domingo, 12 de abril de 2015

            AS SOMBRAS QUE NOS GOVERNAM

No dia 20 de Maio de 1981 a notícia saiu nos telejornais italianos: o conselho de ministros resolvera tornar pública a lista de membros da Loja P2 – Propaganda 2 – sociedade secreta dirigida pelo Venerável Mestre Licio Gelli. Toda a Itália treme.


Há tempos que se falava naquela misteriosa loja sem contudo ser possível atribuir-lhe um nome e um rosto. A Itália tremia à evidência de um governo fantasma, de um poder paralelo e subterrâneo que se apoderara das principais alavancas do Estado. Da lista de nomes constam 4 ministros, 44 parlamentares, todos os chefes dos serviços secretos,o comandante da Guardia di Finanza, altas patentes das Forças Armadas, magistrados, empresários, banqueiros, directores de jornais e jornalistas.

                                                                      

Para lá disso, foi notória a pertença à Loja P2 de muitos dos membros da Junta Militar Argentina, incluindo o general Videla e Lopez Rega, o tristemente afamado ministro de Estrellita Perón.


Os sombrios territórios da vida política.

                                                     

Territórios sombrios, ou mesmo ocultos e insuspeitos, que traçam as coordenadas da política real, e de tal ordem que só os patetas,os desprevenidos ou os mal intencionados ainda hoje acreditam que quem realmente os governa são os ministros de serviço, e quando na obscura realidade o poder verdadeiro e efectivo está mais nas mãos do chefe dos serviços secretos de um país – aquele que colhe, trata, controla, confunde e difunde a informação estratégica como melhor lhe parece -, do que nas mãos de qualquer primeiro ministro, rei, ou presidente da república.


         Na sequência das notícias vindas a lume nos telejornais desse dia 20 de Maio de 1981, o governo nomeia uma comissão parlamentar de inquérito à Loja P2. É nessa altura aprovada uma lei que proíbe as sociedades secretas e dissolve a Loja P2. Suspeita-se de uma conspiração contra as instituições da República.


Licio Gelli, o Venerável Mestre da P2, entrara para o Grande Oriente Romagnosi, de Roma, em Dezembro de 1965, naturalmente como aprendiz. É contudo um maçon atípico e sobe de grau e de importância no Grande Oriente, apoiado pelos membros da mais alta hierarquia, visto que trouxe com ele, em carteira, uma quantidade apreciável de possíveis futuros membros, gente extremamente qualificada, segundo diz.

                                                     

Gelli é um ex-fascista da República de Saló e combatera antes disso na Guerra de Espanha com os camisas negras


É amigo de Giulio Andreotti e tem altos contactos no Vaticano, nos serviços secretos e nas Forças Armadas.

                                                             

Um ano depois da admissão é ele o chefe de outra loja, a chamada HOD, mais conhecida como P2, a mais secreta e importante loja do Grande Oriente italiano.


Não se sabe, como é óbvio, a data da fundação da Loja P2. Dizem que essa data se perde nos tempos. Vem pelo menos do século XIX, sabe-se. Diz-se que acolhia elementos notáveis do tempo em que a Maçonaria tinha papel decisivo na vida institucional italiana – lembremo-nos do próprio Garibaldi. A P2 terá sido revitalizada a seguir à II Guerra com a ajuda das maçonarias dos EUA, e transferindo-se para ela os maçons mais proeminentes e cuja filiação deveria permanecer secreta. Era de facto uma loja encoberta, com as respectivas prerrogativas na organização maçónica, e cuja gestão estava envolta em mistério.


Houve quem dissesse não se poder atribuir à maçonaria um qualificativo de sociedade secreta, senão de uma sociedade com segredos. Era diferente. E fica aqui dito só de passagem, porque  não é por este respeitável caminho que vamos.
Licio Gelli, às vezes conhecido nos meios políticos como eng. Luciani, era um homem duplo. Fora um agente duplo da Resistência. Espiava para os serviços secretos de Mussolini, tinha contactos com os partiggiani e por conta da República fantoche de Saló fizera a ligação com a secreta militar do Reich. A seguir à guerra trabalha para os ingleses e para os americanos.

                                             

Fora também, como outros ex-fascistas e ex-nazis, soldado do chamado exército invisível, organizado pelos Aliados para fazer frente ao avanço comunista na Europa. Mas da fama não se livrou de continuar a gostar de jogos duplos; da fama não se livrou de trabalhar tanto para a CIA como para o KGB.
Gelli tinha tido um papel na abortada tentativa de golpe de Estado em Itália do príncipe neo-fascista Valerio Borghese, o dito príncipe negro, em 1970, e um papel nada secundário, uma vez que lhe estava cometida a tarefa de, no Quirinale, dar voz de prisão ao próprio presidente da república, Giuseppe Saragat.


