quinta-feira, 31 de dezembro de 2015


 


       O CASO MANON



Continuando a conversa passada, com as acções da companhia do Mississipi, ou Companhia do Ocidente, a subir, enormes fortunas foram acumuladas em poucos dias por particulares – os particulares mais sortudos, ou mais ousados, ou já de si afortunados que chegasse para arriscar muito e muito ganhar, e porque como todos sabemos, dinheiro puxa dinheiro.

 

 

A um dos vários criados que graças aos jogos da bolsa ganhou montanhas de dinheiro aconteceu caso bizarro. Ganhou dinheiro, muito, muito, e a primeira coisa de que se lembrou foi de encomendar uma carruagem do último e mais luxuoso modelo - tipo Ferrari ou Lamborghini do pato-bravismo português dos anos 80 e 90. Depois, pato-bravo, mas neste caso parisiense e setecentista, mandou aplicar às portas e aos outros acessórios e componentes da magnífica carruagem um brasão de armas.

 

Mas… é claro… o homem não tinha armas, não tinha nobreza. E como não tinha armas nem nobreza teve a ideia peregrina de mandar desenhar na sua carruagem de novíssimo rico, como se suas fossem, as armas da casa real.

 

 

Foi num instante parar à Bastilha por crime de lesa-majestade.

Um outro contemplado pela sorte, engraxador de botas, fez 40 milhões num abrir e fechar de olhos.
Outro, pintor sem talento que mediocremente vivia de fazer cópias a vender nas feiras, ganhou tanto dinheiro que pôde contratar para o serviço da sua nova casa nem menos do que 90 criados.
Uma serviçal espertalhona e cheia de sorte ganhou tanto dinheiro que passou a dar jantares e festas, servindo em cada um desses jantares e dessas festas um boi inteiro, dois veados e seis carneiros.
Madame de Bégoud vai á ópera e encontra uma sua antiga cozinheira ornada de jóias mais belas e mais caras do que as suas. Está  a mirar, estupefacta, a cozinheira, quando esta lha atira: eh… pourquoi pas?
 
 
Um parricida, primeiro condenado à morte e depois indultado, foi-se à Rua de Quincampoix, jogou na bolsa, comprou, vendeu e trocou acções da companhia do Mississipi, ganhou milhões, e a primeira coisa de que se lembrou para comemorar a sua súbita riqueza foi de  mandar fazer um penico todo em ouro.
 
 
John Law, o jogador, o aventureiro, o grande financeiro, era o construtor dos milagres naquela Paris das primeiras décadas do século XVIII. Montesquieu, quanto à situação, escreveu: nem Deus tiraria mais depressa os homens do nada. Oh, quantos criados passaram a ser servidos pelos seus antigos colegas, e amanhã, talvez, mesmo pelos seus antigos patrões!
O capital têm os seus poderosos factores de subversão social…
 
 
Um fanático da bolsa e do capital financeiro, certamente acabado de ganhar formidável fortuna, gritou um dia, no meio da Rua de Quincampoix, referindo-se ao financeiro que lhe tornara o sonho realidade: é mais do que um génio. Ele deve ser Deus regressado á terra!
 
 
John Law morava na Place Vendôme. Tinha visitas todos os dias. E visitas ilustríssimas, o príncipe de Conti, por exemplo; o duque de Bourbon, o antigo ministro Noailles, o duque de Antin, o abade Dubois, muitas das amantes do próprio regente do reino. Iam para lhe tocar o coração com algum caso problemático pessoal a que gostariam de atirar dinheiro. E vinham de lá contemplados com o seu pacotinho de acções a preço de amigo. Porque o preço das acções ia subindo, constantemente subindo, e para pagar essas acções ao preço real e em quantidade suficiente era preciso mais e mais dinheiro.
O numerário deverá ser sempre igual à procura – máxima de John Law.
Paris era uma loucura. As máquinas de fabricar papel moeda e acções trabalhavam à máxima potência dia e noite sem descanso. Nos primeiros dias de 1719 o montante global em circulação era de 15 milhões; a meio do ano ia em 148 milhões; no fim do ano ascendia a mais de dois biliões.  A inflacção de notas suportava a inflacção de acções. Mas já alguma coisa fazia antever um reverso da situação. Cada vez mais os negociantes se afadigavam primeiro que nada a consolidar os seus ganhos, comprando prédios, comprando ouro e prata. Os boatos infaustos começavam a correr. A praça de Londres revia em baixa as acções da companhia do Mississipi.
     John Law manda proibir o transporte e o fabrico e o trabalho em materiais de ouro e prata. Manda proibir o uso dos diamantes e das pérolas. Todo aquele que denunciasse o que era proibido tinha direito a um prémio, e quem dissesse mal de um denunciante estaria sujeito à pena de morte, nem menos. Com o capital não se brinca
O capital não é para brincadeiras e quem se mete com ele aleija-se de verdade.
 
