segunda-feira, 8 de junho de 2015


                 O PARADIGMA, A CEREJA, O BOLO,   

         A ESTRATÉGIA, A FILOSOFIA, A ESTRUTURA

 

         Nas tintas para o programa da coligação, às urtigas com a convenção do PS. O que importa é o futebol. E já nem tanto pelo jogo em si, mais pelos enredos    que circunstancializam o jogo em si, o que não é desporto, o que pode muito bem, e muitas vezes, ser até anti desporto. Ou mero acto de gestão burocrática.
 
 
Claro. Jorge Jesus é o nome. Jorge Jesus é a figura nacional, qual Costa, qual Sócrates, qual Coelho, qual Cavaco!
Jorge Jesus é o vilão e a vítima.
 
O vilão falou com aquele e não falou com o outro. O vilão é um traste que andava em comércios com o inimigo quando ainda vivia para cá das muralhas. O vilão foi autista, egoísta, egolátrico, insultou jogadores e equipa técnica. O vilão nem sequer telefonou ao pobre colega cujo lugar, pela calada da noite, iria invadir. O Jorge Jesus não traiu o Benfica mas traiu alguém, a estrutura; o Jorge Jesus resolveu deixar de pôr cerejas no topo dos bolos benfiquistas; o Jorge Jesus mudou o paradigma profissional dele mesmo e, indirectamente, o do Benfica; o Jorge Jesus aplicou a sua pessoal filosofia, montou a sua estratégia e seguiu-a.
Ora bolas! Além das qualidades profissionais exigiram-lhe qualidades humanas. Não queriam mais nada?
A vítima foi ele igualmente, porque sendo o treinador mais titulado do Benfica, tendo imposto um futebol sedutor e atacante que deu brado, tendo conquistado para o Benfica o que não se conquistava ia para mais de trinta anos, o bi-campeonato, viu-se proibido de entrar nas instalações, viu a sua figura apagada do retrato do 34º título de campeão do Benfica. Foi mais uma vítima do estalinismo, quando se julgava que o mundo não conheceria mais vítimas dessas.
As rancorosas vindictas do futebol metem nojo às gentes de bem e, hoje por hoje, dos clubes e da generalidade dos cargos decisórios, é mais do que óbvio que essa gente de bem desertou. Vence o fanatismo, o oportunismo, o calculismo. E é assim mesmo!
Jorge Jesus, o bipolar. Jorge Jesus, o treinador visceral e colérico; Jorge Jesus, o homem de negócios calculista e dissimulado.
 
 
O futebol, seja como for, ocupa crescentemente (na próxima época ainda mais) a ordem do dia nacional, suplantando de largo a política, mesmo em véspera de eleições. Porque será?
A dar gás à supremacia acéfala do futebol sobre qualquer outro capítulo da vida da polis (salvo a especulação económico-financeira) está a voga (e a vaga) inesgotável dos comentadores. Diria eu: dos inúteis comentadores, que a cada momento sobrecarregam de óbvio os seus comentários, que ganham bom dinheiro para contarem ao adepto aquilo que ele está careca de saber e de ver.
 
 
Dos comentadores irrita-me o médico (nunca me passaria pela cabeça que um médico, ainda para mais afamado, pudesse ser estúpido, e mesmo parvo, quando fala de assuntos de fora da sua especialidade), e porque me custa compreender, insisto, que uma estação televisiva pague (e pague perfumadamente) a alguém para exibir urbi et orbi a sua ignorância sobre determinada matéria, que neste caso é futebol, a matéria de que todos nós julgamos entender, mas a quem a televisão não paga os dislates que também nós seriamos capazes de debitar.
Irrita-me o nortenho, um tipo inteligente pago para exibir ao mundo as suas capacidades de boçalidade bimba e de arruaça primária.
Irrita-me o senhor doutor, professor, ou não sei quê, meio scholar, meio autarca, que se desfaz em informação privilegiada e em filosofadas que desembocam em nada.
Irrita-me o gordo, irrita-me o careca, irrita-me o músico, irrita-me o locutor que em duas penadas de paleio descodifica todas as tácticas.
 
                                                              
 
Irritam-me sobremaneira os advogados, o desordeiro casca-grossa das barbas patriarcais, sempre pronto a andar à batatada com quem o contrarie; o da voz abaritonada ao serviço da oratória operática e verde; o do cego e rubro rancor clubista que alguém acusou injustamente de ter sido ministro; o da sonolenta e azul irrelevância burocrático-estrutural-saloia. São esses que à mais pequena provocação da subjectiva realidade, e ao mais ínfimo pretexto de controvérsia regulamentar, transferem durante horas o debate futebolístico para a gratuita exibição de perícias jurídicas.
 
 
E o que mais me faz rir e irritar, ao mesmo tempo, são as longas horas de emissão passadas na antevisão do que irá ser a jornada do campeonato ou o derby que se avizinha. Pode vir a ser assim como pode a vir a ser o contrário do assim, quer dizer, o assado. Se acontecer assim, é porque não acontece assado. Se acontecer assado é porque não acontece assim. Se acontecer assim, as consequências são frito; se acontecer assado, as consequências são cozido. Mas afinal o que é que vai acontecer, assim ou assado?, é o que espero que me digam os comentadores da antevisão.
 