Rumores sobre a acção na vida italiana de uma poderosa organização secreta e conspirativa, havia-os, e muitos, já nos anos 70. Instauram-se dois complicados inquéritos judiciais, um sobre o assassínio de um advogado de Milão encarregado de liquidar as contas do Banco Ambrosiano; e outro sobre o misterioso rapto de Michele Sindona. Ninguém sonhava que tais inquéritos pudessem levar as autoridades a uma loja maçónica.
Estávamos nos anos 70, à entrada dos anos 80. A actividade nos circuitos subversivos de extrema direita era febril. Proliferavam os grupos secretos, as operações ocultas, os golpes, as acções negras, as infiltrações e contra-infiltrações, as campanhas de propaganda, os financiamentos secretos, os serviços privados de espionagem.


Cria-se a rede secreta Gladio, uma estrutura NATO financiada pela CIA para contrariar a influência comunista na política italiana, formada por muitos ex-nazis, e com uma organização militar preparada para acções de guerrilha.
Numa entrevista da RAI a um ex-agente da CIA, as ligações e  financiamentos da CIA à Loja P2, incluindo tráficos internacionais de divisas e de armas, vêm à luz do dia. O bastante para, por forte influência do presidente da República de então, Francesco Cossiga, provocar a demissão do director do telejornal e de um jornalista: não era admissível que os serviços de segurança de um país amigo fossem atacados na televisão pública italiana.
A Loja P2 parecia nesses tempos revestir a forma de um serviço secreto atlântico, além de ponto de encontro das estruturas paralelas que na realidade governavam a Itália.


Na lista mais tarde encontrada numa das residências de Licio Gelli avultavam os nomes de agentes secretos e funcionários dos mesmos serviços secretos, tanto retirados como ainda no activo. Um deles, um conhecido general, tinha orientado o longo processo de fichagem de cidadãos como primeiro passo de um possível futuro golpe de Estado.
Nos anos 70, os organismos de informação italianos e suas redes ocultas muito se tinham afadigado em manobras de protecção dos activistas de direita suspeitos de atentados. Para tanto, não hesitaram em empreender negociações com as máfias, a ‘Ndranghetta e a Camorra. 

                                                   

Era preciso libertar um tal Cirillo e despistar os juízes encarregados dos inquéritos ao atentado da estação de Bolonha, além de várias outras actividades, peculato, nomeadamente, e também difusão de notícias caluniosas pela imprensa secretamente financiada.
                 

Dia 2 de Agosto de 1980, 10.25 da manhã. Uma bomba escondida numa mala na sala de espera faz explodir a estação ferroviária de Bolonha. 85 mortos. Mais de 200 feridos. Fala-se de atentado. As atenções viram-se para as Brigadas Vermelhas. As investigações são obstruídas e despistadas. Prendem-se uns quantos activistas de extrema direita e criminosos de delito comum, mas os mandantes continuam até hoje na sombra. Terá sido parte da estratégia da tensão e do escândalo defendida pela Loja P2.


Os serviços secretos italianos organizaram em poucos anos 157.000 processos de cidadãos com vista a poderem ser usados como instrumento de chantagem sobre políticos, militares, padres, jornalistas, figuras da cultura e até cidadãos comuns, se fosse preciso.
Ao chefe dos serviços secretos fora conferido o encargo de organizar o exército clandestino, a força Gladio. Já em 62, os serviços secretos, em associação com a estação da CIA em Roma, tinham criado esquadrões de assalto para atentados às sedes do Partido da Democracia Cristã e de alguns jornais. Atentados que posteriormente seriam atribuídos à esquerda. Contemporaneamente, actuariam grupos de pressão política para exigir ao governo e ao presidente da república (Antonio Segni ao tempo, 1962), medidas de excepção em face de tais atentados.
A Loja P2 não parava naqueles anos 70. Desenvolviam actividades de lobby, envolviam-se em negócios, petróleo, banca, jornais. Crimes  e escândalos. A sociedade italiana vivia sob tensão. E os cadáveres foram aparecendo. Roberto Calvi... 

  

O advogado milanês Ambrosoli...

                                              


Aldo Moro...

 

                                                       

 Michele Sindona...

 

 Mino Pecorelli, jornalista... 

