domingo, 14 de fevereiro de 2016


               PRAGA, PRIMAVERA DE 1968


 (Pois é, ainda às voltas com o Cunhal “de” Pacheco Pereira. É que há tanta coisa interessante que o comum das gentes não sabe e que Pacheco Pereira nos revela…)
 
 
A propósito de coerência, lembrei-me agora, até se pode dizer que a direita colaborou o seu bocado no mito de Cunhal. Sim, mas só quando ele já estava velho e quando os grandes calores ideológicos do verão de 1975 eram passado, as sombras “ameaçadoras” de revolução socialista dissipadas, a democracia burguesa instituída e consolidada, e a sociedade de mercado triunfante.
A contribuição da burguesia liberal para a lenda cunhalista incidiu, no fundamental (penso eu), numa qualidade dele absolutamente ideológica mas só perceptível a prazo. A coerência, quero eu dizer. Deplorável a ideologia, inaceitáveis os métodos, sem dúvida alguma, reprovável a acção política, claro que sim, mas de exaltar a coerência do velho combatente comunista, fiel até ao fim aos ideais de juventude, fiel aos seus patrocinadores soviéticos até ao dia em que a voracidade da História os banir do mapa político mundial.
 
 
E no entanto… e no entanto, o líder admirado pela coerência alicerçou muito da sua vida política em duvidosas coerências – para não dizer mesmo incoerências oportunistas. Acho eu, claro. E foi mesmo oportunista que o dissidente esquerdista Francisco Martins Rodrigues lhe chamou um dia e ele ofendeu-se muito.
Cunhal leu as teses do XX Congresso do PCUS como desvio de direita, assim repudiando a linha estratégica de Krutchev. Censurou os militantes e dirigentes que nessas teses haviam embarcado cá em Portugal e expurgou-as da linha do Partido.
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Mas eis que sai de Portugal e se acoita em Moscovo à sombra ideológica e às expensas do PCUS, e logo alinha pelas mesmas teses que em Portugal eram grave e intolerável desvio de direita, e logo apoia a política de Krutchev. Se não militantemente, pelo menos tacitamente, em nome de uma sobrevivência pessoal e política.
Não se sabe se traiu Krutchev, mas a verdade é que rapidamente se colou ao golpe de Brejnev e companhia quando os ventos mudaram.

      Se tinha abandonado o princípio da luta armada e da violência política e abraçado a ideia da coexistência pacífica com Krutchev, pôs-se ao lado de Brejnev quando essa coexistência pacífica foi temperada e as posições face ao imperialismo dos EUA endureceram.
É evidente que as coisas não são tão simples e lineares como isso. A aparente incoerência pode ser apresentada como flexibilidade estratégica. Aliás, nem é outra coisa. Política é movimento. Política pode ser oportunismo táctico, reavaliação das condições, do real. Nada de mais. Foi a coerência possível e a incoerência necessária.
 
 
1967 tinha sido um ano péssimo para o PCP, entre traições e sequentes vagas de prisões e de desmantelamento de células. É muito usada a palavra desespero. Militantes e funcionários não viam resultados práticos das suas acções e sacrifícios. O Partido não atava nem desatava. O regime, ainda que a contas como uma guerra distante, não dava sinais de enfraquecimento, pelo contrário, parecia até fortalecido politicamente no esforço de guerra. Nem sombras de algum passo efectivo a caminho da revolução democrática e nacional, e muito menos em direcção ao socialismo.
 
 
Perspectivava-se para o ano seguinte uma sucessão de acontecimentos a exigir do PCP posições claras – e coerentes. Uma sucessão de acontecimentos de ressonância mundial que irá abalar irreversível e profundamente o Partido nos seus fundamentos. Na sua moral. E na coerência do seu chefe.
Cunhal passou a viver em Paris. Na mais estricta clandestinidade.
 
 
Já não tem tratamento de alta personalidade do comunismo internacional. Em Paris é mais um ilegal sem licença de residência. Com a agravante de ser dirigente de um partido ilegal no seu país, de ser um evadido das prisões do seu país e com uma ordem de expulsão do governo francês pendente contra ele.
 
 
Maio de 1968. Paris em estado de sítio.
 
 
Cunhal a quase nada produzir de teórico como resposta às violentas acções de massas que o movimento comunista não controla. Cunhal está em Paris e assiste. Mas percebe que os acontecimentos excessivos redundarão numa ajuda inestimável aos desvios esquerdistas que ele combate no próprio Partido.
 
 
Cunhal considera o PC francês muito culpado na escalada de violência esquerdista e na posterior recuperação da situação operada por De Gaulle ao impor eleições, as eleições que o PCF deveria ter exigido primeiro. E enfim, o Maio de 68 salda-se por uma vitória para a reacção.
 
 
O PCP apresenta-se confuso. Como foi possível a vitória da reacção depois de tamanhos desmandos aparentemente revolucionários e de tanta mobilização de massas? A resposta estaria na incapacidade de estabelecer com os intratáveis grupelhos esquerdistas (maoistas) plataformas de entendimento e de unidade. O que restava de irrefutável era o enfraquecimento do PCP em face da dita utópica ilusão esquerdista.
 
 
Entretanto, em Praga, também é primavera.
Como não podia mesmo deixar de ser, Cunhal está muito a par do que se passa na Checoslováquia de Dubcek. Tem dúvidas, tem. Mas também tem esperanças. Dúvidas quanto à probabilidade de a situação checa vir a provocar abalos na hierarquia do movimento comunista mundial; esperanças de que as transformações políticas em Praga possam acrescentar um novo élan a esse mesmo movimento comunista mundial. Demonstra mesmo alguma simpatia para com a causa de Dubcek e não se manifesta apologista de um endurecimento soviético.
 
 
Que a Checoslováquia não se estava nada a afastar do trilho do socialismo.
Que o mais que havia eram calúnias do capitalismo.
Que a Checoslováquia continuava na sua cooperação com a URSS.
Que o objectivo vinha no fundamental a ser a correcção dos erros de Novotny e que nada disso era óbice à realização de uma verdadeira democracia socialista fiel aos mandamentos do marxismo-leninismo.
Que a adesão do PCP ao processo checo era total.
 
