segunda-feira, 3 de abril de 2017


        SOU ESCRITOR, UTILIZO TUDO
 

 
                    

 
Truman Streckfus Persons recebeu os entrevistadores da Paris Review no seu elegante e restaurado apartamento de Brooklyn Heights. Uma sala decorada ao consabido e refinado gosto do locatário, objectos de arte espalhados por cada superfície, um ovo de Páscoa dourado trazido da viagem à Rússia, um estojo Fabergé, um grande cão de ferro, frutos azuis em cerâmica, centenas de artísticos pisa-papeis, fotografias, colecções emolduradas de selos de correio de todo o mundo…
 
                                                   
 
 
Ouviram-se uns pesados passos no soalho e apareceu um enorme buldog branco.
 
 
Truman Streckfus Persons, aliás Truman Capote, era um homem pequeno e ruivo, de teimosa mecha de cabelo a caír-lhe sobre a testa e um sorriso simpático. 
                                                                                 
 
Quando é que o senhor começou a escrever?
Quando tinha uns dez, onze anos e vivia em Mobile.

 
Truman Capote é por muito boa gente considerado um escritor menor, comercialão até, frívolo, mundano, oportunista. Quanto ao escritor menor, pessoalmente, não sou dessa opinião. Quanto ao resto… é capaz de ser verdade, mas não é o mais importante. Muita da popularidade de Truman Capote adveio-lhe da adaptação ao cinema da preciosa novela Breakfast at Tiffany’s – que deu um filme titulado em português como Boneca de Luxo – um filme também delicioso, com uma Audrey Hepburn no máximo esplendor do seu estilo.
 
 
Capote talvez seja, na minha opinião, mais um contista do que um romancista de grande fôlego. Talvez daí a sua imerecida reputação de superficial e ligeiro. Na aparência talvez sim. Mas é preciso adentrarmo-nos nessas aparências de facilidade e descobrirmos por nós mesmos a riqueza de pormenor no desenvolvimento psicológico das personagens e da pintura requintada dos ambientes para nos rendermos à arte de Truman Capote.
 
 
Eu estava absolutamente certo de que queria ser escritor, mas não estava absolutamente seguro de que o seria realmente antes dos meus quinze anos. Enviava contos a revistas, tanto literárias como populares… e, deixe que lhe diga uma coisa: não há escritor, por mais célebre, que se esqueça desse dia em que pela primeira vez lhe aceitaram um trabalho para publicar. Mas como eu ia a dizer… um belo dia, pelos meus 16 anos, recebi a primeira, a segunda e a terceira aceitações no correio do mesmo dia. Digo-lhe que saltar de prazer não é, ah não, não é, uma simples frase.
 
 
Contos. Contos. As ambições de Capote andavam sobretudo em volta desse género. Como Faulkner, também ele considerava o conto como a prosa literária mais difícil e mais rigorosa. E todo o controlo técnico que na idade madura Capote possa ter adquirido devia-o ao seu treino no género conto.
 
 
Controlo? O que é controlo?
É manter o domínio estilístico e emocional sobre a matéria literária. Um conto, refere ele, pode ser arruinado pelo ritmo impróprio de uma oração. Por um erro de paragrafação. Até por um descuido de pontuação. Chama a Henry James o mestre do ponto e vírgula. Chama a Hemingway o mestre do parágrafo. E admite que Virgínia Woolf nunca tenha escrito uma oração imperfeita.

     
 
Truman Capote começa a fazer falar de si em 1948, logo no seu livro de estreia, Outras Terras Outras Gentes  em português; Other Voices Other Rooms no original.
 
                    

Manteve o seu nome literário em alta com Harpa de Ervas, de 1951. E mais uma série de títulos relativamente famosos, até ao romance sem ficção A Sangue Frio, baseado num caso real de homicídio numa cidadezinha da América profunda.


 
Depois desse formidável triunfo literário – e social – suponho que de 1966, nunca mais Capote produziu nada de grande envergadura, a não ser recolhas de reportagens, crónicas e contos esparsos.
Dominar a técnica do conto. Eis a questão. Cada história, naturalmente, apresenta as suas próprias dificuldades. O que haverá a descobrir para bem escrever um conto é a forma mais natural de o fazer. Ou seja, um leitor, após a leitura de um conto, poderá perguntar-se se haveria uma outra maneira de contar aquela mesma história, ou se aquela forma que acaba de ler é a versão literária definitiva de uma ideia.
 
 
Dou-lhe um exemplo. Uma laranja. Uma laranja é uma forma definitiva. A natureza cria uma laranja da única forma que poderia ter uma laranja. Indiscutível.
E para cada um melhorar a sua técnica de escrita só existe um meio: o trabalho.
Capote a falar: a criação literária tem leis de perspectiva, de luz e de sombra, como a pintura ou como a música. Se se nasce a sabê-las, óptimo. Se não se nasce com elas sabidas, só resta aprendê-las. E adaptá-las às conveniências do próprio.
 
 
Joyce, segundo Capote, era inimigo jurado das regras estrictas. Todavia era um consumado artífice. Só pôde escrever Ulisses porque antes tinha escrito Dubliners.
E se um escritor pensa que escrever contos é mais uma maneira de exercitar a mão, ah, desenganem-se, quer dizer que esse escritor pode estar a fazer tudo menos a exercitar a mão.
 
