quinta-feira, 10 de dezembro de 2015


 

              A ARTE DE DISCUTIR


O mais proveitoso e natural exercício do nosso espírito é a discussão – Montaigne dixit.
 
 
Ou então: Todos os dias os modos estúpidos de outrem me advertem e aconselham. O que magoa impressiona e esperta mais do que o agradável – torna ele, Montaigne, a dizer, na preciosa versão portuguesa ipsis verbis do Prof. Agostinho da Silva.
 
 
Ah, sim transcrição subversiva esta, nos tempos de hoje, em que pouca gente quererá aprender mais alguma coisita para além do pouquíssimo que já sabe e lhe dá jeito ao trabalho, e só porque a atitude de querer aprender supõe, como é óbvio, a realidade de uma ignorância a respeito de qualquer coisa.


 
Uma ignorância que, mesmo para a gente comum que todos os dias se acotovela no fast food da semana de trabalho é especialmente custoso de admitir, e porque se há alguma coisa que eu ignoro é porque não me faz falta nenhuma saber essa coisa, e se me aparece alguém com uma conversa sobre qualquer assunto que eu ignore esse alguém é um chato insuportável e é melhor para mim e para a minha auto-estima evitá-lo, como é melhor evitar qualquer pessoa que me lembre da minha ignorância… e porque esta época é a do pensamento positivo e da auto-estima, ou do desbragado optimismo acerca de mim mesmo,  e eu, mesmo que não o seja, passei a sê-lo, bonito, inteligente, sábio, competente, bom conversador, encantador, divertido e culto.
 
                                                          
 
Da discussão nasce a luz? Bom, na maior parte das discussões a que assisti não nasceu luz nenhuma e foram as trevas que mais se adensaram e os abismos que mais se cavaram.
 
 
E também de grande parte das discussões a que comecei por assistir nasceu uma zaragata e uma quesilia de todo o tamanho, a uma unha negra das vias de facto.
Mas claro que Montaigne coloca a questão nos seus pontos mais elevados e doutos e por isso é bom trazê-lo à conversa. E até porque Platão, na sua República, pretendia interditar o exercício da discussão aos espíritos ineptos e/ou mal formados.
 
                                                           
 
Montaigne, num ensaio chamado Da Arte de Discutir, começa por dizer que os tribunais condenam só no sentido de que uma condenação possa servir de aviso a futuros prevaricadores. Os tribunais não condenam pelo erro cometido. Rematada tolice seria. O que está feito está feito e não se pode desfazer. O que é bom é que outros não sigam o exemplo daquele que errou. Não se corrige aquele que se condenou à forca, corrigem-se os outros que possam cometer actos merecedores da mesma forca.

 
Auto-elogio e auto-crítica: pontos dicotómicos de uma discussão.
 
                                                              
 
Literalmente: as qualidades que mais aprecio em mim (mim: ele, Montaigne, está bem de ver) mais se honram em me censurar do que em me elogiar. Todos acreditam no mal que dizemos de nós próprios e todos duvidam do bem.
 

                                                             
 
E evoca Catão, no dizer que os avisados teriam mais a aprender com os loucos do que os loucos com os avisados. E porque Pausânias chamava ao caso um velho tocador de lira que mandava os discípulos ouvir o mau tocador de lira que morava na casa em frente, só para aprenderem a aborrecer a desafinação e os compassos mal medidos.
 
 
Aprende-se pouco com os bons exemplos. As lições que nos dão os maus exemplos podem ser mais proveitosas.
 
 
Atenienses e romanos muito prezaram a arte da discussão nas suas academias, e a discussão é exercício mais útil do que a actividade fracota e repousada em que consiste o estudo dos livros. O estudo livresco entusiasma pouco, em comparação com o discutir, e porque o discutir do mesmo passo que nos entusiasma nos ensina e exercita.
 
 
Há que frequentar e conversar com os espíritos fortes. Os espíritos fortes apertam o interlocutor.
 
                                                             
 
Diz Montaigne que um espírito forte o provoca, o espicaça e o fere à esquerda e à direita, as ideias dele perseguem as suas, espevitam o amor -próprio, a rivalidade, tudo o que nos pode elevar acima de nós mesmos. Fugir é do acordo na discussão, do aborrecimento, da inutilidade.
 
 
Claro que ao dizer o que disse Montaigne revela o seu espírito moderno, dinâmico, concorrencial, mercantil, um espírito económico, enfim, ao promover, com a rivalidade, a emulação, o amor-próprio, o espirito competitivo tão a la page na vida que se vai construindo à nossa volta, o espírito de competição que hoje tanto se recomenda às empresas e aos aspirantes ao empresariado; ao próprio Estado, que o deve ser, competitivo, ao promover com competência as exportações, de modo a equilibrar a sempre desgraçada balança de pagamentos.
 
                                                                          


 
E se o nosso próprio espírito sem dúvida se fortalece no convívio com outros espíritos rigorosos, inversamente se empobrece e se enfraquece – e até degenera – ao frequentar os espíritos baixos e doentios.
 
                                                       
 
Montaigne gostava de discutir e discorrer com pouca gente e só com pouca e seleccionada gente a discussão lhe ia a proveito. Era um elitista, sem dúvida, este Senhor Michel de Montaigne. E ainda bem…
 
 
Mas se a estupidez é fraca coisa, não conviver com ela, aborrecê-la e desesperar-se por causa dela não será mais boa coisa.
 
