terça-feira, 2 de maio de 2017


 O MEU ENCONTRO COM MARIO VARGAS LLOSA
 
       Por uma manhã de sábado do pretérito Outubro, depois de uma inspecção aos bouquinistes do Chiado onde comprei um romance que muito tinha ouvido gabar mas que nunca me caíra nas mãos, Bouvard et Pécuchet (de Flaubert), resolvi sentar-me na esplanada da Bénard para tomar um café e comer um croissant.
 
 
       E então sento-me. E quem é que eu vejo sentado na mesa mesmo ao lado da minha? Mario Vargas Llosa.
 
 
       (A vizinhança de uma celebridade pode ser irresistível para os importunos.)
       Não acreditei às primeiras. Não. É parecido. Se fosse irmão não seria tão parecido com ele. Que diabo poderia estar a fazer o Prémio Nobel Vargas Llosa em Lisboa, na esplanada da Bénard, por um sábado de inverno às onze e tal da manhã?
 
 
       Mas era mesmo.
       Era, “o olhar límpido de quem viveu reconciliado consigo mesmo” – pelo que li num artigo a ele dedicado no Magazine Littéraire.
       Meto conversa? A propósito de quê? Ah, senhor Vargas Llosa, sou um grande admirador seu, li todos os seus livros e adorei!
Não seria totalmente verdade. Admirador, sim. Descobri-o, e dos primeiros livros que li dele gostei, sim senhor, muito. Anos 70. E depois, mais nada.
 
                                                                                                           
 
       Meto conversa? Quem me garante que ele não é tão antipático como o Nobel Saramago, como o Vergílio Ferreira? Ou como o seu ex e já falecido amigo Garcia Marquez – pelo que me disseram dele mesmo lá na Colômbia – e me responde torto?
       O senhor tinha acabado de tomar o pequeno-almoço e concentrava-se na leitura do El Pais.
 
 
       Fato cinzento formal, camisa branca sem gravata. Sem parecer a idade que seguramente tem. A melena grisalha insubmissa como na juventude.
       Pergunto-lhe pelo pai, mecânico de rádio, que não levava à paciência ter casado com uma mulher com fumos de aristocracia? Não, claro, seria de mais.
 
                                    

       Evoquei para mim os livros dele que tinha lido nos distantes anos 70. A Conversa na Catedral, que adorei, diga-se de passagem. Pantaleão e as Visitadoras, idem. E depois? Menos. Nada. Sim, mais nada, que me lembrasse. E do último que li, O Falador, que, sinceramente, não gostei.
 
 
       E porquê, Don Mario, essa propensão para casar em família – logo aos 19 anos, com a tia; e depois com Patrícia, prima? Gostava de lhe perguntar, confesso, no caso de decidir meter conversa, mas falecer-me-ia a coragem para tanto.
 
 
 
Podia falar-lhe da admiração comum por Faulkner. Podia.
De certeza absoluta que ele não iria confidenciar a um desconhecido estrangeiro que escrever era para ele razão bastante para viver e escapatória para o desespero. São coisas que se dizem nas entrevistas e pronto. Nem me diria que um escritor não deveria ter vergonha de se envolver na acção politica como foi o caso dele – ah, comprei por acaso na latinamérica El Pez en el Água, as memórias dele quando metido nessa acção politica, enquanto candidato presidencial; está para ali esquecido, nem me lembro de o ter sequer folheado.
 
                                                                             
 
Não. Fosse mais novo... talvez. Talvez metesse conversa sem grande cuidado quanto à recepção dele, como conversa descaradamente meti noutros tempos com algumas celebridades, todavia não-literárias.
E então tirei do saco o meu Flaubert, coloquei-o sobre a mesa. Chegou o croissant. Folheei o livro. Comecei a trincar o croissant e com a morbidez adocicada chegou-me uma ânsia.
Vou falar-lhe. Tem que ser. Em todo o resto da minha vida não comerei mais croissant algum ao lado de um Prémio Nobel.
 