 
Como bom escritor americano, Truman Capote teve vários ofícios. Nasceu no Sul. Criou-se no Connecticut.

 
Foi leitor de guiões de cinema. Foi dançarino num barco de carreiras fluviais e foi moço de recados na redacção do magazine The New Yorker. E aos 19 anos ganhou um prémio literário, o prémio O.Henry, para as chamadas short stories, contos curtos. Estímulos nos meus primeiros anos de escrita? Um ninho de víboras negativas, isso sim. Mas algumas afirmativas.
É. Os artistas adoram chorar-se…

 
A infância e a juventude de Truman Capote decorreram entre gente de fraco índice educacional e cultural. Foi mau, por um lado. Foi bom, por outro. Porque desde cedo o endureceu para a vida e para, como ele diz, remar contra a corrente. Diz que nesse tempo aprendeu a grande arte de lidar com os inimigos, não menos indispensável do que a de saber apreciar os amigos.
 
 
Capote foi mau… foi péssimo aluno. Desprezava a escola. Chumbava ano após ano nas matérias mais simples, por aversão, por náusea. Faltava às aulas. Saía de casa por temporadas. Uma vez fugiu com uma amiguinha sua vizinha, mais velha do que ele, e que mais tarde conseguiu certa fama nacional por ter assassinado uma dezena de pessoas e ter morrido na cadeira eléctrica na prisão de Sing Sing, sob a alcunha de “a assassina corações solitários”.
 
 
O director da escola de Truman foi ter com os pais para lhes dizer que, tal como todos os outros professores, considerava o filho um correço, um rapazinho sub-normal. Podia ser melhor matriculá-lo numa escola de ensino especial, para crianças com handicap.
Os pais ficaram ofendidíssimos e quiseram provar à vizinhança e aos professores que o filho não era nenhum deficiente. Foram com ele a uma clínica de estudos psicanalíticos numa universidade do Oeste. Examinaram-no. Testaram-lhe a inteligência. E Truman diz que regressou a casa proclamado génio pela ciência. O seu quociente de inteligência era acima da média.
 
 
Truman não sabe dizer quem terá ficado mais aturdido com os resultados do teste, se os professores se os próprios pais – que na realidade apenas queriam ter um filho que fosse um rapazito simpático e normalíssimo.
E desde então, cada vez que passava diante de um espelho olhava para mim mesmo e dizia-me… pois é verdade, rapaz… tu e o Flaubert… com respeito a inteligência podem-se juntar… tu e o Tchekov também… tu e o Maupassant… tu e o Proust… conforme quem fosse o meu ídolo do momento…

                                                                                          
                      
Comecei então a escrever com grande seriedade. A minha cabeça zumbia toda a noite. Não creio ter verdadeiramente dormido durante esses anos. Até que descobri que o que me sossegava era o whisky. Mas era demasiado novo para poder comprá-lo com o meu próprio dinheiro.
Valeu-lhe ter uns amigos mais velhos e complacentes. Pouco a pouco conseguiu encher uma mala velha de garrafas, garrafas de tudo, bourbon, scotch, brandy,licores. Escondeu a mala num velho armário e deu em beber todas as tardes enquanto escrevia.
 
 
Quando descia para jantar já vinha bem aviado, claro, e à mesa guardava silêncios misteriosos, desferia estranhos sorrisos de ternura e de ameaça, deitava longos e vidrados olhares a cada membro da família. Um dos seus parentes até uma vez diria: se não fosse tão absurdo e ele ser tão novinho… era capaz de jurar que estava perdido de bêbedo…
Até que um dia lhe descobriram a mala.
 
 
Mas não posso negar que tive muita sorte no princípio da minha carreira.
A Harper’s Bazar e a Random House, duas importantes casas editoras, interessaram-se depressa por ele.
          

Você falou há pouco em estímulos…Não há nada de mais estimulante para quem escreve do que comprarem-lhe os trabalhos…
Um dia, uma companhia de cantores negros foi à União Soviética apresentar a ópera Porgy and Bess. Talvez fosse a primeira vez que a ópera de Gershwin era dada a ouvir na Rússia. Não estou certo. Truman Capote acompanhou a troupe e fez uma reportagem que ficou famosa. E reflectiu sobre os dois estilos de escrita, a reportagem e a narrativa de ficção.
 
 
Quando se escreve reportagem referimo-nos à literalidade dos factos, quer dizer, às superfícies, e   o comentário é escasso. Em reportagem é impossível atingir uma profundidade do mesmo teor da narrativa. Mas Capote queria provar que mesmo escrevendo reportagem podia aplicar o seu estilo pessoal às exigências do estilo jornalístico. E porque considerava o seu processo narrativo, novelístico, igualmente objectivo. E porque a atitude emocional inseparável da novela não lhe fazia perder o controlo literário.
 
 
É preciso esgotar a emoção primeiro que me sinta…por assim dizer… clínico… para a analisar e projectar. É essa, segundo me parece, a aplicação do que se pode chamar de técnica.
 
 
E não seria só uma questão de tempo de maturação de uma história.
 