                                                                 
 
Melhor do que isto só as flash-interviews. O jogador acaba de levar cinco, seis, ou sete a zero e responde invariavelmente “agora o que é preciso é levantar a cabeça e continuar a trabalhar”.
O futebol ainda é o mais espampanante museu nacional do analfabetismo atávico.
Sou do tempo saudável em que o futebol era quase só um jogo de bola (hoje também é um jogo, mas de milhões de dólares) em que os grandes comentadores e locutores ou não tinham simpatias clubistas arreigadas e fatais, ou as escondiam por escrúpulo profissional – toda a gente sabia que o Artur Agostinho era um convicto sportinguista, e toda a gente podia apreciar-lhe o entusiástico profissionalismo ao gritar os golos do Benfica: um exemplo entre tantos.
 
 
Num quadro de comentadores, sempre que alguma coisa deixa de ser o que foi num clube é porque foi o paradigma que mudou. O que conta para a contratação de um treinador é a filosofia de jogo que ele vai implementar – implementar: outra. A mera táctica passou por tudo e por nada a ser estratégia. As cerejas a toda a hora se encavalitam no topo de todos os bolos. E, última invenção para ganhar jogos, e sobretudo campeonatos, a estrutura…
Em televisão valem evidentemente as imagens sobre as palavras – evidentemente?, no futebol não sei. Os advogados, os médicos e os monstros observam as imagens do off-side que todos nós observamos também e que passam no écran uma centena seguida de vezes, as vezes que forem precisas para que, pela retórica e pela fundamentação do advogado-comentador que se bate pelo clube que marcou o golo (off-side), o off-side que toda a gente viu que era mesmo off-side deixe de ser off-side; enquanto o off-side cem vezes revisto continua a ser off-side para o advogado comentador cujo clube sofreu o golo (off-side). E vice-versa. O mesmo com a mão – mão na bola ou bola na mão, cem repetições até percebermos o que não vemos, que a bola bateu na mão, ou que a mão bateu na bola, conforme. O penalty, o mesmo, cem vezes repetido, o advogado que queria penalty olha para as imagens e vê o que mais ninguém vê, que o adversário rasteirou o seu homem. O outro advogado não viu rasteira nenhuma, apenas um contacto sem consequências, porque o futebol é um jogo de contacto, e o homem adversário fez teatro, e do bom – pois é, há que contar com a arte de Talma também na bola.
 
 
Ora tudo isto – e mais umas botas – prova que mesmo uma actividade que movimente planetariamente milhões e mais milhões pode não ser um assunto sério, pode viver do erro, da manigância, do teatro, do subjectivo, do virtual, da opinião. Da paixão. Se assim não fosse, esses planetários milhões nunca seriam movimentados.
Gosto de ouvir os comentadores, esses sim, que jogaram futebol a sério, que treinaram a sério. Esses têm ao menos a decência de não palpitar publicamente, antever ou vaticinar sobre matérias que não dominam e de que sabem alguma coisa só por ouvir dizer, porque ninguém lhes oferece tempo (demasiado) de antena para palpitar sobre a culpa ou a inocência do Sócrates, para vaticinar sobre candidatos presidenciais ou para antever o que vai ser da Segurança Social.
Ainda assim, e a despeito de todos os cambalachos óbvios ou escondidos, apetece-me acreditar que o futebol é (ou pelo menos foi) actividade mais sã do que a política. Bem sei que no futebol, como na política, o que é mais decisivo se pode passar longe dos olhos do adepto embrutecido pela sua cor, esse que se está marimbando para a mudança de paradigma do seu clube (de resto, sempre assinalado pelos comentadores só a posteriori), para o movimento de administradores, dactilógrafas, contabilistas, olheiros e roupeiros que fazem parte da tal estrutura, para a filosofia (neo-platónica ou tomista) do treinador, para a estratégia empresarial do presidente. O adepto embrutecido de vermelho, verde ou azul quer ser campeão e ponto final.
Futebol e política? Provar de novo o que está há muito provado, que política é tudo e que tudo é política, e que o que nos resta nesta vida é termos que nos haver com a política, digo com os comentadores, com os advogados e com os outros, os mais perigosos, os economistas, os da estrutura?
 
                                                                       
 
O Jorge Jesus ordinarote, mal alfabetizado, visceral e calculista até ao tutano; o Marco Silva bom rapazito e educado; o outro, o basco, de ridícula arrogância imperialista; e mais o resto, a dezena e meia dos treinadores irrelevantes, são quem dá voltas à cabeça do povaréu, quem gera muitos dos conflitos graves na via pública, quem mobiliza e conclama para a rua milhares e milhares, quem dinamiza a economia, a do futebol e a outra, qualquer outra, ou seja, a mesma, a das roulottes dos coiratos e das cervejolas, a dos cachecóis, dos bonés, das bandeiras, das camisolas, das camionetas, dos artefactos incendiários, dos bastões e dos escudos da polícia.
O futebol parece sobrepor-se à vida mesma por tanto e tão ruidosamente fazer parte dela. E porque quem sabe de futebol sabe da vida, e quem sabe da vida sabe de futebol, dos alcatruzes dela, vida, das mós, das de cima e das de baixo, dos bestiais e das bestas.
 
