à situação…
Os príncipes alemães dividem-se. Há os que se mantêm fiéis ao papa; há os que tomam o partido de Lutero. A rebelião estende-se à Suiça, que aproveita politicamente o diferendo para se autonomizar, e à Escandinávia. Não tarda aí a Inglaterra, a Holanda, parte da França. É o protestantismo. Vai começar o período obscurantista e negro da Contra-Reforma.


A 24 de Novembro de 1521, os espanhóis conquistam Milão. O papa recebe a notícia quando anda a passeio em Magliana. E fica radiante. O que ele mais queria era a Itália fora das unhas dos bárbaros (os franceses aliados aos otomanos, talvez). Manda disparar o canhão de Sant’Angelo por todo o dia em comemoração do acontecimento. Quer reunir o consistório e comunicar oficialmente aos cardeais a grande notícia, assim como ordenar missas de acção de graças em todas as igrejas dos Estados papais. Para isso dirige-se ao palácio e recolhe aos aposentos privados. Manda chamar o cirurgião. Queixa-se de um ligeiro mal-estar. Recebe notícias de Piacenza e de Parma, ambas também tomadas pelos espanhóis. O mal-estar que a princípio não prenunciava nada de cuidado redobra de intensidade e a dor torna-se insuportável. Nasce o dia 1 de Dezembro de 1521 e o amável papa Leão X solta o seu último e esplêndido suspiro.


Mas cuidado com o escanção do papa, o Malaspina.
Malaspina apresenta um copo de tintol a Sua Santidade. Sua Santidade cheira, bochecha, saboreia, bebe. E vira-se para o Malaspina pior que estragado, ouve lá ó Malaspina onde é que tu foste desencantar esta merda desta zurrapa tão amarga?
Stendhal não sabe a resposta do Malaspina. E eu também não. Mas sei que isto se passou ao jantar do dia 30 de Novembro de 1521. Pois. E sei que o papa morreu no dia seguinte.
E também se sabe que ainda mal o dia 2 de Dezembro era nado e um vulto com uma trouxa às costas e uns cães pela trela se safava pelas traseiras do palácio pontifício.
Os guardas admiram-se. Que é lá isso? Que despautério era aquele de um humilde servidor do papa se dar ao luxo do divertimento da caça quando o cadáver do seu senhor ainda nem tinha esfriado? E não fazem mais nada, cortam-lhe o caminho, prendem-no. Mas, oh, espanto, é o cardeal Giulio de Medici, primo do papa e pelo papa feito cardeal às três pancadas, quem manda soltar o Malaspina. Diz-se que por medo do falatório de envenenamento que pudesse comprometer algum príncipe e fizesse desse príncipe mais um inimigo jurado da família Medici, que já os tinha que bastasse.


Stendhal lamenta Leão X. A maior parte dos papas tinham esticado o pernil por volta dos setenta anos, mas logo havia de calhar ao amável humanista e mecenas Leão X o azar de bater as botas aos quarenta e sete. A que ponto o esplendor das artes italianas teria chegado se Leão X tivesse reinado por mais uns vinte aninhos…
A verdade é que o também amável Alfonso D’Este estava a ver a vida dele andar para trás no trono da sua Ferrara cercada pelas tropas papais, e preparado para vender cara essa vida, quando lhe chega a nova da morte de Leão X. Teria ele alguma culpa naquele cartório? Não se soube. Da fama não se livrou. E a alegria do amável Alfonso de Ferrara foi tanta que mandou cunhar moeda comemorativa, gravando-lhe uma ovelha arrancada pelo pastor às garras de um leão e apondo-lhe a inscrição bíblica: De Manu Leonis.



A vida é que não estava para letras e artes naquela fase da História de Itália.
As qualidades do cardeal Giulio de Medici eram gabadas por toda a gente enquanto sábio e principal ministro de seu primo Giovanni. Podia ser ele o sucessor. Giulio tinha porém inimigos de peso no colégio cardinalício. O primeiro deles era o cardeal Pompeo, da poderosa família romana dos Colonna.
Extra Omnes!
Abre o conclave a 26 de Dezembro. E se os conclaves que haviam consagrado Alexandre VI, Júlio II e Leão X tinham sido relativamente breves, o que se preparava para eleger o sucessor de Leão X estava complicado. E demorado. E os cardeais, à época pouco habituados a incómodos, lá se enfadavam de morte com aquela prisão a que eram obrigados pelos sucessivos e irresolutos escrutínios.
Por pesada graçola, um cardeal atira para o ar um nome. O nome do flamengo Adrian Florent, de cuja presença em Itália nunca ninguém dera fé. Sabia-se que era filho de um cervejeiro e que subira na vida a pulso. Que era um erudito da Universidade de Lovaina. Que tinha sido perceptor do imperador Carlos V. Que tinha sido regente em Espanha e atraído a si as cóleras populares…
Olha, boa, boa ideia! – dizem os cardeais mais impacientes. O bárbaro, o flamengo. Não está mal. O que é preciso é acabar com esta seca e irmos à nossa vida. Talvez seja mesmo ele o homem indicado. Da maneira que estão as coisas por aqui…
Arrematado. Sai esse e não se fala mas nisso. Não sabe italiano? Nunca esteve em Itália em dias de vida? E depois?
E sai mesmo Adriano. O sexto da ordem. Que chega a Roma, dá de caras com a quantidade de esculturas e maravilhosas estátuas antigas que tinham custado os olhos da cara ao orçamento papal malbaratado por Leão X, e grita de horror: sunt idola anticorum! – porra, isto são ídolos pagãos!, onde é que eu me vim meter…
E por aqui se compreende o que iria ser o pontificado do holandês Adriano VI. Que, vá lá, foi curto.