 
Se eu passar uma semana a comer maçãs, esgotarei o meu apetite por maçãs e saberei, sem qualquer dúvida, como é o sabor de uma maçã. Ora quando me sento para escrever um conto já não sinto o que poderia chamar de forma desse conto,dessa intriga… mas tenho a certeza de lhe conhecer perfeitamente o sabor…
Dickens, disse-se, fartava-se de rir sózinho quando escrevia uma cena humorística, e derramava lágrimas sentidas de toda a vez que uma personagem sua morria.
 
 
Capote assevera que o escritor deve ter gozado do seu engenho e secado completamente as suas lágrimas muito antes de pretender suscitar reacções semelhantes no leitor. A máxima intensidade na arte, e seja qual for a sua forma, atinge-se com uma cabeça fria e deliberada.
 
 
O Sr. Capote escreveu os seus melhores contos em momentos tranquilos da sua vida, ou, pelo contrário, sente que trabalha melhor sob tensão emocional, ou, quando muito, a despeito dela?
Nunca vivi um único momento de tranquilidade. Salvo aquela tranquilidade que me é concedida por um Nembutal de quando em quando. Mas não sei…creio que… creio que talvez um pouco de tensão fará bem. Sobretudo, repare, aquela tensão que deriva da urgência de acabar um trabalho dentro de certo prazo. Ah, sim, essa tensão faz-me muito bem.  
 
 
O senhor lê muito?
Demasiado. Incluindo etiquetas, receitas de cozinha, anúncios publicitários… Leio todos os diários de Nova York todos os dias e várias revistas, incluindo estrangeiras… Leio cinco livros por semana. Um romance de tamanho normal leva-se numas duas horas. E gosto de novelas poliiciais. Gostava até, um dia, de poder escrever uma…
 
               
 
Pode ler outros autores enquanto trabalha na sua própria obra?
Posso. A minha pena não começará de repente a escrever com estilo de outro. Se bem que… sim… uma vez… estava a ler Henry James… as minhas orações começaram a ficar muito, muito compridas.
E que autores o influenciaram mais?
Capote declara nunca, conscientemente, se ter sentido sob qualquer influência. Ainda que certos críticos me tenham informado de que as minhas primeiras obras estavam em dívida para com Faulkner, com Carson Mc Cullers. O que é muito possível. Sou grande admirador de ambos.Mas a única coisa que eles terão em comum comigo éi termos nascido os três no Sul.
 
             
 
E quanto a hábitos de trabalho, Sr. Capote?
Ah, sim, sou aquilo a que chamo de escritor horizontal.
Escritor horizontal?
      Absolutamente! Não consigo pensar sem estar deitado. Deitado? Na cama?
      Sim, pode ser na cama, pode ser num divã, desde que tenha café, chá e cigarros à mão. Tenho que estar a chupar e a sorver.E com o andar das tardes, o café e o chá vão dando lugar aos martinis.


Máquina de escrever?
Não, não uso. Pelo menos nos começos de cada trabalho. Escrevo à mão, a lápis. Revejo à mão.
Sabe, sou um estilista. Os estilistas não são muito atreitos a obsessões com vírgulas, pontos e virgula e assim… o que é o estilo, perguntou-me? (Risos.) Pode ser o som da mão de cada um…
 
 
Todos os escritores teriam estilo. E.M.Forster, Colette, Flaubert, Mark Twain, Hemingway, O´Neill, Faulkner – apesar de todo o seu brilhantismo -, para Capote eram estilos fortes. No entanto negativos. Ou seja, estilos que nada acrescentariam ao poder de comunicação entre aquele escreve e aquele que lê.
 
 
Mas repare que também existem os estilistas sem estilo. Experimente Graham Greene, Somerset Maugham, Thornton Wilder. Olhe… Sartre. Claro que não estou a falar do conteúdo… estilo, estilo…sinto-os dactilógrafos que muito transpiram, que enchem laudas e laudas de mensagens sem forma, sem olhos nem ouvidos. Mas gosto de Salinger, dentro da tradição do estilo coloquial…
 
 
Cá por mim – agora falo eu – acho Capote, neste ponto, um exageradão. Ainda que lhe conceda alguma razão. Estou a lembrar-me em especial das securas de Somerset Maugham. Lembro-me, sim de Greene, de Sartre. Sim, não é a personalidade de um estilo o que os distingue. Mas daí a dizer-se que são dactilógrafos…
 
 
Que aconteceria a Proust se o separássemos do seu estilo?, pergunta Capote. E se o estilo pode nunca ter sido o forte dos escritores americanos, também é inegável que alguns dos maiores estilistas da literatura mundial foram americanos. Capote recorda Hawthorne. E Hemingway – inevitável.
 