 
Mas os duros do Partido no interior, muito chegados às posições da URSS, não faziam a mesma leitura dos factos e das consequências deles.
Se a Checoslováquia tergiversava da cartilha soviética, a Roménia outro tanto. Duas feridas abertas no corpo socialista. Do outro lado, com a URSS a pau com a escrita, estavam a Bulgária, a Hungria, a Polónia e a Alemanha de Leste. Os Cinco. O Pacto de Varsóvia. Que se preparava para fazer a cama a quem o contrariasse.
A embaixada soviética em Paris pressiona, insta os comunistas portugueses lá residentes a declararem apoio à eventual invasão da Checoslováquia. Há quem o faça e há quem o não faça e por aí Cunhal entrará em choque com alguns militantes destacados.
Facto indesmentível era a supremacia política e moral dos soviéticos ter vindo a ser placidamente atenuada junto dos partidos comunistas do Ocidente.
 
 
Desde quando? Aí é que está a piada, a contradição, a incoerência: desde o afrouxamento da linha dura, desde o XX Congresso, desde a desestalinização; e agravado o desrespeito, naturalmente, a partir da análise das teses guevaristas e do êxito da revolução cubana e um pouco mas tarde com o rebentar do conflito com os chineses. Daí os PC’s italiano, francês e espanhol, os mais fortes na Europa ocidental, baterem palmas à experiência checa e pensarem muito a sério no que viria a chamar-se de eurocomunismo.
 
 
Mas Cunhal não. Às primeiras sim, ou talvez, mas um não redondo em ultimas res.
Em Praga o tempo corre em vertigem, as mudanças sucedem-se, Maio, Junho, Julho, a abolição da censura como passo muito esclarecedor da embalagem reformista.
Dubcek e os seus vão a Moscovo e ouvem das boas de Brejnev e companhia, incluindo o aviso: ou vocês fazem como a gente quer a bem, ou então… ou então o quê?... ou então temos o caldo entornado e o assunto resolve-se de outra maneira, quem sabe até se um tanto à má fila.
 
 
Mas os senhores do Kremiln estão a falar a sério? Estavam. E a prova de que estavam são os exercícios militares soviéticos muito perto da fronteira com a Checoslováquia, mais a magna reunião dos Cinco em Varsóvia a produzir um ultimato em forma.
Sob o pseudónimo “Alenquer”, Cunhal, clandestino em Paris, trata de mandar directivas à emissora de rádio do Partido, a Rádio Portugal Livre, sediada em Bucareste. E é num rápido desenvolvimento dialéctico do apoio ao desapoio à experiência checa que vai resvalando para a incoerência.
 
 
Começa por recomendar muita cautela na análise da situação. Sabia-se lá o que a situação podia dar e que reviravoltas tácticas o Partido poderia ser obrigado a fazer. Como diz o outro: “sou da sua opinião e da contrária, se for preciso.” Mesmo à portuguesa.
Nem tudo estava certo na ortodoxa posição dos Cinco, e nem os checos estavam capazes de dar garantias quanto à realização plena do socialismo depois das reformas. Primeiro ponto.
 
Não se lhe afigura justa a posição dos Cinco, não, mas nem o apoio incondicional à linha primaveril checa lhe parece absolutamente sensato.
Pôr em dúvida a ditadura do proletariado e inventar um caminho novo para um socialismo pluripartidário que respeite as liberdades burguesas, ora adeus!, é inevitável que crie graves crises intestinas no movimento comunista.
 
 
Erros na orientação anterior dos hierarcas checos chefiados por Novotny? Sim era verdade. Porém, a correcção desses erros estaria a ir demasiado longe na descaracterização do regime e abrindo brechas à penetração activa das forças capitalistas.
A contra-revolução mudara de táctica e afirmava defender o socialismo, paradoxalmente através de todas as medidas que pudessem vir a enfraquecer as defesas de um Estado socialista e facilitasse a conquista de posições – revisão constitucional e eleições livres, nomeadamente – que a breve trecho guindariam essa contra-revolução ao poder. Depois disso, não faltaria muito para que o regime fosse severamente afectado, e por consequência afectada a continuidade da Checoslováquia na órbita socialista.
 

 
Vendo bem, os apoios dos diversos partidos comunistas às reformas checas não estavam a ajudar a Checoslováquia a ver nitidamente os perigos da situação e só incitavam os dirigentes checos a resistirem aos avisos e conselhos do PCUS.
A dar-se o caso da vitória da contra-revolução no diferendo checo tudo mudaria no contexto político da Europa, a correlação de forças seria alterada, a paz no mundo estaria ameaçada.
Nunca na vida a independência de cada um dos partidos comunistas poderia fazer perigar a unidade de conjunto do mundo socialista.
(Perversamente, digo eu, concluir-se-á que a intervenção militar soviética na Checoslováquia é que vem a acelerar a desagregação do mundo comunista.)
Evoluindo na sua visão da conjuntura, Cunhal fustiga duramente o que chama de desvergonha oportunista de alguns notáveis do PC francês (Garaudy, Aragon, Elsa Triolet) que estavam com Dubcek sem compreenderem que apoiar Dubcek era dar uma mãozinha à derrota do socialismo na Checoslováquia.
E os comunistas checos também levavam que contar de Cunhal. Pela passividade ideológica. Pela cobardia mesmo. Pelo culto do anti-sovietismo de braço dado com o exacerbado sentimento nacionalista. Por se terem deixado infiltrar e dominar pelos agentes da direita.
 
                              

(Cunhal era danado a tratar dos desvios de direita.)
Sobra o duro dilema: a intervenção militar soviética iria agitar as águas do mundo comunista e levantar novos problemas, iria; mas a queda da Checoslováquia socialista talvez trouxesse problemas maiores e mais graves ao mesmo mundo comunista.
 