          Mas isso de mandar proibir, de mandar premiar ou condenar não agradava ao aventureiro escocês. Ele queria decretar o que entendesse directamente, sem intermediários. Precisava portanto de poderes para isso, e o regente do reino está inclinado a nomear John Law ministro das finanças de França.
 
 
         O problema é o mesmo de tempos atrás, Law é protestante, e nenhum simpatizante da dita igreja reformada poderia ocupar em França um cargo público. Law diz a isso: pff, é apenas um detalhe.
 
 
Law sabia de sobra o que mais importava no momento – e o que mais importa ainda hoje. E o que mais importava não era a fé religiosa. O importante não era nem a fé nem o cargo nem a pessoa. O que importa antes de tudo o mais na vida e na aventura do dinheiro é manter o sistema. O sistema capitalista, já se vê, o sistema que engendrava – e engendra – fabulosas fortunas de uma hora para a outra. No século XVIII como no século XXI. Fora do sistema não se vislumbra salvação, seja ela qual for.
 
                                                            
 
Por falar de salvação, em preito prestado ao sistema capitalista, John Law não viu óbice de mais em abjurar a sua fé reformadora e converter-se ao catolicismo. E quer instruir-se na doutrina e procura um certo padre Tencin, que o toma a sério: agora que você pertence á nossa religião, pode finalmente ter a sua alma salva.
Ao que Law lhe replicou: que me importa a salvação da minha alma, já me contento em ter salvo a França.
E em lugar de França, Law poderia ter dito, salvar o sistema, salvar o sistema capitalista, está bem de ver.
 
 
Nos primeiros meses de 1720, e agora bom católico, John Law é nomeado controlador geral de finanças, cargo correspondente ao de ministro. Tal não impede que os corretores negoceiem as acções da companhia do Mississipi a preços cada dia mais baixos, enquanto os maiores proprietários de papel se vão apresentando a reclamar dividendos aos milhões.
 
 
A circulação fiduciária atinge valores astronómicos e a inflação produz os efeitos consabidos: o preço da moeda sextuplica e ao lado da grande massa de novos riquíssimos, aparece a quantidade ainda maior de novos paupérrimos.
Paris é tomada de ira.
 
 
John Law não desanima. Continua a acreditar no sistema. Impõe o curso forçado do papel. Mas cada vez maior é a procura de moeda sonante. Um édito proíbe aos particulares a posse de mais de 200 francos em contado. Não resulta muito. O valor dos luíses de ouro é artificialmente elevado. O negócio das acções da Rua Quincampoix continua e Law fecha a bolsa. E toma uma decisão: a companhia do Mississipi comprará e venderá a suas acções ao valor uniforme de 9.000 francos. E ninguém compra. E toda a gente vende. Para pagar, a companhia volta-se para a máquina impressora de notas.
 
 
Para apressar a revalorização (que tem sido vagarosa) da companhia do Mississipi e para cumprir o alvo proposto de fazer deslocar para a Louisiana mais 6.000 colonos brancos, John Law inicia, digamos, uma campanha de publicidade, distribuindo papeis com gravuras que provoquem as imaginações mais transbordantes e ingénuas.
 
 
Aquilo lá pelo Mississipi era um paraíso na terra. Os nativos índios apareciam prostrados diante dos homens brancos franceses, que por sua vez se enlaçavam nos corpos de belas índias. Os nativos selvagens eram retratados a converterem-se à fé católica e a receberem o baptismo. E a campanha, numa primeira fase, dá os seus resultados. E é aqui que entra o caso de Manon, o romance do Abbé Prevost.
 
                                                                                                  
O caso de Manon, em traços rápidos, é o caso de uma modesta e fútil rapariguinha da província que vem para Paris destinada a um convento para contrariar a sua queda para os luxos e prazeres da vida.