Era um homem sério, austero. Os romanos é que não se podiam conformar ao ver no cadeirão do amável Leão X um flamengo, um bárbaro que não dava uma para a caixa em italiano, e que ainda por cima detestava a poesia e as belas-artes.
Quando Adriano VI deita mãos às finanças vaticanas pede para o tirarem daquele filme, sabendo que ainda não havia FMI que lhe valesse. Fica varado com a dívida soberana que lhe tinha deixado José Sócrates… ai, perdão… que Leão X lhe tinha deixado. Mas recompõe-se do choque e jura endireitar o orçamento. Na base da austeridade, já se vê. E quando põe em marcha essa austeridade é um ver-se-te-avias, corta nos ordenados, nos subsídios, nas pensões, nas reformas. A cúria, habituada às larguezas de Leão X, chama-lhe no mínimo mesquinho. E Adriano VI também diz mal à sorte dele quando começa a inteirar-se dos costumes e das corrupções que por ali campeavam. Percebe que não tem vida para aquilo. De caminho, manda correr com os mouros e os judeus de Espanha. E deixa-se morrer no dia 14 de Setembro de 1523.
Os muitos mouros e judeus corridos de Espanha por ordem do papa Adriano VI vieram desaguar a Roma e com eles trouxeram riquezas sem fim. Adriano VI, papa, que ainda parecia estar vivo, ficou para morrer ao dar-se conta do caso e imediatamente se preparou para perseguir mouros e judeus também em Roma. Tê-lo-ia feito sem dó nem piedade… se não tivesse morrido.


Os romanos comemoram em grande festa a morte de Adriano VI. Uma alegria que tocou os cúmulos quando o médico do papa, Giovanni Antracino, abre um dia a porta de casa e a vê toda enguirlandada de flores frescas. E com uma inscrição: Do Senado e do povo de Roma ao libertador da pátria.
Extra Omnes.
No primeiro dia de Outubro de 1523, os cardeais estão outra vez trancados a sete chaves para eleger o sucessor de Adriano VI.
Giulio de Medici continua a ser um dos favoritos à eleição, e continua a ter como inimigo, dele e da família Medici, o seu camarada de dignidade e rival de pretensões, Pompeo Colonna.
Os conflitos político-militares agravam-se pela Europa e o próximo papa terá de se haver com berbicachos muito complicados.
Para ser papa, Giulio de Medici precisava de vinte e quatro votos (dois terços) e o colégio não lhe dava mais do que vinte e um. Era o Colonna a impedir-lhe a eleição. Giulio tentaria comprar votos, tentaria, mas teria de o fazer muito pela surra para não cair no crime da simonia. Era preciso contornar a dificuldade legal e os escritórios de advogados avençados por Giulio de Medici devem ter feito serões. E, como sempre acontece quando a coisa mete advogados (é para isso que eles servem), lá se conseguiu inventar um truque.
Vai uma apostinha, vai? Exacto. Recorrem às apostas. Parece que apostar era entretém muito e voga em 1523. Os partidários de Giulio propõem a cada um dos adversários apostar doze mil ducados contra apenas cem em como Giulio ainda não seria eleito no próximo escrutínio. E, claro, para ganharem tão suculenta aposta os cardeais adversos até votariam em Giulio, ganhariam a aposta, Giulio seria eleito papa e escolheria o nome de Clemente, o sétimo – nome que simbolizaria a sua vontade de perdão a todos os inimigos que tinha.
Mas a coisa não deve ter sido assim tão simples.
Um fedor horrível, infernal, sabe-se lá vindo de onde, e porquê (falou-se também aqui no poder do Espírito Santo), começou a empestar as câmaras dos cardeais e o ambiente ficou intolerável. Alguns caem doentes. Os mais velhos sentem chegada a sua hora. Querem despachar-se. Propõem o cardeal Orsini como vencedor. Pompeo Colonna, com medo dos Orsini, também seus inimigos de séculos, vai bater ao postigo de Giulio de Medici e propõe fazer dele papa. Mas alto! Calma. Na condição de o Medici lhe garantir que, uma vez entronizado, lhe daria o cargo de vice-chanceler da Igreja e o deixaria ocupar o palácio onde ele mesmo, Giulio, morava. Palavra de honra? Palavra de honra. E nessa mesma noite Giulio de Medici é adorado como papa pela maioria dos cardeais.
É coroado a 26 de Novembro de 1523, estão Francisco I de França e Carlos V em guerra.


Carlos V declarara-se amigo dos Medici e apoiara a candidatura de Giulio. Passado um ano, Clemente VII, o Giulio, assina um tratado com a França de Francisco I e Carlos V tira-lhe o tapete. Claro. Pompeo Colonna e excelentíssima família reacendem os ódios aos Medici e declaram-se amicíssimos e muito lá de casa do imperador. E contratam mercenários alemães e espanhóis, arrebanham os aliados italianos de Carlos V, e não fazem mais nada: ocupam Roma. É a confusão geral. Vai começar o famoso saque de Roma.


