domingo, 27 de dezembro de 2015

                       AS AVENTURAS DO DINHEIRO
 
Uma inferição pouco comum, com respeito a dinheiro e à moral dele: os homens do dinheiro, os financeiros, sempre e sem descanso procuraram fórmulas e motivos que excitassem a euforia no povo miúdo.
Estamos num tempo que em pontos de ordem financeira talvez nenhum de nós esperasse um dia viver. Tempos e costumes que se contêm numa sinistra palavra que nunca contámos pronunciar a nosso respeito por ser mais própria de tempos remotos ou de temas de ficção. E essa palavra é bancarrota. Instituições em bancarrota. Países em bancarrota. Coisas do passado que se lêem em romances.
E à colação da bancarrota vem um nome que fez história nas vidas económicas e financeiras internacionais do século XVIII; John Law, escocês, batoteiro, visionário, genial, percursor da vida aventurosa e fictícia do capital financeiro.
 

 
Vamos lá a ver se lhe consigo contar capazmente esta história moral.
John Law nascera em Edimburgo 44 anos antes da morte de Luis XIV. Era filho de um ourives. Era um barra em matemática.
Quanto ao aspecto, este John Law, dizem, era uma figura elegante, de traços aristocráticos, expressão desenvolta e maliciosa, muito apreciado pelas mulheres. Ponto fraco? O jogo. Ponto fraco e ponto forte, quando ganhava, está bem de ver. E no jogo, Law era um daqueles científicos, racionais, um calculista das probabilidades, bom em matemática como ele era. Gabava-se da infalibilidade de umas martingalas, um dobrar de paradas sobre o pano verde. Mas apesar disso perdia muito dinheiro.
 
 
Vai de Edimburgo a Londres e prossegue na vida de casinos e de conquistas femininas. Por causa de umas saias disputadas com um elegante londrino, bate-se com ele em duelo e mata-o. É preso. É condenado à forca.
Mas a corte que o julgou pensa melhor no caso e admite que um duelo não pode ser caso de forca. E mais importante do que isso, John Law, através de algumas senhoras com quem se relacionara, dispõe de conhecimentos grados e preciosos no mundo judiciário, e acaba por ser o rei Guilherme III a conceder-lhe um perdão e a devolvê-lo à liberdade. O mais aborrecido é que o irmão do assassinado também tem uns pauzinhos influentes para mexer, e recorre, ao abrigo de uma lei escocesa, de onde se segue que John Law vai de novo bater com os costados na enxovia.
Mas não aquece o lugar nos calabouços. Evade-se. Só pára em Amsterdão. Como é que sobrevive em Amsterdão? À pala do jogo, claro. Começa finalmente a ganhar.
John Law ganha muito dinheiro ao jogo em Amsterdão. E estuda o funcionamento da banca da cidade. E começa a especular em câmbios, aproveitando as facilidades que o Banco de Amsterdão lhe dá. Internacionaliza-se. Especula sobre as casas bancárias de toda a Europa. Percebe que aprendera a dominar certas técnicas financeiras e ala de Amsterdão.
Fixa-se por um tempo em Itália, para voltar à Escócia em 1700 e propor ao parlamento de Edimburgo um mirífico esquema financeiro que duplicaria a riqueza nacional.
 
 
O plano de Law é rejeitado pelos escoceses e ele parte para Londres. Depois para Bruxelas. Chega a Paris. De casino em casino vai travando conhecimentos, ganhando, perdendo, esbanjando, até encontrar no duque de Orléans, sobrinho do rei, um companheirão de estroinices.
 
 
O príncipe deixa-se fascinar com as ideias de Law quanto a dinheiros públicos. Ficam amigos. DOrléans faz questão em que o amigo escocês apresente as suas ideias inovadoras a Camillat, controlador geral das finanças do reino.
Camillat ouve John Law com toda a atenção e expõe o plano a Luís XIV, que dá a ideia de não ir muito fora dele, mas que solta um grito de horror quando se apercebe de que o autor daqueles planos é um huguenote um protestante.
 