        

Tráfico de armas e de droga. Lavagem de dinheiros. Escândalos variados, o da magistratura, o escândalo Rizzoli. Fuga de segredos de Estado…
Um dos homens de mão da P2 era um simples porteiro de hotel - aliás, um simples porteiro não seria, era o chefe dos porteiros. E nem o seria de um hotel qualquer, era-o do maravilhoso Excelsior da Via Veneto, o hotel da dolce vita romana de duas décadas atrás, porque era de uma suite do Excelsior que Licio Gelli comandava todas as operações da P2 e altas individualidades da vida italiana faziam bicha nas antecâmaras do Excelsior para serem recebidas por ele. Eram políticos de primeira linha, militares, banqueiros, príncipes, jornalistas. Eram Andreotti e Cossiga e Bettino Craxi e Fanfani, presidentes ou ex-primeiros ministros, os deuses ex-machina, as grandes estrelas da política italiana do momento.


Gelli recebia igualmente bombistas e terroristas de extrema direita. Bombistas e terroristas que podiam encontrar-se na suite de Gelli com o general Vito de Miceli, o chefe da polícia secreta, o homem que era suposto vir a prendê-los. E que não os prendia, claro está.
Um certo deputado democrata-cristão, Gaetano Stammati, acaba de se inscrever na Loja P2 e é imediatamente nomeado ministro do Comércio Externo do governo de Giulo Andreotti.

                                                                              

Em Junho de 79 há eleições gerais. Toca a Francesco Cossiga  encargo de formar governo. Cossiga promete o lugar de ministro do Comèrcio Externo a um certo Altissimo, do Partido Liberal. Mas acaba por confiar a pasta ao Gaetano Stammati, que vinha do anterior governo presidido por Andreotti. Ante os protestos do Partido Liberal, o 1º ministro indigitado, Cossiga, responde:
- De facto, eu queria dar o cargo a Altissimo, mas não o pude fazer depois das fortíssimas pressões que recebi.
Era o governo das sombras que tinha nas mãos o destino da nação italiana.
A influência da Loja P2 cortava transversalmente todos os partidos, todos os institutos públicos e instituições italianas.
Recolheram-se provas quanto a um conjunto de acções concertadas que visavam o reagrupamento de toda a extrema direita italiana, incluindo os declaradamente neo-fascistas da Ordem Nova, não obstante ter sido já aprovado o decreto de dissolução deste grupo.
Declarava falência o poderoso Banco Ambrosiano, o maior banco privado do país, descapitalizado devido às manobras financeiras de Roberto Calvi – chamado o banqueiro de Deus e homem da P2 - e o homem do Vaticano, o famoso monsenhor Marcinkus. Descobriu-se-lhe um buraco de 1,3 milhares de milhões de dólares.


Michele Sindona, outro homem da P2 e com profundas ligações à Mafia, é acusado nos EUA por falência de bancos e sociedades financeiras. Foge para a Sicília em 79. Diz-se que chantageava Andreotti. Hospeda-se em casa de um médico maçon, especialista em rituais esotéricos e cirurgia plástica. Na Sicilia, aparecem assassinados um juiz e um comissário de polícia. Sindona reaparece na América e é raptado. O médico esotérico e cirurgião plástico dispara-lhe um tiro cirúrgico numa perna. Não era um ferimento incapacitante, todavia era um ferimento credível no apoio à versão do rapto.
Vem a saber-se que o rapto de Sindona, apesar do tiro na perna, fora, claro, um falso rapto.
Sindona é deportado para Itália. O médico vai encontrar-se com Gelli para tratar do destino de Sindona.
Julgado, Michele Sindona vem a ser condenado pelo assassínio do advogado Ambrosoli, entre outras coisas. Vai preso.
Na prisão de Voghera é vigiado dia e noite. Mas é assassinado na prisão. Para temperar o café, alguém lhe deitou cianeto na chávena.


Tinha sido Roberto Calvi a pôr o Banco Ambrosiano nas mãos da Loja P2. A descapitalização do grande banco é devida aos milhares de milhões que a P2 movimentava em trafico de armas para a guerra das Malvinas, financiamentos ao ditador Somoza da Nicarágua e ao movimento sindical polaco Solidariedade. Milhares de milhões e movimentação de capitais que desembocaram na bancarrota.
Roberto Calvi aparece pendurado pelo pescoço na Blackfriars Bridge, a Ponte dos Frades Negros, em Londres.


Um jornalista da P2, Mino Pecorelli sabia demasiado sobre o caso Aldo Moro e aparece crivado de balas dentro do seu carro, a 20 de Março de 1979.


O papa João Paulo I? Pois, há quem diga que sim...

                                                                       

Os objectivos operacionais prioritários da P2 dividiam-se em três pontos principais. Assim: fracturar a unidade sindical; dominar os media; subordinar a magistratura ao poder executivo.
Berlusconi vem à baila. 