         Março de 1527. Vinte e cinco mil homens, as tropas luteranas, comandadas (teoricamente) por Carlos de Bourbon amotinam-se, estão sem salários, querem dinheiro, entram em Roma, exigem ao papa 300.000 ducados, se é que ele quer evitar que a cidade seja mesmo saqueada. O papa não vai daí abaixo e os amotinados assaltam a cidade. O papa foge a sete pés e refugia-se no Castelo de Sant’Angelo. E por lá fica. Meses. Ou anos, não sei. A pedir batatinhas aos seus aliados de outros tempos, e os aliados nem uma nem duas.
         Em Roma eram as pilhagens, os incêndios, os assassínios. O caos. Uma catástrofe que se dizia infligida por Deus (e pelo Espírito Santo, tinha que ser) à “nova Babilónia”.


         O que daria jeito ao papa na ocasião era esquecer agravos passados, intrigas e más palavras, e ficar com o imperador do lado dele. E pelo imperador o papa se decidiu, fazendo entrar no negócio a cagança de uma coroação imperial de Carlos V abençoada pelo próprio papa, em Bolonha. E, tutelada pelo imperador, suas tropas, sua dura autocracia e seu fundamentalismo político-religioso contra-reformista, segue-se para a Itália um período tenebroso de obscurantismo.
         Stendhal diz que poucos príncipes haviam chegado a um trono com mais alta reputação que a de Giulio de Medici. Por valor militar na juventude. Por ter sido bom ministro de seu primo Leão X. Pelas qualidades de trabalho. E pela pouca queda para o desbarato orçamental que havia marcado o reinado do primo. E Roma, que recebera Clemente VII em júbilos, passados cinco anos via o seu soberano reduzido à impotência e à miséria, em razão do saque e da pilhagem vergonhosa sofrida pela Cidade Eterna e que ele não soubera evitar.


         Stendhal lá achava que Clemente VII era sem dúvida homem de muito espírito, todavia com certa falta de carácter. E Stendhal tinha por experiência de francês contemporâneo da grande revolução que em circunstâncias políticas complexas o espírito pode ser qualidade desprezível, quando não ridícula, e que, pelo contrário, é a força de carácter que em tais casos deve presidir às decisões políticas.
    Mas também teve azar, Clemente VII, acho eu. Azar na circunstância histórico-política que lhe coube. A começar pelas consequências da reforma luterana, com repercussões formidáveis ainda no tempo dele na Inglaterra de Henrique VIII, separada de Roma em 1532.
         O infeliz Clemente VII morre em Setembro de 1534 desprezado por toda a Itália.
         

              
         Mesmo assim, ainda durante o reinado de Clemente VII Miguel Angelo continuou a pintar na Capela Sistina.


         Vinha aí o Concílio de Trento.



        







domingo, 8 de março de 2015

                          


                          TEOCRACIA

Quando aqui cheguei, em 1811, o que mais me tocou foi ouvir o canto dos pássaros no Coliseu – escreveu Stendhal naquele verão escaldante de 1824 em que empreende outra das suas viagens-peregrinação a Roma.

Peregrinação, bem entendido, não na acepção religiosa e sim num sentido cultural e artístico. Ou com a particularidade de o religioso e o cultural e artístico se fundirem numa categoria humanística única na Roma de 1824, como, creio eu, ainda na Roma destes nossos dias.
Mil anos de poder temporal do papa construíram e embelezaram até ao paroxismo a cidade, e sempre numa perspectiva de comunicação com o divino, em louvor, em acção de graças, em imploração de bênçãos, interpelando a transcendência pela violência maravilhosa e bárbara das formas artísticas e arquitectónicas.


Indo ao que interessa, quase se poderia dizer, no quadro da consciência religiosa de cada tempo, que a Roma de 1824, peregrinada pelo empedernido viajante Stendhal, era ainda o reino de Deus sobre a terra. Claro que todos sabemos que o reino de Deus não é deste mundo, e naqueles literários passeios por Roma em 1824 Stendhal sentia-se mais própria e efectivamente a viver no reino dos padres do que no reino de Deus. Um pouco diferente.
Um reino de Roma que era a evidência gritante de que o reino de Deus, possível de se materializar sobre a terra, não se situaria certamente em Roma, e muito menos poderia ser administrado por padres. Em Roma, em 1824, ainda, vivia-se somente uma teocracia.


E aí está. Promenades Dans Rome é um livro imenso, seiscentas páginas (em edição de bolso e fora as notas, os comentários e os índices), que Stendhal dedica como guia exaustivo ao turista francês de 1824. Turista bem endinheirado, note-se, a pontos de poder aboletar-se num hotel da cidade por meses, único modo de correr os itinerários que Stendhal lhe recomenda.