 
Para voltar ao homem do momento. Seis anos passados, três campeonatos a quem padecia longa fome deles, e mais não sei quantas taças, levaram finalmente os benfiquistas a olharem para Jorge Jesus com olhos de ver. De ver que o homem incensado, endeusado (“Amo-te, Jesus!”), era afinal um badameco que só ganhou o que ganhou porque estava no Benfica – até pode ser verdade. Ou ainda: ganhou o que ganhou quando podia, tinha a obrigação, de ter ganho o dobro. Ou mais: que só ganhou o que ganhou por obra da estrutura abstracta que lhe ofereceu os meios concretos para ele ganhar seis campeonatos seguidos, todas as taças, ir à final da Champions, ganhar as duas ligas Europa que perdeu.
 
 
Quem ganhou tudo o que ganhou o Benfica não foi afinal Jorge Jesus. Nem em absoluto os jogadores que marcam golos e fazem defesas, formalidades aliás pouco relevantes. Quem ganhou o que Jorge Jesus ganhou foi a estrutura, o aparelho burocrático – que se revela estalinista. A estrutura gloriosa que muda paradigmas. A estrutura excelsa que perfilha filosofias. A estrutura sublime que adopta estratégias. A estrutura inefável que é o bolo onde se põem todas as cerejas – pois foi o que Jorge Jesus se limitou a fazer, pôr três cerejas em cima do grande bolo.
 
 
Ou teremos que pensar que em seis anos de Benfica a Jorge Jesus coube o destino pouco glorioso de ter sido ele mesmo cereja, ornamento posto sobre o que era realmente essencial, o bolo: a estrutura, o poder político transfigurador de paradigmas, criador de filosofias, congeminador de estratégias, aparelho reprodutor de si mesmo?
Perigosa inversão dos valores em jogo, dir-se-á; ou dos valores do jogo mais simples e mais belo e emocionante que se inventou, e que assim pode deixar o estatuto de desporto e divertimento para se afirmar como mero acto de gestão.




 

 

terça-feira, 26 de maio de 2015


                 FADO, FUTEBOL E FÁTIMA, SEMPRE

 


         Claro. Sempre. Como sempre. Ou como no tempo do Salazar, que é o tempo que corresponde ao nosso sempre, o tempo da depressão. Tópico identitário. No tempo de Salazar como neste nosso tempo da informática, da comunicação global, da mundialização do capital.
Fado, futebol e Fátima, não pode deixar de ser. Os valores cimeiros da depressão nacional.
 
 
         Fado, futebol e Fátima é quando o pessoal chega à conclusão de que mais nada vale a pena, e que só vale a pena aquilo que não vale mesmo a pena.
 
 
         Fado, futebol e Fátima serão sempre os ícones do progresso português, quer dizer, do desvario ou das lágrimas do nosso desenvolvimento cultural, nulo, pífio, irrelevante, em Salazar como em Cavaco Silva – entre os dois, a enorme diferença está no quadro conjuntural e histórico de vida e de poderes que um e outro disfrutaram.
         Fado futebol e Fátima quando as gentes chegam à conclusão fatal de que não podem confiar nos seus representantes institucionais, não podem confiar nos seus homens políticos. Ou pior ainda: quando, não podendo confiar nos homens, não pode confiar na política mesma como forma de acorrer às suas carências atávicas.
 
                                                     
 
         Fado, futebol e Fátima quando a política e os políticos, em lugar de servirem interesses e anseios de quem os elege, têm por missão piorar, se possível, a vida de quem os elege em privilégio da protecção a quem lhes pagou para serem políticos – e nesse ponto, digam o que disserem e pensem o que pensarem, Salazar era melhor.

 
         Fado, futebol e Fátima: quem ligava ao futebol nos dias seguintes ao advento do 25 de Abril? Quem foi o campeão nacional de 1974, 1975, e por aí adiante, até aos anos 80? Assim, de repente, já poucos se lembram. E muito menos se lembram das vicissitudes desses campeonatos. Que árbitros prejudicaram o Sporting (clube cujo capitulo principal da sua História são os prejuízos causados pelos árbitros), que árbitros beneficiaram o Benfica (clube que fez a sua gloriosa História à custa do benefício das arbitragens), de que metal eram feitos os apitos dos árbitros que actuaram nos jogos do F.C. Porto (clube cuja história futebolística até aos anos 80 não era nenhuma)? Ninguém se lembra. Ou poucos se lembram. (Ah, o Eusébio!) O futebol só voltará a incendiar corações pelos anos 80, extinta a revolução, desvanecida a esperança.
 
 
         Fado, futebol e Fátima. Nos primeiros alentos do 25 de Abril que novos fadistas estavam em voga? Não sei. Não me lembro. Lembro-me dos de sempre, então vilipendiados por sinistras associações ao regime. Amália, ainda, então, e ferozmente atacada como fascista. Carlos do Carmo, em boa hora revelado como corajoso e indefectível homem de esquerda. E mais uns quantos.
 