Gelli acusa-lo-à de, no seu programa de governo, ter copiado o programa político de renascimento democrático da P2. O Plano R. O texto desse plano veio a ser apreendido no aeroporto de Fiumicino. Estava no fundo falso de uma das malas de Maria Grazia Gelli, filha de Licio Gelli,o Venerável Mestre.
Podemos rir-nos à vontade, mas o objectivo declarado da P2 era fazer renascer a democracia, transformando a Itália num país organizado segundo critérios de mérito e hierarquia e para exclusivo bem do povo, segundo declarações posteriores do próprio Licio Gelli.
Não foi assim há tanto tempo...
Do programa desse renascimento democrático constavam, entre outras coisas, directivas no sentido de usar instrumentos financeiros para a criação rápida de dois movimentos, um de esquerda e outro de direita, os quais seriam patrocinados por dois clubes político-financeiros promotores. Com cerca de 10 milhares de milhões de liras seria possível uma infiltração nos ficheiros do Partido da Democracia-Cristã e tendo por objectivo tomar posse do partido por dentro. E com mais 5 ou 10 milhares de milhões poderiam provocar-se cisões, com o consequente nascimento de uma confederação sindical única e livre.
(Não foi assim há tanto tempo...)
Os media eram um dos alvos mais apetecidos da P2. Evidente. 


Seria de nomear secretamente dois ou três elementos de cada órgão de informação, mas isso feito de maneira a que uns nada soubessem dos outros. Aos elementos recrutados era conferida a obrigação de simpatizar com os notáveis e as políticas que lhes fossem superiormente indicados.
Também era preciso adquirir semanários, por assim dizer, de combate.
Era preciso coordenar a imprensa regional e local por meio de uma agência centralizadora.
Era preciso coordenar as televisões por cabo.
Era preciso dissolver a RAI estatal em nome da liberdade de antena e de expressão e implantar uma rede de televisão por cabo que contribuísse para controlar a opinião pública mais mediana do país.

Através do enfraquecimento dos sindicatos, do controlo dos media e dos políticos dos partidos de governo, e com a destruição da RAI, visava-se a transformação qualitativa da república italiana num sentido presidencialista, corroendo a oposição de esquerda e minorando a essa esquerda as esperanças de algum dia poder chegar a ser governo. 
Quando tudo é descoberto, Licio Gelli é expulso da maçonaria e foge para a Suiça.
Em Genebra, tenta sacar os milhões depositados nos bancos suíços.
É preso. 


Foge da prisão.
Vai para a América do Sul.
Numa busca a uma das residências do Venerável, as autoridades italianas aprendem 2 milhões de dólares em lingotes de ouro.

                                                 
Volta a aparecer em Itália e começa a escrever poesia.

                                                 

Parece que é readmitido na Maçonaria. Reclama-se das suas mãos sempre limpas. Mãos que, segundo alega em entrevistas, nunca conheceram nem o ouro nem o sangue.
Entre os membros da P2 estavam, como se disse, variadíssimas individualidades cujos nomes nada nos diriam hoje. Mas um ou dois nomes talvez nos dissessem alguma coisa.


Vittorio Emanuelle, príncipe de Saboia, herdeiro do trono de Itália, filho do deposto rei Umberto que viveu ali para os lados de Cascais – ficha nº 1621 da Loja P2. Afirmava não se dedicar à política, mas não podia entrar em Itália. Tinha porém negócios em Itália. De armas, nomeadamente. Negócios que eram feitos por intermédio de companhias estrangeiras. Mas o príncipe queria poder regressar a Itália em definitiva. Membro da P2, era mediador de negócios no estrangeiro, inclusive por conta do Estado italiano, Estado no qual não podia pôr o pé. Mas em breve alguém o faria regressar.
 
                                                                              

Silvio Berlusconi. 


O príncipe dizia que era Berlusconi o único capaz de pôr ordem na economia italiana e evitar o desastre, que estava iminente, devido ao estatuto do trabalhador e à proibição dos despedimentos.

O onorevole cavalliere Silvio Berlusconi tinha o cartão nº 1816 da Loja P2, com o código e.19.78, do grupo 17, do fascículo 0625. Entrara a 26 de Janeiro de 1978. Em Maio desse ano contribuíra com 100.000 liras para o financiamento da Loja. Interpelado pela magistratura de Veneza quando se julgava o caso P2, e sob juramento, Berlusconi negou ter pessoalmente contribuído com dinheiro para a Loja. Todos os documentos provavam o contrário do que ele disse ao juiz de Veneza.
É condenado por perjúrio.


É amnistiado em tempo de poder ser presidente do conselho de ministros. Em 1994 e em 2001.


Não foi assim há tanto tempo.