É claro que o escopo do autor transcende a mera itinerância turística e dedica-se largamente, espírito moderno e cartesiano, ao que realmente lhe interessava desmascarar na vida romana, o obscurantismo beato, o poder temporal do papa, isso mesmo, a teocracia.  
Dizendo-se milanês, Stendhal sente-se obrigado a regular as suas dívidas emocionais e literárias para com a Itália e as Promenades Dans Rome (depois do Rome, Naples et Florence) provam que além de milanês ele se deveria ter considerado igualmente romano. Milão era a cidade do coração, era a cidade da sua revelação italiana e musical. E da sua revelação amorosa, também. E se Milão é a vida de Stendhal, Roma é a obra. Roma inspirou-lhe e alimentou-lhe parte importante da obra romanesca – Cenci, Alessandro Farnese, Fabrice del Dongo (milanês este, sim, mas também romano e parmesão), Vanina Vanini, Abadessa de Castro.
Roma é um Estado despótico, mas os cargos e os empregos são vitalícios e ninguém destitui ou despede ninguém. Sob Leão XII, o carbonarismo e Metternich mudaram as coisas porque o terror invadia Ravenna e Forli. Hoje, os homens mais brilhantes ou estão presos ou fugiram. Florença é o oásis onde os perseguidos procuram asilo. Os que não têm dinheiro vão viver para a Córsega.
Em todo o caso. Promenades Dans Rome é um livro que, pelo menos a mim, indefectível adepto da Cidade Eterna, faz apetecer mais uma visita. Mas desta vez uma visita da qual haverá a excluir (como se fosse possível) toda a contemporaneidade. Uma visita de cultura, sensibilidade, e sobretudo imaginação à Roma teocrática de 1824.
Pois em 1824 Roma ainda temia as ironias de Voltaire quanto a religião, e mais exactamente quanto ao romano catolicismo. E assim porque a vida nos Estados Pontifícios era a prova da razão de Voltaire. Em Roma o francês normal daquele tempo, homem desejavelmente moderno, racional, liberal, progressista, sofria o choque do radical oposto, do mundo retrógrado, da sociedade caranguejo (Stendhal dixit), que caminhava para trás no tempo, no pensar e nos costumes. Um universo absurdo e moribundo.
Roma teme mais do que qualquer outra coisa o espírito crítico, l’esprit d’examen. Foi isso o que levou a Europa ao protestantismo. Assim como a arte de pensar é desencorajada, e se necessário perseguida.


Todo o cidadão chegado dos nortes europeus era posto sob a vigilância dos esbirros papais. Tudo o que fosse progresso, a marcha do tempo e do século era perseguido, e a palavra “economia” era censurada como uma impiedade impronunciável.
Os Estados Pontifícios eram um regime despótico, muito bem, todavia de um despotismo deslocado das finalidades costumeiras aos despotismos profanos, e assim por ter como escopo primeiro (e único) a salvação das almas, e por atentar a cada acto da vida privada do cidadão que a essa salvação pudessem conduzir ou dela desviar. Todo o poder do Estado se orientava para a fé, para a pureza dos costumes, para as práticas litúrgicas. Só a Vida Eterna interessava aos poderes constituídos. E nem os poderes temporais do papa eram para ser tomados muito a peito.


Stendhal vai ao barbeiro. Conversa sobre o politicamente absurdo do governo do Sumo Pontífice. E o barbeiro, sem temer os espiões, resume ideologicamente as arbitrariedades: “che volete, signore, siamo sotto i preti” – que é que o senhor quer, vivemos dominados pelos padres.
O pontifical despotismo encarava o Estado e respectivo funcionamento como uma espécie de superstição. A tenebrosa noite parisiense de São Bartolomeu ainda era exaltada em Roma. Roma era a imensa sacristia secular e inquisitorial onde aconteciam os rituais, os milagres, as relíquias, o dogmatismo mais chão, a intolerância mais severa e militante – na opinião de Stendhal, tudo isso manipulado pelo “celerado poder dos jesuítas”.
O povo dos campos romanos está de tal modo imbuído de catolicismo que para ele nada na natureza acontece sem ser por milagre. Será sempre de fazer punir o vizinho que não depositou flores aos pés da cruz que está na esquina da sua casa. Uma inundação do Tibre é sempre tomada como uma advertência do Altíssimo no sentido de levar ao bom caminho quem dele na cidade se afastou. Se uma moça morre de febres em Agosto é porque sofreu o castigo das suas leviandades. E tudo isto o cura tem obrigação de pregar aos seus paroquianos.
Toda a superstição camponesa, tem graça, acabava comunicada às classes altas. E por quem? Pela criadagem.