 
 
Se não fosse recambiada para o convento, Manon cairia em cheio no centro da balbúrdia parisiense do momento, no vórtice de uma cultura de facilidade, de dinheiro rápido e de estouvada diversão. Um jovem de boas famílias chamado Des Grieux encontra-se com ela e quando sabe que a querem mandar para o convento resolve raptá-la. Vão viver para um apartamento na Rua Viviénne. Fazem tenções de casar.
 
 
 
Uma outra personagem, Brétigny, rico, provavelmente frequentador dos jogos de bolsa da Rua Quincampoix, chega á fala com Manon, corteja-a, e informa que o cavaleiro Des Grieux nunca casará com ela, provinciana plebeia, visto que o pai do rapaz, o conde Des Grieux, o mandará em breve buscar para ele não caír na má vida da capital. Se o rapaz cair na má vida, bom, será deserdado. E se o rapaz, Des Grieux, deserdado, persistir em casar com ela, o que será a vida deles? Uma miséria, sem dúvida. Ele, Brétigny, pelo contrário, a uma palavra dela estará disposto a colocar-lhe aos pés toda a sua fortuna. Batem à porta.
 
 
 
De facto, os criados do conde apresentam-se. Vêm buscar o moço Des Grieux. Manon abre-lhes a porta e desaparece.
 
 
Para tentar esquecer Manon e ficar bem visto pelo pai, Des Grieux frequenta o seminário de Saint Sulpice e dá boas provas como pregador. Isto ao mesmo tempo que a bela Manon, sob a protecção do rico Brétigny, e cortejada por uma quantidade de ricaços libidinosos, frequenta o grande mundo das festas, do luxo, dos casinos, a grande vida com que sonhara ainda na província. No entanto, ainda pensa no seu primeiro amante.
 
 
 
Manon pensa tão intensamente em des Grieux que um dia resolve ir ter com ele a Saint Sulpice para o tentar. E é tão persuasiva que consegue os seus intentos e Des Grieux foge de Saint Sulpice e alinha com ela numa vida de dissipação.
 
 
Entretanto, a publicidade quanto a emigração para o Mississipi continua a dar alguns frutos e muita gente está pronta a embarcar na aventura da América.
 
 
Manon e o seu amante Des Grieux estão numa casa de batota chamada Hotel da Transilvânia. Precisam urgentemente de capital para manter o trem de vida reclamado por Manon. Des Grieux não vê saída pra obter dinheiro senão pela sorte das cartas. Só o jogo o poderá salvar da bancarrota. Sabendo que Des Grieux está a jogar, um outro ricaço admirador e pretendente de Manon, manda alguém avisar a polícia e o pai de Des Grieux.
 
 
No casino entra a polícia. Des Grieux é acusado de fazer batota ao jogo e é preso. O pai aparece e concorda com a prisão do filho. É a única maneira de furtar á degradação pessoal e a mais vergonhas e desonras para a família. Manon também não escapa e vai dentro.
 
     


Des Grieux é rapidamente libertado. Mas Manon fica presa. 
 
 
Ainda assim, o número de inscritos para partir a colonizar o Mississipi não satisfaz John Law. Ele não homem para escrúpulos e se é preciso salvar o sistema todos os meios são legítimos para conseguir esse fim – sim, esse fim de inventar mais e mais novos ricos seja à custa de que meios for…
 
 
John Law manda prender o maior número possível de desgraçados vagabundos que vivem nas ruas, moinantes, ladrões, prostitutas. A ideia é mandá-los para o Mississipi como colonos, procurando desenvolver os negócios da companhia, fazer subir o curso das acções na bolsa de Paris  assim conservar mais ou menos intacto o funcionamento do sistema.
         Entre as femmes galantes condenadas à deportação para a Louisiana conta-se uma tal de Manon Lescaut.
 
 
A história de Manon, obra-prima do romance setecentista, imortalizará na grande literatura a memória deste momento grandioso e miserável da História de França.
Na confusão dos arrebanhados para emigrar à força houve cenas para todos os gostos. Pegou-se em raparigas da vida e em miseráveis vagabundos e organizaram-se pares. Foram casados perante Deus e perante a lei e passeados e mostrados, cobertos de flores, pelas ruas de Paris. O capital não reconhece empecilhos de nenhuma ordem.
 
