sábado, 19 de agosto de 2017


                      A JIHAD PORTUGUESA

 
         Um violentíssimo atentado jihadista em Barcelona fez tantos mortos como a simples queda de uma árvore no Funchal.
 
 
         O terrorismo islâmico ainda não chegou a Portugal? Pois não. E esperemos que nunca chegue. Para desgraças é que já temos que chegue. Temos por cá os nossos jihadistas.
         No Portugal interior um tipo vai à noite ao café. Fica à conversa com os amigos. Olha para o relógio. São horas de ir para a cama, até amanhã, malta. No trajecto para casa passa por algumas zonas de mato e arvoredo e de caminho vai-se entretendo a pegar fogo ao mato que há na berma da estrada. Chega a casa e vai-se deitar com a mulher sossegado da vida.
 
 
         Pois parece que isto aconteceu mesmo lá para uma vila do interior. Assim, ou parecido, não deve ter acontecido só uma vez. É a jihad portuguesa em acção.
         A jihad portuguesa não se contenta com o processo em marcha de desertificação do nosso interior pela fuga desabalada dos naturais para o litoral à procura de melhor vida. A jihad portuguesa quer levar a desertificação até ao limite. Se desaparecem as pessoas, que desapareçam também as florestas, as casas, os animais, as culturas. A jihad portuguesa sonha com um país deserto e negro, miserável e carbonizado.
 
 
         Não falando já, à colação da nossa jihad, de um jihadismo nacional marcado pelo sectarismo dos chefes político-partidários, que ano após ano, em pleno flagelo dos incêndios florestais, declamam na televisão o que é preciso fazer para acabar com o flagelo, com a engraçada particularidade de nada fazerem do que dizem ano após ano ser preciso fazer. Ano após ano. E de há muitos, muitos anos para cá.
 
 
         Outra jihad é a dos dirigentes e comunicadores do futebol a incendiar as almas clubistas até ao desvario das claques legais e ilegais que disparam tochas ardentes a esmo em ajuntamentos de milhares de pessoas. Impunemente, claro está.
         O terrorismo islâmico ainda não chegou a Portugal? Pois não. Provavelmente esses terroristas saberão que temos cá, activo e militante, o fogo do nosso próprio jihadismo, o da estupidez, o da impunidade, o de alguma obscura e colectiva maleita mental. Chega.
 
 

 

segunda-feira, 7 de agosto de 2017


      PODEM (DEVEM) OS POLÍTICOS SER BOAS PESSOAS?

 

 
Veio-me isto à cabeça já há tempos, quando foi notícia a publicação do livro de memórias de Cavaco Silva…
        Político boa pessoa?

Boa pessoa antes de ser político, um sacaninha durante o tempo da sua actividade como político? Possivelmente. Sacaninha porque a isso poderá ser constrangido, se não quiser ser empalmado pelos adversários e inimigos – para não falar dos próprios correligionários. E regressando à qualidade de boa pessoa logo que abandone as funções públicas.
        Que tal? Muito esquemático, talvez.
Por acaso, já no pós-guerra francês, Albert Camus, escrevia no Combat: nós queremos chefes que não nos deem vontade de rir.
Ah, ah, ah… apetece-me dizer.

Chefes.
Houve quem dissesse (há muito tempo) que um bom governo só resultava na homogeneidade que radicava no poder de um só.
Poder pessoal e personalização do poder. Chefes, ui!
Há um ponto a esclarecer: personalização do poder e poder pessoal; não são a mesma coisa, apesar da proximidade prática e concreta dos dois conceitos.
Poder pessoal é a realidade institucional; é a pessoa que controla todos os poderes, que domina a mecânica do Estado – eis aqui as velhas tiranias, as obsidiantes ditaduras, as monarquias e os antigos regimes.
Personalização é conceito que se afasta dos domínios institucionais e engrena na psicologia social, uma identificação com o grupo do poder, grupo esse que na personagem detentora do poder se reconhece.
Haverá poder pessoal sem personalização do poder?
Parece que sim. Tanto quanto parece aos especialistas pode haver (Kennedy, Roosevelt, Churchill). Mas o mais corrente, claro, é a existência cumulativa das duas situações.

A fazer fé nos especialistas – e pode ser que isto ande tudo ligado -, a forma que as mentes paranoides usam de mais frequência para incrementar a auto-estima é através do exercício do poder. A demonstração da razão que lhes assiste empresta-lhes a sensação de triunfo, a sensação apaziguadora de rectidão pessoal e autoridade moral, a segurança. E aqui o pendor litigante dos indivíduos paranoides, a necessidade de desafiar e derrotar.
Que Cavaco era um político geralmente antipático, empedernido, inacessível, duro, rigoroso, rígido, enfim, já se sabia. Ou era o que parecia. A cara talhada a canivete não o ajudava, mas cada qual é como é, e não nos podemos admirar que cada um leve aquilo que é e o seu estilo de ser para a actvidade que desenvolve.
Mas ao abandonar os altos cargos, com setenta e bastantes anos no corpo, e ao escrever memórias, não era nada de mais que aproveitasse para trazer ao de cima, pela escrita, alguma bonomia, algumas das amenidades pessoais que tivesse deixado entre parêntesis enquanto homem público em altos cargos.
Mas não.
Quando alçapremado ao poder por empolgante maioria absoluta, Cavaco Silva assumiu-se como “o chefe”. A mim pareceu-me sempre mais um baço chefe de escritório do que um vibrante caudilho de governo ou um venerável chefe de Estado. E foi como chefe que os súbditos o encararam e aceitaram, eventualmente por pensarem que em tanta e tão aparente democracia o que fazia mais falta ao país era mesmo um chefe. Há muito homem que não resiste a ser tratado como chefe, nem que seja da chafarica mais infecta.
Um pouco de História…
Para ter mão forte sobre as massas populares – e quem a tem sobre as massas populares também a tem sobre as outras massas – já dizia o afamado Dr. Goebbels, é preciso um chefe. Mas um chefe que saiba impor a sua personalidade. E assim porque as massas populares seriam aparentadas às mulheres, preferiam um homem forte a um homem fraco – conheci algumas que preferiam exactamente o contrário, mas isso seria outra conversa…