Um jovem marchesino romano de dezasseis anos é o mas tímido dos homens. Não ousa comunicar a não ser com os criados de casa. Stendhal acha-o até mais imbecil do que o filho do sapateiro da esquina.
Teocracia, em 1824, nos Estados papais, era o poder de uma religião forçada a ser uma política. Equivalia a dizer que era a hipocrisia institucional a governar uma fé religiosa destinada quase unicamente às camadas populares.
O soberano deste país não foi príncipe na sua juventude. Durante os primeiros cinquenta anos de vida fez a corte a personagens mais poderosas que ele. No geral, só chega ao trono e aos negócios de Estado na idade em que noutros estados o príncipe os deixa.
Está visto que Stendhal era um republicano convicto. E como republicano tudo o que via nas suas promenades romanas lhe feria a susceptibilidade política. Pensava ele que o poder era uma pedagogia e que aqueles Estados Pontifícios praticavam o absoluto contrário do que entendia dever ser ensinado aos povos em matéria de sociabilidade e civismo. E recordava os tempos revolucionários do Terror, quando padre e cidadão eram duas entidades visceralmente inimigas.
A Roma teocrática era uma reserva reacionária. Uma reserva de arcaísmo e de forças ferozmente opostas à razão formal, à mentalidade moderna e economicista. Roma incorpora princípios de tristeza fatais para o Belo. Roma representa uma ética que corta as vazas ao prazer. A razão que atrofia a sensibilidade estética prefere o feio. A tristeza é grosseira, é realista, é vulgar, deteriora o real e o desejo.
Um valor que já nesta época se perfilava como constituinte de uma mentalidade moderna era o útil, a utilidade, tudo o que suportava uma empresa, uma economia política, uma segurança, um bem-estar, um Estado de Direito, uma actividade social. E era tudo o que, por ignorância, uma teocracia rejeitava. Era tudo o que uma teocracia temia. A utilidade significava a razão prática, que de facto antagonizava o princípio e o poder de um soberano ascético.
Stendhal palpitava que o materialismo desgostasse muito os romanos. O espírito itálico via-se e desejava-se com a abstracção que não lhe inspirasse os valores mais caros, o medo, o amor. Ou um Deus como fonte de vida e destino de morte. E o que fascinava Stendhal (não sei se por exercício de ironia) era o homem prático, seco, claro, sem ilusões, o cavaleiro do futuro: o banqueiro, o titular do puro pensamento. O banqueiro que distingue com meridiana clareza o que É do que não É. O banqueiro que sabe identificar o vazio, o que submete a realidade às categorias abstractas do desencanto iconoclasta. O banqueiro que rasga a unidade entre o sentido e o inteligível, entre o visível e o invisível, o agradável e o verdadeiro, o sagrado e o profano.


Um cortesão do papa acalenta permanentemente a esperança de substituir o seu chefe, coisa que não acontece noutras cortes. Um cortesão em Roma não procura apenas agradar ao papa, ele pretende do papa a bênção. Por uma indulgência in articulo mortis o príncipe de Roma pode conferir a felicidade eterna ao seu cortesão.
A teocracia e o seu poder aparentemente esmagador pouco ou nada exigia dos súbditos. Que frequentassem a missa, sim, claro. Que se confessassem. Que pagassem os impostos. Mas também pouco ou nada oferecia – para além da promessa da salvação eterna no outro mundo.
A teocracia tinha certa dificuldade em se afirmar como um poder regular de Estado. Distribuía a justiça, os cargos, as funções e os privilégios ao acaso das protecções de cada impetrante, dos favores em dívida, da sorte, dos caprichos.
O papa só tem um ministro. O Segretario di Stato. Equivale a um 1º ministro de um Estado profano. Nos últimos cento e vinte e nove anos (reportados à data da visita de Stendhal, obviamente) apenas um Secretário de Estado se provou tipo desonesto ou incompetente. O cardeal Coscia, no reinado de Bento XIII. Valeu-lhe ir dar com os ossos no Castelo de Sant’Angelo e por lá ficar nove anos.
Nada acontece naturalmente, simplesmente, razoavelmente – escrevia Stendhal a um amigo. Por aqui, Rabelais seria chamado a deliberar sobre cada coisa e a ordenar sobre cada problema tudo o que de mais cómico lhe viesse à cabeça.


Diz um comentador stendhaliano que o inimigo dos padres, o apologista de um Estado moderno e laico, Monsieur Henry Beyle, por paradoxal que seja, acabará por louvar na teocracia romana (e na Igreja no seu todo, por decorrência) o único lugar do mundo onde seria possível tomar conhecimento do verdadeiro e essencial significado da política – il maneggio dell’uomo (a manipulação dos homens).
O génio dos papas residiria no facto de terem dominado a Europa, primeiro pela astúcia, e a seguir pela arte. Um poder espiritual que menosprezou a violência e a guerra e construiu a superioridade de Itália. Era algo de original. E daí a distinção que Stendhal fazia ao charme pessoal dos padres, os grandes virtuosos da arte da política e da diplomacia, os únicos capazes de conduzir os homens (il maneggio dell’uomo) sem ser pela força. Todo o homem da Igreja era considerado por Stendhal como ser naturalmente político, um homem que aprendera a controlar o Eu, a distanciar-se do Eu, a apagar o Eu - por alguma razão, a meu ver, os Estados vaticanos adquirem um alto lugar na História da diplomacia europeia. 
Passeando por Roma naquele verão de 1824, Stendhal passeia também por alguns dos dilemas filosóficos que inquietavam a mente racional e burguesa. “O coração é um órgão religioso”, tinha dito Novalis. E Stendhal pensava no desejo, na paixão, na imaginação, no sonho, enfim, em tudo o que não pudesse conceber a fronteira do finito, mas que a ultrapassasse como uma superstição, a fé.
O que é moderno? O que é artístico? Dilemas para Stendhal. O espírito crítico declara guerra aberta ao poder papista e à crença religiosa, e constitui o princípio de um governo representativo.


Num momento de pausa da peregrinação romana, no Pincio, debruçado sobre a Piazza del Popolo, Stendhal evoca os grandes papas do passado, príncipes em toda a extensão do conceito, mecenas, estadistas, estetas, déspotas esclarecidíssimos, criadores, esses que pelo seu ministério pretendiam esculpir a História do Homem em cada monumento romano que pagavam.


E uma virtude romana: a ferocidade: a virtude sempre muito resolutamente expressa de um povo grande.