 
Vou falar-lhe e estou-me nas tintas se ele me receber mal, e não lhe digo o que penso da produção actual dele, que me parece mais uma operação comercial, acontece com todos os escritores que sobrevivem demasiado em fama e proveito. Vou falar-lhe. E só Conversa na Catedral. E só Pantaleão e as Visitadoras. E só A Casa Verde.
 
 
E lembrei-me a tempo. Não, não vou falar-lhe coisa nenhuma. Lembrei-me a tempo da minha viagem à Colômbia na honrosa e exagerada qualidade de conferencista, e da minha estadia de dia e meio em Cartagena de Indias, quando uma amiga chegada de Garcia Marquez me perguntou se gostaria de o conhecer e de falar com ele. E eu disse imediatamente que sim, entusiasmado. E bruscamente aterrado. Quem era eu? O que é que eu poderia dizer de interesse a Garcia Marquez? Que interesse teria Garcia Marquez em falar comigo, em dizer-me qualquer coisa.
 
 
Felizmente, Garcia Marquez não estava em Cartagena, embora fosse dali e tivesse lá um palacete. Estava no Máxico onde residia na maior parte do tempo. Ainda bem. Livrei-me de passar uma vergonha.
 
 
Vou falar a Vargas Llosa. Eu? Não, não lhe vou falar. O croissant começava a enrolar-se-me na boca.
Chegou o café. Folheei o livro – sim, duas vezes. Vá lá, três vezes. Folheei o livro. Bebi o café. (Exercício breve de escrita estática.) Olhei para o movimento da rua – e pelo canto do olho para a celebridade, interessado no El País. Folheei o livro acabadinho de comprar.
 
 
E de repente lembrei-me. Lembrei-me de ter lido há anos uma entrevista em que ele se considerava um flaubertiano, e que, como Flaubert, acreditava que escrever era uma maneira de viver, e era a maneira de viver dele, que não conhecia outra, que nem mesmo concebia a ideia de outra maneira de viver que não fosse a escrever.
Acredito. E concordo. Na minha miserável insignificância de assistir impotente à passagem do tempo cada vez concordo mais.
 
 
(Tão gira que era, a Patrícia, e está um cavaco...)
E fechei o meu Flaubert. E guardei-o no saco. Por cima da folha do El País ele podia ter reparado no livro e ter pensado “este sacana deste português, leu nalgum lado que sou um flaubertiano, foi comprar um Flaubert e sentar-se nesta mesa mesmo ao lado da minha para me provocar e não tarda nada está a meter conversa comigo a pretexto do Flaubert, e portanto deixa-me cá pagar a conta, dar corda aos sapatos e pôr-me na alheta para não ter que o aturar.”

                       

Não sei. A verdade é que não se levantou. Não pagou. Só virou mais uma página do El País.
 
 
E quanto ao murro inexplicável aplicado em público no nariz do seu então grande amigo Gabo, grande camarada desde os tempos encantados de Havana, do realismo mágico, de Barcelona? Porquê? Política? Porque Gabo andava a fazer-se com a Patrícia? Porque Gabo lhe roubara alguma ideia romanesca?
Nunca se soube. E se eu lhe perguntasse e ele se descaísse a contar essa história proibida a um ancião desconhecido de Lisboa?
 
                                                                            
 
Traga-me outro café, se faz favor. Não, não quero mais nenhum croissant.
A que propósito meter conversa com Mario Vargas Llosa num sábado de sol lisboeta? Porque não deixar o homem acabar de ler em paz o seu El País?
Por que despautério de vida os anónimos da rua sentem tanta necessidade de chegar à fala com os famosos. Para se tornarem menos anónimos? Calcula tu que estive esta manhã a conversar com o Mario Vargas Llosa – e a réplica cada vez mais possível do amigo ou amiga: quem é o Mario Vargas Llosa?


