domingo, 5 de julho de 2015

     SALVÉ, ESCRAVOS DA DEUSA DE METAL


 

A entrada do novo século, ainda, o XX, quando as doutrinas científicas pareciam de natureza tão essencialmente dinâmica que repeliam uma aspiração de absoluto. Foi um castigo primeiro que se reconhecesse à observação uma preponderância sobre a imaginação como condição do especular científico. Mas as interpretações erradas fariam descambar a vera ciência para a banal acumulação de incoerências, todavia, embora parcialmente, exactas.

 

                                                                                    

 

O positivismo marcava o novo século, como já estava a marcar os sopros finais do velho século. Barómetros hipersensíveis, os intelectuais acusaram o golpe, assustaram-se. Se se deixasse de pensar em Deus como instância espiritual de apelo e se se passasse a viver e a pensar subordinado ao real objectivo, desvalorizando a imaginação e o sonho, bom, era caso para um poeta se suicidar

 
Um homem pensante e atento, e francês, é claro, definiria uma lei de vida. A lei dos três estados. Três estados teóricos, distintos, determinavam o âmbito de um novo conhecimento. Esse homem chamava-se Auguste Comte.
Um estado a que se chamava de teológico – a que se poderia acrescentar o qualificativo de fictício.
Outro estado a que se chamava de metafísico, mas que também podia ser dito de abstracto.
 
                                                                 
 
Finalmente, o estado científico, que era o positivo.
Três métodos de pensar. Três sistemas conceptuais. Três formas de abordar os fenómenos da vida. E três sistemas que entre si tinham a virtualidade de se eliminar. E se o primeiro, o teológico, era fonte de onde dimanara a inteligência, e o segundo um patamar de transições, o terceiro, o científico, determinava o limite da cogitação humana. Era um fim. Impossível avançar, inconveniente regressar a qualquer dos outros sistemas depois de obtida a prova científica.

 
No primeiro estado, ou sistema, o que acontecia era definir-se como objectos a natureza mais intrínseca e íntima de todos os seres e indagar da causa primeira de todos os efeitos, um conhecimento do absoluto, a convicção de que todo o fenómeno decorria em suas causas e efeitos da acção do sobrenatural, e por aí se explicando até as aberrações universais.

                                                              
 
A metafísica conformava o estado teológico-fictício com ligeiras nuances. Não se deitavam iniciativas ou responsabilidades directamente ao sobrenatural mas contava-se com a acção de agentes desconhecidos, abstractos, cada um com poderes sobre, digamos, o seu ramo de especialização. Podia não ser já Deus o supremo mestre criador; poderiam ser deuses a dividir entre si os poderes.
 
 
Chegado ao científico, ou ao positivo, o espírito humano reconhecia por fim as suas incapacidades, a impossibilidade de chegar às noções absolutas. E reconhecendo-o, desistia, renunciava. Renunciava a quê? A partir em busca das causas e das finalidades do universo e seus magníficos, temerosos e misteriosos fenómenos. Optava antes o espírito humano por indagar das leis e das relações de sucessão e semelhança que regiam esses fenómenos. Os factos apreciavam-se pelos seus contornos reais e entreteciam-se fios de ligação entre os casos particulares e os casos gerais.
 
                                                            
 
E por falar nisto ocorre um nome que já por esta época se interrogava acerca do valor prático de uma verdade, William James: admitida como certa uma ideia, ou uma crença, que diferença concreta resultará dela para a vida que vivemos? Como é que esta verdade se efectivará? Que experiências resultarão dela, em lugar das obtidas a partir de uma crença falsa? Qual, em termos de experiência, o valor prático da verdade?
 
 

É que a verdade de uma ideia, no dizer do mesmo William James, não lhe é propriedade inerente. Nem inerte. A verdade acontece. E acontece numa ideia. E esta ideia faz-se verdade; ou fazem-na verdadeira certos factos. A ideia verifica-se a si mesma, e tem por finalidade e resultado a sua própria verificação.

 

                                                                                    

 

De regresso a Augusto Comte, vamos dizer que um facto, seja ele particular, seja ele geral, não contém em si nenhum sentido inteligível, real. Um facto consistirá, sobretudo, antes de tudo o mais e mais do que tudo, no seu puro enunciado.