 
- Não e não. Palavra de rei!
- Ah, pois é, huguenote… mas ouça majestade…
- Não, já disse! Que é lá isso, menino? Ai que temos o caldo entornado. Palavra de rei. Não é não. E ainda te digo mais: não seria mau que esse huguenote fosse amarrando a trouxa e se pusesse a cavar destes reinos o mais depressa possível.
Mas Luis XIV já estava com os pés para a cova. Há quem aconselhe Law a ir-se deixando ficar, o rei estava por um fio. E Law, inconformado, insiste: o meu sistema financeiro precisa da França e a França, já percebi, precisa do meu sistema financeiro é muito simples
Mas mesmo assim Law deixa Paris.
Luis XIV agoniza. John Law está na Hungria. Recebe certo dia notícias de França, e a primeira coisa que faz é fretar uma carruagem que o leva a Paris. Quando chega, Luis XIV está morto.
 
 
No dia 1 de Setembro de 1715, o rei Luis XIV entregou a alma ao Criador e uma esperança nova, uma esperança de regeneração, cresceu no coração dos franceses. A morte do rei é sentida como uma libertação das submissões aos velhos métodos de governo, é uma oportunidade aberta a novas experiências. Abaixo a velhada. Viva a juventude.
 

 
Luis XV tem 5 anos. Não pode governar. A França, liberta do velho rei, sonha com uma nova vida de prosperidade e de festa, e quer na regência do reino, a conduzi-los na nova vida, alguém desempoeirado, ousado. E esse alguém vai ser o regente do reino, o duque Philippe dOrléans. Que tem 41 anos. Que é sobrinho do falecido monarca; falecido monarca que, por sinal, nunca o quis perto dos negócios de Estado.
 
 
Philippe dOrléans era homem empreendedor, ainda que marginalizado pelo tio, ainda que desempregado régio que se virara para a má vida, os copos, o jogo, as zaragatas, os duelos, as aventuras, certamente para desafogar a sua energia vital. Nunca esquecendo, entretanto, a sua condição de príncipe de França.
 
Elevado ao poder, Philippe dOrléans não se esquece dos seus companheiros da boa vida e nomeia alguns deles altos dignitários e ministros, a começar pelo 1º ministro, um certo abade Dubois, e a continuar num intelectual honesto, o duque de Saint Simon.
E por aqui se começa a produzir uma reviravolta nos sistemas e estruturas de governo. Secretários de Estado ao ar, e em lugar deles conselhos senhoriais o duque de Noailles à frente do conselho de Finanças.
 
Às finanças do reino deixara-as Luix XIV em mísero estado, um descalabro total. A dívida pública orçava pelo bilião e meio de francos verba descomunal para o tempo. Os cofres régios (ao contrário dos de Portugal em 2015) estavam vazios. Os títulos do tesouro só eram aceites por 20 ou 30% do seu valor nominal. O esquema de cobrança de receitas do Estado estava num caos. Os impostos eram irregularmente distribuídos e só uma parcela deles entrava nos cofres reais, perdendo-se o restante nas bolsas de oportunistas, traficantes e intermediários – não, não é, é a França de 1715. Noailles organiza uma câmara de justiça para rever e reformular um a um todos os processos, todas as contas, todos os enriquecimentos havidos a custa dos dinheiros do Estado.
    Não houve bancarrota. Houve falências sortidas.
É no dia 24 de Outubro de 1715 que John Law comparece perante o conselho de finanças de França e expõe as suas ideias. O discurso é claro, nítido e caloroso, qualidades discursivas que sempre dispõem bem quem ouve, que sempre dispõem à euforia, como é próprio do capital e do lucro rápido e fácil.
Todavia, o duque de Noailles sente-se tolhido de preconceitos. São as ideias de Law que lhe soam algo demasiado novas e quiméricas, por um lado; por outro, faz-lhe confusão partilhar o poder das finanças régias com um estrangeiro.
O ponto essencial, para Law, era centralizar. Criava-se um banco régio onde todas as receitas do Estado seriam concentradas. Esse banco central passaria a emitir títulos que seriam entregues em pagamento a todos os credores do Estado, os quais, credores, teriam sempre a alternativa de trocar esses papéis por dinheiro contado.
Reza a acta da reunião o seguinte: o senhor Law pretende que toda a gente seja atraída para a posse destes títulos bancários mais do que por moeda sonante, em vista da facilidade maior de pagamentos em papel e pela certeza de receber sempre que desejar.
 