 
Se Montaigne discutia e entrava em disputa com facilidade dizia que era porque as opiniões não achavam nele terreno muito fecundo para lançar fundas raízes. Nenhuma afirmação me espanta, nenhuma crença me fere, por muito contrária que seja á minha.
 
                                                                       


 
Quem priva o seu entendimento do direito de decidir, encara sem irritação as opiniões contrárias.
A contradição das opiniões não me ofende nem me exalta. Só me estimula e me exercita. Fugimos a que nos corrijam quando, pelo contrário, nos devíamos apresentar e oferecer à correcção.
 
                                                          
 
Muito bem, mas depois desta sentença Montaigne não perde tempo a dizer que o espírito dele de boa vontade se apresenta e oferece a correcção de outro, sim senhor, desde que esse outro faça a correcção em forma de conversa e não de modo pedagógico, de cátedra. Estou de acordo.
 
 
Montaigne gostava de se travar de razões com homens de bem e de expressão franca, corajosa, frontal. Porque nos importaria a todos, e muito, fortificar os ouvidos, endurecer os ouvidos contra certos sons, por exemplo, o som das palavras quando ele é cerimonioso. A convivência da discussão deveria ser forte, viril, amizades que se desenvolveriam na aspereza e no vigor da esgrima dos argumentos.
                                                                                                                         
 
Quando me contradizem despertam-me a atenção, não a cólera.
 
 
Seria útil que se fizessem apostas nas discussões, para que tivéssemos um sinal palpável das nossas perdas, e que um criado me pudesse dizer: no ano passado custou-vos por vinte vezes cem escudos o ter sido ignorante e teimoso.
 
                                                         
 
É bom apreciar a verdade venha ela de onde vier. Montaigne fazia-o (diz ele). Rendia-se-lhe alegremente. Entregava-lhe as suas armas de vencido.
Mas atenção, lá voltamos à mesma, desde que não lhe fizessem ver essa verdade, como ele diz, de catadura muito altiva e magistral. Aceitava as repreensões que porventura fizessem aos seus escritos, e muita vez os tenho corrigido mais por cortesia do que por neles ter reconhecido o erro. Mas reconhecia que era difícil transportar a tais perfeições os homens do seu tempo…
 
 
Que diria o Senhor de Montaigne se tivesse vivido neste?
 
 
Os homens do tempo de Montaigne não teriam a qualidade da coragem de corrigir, a coragem se suportar a correcção, e por isso mesmo as suas falas em presença uns dos outros eram dissimuladas, ou seja, de circunstância, nada corajosas, e muito menos viris.


 
A minha inteligência contradiz-se e condena-se tantas vezes a si mesma que me é igual que seja outrem a fazê-lo, e sobretudo porque não dou à repreensão senão o valor que quero dar-lhe.
 
                                                            
 

O elogio mútuo, ah, sim, grande moeda de troca nas relações não só pessoais, mas sobretudo institucionais…

Moeda corrente nos nossos quotidianos trabalhos, o elogio mútuo, é condição indispensável para se ser reconhecido e progredir, na carreira, na vida.
 
 
Reconhecerei o teu valor se me reconheceres o meu.
Reconhecerei o valor que não tens se reconheceres o valor que eu também não tenho.
 
                                          
 
Reconheçamos e manifestemos uns aos outros as qualidades e os talentos que não temos, ou temos pouco, e seremos felizes para todo o sempre e sobreviveremos bem, e o mundo acreditará em nós – e ainda que não repare nas nossas qualidades, o mundo pensará que quem é estúpido e inculto é ele, mundo, se nós jurarmos solenemente que passaremos a vida a dizer bem uns dos outros e que o mundo não repara nos nossos talentos porque não está à nossa altura.
Montaigne ficava fulo com isto.
 
 
Não há nada que nos torne a sensibilidade mais delicada do que a boa conta em que nos temos e o desdém que professamos pelo nosso adversário – citei.
Também dizia o nosso ensaísta que era prazer insípido tratar com pessoas que nos admiram. Fala de Antístenes, esse que recomendava aos filhos que nunca agradecessem nem que exigissem dos outros os louvores. E também porque era impossível tratar de boa fé um imbecil.
 
 
E as discussões, dizia ele, Montaigne, que deveriam ser regulamentadas, porque quando governadas pela cólera nada de melhor fazem do que acrescentar-nos defeitos. Começamos inimigos das razões e acabamos inimigos dos homens.
 
                                            
 
Discussão. Cada um para seu lado. Perde-se de vista o essencial na confusão do acessório. Passada uma hora de disputa já não se sabe o que se procura na discussão. Uns atravancam-se com as palavras. Outros, entusiasmados, não entendem o que se lhes objecta. Outros ainda baralham e confundem o que se disse, pretextando uma fraqueza súbita nos rins (Montaigne por sinal sofria dos rins).
E depois também temos os que acabam por se render às razões contrárias, mas… cito textualmente: afectando por ignorância despeitada um desprezo orgulhoso, ou com ar de imbecil modéstia, a sua renúncia à luta.
 