 
Adeus para sempre à pura imaginação e ao seu império mental na descoberta do mundo. À imaginação não resta alternativa outra do que sujeitar-se à observação, por forma à obtenção de um estado lógico das coisas e das vidas. Nada é possível conhecer em cada efeito para além das relações que esse efeito mantenha ou não com outros efeitos, nunca quanto ao mistério da sua produção.
Aos positivistas interessava saber o que era, o que é, porque se sabiam impotentes para descortinar a causa primeira tanto quanto o destino final daquilo que era. O absoluto era então alvo fora do alcance e fora do combate das ideias, erigindo-se em seu lugar o relativo.
E depois, seria bom que se percebesse que os fenómenos humanos individuais não eram estrictamente individuais apenas por resultarem de uma evolução colectiva e contínua de elementos conexos entre si, donde os fenómenos individuais passarem a ser entendidos como fenómenos sociais.
 
                                                                      
 
A especulação lógica ater-se-ia sempre às condições de uma existência individual, as quais, em última análise, reflectiríam as condições do progresso social verificado, sem absoluto nem permanência. E isto punha os cabelos em pé aos metafísicos.
Era o novo espírito científico, o novo espírito positivo a distanciar-se do misticismo e do empirismo que tanto tinham estigmatizado os pensares antigos. O positivismo reservava-se severamente o direito de navegar nessas águas, criticando as ilusões criadas pela procura do absoluto.

 
Os hábitos de absoluto estavam no entanto bem enquistados na mente humana. E desse absoluto ninguém quisera investigar as origens. Como se de noções milenares, nascidas com o primeiro homem se tratasse. Mas não, não eram atávicas – garantiam os positivistas. Eram noções induzidas de fora do indivíduo, de fora da colectividade dos indivíduos. E eram induções insidiosas, nocturnas, a dar lugar às ilusões teológico-metafísicas.
                                                                       
                                                             
 
Os intelectuais da tradição, do instinto, da intuição, do golpe de asa, da imaginação, insurgiram-se, violentados, o seu mundo ruía em desditosos pedaços, não podiam aceitar as baias que lhes queriam pôr à consciência de uma realidade, custava-lhes terem de se cingir ao facto em si e por si como limite do seu labor criativo.
O mundo apertava-se, tornara-se demasiado pequeno para eles. E da crise do empirismo, do espírito religioso e do misticismo, arrancava a crise do próprio positivismo, a rebelião.

 
Por exemplo, em Portugal. E porque em Portugal a entrada do positivismo fora impetuosa e devastadora. E de forma a dar alentos intelectuais às ideias republicanas, quando tomou os seus aspectos sociológicos.
Mas tanto quanto se impunha o positivismo nos meios literários e académicos portugueses, assim ia sendo contestado. Antero e Oliveira Martins estavam na primeira barricada dessa contestação. O conhecimento científico não poderia abarcar a explicação das coisas. À ciência o que eram os fenómenos; à filosofia e à metafísica o que era a reflexão sobre o absoluto.
 
                                                                                 
 
E afinal de contas, o positivismo, nas suas fronteiras acanhadinhas também se traduzia num dogmatismo, e porque ilusórias eram também, ou poderiam ser, as conclusões da ciência. Não era possível, e nem sequer aconselhável, pensar manietado pelas cadeias únicas da experiência. Experiência que não fornecia leis para a indução, e sendo que as leis do espírito são inerentes ao espírito, não derivam da experiência.
 
 
Sampaio Bruno, Oliveira Martins, Raúl Proença, António Sérgio, Antero, Leonardo Coimbra, e, para mim o mais interessante e criativo, Teixeira de Pascoaes. Todos eles de uma forma ou de outra críticos do positivismo.
 
                                                                  
 
Pascoaes embebia-se do sonho religioso e messiânico da raça. E assim entendia ele combater o estrangeirismo que invadira o pensar português, e do qual se levantavam como expoentes maiores o positivismo e o constitucionalismo franceses. Estava em acção o movimento Renascença Portuguesa.
 
 
Pascoaes. Não se pense que ele não era republicano. A implantação da república fora mesmo para ele o inaugurar de uma nova idade para a identidade nacional.
O homem português de Pascoaes era um homem integral. Ser físico e ser metafísico. Inteligência dedutiva e inteligência intuitiva. Consciência poética, vamos lá, sem desprezo de uma consciência científica. Em suma, o homem português, pronto ao enfrentamento das duas facetas do universo, uma formal e outra substancial.
 