                                                                                    
 
Consta que é um bom orador, um bom conferencista. Recordo uma conferência lida – suponho que era uma conferência, publicada em português num livrinho curto e estreito – em que ele, se não estou confundido, ainda em princípio de celebridade, admitia não ser um talento espontâneo, um escritor inspiradamente torrencial, literariamente ejaculante. Antes pelo contrário, suava as estopinhas, era um trabalhador da escrita. Um trabalhador disciplinado, todos os dias à mesma hora sentadinho à mesa de trabalho como um colegial. À espera. Da inspiração, digamos assim. A tentar laboriosamente o torneio de uma ou duas frases que nem sempre lhe saíam a gosto. A acabar a jornada com a produção de uma página de romance, o que já era um avanço. E no dia seguinte ali caído outra vez. À espera. Da inspiração.
Que pachorra…
 
 
Como me dizem haver pintores que não têm jeito para o desenho (custa-me a crer), também deve haver escritores com pouco jeito natural para escrever… 
De facto, nunca o achei um puro e instintivo contador de histórias, à imagem – por exemplo - do seu confrade Garcia Marquez.
 
 
Vou falar-lhe de política. Foi o que pensei. Não o fiz. Não me apetecia. Vejo-o como um homem da direita correctíssima – passadas depressa as primeiras ilusões castristas – um vulgar neo-liberal de ideias correntias, muito aceitável nas colunas dos jornais do sistema. Pode ser que não seja.
E se não for? Não me interessa na mesma.
 
                                                             
 
O que interessa, Don Mario, é a voz narrativa, os segredos da voz narrativa. Quem conta a história? A pergunta que se deve colocar também o compositor quanto à tonalidade com que vai iniciar o seu novo quarteto de cordas.
Que me diz a isso, Don Mario? Narrativa na primeira pessoa? Narrativa na terceira pessoa? Nas duas?
 
 
Eficácia diegética. Expressividade. Desenho das personagens. Velocidade de escrita – para a velocidade de leitura. Clareza. Obscuridade. Rigor. Caos.
 
 
Adivinho que me irá dizer que o narrador pode ser exterior à intriga. Prevejo que me diga até mais: que nem fará mal nenhum, até pelo contrário, que uma história possa ter mais do que um narrador. E nem me admiraria se me dissesse, quanto ao tempo narrativo e ao tempo real, que não está escrito em lado nenhum que eles tenham que coincidir – mas o povinho leitor gosta das histórias bem arrumadinhas, clarinhas e cronológicas. Essa é que é essa.
 
                                                                                                 
 
O tempo psicológico, sim, percebi, a subjectividade humana que todas as maravilhas pode operar no espaço romanesco, as emoções, claro, já o ouvi – ou antes, já o li, com respeito a estas matérias, não precisamos de falar mais nisso, logo agora, aqui, na esplanada da Bénard, por um sábado de sol agreste…
Como? Já vai? Que horas serão isto? Quase uma da tarde.
Fecha e dobra meticulosamente o El País. Até mais ver, Don Mario, foi uma conversa muito interessante. Acolhe com afabilidade o empregado que lhe traz a conta. Paga. Afinal parece simpático. Terei pedido alguma coisa por não ter metido conversa – conversa real, digo.
 
 
Levanta-se. É alto, direito, desempenado. Pela figuraça nada me diria que andasse perto dos oitentas.
Ah, é verdade, Don Mario, seu maroto, esse romance com a socialite espanhola, parece impossível, com a sua idade, deixar a Patrícia, Don Juan peruano de uma cana, para o que lhe havia de dar…
 
 
Detém-se um minuto numa montra de sapatos de luxo, ao lado da Brasileira. Encaminha-se para os lados do Camões. É capaz de estar aboletado naquele hotel de charme
 
 
 (E agora, passadas algumas horas, me lembro de que Mario Vargas Llosa era para vir fazer uma conferência a Lisboa. Sobre quê? Não sei. Já teria feito naquela manhã de sábado? Não sei. Não averiguei.)
Uma história principal pode ocultar no seu íntimo uma quantidade de histórias. Técnica, técnica, Don Mario.
 