                                                                
         Fado, futebol e Fátima. Nos primeiros tempos do 25 de Abril quem ia a pé a Fátima?
         Fado, futebol e Fátima, hoje. Obras de restauro na Basílica de Nossa Senhora do Rosário de Fátima, novos fadistas que brotam como cogumelos, jovens jogadores acabados de sair da formação que valem milhões no mercado internacional.
Quantos diários desportivos com preponderância dada ao futebol? Quantas horas semanais de televisão dedicadas ao futebol? Número de peregrinos e cobertura mediática das cerimónias de Fátima tendencialmente em crescendo – não comparável todavia em mediatismo ao futebol (o rei dos media) e ao fado (o vice-rei), é preciso que se diga.
Quantos Carminho, Camané, Ana Moura, Gisela João, Ricardo Ribeiro, Zambujo, Aldina Duarte, Cuca Roseta, Carla Pires, Ana Lains, Joana Amendoeira, Helder Moutinho, e mais umas boas dezenas deles em plena carreira ou em rápida ascensão?
         Fado, futebol e Fátima, ou a miséria das convicções cívicas e racionais de um país. Ou triunfo da fé.
 
 
Fé nas plangências guitarrais e nos trinados vocais como som de identidade nacional, e dos inerentes conformismo e desistência.
Fé no Jorge Jesus, no Pinto da Costa, no Nani para a vitória do clube da "nossa fé", emplastro Leão indicado para as mais profundas dores da existência portuguesa.
Fé na Nossa Senhora, que em 1917 começou por nos avisar dos perigos do comunismo, mas que nos alvores da crise financeira nada teve para nos dizer.
Fé na Nossa Senhora como última entidade em condições de aliviar a miséria das famílias, a penúria dos reformados, a depressão dos desempregados. Fé na Nossa Senhora que se apresenta hoje a Portugal como a instituição que se avantaja em prestígio e confiança aos partidos, aos políticos, e por uma só razão, quero crer: a sua inexistência.
 
 
 
 

segunda-feira, 11 de maio de 2015


KANE

 
                                        
                                   


Por falta de inspiração e querendo prestar homenagem aos cem anos de Orson Welles, apanhei em qualquer lado (uma amarelada edição da Vida Mundial) um texto de Gregg Tolland (de 1941), o celebrado director de fotografia de Citizen Kane. Trata-se da questão inovadora e genial dos tectos. É capaz de ser muito técnico e de não interessar a ninguém. Ou talvez sim. Sabe-se lá. O título é DO REAL AO ARTIFICIAL, e reza como segue:


       
           Citizen Kane em nada é um filme convencional e vulgar. É, antes de tudo, um filme realista. Desde a sua preparação, Orson Welles e eu quisemo-lo assim. Queríamos que, ao vê-lo, o público tivesse, tanto quanto possível, a impressão de estar a ver não um filme, mas sim cenas tiradas da realidade.
        Porém, a esta concepção juntavam-se dois problemas técnicos complicados.

       
        Em primeiro lugar, os cenários do filme tinham um papel importante a desempenhar na história: um papel tão importante como o dos actores. Não eram simples cenários, eles ajudavam a descrever a ascensão e o declínio do herói.

       
        Em segundo lugar, e igualmente importante, existia a ideia que Welles tinha acerca da progressão visual da história. Ele havia instintivamente compreendido aquilo que realizadores muito mais experientes nunca tinham chegado a admitir: que as cenas e as sequências devem ter uma progressão tão suave que o público se não aperceba da técnica de construção. Ainda que anteriormente tivesse sido um homem de rádio e de teatro, ele tinha perfeita consciência das imensas possibilidades da câmara na tradução de ideias dramáticas sem recurso às palavras. É por isso que, a partir do momento em que a planificação foi estabelecida, tudo estava previsto tendo em conta a edição da imagem.


   
     Quisemos, tanto quanto possível, evitar a montagem cut (raccord de dois planos sem a intervenção de fondus ou de outras trucagens). Quisemos, pelo contrário, prever uma acção que permitisse à câmara panorâmicas ou travellings de um ângulo a outro do cenário, sempre que o desejássemos. Noutras cenas, tínhamos previsto os ângulos de tomada de vista e a composição da imagem de modo que a acção, normalmente mostrada em vários planos, era mostrada numa só cena, mais longa. Frequentemente, numa cena, desenrolavam-se simultaneamente várias acções importantes em pontos muito distantes, inteiramente em primeiro e em último plano.

        
        Estes métodos não convencionais, ou sem quebras, impõem dificuldades insuperáveis no campo de trabalho com a câmara. Digamos para ser mais brutal, que eles não podem ser realizados utilizando métodos convencionais. Mas eles faziam parte intrínseca de Citizen Kane e era necessário aí chegar.

                                                     
       
        A primeira etapa foi a elaboração dos cenários. Era necessário que eles dessem a impressão de realidade. Numa sala verdadeira, estamos sempre mais ou menos conscientes do tecto. Na maior parte dos filmes, no entanto, vemos os tectos apenas em planos muito afastados ou, mais frequentemente, eles aparecem em transparência. Nos planos mais aproximados, a câmara raramente mostra um tecto, ou algo que sugira um tecto.
        A iluminação convencional para cenas de interior provém, pelo contrário, de fontes luminosas vindas de praticáveis que se encontram debaixo do plateau e, portanto, em ângulos que seriam impossíveis de realizar em verdadeiras salas com tecto.