                                                            
 
Para Pascoaes o 5 de Outubro pode ter sido uma festa. Aliviava-nos a influência de Roma, é certo, e era bom. Para ele, que se queria panteísta e que entendia o povo português como uma comunidade religiosa, sem dúvida, todavia não católica.
Mas se a chegada da república extinguira o que ele chamava de lâmpadas de Roma, por outro lado acendera o que era urgente apagar, e que ele dizia serem os fachos de Paris.

 
Teríamos de nos guiar pela nossa própria candeia, alimentada com o azeite das nossas oliveiras.
Teríamos de aspirar a uma república, sim, a uma democracia, claro, mas uma democracia religiosa, rural e corporativa.
O que existe é uma aspiração esparsa, latente, em nebulosa – uma atmosfera, um sentimento de mal estar que é condição de movimento e desejo de alguma coisa – não se sabe bem o quê. Que nos incite, que nos impulsione, que nos una, que nos salve. Sente-se de mais para carecer de demonstrações.
 
                                                                             
 
Sentimento, ou sentimentalismo, português, e sempre e sempre necessidade de salvação colectiva, nas palavras que acabaram de se ouvir, de Raúl Proença, crítico do materialismo e do determinismo e crente num realismo idealista.
 
 
Proença pretendia ver Portugal como parceiro de parte inteira da civilização mundial. A Europa seria para Portugal um espelho. Portugal confrontar-se-ia a cada passo com esse espelho e o que esse espelho lhe devolvia era uma imagem de subalternidade, de menoridade que deprimiam a vidinha. 
 
                                             
 
Sérgio queria-se idealista, porém racionalista e crítico. Não morria de amores pela preponderância do facto, ou da experiência, porque o conhecimento seria engendrado na física, na matemática, na geometria, na ultrapassagem do sensível pelo inteligível.
 
 
Leonardo Coimbra não queria nada com os factos nem com a experiência. A dialéctica do pensamento humano não estaria nas coisas, estaria nas representações ou nas noções dessas coisas – a sensação. A sensação não era um dado. Era uma categoria psicológica. Portanto, não seria uma realidade estável, seria um passo no processo dialéctico a desembocar em realidade, em sentido.
Mas gosto do pensar de Pascoaes. Pela plástica. Pelo recorte poético superior e impreciso e imponderável que encerra, ou em que se encerra, mais então pela forma literária do que pelos rigorosos valores filosóficos. E quanto ao valor filosófico do que escrevia, e porque o seu pensamento não passava de um afloramento de sentimentalidade, a seu ver, um pensamento cujas coordenadas lhe pediam uma forma artística de expressão, deixava a avaliação dele, segundo disse, aos críticos, às cabras e a outros roedores. O importante era o ensejo de apresentar a sua filosofia ao leitor.
 
                                                                 
 
A ciência? Pff! Um jogo de forças repetido, ou lentamente modificado, gestos insubstanciais, formas ocas, casca de um fruto proibido.
A ciência, para ele, era o que desenhava a onda, mas era a poesia que a enchia de água.
O sábio observa, analisa, decompõe; o filósofo generaliza, dá o conjunto; o poeta dá o significado anímico das coisas.
Havia nele, Pascoaes, um paradoxo filosofante muito complexo nos seus termos: a razão era irracional; Deus era humano; a natureza era sobrenatural.
 
 
Um poema:
vede o homem sonhando;
e pelo sonho remindo as ermas cousas transitórias, concluindo a imperfeita criação que Deus iniciou 
Quem era o Homem na fronteira do século XX, engasgado entre o facto e o não facto, a imaginação e a realidade, o empirismo e a observação, o sonho e a experiência? Seria o mesmo Homem que o mundo conhecera dos séculos atrasados ou sofreria nas suas noites outros e mais aterradores sonhos?
 
 
Pergunto e Pascoaes replica-me: o sonho do homem actual é ser um esqueleto antecipado, com asas de alumínio, sobre um planeta roído até ao caroço. Ao homem mitológico, escravo dos deuses sucedeu o homem metafísico, escravo de um Deus; e a este o industrial, escravo de uma deusa de metal, aquela mulher eléctrica, numa barraca de feira, estendendo a varinha mágica aos labregos espantados.
 