 
Discutir.
Há quem faça valer o poder da sua voz e dos seus pulmões. Há quem recorra à injúria. Há os que maçam o interlocutor com preâmbulos e digressões inúteis. Eu sei lá! E muitas vezes a agilidade argumentativa do outro vence os nossos sentidos, mas de modo nenhum nos abala a convicção.
(Pergunto-me como seria este intransigente Montaigne nas suas relações pessoais.)
 
 
Amo e honro o saber como a mais nobre e poderosa aquisição dos homens. Mas naqueles que nele alicerçam a sua fundamental capacidade e abdicam da inteligência na memória e nada podem senão pelos livros, ah, nesses aborreço eu um pouco mais do que a estupidez.
 
                                                             
 
A sabedoria, ou a sapiência, pode não melhorar o espírito. Pode até pesar sobre eles como massa indigesta, pode até sufocá-los, aos espíritos.
Saber mais é uma coisa, saber melhor é outra, e mais compensadora, coisa.
E lá diz o Montaigne: não ganha quem corre mais, ganha quem corre melhor.
A forma e o conteúdo, a velha querela intelectual.
 
 
Tanto pode fazer de tolo o que disser a verdade como o que falar mentiras, porque o importante é a maneira e não a matéria do que se diz.
 
                                                             
 
O meu costume é olhar tanto para a forma como para a substância, tanto para o advogado como para a causa.
Pois claro. Toda a gente pode falar a verdade, com verdade. Mas falar com método e ordem, com prudência e capacidade, segundo Montaigne, poucos o podem. Não era a falsidade filha da ignorância o que mais o incomodava: era a inépcia. E confessa ter deixado cair negócios que lhe eram de bom lucro apenas devido à estupidez que punham nos argumentos aqueles com quem negociava.
 
 
Para os criados e subordinados, Montaigne estava sempre pronto a usar de paciência e tolerância se se tratava de erros ou de faltas. O que lhe fazia perder a paciência eram as idiotices e teimosias das alegações dos que falhavam, as desculpas, as defesas. Acomodo-me melhor com os erros do que com a leviandade, a impertinência e a estupidez.
E também ocorre aquilo para que o divino Platão alertava: o que eu acho insano não o será devido à minha própria insanidade? Não serei eu o culpado? A minha opinião não se poderá voltar contra mim?
 
 
Erro universal entre os homens: os argumentos que usamos em matérias incertas podem voltar-se contra nós.
Quantas vezes ao falar do vizinho não zombamos de nós mesmos?
Quantas vezes detestamos nos outros os defeitos que também são nossos?
E saborosas são as palavras do nosso sábio a respeito disso: É dever de caridade que quem não pode arrancar de si um defeito o procure arrancar de outrem em que esse defeito porventura terá raízes menos duras e menos profundas.
Não é resposta quando respondemos a alguém que nos aponta um defeito dizer que esse defeito também ele o tem.
 
                                                       
 
Montaigne manifesta-se contra a gravidade, a empáfia, a pose que alguns usam na discussão. A condição social eventualmente importante empresta autoridade (ilegítima, digo) a palavras vãs. E quem o escuta, esmagado pelo peso da importância dos actos pensará que um senhor tão respeitado e temido terá por força em si capacidades invulgares de juízo. Sim, um homem a quem deram tão alevantadas responsabilidades e cargos não pode deixar de ser mais hábil e dotado do que aquele que ao passar o saúda de longe, aquele que ninguém conhece e a quem ninguém chama.
 

E teríamos ainda os que na discussão se refugiam no silêncio. Um silêncio que pretende ser de subentendidos. Que pretende convencer os outros de que o silencioso sabe mais, muito mais, do que o que quer dizer, e que assim desarmará por completo quem se lhe pretenda opor no combate das razões. Este ficará sempre com a sensação de estar a proferir irrelevâncias perante aquele cujo silêncio superior dá nota de voar muito mais alto.
 
                                                             
 
Megabiso, sátrapa persa do século V, foi visitar Apeles à oficina. Esteve muito tempo calado, até que desatou a língua e se pôs a comentar as obras que apreciava. Apeles deixou-o falar e por fim disse-lhe: enquanto estiveste calado parecias uma grande coisa com todos esses colares que trazes e esse luxo no vestir. Mas agora, que te ouviram, até os moços da oficina se riem de ti.
Diz Montaigne muito judiciosamente (como sempre, ou quase): o que admiro nos reis é a multidão dos seus admiradores. Diante deles tudo se deve inclinar e submeter, salvo a inteligência. Não foi a minha razão que eu ensinei a curvar-se e a flectir-se, foram só os meus joelhos.

 
Da argumentação dos tolos diz-se que por vezes é acertada. O caso é ver até onde eles podem compreender a matéria; é investigar de onde lhes nasceu o discurso competente, as harmoniosas razões. Investigar e perceber que todas essas coisas não são deles. Eles têm-nas em depósito. Atiram-nas muitas vezes ao acaso e cabe-nos a nós dar-lhes importância.
Nada me irrita tanto na estupidez como a satisfação que tem de si própria, maior do que a que, razoavelmente, pode ter qualquer inteligência.
 