       
        É por isso que a quase totalidade dos cenários de Citizen Kane foram construídos com tecto. Eram tectos muito baixos, por vezes mais baixos do que o que seriam na realidade. Além disso, a maior parte dos nossos ângulos de tomada de vista previam que as câmaras fossem colocadas muito em baixo, para que a tomada de vista pudesse ser efectuada de baixo para cima, o que daria maior realidade a esses tectos. Certos cenários foram mesmo construídos de tal modo que se podia retirar o chão e colocar a objectiva ao nível dele. Isto, bem entendido, levantou imediatamente um interessante problema da iluminação. Uma vez que os cenários tinham tecto, nenhum dos 110 cenários tinha iluminação vertical. À excepção de alguns raros planos onde podíamos levantar uma pequena parte dos tectos para usar um pequeno projectos onde fosse realmente necessário; tudo neste filme era iluminado do chão.


       
       Tendo os cenários uma certa profundidade, isso obrigava-nos a utilizar luzes muito penetrantes. Encontrámo-las em projectores-difusores de arco duplo, os quais são usados no technicolor. Essas lâmpadas eram o essencial da nossa iluminação, com alguns juniors, seniors e 170.

       
       A propósito, mencionemos que esta utilização de cenários com tecto nos trazia outra vantagem: eliminava essa praga dos cineastas: a sombra do microfone. Os tectos eram de musselina e os engenheiros de som não tinham problema algum em colocar os seus microfones sobre esses tectos permeáveis ao som. Eles estavam sempre fora de campo, forçosamente, e, como não havia iluminação vertical, não projectavam sombra. E como os tectos eram muito baixos, os microfones estavam numa óptima posição para captar o som. Devo admitir que, depois de ter trabalhado assim durante 18 ou 19 semanas, é árduo voltar às condições habituais de iluminação, em que é preciso velar sem descanso para que o microfone e a sua sombra permaneçam fora de campo.

                                                         
       
           Um outro problema consistia em obter a definição e a profundidade de campo que correspondessem à concepão que Welles tinha do filme. Se bem que o olho humano não seja realmente um instrumento óptico de foco universal, a sua profundidade de campo é tão grande e as suas capacidades de ajustamento tão automáticas que se pode considerar o olho como a objectiva ideal.  

domingo, 10 de maio de 2015


             O MAIO DE 68 E A QUESTÃO SEXUAL

 


         Não sei, mas julgo que pouca gente saberá que o pontapé de saída (ou um deles) para os acontecimentos de Maio de 68 foi dado em Janeiro desse ano, quando o ministro francês da Juventude e Desportos visitou em Nanterre um centro desportivo, onde, como lhe competia, quis saber das condições de aquecimento, de ventilação, de purificação de águas.

                           
 
Quando saiu, tinha meia centena de estudantes a vaiá-lo. Irrepreensível democrata, o ministro condescendeu em dialogar. É quando lhe aparece um ruivo a pedir-lhe um debate sobre a questão sexual.



Eu não estive lá para ver, mas posso facilmente imaginar o ministro a querer conter o riso, a pensar que aquele ruivo a quem chamavam Dani Le Rouge, estava a entrar com ele. Mas o ruivo insistiu:
          - A construção de um centro desportivo é uma medida hitleriana!
          - Mais pourquoi, monsieur?
          - Porque quer distrair a juventude com o desporto e desviá-la dos reais problemas da sociedade.
          - Mais non!
          - Mas sim. A questão essencial neste momento era governo tratar do equilíbrio sexual do estudante!
Depois, foi o que se seguiu. Naturalmente, devido ao desequilíbrio sexual dos estudantes.
 
 
Não estou a brincar. Isto foi objecto de um relatório secreto da polícia francesa, e para o provar teria que vos mandar ler a Vida Mundial na edição de Maio de 98 que relatou os acontecimentos, mas vistos pelo lado da polícia.

sábado, 25 de abril de 2015

                        OS AVISOS DO FUTURO

        O 25 de Abril morreu, deixemo-nos de fantasias. E o futuro é amigo e avisa-nos.
        Como ? Quem? Salazar? Caetano? Como? Exame prévio?
        Pois é. É o futuro que nos avisa da sua chegada.
    Como se não bastasse o que bastava sabermos quanto à reles qualidade da nossa elite política, dos nossos deputados – os deputados que os votantes compulsivos elegeram -, ficamos a saber que os do dito “arco da governação” carpinteiraram um projecto de proposta de lei para valer no período eleitoral (proibia as más palavras, os conceitos negativos sobre partidos ou agentes políticos) que sujeitava a exame prévio (visto prévio) de uma comissão qualquer os materiais a difundir por jornais, rádios e estações de televisão. Uma coisa proposta pelos deputados do PSD, CDS e PS, que aparece a público justamente  (e significativamente) ontem, 24 de Abril.

                                                     

        Coincidências? Em política? Quem acredita ainda nelas?
        Não, nada de coincidências. Avisos quanto ao futuro. Avisos sobre o desenvolvimento futuro das democracias geridas pelos partidos tradicionais quando em assustadora (para eles) queda de prestígio e credibilidade.             