 
Law é que esconde uma parte do jogo. Não fala das despesas e dos riscos de transporte de sacos cheios de dinheiro. Não fala na sua ideia de multiplicar os símbolos monetários muito possíveis de confundir com riqueza e património reais. Ainda assim, não convence o conselho de finanças. Não era aquele o momento mais próprio para levar a cabo experiências arriscadas. Mas John Law não desanimava por tão pouco.
John Law manobra, suborna, bajula, seduz, tenta capitalizar para a sua ideia as acrimónias que havia entre os membros do gabinete do regente, fala do gosto pela novidade que era a marca cultural da sociedade depois da morte de Luis XIV.
 
 
Até que em Maio de 1716, no dia 2, o duque de Orléans o autoriza a criar um banco, não régio, um banco privado, chamado de banco geral, com um capital de 6 milhões divididos em 1.200 acções nominativas de 5.000 francos cada. O banco beneficiará do privilégio de poder emitir títulos de todo o numerário depositado nas suas caixas. Tais títulos serão valorizados não em francos correntes mas numa outra moeda que se chamará escudo ou escudo bancário.
Nunca mais ninguém quereria negociar sem ser em escudos bancários que representavam um peso real e constante em metal, ao contrário do suporte do franco, sempre a diminuir na sua correspondência com os valores em ouro e prata. E como este banco geral auferia de uma honesta corretagem sobre as operações que fazia, os lucros começaram a ser substanciais, a pontos de poder, ao cabo dos primeiros seis meses, oferecer aos accionistas uns bons 7,5% de dividendos.
 
 
O regente do reino anda contente que nem um rato. O duque de Noailles finge-se rendido aos estratagemas de Law e convida os credores da coroa a deixarem-se ressarcir em títulos do banco geral.
John Law, se não inventava, pelo menos punha em acção a modalidade financeira da emissão de títulos do tesouro. Pensa num banco de negócios. Mas o capital do banco geral, para Law, era um capital adormecido. Era preciso acrescentar-lhe movimento, inventar-lhe uma aventura financeira de maiores proporções.
 
 
Desde 1682 que a França possuía, pelo menos teoricamente, as terras do vale do Mississipi, na América, um território imenso que ia do golfo do México ao Canadá. Tinham-lhe chamado Louisiana, honrando o rei Luis XIV. Falava-se de mirabolantes riquezas de ouro e esmeraldas escondidas no subsolo. E era, além do mais, um espaço onde, em 1716, não havia mais do que duas centenas de colonos franceses. John Law, o nosso financeiro, pensa no assunto.
E tanto pensa no assunto John Law que entrevê ali uma excelente ocasião de desenvolvimento dos dinheiros do seu banco. O direito de exploração do território fora dado a um negociante parisiense chamado Antoine Crozat, que dessa concessão não sacara ganhos que se vissem e que por isso a ela renunciara.
Law vê o furo, O caminho estava aberto à ousadia aventureira do capital. Era urgente fundar uma companhia, uma companhia do ocidente, para tomar o lugar do tal Antoine Crozat e explorar as riquezas do vale do Mississipi. Um privilégio real é obtido, ainda que à custa de algumas restrições.
A companhia do ocidente, por 25 anos, ficaria com o monopólio do comércio com a Louisiana. Porém, o capital da companhia, 100 milhões de francos, seria integralmente subscrito em títulos do Estado e em condições de paridade.
 
Acontece que tais títulos haviam perdido 70% do seu valor, donde, o capital de 100 milhões se ficar por uns tristes 30 milhões. Mas a companhia avança. Quase sem capitais. Apenas com uma receita de 4 milhões cerca de 10 milhões de francos novos.
Com meios tão exíguos, como seria possível à companhia do ocidente valorizar um território tão desmesurado como o da Louisiana? Law sabe dos perigos, mas, jogador, tem uma confiança inaudita na sua sorte.
Começa a construir-se uma frota marítima. Reúnem-se os contingentes de futuros colonos franceses da América, arregimentam-se soldados. São prometidos condados e ducados americanos aos aventureiros que queiram embarcar em mais esta novíssima aventura do capital financeiro em movimento.
 