 
Caminha calmamente. Ninguém o reconhece. Ou pelo menos ninguém o interpelou até o ter pedido de vista para lá do quiosque, perto da igreja dos italianos
Pude então folhear o meu Flaubert sem receio de mal entendidos.
 
 

segunda-feira, 3 de abril de 2017


        SOU ESCRITOR, UTILIZO TUDO
 

 
                    

 
Truman Streckfus Persons recebeu os entrevistadores da Paris Review no seu elegante e restaurado apartamento de Brooklyn Heights. Uma sala decorada ao consabido e refinado gosto do locatário, objectos de arte espalhados por cada superfície, um ovo de Páscoa dourado trazido da viagem à Rússia, um estojo Fabergé, um grande cão de ferro, frutos azuis em cerâmica, centenas de artísticos pisa-papeis, fotografias, colecções emolduradas de selos de correio de todo o mundo…
 
                                                   
 
 
Ouviram-se uns pesados passos no soalho e apareceu um enorme buldog branco.
 
 
Truman Streckfus Persons, aliás Truman Capote, era um homem pequeno e ruivo, de teimosa mecha de cabelo a caír-lhe sobre a testa e um sorriso simpático. 
                                                                                 
 
Quando é que o senhor começou a escrever?
Quando tinha uns dez, onze anos e vivia em Mobile.

 
Truman Capote é por muito boa gente considerado um escritor menor, comercialão até, frívolo, mundano, oportunista. Quanto ao escritor menor, pessoalmente, não sou dessa opinião. Quanto ao resto… é capaz de ser verdade, mas não é o mais importante. Muita da popularidade de Truman Capote adveio-lhe da adaptação ao cinema da preciosa novela Breakfast at Tiffany’s – que deu um filme titulado em português como Boneca de Luxo – um filme também delicioso, com uma Audrey Hepburn no máximo esplendor do seu estilo.
 
 
Capote talvez seja, na minha opinião, mais um contista do que um romancista de grande fôlego. Talvez daí a sua imerecida reputação de superficial e ligeiro. Na aparência talvez sim. Mas é preciso adentrarmo-nos nessas aparências de facilidade e descobrirmos por nós mesmos a riqueza de pormenor no desenvolvimento psicológico das personagens e da pintura requintada dos ambientes para nos rendermos à arte de Truman Capote.
 
 
Eu estava absolutamente certo de que queria ser escritor, mas não estava absolutamente seguro de que o seria realmente antes dos meus quinze anos. Enviava contos a revistas, tanto literárias como populares… e, deixe que lhe diga uma coisa: não há escritor, por mais célebre, que se esqueça desse dia em que pela primeira vez lhe aceitaram um trabalho para publicar. Mas como eu ia a dizer… um belo dia, pelos meus 16 anos, recebi a primeira, a segunda e a terceira aceitações no correio do mesmo dia. Digo-lhe que saltar de prazer não é, ah não, não é, uma simples frase.
 
 
Contos. Contos. As ambições de Capote andavam sobretudo em volta desse género. Como Faulkner, também ele considerava o conto como a prosa literária mais difícil e mais rigorosa. E todo o controlo técnico que na idade madura Capote possa ter adquirido devia-o ao seu treino no género conto.
 
 
Controlo? O que é controlo?
É manter o domínio estilístico e emocional sobre a matéria literária. Um conto, refere ele, pode ser arruinado pelo ritmo impróprio de uma oração. Por um erro de paragrafação. Até por um descuido de pontuação. Chama a Henry James o mestre do ponto e vírgula. Chama a Hemingway o mestre do parágrafo. E admite que Virgínia Woolf nunca tenha escrito uma oração imperfeita.

     
 
Truman Capote começa a fazer falar de si em 1948, logo no seu livro de estreia, Outras Terras Outras Gentes  em português; Other Voices Other Rooms no original.
 
                    

Manteve o seu nome literário em alta com Harpa de Ervas, de 1951. E mais uma série de títulos relativamente famosos, até ao romance sem ficção A Sangue Frio, baseado num caso real de homicídio numa cidadezinha da América profunda.