 
Há assuntos que nos podem levar a considerar um homem bastante sabedor, no entanto, se queremos avaliar-lhe qualidades mais autênticas, mais próprias, ou intrínsecas, e toda a força e beleza do seu espírito, bom seria indagar do que é mesmo dele e do que exactamente dele não será; ou o que se lhe deve apreciar e louvar de talento pela escolha do assunto, pela disposição, pelo ornamento e pela linguagem que conferiu áquilo que não lhe pertencia.
Não ousar falar francamente de si envolve alguma falta de coragem – estou a citar. Uma inteligência firme e elevada, que tem juízos sãos e seguros, usa em todas as circunstâncias os exemplos próprios como coisa alheia e apresenta o seu testemunho como apresentaria o de um terceiro. É preciso passar por cima de regras vulgares de civilidade, e isso em favor da verdade e da liberdade.
 
                                                        
 
Continuo a citar: ouso não só falar de mim, mas falar só de mim; engano-me no caminho e fujo ao meu assunto quando falo de outra coisa. Não me estimo tão imoderadamente nem estou tão preso e metido em mim que não me possa distinguir e considerar à parte, como a um vizinho ou a uma árvore.
 
 
É erro não ver até onde vai o próprio valor, ou dizer mais do que aquilo que se vê.
 
                                                            
 
Devemos mais amor a Deus do que a nós mesmos, conhecemo-lo menos, mas falamos dele quanto nos apraz.
Discutir... ui!
 
 

quarta-feira, 18 de novembro de 2015


            CHE GUEVARA NA ÁFRICA “PORTUGUESA”

 
                                

 
A ideia de intervir revolucionariamente em África partia da convicção do Che após a vitória da revolução cubana. “Demonstrámos que um pequeno grupo de homens cheios de determinação, apoiados pelo povo e sem medo da morte pode vencer um exército regular.”
Che era o autor da teoria do foco. Um foco revolucionário que deveria incidir sobre os países sujeitos à influência americana, a começar pela América Latina.
 
                                                     
 
Em 1963, Jorge Masetti, guerrilheiro íntimo do Che, estabelece um foco revolucionário na Argentina, é rapidamente cercado e morto com os seus trinta guerrilheiros. Em Havana, revolucionariamente inactivo, Che Guevara sente profundamente a morte do amigo. Era mais um companheiro e amigo que morria na luta anti-imperialista, enquanto ele, instalado em Havana, esperava. Esperava sem saber bem o quê e de alma atravessada por dolorosos sentimentos de culpa.
De facto, o ambiente em Havana estava a tornar-se claustrofóbico para o célebre guerrilheiro. Em Havana tinha que se haver com inimigos surdos, internos e externos. A política económica da ilha, de que ele era responsável, começava a suscitar críticas aceradas, pelo seu centralismo, e o próprio Fidel juntava a sua voz a essas críticas.
 
                                                    
 
Não falando já das diferenças quanto a matérias de política externa, com Che Guevara a exprimir sérias reservas à URSS, pela corrupção e ineficiência da anquilosada sociedade soviética, ou pela oposição dos soviéticos à ideia da luta armada na América Latina. Enquanto, pela parte soviética, o Che era visto como o inimigo número um em Cuba e apontado como perigoso elemento pró-chinês, em ruptura aberta com Raul Castro, o homem dos russos em Havana.
 
                                                                                   
 
Por isto e por mais algumas coisas que nunca foram apuradas ao certo, o Che decide deixar Cuba. E decide dirigir-se à região onde, segundo a sua análise, mais falta fazia a sua experiência numa acção revolucionária: a África Central; o Zaire sublevado.
A véspera da partida para África é passada por Che Guevara no isolamento de uma casa nos arredores de Havana a escrever uma carta. Uma carta a Fidel. Uma carta de despedida que viria a ficar famosa nos anais do mundo revolucionário.
                                                                   
                                                
 
A mente inundada de recordações (…) de quando me sugeriste que me aliasse a ti, e de todas as tensões decorrentes dos preparativos.
(…) Sinto que cumpri a minha parte do dever que me prendia à revolução cubana (…) e despeço-me de ti, dos companheiros, do teu povo que é agora também o meu.
(…) Apresento a minha demissão formal dos cargos que ocupava na direcção do partido, do cargo de ministro, do posto de comandante e da cidadania cubana.
Outras nações do mundo solicitam agora os meus modestos esforços. Posso fazer o que te está negado devido às tuas responsabilidades (…) e chegou o momento de nos separarmos.
Levo para novos campos de batalha a fé que me ensinaste, o espírito revolucionário do meu povo, a convicção de estar a cumprir o mais sagrado dos deveres: lutar contra o imperialismo onde quer que ele se encontre.
Reitero que liberto Cuba de quaisquer responsabilidades sobre a minha pessoa. (…) Agradeço-te por tudo o que aprendi contigo e pelo teu exemplo, ao qual tentarei mostrar-me fiel até ao meu último suspiro (…).   
 
                                                              
 
Imediatamente após a revolução vitoriosa, Cuba concentrava-se na exportação do que eu chamaria de “produtos revolucionários”, traduzidos em auxílio de diversa ordem aos movimentos rebeldes da América Latina. Mas em 1964/65 acontece uma viragem estratégica e a revolução cubana lança o foco para África. África estaria, em 1965, pronta para a revolução, e mais ainda do que a América Latina. E também porque, diziam os teóricos castristas, a tomada de posições revolucionárias em África viria ajudar a acção na própria América Latina.
 