        Mas daí a bocado aparece o chefe do PS, António Costa, e diz que está contra o projecto de proposta de lei. Está contra os deputados do seu próprio partido, portanto. Daí a mais um bocado aparece o chefe do CDS, Paulo Portas, e diz o mesmo, está contra a proposta de lei, é a favor da liberdade de imprensa, logo, está contra os deputados do seu próprio partido. O chefe do PSD, e 1º ministro, não diz que sim ao projecto, mas também não diz que não.
        Então, batendo com a cabeça na parede, pergunta o homem da rua que sustenta a nossa inqualificável elite política, quem é que teve a ideia, quem é que pariu o projecto de lei. Veio pelo ar? Trouxe-o um vento mau? Caiu do céu aos trambolhões? Ninguém o pensou, ninguém o fez, ninguém o escreveu?
        Se o grupo parlamentar do PS ajudou à festa do parto do projecto de proposta de lei e o chefe do partido está contra, como explicar isto? Que anda António Costa a fazer? 
     O mesmo para o CDS: se o grupo parlamentar avançou com a proposta, ou  deu os améns ao exame prévio à comunicação social, e o Portas, chefe incensado e incontestado do partido, é pela liberdade de imprensa, que anda ele a fazer lá pelo Largo do Caldas? Estava na casa de banho e nem bateram à porta a avisá-lo?
Nem Costa nem Portas têm mão nos seus homens?
Serão Costa e Portas uns badamecos politicos?
Ou a hipocrisia política reinante no tal “arco da governação” atingiu os paroxismos do impensável?
Que haverá verdadeiramente por detrás desta notícia que explode ns vésperas da comemoração do que chamaram dia da liberdade?
Equívoco. Erro. Precipitação. Foi o que clamaram os comprometidos no desmando, os homens dos três grupos parlamentares que fazem as leis que nos dão cabo da vidinha. Quem se equivocou, quem errou, quem se precipitou? Nunca saberemos. Evidentemente. Porque nunca sabemos o que na verdade se passa nas nossas costas e legitimado pelo nosso voto.
Os homens da comunicação social cantaram o unisonante coro do repúdio. Aquilo passaria as marcas da manipulação suportável e costumeira. Aqui del-rei que os partidos andam malucos e já confundem propaganda com informação, e já nem a encapotada propaganda que a comunicação social faz para consumo dos votantes (e pagantes) lhes chega.
O 25 de Abril morreu, deixemo-nos de fitas piedosas. E se o 25 de Abril morreu aí estão os avisos do futuro.


O sistema e a nauseante classe política portuguesa que o arquitectou estão em pânico. As próximas eleições podem relegá-los para o terrenos do ridículo da representatividade – mesmo apesar do conformismo atávico e analfabeto do povo eleitor. O sistema partidário vigente, enquistado no privilégio, alapado, corruptível, não tem condições para aguentar mais tempo de liberdade política. Têm a consciência pesada pelo que fizeram e pelo que não fizeram e podiam ter feito. E vêem as barbas dos vizinhos (gregos, espanhóis, franceses) a arder. Deixaram de ter a mão que tinham no poder judicial – se é que deixaram – e temem pelo que ainda possa estar escondido e possa vir a lume, a dar-se o caso de os editores da comunicação social entenderem poder aumentar as tiragens e as audiências quando finalmente publicarem tudo o que sabem.
     
                       
Vamos todos votar? Em quem? Em quem nos andou a matar aos poucos o 25 de Abril? E para quê? Ora para quê… para contribuir com a nossa parte no aumento dos vencimentos dos deputados que nos cortam os salários e por isso têm medo do futuro e intentam repristinar o exame prévio de Marcelo Caetano.
Não sei como ainda há quem encare sem indignação as clownescas caras que  nos entram todos os dias pela casa dentro através da televisão.


        Não tenhamos ilusões. O 25 de Abril está morto. É tudo mentira. Não ouviram o discurso do impagável presidente da república? Muita atenção aos avisos do futuro.

quarta-feira, 22 de abril de 2015

          A MÃE, 
        E A CHEGADA  
        DOS NOVOS DEUSES

A certa altura da tormentosa jornada, os argonautas – os da nau Argos capitaneada por Jasão, que demandava a Cólquida em busca do Velo de Ouro – foram dar à ilha de Lemnos.


E depois? Que tinha esta ilha de especial?
Tinha. Tinha que era uma ilha onde só viviam mulheres; mulheres que se tinham revoltado contra os homens e os tinham pura e simplesmente exterminado.
Mas essas mulheres violentas, fundamentalistas, ainda assim trataram menos mal os navegantes. Deram-lhes de comer, de beber, de vestir…
Mais confortados,  os argonautas foram seguidamente dar ao país das mulheres guerreiras. Que se chamavam amazonas. E que contraditoriamente eram filhas da pacifica ninfa Harmonia, tendo contudo por pai o deus da guerra, Ares.


Conhecedores da violência das amazonas, os argonautas não quiseram nada com elas, passaram de largo e seguiram o seu heróico caminho sem fundear.
Muito bem. Toda a gente sabe que existiram na História da Humanidade as soluções patrilineares e matrilineares - sem falar das bilineares - como organização de vida e de poderes dentro das famílias. Era conforme a sucessão na chefia e nos direitos patrimoniais fosse feita, pela linha paterna, materna, ou pelas duas. E cada uma dessas modalidades se foi definindo História fora, em função dos hábitos de cada comunidade, em poligamia ou monogamia. O que determinava os diferentes  sistemas de repúdio, ou de divórcio, postos em vigor.