 
Depois desse formidável triunfo literário – e social – suponho que de 1966, nunca mais Capote produziu nada de grande envergadura, a não ser recolhas de reportagens, crónicas e contos esparsos.
Dominar a técnica do conto. Eis a questão. Cada história, naturalmente, apresenta as suas próprias dificuldades. O que haverá a descobrir para bem escrever um conto é a forma mais natural de o fazer. Ou seja, um leitor, após a leitura de um conto, poderá perguntar-se se haveria uma outra maneira de contar aquela mesma história, ou se aquela forma que acaba de ler é a versão literária definitiva de uma ideia.
 
 
Dou-lhe um exemplo. Uma laranja. Uma laranja é uma forma definitiva. A natureza cria uma laranja da única forma que poderia ter uma laranja. Indiscutível.
E para cada um melhorar a sua técnica de escrita só existe um meio: o trabalho.
Capote a falar: a criação literária tem leis de perspectiva, de luz e de sombra, como a pintura ou como a música. Se se nasce a sabê-las, óptimo. Se não se nasce com elas sabidas, só resta aprendê-las. E adaptá-las às conveniências do próprio.
 
 
Joyce, segundo Capote, era inimigo jurado das regras estrictas. Todavia era um consumado artífice. Só pôde escrever Ulisses porque antes tinha escrito Dubliners.
E se um escritor pensa que escrever contos é mais uma maneira de exercitar a mão, ah, desenganem-se, quer dizer que esse escritor pode estar a fazer tudo menos a exercitar a mão.
 
 
Como bom escritor americano, Truman Capote teve vários ofícios. Nasceu no Sul. Criou-se no Connecticut.

 
Foi leitor de guiões de cinema. Foi dançarino num barco de carreiras fluviais e foi moço de recados na redacção do magazine The New Yorker. E aos 19 anos ganhou um prémio literário, o prémio O.Henry, para as chamadas short stories, contos curtos. Estímulos nos meus primeiros anos de escrita? Um ninho de víboras negativas, isso sim. Mas algumas afirmativas.
É. Os artistas adoram chorar-se…

 
A infância e a juventude de Truman Capote decorreram entre gente de fraco índice educacional e cultural. Foi mau, por um lado. Foi bom, por outro. Porque desde cedo o endureceu para a vida e para, como ele diz, remar contra a corrente. Diz que nesse tempo aprendeu a grande arte de lidar com os inimigos, não menos indispensável do que a de saber apreciar os amigos.
 
 
Capote foi mau… foi péssimo aluno. Desprezava a escola. Chumbava ano após ano nas matérias mais simples, por aversão, por náusea. Faltava às aulas. Saía de casa por temporadas. Uma vez fugiu com uma amiguinha sua vizinha, mais velha do que ele, e que mais tarde conseguiu certa fama nacional por ter assassinado uma dezena de pessoas e ter morrido na cadeira eléctrica na prisão de Sing Sing, sob a alcunha de “a assassina corações solitários”.
 
 
O director da escola de Truman foi ter com os pais para lhes dizer que, tal como todos os outros professores, considerava o filho um correço, um rapazinho sub-normal. Podia ser melhor matriculá-lo numa escola de ensino especial, para crianças com handicap.
Os pais ficaram ofendidíssimos e quiseram provar à vizinhança e aos professores que o filho não era nenhum deficiente. Foram com ele a uma clínica de estudos psicanalíticos numa universidade do Oeste. Examinaram-no. Testaram-lhe a inteligência. E Truman diz que regressou a casa proclamado génio pela ciência. O seu quociente de inteligência era acima da média.
 