                                                             
 
Na sua essência, uma estratégia que funcionava como sub-estratégia da estratégia principal que era o combate político-diplomático contra os EUA, com a busca de apoios afro-asiáticos na ONU que lograssem abrandar os rigores da politica americana contra Cuba.
 
                                                                                                                       
 
Os esforços cubanos em África certamente conduziriam ao aumento do prestígio de Cuba no mundo dos não-alinhados, ao mesmo tempo que poderiam actuar também no mundo socialista, levando os estados socialistas a admitir para Cuba alguma independência crítica quanto às políticas do bloco de Leste.
 
                                              
 
E porquê o Zaire?
Por idealismo, primeiro que nada, acho eu, por romantismo, e por espírito de vindicta, talvez, Havana selecionava o Zaire como campo de privilégio para as suas operações africanas. As sanguinárias patifarias dos mercenários falavam alto ao mundo – seria bom vingar as vítimas deles; ou o ataque belga (com cumplicidade americana) a Stanleyville, mais as sequentes e sistemáticas chacinas; ou a memória ainda fresca de Lumumba, o mártir africano que era preciso vingar.
 
                                                            
 
A tese guerrilheira de Che Guevara para África era centralista. Quer dizer, pensava concentrar o núcleo principal da guerra emancipalista num só território em vez de os espalhar pelo espaço infindável da África Central. E esse território de onde irradiaria a subversão seria o Zaire. A libertação do Zaire era de capital importância, para a vitória como para a derrota. Uma ou outra, no Zaire, seria repercutida por todo o continente.
Os africanos ouviram isto e esfriaram. Alguns guardaram os seus pontos de vista para mais tarde, mas houve os que censuraram amargamente o lendário chefe guerrilheiro.
 
                                                      
 
Os renitentes declararam os seus povos vítimas de toda a sorte de desenfreada exploração e abusos dos imperialistas e por isso recusavam-se a sofrer para libertar outro país que não fosse o seu. Para esses, o Che só tinha a sua razão teórico-estratégica. A questão principal não era a libertação de um só território. A questão era desencadear uma guerra contra um inimigo que no fim de contas era comum a todos, que era o mesmo em Angola, Moçambique, Malawi, Guiné, Rodésia, Africa do Sul ou Zaire.
Mas ninguém concordou com a tese guevarista e despediram-se cortesmente.
                                                                            
 
Os líderes emancipalistas começaram então uma campanha anti-Che. Que vivia luxuosamente em hotéis. Que fizera da revolução uma profissão lucrativa, e por aí adiante. Não sei se era assim se não.
Enfim, o Zaire funcionaria como centro de irradiação da revolta anti-colonialista e anti-imperialista, com um alastramento natural e inevitável às possessões portuguesas da região, Angola e Moçambique em concreto. Tudo isto no papel, já se vê.
A revista cubana Verde Olivo escrevia em Dezembro de 64 que “a chama da libertação nacional estava a arder em Angola”, que “os patriotas zairenses erguiam a bandeira da independência na ponta das armas”, que os rebeldes combatiam heroicamente em Moçambique, e que os povos do sul da Rodésia rejeitavam “a falsa independência” que perpetuaria “o domínio da minoria racista”.
 
                                                                                      
 
Já se deixa ver que nada disto correspondia por inteiro à realidade. Mas o optimismo e o idealismo castristas podiam sobrepor-se a essa realidade e confiar nas suas forças e nas forças da sua razão para criar uma nova realidade mais consonante com a propaganda. O potencial revolucionário da África negra era frágil e Havana conhecia mal a rebelião dos simbas, parecendo acreditar nas batalhas que nunca tinham sido travadas e nos heróis que nunca tinham existido.
 
                                                       
 
A incursão de Che Guevara pela África sub-saariana pretensamente revolucionária é bem a ilustração do idealismo cubano – um idealismo marxista-leninista: passe o paradoxo ideológico-filosófico.
 
                                                                                
 
Che Guevara nunca antes tinha posto os pés na África negra e ia acompanhado por um suposto especialista em assuntos africanos, Serguera, que só lá tinha estado por vinte e quatro horas.
 
                                               
 
Dezembro de 1964. Che Guevara está em África.
 
                                                                         
 
Viaja incógnito três meses pelo continente negro, significando que Havana começava a interessar-se pela região que, segundo se pensava, cheirava à légua a revolução iminente, aliás anunciada pelo desenvolvimento das frentes das guerras independentistas de Guiné, Angola e Moçambique.
Mas era a revolta armada no Zaire (antigo Congo belga), que já vinha da primavera desse ano, o que despertava as atenções, e por razões diversas, e opostas, obviamente, de cubanos e americanos.
 
                                                                                 
 
Se o presidente Johnson prometera ao governo pró-americano do Zaire reforços contra os rebeldes, Che Guevara, em nome e Fidel Castro, prometia instrutores militares cubanos.
Em Abril de 65, sob o comando do Che, uma coluna cubana infiltrava-se no leste do Zaire a partir da Tanzânia.
Em Agosto, chegava outra coluna cubana e no fim desse mês Cuba tinha na Àfrica Central 400 guerrilheiros.
 