A 9 de Fevereiro de 1718 é nomeado um governador. Chamava-se Jean Baptiste Lemoyne, era senhor de Brieuville, era homem teso, oficial da tropa, de origem canadiana.
 
 
Em Junho de 1718, 800 novos colonos e soldados desembarcam nas costas da Louisiana. 68 deles são escolhidos pelo governador para habitar um lugar selvagem e pantanoso, mas muito bem situado, nas margens do Mississipi. E era bom que se desse um nome ao sítio. Qual é que há-de ser? Talvez um nome que fosse uma homenagem ao regente do reino e padrinho da aventura, o senhor duque de Orléans. Olha, calha bem. Está dito. O sítio fica a chamar-se Nova Orleans.
 
 
John Law, o escocês, o jogador de casino, é o imperador do novo mundo.
 
 
Cantou assim uma velha índia, ao ver abaterem-se as árvores que serviriam de matéria prima à construção das primeiras casas da Nova Orléans: diz-me o Grande Espírito que tempos virão em que entre o rio e o lago haverá tantas casas habitadas por homens brancos quantas as árvores que crescem nesta floresta.  
Os custos da colonização eram astronómicos. Quem andava pior do que uma barata era o conselheiro das finanças do reino, o duque de Noailles. Mas o regente continuava embalado na conversa de John Law e substituía o Noailles nas finanças. Law marcava pontos. O problema era o parlamento de Paris. Mas Law todo ele era companhia do ocidente, todo ele era Nova Orléans. Todo ele era Mississipi.
 
 
O negócio das acções da companhia do ocidente corria numa pequena rua chamada Quincampoix, no bairro dos ourives e dos cambistas.
De princípio, as transacções eram feitas em lojas, mas rapidamente essas lojas foram pequenas para tanto movimento e o comércio das acções passou para o meio da rua, que por acaso estava interdita a trânsito de carruagens. A pequena rua Quincampoix transformava-se na Bolsa de Paris.
 
A confusão era muita. As desordens não eram raras. Foi preciso vedar as extremidades da rua com grades de ferro e pôr piquetes de soldados a guardá-las. Um pobre corcunda ganhou rios de dinheiro só por alugar a sua corcunda como escrivaninha aos agiotas com pressa de trocar assinaturas.
 
 
John Law vai apimentar o jogo fazendo saber que ele mesmo, em pessoa, irá adquirir um grande pacote de acções acima do preço do momento e só pagáveis a três meses.
 
 
É nesta ambiência de euforia e ganância que vão começar a acontecer histórias desgraçadas, uma delas a triste história de Manon, Manon Lescaut, que o Abbé Prevost verteu em romance best seller do séc. XVIII e que Massenet e Puccini puseram em música.
      Mas claro que os lucros da empresa do Mississipi só apareceriam a prazo muito alargado. Law sabia disso. E queria benefícios imediatos. Para tanto, manobrou de forma a que outras companhias se fundissem com a sua. Em concreto, as velhas e moribundas companhias de comércio ainda do tempo de Luis XIV, a companhia do Senegal, a companhia das Indias ocidentais, a companhia da China.
Parecia suficiente, mas não lhe chegava. John Law consegue fazer-se adjudicar outras concessões, como a do fabrico de moeda, ou o contrato do tabaco. Tudo reverterá em investimento da companhia do Ocidente, que toma então o nome de Companhia das Ìndias.
 
 
O curso e a cotação das acções sobem, de dia para dia, de hora para hora. Ganham-se fortunas colossais em poucos dias. Há lacaios cheios de sorte e de esperteza bolsista que se tornam milionários do dia para a noite.
 
 
E as novas do Mississipi chegavam a Paris envoltas num aroma exótico e encantatório de Eldorado.
 
A especulação estava a acelerar. O jogo dos títulos da companhia do Mississipi, em risco, em aventura, em adrenalina, deixam os jogos de casino a perder de vista, como ingénuas brincadeiras de garotos.
 
 
Voltaire escreveu: é um jogo novo e prodigioso onde todos os cidadãos jogam uns contra os outros.
O caso Manon Lescaut vem já a seguir neste blog.
 
 

 

quinta-feira, 10 de dezembro de 2015


 

              A ARTE DE DISCUTIR


O mais proveitoso e natural exercício do nosso espírito é a discussão – Montaigne dixit.
 