 
Truman não sabe dizer quem terá ficado mais aturdido com os resultados do teste, se os professores se os próprios pais – que na realidade apenas queriam ter um filho que fosse um rapazito simpático e normalíssimo.
E desde então, cada vez que passava diante de um espelho olhava para mim mesmo e dizia-me… pois é verdade, rapaz… tu e o Flaubert… com respeito a inteligência podem-se juntar… tu e o Tchekov também… tu e o Maupassant… tu e o Proust… conforme quem fosse o meu ídolo do momento…

                                                                                          
                      
Comecei então a escrever com grande seriedade. A minha cabeça zumbia toda a noite. Não creio ter verdadeiramente dormido durante esses anos. Até que descobri que o que me sossegava era o whisky. Mas era demasiado novo para poder comprá-lo com o meu próprio dinheiro.
Valeu-lhe ter uns amigos mais velhos e complacentes. Pouco a pouco conseguiu encher uma mala velha de garrafas, garrafas de tudo, bourbon, scotch, brandy,licores. Escondeu a mala num velho armário e deu em beber todas as tardes enquanto escrevia.
 
 
Quando descia para jantar já vinha bem aviado, claro, e à mesa guardava silêncios misteriosos, desferia estranhos sorrisos de ternura e de ameaça, deitava longos e vidrados olhares a cada membro da família. Um dos seus parentes até uma vez diria: se não fosse tão absurdo e ele ser tão novinho… era capaz de jurar que estava perdido de bêbedo…
Até que um dia lhe descobriram a mala.
 
 
Mas não posso negar que tive muita sorte no princípio da minha carreira.
A Harper’s Bazar e a Random House, duas importantes casas editoras, interessaram-se depressa por ele.
          

Você falou há pouco em estímulos…Não há nada de mais estimulante para quem escreve do que comprarem-lhe os trabalhos…
Um dia, uma companhia de cantores negros foi à União Soviética apresentar a ópera Porgy and Bess. Talvez fosse a primeira vez que a ópera de Gershwin era dada a ouvir na Rússia. Não estou certo. Truman Capote acompanhou a troupe e fez uma reportagem que ficou famosa. E reflectiu sobre os dois estilos de escrita, a reportagem e a narrativa de ficção.
 
 
Quando se escreve reportagem referimo-nos à literalidade dos factos, quer dizer, às superfícies, e   o comentário é escasso. Em reportagem é impossível atingir uma profundidade do mesmo teor da narrativa. Mas Capote queria provar que mesmo escrevendo reportagem podia aplicar o seu estilo pessoal às exigências do estilo jornalístico. E porque considerava o seu processo narrativo, novelístico, igualmente objectivo. E porque a atitude emocional inseparável da novela não lhe fazia perder o controlo literário.
 
 
É preciso esgotar a emoção primeiro que me sinta…por assim dizer… clínico… para a analisar e projectar. É essa, segundo me parece, a aplicação do que se pode chamar de técnica.
 
 
E não seria só uma questão de tempo de maturação de uma história.
 
 
Se eu passar uma semana a comer maçãs, esgotarei o meu apetite por maçãs e saberei, sem qualquer dúvida, como é o sabor de uma maçã. Ora quando me sento para escrever um conto já não sinto o que poderia chamar de forma desse conto,dessa intriga… mas tenho a certeza de lhe conhecer perfeitamente o sabor…
Dickens, disse-se, fartava-se de rir sózinho quando escrevia uma cena humorística, e derramava lágrimas sentidas de toda a vez que uma personagem sua morria.
 
 
Capote assevera que o escritor deve ter gozado do seu engenho e secado completamente as suas lágrimas muito antes de pretender suscitar reacções semelhantes no leitor. A máxima intensidade na arte, e seja qual for a sua forma, atinge-se com uma cabeça fria e deliberada.
 
 
O Sr. Capote escreveu os seus melhores contos em momentos tranquilos da sua vida, ou, pelo contrário, sente que trabalha melhor sob tensão emocional, ou, quando muito, a despeito dela?
Nunca vivi um único momento de tranquilidade. Salvo aquela tranquilidade que me é concedida por um Nembutal de quando em quando. Mas não sei…creio que… creio que talvez um pouco de tensão fará bem. Sobretudo, repare, aquela tensão que deriva da urgência de acabar um trabalho dentro de certo prazo. Ah, sim, essa tensão faz-me muito bem.  
 