Um povo romântico. Um povo orgânico. Sociedade a que Stendhal chamava de autónoma, afeiçoada pelo obscuro trabalho da natureza e da História, de todo em todo estranho aos princípios da democracia moderna (de 1824). Um povo que com tais particularidades escapava à desvitalização e ao uniformismo que começavam a afectar a alta sociedade.
O folclore gera os costumes. Opinião do nosso viajante. E o folclore de Roma, para lá dos cantares, dos dançares e das lendas, gerava uma cultura de rosário e navalha. Devoção e assassínio. E honra. E não a honra civilizada dos néscios vaidosos, antes uma honra primitiva, primordial, o absoluto orgulho que se desenvolve na colectividade dos costumes.
Na Roma papal vivia-se e morria-se mais do que em qualquer outro lugar.
Cidade sublime. Cidade trágica. Cidade que em tudo recusava a modernidade nascente.
Na Roma papal coexistiam vários aspectos. Ou duas romas numa só. A Roma popular, o crime, o caos dos instintos assassinos, a vitalidade anárquica; a Roma artística, piedosa e crente, que era a mesma Roma que a do crime, dos assaltos, do assassínio nos becos escusos. Stendhal não excluía nem privilegiava nenhuma delas, porque as duas eram uma e a mesma.


A Roma teocrática era a cidade letárgica, indolente, que poupava as forças para o que Stendhal chamava de “espasmos criminosos”, protagonizados pelos virtuosi do veneno e do punhal, os salteadores de estrada, as seitas organizadas de bandidos da periferia, ou os bombistas da Carbonária.
A paradoxal benfeitoria dos papas enquanto chefes de Estado foi a criação do sublime estético e também da outra sublimidade que foi o povo de Roma. É à opressão que o romano deve o seu vigor. A vida não o consome, como faz aos habitantes das cidades modernas, de vidas extintas, rarefeitas pela magnificência de uma civilização. É esse um dos paradoxos que o espírito já de si paradoxal e politicamente incorrecto de Stendhal descobre.
Era preciso compreender a canalha. A sublime vivência do aniquilamento do cidadão acabará por levá-lo à exaltação exacerbada das suas forças. O que fazia do povo de Roma mais feliz e mais forte do que (exemplo stendhaliano) o de Londres era o desespero. Vivia no pior dos mundos, esperava de tudo sempre o pior. A pior escolha será a melhor. No mais profundo infortúnio vive a liberdade. No mais profundo esgotamento moral estão as forças de resistência. Sujeito como os seus antepassados da Idade Média a um perigo permanente e oculto, forçado a querer viver e a inventar os meios de sobrevivência (intriga, esperteza, expedientes, crime), lançado nas realidades da vida que lhe condicionava o desejo, o romano era rico pelo absoluto do seu atrevimento.


E a teocracia revia-se na plebe romana como num espelho. A ausência de leis, de justiça, de qualquer acção do poder papal em prol do interesse dos cidadãos, transviava a natural vitalidade do romano para o heroísmo do crime. Um génio criador como qualquer outro, contudo orientado às avessas pelo pior dos regimes políticos.
Mais tarde, mais para os meados do século, o Vaticano e seus poderes temporais constituem-se como o maior obstáculo à tão ansiada unificação italiana.
Havia quem dissesse que a teocracia romana tinha perdido todo o contacto com a realidade da vida e da História e calcado a pés os princípios de modernidade daquele já adiantado séc. XIX. As forças nacionalistas da Carbonária não se conformavam com a continuação da obsolescência insuportável que já era o poder temporal dos papas e a existência de uns Estados Pontifícios que cortavam territorialmente em duas fatias a península itálica. Estava na hora de pôr fim a mil anos de regime teocrático absolutista.
E tudo começara no ano nebuloso de 751.
Os Lombardos tomavam Ravenna e ameaçavam seriamente Roma no caso de o papa vigente, Estevão II, não lhes pagar um alto tributo. Estevão II toma a decisão de pôr os pés ao caminho e ir ao reino dos Francos celebrar uma aliança com a dinastia carolíngia – é, diga-se de passagem, a primeira vez na História da Igreja que um papa se tira das suas tamanquinhas e sai de Roma. Na basílica de Saint Denis, Estevão II consagra o rei Pepino III (o Breve) e abençoa-lhe os dois filhos, Carloman e Charles - futuro Carlos Magno.
Pepino cumpre a sua parte na aliança e vem combater os Lombardos. E vence-os. Ano de 756. Pepino vence os Lombardos e vai depor as chaves das cidades conquistadas sobre o túmulo de São Pedro. E é este, dizem, o acto inaugural do que virá a ser o poder temporal dos papas e a fundação dos Estados Pontifícios: uma grande parte da Itália central, Roma e mais os ducados circundantes. E depois mais Ravenna, os Marche, a Emilia Romagna, os territórios bizantinos. Chamam-lhe Património de São Pedro.
Mas os muçulmanos já apareciam muito nesses tempos. E aparecem no litoral romano no ano de 846. Desembarcam, avançam sobre a cidade, entram, saqueiam, reduzem a cacos as basílicas mais sagradas, São Pedro e São Paulo. Não sei como foram repelidos. Mas sei que é o papa Leão IV que manda erguer fortificações a sério no perímetro da cidade. E sei que é o papa Nicolau I que organiza a guarnição militar permanente no local por onde os mouros tinham entrado, o porto de Ostia. E desde então Roma considera-se um principado. E os papas aprendem a exercer um poder temporal se não quiserem ser assediados a toda a hora pelos diversos inimigos, os políticos e os religiosos.
Era o poder temporal da Igreja, que na letra da bula Unam Sanctam, de Bonifácio VIII, em 1302, deveria reinar em nobreza e dignidade sobre toda a espécie de poder terreno. Combatendo com ardor, diga-se, pela sobrevivência dos Estados Pontifícios; combatendo pela independência da Igreja; negociando obsessivamente por uma e por outra causa.
E a primeira machadada violenta sobre o poder político de Roma só chegará com a Revolução Francesa, quando na Constituição de 1790 se reorganiza o estatuto do clero francês sem dar cavaco ao papa.