 
Tudo ponderado, e feitas as contas, o PCP apoia a invasão da Checoslováquia pelas tropas do Pacto de Varsóvia. A pelintrice e a subserviência bem portuguesas e a dependência absoluta do PCUS a isso o obriga.
 
 
Praga era ponto tradicional de trânsito de portugueses para a URSS, tanto para frequentar cursos de formação politica como para reuniões do Comité Central do PCP. Lá havia um núcleo de portugueses residentes (intelectuais e estudantes) que Cunhal controlava à distância. Esses portugueses tinham vindo a acompanhar entusiasticamente o processo de democratização do regime checo e, como militantes do PCP, não esperavam outra coisa do seu Partido que não fosse um apoio às reformas de Dubcek e a condenação de uma possível reacção hostil do Pacto de Varsóvia.
 
 
Pois foi um balde de água bem fria que lhes caiu no ânimo quando perceberam que tudo se passaria ao contrário do que previam – ou mais propriamente do que desejavam. Ainda por cima tinham sido os últimos a saber da posição do PCP.
 
 
Como os militantes do PCP na Checoslováquia, também os núcleos de comunistas portugueses residentes noutros países da Europa, Suiça, França, Roménia, caíram das nuvens, primeiro com a invasão soviética e mais amargamente ainda como apoio do PCP a essa invasão.
 
 
Quanto aos esquerdistas, já em conflito aberto com o Partido após os acontecimentos de Maio em Paris, desaprovavam tanto a abertura do regime checo como a invasão soviética que o reprimia. À primavera de Praga consideravam um intolerável desvio revisionista de direita. E à invasão condenaram-na porque sim, por isso mesmo, por ser uma invasão.
 
 
Em Novembro desse ano, dois meses e tal passados sobre a invasão da Checoslováquia, Cunhal resolve ir a Praga reunir com os camaradas locais.
Reunião atribulada que dura mais de três horas. Cunhal sai do sério, arrepela os cabelos, dá gritos de corça. Os camaradas querem saber das repercussões para o Partido depois da ocupação da Checoslováquia; querem saber das consequências do apoio do PCP à ocupação no interior dos organismos do Partido.
 
                             
 
        Cunhal desenvolve uma longa fala introdutória que não convence ninguém. É constantemente interrompido e contestado, Flausino Torres à cabeça. Vai ao ponto de ordenar a expulsão da sala de um dos contestadores – o que caiu muito mal, evidentemente.
 
                        
Flausino Torres, o mais desassombrado, entesa-se com o seu secretário-geral:
       - Escusas de vir para cá com abraços e apertos de mão, porque quem nunca mais volta a apertar-te a mão sou eu. Puseste aquele camarada na rua, mas quem devia abandonar esta sala e a direcção do Partido eras tu.
       E os camaradas não foram de modas: apresentaram queixa formal à direcção do Partido. Exigiram um inquérito interno. O secretário-geral não revelara consideração pelos argumentos apresentados e replicara com ironias, esgares de troça, risos escarninhos, argumentos falaciosos, provocações pidescas. A actividade de Cunhal pautava-se por atitudes de propaganda de um socialismo autoritário, indignas de um homem sério; era advogado da ocupação militar e da sujeição de um povo à tirania mais abjecta (por se chamar de socialista e fraterna); era um dirigente impróprio que não se comportava com a superioridade requerida pelo cargo. Portanto, um inquérito a ele, e suspensão imediata do cargo de secretário-geral.
 
 
Mas pronto, uma queixa que, tanto quanto se percebe, não deu em nada, e nem pela cabeça dos membros da direcção do Partido deve ter passado a ideia peregrina de exonerar Cunhal do cargo de secretário-geral do Partido.
Serão os comunistas portugueses de Praga a ter que procurar vida fora da protecção do PCP.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016


          UM DESVIO DE DIREITA
                                E OUTRO DE ESQUERDA


Estou a acabar de ler Álvaro Cunhal, Uma Biografia PolíticaO Secretário Geral, de José Pacheco Pereira. Leitura de prazer que me remete para os tempos em que se ouvia à boca (muito) pequena falar destas coisas e se despertava para uma mitologia de inconformismo, para uma ansiedade insurrecta inspirada pela aura heroica dos revolucionários (Che Guevara, Fidel, Cunhal); que remete para o meu tempo pessoal, os 17, 18, 19 anos em que começava a ter alguma consciência do que se vivia para lá de um triste quotidiano e me iniciava nas leituras e nos amigos de esquerda.
 
 
Não que aprecie especialmente o estilo literário de Pacheco Pereira. Aprecio-lhe o possível rigor documental, a aprofundada isenção, a evidente estatura de historiador. E já disse: comecei por gostar da circunstância temporal em que decorre a narrativa, 1960-1968, que me faz lembrar de mim; ou, se se quiser, da circunstância histórica em que vivi e quando ser de esquerda ou de direita adquiria civicamente algum sentido – aliás, muito sentido, todo o sentido – nos emocionantes jogos de absoluto, nas essenciais diferenças entre o Homem de esquerda e o Homem de direita. Alguma coisa que, parecendo que não, e apesar de muito diluída, ainda se reflecte na vida contemporânea.
 
 
A entrada dos anos 60 deve ter dado terríveis dores de cabeça a Salazar. Logo em Janeiro de 1960, Álvaro Cunhal, à frente de uma leva de notáveis do Partido Comunista, empreende a aventurosa fuga do Forte de Peniche – além dele, Carlos Costa, Francisco Martins Rodrigues, Guilherme da Costa Carvalho, Jaime Serra, Joaquim Gomes, Pedro Soares, Rogério de Carvalho e José Carlos. No ano seguinte, também fogem rocambolescamente de Caxias mais oito importantes quadros do PCP – por ironia num carro que Hitler oferecera a Salazar.
 
                                                                 
       
 
             

Há a intentona de Beja. Há a frustrada conspiração Botelho Moniz. Há o avião da TAP desviado e os panfletos lançados sobre Lisboa. Há o assalto ao Santa Maria. Há a queda de Goa. Começa a guerra em Angola. Há a crise académica.
 