 
O estilo não era coisa, ou estado, a que se chegasse conscientemente. Não se pode aprender a ter estilo – estou de acordo, nas letras como na vida, e grande parte dos parvos e maçadores em todos os sentidos que conhecemos são aqueles que anseiam a todo o custo ter um certo estilo. É a personalidade que marca, diz Capote. É a individualíssima humanidade do escritor que toca o leitor. Faulkner, para Capote, era um dos escritores que mais imediatamente projectava a sua personalidade.
Poe. Dickens. Stevenson. Capote gosta deles, mas no momento desta entrevista achava-os ilegíveis. Tinha de momento outros entusiasmos, entusiasmos que entendia mais estáveis. Flaubert. Turgeniev. Tchekov. Jane Austen. Henry James. E.M.Forster. Maupassant. Rilke, Proust…

 
Capote escreveu para o cinema. Um filme intitulado Beat the Devil, que passou por Portugal com o título… não me lembro… mas vi… uma coisa sem pés nem cabeça com grandes actores, Bogart, etc..
Foi um grande gozo, diz Capote. Só temo que o produtor não tenha gozado tanto.


 
Não seria muito provável que um escritor conseguisse inpôr-se no meio cinematográfico. A menos que fosse ele mesmo a dirigir o filme. O filme é obra do realizador. O escritor apenas pode colaborar. Havia contudo um caso, na opinião de Truman Capote. O italiano Cesare Zavattini. Admito. Mas acho exagero que Capote diga de Vittorio de Sica que foi somente uma caixa de ressonância do génio de argumentista de Zavattini…

 
 Obras autobiográficas? Pois sim, o meu livro Harpa de Ervas foi o único em que me baseei na realidade. E toda a gente pensou que era totalmente inventado. Other Voices Other Rooms, todo ele inventado, levou as pessoas a pensar que era uma história autobiográfica.


 
E que tal de críticos, Sr. Capote?
Depois de o livro ter sido publicado, tudo o que Capote queria ouvir eram elogios. O que não fosse elogio irritava-o. Do que precisamos é de estar endurecidos contra a opinião alheia. Hoje em dia posso ouvir os libelos mais injuriosos contra a minha pessoa que a minha pulsação não se altera.
Capote tinha ainda um conselho para dar. Nunca nos devemos rebaixar respondendo a um crítico. Nunca.

 
A 5 de Janeiro de 1966, Truman Capote assinou um contrato com a editora novaiorquina Random House para um livro que se intitularia Answered Prayers -  Súplicas Atendidas. 25.000 dólares. Data de entrega: 1 de Janeiro de 1968. Um estudo do mundo dos muito ricos da Europa e da costa leste dos EUA, segundo descrição do próprio Capote. E ainda mais ambicioso: seria um equivalente americano da monumental Recherche de Proust.

                                   

O contrato foi prolongado até Maio de 1969 e depois até Janeiro de 73. Em Maio de 73, o prazo de entrega avançou para Janeiro de 74 e seis meses mais tarde para Setembro do mesmo ano. Um milhão de dolares era o que Capote teria a receber quando entregasse o original, agora em Maio de 81.
Capote tinha apenas dois capítulos escritos. As personagens eram copiadas literalmente da realidade do beautiful people, com os respectivos nomes verdadeiros e tudo. Uma gente que Capote frequentara muito quando do seu retumbante êxito com A Sangue Frio. Esses dois capítulos viriam a ser publicados pela revista Esquire.

 
Publicados os capítulos de Súplicas Atendidas, rebentou o escândalo na sociedade elegante e nos meios literários de Nova York. Truman Capote foi votado ao ostracismo total pelos seus amigos ricos. Nunca mais recebeu um convite para a mais insignificante festa social. Tinha usado nos capítulos publicados do virtual livro todos os mexericos, vícios e baixezas da gente que conhecera nesse meio. Imperdoável.

 
De que estavam eles à espera? Julgavam que me convidavam e eu ia lá só para os divertir? Sou escritor, utilizo tudo.  
Afogado no álcool e nas drogas desde 1977, e até à sua morte, em 1984, Capote não terá escrito nem mais uma linha das Súplicas Atendidas. O livro foi publicado – inclusivé em tradução portuguesa – na forma inacabada. Três capítulos. Li. E não desgostei.


 
Há pessoas a quem nunca falo pelo telefone porque a soma dos algarismos dá um número de mau agoiro.

 
Também recuso certos quartos de hotel por essa razão. Nem quero ver três beatas no mesmo cinzeiro.
Não viajo num avião com duas freiras. Não começo nem acabo nada numa terça feira.

 
E não posso tolerar rosas amarelas, o que é triste, porque são as minhas flores favoritas.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


domingo, 12 de março de 2017


                         TRUMPITLER

 

       Entre Trump e Hitler, e não contando com o maldizer, o insulto, a calúnia e a desconsideração política com que foram entendidos nos primeiros tempos, há afinidades. A começar por serem ambos actores consumados. A continuar por nenhum dos dois ser político de carreira, ou sequer de vocação. E mais aquela das afinidades que hoje me apraz registar que é a da audácia (podem pôr descaramento, irresponsabilidade ou coragem) de querer levar à prática uma infâmia que a maioria gostaria de ver consumada, mas sem que governante algum tivesse a audácia (o descaramento, a irresponsabilidade ou a coragem) de se chegar à frente para a realizar.
 
 
       O kaiser Guilherme II escreveu a alguém, em 1925, que o mal da Alemanha estava nos judeus. Os judeus (segundo Guilherme II) eram os indesejáveis parasitas de que a humanidade teria de se ver livre quanto antes, fosse de que maneira fosse, e acrescentando que o melhor seria pelo gás.
       De resto, é bom que se diga, desde sempre que a animosidade contra os judeus fora cultivada na Alemanha, séculos de desprezo. A Alemanha gostaria de se ver livre dos seus judeus, mas jamais lograra produzir uma individualidade ou um sistema capazes de levar essa sua vontade por diante com eficácia, acabando por transformar um desejo premente em utopia irrealizável.
 