Pio VI, o papa de serviço, condena o documento e bem assim a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão. É Napoleão quem vem deitar alguma água nas fervuras revolucionário-eclesiásticas, com a concordata de 1801.
Mas o fim estava historicamente próximo.
A eleição de Pio IX, muito depois das passeatas de Stendhal, foi bem vista. Ele até criara fama (injustificada) de liberal e de nacionalista. Tanto assim que em Março de 1848 tentou aliviar a reputação de despótica teocracia que sobrecarregava o governo vaticano e concedeu aos Estados Pontifícios uma Constituição. Por ela poderia ouvir-se o breve vagido do povo quanto aos actos do governo de Sua Santidade.
        Mas logo em Novembro desse ano o 1º ministro pontifício, conde Pellegrino Rossi, é assassinado pelos carbonários e o papa, ao ver o ambiente muito negro nas margens do Tibre, põe-se a milhas de Roma. Vinha aí a revolução.
Mas tem sorte. Sorte e uma mãozinha dos franceses. E é ajudado pelos franceses que Pio IX logra reconquistar a Cidade Eterna e restabelecer o poderio absolutista nos seus Estados. Estava a pedi-las. E é o rei do Piemonte que agora o ameaça, o célebre Vittorio Emanuele II. E é o ministro Cavour que encabeça o movimento para a unificação da península.

Stendhal, falecido em 1841, não viveria para apostrofar o reacionarismo de Pio IX (já então assediado pelas tropas nacionalistas), nem execrar as encíclicas Quanta Cura e Syllabus, que diziam as últimas das ideias modernas e lhes objurgavam os erros e as falsidades. Pio IX não podia ouvir falar de liberalismo político, de socialismo, de democracia. Roma não tinha nada que se conciliar com o mundo moderno dominado pelos “novos bárbaros” liberais – se calhar Pio IX até teria alguma razão, mas… só daí a cento e cinquenta e nove anos, no terceiro milénio…
O papa perde a Romagna em 1859. O papa retira-se da Umbria e dos Marche em 1860. Vittorio Emanuele faz-se proclamar em Florença rei de Itália em 1861.
Os acontecimentos precipitam-se.
Mas Roma, encostada aos exércitos franceses estacionados em Civitavecchia, ainda era Roma, e o papa ainda era o chefe do Estado. Até ao dia em que os franceses tiveram mais que fazer do que acudir à decadente teocracia romana e retiraram, oferecendo o ensejo aos piemonteses de virem por ali abaixo e conquistarem a cabeça dos Estados Pontifícios, a 20 de Setembro de 1870.
O curso impreterível da História devorava mil anos de poder temporal e de teocracia papal.
O papa recolhia-se no Vaticano. Considerava-se prisioneiro. Vittorio Emanuele mudava-se de armas e bagagens para Roma, instalava-se no Quirinale e fazia ouvidos moucos à excomunhão proclamada por Pio IX. E até ia mais longe ao conceder uma pensão anual ao papa, sem lhe tocar, está bem de ver, na autoridade moral nem nas funções, imunidades e prerrogativas religiosas.


O velho Pio IX é que recusava a real benesse. Continua a considerar-se um prisioneiro entre as paredes do Vaticano. Emitia o decreto Non Expedit: os católicos que se livrassem de alinhar em macacadas democrático-liberais tipo eleições ou quaisquer outros actos políticos.

O concilio que se segue, Vaticano I, proclama a infalibilidade papal.


E as coisas estão neste pé até à chegada de Pio XI. Que lá se entende com Mussolini e assina com ele o Tratado de Latrão. Em Fevereiro de 1929.
O papa remete-se ao senhorio sobre o Estado do Vaticano. Fica com a soberania das grandes basílicas de Santa Maria Maggiore, São João de Latrão, São Paulo Fora de Portas e os domínios de Castelgandolfo.


Teocracia, uff…



quinta-feira, 5 de março de 2015

              


             UMA CAMBADA DE VIGARISTAS?