                                                                 
 
Pode não haver mais perfeita alegoria já não digo do Homem industrial mas até mesmo do labrego informático, cada dia mais labrego e cada dia mais informático, que vive a fronteira do outro século, este, o XXI.
Ao Homem, ao labrego espantado com a varinha mágica do cientismo e da industrialização, tocaria tomar para si os padecimentos do universo, ser companheiro de Deus na dor de si mesmo.

 
Porque Deus criara o universo por desfastio, ou distracção, e ficara banzado com o que fizera, e passara a andar roído de saudades de si mesmo, do seu ser que não era ainda criador, uma vez que enxergava no mundo por si criado o seu próprio fim.
Ao Homem de Pascoaes restava ser uma consciência do seu próprio criador. Deus sofre. A sua divindade é uma doença. Escreveu ele. E porque também o Homem penava. Por ser ele mesmo, em si mesmo – homem.
 
                                                                   
 
As coisas são lágrimas de Deus, imagens arrefecidas, já serenas, da sua dor. Deus sofre. Eis a razão de tudo.
Em Deus estaria a origem de todo o mal. Em Deus estaria o originalíssimo pecado. Terá sido para expiar esse pecado que se fez homem. E também para se aperfeiçoar, porque a finalidade última do Homem seria ser ele a consciência do universo, e assim em penosa ascensão a caminho, justamente, de Deus.
Não seria pela particularidade do universo mental de Teixeira de Pascoaes que o positivismo francês medraria no pensamento português. Por causa das certezas ou das renúncias especulativas que esse positivismo comportava. Estava-se perante um conflito aberto: de um lado, a certeza científica; do outro a sensibilidade religiosa de onde brotava a poesia. E conflito porque uma e outra visariam um escopo político. Ou seja, um domínio. Como diz Pascoaes: de um lado temos o Cristo-Rei, e de outro um anti-Cristo presidente. E ainda havia a saudade. Essa palavra saudade…
 
 
 
O Homem é criador, não é criatura coisa nenhuma.
o seu gesto era olhar, isto é, criar,
converter em humano sentimento
a espiritualidade azul do ar.
E a saudade era uma deusa. Nascida do sonho. Redenção do universo. Redenção de Portugal. Santidade cósmica aparecida dos esponsais entre a maternal neblina e o duro torrão, Jesus e Pã. Na alma portuguesa achava Pascoaes uma via de consensos entre paganismo e cristianismo.
E em Leonardo Coimbra achava Pascoaes a expressão filosófica de quanto ele próprio pensara, a quanto ele próprio não pudera emprestar expressão que não fosse poética.
                                                                 
 
Vede a que sublime altura filosófica Leonardo Coimbra elevou a alma da sua raça que é a saudade, e, por conseguinte, a matéria e o espírito cósmicos fundidos num perpétuo abraço amoroso e criador. Leonardo representa a ideia fundamental de um povo, o móbil psíquico de uma raça a construir um novo mundo.
A saudade como lusitano modo de criar.
 
 
Religião não podia ser imposição dogmática – isto para Leonardo Coimbra. Porque religião era pensamento. O pensamento científico, através da consonância das consciências levou à pessoa humana, logo, essa pessoa reclamará para si a liberdade de uma criação essencial, e moral, na arte, na filosofia ou na religião. E pela religião a humanidade acederá ao cosmos, alargará perspectivas solidárias. Caberia então ao Homem ser entidade onde se representaria o Todo.
 
                                                              
 
       Quem cria, afinal, o universo, senão o pensamento humano?
 

 
É aliás por esse processo criador do universo que o Homem pode ascender. Ascender aonde? A quem? A Deus. Um Deus transcendente, porque nada está criado de um só fôlego e de uma vez por todas.
 
                                                                  
 
Compreender é unir; compreender é amar.
Qual é o princípio de uma identidade cultural portuguesa, onde está, desde o momento em que essa identidade aproveita tanto quer a tradição escolástica quer a do pensamento positivista?
É um princípio, segundo Leonardo Coimbra, só encontrável na nossa literatura – ou na nossa poesia. Ou, enfim, na linguagem, no falar e no inventar. Tudo em Portugal – e designadamente a questão política – se imbricaria num problema de pedagogia, e sendo este problema pedagógico decorrente de uma questão filosófica. Uma ideia, acho eu, cheia de actualidade.
 