 
Ou então: Todos os dias os modos estúpidos de outrem me advertem e aconselham. O que magoa impressiona e esperta mais do que o agradável – torna ele, Montaigne, a dizer, na preciosa versão portuguesa ipsis verbis do Prof. Agostinho da Silva.
 
 
Ah, sim transcrição subversiva esta, nos tempos de hoje, em que pouca gente quererá aprender mais alguma coisita para além do pouquíssimo que já sabe e lhe dá jeito ao trabalho, e só porque a atitude de querer aprender supõe, como é óbvio, a realidade de uma ignorância a respeito de qualquer coisa.


 
Uma ignorância que, mesmo para a gente comum que todos os dias se acotovela no fast food da semana de trabalho é especialmente custoso de admitir, e porque se há alguma coisa que eu ignoro é porque não me faz falta nenhuma saber essa coisa, e se me aparece alguém com uma conversa sobre qualquer assunto que eu ignore esse alguém é um chato insuportável e é melhor para mim e para a minha auto-estima evitá-lo, como é melhor evitar qualquer pessoa que me lembre da minha ignorância… e porque esta época é a do pensamento positivo e da auto-estima, ou do desbragado optimismo acerca de mim mesmo,  e eu, mesmo que não o seja, passei a sê-lo, bonito, inteligente, sábio, competente, bom conversador, encantador, divertido e culto.
 
                                                          
 
Da discussão nasce a luz? Bom, na maior parte das discussões a que assisti não nasceu luz nenhuma e foram as trevas que mais se adensaram e os abismos que mais se cavaram.
 
 
E também de grande parte das discussões a que comecei por assistir nasceu uma zaragata e uma quesilia de todo o tamanho, a uma unha negra das vias de facto.
Mas claro que Montaigne coloca a questão nos seus pontos mais elevados e doutos e por isso é bom trazê-lo à conversa. E até porque Platão, na sua República, pretendia interditar o exercício da discussão aos espíritos ineptos e/ou mal formados.
 
                                                           
 
Montaigne, num ensaio chamado Da Arte de Discutir, começa por dizer que os tribunais condenam só no sentido de que uma condenação possa servir de aviso a futuros prevaricadores. Os tribunais não condenam pelo erro cometido. Rematada tolice seria. O que está feito está feito e não se pode desfazer. O que é bom é que outros não sigam o exemplo daquele que errou. Não se corrige aquele que se condenou à forca, corrigem-se os outros que possam cometer actos merecedores da mesma forca.

 
Auto-elogio e auto-crítica: pontos dicotómicos de uma discussão.
 
                                                              
 
Literalmente: as qualidades que mais aprecio em mim (mim: ele, Montaigne, está bem de ver) mais se honram em me censurar do que em me elogiar. Todos acreditam no mal que dizemos de nós próprios e todos duvidam do bem.
 

                                                             
 
E evoca Catão, no dizer que os avisados teriam mais a aprender com os loucos do que os loucos com os avisados. E porque Pausânias chamava ao caso um velho tocador de lira que mandava os discípulos ouvir o mau tocador de lira que morava na casa em frente, só para aprenderem a aborrecer a desafinação e os compassos mal medidos.
 
 
Aprende-se pouco com os bons exemplos. As lições que nos dão os maus exemplos podem ser mais proveitosas.
 
 
Atenienses e romanos muito prezaram a arte da discussão nas suas academias, e a discussão é exercício mais útil do que a actividade fracota e repousada em que consiste o estudo dos livros. O estudo livresco entusiasma pouco, em comparação com o discutir, e porque o discutir do mesmo passo que nos entusiasma nos ensina e exercita.
 
 
Há que frequentar e conversar com os espíritos fortes. Os espíritos fortes apertam o interlocutor.
 
                                                             
 
Diz Montaigne que um espírito forte o provoca, o espicaça e o fere à esquerda e à direita, as ideias dele perseguem as suas, espevitam o amor -próprio, a rivalidade, tudo o que nos pode elevar acima de nós mesmos. Fugir é do acordo na discussão, do aborrecimento, da inutilidade.
 