 
       Chegado do nada, mas promovido, evidentemente, pelas sociedades secretas de orientação racista, Adolf Hitler aparece no cenário político alemão pós-I Guerra Mundial. É ele o Parsifal, o puro louco, o redentor, o libertador do Graal ariano.
       É ele o insensato audacioso que com toda a simplicidade se dispõe a passar à acção naquilo que todos mais desejam mas que até aí ninguém tivera a audácia (ou o descaramento, ou a irresponsabilidade, ou a coragem) para empreender, a limpeza étnica, a solução final.
       Foi o que se viu.
 
 
       Passaram oitenta anos. O látego dos valores ocidentais já não são os judeus. Obviamente. Os judeus limitam-se a comandar a vida financeira do Ocidente cristão – tudo quanto a Alemanha temia oitenta anos antes.
       A ameaça chega agora das mesmas paragens abafadiças do Oriente Médio.
 
 
     A ameaça é social, é militar, é cultural. É fundamentalmente religiosa. A ameaça é árabe, é islâmica, é violenta, é radical. E ataca tanto no coração da Europa como no centro financeiro mundial, sito em Nova York.
 
 
     Todos a querem travar, esmagar, construir-lhe uma solução final. E todos pensam (ainda que nem todos o digam) que as migrações massivas que chegam da África do norte ao mundo ocidental podem ser o cavalo de Troia do radicalismo muçulmano decidido a invadir e a minar por dentro os valores ocidentais.
       Que fazer?
       Fazer o que seja politicamente correcto fazer? Mas pode não chegar contra um inimigo politicamente (e socialmente) mais do que incorrecto.
 
 
       Mas há que travar a penetração islâmica radical na Europa e nos EUA. Como? Tomando medidas repressivas. Eventualmente medidas que contendam com o politicamente correcto dos mesmos valores cristãos que a turbulência terrorista pretende seriamente atacar. Seria preciso proibir. Seria preciso perseguir. Seriam precisas medidas radicais contra o radicalismo. Ou medidas politicamente incorrectas para perseguir a máxima incorrecção.
       Pois era. Era preciso um dirigente de uma poderosa nação ocidental disposto à audácia insensata (ao descaramento, à irresponsabilidade, à coragem) de tomar medidas radicais, proibir, perseguir. Qual, quem? Donald Trump, o impolítico profissional.
 
 
       Donald Trump? Faça favor. Mostre-nos lá do que é capaz.
Sai um decreto que veda a entrada a naturais dos países árabes exportadores de violência. Caem-lhe em cima os próceres do politicamente correcto, dos sentimentos humanitários, dos direitos humanos, da tolerância, dos valores da cristandade ameaçada.
 
 
       Toda a América sabia que a penetração da droga no país se fazia principalmente pela fronteira com o México. Toda a gente concordava em que era preciso travar esse fluxo aterrador que há muito minava as estruturas mentais da sociedade americana, proibir, perseguir. E nenhum político, ou legislação, ou iniciativa, ou vontade, se mostrava à altura das circunstâncias.
Até que chega um audacioso insensato (descarado, irresponsável, corajoso) para tal cometimento. Quem? Donald Trump.
Donald Trump? Mostre-nos então as suas habilidades nesta matéria.
Trump estava pronto para outras medidas radicais contra os radicalismos que são a marijuana, a cocaína e a heroína.
 
 
Um muro a erguer ao longo da fronteira mexicana; mais a proibição, a perseguição e a expulsão dos indesejáveis. E de novo lhe caem em cima os direitos humanos, a tolerância, os valores cristãos, a sensibilidade civilista e moderadora das opiniões publicadas.
 
 
       Então como é? A maioria dos cidadãos quer medidas radicais contra os radicalismos violentos, e quando aparece um insensato audacioso (ou descarado, ou irresponsável, ou corajoso) que se propõe tomar as primeira medidas contra as reais ameaças, bolas!, todos o atacam? Como é?
       Bem sei que as coisas não são tão simples assim. Bem sei que a tomada de certas medidas contende com um sistema de vida, de sociedade e de política em que até os radicalismos violentos e invasivos podem ser absorvidos pelo sistema e fazer funcionar certos mercados, o da droga, o das armas, os mais poderosos de todos e de longe os mais lucrativos.
 
 
       E ficamos assim, à espera para ver o que tudo isto pode dar.

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017


shakespeare 401– berlioz
  


     Não, não, mil vezes não, músicos, poetas, prosadores, actores, pianistas, chefes de orquestra, de terceira, de segunda ordem, ou mesmo de primeira, os senhores não têm o direito de usar os Beethoven ou os Shakespeare como pretextos para as vossas artes e para os vossos gostos – escreveu Berlioz.
     Porque Shakespeare estava a ser abastardado, rearranjado, adaptado, desfigurado.
 