 
Fugido do Forte de Peniche, Cunhal vai irromper como um furacão na vida clandestina do PCP. Júlio Fogaça (o vulto comunista por então mais notável com Cunhal preso) e alguns dos que o acolitavam levam com acusações de apostasia, de heresia intolerável, de sacrilégio infame. Em suma, de desvio de direita. Quando se apanhar à solta Cunhal vai fazer-lhes a folha...
 

                                                                   
                                                                               
Álvaro Cunhal estava preso em Peniche desde 1949.
 
 
Indiferente à sorte dele e à vida tormentosa do Partido Comunista Português, a vida real continuava. Acontecera em Moscovo o XX Congresso do PCUS (Partido Comunista da União Soviética), com a ascensão de Nikita Krutchev e o ajuste de contas com o estalinismo, mais o preconizar uma via pacífica para o socialismo com a consequente adopção de uma linha política de coexistência pacífica com os estados capitalistas. Aconteceram as eleições de 1958 e a explosão do fenómeno Delgado. Houve o falhado golpe da Sé…
 
 
E lá estava o motivo para um ressentimento pessoal. Os órgãos do Partido, sob a orientação de Fogaça, tinham deixado cair uma campanha para a libertação de Cunhal e comunicado a partidos estrangeiros o pouco interesse dessa campanha; o nome de Cunhal foi suprimido do elenco do Comité Central; o nome de Cunhal figurava nas listas de democratas e não de comunistas. Ele, Cunhal – bom Escorpião - nunca esquecerá afrontas destas.
 
 
O XX Congresso do PCUS (Fevereiro de 1956) e as suas teses vem dar uma alma nova à facção direitista do Partido Comunista Português, disposta que estava a deixar a iniciativa da luta contra a ditadura fascista nas mãos dos velhos republicanos e da burguesia liberal. Nada de atacar as instituições fascistas por se julgar essa a melhor forma de lhes acelerar a decomposição e assim promover a queda do regime sem luta fratricida.
Entre os dirigentes comunistas a actuar em liberdade, embora´, evidentemente, em rigorosa clandestinidade, destacava-se um, esse, Júlio Fogaça, filho da abastada burguesia de província mas comunista teso e experimentado em prisões, incluindo estadias no Tarrafal. No vazio hierárquico que resultava da prisão de quadros importantes do Partido, Fogaça, sem formalmente o ser, fazia as vezes de secretário-geral – lugar vago no Partido desde a morte de Bento Gonçalves.
 
 
Com o Partido sob a orientação ideológica de Júlio Fogaça, a pronta adaptação das teses do XX Congresso do PCUS à realidade portuguesa enfermou da pecha do mecanicismo mais óbvio.
 
 
A viragem estratégica da URSS em 1956 viria a ter bom acolhimento na grande maioria dos partidos comunistas irmãos do Ocidente, com relevo para os partidos espanhol e italiano. No caso particular do PCI, mais tarde, com Enrico Berlinguer e o chamado eurocomunismo, redundaria, se a memória me não atraiçoa, no projecto de compromisso histórico com a direita dominada pelo Partido da Democracia Cristã, hegemónico na política italiana do pós-guerra, e ainda mais tarde, Maio de 1978, no limiar da concretização desse compromisso, com o fatal desfecho que foi o assassinato de Aldo Moro.
 
                                                        
 
A sensação dos dirigentes comunistas ainda operacionais em Portugal por aquele ano de 1956, faço uma pequena ideia, devia ser de profunda claustrofobia e doloroso isolamento. Por aí talvez se possa compreender o cego seguidismo das teses do PCUS e o mecanicismo programático que se seguiu.
As novas directivas impunham ao isoladíssimo PCP uma abertura a outras correntes oposicionistas não-comunistas da sociedade portuguesa, privilegiavam (apesar do óbvio descrédito dela) uma via eleitoral para a queda do fascismo, esperavam que as contradições intestinas do regime salazarista se aprofundassem e criassem um novo quadro político que lhe precipitasse a queda. Era a via pacífica dos comunistas portugueses de 1956 para derrubar um fascismo estuante de força e altamente policiado. Nem pensar em golpes, em putschs militares, em insurreições populares armadas e outros aventureirismos. Do capitalismo fascista passar-se-ia ao socialismo enquanto o diabo esfregava um olho, quase automaticamente, no dia de S. Nunca à Tarde.
A adaptação empreendida por Fogaça e seus companheiros das teses do XX Congresso do PCUS (pelo que tenho lido) foi mais um momento do atávico e portuguesíssimo provincianismo imitativo, desta vez revolucionário.
Não lembraria ao careca, vendo os casos com os olhos de hoje, adaptar de modo mecânico à desgraçada realidade portuguesa de 1956 as teses elaboradas por uma visão e um alcance de âmbito planetário, geopolítico, quanto à questão da passagem de uma democracia burguesa e capitalista ao socialismo, e quando o primeiro dos objectivos programáticos do PCP, estava na cara, era apear não uma democracia burguesa e parlamentar instalada mas um Estado policial, um regime fascista altamente repressivo.
E também, como característica bem portuguesa, a ocorrência de um desvio de direita motivado pela aplicação das teses do XX Congresso iria ter ressonâncias a la longue na vida do Partido, em muitos casos e circunstâncias envolvendo embaraçosas ambiguidades que infectavam os princípios de coerência ideológica que tão caros lhe eram e que tão boa fama lhe deram. Desde logo no dissídio sino-soviético – o desvio de esquerda, ver-se-ia a prazo, mil vezes mais perigoso para o partido do que o desvio de direita. 
          Na questão do desvio de direita havia Júlio Fogaça e outros. Os outros? Joaquim Pires Jorge, Sérgio Vilarigues, Octávio Pato, Dias Lourenço, os mais célebres, e todos reabilitados no Partido (apesar de censurados), à excepção de Fogaça.
Fugido de Peniche, Cunhal reaparecia na vida do Partido como o pistoleiro vingador da ortodoxia leninista, a disparar forte e feio contra o desvio de direita e exercendo, ainda não como secretário-geral, uma poderosa influência, diga-se, com certos laivos de vingança pessoal. Fogaça é afastado do secretariado do Comité Central, junto com Cândida Ventura, dois dos mais encarniçados adversários de Cunhal. A estigmatização dos desviados de direita ficava facilitada.
 