 
O senhor lê muito?
Demasiado. Incluindo etiquetas, receitas de cozinha, anúncios publicitários… Leio todos os diários de Nova York todos os dias e várias revistas, incluindo estrangeiras… Leio cinco livros por semana. Um romance de tamanho normal leva-se numas duas horas. E gosto de novelas poliiciais. Gostava até, um dia, de poder escrever uma…
 
               
 
Pode ler outros autores enquanto trabalha na sua própria obra?
Posso. A minha pena não começará de repente a escrever com estilo de outro. Se bem que… sim… uma vez… estava a ler Henry James… as minhas orações começaram a ficar muito, muito compridas.
E que autores o influenciaram mais?
Capote declara nunca, conscientemente, se ter sentido sob qualquer influência. Ainda que certos críticos me tenham informado de que as minhas primeiras obras estavam em dívida para com Faulkner, com Carson Mc Cullers. O que é muito possível. Sou grande admirador de ambos.Mas a única coisa que eles terão em comum comigo éi termos nascido os três no Sul.
 
             
 
E quanto a hábitos de trabalho, Sr. Capote?
Ah, sim, sou aquilo a que chamo de escritor horizontal.
Escritor horizontal?
      Absolutamente! Não consigo pensar sem estar deitado. Deitado? Na cama?
      Sim, pode ser na cama, pode ser num divã, desde que tenha café, chá e cigarros à mão. Tenho que estar a chupar e a sorver.E com o andar das tardes, o café e o chá vão dando lugar aos martinis.


Máquina de escrever?
Não, não uso. Pelo menos nos começos de cada trabalho. Escrevo à mão, a lápis. Revejo à mão.
Sabe, sou um estilista. Os estilistas não são muito atreitos a obsessões com vírgulas, pontos e virgula e assim… o que é o estilo, perguntou-me? (Risos.) Pode ser o som da mão de cada um…
 
 
Todos os escritores teriam estilo. E.M.Forster, Colette, Flaubert, Mark Twain, Hemingway, O´Neill, Faulkner – apesar de todo o seu brilhantismo -, para Capote eram estilos fortes. No entanto negativos. Ou seja, estilos que nada acrescentariam ao poder de comunicação entre aquele escreve e aquele que lê.
 
 
Mas repare que também existem os estilistas sem estilo. Experimente Graham Greene, Somerset Maugham, Thornton Wilder. Olhe… Sartre. Claro que não estou a falar do conteúdo… estilo, estilo…sinto-os dactilógrafos que muito transpiram, que enchem laudas e laudas de mensagens sem forma, sem olhos nem ouvidos. Mas gosto de Salinger, dentro da tradição do estilo coloquial…
 
 
Cá por mim – agora falo eu – acho Capote, neste ponto, um exageradão. Ainda que lhe conceda alguma razão. Estou a lembrar-me em especial das securas de Somerset Maugham. Lembro-me, sim de Greene, de Sartre. Sim, não é a personalidade de um estilo o que os distingue. Mas daí a dizer-se que são dactilógrafos…
 
 
Que aconteceria a Proust se o separássemos do seu estilo?, pergunta Capote. E se o estilo pode nunca ter sido o forte dos escritores americanos, também é inegável que alguns dos maiores estilistas da literatura mundial foram americanos. Capote recorda Hawthorne. E Hemingway – inevitável.
 
 
O estilo não era coisa, ou estado, a que se chegasse conscientemente. Não se pode aprender a ter estilo – estou de acordo, nas letras como na vida, e grande parte dos parvos e maçadores em todos os sentidos que conhecemos são aqueles que anseiam a todo o custo ter um certo estilo. É a personalidade que marca, diz Capote. É a individualíssima humanidade do escritor que toca o leitor. Faulkner, para Capote, era um dos escritores que mais imediatamente projectava a sua personalidade.
Poe. Dickens. Stevenson. Capote gosta deles, mas no momento desta entrevista achava-os ilegíveis. Tinha de momento outros entusiasmos, entusiasmos que entendia mais estáveis. Flaubert. Turgeniev. Tchekov. Jane Austen. Henry James. E.M.Forster. Maupassant. Rilke, Proust…

 
Capote escreveu para o cinema. Um filme intitulado Beat the Devil, que passou por Portugal com o título… não me lembro… mas vi… uma coisa sem pés nem cabeça com grandes actores, Bogart, etc..
Foi um grande gozo, diz Capote. Só temo que o produtor não tenha gozado tanto.