 
A mais relevante identidade cultural portuguesa estaria então oculta, e oculta na linguagem, porque o talento peculiar de cada povo é o que inunda as palavras de sentidos secretos e mais profundos.
O intérprete de um trecho literário só poderá entender a linguagem numa acepção simbólica, cifrada, remetendo o sentido derradeiro do discurso para territórios mais recuados da consciência.
 
                                                 
 
Já mestre Unamuno dizia que a filosofia espanhola estava difusa na literatura, na vida, na acção e na mística, e nunca patente e claríssima em fosse qual fosse o sistema filosófico.
 
 
Campo de interpretações seria a filosofia portuguesa, porque a nossa racionalidade se vocacionou para integrar o irracional, ou porque o pensamento resvala para o obscuro, para noções enigmáticas que significam a sombra e a noite da alma dos nossos seres, os naturais e os sobrenaturais.
 


 

terça-feira, 23 de junho de 2015


                            O MUNDO SOU EU!

Proclamou-o o romancista francês Rémy de Gourmont no limiar do século XX.

 
O mundo sou eu, o mundo deve-me a sua existência, eu criei-o com os meus sentidos; o mundo é meu escravo e mais ninguém tem poder sobre ele.
Era um livro intitulado Sixtine – Romance da Vida Cerebral.
 
                                                                            

Foi um imaginário pardo e adoentado o que assolou as mentes europeias mais brilhantes na transição do século XIX para o século XX. Um chamado fin de siécle que muito previsivelmente teve Paris como cenário, teve Paris como força intelectual difusora das novas ideias, das novas formas de expressão artística, dos diferentes parâmetros estéticos, e igualmente, e por isso mesmo, das mais tristes expectativas para a vida do espirito, e até para o homem comum.

 
O simbolismo decadente impõe a moda artística, em especial na literatura, na poesia, mas igualmente noutras expressões. Que o digam os que o pintaram, ou que o teorizaram, ou que o tocaram, Moreau, Redon, Munch, Satie, Puvis de Chavannes, Huyssmans, Debussy, Paul Bourget ou Richard Strauss. Na música, e a meu ver exageradamente, há mesmo quem diga ser Wagner já um produto desse mal-estar existencial. Mas talvez eu acrescentasse com mais propriedade, e pelas febris composições ainda no domínio da música, outro nome grande, Gustav Mahler.

 
Decadência. Pessimismo. Tédio de vida.
 
 
O Homem em conflito com o seu meio, horizontes existenciais a abarrotar de incógnitas dolorosas. Tudo isso desabou sobre a expressão artística. Tudo isso instituiu uma nova moral estética, e ética, claro, a que muitos dos criadores não puderam fugir.
                                                                                         
E de Paris a moda do tédio e do desespero alastrou Europa fora, desencadeou transformações civilizacionais e específicas linguagens, como a contestação do tipo anarquista-nihilista nas rússias, como o pessimismo alemão, como a neurose do sul. Neurose decadentista que Nietzsche já distingue como raiz da obra de Wagner em 1888.
     
Uma técnica complexa de decomposição de linguagens, um estilhaçar das unidades formais conceituadas, como diria Paul Bourget – segundo leio – uma independência da página escrita; uma decomposição dessa página a conferir autonomia à frase; um estilhaçamento formal da frase a abrir a via à soberania da palavra.
Ou, caminhando em inverso sentido, a palavra a exceder a frase, a frase a obnubilar a expressão da página, a página a impor-se, subalternizando a unidade do todo.
Em suma, um exercício de liberdade; ou uma exigência universal de direitos. Outra moral.
                                                                                       
É nesta época da vida intelectual que nasce na literatura – ou talvez também na vida – o herói por assim dizer negativo, o herói decadente. É Huysmans quem o faz nascer como protagonista do romance A Rebours - ao contrário, ao invés, às avessas.
Des Esseintes, chamava-se a personagem, esse herói decadente, esse homem crepuscular, essa figuração de uma crise moral abrangente e a braços com a complicada adequação aos valores emergentes.

 
Os valores emergentes decorriam da evolução do conhecimento científico e tecnológico. Os valores emergentes eram a alteração das coordenadas estáveis de um conceito de tempo e de História. Uma aceleração de vidas. Um saltar de etapas do quotidiano. Uma tecnologia que estendia tentáculos inevitáveis à sociedade, à vida comunitária e que deixava os homens em dúvida na própria área política.