Mas a perseguição da PIDE aos foragidos de Peniche não dava tréguas. E obtinha resultados. Dos evadidos, Francisco Miguel, Carlos Costa e Guilherme Costa Carvalho são recapturados. Na mesma leva de prisões são apanhados também os desviacionistas Fogaça e Cândida Ventura. Teme-se pela liberdade de Cunhal, que não dorme dois dias na mesma casa e que espera ansiosamente a oportunidade (que nunca mais chega) de dar o salto do país.
          A liberdade. Penso eu que a liberdade de um clandestino perseguido pela polícia política em solidão, sobressalto permanente, incomunicabilidade (ou comunicabilidade muito condicionada), risco de ser apanhado, risco até de ser morto, não devia ser vida muito mais doce do que a prisão. Não sei.
Na ideia dos subscritores do chamado desvio de direita, o Partido, na sua inflexão estratégica, até tinha prestado um alto serviço ao país ao declarar como possível uma via de transição pacífica do fascismo para a democracia enquanto primeiro passo para o socialismo, e ao confiar na via eleitoral e no diálogo com a burguesia liberal para atingir os objectivos. Ao passo que, no ver deles, as teses da violência revolucionária como única via para apear o regime só tinha afastado da luta muita gente sinceramente empenhada, gente que passara a olhar o Partido com desconfiança, minando assim a sagrada unidade antifascista.
 
 
A querela passava também pelos modos de transição. Pela via pacífica deitar-se-ia abaixo o regime e uma democracia seria inaugurada, muito bem, mas o cerne do problema poderia estar na transição a seguir, a da democracia burguesa representativa para o socialismo. E aí funcionava a desconfiança das outras forças políticas nacionais. Conquistada a democracia só seria de esperar do Partido uma traição, “uma facada nas costas”.
Pergunta crucial dos subscritores do desvio de direita: desejaria na verdade o Partido o derrube do fascismo, ou seria que a manutenção do regime de ditadura fascista era um benefício para o Partido?
 
Segue a crítica ao desvio de direita. Como poderia o fascismo cair pacificamente? A adopção da tese do XX Congresso do PCUS não passava de uma transposição mecanicista e inviável para uma realidade concreta e singular, como era o caso português. Não estava em questão uma passagem do capitalismo ao socialismo. O objectivo primeiro, a mais urgente tarefa do proletariado português e da sua vanguarda, o Partido Comunista, era o derrube de uma ditadura fascista visando a conquista das liberdades políticas.
 
      

 
Haveria a distinguir entre uma revolução proletária e uma revolução democrática. E nem as teses do XX Congresso (segundo Cunhal) haviam declarado a validade universal da via pacífica. Às teses do XX Congresso opunha Cunhal o princípio leninista das etapas de uma revolução e a obrigatoriedade de interpretar as condições sociais e políticas concretas de cada país.
O desvio de direita, por exemplo, para Cunhal, fora impeditivo de um melhor aproveitamento pelo Partido da crise do regime na sequência do fenómeno Delgado, um momento político que exigiria do Partido um acrescento de combatividade e um capaz enquadramento dos movimentos populares.
 
 
Mas o caso é que, passada a crise do emergente Delgado, o regime recuperava, desmentia em toda a linha os rumores de desagregação que os defensores da vida pacífica tinham esperado.
 
 
Retomando práticas de fins dos anos 40, os militantes traidores podiam aparecer misteriosamente mortos num qualquer beco da margem sul. A prisão do chefe de fila dos desviados pela direita, Júlio Fogaça, verifica-se em duvidosas circunstâncias, na Nazaré, estava ele na companhia do amante - além do desvio de direita, Fogaça tinha no cadastro um desvio homossexual notório: “pederasta passivo”, rezava a ficha dele na PIDE; se fosse activo talvez fosse mais bem visto… - levantando logo os inimigos de Cunhal a forte probabilidade de Fogaça ter sido denunciado pelos camaradas. O mesmo poderá ter acontecido quando da prisão de outra destacada militante fora da linha de Cunhal, Cândida Ventura, que sempre suspeitou de ter sido denunciada pela direcção do Partido.
Após estas prisões, imediatamente o Partido manifesta a sua ambígua solidariedade para com os camaradas presos e lança uma campanha para a libertação de Fogaça e de Cândida Ventura – aquilo que estes não tinham feito quando da prisão dele, Cunhal.
Cunhal faz-se eleger secretário-geral e nas reuniões secretas do comité central de Março de 61 assentam-se as bases para reformulação teórica de combate ao desvio de direita. A dita via pacífica como fórmula para a instauração do socialismo em Portugal é abandonada e substituída pelo princípio algo nebuloso do levantamento popular armado.
 
                                                                                    
 
Havia que reforçar o centralismo decisório contra as tendências chamadas anarcoliberais que o desvio de direita permitira, com sérios reflexos de tipo disciplinar na clandestina, e atribulada, vida partidária. O Partido aburguesara-se, as nomeações e promoções eram facilitadas, a tendência para um rotativismo e um nivelamento por baixo dos quadros, independentemente das capacidades de cada dirigente, era um eflúvio pequeno-burguês que teria de ser erradicado o mais brevemente possível.
Num manifesto ao povo apelando a um movimento de massas, o Partido dá por consumada a viragem estratégica com o abandono da via pacífica e determinando como tarefa mais urgente o assalto ao poder. Esse assalto só poderia lograr efeitos por meio de uma acção armada que neutralizasse os sectores militares afectos ao regime e contasse com a participação de militares a esse regime evidentemente desafectos. As massas ansiavam por uma reviravolta radical na situação política.