E não nos faltam hoje, ainda hoje (ou hoje mais do que nunca) evidências de um governo de sombras sobre as nossas vidas.




sexta-feira, 3 de abril de 2015

      

     
      QUANDO O IMPOSSÍVEL AC0NTECE…


    
      E acontece. Pois acontece. Não é frequente, mas acontece. Quantas vezes! Ainda ontem. A morte impossível do Manuel de Oliveira. Já não se esperava que acontecesse. Mas aconteceu.
       Exagero, eu? Sim, mas pouco. Tenho a certeza de que já muita gente se convencera de que Oliveira se tinha “da lei da morte” libertado. Por ser um obsessivo. Sim, pelo trabalho, por uma ideia de cinema que era a dele. E porque o Oliveira não podia morrer, pronto, acabou-se. Porque a morte dele era inconcebível, não cabia na cabeça de ninguém. E logo na Páscoa, ele que era um homem religioso – mais sobre o místico do que sobre o ortodoxo, mas mesmo assim…
       E é uma perda.


Oh, quanto me irrita que os notáveis lamentem a perda irreparável de outros notáveis deste país. Perda é um fulano prometedor nalguma coisa morrer num estúpido desastre de automóvel aos quarenta anos – eu sei, não há desastres inteligentes. Mas isso sim, é uma perda. Agora um homem de 106 anos, ainda que excelso artista, há muito que está perdido no imponderável espaço entre vida e morte, quando a morte se disfarça de vida e quando os vestígios de vida parecem inconclusivos. Com 106 anos há muito que o perdemos e que ele nos perdeu a nós.


       Manuel de Oliveira faz falta. Mais aos detractores do que aos admiradores. Oliveira era um bombo de festa cultural indispensável ao vulgo cinéfilo que se alinhou esteticamente pelo cânone cinematográfico americano e sem lograr conceber a validade de outro. E Oliveira dava garantias de poder continuar a fazer aqueles filmes literários, elaborados, lentos e palavrosos que o vulgo cinéfilo não via e detestava – oh, sim, detestar sem conhecer: inapagável traço do carácter português…


       Lembro-me dele. Uma prova de guarda-roupa:
       - Ah, você fuma…
       - Fumo.
       - Eu não fumo.
       - Mas fumou.
       - É verdade, fumei…
       - Tenho ideia de o ver na Canção de Lisboa a puxar por um cigarro numa cena com o Vasco Santana…
       - Mas depois descobri que fumando não se produzia em mim nenhuma alteração que valesse a pena…
       - Como assim?
     - Se estou alegre e fumo um cigarro, fico na mesma alegre; se estou triste e fumo um cigarro, triste fico. O cigarro era uma inutilidade.


       Lembro-me de um elemento da equipa dele:
      - Nunca lhe chames senhor Oliveira. E muito menos senhor Manuel…
       - Então?
       - Manuel.
       - Só?
       - Só.


       Apresento-me a ele num primeiro ensaio:
       - Como quer que faça? Assim… para o espectador ver que isto é mesmo uma ópera e que eu estou mesmo a cantar o papel, com esta expressão facial enfática de quem está mesmo a cantar ópera?
       - Sim, sim, está muito bem, gosto disso.
     - Ou, uma vez que o canto foi previamente gravado, prefere que eu articule sobriamente, como quem está normalmente a falar e não a cantar… assim?
       - Sim, sim, está muito bem, gosto disso.


Lembro-me dele. Num restaurante. Um intervalo de filmagens para almoço:
- Não tenho nada que vos dirigir. Vocês é que sabem o que têm a fazer com a personagem. Vocês é que dão o corpo, vocês é que dão a cara.


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           AI QUERIAM ÓPERA? 

domingo, 29 de março de 2015

                            LITERATURA 2

      
 

EXPERIÊNCIA ESPIRITUAL
        Leio que um pintor chinês do século XVII ia destruindo os quadros que pintava à medida que os ia dando por terminados. O importante para ele era a experiência espiritual de os pintar. A obra acabada não passava de um resíduo dessa experiência.
        E eu transfiro isto para a a escrita criativa. Escrever é mesmo isto. É o mesmo tipo de experiência do pintor chinês. E até estou convencido de que a fama, a glória e a fortuna do escritor mais bem sucedido não o remuneram tanto em termos de felicidade íntima, indestrutível, inapagável, como a experiência vivida a conceber e a realizar a obra.


      Cyril Connolly navegava por aqui quando dizia que a recompensa da arte não era o sucesso, nem a glória, era a intoxicação.
        Mais objectivamente, para o romancista, há a experiência de mergulhar profundamente nas vidas que não são, não foram, a dele. Um privilégio. Um prazer inaudito. O romancista pode viver as vidas que quiser e nelas, e com elas, enriquecer consideravelmente a sua própria vida interior. Depois, caberá ao leitor completar o trabalho, a experiência, desdobrar-se em vidas outras na prazerosa experiência da leitura, porque o romance é a grande arte que melhor confere, tanto ao escritor como ao leitor, os meios espirituais de romper os limites da sua própria vida, a real, tornando real a experiência de vida colhida na leitura.
        Milan Kundera dixit: as personagens dos meus romances são as minhas possibilidades nunca realizadas.