 
Claro que esta escola decadentista e sensível à perda de um mundo mitificado opunha-se à intelectualidade que, a rebours, pelo contrário, mitificava os dias a vir, aplaudia entusiástica as novas oportunidades que o próximo século traria para oferecer ao Homem. Zola era um progressista, logo, um expoente desses artistas da nova ciência. Zola e o romance social, o romance que sobrevoava o exterior das existências, os passos rigorosos, os gestos exactos e convenientes e científicos, a razão, digamos, mais pura, mais desataviada do doentismo cinzento dos simbolistas profetas de uma desgraça futura.

 

Para os decadentes, ou decadentistas (por melhor dizer), a Arte revestia fumos de uma religião da qual eles frequentavam com unção os altares. Os decadentistas teimavam que era à vida que cabia em sorte e destino a imitação da Arte, da grande Arte. Viver seria uma manifestação de grande estilo; seria idealmente um acto estético.
Para os naturalistas apaniguados das novas esperanças, dos admiráveis e científicos e racionais mundos novos a trazer pelo novo século, competia à Arte perseguir a vida verdadeira, ou mesmo servi-la; competia à Arte não se divorciar do real circundante, nem que fosse preciso a obra da imaginação, que seria o romance, transformar-se em dissertação sociológica.
Uma questão de moral e peras…

 
Populistas e aristocratas, se assim podemos dizer. Isto é: duas atitudes comunicacionais na apreciação do fluir imparável do tempo. Os socialistas e os esteticistas – se assim também pudermos dizer. Ou ainda mais simplesmente: aristocratas e burgueses.   

                                                                                   
Era à vida burguesa, pragmática, positiva, sujeita ao discurso das realidades que Zola e companheiros apelavam; era a um triunfo da tecnologia que tornaria a vida mais prática e menos contemplativa e o viver mais acessível a todos, com os bens de consumo, antes privilégio de poucos, ao dispor da maioria. Era à democratização da vida, enfim, iniciada por uma atitude cultural, que os positivistas adeptos do novo século aspiravam.


 
Os decadentistas, os tais que, como Rémy de Gourmont encaravam o mundo como criação sua – a criação que lhes fugia, que os abandonava, que os traía - refugiavam-se na subjectividade. O sonho. O ideal místico impalpável, imensurável. A invenção de uma realidade interior. A simbologia que as coisas encerravam.

 
O herói de crise, o campeão decadente, é um solipsista. É um egocêntrico. É ele o inventor do mundo. E é ele a sua própria invenção. É ele o mundo. E o mundo que é ele, e que se pode libertar do sonho dele, começa pelo fim do século XIX a causar-lhe mal-estar, náuseas – Sartre, acho eu, vem muito mais tarde a revisitar, noutros pressupostos, bem entendido, estas mesmas paragens existenciais.
 


O herói de crise é mórbido, porque cultiva a morte como saída estética, ou como hipótese moral de redenção.
O herói de crise, o decadente, pela sua posição filosófica face à novidade do mundo, ou ao irreconhecimento de um mundo já não moldado ao seu parecer, toma atitudes de mundano blasé.
Ao herói romanesco da crise de fim de século repugna (tal como repugna hoje a muitos de nós) o utilitarismo burguês, o mercantilismo comandante de uma vida que se tornaria – e tornou - feia de morrer.

                                                                                                   
E se a natureza, redescoberta pela ciência e pela tecnologia, determina pensamentos pequenos e gestos rotineiros e desengraçados, então que se lhe contraponha o artificialismo das paisagens e das figuras ideais. Que se lhe oponha a magia. Que essa natureza tão natural seja confrontada com a fantasia que habita o ego em desesperos de causa. Que se combata a ditadura do natural pelo misticismo simbólico que fará da arte uma actividade salvífica e redentora dessa vida burguesa e tediosa.
Porém, inegável será a herança recebida pelos aristocráticos decadentistas. E essa herança receberam-na eles das consciências futuristas, positivistas, naturalistas, que começavam por detectar na vizinhança do novo século as causas do seu mal-estar.

 
Foi o conhecimento, ou uma pré-consciência do que estaria para vir, que provocou a reacção simbolista-decadentista aos intelectuais que então se reclamavam da vanguarda, e que, ao aperceberem-se das fanfarras que saudavam o novo século, gritaram que é lá isso!, que querem vocês fazer do mundo?, como é possível estarem tão contentes com o que aí vem?, não se deram conta de que o mundo sou eu, é cada um de nós, que não há forma de o mundo existir senão por nós, em nós?