 
Mais de 5.000 indivíduos foram sequestrados, acasalados e embarcados à força para a Louisiana. Mas a estrela de John Law empalidecia. De semi-deus estava a uma unha negra de ser olhado como o demónio em figura de gente. Os inimigos começavam a retirar as máscaras, agora que as coisas lhe estavam a dar para o torto.
No dia 29 de Maio de 1720 os inimigos de John Law obtêm do regente Philippe d’Orléans a demissão dele do cargo de ministro das finanças reais.
 
                                                                               
 
O sistema de John Law parece moribundo. O dinheiro desvaloriza na ordem dos 50%. Law ainda decide que alguns títulos possam ser reembolsáveis em dinheiro vivo.
 
 
É na Rua Vivienne – precisamente para onde tinham ido primeiramente viver Manon e o cavaleiro Des Grieux – que a multidão se concentra para receber de volta, e ainda vivo, o seu rico dinheirinho. Tal é o ajuntamento e a desordem que há mortos por asfixia e por espezinhamento. Foi preciso fechar as caixas.
 
 
Um grande cortejo de manifestantes corre as ruas de Paris levantando nos braços um cadáver. Chegam às portas do Palais Royal.
 
 
A 10 de Outubro desse ano de 1720, as notas do banco régio, que ninguém quer, perdem por completo o valor. As acções da companhia do Mississipi caem fragorosamente. A carruagem de John Law é apedrejada. Em frente da sua casa da Place Vendôme há um clamor permanente de maldição e vingança.
Sou parecido com a galinha dos ovos de ouro – reflectia tristemente John Law. – Quando a matam todos percebem que ela não passava de uma galinha vulgar.
 
 
John Law é recebido pelo regente Philippe D’Orléans, que lhe diz: vós sois um dos homens mais honestos que alguma vez tive ao meu serviço.
No dia 11 de Dezembro, Law assiste, por bravata, a uma récita na Opera, e no fim do espectáculo parte em segredo para Guermantes, seis léguas distante de Paris.
 
                                                                                
 
A 20 de Dezembro, deixando a mulher e a filha, John Law, o escocês, o aventureiro, o jogador, o financeiro, abandona para sempre a França. Faltavam 60 anos para a grande revolução.
 
 
John Law viveu mais nove anos. Arruinado, errou por essa Europa, vivendo de um irrisório subsídio atribuído pelo governo inglês. Continuava convencido de que o sistema, o seu sistema, era bom, e que só a estupidez e a maldade dos homens o impediram de ter êxito.
 
 
Eu cá para mim diria que êxito ele, sistema, teve. Ou antes, teve o êxito que o sistema capitalista pode ter, enriquecendo uns por demais, à custa de outros, muitos mais, que empobrecem por demais, como aliás temos verificado nos nossos dias, e bem perto de nós.
         Diria – talvez seja disparate – que o sistema capitalista vai tendo sempre êxito, ou êxitos, que são provisórios, que são desigualmente distribuídos.
 
                                                                      
 
Deve fazer parte da natureza mesma do sistema o acumular êxitos até à crise de esgotamento, vencer essa crise, sempre fortemente ajudado pelos poderes do Estado, e continuar a somar êxitos até à próxima crise, quando os poderes do Estado lhe deitarem a mão outra vez e o reerguerem de novo para o êxito. E o êxito do sistema é de tal monta que ninguém parece interessado em mudar de sistema.
 
 
Será que não há outro sistema de vida económico-financeira capaz de ter tanto êxito, ainda que provisõrio, e cíclico, e renovável, como o sistema capitalista?
O sistema aventureiro e capitalista de John Law assegurou algumas evidências que ao longo da História obviamente se repetiram como uma obsessão: os grandes senhores podem ser, conforme a ocasião, uns perfeitos patifes e ladrões; os criados, os lacaios, podem transformar-se em milionários de um momento para o outro; as grandes fortunas burguesas podem desfazer-se em pó antes da meia noite; a sorte pode ser boa substituta da previdência.
 
 
Mas na grande maré do sistema de John Law, a cidade de Paris foi-se tornando na cidade sumptuosa que hoje se conhece, e graças ao empreendedorismo e aos rápidos ganhos milionários. Assim se foram construindo os grandes boulevards e os bairros habitacionais em terrenos até então baldios.
 