        Ou Oscar Wilde: é só porque Shakespeare nunca fala de si mesmo que as suas peças o revelam completamente e nos mostram a sua verdadeira natureza e o seu verdadeiro temperamento; ou mesmo os preciosos sonetos onde põe a nu para os olhos mais lúcidos o secreto tesouro do seu coração. Precisamente, a forma objectiva é definitivamente a mais subjectiva. O homem deixa de ser ele mesmo desde o momento em que fala de si. Dêem-lhe uma máscara e ele vos mostrará a verdade.


PERSONAGEM

          

    Para o romancista, a técnica consiste em poder (saber, querer) olhar para si próprio dentro das coordenadas da história que está a contar. De resto, essa pode ser a maneira de o romancista falar de si, do que pensa, do que sonha, pela boca das personagens que vai elaborando, construindo, inventando – partindo do princípio que é possível inventá-las. O romancista decide o que pensam as personagens, sem decidir tão claramente o que ele mesmo pensa de e em cada situação. É este o prazer supremo, acho eu (ou um deles, mais ou menos supremos), da escrita de ficção.

    


        Mas, se for sincero, se for honesto, antes de mais consigo, o romancista não deixará de reconhecer as afinidades entre a sua pessoa e as suas personagens. E aqui cabe a relação possível entre escritor e actor. A realidade deles é fingir, fazer de conta. Representam emoções. Emoções não sentidas no quente dos acontecimentos. Metade delas está fora da vida e eles discorrem, directa ou indirectamente, sobre essa vida somente pela sufocante necessidade que têm de satisfazer o instinto criador.

                                    
   
Até ao ponto limite de encararem a realidade como mais uma ficção, e assim podendo não andar longe da verdade. Qual verdade? Aí é que está.

             


Georg Lukacz, teórico literário de formação marxista, autoridade literária noutros tempos muito citada, entendia que as personagens não deveriam assemelhar-se a pessoas comuns. Deveriam ser organizadas como tipos. 


Claro que ele sustentava isto nos tempos da literatura comprometida, do romance social que era parte da luta de classes. Todo o conflito social (ou político) apareceria cristalizado em personagens tipo e nas relações entre elas, grosso modo, o operário explorado, o camponês humilhado, o burguês ganancioso, o patrão explorador, o capitalista impiedoso.


Mas Aristóteles recomendava o enredo como núcleo primacial do desenvolvimento da tragédia, e do qual brotariam necessariamente as personagens universais.


INCERTEZA
       Diz quem sabe que não há verdadeira criação sem riscos. Logo, sem uma boa percentagem de incerteza. Ou até de insegurança
        Não será portanto aconselhável a um escritor voltar a um livro seu depois de publicado. Vai encontrar defeitos, insuficiências, excessos. Tão certo como dois e dois serem quatro.


        Os críticos e os leitores podem até dizer maravilhas da obra. Só o autor pode saber a que ponto estão enganados. Só o autor pode saber até que ponto o seu livro não passa de uma boa merda.


        A insegurança, sim, evidentemente, dá medo ao autor. Porém, e por outro lado, é estado de espírito absolutamente necessário se se quer produzir alguma coisa de interesse. Mal dos que são seguros. Mal dos que estão certos de saber tudo à partida – esses, pois, os que não têm dúvidas e raramente se enganam…


domingo, 22 de março de 2015

                       
                     

                       LITERATURA
                

             
                                                   

         Literatura? Coisa que começa a desaparecer, ainda que um dia alguém tenha dito que é o inalterável presente narrativo o que melhor contém a realidade.
         Porque para cada vez mais gente a escrever há cada vez menos gente a ler.
O mercado, o mercado, o mercado!
         


PORQUÊ
Porque carga de água uma pessoa se põe a escrever?
Porque é um ser perturbado? Claro que sim. Ou… sim talvez, perturbado. Perturbado por alguma coisa. A política monetária. A fome no mundo. A injustiça social. Os horrores da guerra…
Ou perturbado na sua vida pessoal. Indeciso, ignorante do que se passa consigo, dentro de si, e com os que o rodeiam. A doença. A dor. A expectativa da morte. O mais intenso gozo dos prazeres da vida.
Escreve-se e quer criar-se um  mundo que se sabe de sobra que não existe nem existirá. E que por isso mesmo é preciso criar.
Escrever é capaz de ser ocupação pouco natural.