 
Foram os Zolas que abriram caminho ao conhecimento social, artístico e mental dos simbolistas-decadentistas. Foram eles que, anunciando o novo século, alertaram para as patologias num mundo que já era dos outros.
Foram os naturalistas a abrir os olhos para os condicionalismos do meio ambiente no comportamento dos homens outrora donos do mundo, para o factor hereditário que a ciência acabara ontem mesmo de descobrir, e isso e mais umas botas instauraram como realidade a ter em conta no próximo século.

 
Representação fiel da realidade feita por uns, que induz aos descontentes com tal representação fiel a invenção de outra realidade – ou uma conservação da realidade nos limites secularmente conhecidos.
A essa representação fiel da realidade haveria que contrapor outra atitude que talvez, com o andar dos tempos, afeiçoasse e repusesse a realidade em pés de mais compensador humanismo. E essa atitude consistia em criar uma ficção. Uma ficção que se opusesse com eficácia à realidade fiel que outros representavam. O momento era de passear por oníricos e artificiais paraísos de forma a que o mundo se conformasse sob a cenografia do Eu, e sendo o Eu o estádio perfeito do humano. Não era novidade absoluta. Ia-se ao Schopenhauer e ficava a saber-se que o mundo não passava de representação de um Eu que lhe era prévio e ao mesmo tempo atávico, dispersando o Outro pelos recantos menos devassados, quase inóspitos desse mundo que era o Eu.


 
Verlaine escreve: je suis l’empire a la fin de la décadence.
O que era a sociedade para os decadentistas senão uma concessão generosa, e por vezes bela, do Eu? O que era o Outro senão uma construção episódica do Eu?

                                                                                             
Mallarmé escreve: ouí, c’est pour moi que je fleuri, déserte !
O mundo, que tenderia a ser os outros, o Outro, abrandava convicções sagradas.
O mundo manobrado pelos que acabavam de o descobrir como afloramento da realidade transformara-se para os dandies decadentistas numa neurose. Só o Deus que parecia alheado do mundo e da vida sabia o que estaria ainda para acontecer.
Os novíssimos psicologistas ajudaram um tanto os decadentistas ao estabelecerem na sua ciência uma relação directa entre genialidade e doença mental. Wagner era então chamado, também ele, à conversa.

 
Promover a ritualização até dos próprios objectos.
Reapreciar culturalmente as épocas que a História estipulara como decadentes.
Explorar artisticamente o Eu e descobrir, e aceitar torturadamente, a ambiguidade do desejo sexual.
Como vingança de um Eu ofendido, explorar perversamente o erotismo.

 
Enfim, reagir. E reagir pode ser exprimir o até então inexprimível. O vazio. Exprimir o vazio pela infinidade de estados de alma que o preenchem e que assim o tornarão ainda mais vazio. Ultrapassar a realidade esquerda pela direita do artificial, do místico, do voluptuoso.
O Outro era o bárbaro. O Eu habitava uma ilha. Não, melhor, o Eu era a ilha. E a ilha do Eu era a única realidade que sendo falsa era inquestionável.


 
O mundo sou eu, o mundo deve-me a sua existência, eu criei-o com os meus sentidos; o mundo é meu escravo e mais ninguém tem poder sobre ele.

                                                                                               
 
A espiritualidade impõe-se. Necessariamente. Se os valores da matéria soçobram, então que lhes sucedam os valores do espírito. E o espírito é vasto, e é belo, e é vário, como o mundo que ele mesmo configurou.
O mundo é belo, vasto e vário, e de tal ordem o é que suscita uma quantidade de manifestações que nem por serem ideológica e visceralmente opostas deixam de ser espírito, do catolicismo ao budismo; do rosa-crucianismo ao satanismo. Magia. Cabalística. Astrologia. Espiritismo. Manifestações renovadas do profundo e feroz pessimismo que a crise mental do fim do meu mundo e da próxima inauguração do mundo dos outros despertou.
Sem dúvida que a esse espiritualismo desenfreado de recusa de um mundo materialista e tecnológico correspondeu a espiritualização a rebours, ao invés, às avessas: uma espiritualização do progresso.