                                                           
 
Se aquela parte do continente africano estava pronta para a revolução, enfim, seria um caso a ver. Quando mais tarde chegou o tempo das avaliações, viu-se, de facto. Viu-se que não estava. 
Já instalado numa base guerrilheira no noroeste do Zaire, em território dos simbas, Che esperou dias infindos pela chegada daquele que era o comandante absoluto da rebelião, Laurent Kabila, mas que não era muito encontrável nas frentes de combate. Che chegou a recear que os simbas o expulsassem, visto que não o esperavam, visto que a maior parte deles nem sabiam quem ele era e visto que o secretismo da chegada dele intrigou os nativos e lhes instilou a mais profunda das desconfianças quanto àquele punhado de estrangeiros, negros é certo, mas falando uma língua estranha e comandados por um branco autoritário.
 
                                                                           
 
Além do mais, Laurent Kabila tinha acordado em Dar Es Salaam receber apenas 30 instrutores cubanos sendo-lhe posteriormente impostos 130. Temia-se então que o comando dos simbas recusasse a entrada de tantos instrutores, o que daria uma confusão infernal nas hostes cubanas. E além do outro ponto delicado, que era o facto de ninguém ter comunicado aos simbas que o homem que viria à testa desses instrutores era o lendário Che Guevara.
Está visto que os simbas não aceitaram o Che de muito boa catadura. Toleraram-no. O que deu para o Che se ver novamente assolado por tristes pensamentos. Não pertencia ali. Não era africano. Era branco. Não falava a língua. Não conhecia os costumes. O seu renome nada dizia àquela gente. A presença dele dependia do beneplácito dos chefes simbas, com um frívolo Kabila à cabeça. Ai dele se quisesse apoderar-se do comando operacional. Pode ser que tudo isso tivesse criado nos rebeldes alguma resistência, e mesmo indisciplina, pois até os havia a correr o risco de atravessar regularmente o Lago Tanganica para irem às casas de meninas na outra margem, na Tanzânia, portanto.
 
                                   
 
Depois, a presença do Che também era um alto risco político para a revolta dos simbas. Uma vez que começasse a correr mundo a notícia da presença de Guevara na guerra do Zaire os americanos, que sustentavam o governo zairense e o ajudavam, nomeadamente a combater a revolta dos simbas, poderiam intensificar o esforço militar na região.
Os simbas não recebiam ordens dos cubanos negros. Os brancos é que teriam de comandar. Che safava-se melhor por ser isso mesmo, branco. Embora haja quem diga que não era assim, e embora o próprio Che se queixasse de lhe menosprezarem os conselhos e de muitas vezes o ignorarem.
 
                                
 
Era inflexível, áspero no trato. Emitiu um bizarro decreto: todo o cubano que mantivesse relações sexuais com uma negra teria de casar com ela, e mesmo que já fosse casado. A um deles aconteceu precisamente isso. Já tinha mulher e dois filhos em Cuba e quando já estavam de partida o Che ordena-lhe que traga com ele para Cuba a sua nova mulher. E não foi nada, o homem suicidou-se, um tiro na cabeça. Só uma severidade extrema evitaria colapsos na disciplina revolucionária – princípios do Che.
Quando Fidel Castro começou a perder alguns fumos românticos e a mudar de parecer, e quando do optimismo revolucionário passou a um razoável pessimismo quanto às condições revolucionárias na África Central, abriu uma única excepção: Guiné Bissau, PAIGC. Eram esses os mais fortes e mais preparados para a guerrilha nas colónias portuguesas - opinião aliás partilhada por Washington. E daí a Guiné-Bissau passar a ser prioridade estratégica para Cuba.
 
                                                      
 
Se directamente a acção do Che nada teve com o desenvolvimento da guerrilha na Guiné-Bissau, foi a partir da viagem dele por África, em Dezembro de 64 que os primeiros contactos do PAIGC com Havana se realizaram. Guevara estava em Conacry e solicitou um encontro com os chefes do PAIGC. Amilcar Cabral vem a Conacry e o encontro acontece a 12 de Janeiro de 65, e nesse encontro o auxílio cubano à guerrilha guineense fica decidido. Em Maio desse ano já um navio cubano atraca em Conacry com armas, mantimentos e medicamentos para o PAIGC.  
Tudo isso se passa muito devido ao carisma, ao prestígio e à categoria intelectual de Amílcar Cabral. Instrutores cubanos começavam a chegar à Guiné Bissau em 1966 e por lá ficariam até à independência, em 1974.
 
                                                           
 
Mas só em 1967, Fevereiro, os relatórios operacionais do exército português dão por ela e começam a falar da presença de conselheiros militares cubanos a colaborar com os guerrilheiros. Pouco depois, a CIA confirmava: “pelo menos 60 cubanos estão envolvidos no treino do PAIGC”. O que não queria necessariamente dizer que tal facto incomodasse os americanos. Nunca pela cabeça lhes passara que meia dúzia de cubanos pudessem ser tão efectivos num continente tão longínquo e tão problemático.
Realmente, nem em sonhos Washington punha a hipótese do envolvimento cubano nas rebeliões africanas, e menos ainda que Che Guevara em pessoa estivesse no Zaire. Havia um nome misterioso nas listas de revoltosos estrangeiros do Zaire obtidas pela CIA: Tatu.
Quem seria aquele Tatu? Mais tarde, correu o boato de que se tratava mesmo de Che Guevara. Conferiram-se fotografias. Não batiam certo. Passaram aos retratos robot, com barba, sem barba, cabelo curto, cabelo comprido, com bigode, sem bigode.
 