O ROMANCISTA FAMOSO
         O romancista famoso é categoria de cultura e de civilização que tende a desaparecer – acompanhando, obviamente, o desaparecimento da literatura mesma. Tende a desaparecer, se é que não desapareceu já. Sim, isso do romancista famoso. Que se não desapareceu entrou em silencioso e confrangedor desprestígio público.
         Gore Vidal está de acordo comigo. Ou eu com ele, evidentemente.
       Diz ele (disse) que falar hoje de um romancista famoso dos tempos remotos do século XX é como falar de um artesão muito admirado, de um entalhador, de um designer de barcos de competição.
    Um romancista não pode ser famoso ainda que conhecido na imprensa. E não pode porque o romance perdeu a importância que tinha – ou terá ainda alguma, pouca, mas mais para os iniciados, os viciados na ficção; mas nenhuma se estivermos a falar do grande público.
   Porque ser famoso é ser muito falado, muito citado; ou, principalmente, muito gabado. Nada mais. Ou pouco mais.
         Não virão já ao caso os romances que foram lidos há cinquenta anos. Ou há quarenta. Ou mesmo há trinta. Não, esse já não vêm ao caso. Porque esses tempos eram tempos em que os romances eram lidos, mesmo lidos, e até discutidos – como os filmes, diria eu.
        Um caso de romance e escritor famosos nos tempos mais recentes? Arriscaria O Código Da Vinci e em Dan Brown. Um sub-produto literário, vamos lá, em que a intriga circula nas fraldas do erudito e que por  qualquer razão seguramente extra-literária saltou para as bocas do mundo, deu filme, deu sequela de filme (embora com outro título), enriqueceu o autor.
         A fama literária não tem a ver com a qualidade literária, ou com a excelência da obra.
Se o que um romancista escreve hoje só passa a ser conhecido de uns quantos confrades, ou de uns quantos incondicionais da leitura e da ficção, o escritor nunca será famoso. O escritor é até uma irrelevância para o seu tempo, este, o único tempo que ele tem.
O romancista não pode julgar-se um Stendhal, por exemplo. Um Stendhal que previu (e, mais difícil ainda, acertou) que a sua obra, pouco significativa em termos de fama nos anos 30 do século XIX, só viria a ser apreciada e estudada um século mais tarde. Ele até avançou com um ano preciso, para ele se calhar impensável, 1936. E assim foi.   É em 1936 que nos meios literários franceses começa um revivalismo de Stendhal.


Qual é o romancista contemporâneo, qual é, que se permite sonhar com os seus leitores entusiastas de 2115?
A literatura que hoje já pouco interessa não existirá pura e simplesmente em 2115. Ficará uma ou outra obra (sabe-se lá se O Código Da Vinci) como relíquia intocável fechada em vitrina iluminada de uma biblioteca-museu.
Romancistas famosos  do Terceiro Milénio só como piada…
E quanto a isto da fama, também, da fama tout court, estimo muito as melhoras. A fama de artista sério (ou dito sério, como a musica séria), designadamente o escritor, desintegra-se facilmente. Porque a seriedade intelectual entrou em amarga decadência – ah, os políticos, os políticos…
A fama literária estaria tão ameaçada de extinção quanto a espécie humana mesma. E tudo porque o que se está a perder nesta assombrada e quotidiana vida é a História.




O HOMEM SOLITÁRIO
      O processo de criação romanesca é acto individualista. É actividade de um só homem (ou mulher, claro) e de um homem só.  Há quem diga que ao escrever um romance o autor está essencialmente a tratar de um seu problema pessoal. Está a proceder ao exorcismo dos seus demónios íntimos, trabalho que só a ele respeita e que só ele pode fazer na condição de se colocar defronte de si mesmo.
         Bem, sim, pode-se considerar esta explicação como um ressaibo mitológico dos magníficos anos 60, algo hoje fora de toda a cogitação. Hoje, o homem, o artista, já nem tempo tem para identificar os próprios e íntimos demónios, tão ofegante é a sua luta pela tal fama (a mais rápida e passageira, bem entendido) e pela fortuna, uma e outra tão dramaticamente difíceis de atingir em vista da concorrência que a mediocridade engendra a cada dia.


ACÇÃO
         Lá vai o tempo em que o escritor acreditava que a sua escrita, e correlativas ideias e valores, se consubstanciariam em acção através daqueles que o liam. Eram os escritores engagées quem mais tal sentenciava. O leitor, por intermédio da grande literatura de Dostoievski, Kafka, Dos Passos, Sartre, Beauvoir, Camus, Borges, Garcia Marquez ou Jorge Amado assumia cidadanias, agia na sua vida corrente, intervinha no seu meio, e desse modo fazia das obras que lia e dos escritores que admirava entidades de utilidade pública.
        Sartre? Eu falei no Sartre? Pois falei. Porque sim, claro, era Sartre (não podia ser outro) que nos desassossegos do pós-guerra em França, na lufa-lufa das listas negras do colaboracionismo literário e artístico, afirmava a literatura como acto, e assim culpava quem ao escrever dormira as mais longas noites com o inimigo.