 
Alguém escreveu: de tudo isso resultou o enriquecimento dos oportunistas sem escrúpulos, grandes e pequenos, resultou a ruína da classe média, a mais honesta e a mais útil de todas, e confundiram-se estatutos e condições sociais, corromperam-se os costumes e alterou-se o carácter nacional.
 
 
O cavaleiro Des Grieux tornou a fugir à família na ideia fixa daquela mulher e à força de sacos de dinheiro e subornos ao pessoal de bordo conseguiu embarcar na companhia da sua paixão, auto-deportando-se para a Louisiana. E chegaram ambos à Louisiana. Manon é que não resistiu às condições de vida e de degradação e morreu nos braços do amante.
 

 

domingo, 27 de dezembro de 2015

                       AS AVENTURAS DO DINHEIRO
 
Uma inferição pouco comum, com respeito a dinheiro e à moral dele: os homens do dinheiro, os financeiros, sempre e sem descanso procuraram fórmulas e motivos que excitassem a euforia no povo miúdo.
Estamos num tempo que em pontos de ordem financeira talvez nenhum de nós esperasse um dia viver. Tempos e costumes que se contêm numa sinistra palavra que nunca contámos pronunciar a nosso respeito por ser mais própria de tempos remotos ou de temas de ficção. E essa palavra é bancarrota. Instituições em bancarrota. Países em bancarrota. Coisas do passado que se lêem em romances.
E à colação da bancarrota vem um nome que fez história nas vidas económicas e financeiras internacionais do século XVIII; John Law, escocês, batoteiro, visionário, genial, percursor da vida aventurosa e fictícia do capital financeiro.
 

 
Vamos lá a ver se lhe consigo contar capazmente esta história moral.
John Law nascera em Edimburgo 44 anos antes da morte de Luis XIV. Era filho de um ourives. Era um barra em matemática.
Quanto ao aspecto, este John Law, dizem, era uma figura elegante, de traços aristocráticos, expressão desenvolta e maliciosa, muito apreciado pelas mulheres. Ponto fraco? O jogo. Ponto fraco e ponto forte, quando ganhava, está bem de ver. E no jogo, Law era um daqueles científicos, racionais, um calculista das probabilidades, bom em matemática como ele era. Gabava-se da infalibilidade de umas martingalas, um dobrar de paradas sobre o pano verde. Mas apesar disso perdia muito dinheiro.
 
 
Vai de Edimburgo a Londres e prossegue na vida de casinos e de conquistas femininas. Por causa de umas saias disputadas com um elegante londrino, bate-se com ele em duelo e mata-o. É preso. É condenado à forca.
Mas a corte que o julgou pensa melhor no caso e admite que um duelo não pode ser caso de forca. E mais importante do que isso, John Law, através de algumas senhoras com quem se relacionara, dispõe de conhecimentos grados e preciosos no mundo judiciário, e acaba por ser o rei Guilherme III a conceder-lhe um perdão e a devolvê-lo à liberdade. O mais aborrecido é que o irmão do assassinado também tem uns pauzinhos influentes para mexer, e recorre, ao abrigo de uma lei escocesa, de onde se segue que John Law vai de novo bater com os costados na enxovia.
Mas não aquece o lugar nos calabouços. Evade-se. Só pára em Amsterdão. Como é que sobrevive em Amsterdão? À pala do jogo, claro. Começa finalmente a ganhar.
John Law ganha muito dinheiro ao jogo em Amsterdão. E estuda o funcionamento da banca da cidade. E começa a especular em câmbios, aproveitando as facilidades que o Banco de Amsterdão lhe dá. Internacionaliza-se. Especula sobre as casas bancárias de toda a Europa. Percebe que aprendera a dominar certas técnicas financeiras e ala de Amsterdão.
Fixa-se por um tempo em Itália, para voltar à Escócia em 1700 e propor ao parlamento de Edimburgo um mirífico esquema financeiro que duplicaria a riqueza nacional.
 
 
O plano de Law é rejeitado pelos escoceses e ele parte para Londres. Depois para Bruxelas. Chega a Paris. De casino em casino vai travando conhecimentos, ganhando, perdendo, esbanjando, até encontrar no duque de Orléans, sobrinho do rei, um companheirão de estroinices.
 