Com todos os cuidados de segurança e rodeado do máximo secretismo o superperseguido Álvaro Cunhal consegue sair do país. Dezembro de 1961.
Vai para Moscovo mas passa primeiro por Paris, onde se indigna pela pouca atenção que Maurice Thorez, chefe do PCF, lhe presta.
Em Moscovo, e tendo em atenção as dramáticas dificuldades atravessadas pela URSS em matéria de habitação, pode dizer-se que o PCUS dispensa a Álvaro Cunhal um tratamento VIP, a começar pelo apartamento mobilado de quatro assoalhadas que lhe destina na Vorobyovskaia Shossé e a culminar no salário que lhe atribui de 500 rublos, mais 150 dele para a secretária, mais valiosas prendas do partido soviético, mais automóvel e motorista.
 
 
Era um senhor. Não deixaria Moscovo nos tempos mais próximos. Os altos comandos soviéticos não o queriam em Portugal tão cedo, receosos pela segurança dele. Como se sabe, só regressará após o 25 de Abril, depois de passar por Praga, Bucareste, Paris.
 
 
Em Moscovo, deixados para trás os anos de cativeiro, de perseguição e de profunda clandestinidade, Cunhal rejuvenesce. Veste bem, entretém-se com fotografia e desenho. Escreve, muito. Lê, muito. Brinca com a filha. Passeia com a companheira. Vai ao cinema. Fuma. Está uma celebridade no movimento comunista, um herói. Bebe do fino, priva com os principais dirigentes comunistas mundiais, e é ouvido por eles.
 
 
O homem que combateu as teses krutchevianas do XX Congresso do PCUS vai viver, ele e o Partido, às sopas do mesmo PCUS. Mas é assim a política. Ou seja, a vida. Enquanto em Portugal a PIDE prossegue nas suas razias entre os clandestinos funcionários e dirigentes do PCP.
Mas o desvio de esquerda está a bater à porta. Uma coisa era a aplicação automática das teses da via pacífica num pequeno e insignificante país oprimido por uma ditadura fascista e com a polícia política à perna, e outra coisa era a aplicação da mesma coexistência pacífica no contexto da política mundial e na vida do movimento comunista sob a hegemonia da URSS.
 
                                

 
Os chineses começaram então a levantar cabelo. Contestavam essa hegemonia soviética. E a trave mestra dessa contestação radicava justamente nessa via pacífica para o socialismo, ou na coexistência pacífica entre sistemas político-económicos diferentes, o que também se chamou de guerra fria.
Discordando da linha do PCUS na sua aplicação em Portugal, Cunhal não pôde deixar de concordar com ela quando o que estava em causa era o equilíbrio mundial e tudo era feito para evitar o afrontamento entre capitalismo e socialismo pela via da violência revolucionária e à sombra aterradora das armas nucleares.
 
                                                        
 
Da discordância com Krutchev, Cunhal e o PCP tornam-se circunstancialmente krutchevistas.
 
 
Se a linha cunhalista contestava aos seus concorrentes na direcção do Partido a versão nacional da coexistência pacífica, apreciada como um desvio de direita na ortodoxia comunista, por outro lado, nem pela cabeça lhe passava marginalizar-se, isolar-se, desafiando frontalmente as teses do PCUS, ou acusar o PCUS de desvios de direita na gestão do movimento comunista.
 
                                            
 
Ao PCP não restava alternativa outra senão manter e aprofundar a ligação ideológica com o comunismo mundial sob a asa protectora do PCUS, não falando já da questão material, quer dizer, dos auxílios financeiros aumentados. Do apoio do PCUS ao PCP de 35.000 dólares em 1959, devido ao prestígio de Cunhal passava-se, em 1962, a um apoio de 60.000 dólares, mais apoios logísticos diversos e a criação de uma estação de rádio própria.
 
 
Diziam os chineses (entre outras coisas, evidentemente) que até estaria muito bem o proletariado querer a solução pacífica dos conflitos internacionais e na implantação do socialismo, o bico de obra era se a burguesia estaria por esses ajustes. A isto replicava a ortodoxia soviética que o problema não seria tanto saber se a burguesia aceitava ou não a solução pacífica, e sim saber se o proletariado mundial teria força suficiente para impor tal solução. Quem, afinal de contas estaria em condições de comandar os destinos do mundo, a burguesia ou o proletariado? E quem estaria em melhores condições para dirigir esse proletariado, a URSS ou a China?
 
                                                        
 
E caía-se novamente no dilema português – que de resto marcaria a vida do Partido não sei se até aos dias de hoje. A transição pacífica do capitalismo para o socialismo era de admitir, sim, dependendo das condições objectivas e subjectivas de cada país. Porém, em Portugal não era exactamente esse o problema central. O problema era o derrube de uma violenta ditadura fascista. Por meios pacíficos? Brincamos?
 
 
Em última análise, concede-se que a transição desejada possa acontecer pacificamente, o que não queria dizer que se afastasse in limine a eventual necessidade de recurso a meios violentos.
E tinha mais: a linha de coexistência pacífica em Portugal só criaria ilusões arriscadas, só abrandaria a combatividade das massas, só levaria à passividade e ao oportunismo.
Que fazer?
 
 
Um levantamento popular armado. Solução a que alguns dos partidos comunistas europeus pró-soviéticos torciam o nariz, censurando nas suas publicações os artigos de Cunhal em que o assunto vinha à baila. A ideia do levantamento nacional armado, em toda a sua abstracção (acho eu), cheirava por demais a chinês e a albanês. E Cunhal queixa-se da incompreensão dos partidos irmãos quanto à complexa particularidade do caso português.
O eventual alinhamento da URSS com as teses chinesas seria o prelúdio de uma guerra atómica de consequências catastróficas. Cunhal chega a dizer (quando o Partido sente na própria carne as primeiras agulhadas do esquerdismo maoista) que aqueles que se dispusessem a alinhar com a China estariam a comprometer-se com a iminência de uma guerra nuclear: não passavam de uns loucos.
 