Pois é. É o que apetece dizer.
Ou… “uma credibilidade ferida de morte”…
Ora adeus! Elas são tantas nos últimos tempos. Sim, as credibilidades feridas de morte. As credibilidades de rapazes a quem não damos crédito que chegue para votarmos neles, mas em quem estupidamente votamos, e cujas credibilidades vão ficando feridas de morte por suspeita de falcatrua, por evidência de incompetência, por mentirolas, por irregularidades de maior ou menor calibre.
Feridas de morte que nunca chegam a matar.
        Relvas, Vara, Sócrates, Duarte Lima, Oliveira e Costa. E BES. E GES. E doces e salgados. E submarinos. E Freeport. E contas na Suíça. E Tecnoforma. E Segurança Social. E fisco. E os rumores nas redes sociais sobre a credibilidade até (pasme-se!) de Mário Soares, agora que o apanham já velho. As irrevogabilidades de 24 horas de Portas. A devassa vingativa que andam a fazer às contas passadas da vida de António Costa. O sorridente descaramento do Bava e as lágrimas do Granadeiro. A epidemia de amnésia que varre o país dos gestores…


        Como é isto da democracia portuguesa? Só teremos todos os quatro anos para escolher entre duas cambadas de vigaristas?
        Como é isto da democracia portuguesa? Votamos todos os quatro anos numa cambada de vigaristas para apadrinharem a cambada maior dos outros vigaristas em quem não votámos?
Custa a crer. Pois custa.
        Já para não falar no caso que se me atravessa na garganta e do qual pouco os jornalistas falam (et pour cause), que é o dos deputados, todos, unânimes, da esquerda radical à direita não-sei-quê, a aumentarem-se a si mesmos significativamente de vencimento, ao mesmo tempo que aprovam leis que tornam dramáticas as vidas daqueles que neles votaram, caso que considero o nec plus ultra da infâmia política nacional.
E isto por falarmos em credibilidades feridas de morte.


Mas será mesmo que quando nos atiramos às urnas, no fim de contas, estamos a votar, e a legitimar, uma cambada de vigaristas sem credibilidade, ou de credibilidade ferida de morte logo in ovo? E para depois, no correr das legislaturas, ouvirmos dizer quer a credibilidade de alguns deles está ferida de morte mas nunca chega a matar?
É rasca, e banal, e demagógico, e pindérico, e populista falar mal da classe política como um todo. Eu sei.
Mas como individualizar responsabilidades quando também se diz que tudo faz parte de um sistema?
Como individualizar responsabilidades se se diz que o indivíduo só por si nada pode contra um sistema instalado?
Como individualizar responsabilidades quando do tal sistema, por acaso, o indivíduo também faz parte? E fazendo parte do sistema e sendo co-responsável no bom momento, como não terá também de se sentir solidário quando achincalhado e apanhado na leva dos réprobos quando o momento é reles?


No caso do rapaz que representa para nós na televisão o papel de 1º ministro os ferimentos de morte na credibilidade política (e cívica, pois então!) vieram a lume com a nunca explicada Tecnoforma e desaguaram nos dias de hoje com as contribuições para a Segurança Social e com algumas quezílias fiscais.
Ferimentos de morte política que alguém vai ter de sarar e deixar sem as consequências politicas que noutro Estado de Direito, mais habituado à honestidade democrática, implicariam demissão por motu próprio, mas que neste soalheiro rincão, pelo contrário, reforçam lideranças e prenunciam felicidades em eleições futuras.
Dizem que por menos do que isso o António Vitorino, etc.; dizem que por menos que isso o Jorge Coelho etc..
Ora bolas!
Também dizem que por muito menos, escandalosamente menos, do que tudo isso ao governo de Santana Lopes foi passada guia de marcha para casa.


Pois não. Este país político não é para levar a sério. Para levar a sério só as vidas dos que sofrem as consequências dos actos políticos dos rapazes que às vezes parecem constituir-se como uma cambada de vigaristas (e ainda por cima incompetentes, muitos deles), e alçados ao poder pelos votos dos que lhes sofrem as dramáticas consequências.
      Mas ao mesmo tempo acabo por admirar o estômago do rapaz que representa para nós na televisão o papel de 1º ministro – admirar negativamente, também há, como o benfiquista que mesmo a contra-gosto tem que admirar a obra do Pinto da Costa.
 É mau actor, mesmo assim, é canastrão, é, mas tem estômago. Um homem sem biografia, lá está, nem política, nem profissional – ou talvez a biografia de um rapaz da noite.
O rapaz da noite licenciado a martelo numa universidade qualquer aos quarenta anos. Dizem que se submeteu a tratamentos de desintoxicação. Não sei de que se desintoxicou. Talvez de uma ou outra overdose de mediocridade.
O rapaz da noite que conhece e desconhece as leis conforme dê jeito, a ele, ao passado dele, e antes de mais aos interesses de que é testa-de-ferro.
O rapaz da noite que os nossos tacanhos “superiores desconhecidos” viram como o homem ideológica e culturalmente descaracterizado, o zero, o homem perfeito para executar sem rebates de consciência políticas gravemente lesivas dos pobres ou remediados interesses da maior parte da população.


Era preciso alguém sem nome e sem talento (nem para cantar ópera), sem obra feita ou por fazer, sem prestígio de qualquer espécie (ou só na noite), mas com dose considerável de lata, descaramento e insignificância para debitar festivamente o que lhe mandassem, hoje uma coisa, amanhã outra, eventualmente o contrário da primeira, indiferente, irrelevante, como se nada fosse, só para entreter.
Porra! Também é preciso estômago!
(Robert Musil – O Homem Sem Qualidades – grande romance.)
É preciso estômago e algum talento, afinal. Talento do tipo contentinho e insignificante. O talento de ser nada e fingir de 1º ministro.
 (Ingmar Bergman – Da Vida das Marionetes – grande filme.)
É de admirar no rapaz da noite a figura de ninguém que perante uma nação inteira represente durante quatro anos o papel de alguém.