         Nomear as coisas e as pessoas é dar-lhes existência, é inseri-los na consciência comum. Não se cansava – nunca se cansou, Sartre – de trazer à colação a responsabilidade do escritor (oh, que tempos!) como suporte das teses da literatura engagée. E o ponto de partida para uma posição sartreana, creio bem, foi mesmo esse tremendo período da História de França em que era preciso ajustar contas com os que haviam vendido a pena ao ocupante nazi. E contas foram essas, como sabemos, que deram na condenação à morte de alguns – deixando embora, estranhamente, outros impunes.


     Mas tudo isso, toda essa honorabilidade, toda essa responsabilidade do escritor já lá vai. Não há escritor por mais pintado que hoje faça agir quem quer que seja, ou inspirar tomadas fortes de posição. Se é que na época, apesar de toda a actividade literária e propagandistica, os havia. Do que é possível duvidar. Mas o mundo de então (1933-1945), em toda a sua tragédia (ou por isso mesmo), ainda era  lugar para uma poética.


O BOM E O MAU ESCRITOR
         Mario Vargas Llosa disse um belo dia que no momento em que se senta para escrever todo o escritor decide se vai ser um bom ou um mau escritor
      Pensando na sentença do seu (então) amigo Mario, Garcia Marquez recebeu na sua casa do México a visita de um moço de 23 anos que seis meses antes publicara o seu primeiro romance e que naquele dia se sentia radiante por ter acabado de entregar ao editor o original de um segundo romance. Garcia Marquez estranhou-lhe a pressa que se dava de uma prematura carreira literária. Ao que o novel romancista retorquiu:
         - A questão é que tu, Gabo, tens que pensar muito antes de escrever uma linha, só porque toda a gente, todo o mundo literário está suspenso do que tu escreves… enquanto eu, pobre de mim, posso escrever depressa ou mesmo descuidadamente, porque muito pouca gente se vai dar ao trabalho de me ler.
         Garcia Marquez lembra-se da máxima do seu amigo Mario: aquele rapaz tinha decidido ser um mau escritor. Como de facto veio a ser, antes de ter arranjado um emprego de vendedor de automóveis em segunda mão e deixar de perder o seu rico tempo com veleidades de romancista.




ESCREVER O TAL LIVRO QUE SE SONHOU
      É um escritor contemporâneo de certa nomeada, Michael Cunningham, a dizer-nos da consciência que tem de nunca vir a escrever o grande livro com que sonhou – ou pelo menos da forma como o sonhou.
         Porque o artista é o homem que persegue um formidável ideal. Um homem que passa as passas do Algarve para sobreviver (intelectualmente, já se vê, espiritualmente) à decepção ao dar-se conta de que o livro que acaba de escrever, nem que seja um êxito de crítica ou de vendas, não é o livro que concebera, o livro que sonhara escrever.
         Aprender a escrever romances é ocupação para toda uma vida – também diz Michael Cunningham. E é bem capaz de ter razão.
         E mais diz ele: os escritores dão tanta importância ao livro que têm entre mãos que deixam de considerar os sentimentos dos outros, das pessoas concretas com quem se dão. Será esse o lado negro do escritor.
         Não sei se concordo. Mas pode ser só problema dele.



EU? ELE?
         Pois é. É aí que toda a literatura romanesca joga a sua sorte. Na passagem do Eu ao Ele. Na transição técnica entre primeira e terceira pessoa do singular. Kafka o dizia.
         Toda literatura se desenrola em função deste jogo, deste detalhe só aparentemente técnico.
         Literatura pode se o aparecimento do si-próprio (soi même). Até Proust pensava nisto. E tanto pensava que desde 1895 trabalhou num projecto de romance longo, Jean Santeuil, escrito na terceira pessoa.
        Nunca o acabou. Disseram que não era um bom romance. Proust, disseram os críticos, não se dera maravilhosamente com a distanciação requerida entre o si-próprio e o Outro. Distância técnico-narrativa, posto que, também segundo os críticos, este falhado romance escrito no Ele resultara numa narrativa mais autobiográfica do que a própria Recherche.
         Até que ele decidiu, por voltas de 1907, anular a distância entre narrador e herói.
       Pode-se contar tudo no romance, na condição de nunca se escrever Eu - disse André Gide.