 
Nessa espiritualização do progresso contava um tópico historicista: a entrada do século tecnológico, o XX, seria uma revisitação do Século das Luzes; constituiria a herança cultural dessas Luzes. E até porque a introdução em França das teses de Schopenhauer tinha acontecido tardiamente, não preparara os espíritos para um desenvolvimento filosófico disposto a acolher os cientifismos figurados na emergência do século XX.
Péladan, iniciadão rosacruciano, inaugura nos salões da própria ordem exposições de pintura, e avisa: o salão da Rosa-Cruz será doravante um templo dedicado a uma Arte-Deus, que terá como dogma a Obra-Prima, que terá por santos todos aqueles que tiverem Génio.
Estava a acabar o mundo.
 

 
Nos anos 90 do século XIX estava a acabar o mundo, esse mesmo mundo que tantas vezes na História já tinha acabado, que continuou a acabar nestes nossos dias com a revolução informática, que continua a acabar para todo aquele que de hoje para amanhã vá desta para melhor.
Sim senhor, estava a acabar o mundo e os verdadeiramente optimistas eram os burgueses desligados das visões espiritualistas, assediados por essas consciências despertas e maçadoras que eram os visionários da arte pela arte, os estetas, os anarquistas sem esperança, os militantes promotores do caos, em busca da nova ordem que ainda, e por enquanto, não sabem exactamente qual seja, mas cuja busca em si mesma lhes confere já um sentido à vida.

 
E nestes desavergonhados tempos parisienses de que falo, por cá, em Portugal, anunciava-se para breve o fim da pátria, o pessoal à nora com questões mais triviais.
                                                                                      
                                                                                                     
       
Antero, um desencantado decadentista, tinha escrito uma carta a Osório de Castro com os seguintes dizeres: em Portugal não pode haver revolução que mereça esse nome (…) revolução pressupõe propósitos, firmeza e força moral. O que aqui não há. Portugal é um país eunuco que só vive de uma vida inferior para a vileza dos interesses materiais e pra a intriga cobarde
E mais, e mais tocante e revelador, na sequência do berbicacho concreto que foi o Ultimatum inglês que nos marca a fogo a profunda crise da viragem do século: sob o insulto imprevisto esta nação parece agora acordar. Mas o nosso maior inimigo não é o inglês. Somos nós mesmos.


 
E em idêntico contexto pode preferir-se a Antero um outro, António Nobre:
                              Nada me importa, país.
       Seja meu amo o Carlos ou o Zé da Teresa… amigos
          Que desgraça nascer em Portugal 

Não havia país, por atavicamente atrasado, dependente, paroquial e senhorial onde a crise finissecular francesa do decadentismo encontrasse melhores imitadores. Em Portugal, sim, estava para ser o fim do mundo.

                                                                                                
 
A crise chega à intelectualidade da chamada geração de 90. E chega através do dito romance de Huysmans, A Rebours. Sempre imitativos, os intelectuais portugueses adoptam a cartilha da nova escola literária acabadinha de chegar de Paris e constituem-se em manifesto. Os Nefelibatas.
 

 
Eça estava então cônsul em Paris, e é claro que as finas antenas dele apanham a mensagem. E até nem destoava ele da reacção simbolista ao que avisadamente entendia como um excesso de materialidade o que vinha na esteira da ortodoxa moda cientista. Mas nem por isso ficou cliente dos decadentismos parisienses
É Antero que propõe uma idealização do espiritualismo como trajecto a seguir, contra o que chamou de gélido fatalismo soprado pela ciência ao coração dos homens. Enquanto para outros equilibrados espíritos o optimismo dos próceres do novo século científico só seria aceitável se fundamentado numa raiz metafísica.

 
O aristocrata Eugénio de Castro não fazia concessões e é ele o arauto que inaugura nas nossas letras a voga simbolista: julguei que se tinha levantado um obelisco místico no meio da praça; e que o obelisco dava uma sombra azul; e que tinham acendido um fogão no quarto húmido; e que tinham dado alta ao doente.

                                                                                                       
Ou o estimado Raúl Brandão, na sequência das crises nacionais, muitas, dos anos 90 do século XIX, escrevendo nas suas Memórias: a vida antiga tinha raízes, talvez a vida futura as venha a ter. A nossa época é horrível, porque já não cremos – e não cremos ainda. O passado desapareceu e do futuro nem alicerces existem. E aqui estamos nós, sem tecto, entre ruínas, à espera.