 
O príncipe deixa-se fascinar com as ideias de Law quanto a dinheiros públicos. Ficam amigos. DOrléans faz questão em que o amigo escocês apresente as suas ideias inovadoras a Camillat, controlador geral das finanças do reino.
Camillat ouve John Law com toda a atenção e expõe o plano a Luís XIV, que dá a ideia de não ir muito fora dele, mas que solta um grito de horror quando se apercebe de que o autor daqueles planos é um huguenote um protestante.
 
 
- Não e não. Palavra de rei!
- Ah, pois é, huguenote… mas ouça majestade…
- Não, já disse! Que é lá isso, menino? Ai que temos o caldo entornado. Palavra de rei. Não é não. E ainda te digo mais: não seria mau que esse huguenote fosse amarrando a trouxa e se pusesse a cavar destes reinos o mais depressa possível.
Mas Luis XIV já estava com os pés para a cova. Há quem aconselhe Law a ir-se deixando ficar, o rei estava por um fio. E Law, inconformado, insiste: o meu sistema financeiro precisa da França e a França, já percebi, precisa do meu sistema financeiro é muito simples
Mas mesmo assim Law deixa Paris.
Luis XIV agoniza. John Law está na Hungria. Recebe certo dia notícias de França, e a primeira coisa que faz é fretar uma carruagem que o leva a Paris. Quando chega, Luis XIV está morto.
 
 
No dia 1 de Setembro de 1715, o rei Luis XIV entregou a alma ao Criador e uma esperança nova, uma esperança de regeneração, cresceu no coração dos franceses. A morte do rei é sentida como uma libertação das submissões aos velhos métodos de governo, é uma oportunidade aberta a novas experiências. Abaixo a velhada. Viva a juventude.
 

 
Luis XV tem 5 anos. Não pode governar. A França, liberta do velho rei, sonha com uma nova vida de prosperidade e de festa, e quer na regência do reino, a conduzi-los na nova vida, alguém desempoeirado, ousado. E esse alguém vai ser o regente do reino, o duque Philippe dOrléans. Que tem 41 anos. Que é sobrinho do falecido monarca; falecido monarca que, por sinal, nunca o quis perto dos negócios de Estado.
 
 
Philippe dOrléans era homem empreendedor, ainda que marginalizado pelo tio, ainda que desempregado régio que se virara para a má vida, os copos, o jogo, as zaragatas, os duelos, as aventuras, certamente para desafogar a sua energia vital. Nunca esquecendo, entretanto, a sua condição de príncipe de França.
 
Elevado ao poder, Philippe dOrléans não se esquece dos seus companheiros da boa vida e nomeia alguns deles altos dignitários e ministros, a começar pelo 1º ministro, um certo abade Dubois, e a continuar num intelectual honesto, o duque de Saint Simon.
E por aqui se começa a produzir uma reviravolta nos sistemas e estruturas de governo. Secretários de Estado ao ar, e em lugar deles conselhos senhoriais o duque de Noailles à frente do conselho de Finanças.
 
Às finanças do reino deixara-as Luix XIV em mísero estado, um descalabro total. A dívida pública orçava pelo bilião e meio de francos verba descomunal para o tempo. Os cofres régios (ao contrário dos de Portugal em 2015) estavam vazios. Os títulos do tesouro só eram aceites por 20 ou 30% do seu valor nominal. O esquema de cobrança de receitas do Estado estava num caos. Os impostos eram irregularmente distribuídos e só uma parcela deles entrava nos cofres reais, perdendo-se o restante nas bolsas de oportunistas, traficantes e intermediários – não, não é, é a França de 1715. Noailles organiza uma câmara de justiça para rever e reformular um a um todos os processos, todas as contas, todos os enriquecimentos havidos a custa dos dinheiros do Estado.
    Não houve bancarrota. Houve falências sortidas.
É no dia 24 de Outubro de 1715 que John Law comparece perante o conselho de finanças de França e expõe as suas ideias. O discurso é claro, nítido e caloroso, qualidades discursivas que sempre dispõem bem quem ouve, que sempre dispõem à euforia, como é próprio do capital e do lucro rápido e fácil.
Todavia, o duque de Noailles sente-se tolhido de preconceitos. São as ideias de Law que lhe soam algo demasiado novas e quiméricas, por um lado; por outro, faz-lhe confusão partilhar o poder das finanças régias com um estrangeiro.
O ponto essencial, para Law, era centralizar. Criava-se um banco régio onde todas as receitas do Estado seriam concentradas. Esse banco central passaria a emitir títulos que seriam entregues em pagamento a todos os credores do Estado, os quais, credores, teriam sempre a alternativa de trocar esses papéis por dinheiro contado.
Reza a acta da reunião o seguinte: o senhor Law pretende que toda a gente seja atraída para a posse destes títulos bancários mais do que por moeda sonante, em vista da facilidade maior de pagamentos em papel e pela certeza de receber sempre que desejar.
 