 
       Mas o precedente fora aberto muito antes do tempo de Berlioz e refinara-se pela acção do mais ilustre dos shakespearianos do século anterior, o actor David Garrick, que punha Romeu e Julieta a encontrar-se uma última vez, quando no original Julieta encontra Romeu já morto e por isso se suicida.
       Garrick achava o desfecho de peça muito patético e arranjara outro mais correcto e menos incomodativo para os espectadores (pensa Berlioz).
 
 
Também o “insolente engraçadinho” chamado Nahum Tate é fustigado por Berlioz por ter inventado, em 1681, um novo desenlace para o Rei Lear que passara a ser frequentemente usado pelos teatros.
Ainda pergunta Berlioz quem teria sido o abominável versejador que pusera na boca de Cordelia tiradas brutais e expressão de paixões de todo alheias ao nobre e terno coração da filha de Lear.
 
 
Sim, esses seriam culpados do crime mais nefando por terem atentado contra a reunião das mais elevadas faculdades humanas a que se dava o nome de Génio. Esse seriam dignos do pelourinho da pública indignação. E o romântico Berlioz acrescenta, valendo-se do último acto de Ricardo III: “sê maldito! Desespera-te e morre! Despair and die!”
E outros assassinatos literários objurgou Berlioz: esse Ricardo III estraçalhado; as novas personagens que alguém acrescentara a A Tempestade; as mutilações de Hamlet e de Romeu e Julieta. E por aí fora…
“Toda a gente pretendeu dar lições a Shakespeare!”, clama Berlioz.
É graças a Shakespeare que Berlioz encontra a mulher com quem virá a casar; é graças à mulher com quem virá a casar que Berlioz encontra Shakespeare. Harriett Smithson, actriz britânica em tournée pela capital francesa em Setembro de 1827. 
 
 
A “explosão” shakespeariana nos palcos parisienses, e a correlativa Miss Smithson, foram designados por Berlioz como “amor mortal” e “letargia moral”. Enfim, representaram o maior drama da vida dele.
(Às vezes não há paciência para estes românticos.)
 
 
Pois então, foi a chegada a Paris de uma companhia inglesa de teatro que deu a conhecer Shakespeare ao público francês. Berlioz foi à estreia dessa companhia, no Odéon. Hamlet. Em Ofélia recitava Miss Smithson – que cinco anos mais tarde seria a Senhora Berlioz.
Choque de um “prodigioso talento”, de um “génio dramático” com a imaginação do compositor, foi o que foi. Com a imaginação e com o coração. Foi o que o levou a aguentar aquele Shakespeare, aquele poeta de quem Miss Smithson era a inexcedível intérprete.
 
 
Shakespeare esmagara Berlioz. E tudo assim, de chofre. Um raio que lhe abrira o céu da arte em grande estrondo (palavras dele), iluminando-o, desvelando-lhe as profundidades mais remotas da alma humana.
(Estes românticos…)
E recordava com desprazer as ideias difundidas por Voltaire sobre Shakespeare… este macaco de génio chegado ao Homem em missão encomendada pelo diabo…


 
Berlioz sai do Teatro Odéon, terminada a representação de Hamlet, siderado por mil pensamentos e sentimentos e jurando nunca mais se expor ao fogo shakespeariano.
Mas não resiste e arranja bilhete para as récitas de Romeu e Julieta.
 
 
Tão difícil seria a um francês sondar as profundidades do estilo shakespeariano como a um inglês advertir as finezas e a originalidade de um La Fontaine, de um Moliére. Se os dois poetas franceses pertenciam a um rico continente, Shakespeare, por si só, era o mundo.
Um crítico viria a publicar que o seu amigo Hector Berlioz, depois de assistir às representações de Miss Smithson em Julieta, teria gritado: “eu vou casar com aquela mulher!”. Ou mais: “e será inspirado por aquele drama (Romeu e Julieta) que escreverei a minha mais longa sinfonia!”.
Berlioz negará ter dito alguma coisa de parecido, e notará que o crítico lhe atribuíra uma ambição maior do que a quer verdadeiramente tinha.


 
O sucesso das representações de Shakespeare em Paris por esse mês de Setembro de 1827 foi empolgado pela nova geração literária, os srs. Victor Hugo, Alexandre Dumas, Alfred de Vigny, mas ficou essencialmente a dever-se (segundo Berlioz) à arte de Miss Smithson. Nunca uma actriz suscitara em França tamanha exaltação pública, nem a imprensa francesa publicara alguma vez alguma coisa de parecido acerca de uma actriz.
 
 

E a seguir àquele Romeu e Julieta é que Berlioz se esforçou mesmo para não voltar ao Odéon – cirandava pelas redondezas quando sabia que a companhia estava de folga – para não se deixar abater por novas provocações da alma. Ficara com tanto medo de Shakespeare como o medo que tinha das dores físicas.
E passou meses de embrutecimento desesperado, sempre a pensar em Shakespeare e na inspirada artista que fizera delirar Paris em Ofélia e Julieta, comparando com tristeza a glória da actriz com a sua triste insignificância artística.
 