                                                                             
 
O embaixador americano no Zaire palpita que Tatu era mesmo o Che sob pseudónimo. (E era.) E comunica a convicção a Washington. No Departamento de Estado riem-se, e mandam perguntar que novo tipo de erva o embaixador Godley andava a fumar. Não havia qualquer base plausível que levasse o Departamento de Estado a conjecturar sequer que o Che estava em África de armas na mão.
Quanto ao MPLA, é em Argel, e depois em Dar Es Salaam, que se estabelecem os primeiros contactos com os homens de Fidel Castro. Até aí, os pedidos do MPLA para o envio de instrutores militares, armamento e um oficial cubano como observador da situação no interior angolano, ainda que recebidos com simpatia em Havana, nunca tinham tido resposta concreta.
                                                         
                                               
 
Foi a ida de Guevara a Brazzaville, em Janeiro de 1965, que permitiu uma aproximação dos independentistas angolanos a Cuba.
No encontro do MPLA com Che Guevara estavam Agostinho Neto, Lúcio Lara, e o encarregado das relações exteriores do movimento, Luís de Azevedo.
 
                                                                      
 
Os homens do MPLA pretendiam dos cubanos essencialmente uma coisa: instrutores militares. A guerra independentista estava a desenvolver-se e eles tinham boa noção da própria inexperiência. E insistiam nos instrutores por considerarem que as condições da guerrilha angolana apresentavam certas semelhanças com a guerrilha cubana (gostava bem de saber em quê).
 
                                                         
 
         Precisavam de teoria. Precisavam de táctica. Até aí tinham aparecido as teorias chinesas, mas Pequim era muito longe e o MPLA gostaria que os futuros instrutores de guerrilha se adaptassem bem ao modo de vida angolano. Tinham também pedido instrutores a Argel. Sem resultado.
A mulher de Lúcio Lara, Ruth, ao comentar a atmosfera das conversações com o Che, disse que elas haviam decorrido de forma contrafeita. Os angolanos não tinham ficado com uma impressão óptima do celebrado guerrilheiro. O Che pouco ou nada sabia sobre Angola e sobre o MPLA, era o Zaire que ocupava o centro das preocupações dele.
Olhos fitos na situação e nos problemas zairenses, Che informa que instrutores cubanos iriam chegar ao Zaire dentro em breve – às zonas a que eles chamavam de “libertadas” – e que o MPLA não tinha mais a fazer do que enviar os seus homens ao Zaire e aproveitar da instrução que os cubanos ministrariam aos revolucionários congoleses.
Mas os homens do MPLA não foram nisso. Queriam os instrutores em território angolano. Tinham tomado posição nesse sentido e daí não arredariam pé. E tão resolutos se mostraram em não arredar pé das decisões previamente tomadas que Che Guevara não teve outro remédio senão ceder. Não sei se cedeu mesmo, e até que ponto cedeu…
 
                                                          
 
O episódio cómico foi este: enquanto o Che se entretinha em conversações com o núcleo duro do MPLA, um outro homem da comitiva cubana, Serguera, foi visitar o centro de treinos dos rebeldes angolanos; organizou-se um desfile de guerrilheiros bem armados que marcharam à vista do visitante Serguera, e sem que Serguera se desse conta de que aquela numerosa força era composta por meia dúzia de gatos que marchavam em círculo, davam a volta por detrás de umas cubatas e apareciam uma, duas, três vezes diante dos olhos dele, sempre os mesmos.
          Era um procedimento afinal aprendido com Fidel Castro, que na Sierra Maestra fizera desfilar um modesto número de homens em tantos círculos até parecerem um batalhão aos olhos de um atónito e crédulo jornalista do New York Times. E esse Serguera ficou fã do MPLA e do respectivo poderio militar.
 
                                                             
 
Che Guevara na África então portuguesa… é como quem diz. Na realidade ele nunca lá pôs os pés. Teve forte influência, mas quedou-se pelas fronteiras.
Por exemplo, Dar Es Salaam. Em 1964, Dar Es Salaam poderia considerar-se a Meca dos movimentos africanos de libertação. É lá que Che Guevara ouve falar da FRELIMO pela primeira vez. FRELIMO que tinha acabado de lançar o seu primeiro ataque em território moçambicano a partir do sul da Tanzânia.
 
                                                                              
 
O encontro de Che Guevara com Eduardo Mondlane, o chefe da FRELIMO, também não foi feliz. Também Mondlane só pedia instrutores para actuarem nas bases do movimento na Tanzânia, e também o Che insistia em que os guerrilheiros moçambicanos se deveriam deslocar ao Zaire para receber os ensinamentos dos instrutores cubanos.
Mondlane e Che irritam-se. Como outros movimentos de libertação, a FRELIMO exagerava descaradamente os resultados das acções de guerrilha que fizera. O Che, que estava bem longe de ser um diplomata, referiu isso mesmo a Mondlane. E Mondlane saiu da reunião muito ofendido.
 