E as amazonas entram aqui por isto: houve entendidos nesta matéria que interpretaram as relações nas sociedades primitivas como promiscuas, circunstância que pode ter unido as mulheres no processo de vincular os homens ao casamento monogâmico. E quem se viria agigantar na defesa das pretensões das mulheres? Pois quem havia de ser, as amazonas. Que impunham pela força das armas os seus pontos de vista e os interesses  sociais e comunitários do seu sexo.

                                                                   

E agora, a mãe. A figura. A instituição. A mãe, talvez a mais poderosa instituição familiar.
Olhem o caso da primitiva família israelita. A autoridade da mãe aumentava na razão do universo dos filhos que concebia. Na Assíria, na Babilónia, sim, a mãe detinha os mais alargados poderes. E até competia à mãe a chefia da família na ausência do pai, a dar-se o caso de o filho mais velho ser ainda menor de idade.
Nos tempos idos do matriarcado só a descendência materna tinha valor. Os filhos eram pertença da mãe e da tríbu da mãe. A autoridade masculina reconhecida era a do tio materno mais velho. O homem, quer dizer, o pai dos filhos, o marido, ficava em casa, e cumpria as tarefas que aos nossos contemporâneos e ocidentalizados olhos normalmente são atribuíveis às mulheres. A este sistema também se chamou de ginecocracia.


(Só um parêntesis. Posso dizer que eu mesmo, nos acidentes da minha vida pessoal, tive ocasião de testemunhar situação semelhante no interior da profunda África Austral, em que as mulheres executavam os mais duros quefazeres, como, por exemplo, colher a mandioca nas lavras mais distantes, mesmo em situação de guerra; fazer cargas e descargas; fazer obras nas palhotas. E quando se lhes perguntava pelas actividades dos homens – que talvez caçassem ou pescassem qualquer coisita – elas logo respondiam de olho reluzente que o homem pouca serventia tinha, o homem, a bem dizer, só servia para o amor.)

                                              

Na organização matriarcal proibia-se o casamento entre os da mesma linhagem, a exogamia. Enquanto, pelo contrário, nas organizações em que a endogamia era prevalecente permitia-se o casamento no seio do mesmo clã


Mas foi esta uma questão sempre ponto de controvérsia entre os antropólogos. E sendo que, segundo alguns, o matriarcado passou por ser o primeiro tipo de organização social.

                                                

Quando Dioniso (ou Baco) organizava as suas tão faladas  bacanais, diz-se que o que ele teria  pretendido com essas festas não seria mais do a regressão aos estados de promiscuidade original, funcionando essas bacanais como afronta ao poder dominante das mulheres.


E levou a dele ávante, o malandrão. Porque entretanto chegavam ao firmamento helénico os novos deuses. E isso foi quando Apolo instituíu o primado da paternidade na vida social. O que, aliás, salvou Orestes, condenado pela ordem matriarcal à tortura das erínias por ter matado a mãe, e a seguir absolvido pelo tal advento dos novos deuses e da nova ordem que instituía o patriarcado.


Em geral, nos regimes de matriarcado, tocava às mulheres o condão de serem possuidoras de poderes iniciáticos, mágicos, e porque grandes descobridoras de plantas elas eram. Eram iniciadas nas sapiências relativas à natureza. A agricultura, um exemplo, era coisa de mulheres, já que eram elas quem detinha a posse da terra e quem dominava social e economicamente as comunidades. E eram, evidentemente, sacerdotizas. E praticavam tanto a feitiçaria como a medicina, actividades que nesta idade da vida humana (não sei se ainda hoje) pouco se diferençavam. Nos seus ritos cultuavam elas os crâneos masculinos. É verdade. Mas não me perguntem porquê. E davam-se à dança das máscaras. E até nem eram muito biqueiras, visto que não desprezavam o seu petiscozito nas cenas de canibalismo ritual.

                                                                

Os filhos.  Uma das mais polémicas teorias do século XIX, a do Jus Maternum, estabelecia que os humanos viviam originalmente na tal promiscuidade, daqui decorrendo o desconhecimento da paternidade das crianças dadas à luz, e assim também a única certeza biológica inequívoca de descendência: a mãe. E daqui o prestígio inigualável das mulheres nestas sociedades.
Porque na velha Grécia as mulheres estavam mais ou menos como os escravos: tinham  perdido os direitos políticos. As mulheres casadas não saíam de casa e as solteira ficavam-se pelo gineceu, fora da vista dos homens, mesmo os da família, embora Esparta fosse mais tolerante nesse particular das mulheres.


Também se contavam maravilhas (ainda hoje parece-me que se contam) da escola da ilha de Lesbos, administrada por Safo. E em Esparta, acreditando no relato de Eurípedes, as raparigas trajavam de curto, faziam (quem sabe) muita aeróbica e dança jazz. Mostravam as coxas…
De qualquer das maneiras, a família grega era uma organização de tipo etico e religioso, e ênfase bastante era posto nos ritos. Héstia (Vesta) era a divindade evocada para o fogo do lar. Mas também se honravam, é claro, outros deuses em caso de nascimento, maioridade ou morte.
Nessa velha Grécia, a educação dos filhos competia, nos primeiros anos, à mãe. Depois, as crianças era passadas aos escravos instrutores, e daqui aos mestres, e por último ao pai.