 
Até que, com o fito de fazer falar de si, de poder emergir da obscuridade, se encheu de coragem e tratou de ir ao Conservatório pedir ajuda para a organização de um concerto com peças de sua autoria.
Mas passemos por cima das peripécias dessa organização que Berlioz tão detalhadamente narra nas suas Mémoires e cheguemos ao dia 5 de Dezembro de 1827, que é quando está anunciada para a Opera-Comique uma récita a benefício do actor Huet, constando de dois actos de Romeu e Julieta a ser interpretados, por quem havia de ser, por Miss Harriet Smithson.
 
 
Berlioz – nunca simpatizei com ele talvez pela escassa modéstia – ansiava por ver o seu nome associado no cartaz ao de Miss Smithson; queria fazer-se notar, ter sucesso aos olhos dela, e então vai de pedinchar ao director da Opera-Comique o favor de incluir no programa da récita de beneficência uma abertura orquestral de sua autoria. (Waverley.) E o director não o desiludiu.
Berlioz chega ao teatro para ensaiar a abertura no momento em que os actores estão a acabar de ensaiar Romeu e Julieta. Berlioz encara com eles, Romeu traz Julieta nos braços, Berlioz solta um grito, corre a esconder-se, Julieta assusta-se e aponta Berlioz aos companheiros, “cuidado com aquele homem… os olhos dele não prometem nada de bom…”.
 
 
Berlioz fugiu do teatro e só voltou para o ensaio da abertura passada uma hora, quando os ingleses já lá não estavam.
A abertura foi tocada. Berlioz nada teve que dizer, ouviu-a (diz ele) como um sonâmbulo. Os músicos aplaudiram-no e ele teve esperanças quanto ao efeito da abertura, sobre o público, evidentemente, mas mais sobre Miss Smithson.
 
 
Na récita propriamente dita sonhou com um bis exigido pelo público, um bis que impressionasse Miss Smithson. Mas qual quê, a abertura foi bem executada, sim, teve palmas, sim, Miss Smithson deve tê-la ignorado completamente, Miss Smithson entrou em cena, representou o seu papel, triunfou uma vez mais e foi-se embora a cumprir contratos na Holanda.
Berlioz põe-se a sofrer de amor, a sofrer a solidão de um mundo vazio, e as torturas que lhe circulam nas veias, e o desgosto de viver mais a impossibilidade de morrer, romântico…
 
 
Paganini andava doente, passara uma temporada em Paris, conhecera Berlioz, partira para Marselha e depois para Nice. Berlioz escrevia-lhe a pedir conselhos para a grande composição que trazia em mente, “não tenho conselhos para lhe dar, você deve saber melhor do que ninguém o que mais lhe convirá fazer”.
Uma grande sinfonia coral, era o que era. Inspirada em Romeu e Julieta, o tema sublime e sempre novo.
Escreveu em prosa todo o texto que seria intercalado nas partes instrumentais e o poeta Emile Deschamps versejou-o.
 
 
Vida ardente viveu-a ele enquanto compunha, nadando num mar de poesia, acariciado pela brisa louca da fantasia, exposto ao sol de amor que ilumina Shakespeare, e acreditando estar perto da ilha maravilhosa onde foi erigido o templo da arte – isto foi Berlioz que escreveu, eu só traduzi. As cartas que escreve passam a ser terminadas com Shakespeare, Hamlet, “o resto é silêncio, adeus”.
Em 1832, Liszt, que conhecera dois anos antes, tenta chamá-lo à razão e dissuadi-lo daquela ideia persistente e algo insana de desposar a actriz irlandesa.
 
 
De facto, dos esforços para se faze valer junto da amada não colhera resultados. Miss Harriet Smithson continuara a sua vida de triunfos artísticos sem nunca ter ouvido falar de Monsieur Berlioz.
Monsieur Berlioz regressava a Paris. Passara bastante tempo em Roma e agora o apartamento da Rue Richelieu onde morara estava alugado e ele toca a procurar casa. Fala do impulso secreto que sentiu: procurar um apartamento vizinho daquele que Miss Smithson ocupara na sua temporada de Paris, o nº 1 da Rue Neuve-Saint-Marc. E tanto procurou que encontrou. Mesmo em frente.
 
 
No dia seguinte ao da instalação encontra por ali uma serviçal que fazia recados na zona. Bom dia, boa mulher, acaso saberá alguma coisa daquela inglesa, Miss Smithson, que morou ali em frente, que terá sido feito dela? Oh, Monsieur, Miss Smithson vive cá em Paris. Não me diga! Pois, Monsieur, ela só saiu deste apartamento há dois dias. Foi morar para a Rue de Rivoli, pois está directora de um teatro inglês que começa para a semana a dar espectáculos por cá.
 
 
Confessa que ficou mudo depois desta revelação e até começou a acreditar nas doutrinas magnéticas então postas em voga.
Estou em Paris para apresentar a minha nova obra, e se, antes de dar o meu concerto, caio na patetice de ir ao teatro inglês, se volto a vê-la, ah, pois, cairei infalivelmente naquele meu delirium tremens e toda a minha independência de espírito se vai e ficarei musicalmente incapaz, e entregar-me-ei à fatalidade que me persegue e não lutarei mais pela minha música.
 