 
Era verdade que o oportunismo e o desvio de direita traziam os seus perigos, mas não deixava de ser também verdade que o dogmatismo maoista poderia constituir para o movimento comunista um perigo de maior envergadura.
O PCP dependia crescentemente do PCUS. Tinha portanto de empreender uma ginástica retórica de considerável monta para compatibilizar a ortodoxia das suas posições de restrito âmbito nacional com as directivas do comunismo à escala mundial. A URSS queria-se no papel de grande campeã da paz através de uma política de coexistência pacífica. O socialismo nunca por nunca se poderia dissociar da paz.
 
                                                      
 
E o antisovietismo entrava na ordem do dia. Começara a manifestar-se nos primórdios do decénio de 60 a partir do sector intelectual do Partido - antisovietismo que Pacheco Pereira não se esquece de acentuar não ser sinónimo de anticomunismo. Passados os acontecimentos contrarevolucionários e antisoviéticos de 1956 na Hungria, a estrela orientadora e o prestígio libertador da URSS e do PCUS começam a perder fôlego. Mais tarde, em 68, será a vez da Checoslováquia, a machadada fatal no prestígio da URSS.
 
 
Mas havia no PCUS, evidentemente, quem andasse a fazer a cama a Nikita Krutchev.
 
 
Se Cunhal teve alguma coisa a ver com a conspiração não se sabe - ou pelo menos Pacheco Pereira, não o explicita - mas a mim não surpreenderia se tivesse. Nunca afrontara Krutchev nem a direcção do partido soviético, é verdade, e compreende-se facilmente porquê, em vista das dependências de toda a ordem do PCP. E se Krutchev não era o homem do ideal do chefe do PCP, também era certo que a cúpula soviética krutchevista trazia o herói do comunismo português mais ou menos debaixo de olho e via-o com certa reserva ideológica – ele ter chamado desvio de direita à aplicação em Portugal da linha política saída do XX Congresso ainda lhes estava atravessado na garganta.
 
 
Nas gargantas de Brejnev, Suslov, Ponomariev, Shelepin e mais alguns também ainda estava atravessado o “discurso secreto” de Krutchev em Fevereiro de 56 que atirara Stalin para as ruas da amargura e instituíra a transição pacífica para o socialismo. E eles dão o golpe. Por essas e se calhar por outras.
No dia 14 de Outubro de 1964, Krutchev cai. Cai sem estrondo nem violência. Exila-se no interior.
 
                                                                    
 
Krutchev cai, Cunhal fica nas suas sete quintas, aumenta a cotação pessoal e política junto dos novos senhores do Kremlin, e assim o PCP se liberta das amarras que o subalternizavam face ao PC espanhol no quadro do movimento comunista mundial.
 
 
E se a nova direcção do PCUS começou por dar continuidade à linha de Krutchev, bem cedo iria marcar distâncias dessa linha com uma maior crispação no tocante ao imperialismo americano (já com o Vietnam na ordem do dia) e apoiando mais efectivamente os partidos comunistas e os movimentos que combatiam esse imperialismo, e porque se a URSS queria manter-se à testa do movimento comunista a urgência máxima estava em isolar ideologicamente a China.
Uma das palavras de ordem na literatura do PCP desde sempre e até bem depois do 25 de Abril – não sei se ainda hoje – é “unidade”. Uma unidade, ou um conceito de unidade, que instala as mais fundas suspeições nas outras forças políticas antisalazaristas. Suspeições que eram facadas na consciência da burguesia liberal.
 
                                                        
 
O conceito cunhalista de unidade implicaria, na prática, e dada a experiência e o know-how logístico e político do Partido, uma supremacia comunista na condução das acções, com a imposição programática logo à cabeça de uma revolução ainda não socialista, ainda só democrática e nacional.
Lenine exultaria no mausoléu. A unidade pretendida (apregoada) pelo PCP corresponderia à etapa primeira de um processo revolucionário de inspiração leninista a caminho de um socialismo que a burguesia liberal portuguesa, apesar de antifascista, execrava.
         A unidade (antifascista) vai Cunhal procurá-la em Argel, à sombra da personalidade escorregadia e belicosa do general Delgado.
 
 
Depois de lhe ter chamado “general Coca-Cola”, Cunhal repensa tácticas e estratégias e vai associar-se à trágica personagem de Delgado e à FPLN no chamado Grupo de Argel (segundo alguns reaças, o Bando de Argel, com os nomes de cartaz de Piteira Santos, Tito de Morais, o locutor Manuel Alegre e outros).
 
 
Fala do general para o seu médico em Argel:
         - Então diga-me cá, meu caro doutor Marcelo Fernandes… onde é que eu hei-de dar um tiro no estupor do Tito de Morais sem o matar?
         - Bom, eu diria num pé…
         Estavam as coisas precisamente naquele pé quanto à unidade antifascista dos exilados políticos em Argel.
Cunhal está com Delgado e a FPLN, e Delgado só quer ver-se como chefe guerrilheiro. Depois de pensar matar Salazar e lançar bombas por todo o país, o general pensa numa acção que me parece querer arremedar qualquer coisa como o desembarque na Normandia no dia D (salvas as devidas proporções, já se percebe), ou a invasão anticastrista de Cuba que ficou conhecida como o desastre da Baía dos Porcos (também guardadas as convenientes distâncias).

Delgado quer comandar uma invasão de Portugal a partir do Algarve, fiel à teoria da chispa que poderia incendiar o país e sublevar muitas unidades militares contra o regime – mais ou menos o que se pretendia no assalto ao quartel de Beja. Cunhal acha o projecto aventureiro, sem cobertura de massas, sem condições políticas internas para secundar o golpe.
Delgado evoca a revolução cubana, reflecte que os partidos comunistas de obediência soviética nunca fizeram porra de revolução nenhuma, e que mesmo o Partido Comunista Cubano pouco ou nada riscara para a revolução castrista. E corta com Cunhal. E corta com Argel. E sai de Argel em busca de sócios de duvidosa reputação conspirativa mas na aparência bastante inclinados para o acolitar numa revolução imediata. Desaparece por uns tempos, e em Fevereiro de 1965 o homem que procurava a fama e a glória dos feitos militares e políticos é miserável e ingloriamente assassinado nos arrabaldes de Badajoz.
 