 
Law é que esconde uma parte do jogo. Não fala das despesas e dos riscos de transporte de sacos cheios de dinheiro. Não fala na sua ideia de multiplicar os símbolos monetários muito possíveis de confundir com riqueza e património reais. Ainda assim, não convence o conselho de finanças. Não era aquele o momento mais próprio para levar a cabo experiências arriscadas. Mas John Law não desanimava por tão pouco.
John Law manobra, suborna, bajula, seduz, tenta capitalizar para a sua ideia as acrimónias que havia entre os membros do gabinete do regente, fala do gosto pela novidade que era a marca cultural da sociedade depois da morte de Luis XIV.
 
 
Até que em Maio de 1716, no dia 2, o duque de Orléans o autoriza a criar um banco, não régio, um banco privado, chamado de banco geral, com um capital de 6 milhões divididos em 1.200 acções nominativas de 5.000 francos cada. O banco beneficiará do privilégio de poder emitir títulos de todo o numerário depositado nas suas caixas. Tais títulos serão valorizados não em francos correntes mas numa outra moeda que se chamará escudo ou escudo bancário.
Nunca mais ninguém quereria negociar sem ser em escudos bancários que representavam um peso real e constante em metal, ao contrário do suporte do franco, sempre a diminuir na sua correspondência com os valores em ouro e prata. E como este banco geral auferia de uma honesta corretagem sobre as operações que fazia, os lucros começaram a ser substanciais, a pontos de poder, ao cabo dos primeiros seis meses, oferecer aos accionistas uns bons 7,5% de dividendos.
 
 
O regente do reino anda contente que nem um rato. O duque de Noailles finge-se rendido aos estratagemas de Law e convida os credores da coroa a deixarem-se ressarcir em títulos do banco geral.
John Law, se não inventava, pelo menos punha em acção a modalidade financeira da emissão de títulos do tesouro. Pensa num banco de negócios. Mas o capital do banco geral, para Law, era um capital adormecido. Era preciso acrescentar-lhe movimento, inventar-lhe uma aventura financeira de maiores proporções.
 
 
Desde 1682 que a França possuía, pelo menos teoricamente, as terras do vale do Mississipi, na América, um território imenso que ia do golfo do México ao Canadá. Tinham-lhe chamado Louisiana, honrando o rei Luis XIV. Falava-se de mirabolantes riquezas de ouro e esmeraldas escondidas no subsolo. E era, além do mais, um espaço onde, em 1716, não havia mais do que duas centenas de colonos franceses. John Law, o nosso financeiro, pensa no assunto.
E tanto pensa no assunto John Law que entrevê ali uma excelente ocasião de desenvolvimento dos dinheiros do seu banco. O direito de exploração do território fora dado a um negociante parisiense chamado Antoine Crozat, que dessa concessão não sacara ganhos que se vissem e que por isso a ela renunciara.
Law vê o furo, O caminho estava aberto à ousadia aventureira do capital. Era urgente fundar uma companhia, uma companhia do ocidente, para tomar o lugar do tal Antoine Crozat e explorar as riquezas do vale do Mississipi. Um privilégio real é obtido, ainda que à custa de algumas restrições.
A companhia do ocidente, por 25 anos, ficaria com o monopólio do comércio com a Louisiana. Porém, o capital da companhia, 100 milhões de francos, seria integralmente subscrito em títulos do Estado e em condições de paridade.
 
Acontece que tais títulos haviam perdido 70% do seu valor, donde, o capital de 100 milhões se ficar por uns tristes 30 milhões. Mas a companhia avança. Quase sem capitais. Apenas com uma receita de 4 milhões cerca de 10 milhões de francos novos.
Com meios tão exíguos, como seria possível à companhia do ocidente valorizar um território tão desmesurado como o da Louisiana? Law sabe dos perigos, mas, jogador, tem uma confiança inaudita na sua sorte.
Começa a construir-se uma frota marítima. Reúnem-se os contingentes de futuros colonos franceses da América, arregimentam-se soldados. São prometidos condados e ducados americanos aos aventureiros que queiram embarcar em mais esta novíssima aventura do capital financeiro em movimento.
 