 
  Mas lutou. Propôs e preparou repertório, ensaiou. Enquanto a pobre directora do teatro inglês se ia arruinando com a aventura artística. Tinha confiado por demais na entusiástica constância do público parisiense, apoiada na iniciativa da nova escola literária que três anos antes como que apadrinhara o sucesso francês de Shakespeare.
Mas Shakespeare deixara de ser novidade. O público parisiense era frívolo. A escola romântica tinha consumado a sua revolução literária e tinha razões para não querer ouvir falar de Shakespeare. Shakespeare, de certo modo, era um estorvo, a divulgação de Shakespeare significaria o descobrir de carecas a alguns literatos românticos que tanta coisa tinham pilhado desse mesmo Shakespeare.
 
 
Receitas medíocres e despesas consideráveis: a chave do fracasso da companhia de teatro inglês dirigida por Miss Smithson. E é nesse estado de coisas que alguém oferece à desolada Miss Smithson bilhetes para assistir no Conservatório a um concerto com música de Monsieur Hector Berlioz, a Sinfonia Fantástica e mais umas quantas peças.
 
 
       Miss Smithson reconhece-o. “É ele, não é, o pobre jovem?”, diz ao colega que a acompanha. “Espero bem que ele já se tenha esquecido de mim.”
 
       O concerto incluía o monodrama Lélio, com partes declamadas em que o actor Bocage vociferava para uma assistência romântica já um tanto inflamada pelo efeito da Sinfonia Fantástica: ah, como poderei eu encontrá-la, essa Julieta, essa Ofélia que o meu coração reclama? Como poderei embriagar-me dessa alegria mesclada de tristeza que realiza o verdadeiro amor, e numa tarde de outono, deitado com ela, embalado pelo vento do norte, adormecer, enfim, nos seus braços no meu melancólico e derradeiro sono?
       Meu Deus (pensa Miss Smithson), Julieta… Ofélia… ele está a falar de mim… ele ama-me!
       E depois dessa tirada a profissionalmente abatida Miss Smithson não ouviu mais e foi para casa sem uma consciência clara da realidade.
       A Berlioz é pouco depois concedida autorização para ser apresentado a Miss Smithson.
 
 
       O teatro inglês foi obrigado a fechar portas. Miss Smithson ficou sem um chavo depois de pagar parte das muitas dívidas. Para ajudar à festa, um dia, ao descer do cabriolet, põe um pé em falso, parte uma perna e dois transeuntes têm de a levar a casa desmaiada.
 
 
       A mãe e a irmã opunham-se à união de Harriet com Berlioz; a família de Berlioz nem queria ouvir falar da probabilidade de Louis Hector vir a casar-se com uma comediante, inglesa, ainda por cima…
       Liszt e Chopin actuam no entracte do concerto promovido por Berlioz e que rende uma soma jeitosa destinada a pagar as remanescentes dívidas da companhia do teatro inglês.
 
                   

       E assim que Miss Smithson fica boa da perna, e não obstante toda a carga de oposições familiares, Berlioz casa-se com ela. Foi no verão de 1833. E Liszt foi padrinho do noivo.
       Fosse por causa do acidente da perna partida, fosse pelo que fosse, a verdade é que Harriet Smithson não mais recuperou a reputação de grande actriz shakespeariana. Ou talvez fosse porque, vivendo em Paris e representando uma coisa ou outra de tempos a tempos, lhe fosse impossível perder aquele l’accent intolerável para os franceses.
       O casal vivia em grandes apertos financeiros e eram os pais de Berlioz que valiam.
 
 
       A 14 de Agosto de 1834 nasce-lhes um filho.
       Uma linda história de amor romântico nascida e vivida sob os auspícios de Shakespeare.
       O outro lance romântico é a paralisia de Harriet Smithson. Quatro anos sem se poder mexer e sem poder falar. Até morrer. Em Montmartre, a 3 de Março de 1854.
 
 
       Berlioz desenrola mentalmente a sequência das infelicidades da mulher a propósito do sentimento de piedade que se sobrepusera ao amor já extinto: a ruína financeira; a perna partida; a decepção de uma nova tentativa teatral; a voluntária renúncia; os imitadores e imitadoras que com desprazer ela viu elevados à celebridade e à glória dramática; os incansáveis ciúmes – justificados; a separação; a morte de toda a família; a partida do filho; a beleza esvaída; a saúde destruída; as dores lancinantes; a perda dos movimentos e da fala; a perspectiva da morte e do esquecimento…
 
                                  

       Harriet Smithson tinha sido um poema secreto. Sem o saber, ela tinha sido a nova paixão artística e intelectual a impulsionar uma revolução na cultura francesa. Harriet Smithson dera o sinal a Mme. Dorval, a Frédérick Lemaître, a Malibran, a Victor Hugo, a Eugéne Delacroix, a ele mesmo, Berlioz. Porque ela chamava-se Julieta. Porque ela chamava-se Ofélia.
 
                           

       Shakespeare! Shakespeare! Onde estás? Parecia-me que só ele entre todos os seres inteligentes me poderia compreender; só ele pode sentir piedade de nós, pobres artistas. Shakespeare! Shakespeare! Tu devias ser humano. E se tu ainda existes deves poder acolher os miseráveis. Deus é estúpido e de uma indiferença atroz. Só tu, Shakespeare, és o deus bom para uma alma de artista… what? O fool! Fool!