Vamos lá a ver. Assim, a modos mais sistematizados, o estudo da família terá começado por volta dos anos 60 do século XIX. E terá – notem: digo “e terá” pois é natural que os antropólogos divirjam alguma coisa nestas precisões. Dizia eu… que terá começado este estudo mais cientificamente com a publicação do livro do sociólogo suíço Bachoffen, Das Mutterecht  (O Direito Materno). Esta obra (a que se seguiram as do americano Lewis Morgan) será uma das primeiras onde se estudaram as várias formas e fases por que passou a organização familiar, a promiscuidade, a ginecocracia, a monogamia, e por aí fora – onde se estudaram, é como quem diz, onde se estudaram, ou onde, com mais propriedade e menor margem de erro ou plausibilidade, se especulou sobre estas matérias já de si tão dificultosas de sistematizar.

                                                                       

Segundo o tal Bachoffen, é entre os gregos que se processa a revolucionária passagem do Direito Materno ao Direito Paterno.
E o que terá levado a isso? Que circunstâncias, que condições concretas se acumularam até proporcionarem essa viragem?
Condições de ordem económica, arrisca Lewis Morgan. Evolução de meios de produção e de propriedade privada. O que aproximou das teses do americano os mais famosos materialistas dialécticos europeus, com Friedrich Engels à cabeça.


Há quem se incline também para a tese religiosa. Como já anteriormente sugeri, imperativos religiosos terão levado a tão magna mudança nas relações humanas, um dos mais largos saltos qualitativos operados na moral e nas regras de convivência dos habitantes deste mundo. A entronização dos novos deuses (tal como se passa hoje, em que já pouca coisa é como há 30 anos)  viria a subalternizar o culto que se prestava aos velhos e tradicionais deuses, e tendo os novos deuses implantado (como o que se passa hoje) as formas novas de preponderância – masculina designadamente.


Todas as épocas, e o espírito delas, conhecem os seus novos tempos.
Novos tempos, de resto, que a sucessão dos séculos virá muitas das vezes a irrelevar, engendrando então os novíssimos tempos, e sempre que a gloriosa insatisfação inerente ao pensar do Homem acha que o centro de todas as questões é o renovar incessante das coordenadas mentais desse mesmo Homem.
Alguns outros entendidos nestas coisas diriam que as condições concretas que teriam levado à instituição do Direito Materno seriam ainda muito anteriores a qualquer conceito de consanguinidade, e por conseguinte a qualquer conceito de incesto que o Homem pudesse ter criado no afã sisífico de inventar novas coisas.

                                                                       

Uma tirada de Medeia que, parecendo que vem,  não vem nada a despropósito:
A noite leva o pássaro para o ramo da árvore, a ovelha para o curral e a criança para a mãe. Não devemos saber as causas. Pensar demasiado enlouquece.  


Também poderá ter acontecido algo parecido com isto: entre os primitivos selvagens dava-se o caso de se matarem as crianças do sexo feminino logo à nascença, daqui resultando um muito considerável excedente de homens por tríbu e o uso da mulher por vários homens. E já se sabe, com as coisas nesse pé, apenas a mãe de uma criança era identificável, nunca o pai. Daqui se seguindo a contagem da ascendência pela linha materna.

                                                     

E uma coisa mais que ficamos a saber de caminho: em algumas sociedades tradicionais era hábito as crianças recém-nascidas serem objecto de protecção especial. Eram seres débeis e indefesos, muito sujeitos aos ataques dos feiticeiros e dos espíritos malignos. Os bébés podiam passar dias e noites  guardados à vista por um homem armado. A criança das sociedades antigas, na sua primeira infância, ainda era considerada um ser do outro mundo, com o condão de trazer muitos favores do céu…


O dito Bachoffen até negava ao homem a qualidade de chefe de família por determinação natural – o que era escandaloso para a época em que ele escreve o livro, e para mais quando desviava do homem atributos de superioridade natural sobre a mulher e a condição de máximo pilar da ordem humana.


O lugar central; o lugar onde céu e terra se acham primordialmente em causa; o ponto de cruzamento de sinergias; a emanação da realidade. Segundo o Prof. Mircea Eliade, ”nada pode começar ou fazer-se sem uma prévia orientação, e toda a orientação implica a aquisição de um ponto fixo. E para o homem religioso o que mais importa situar é o ‘centro do mundo’, porque para viver no mundo é necessário fundá-lo. Nenhum mundo nasce do caos que é a homogeneidade, e a projecção de cada ‘ponto fixo’ significa a criação do mundo.”


Isto para dizer que a estatura e a dignificação da mãe como educadora, como formadora, e como guardiã por excelência da identidade familiar, só começa a desenvolver-se no século XVII. Só nessa altura é que a mãe emerge das espessas sombras institucionais onde estava e assume na economia e na filosofia da família um papel central. O ponto fixo.



O centro. O centro do mundo. Ou a unidade dos contrários. Ou o ponto de ruptura. Ou a convergência de céu e terra. A mãe.