                                                   
 
Marcelino dos Santos, presente ao encontro, comentou: “falámos-lhe da nossa luta armada e levantaram-se questões a respeito dos factos. Alguns factos pareceram extraordinários ao Che. Descrevemos-lhe as batalhas travadas contra os portugueses e como nos tínhamos preparado para a luta, o que lhe causou surpresa. Para os cubanos, o importante era concentrarmo-nos todos no Zaire. E nós dissemos-lhe que a FRELIMO tinha um ponto de vista diferente.”
Historiadores destas matérias viriam a afirmar que Cuba estaria a tentar impor ideias ao comando da guerra emancipalista na África dita portuguesa. Colman Ferrer, um representante cubano para África, defendia-se, “não estávamos a impor pontos de vista, só tínhamos todo o direito de dizer o que pensávamos, até porque estávamos a oferecer-nos para arriscar as nossas vidas por eles”.
 
                                                             
 
Por fim, como última concessão, Cuba oferece-se para treinar guerrilheiros moçambicanos mesmo em Cuba, enquanto em Abril de 1965 saía de Havana um navio carregado de armas, alimentos e uniformes destinados à FRELIMO.
Em 1968, Mondlane informa o congresso do partido de que Cuba estava a auxiliar a FRELIMO com material de guerra e treino de quadros militares.
Era entretanto chegado o tempo de Castro revelar publicamente num comício a carta de despedida do Che.
Rebentavam por todo o mundo os boatos sobre o destino do grande guerrilheiro. Internado em Cuba num hospital psiquiátrico. Assassinado às ordens de Fidel. Morto em combate na República Dominicana.
Anunciada a nova composição dos quadros do PC cubano, o nome de Che Guevara não constava.
Na selva zairense, Che ouviu via rádio o discurso de Fidel e a leitura da sua carta de despedida. Ficou em silêncio e acendeu um charuto, pensando talvez que depois daquele iminente fracasso no Zaire seria embaraçoso para ele regressar a Cuba.
 
                                                             
 
Mas a verdade é que tinha avaliado mal a situação revolucionária no Zaire.
A revolta dos simbas era esmagada e o Che punha-se em fuga em Novembro de 1965.
Falou aos seus homens: “Devo deixar-vos. Pode ser que nos voltemos a encontrar, em Cuba ou em qualquer outra parte do mundo.”
Escreveu outra carta a Fidel: “Acredito mas do que nunca na guerra de guerrilha, mas fracassámos. A minha responsabilidade é grande. Não esquecerei a nossa derrota nem as suas lições preciosas.”
 
                                                                       
 
Em Dezembro do ano seguinte, toca a vez de bater em retirada aos conselheiros cubanos no Congo (Brazzaville), comandados por Jorge Risquet.                                                 
De Angola e do MPLA nem valia a pena falar. Tinham sido uma desilusão para as excelentes intenções revolucionárias cubanas.
A partir de então, a assistência militar cubana em África resumia-se ao PAIGC, com os magníficos resultados revolucionários que se conhecem.
O mundo ocidental, e os americanos em particular, ficariam de boca aberta quando, dez anos mais tarde,  tropas cubanas em grande número chegassem a Luanda para combater na guerra civil (e vencer) ao lado do MPLA. Já Che Guevara não fazia parte do número dos vivos, evidentemente.
 
                                                        
 
 “A intervenção de forças de combate cubanas foi para nós uma surpresa total”, escreveria Henry Kissinger. Porque naqueles dias de Novembro de 1975 estavam os americanos principalmente atentos à atitude da URSS na guerra civil angolana, e tanto assim que mandaram avançar tropas sul-africanas para esmagar o MPLA.
                                                     
 
O Che regressou a Cuba e esperou.
Disse Fidel:” ele queria ir imediatamente para a Bolívia, mas conseguimos detê-lo por cá até que algum trabalho revolucionário preliminar estivesse concluído, de modo a que ele partisse com alguma segurança”.
 
                                                                                            
 
E ele partiu. Para a morte. Em Outubro de 1967. Estava eu, por acaso, a chegar ao cenário da minha guerra, Leste de Angola.
 
                                                                                                        
 
Na minha experiência militar, miliciana mas não tão curta como isso, e por mais que burguesmente me surpreendesse, conheci alguns elementos que gostavam compulsivamente da guerra, do ambiente de guerra, do cheiro (a guerra tem um cheiro, tem), do risco, evidentemente, da morte, talvez, uns eram profissionais mas outros eram tão milicianos como eu. Não sei se não era esse o caso do Che, apanhado pela euforia da guerra, independentemente das motivações ideológicas e revolucionárias que o moviam. Um Che que não se conformou em estar parado, burocratizado, confortável, inactivo.
 
                                                        
 
E também li, ou ouvi, nalgum lado, que a guerra podia ser uma espécie de droga que criava dependências. Acredito.

                                                         
 

(Andei a ler umas coisas e quando assim é, quer queiramos quer não, acabamos por aprender – Missões Em Conflito, de Peter Gleijeses – Editorial Caminho.)