 
Claro que ao dizer o que disse Montaigne revela o seu espírito moderno, dinâmico, concorrencial, mercantil, um espírito económico, enfim, ao promover, com a rivalidade, a emulação, o amor-próprio, o espirito competitivo tão a la page na vida que se vai construindo à nossa volta, o espírito de competição que hoje tanto se recomenda às empresas e aos aspirantes ao empresariado; ao próprio Estado, que o deve ser, competitivo, ao promover com competência as exportações, de modo a equilibrar a sempre desgraçada balança de pagamentos.
 
                                                                          


 
E se o nosso próprio espírito sem dúvida se fortalece no convívio com outros espíritos rigorosos, inversamente se empobrece e se enfraquece – e até degenera – ao frequentar os espíritos baixos e doentios.
 
                                                       
 
Montaigne gostava de discutir e discorrer com pouca gente e só com pouca e seleccionada gente a discussão lhe ia a proveito. Era um elitista, sem dúvida, este Senhor Michel de Montaigne. E ainda bem…
 
 
Mas se a estupidez é fraca coisa, não conviver com ela, aborrecê-la e desesperar-se por causa dela não será mais boa coisa.
 
 
Se Montaigne discutia e entrava em disputa com facilidade dizia que era porque as opiniões não achavam nele terreno muito fecundo para lançar fundas raízes. Nenhuma afirmação me espanta, nenhuma crença me fere, por muito contrária que seja á minha.
 
                                                                       


 
Quem priva o seu entendimento do direito de decidir, encara sem irritação as opiniões contrárias.
A contradição das opiniões não me ofende nem me exalta. Só me estimula e me exercita. Fugimos a que nos corrijam quando, pelo contrário, nos devíamos apresentar e oferecer à correcção.
 
                                                          
 
Muito bem, mas depois desta sentença Montaigne não perde tempo a dizer que o espírito dele de boa vontade se apresenta e oferece a correcção de outro, sim senhor, desde que esse outro faça a correcção em forma de conversa e não de modo pedagógico, de cátedra. Estou de acordo.
 
 
Montaigne gostava de se travar de razões com homens de bem e de expressão franca, corajosa, frontal. Porque nos importaria a todos, e muito, fortificar os ouvidos, endurecer os ouvidos contra certos sons, por exemplo, o som das palavras quando ele é cerimonioso. A convivência da discussão deveria ser forte, viril, amizades que se desenvolveriam na aspereza e no vigor da esgrima dos argumentos.
                                                                                                                         
 
Quando me contradizem despertam-me a atenção, não a cólera.
 
 
Seria útil que se fizessem apostas nas discussões, para que tivéssemos um sinal palpável das nossas perdas, e que um criado me pudesse dizer: no ano passado custou-vos por vinte vezes cem escudos o ter sido ignorante e teimoso.
 
                                                         
 
É bom apreciar a verdade venha ela de onde vier. Montaigne fazia-o (diz ele). Rendia-se-lhe alegremente. Entregava-lhe as suas armas de vencido.
Mas atenção, lá voltamos à mesma, desde que não lhe fizessem ver essa verdade, como ele diz, de catadura muito altiva e magistral. Aceitava as repreensões que porventura fizessem aos seus escritos, e muita vez os tenho corrigido mais por cortesia do que por neles ter reconhecido o erro. Mas reconhecia que era difícil transportar a tais perfeições os homens do seu tempo…
 
 
Que diria o Senhor de Montaigne se tivesse vivido neste?
 
 
Os homens do tempo de Montaigne não teriam a qualidade da coragem de corrigir, a coragem se suportar a correcção, e por isso mesmo as suas falas em presença uns dos outros eram dissimuladas, ou seja, de circunstância, nada corajosas, e muito menos viris.


 
A minha inteligência contradiz-se e condena-se tantas vezes a si mesma que me é igual que seja outrem a fazê-lo, e sobretudo porque não dou à repreensão senão o valor que quero dar-lhe.
 
                                                            
 

O elogio mútuo, ah, sim, grande moeda de troca nas relações não só pessoais, mas sobretudo institucionais…

Moeda corrente nos nossos quotidianos trabalhos, o elogio mútuo, é condição indispensável para se ser reconhecido e progredir, na carreira, na vida.
 
 
Reconhecerei o teu valor se me reconheceres o meu.
Reconhecerei o valor que não tens se reconheceres o valor que eu também não tenho.
 