A 9 de Fevereiro de 1718 é nomeado um governador. Chamava-se Jean Baptiste Lemoyne, era senhor de Brieuville, era homem teso, oficial da tropa, de origem canadiana.
 
 
Em Junho de 1718, 800 novos colonos e soldados desembarcam nas costas da Louisiana. 68 deles são escolhidos pelo governador para habitar um lugar selvagem e pantanoso, mas muito bem situado, nas margens do Mississipi. E era bom que se desse um nome ao sítio. Qual é que há-de ser? Talvez um nome que fosse uma homenagem ao regente do reino e padrinho da aventura, o senhor duque de Orléans. Olha, calha bem. Está dito. O sítio fica a chamar-se Nova Orleans.
 
 
John Law, o escocês, o jogador de casino, é o imperador do novo mundo.
 
 
Cantou assim uma velha índia, ao ver abaterem-se as árvores que serviriam de matéria prima à construção das primeiras casas da Nova Orléans: diz-me o Grande Espírito que tempos virão em que entre o rio e o lago haverá tantas casas habitadas por homens brancos quantas as árvores que crescem nesta floresta.  
Os custos da colonização eram astronómicos. Quem andava pior do que uma barata era o conselheiro das finanças do reino, o duque de Noailles. Mas o regente continuava embalado na conversa de John Law e substituía o Noailles nas finanças. Law marcava pontos. O problema era o parlamento de Paris. Mas Law todo ele era companhia do ocidente, todo ele era Nova Orléans. Todo ele era Mississipi.
 
 
O negócio das acções da companhia do ocidente corria numa pequena rua chamada Quincampoix, no bairro dos ourives e dos cambistas.
De princípio, as transacções eram feitas em lojas, mas rapidamente essas lojas foram pequenas para tanto movimento e o comércio das acções passou para o meio da rua, que por acaso estava interdita a trânsito de carruagens. A pequena rua Quincampoix transformava-se na Bolsa de Paris.
 
A confusão era muita. As desordens não eram raras. Foi preciso vedar as extremidades da rua com grades de ferro e pôr piquetes de soldados a guardá-las. Um pobre corcunda ganhou rios de dinheiro só por alugar a sua corcunda como escrivaninha aos agiotas com pressa de trocar assinaturas.
 
 
John Law vai apimentar o jogo fazendo saber que ele mesmo, em pessoa, irá adquirir um grande pacote de acções acima do preço do momento e só pagáveis a três meses.
 
 
É nesta ambiência de euforia e ganância que vão começar a acontecer histórias desgraçadas, uma delas a triste história de Manon, Manon Lescaut, que o Abbé Prevost verteu em romance best seller do séc. XVIII e que Massenet e Puccini puseram em música.
      Mas claro que os lucros da empresa do Mississipi só apareceriam a prazo muito alargado. Law sabia disso. E queria benefícios imediatos. Para tanto, manobrou de forma a que outras companhias se fundissem com a sua. Em concreto, as velhas e moribundas companhias de comércio ainda do tempo de Luis XIV, a companhia do Senegal, a companhia das Indias ocidentais, a companhia da China.
Parecia suficiente, mas não lhe chegava. John Law consegue fazer-se adjudicar outras concessões, como a do fabrico de moeda, ou o contrato do tabaco. Tudo reverterá em investimento da companhia do Ocidente, que toma então o nome de Companhia das Ìndias.
 
 
O curso e a cotação das acções sobem, de dia para dia, de hora para hora. Ganham-se fortunas colossais em poucos dias. Há lacaios cheios de sorte e de esperteza bolsista que se tornam milionários do dia para a noite.
 
 
E as novas do Mississipi chegavam a Paris envoltas num aroma exótico e encantatório de Eldorado.
 
A especulação estava a acelerar. O jogo dos títulos da companhia do Mississipi, em risco, em aventura, em adrenalina, deixam os jogos de casino a perder de vista, como ingénuas brincadeiras de garotos.
 
 
Voltaire escreveu: é um jogo novo e prodigioso onde todos os cidadãos jogam uns contra os outros.
O caso Manon Lescaut vem já a seguir neste blog.