                                                             
 
Por falar em Argel, não me admirava que Salazar risse à gargalhada de cada vez que a PIDE lhe apresentasse relatórios sobre as rocambolescas actividades da oposição portuguesa exilada em Argel, tal era a sorte dos desmandos e dos conflitos pessoais e políticos que por lá corriam.
 
 
Entretanto, temos o desvio esquerdista na cúpula do PCP, que também em Argel se fazia sentir com certo dramatismo por intermédio de Ruy d’Espinay e João Pulido Valente, que se estavam nas tintas para a unidade antifascista e queriam a luta armada, já.
Cunhal censurara abertamente os chineses pela interposta pessoa do ex-membro do Comité Central Francisco Martins Rodrigues, um dos “aventureiros renegados” que combatiam o PCP.
Francisco Martins Rodrigues, um teórico marxista-leninista de gabarito que sempre torcera o nariz às teses do XX Congresso do PCUS, companheiro de Cunhal na temerária fuga de Peniche, foi, por assim dizer, o primeiro quadro destacado a dar o pontapé de saída para o desvio de esquerda no Partido. É ele o primeiro comunista português pró-chinês.
Francisco Martins Rodrigues concordava em princípio com muitas das posições chinesas e não compreendia a orientação antichinesa do PCP, o que começou a isolá-lo no concerto dos dirigentes do Partido. Vai daí, toca a desenvolver críticas aceradas e internas ao oportunismo de Cunhal e do PCP a propósito da iminente guerra colonial e das posições (ainda hesitantes, talvez, mas a beirar o neo-colonialismo) do Partido face à descolonização – estamos em Agosto de 61.
 
                                                                                      
 

Segundo Francisco Martins Rodrigues, era o PCUS, e por extensão o PCP, quem favorecia a crise no mundo comunista. Também ele se marimbava para a unidade e era favorável à luta armada e à violência revolucionária. Começa a criar problemas e a cumprir mal as tarefas partidárias que lhe cabem – pelo menos disso o acusam os ortodoxos. Manifesta-se a favor da execução do traidor Rolando Verdial (membro do Comité Central, um dos evadidos de Caxias, que depois de mais uma vez preso passara a colaborar com a PIDE). O próprio Francisco Martins Rodrigues vem a executar pessoalmente um traidor e é chamado por Cunhal de terrorista – o PCP não era um partido de anarquistas nem de radicais pequeno-burgueses. Incompatibiliza-se com Cunhal quando o chama na cara de oportunista.
Em Moscovo, Martins Rodrigues não dá um passo sem ter um esbirro do KGB à ilharga. Teme que o obriguem a ficar na URSS e faz uma tentativa de chegar à embaixada chinesa em Moscovo no propósito de para lá fugir. Mas não. Mandam-no para Paris. De Paris apoia os esquerdistas de Argel e é lá em Paris que toma a decisão de abandonar o Partido. Acusam-no de roubo – uma máquina de escrever e papeladas. Vai trabalhar para uma fábrica por uns tempos e depois dedica-se por inteiro à política. Chega vivo ao 25 de Abril e funda o PCP-ml.  
 
 
Tenho a impressão de que toda a inquietude e todos os empolgantes acontecimentos daquele (para mim saudoso) verão quente de 1975 foi uma sequela muito viva, ainda, dos conflitos decorrentes da magna questão dos desvios de direita e de esquerda no PCP dos anos 50 e 60.
 
 
Chegado a 1968, Cunhal prevê o que se irá passar na Checoslováquia e apoia a URSS no caso. Percebe que o movimento comunista entrou em crise profunda e não quer contribuir para lhe apressar a queda. Prepara-se é para pisar os terrenos antes proibidos da acção armada, da violência revolucionária, do terrorismo, cavalgando a onda do desvio de esquerda que tinha ardentemente fustigado. É criada a ARA. Implicitamente, Cunhal reconhece a razão estratégica dos desviados de esquerda a quem nos anos 60 chamara de terroristas.


Já nos tempos de Marcelo Caetano o PCP perde posições nas lutas académicas em confronto com os maoístas, mas aparece finalmente à luz do dia em 25 de Abril, aureolado de mitologias passadas. Será um PCP debilitado, mas o povo em geral não sabe disso.  A campanha de propaganda é intensa, de forma a que esse povo compreenda que é o PCP  a  única força política organizada, dinâmica, mobilizadora de massas e com ojectivos estratégicos no marasmo imobilista da sociedade portuguesa.
(Na lógica dos antigos tempos de esquerda e direita radicalizadas e façanhudas, em que os ditames programáticos eram letra de lei, não sei se Jerónimo de Sousa, já sem o respaldo do PCUS, não estaria à bica para ser expulso do Partido ao desviar-se para a direita no seu compromisso histórico de incidência parlamentar e de viabilização de um governo PS. Que diriam os anos 60 a isso? Que diria Cunhal a isso?)
 
 
A fama de estalinista nunca abandonaria a figura de Álvaro Cunhal até ao fim da sua vida política. Isto, claro, do ponto de vista da direita dos interesses, porque do ponto de vista da esquerda mais pura e dura foi a fama de revisionista e contra-revolucionário que lhe ficou, e quando, ao ler o livro de Pacheco Pereira, fico com a convicção de que tanto um como outro dos pontos de vista não andavam fora da verdade. É nisto que está piada. Foi isto que contou para o carisma político, para o enigma e para o prestígio pessoal da personagem.
 
 
E enfim, era só para recomendar a leitura deste livro. Mas, calma, recomendá-lo a quem vai ficando velho e ainda persista em manter acesos os interesses de outros tempos, isto é, a relação memorial e afectiva com os passados homens de carácter nos enriquecedores dilemas antigos entre a esquerda e a direita, entre a passividade e a acção, entre o situacionismo e a revolução, entre o obscurantismo e o (problemático) aperfeiçoamento do Homem.