                                          
 
Reconheçamos e manifestemos uns aos outros as qualidades e os talentos que não temos, ou temos pouco, e seremos felizes para todo o sempre e sobreviveremos bem, e o mundo acreditará em nós – e ainda que não repare nas nossas qualidades, o mundo pensará que quem é estúpido e inculto é ele, mundo, se nós jurarmos solenemente que passaremos a vida a dizer bem uns dos outros e que o mundo não repara nos nossos talentos porque não está à nossa altura.
Montaigne ficava fulo com isto.
 
 
Não há nada que nos torne a sensibilidade mais delicada do que a boa conta em que nos temos e o desdém que professamos pelo nosso adversário – citei.
Também dizia o nosso ensaísta que era prazer insípido tratar com pessoas que nos admiram. Fala de Antístenes, esse que recomendava aos filhos que nunca agradecessem nem que exigissem dos outros os louvores. E também porque era impossível tratar de boa fé um imbecil.
 
 
E as discussões, dizia ele, Montaigne, que deveriam ser regulamentadas, porque quando governadas pela cólera nada de melhor fazem do que acrescentar-nos defeitos. Começamos inimigos das razões e acabamos inimigos dos homens.
 
                                            
 
Discussão. Cada um para seu lado. Perde-se de vista o essencial na confusão do acessório. Passada uma hora de disputa já não se sabe o que se procura na discussão. Uns atravancam-se com as palavras. Outros, entusiasmados, não entendem o que se lhes objecta. Outros ainda baralham e confundem o que se disse, pretextando uma fraqueza súbita nos rins (Montaigne por sinal sofria dos rins).
E depois também temos os que acabam por se render às razões contrárias, mas… cito textualmente: afectando por ignorância despeitada um desprezo orgulhoso, ou com ar de imbecil modéstia, a sua renúncia à luta.
 
 
Discutir.
Há quem faça valer o poder da sua voz e dos seus pulmões. Há quem recorra à injúria. Há os que maçam o interlocutor com preâmbulos e digressões inúteis. Eu sei lá! E muitas vezes a agilidade argumentativa do outro vence os nossos sentidos, mas de modo nenhum nos abala a convicção.
(Pergunto-me como seria este intransigente Montaigne nas suas relações pessoais.)
 
 
Amo e honro o saber como a mais nobre e poderosa aquisição dos homens. Mas naqueles que nele alicerçam a sua fundamental capacidade e abdicam da inteligência na memória e nada podem senão pelos livros, ah, nesses aborreço eu um pouco mais do que a estupidez.
 
                                                             
 
A sabedoria, ou a sapiência, pode não melhorar o espírito. Pode até pesar sobre eles como massa indigesta, pode até sufocá-los, aos espíritos.
Saber mais é uma coisa, saber melhor é outra, e mais compensadora, coisa.
E lá diz o Montaigne: não ganha quem corre mais, ganha quem corre melhor.
A forma e o conteúdo, a velha querela intelectual.
 
 
Tanto pode fazer de tolo o que disser a verdade como o que falar mentiras, porque o importante é a maneira e não a matéria do que se diz.
 
                                                             
 
O meu costume é olhar tanto para a forma como para a substância, tanto para o advogado como para a causa.
Pois claro. Toda a gente pode falar a verdade, com verdade. Mas falar com método e ordem, com prudência e capacidade, segundo Montaigne, poucos o podem. Não era a falsidade filha da ignorância o que mais o incomodava: era a inépcia. E confessa ter deixado cair negócios que lhe eram de bom lucro apenas devido à estupidez que punham nos argumentos aqueles com quem negociava.
 
 
Para os criados e subordinados, Montaigne estava sempre pronto a usar de paciência e tolerância se se tratava de erros ou de faltas. O que lhe fazia perder a paciência eram as idiotices e teimosias das alegações dos que falhavam, as desculpas, as defesas. Acomodo-me melhor com os erros do que com a leviandade, a impertinência e a estupidez.
E também ocorre aquilo para que o divino Platão alertava: o que eu acho insano não o será devido à minha própria insanidade? Não serei eu o culpado? A minha opinião não se poderá voltar contra mim?
 