 
Não seria muito provável que um escritor conseguisse inpôr-se no meio cinematográfico. A menos que fosse ele mesmo a dirigir o filme. O filme é obra do realizador. O escritor apenas pode colaborar. Havia contudo um caso, na opinião de Truman Capote. O italiano Cesare Zavattini. Admito. Mas acho exagero que Capote diga de Vittorio de Sica que foi somente uma caixa de ressonância do génio de argumentista de Zavattini…

 
 Obras autobiográficas? Pois sim, o meu livro Harpa de Ervas foi o único em que me baseei na realidade. E toda a gente pensou que era totalmente inventado. Other Voices Other Rooms, todo ele inventado, levou as pessoas a pensar que era uma história autobiográfica.


 
E que tal de críticos, Sr. Capote?
Depois de o livro ter sido publicado, tudo o que Capote queria ouvir eram elogios. O que não fosse elogio irritava-o. Do que precisamos é de estar endurecidos contra a opinião alheia. Hoje em dia posso ouvir os libelos mais injuriosos contra a minha pessoa que a minha pulsação não se altera.
Capote tinha ainda um conselho para dar. Nunca nos devemos rebaixar respondendo a um crítico. Nunca.

 
A 5 de Janeiro de 1966, Truman Capote assinou um contrato com a editora novaiorquina Random House para um livro que se intitularia Answered Prayers -  Súplicas Atendidas. 25.000 dólares. Data de entrega: 1 de Janeiro de 1968. Um estudo do mundo dos muito ricos da Europa e da costa leste dos EUA, segundo descrição do próprio Capote. E ainda mais ambicioso: seria um equivalente americano da monumental Recherche de Proust.

                                   

O contrato foi prolongado até Maio de 1969 e depois até Janeiro de 73. Em Maio de 73, o prazo de entrega avançou para Janeiro de 74 e seis meses mais tarde para Setembro do mesmo ano. Um milhão de dolares era o que Capote teria a receber quando entregasse o original, agora em Maio de 81.
Capote tinha apenas dois capítulos escritos. As personagens eram copiadas literalmente da realidade do beautiful people, com os respectivos nomes verdadeiros e tudo. Uma gente que Capote frequentara muito quando do seu retumbante êxito com A Sangue Frio. Esses dois capítulos viriam a ser publicados pela revista Esquire.

 
Publicados os capítulos de Súplicas Atendidas, rebentou o escândalo na sociedade elegante e nos meios literários de Nova York. Truman Capote foi votado ao ostracismo total pelos seus amigos ricos. Nunca mais recebeu um convite para a mais insignificante festa social. Tinha usado nos capítulos publicados do virtual livro todos os mexericos, vícios e baixezas da gente que conhecera nesse meio. Imperdoável.

 
De que estavam eles à espera? Julgavam que me convidavam e eu ia lá só para os divertir? Sou escritor, utilizo tudo.  
Afogado no álcool e nas drogas desde 1977, e até à sua morte, em 1984, Capote não terá escrito nem mais uma linha das Súplicas Atendidas. O livro foi publicado – inclusivé em tradução portuguesa – na forma inacabada. Três capítulos. Li. E não desgostei.


 
Há pessoas a quem nunca falo pelo telefone porque a soma dos algarismos dá um número de mau agoiro.

 
Também recuso certos quartos de hotel por essa razão. Nem quero ver três beatas no mesmo cinzeiro.
Não viajo num avião com duas freiras. Não começo nem acabo nada numa terça feira.

 
E não posso tolerar rosas amarelas, o que é triste, porque são as minhas flores favoritas.