 
Erro universal entre os homens: os argumentos que usamos em matérias incertas podem voltar-se contra nós.
Quantas vezes ao falar do vizinho não zombamos de nós mesmos?
Quantas vezes detestamos nos outros os defeitos que também são nossos?
E saborosas são as palavras do nosso sábio a respeito disso: É dever de caridade que quem não pode arrancar de si um defeito o procure arrancar de outrem em que esse defeito porventura terá raízes menos duras e menos profundas.
Não é resposta quando respondemos a alguém que nos aponta um defeito dizer que esse defeito também ele o tem.
 
                                                       
 
Montaigne manifesta-se contra a gravidade, a empáfia, a pose que alguns usam na discussão. A condição social eventualmente importante empresta autoridade (ilegítima, digo) a palavras vãs. E quem o escuta, esmagado pelo peso da importância dos actos pensará que um senhor tão respeitado e temido terá por força em si capacidades invulgares de juízo. Sim, um homem a quem deram tão alevantadas responsabilidades e cargos não pode deixar de ser mais hábil e dotado do que aquele que ao passar o saúda de longe, aquele que ninguém conhece e a quem ninguém chama.
 

E teríamos ainda os que na discussão se refugiam no silêncio. Um silêncio que pretende ser de subentendidos. Que pretende convencer os outros de que o silencioso sabe mais, muito mais, do que o que quer dizer, e que assim desarmará por completo quem se lhe pretenda opor no combate das razões. Este ficará sempre com a sensação de estar a proferir irrelevâncias perante aquele cujo silêncio superior dá nota de voar muito mais alto.
 
                                                             
 
Megabiso, sátrapa persa do século V, foi visitar Apeles à oficina. Esteve muito tempo calado, até que desatou a língua e se pôs a comentar as obras que apreciava. Apeles deixou-o falar e por fim disse-lhe: enquanto estiveste calado parecias uma grande coisa com todos esses colares que trazes e esse luxo no vestir. Mas agora, que te ouviram, até os moços da oficina se riem de ti.
Diz Montaigne muito judiciosamente (como sempre, ou quase): o que admiro nos reis é a multidão dos seus admiradores. Diante deles tudo se deve inclinar e submeter, salvo a inteligência. Não foi a minha razão que eu ensinei a curvar-se e a flectir-se, foram só os meus joelhos.

 
Da argumentação dos tolos diz-se que por vezes é acertada. O caso é ver até onde eles podem compreender a matéria; é investigar de onde lhes nasceu o discurso competente, as harmoniosas razões. Investigar e perceber que todas essas coisas não são deles. Eles têm-nas em depósito. Atiram-nas muitas vezes ao acaso e cabe-nos a nós dar-lhes importância.
Nada me irrita tanto na estupidez como a satisfação que tem de si própria, maior do que a que, razoavelmente, pode ter qualquer inteligência.
 
 
Há assuntos que nos podem levar a considerar um homem bastante sabedor, no entanto, se queremos avaliar-lhe qualidades mais autênticas, mais próprias, ou intrínsecas, e toda a força e beleza do seu espírito, bom seria indagar do que é mesmo dele e do que exactamente dele não será; ou o que se lhe deve apreciar e louvar de talento pela escolha do assunto, pela disposição, pelo ornamento e pela linguagem que conferiu áquilo que não lhe pertencia.
Não ousar falar francamente de si envolve alguma falta de coragem – estou a citar. Uma inteligência firme e elevada, que tem juízos sãos e seguros, usa em todas as circunstâncias os exemplos próprios como coisa alheia e apresenta o seu testemunho como apresentaria o de um terceiro. É preciso passar por cima de regras vulgares de civilidade, e isso em favor da verdade e da liberdade.
 
                                                        
 
Continuo a citar: ouso não só falar de mim, mas falar só de mim; engano-me no caminho e fujo ao meu assunto quando falo de outra coisa. Não me estimo tão imoderadamente nem estou tão preso e metido em mim que não me possa distinguir e considerar à parte, como a um vizinho ou a uma árvore.
 
 
É erro não ver até onde vai o próprio valor, ou dizer mais do que aquilo que se vê.
 
                                                            
 
Devemos mais amor a Deus do que a nós mesmos, conhecemo-lo menos, mas falamos dele quanto nos apraz.
Discutir... ui!