Goebbels propugnava mais: que as massas não tinham necessidade nenhuma de ler.
Bem sei, era naquele tempo e naquela circunstância histórica. Todavia, hoje por hoje, na iliteracia campeante promovida pelo novo liberalismo que deixa os livreiros de cabelos em pé, o tempo pode estar a voltar para trás, como cantou essoutro filósofo chamado António Mourão.
As massas não teriam então necessidade nenhuma de ler porque gostavam de se rever numa presença viva.
“As massas de uma nação rendem-se à palavra falada” – repare-se: não escrita. E o chefe gerará paixão nos seus apaniguados na medida em que ele for um apaixonado. Porque sem paixão não há chefia. E a chefia é a concepção fanática da vida. “Todos os grandes movimentos se devem aos grandes oradores e não aos grandes escritores”.
(E Cavaco até escusou de ser um orador, e menos ainda um apaixonado…)
Na política, todos sabemos isso de sobra, há o dizer e há o fazer. E tempo houve em que o princípio da actividade política era o verbo e o político modelo era o ideólogo retórico. O dizer era capital, o fazer logo se veria. A forma prevalecia sobre o fundo. A palavra era o instrumento da acção política por excelência.
Não sei, não tenho competência nem estudos para saber até que ponto as coisas mudaram assim tanto e tão radical e profundamente – de resto, para quem alimenta de televisão o quotidiano disponível as coisas parecem não ter mudado quase nada…
Mas os técnicos dizem que sim, que tudo mudou. Que o cerne da acção política já não está no verbo, que está na ciência (política) e na acção. Dizem que a política é saber fazer algo mais do que discursos. Fazer algo mais no Direito Constitucional, na Economia, nas Finanças.
Fernandez de la Mora escreveu acerca das alterações da sensibilidade popular. O pessoal já não ouve tanto quanto vê. Realizações concretas é o que o público eleitor quer ver na acção política – para além de continuar a ouvir a música dos discursos, de tentar compreender a comédia dos pontos programáticos que os partidos propalam, de conformar-se com a hipocrisia dos princípios.
O político no poder afirmar-se-á pelo que é estatisticamente mensurável. E do puro político retórico, mui paulatinamente se passou ao perito especialista. Não tem ideologia. É bacteriologicamente puro nesse particular. Não tem cultura. Tem ciência. É um profissional. Boa pessoa? Escusa de o ser…
Cavaco marcou em Portugal uma época de viragem. Justamente a dos tribunos loquazes da tradição primo-republicana – e que ainda remanesceram um tanto no imediato pòs-25 de Abril – para um tempo de tecnocratas, de peritos, de operadores de estatísticas mensuráveis, de economicismo implacável e de um específico fanatismo que tudo reduz a números, tentando fazer da política uma ciência exacta.
Como digo, Cavaco era um governante antipático mas o pagode não lhe faltou com os votos, tomando-o por um político sério e finalmente não retórico.
Daí a ser boa pessoa…
É mais do que sabido que a vitória dos Aliados na II Guerra Mundial pôs um fim ao prestígio dos autoritarismos e abriu caminho ao sistema demo-burocrático como o conhecemos.
Foi música celestial para a fácil tomada do poder político pelo poder económico-financeiro, e de modo a que os governos e demais instituições democráticas descambassem para a condição de instrumento desse poder económico-financeiro – como todos os dias temos disso a evidência.
É daqui que decorre a emergência da mediocridade que se segue ao poder dos últimos líderes carismáticos, De Gaulle ou Adenauer, por exemplo, os que tinham prestígio político bastante para se imporem aos ditames da finança. Mas esses prestigiados carismáticos foram desaparecendo e o poder económico-financeiro ficou como quis, dono e senhor dos destinos (os nacionais e os particulares) colocando às suas ordens políticos intelectualmente medíocres, alcandorando-os ao poder pela força das máquinas partidárias de propaganda. Máquinas de propaganda, é claro, financiadas pelo poder económico-financeiro. Nem podia ser de outra forma.
        Pensando no livro (por mim não lido, aliás) de memórias de Cavaco Silva, inevitavelmente me ocorreram as figuras dos dois últimos presidentes da nossa república, os que escreveram memórias, os que ajustaram contas literárias (se assim se puderem chamar) com os primeiros-ministros que lhes tocaram em sorte. Santana Lopes e José Sócrates.
        Sim, se fossem mesmo boas pessoas não o teriam feito – mas também, calhando, se fossem assim tão boas pessoas teriam sido canonizados e não teriam ocasião de se conseguirem guindar a tão alta magistratura.
        E se essa vulgaridade do ajuste de contas era de esperar da vulgaridade mesma, intrínseca, do provinciano sobre o modernaço tecnocrata, que era o frio Cavaco, digo, não a esperaria eu da inutilidade retórica e dos fumos humanistas incomparavelmente mais cultos e refinados de Sampaio.
        Pormenores, dir-me-ão. Aceito. Fraquezas da condição humana. Aceito. Porém, pormenores e fraquezas que marcam as duas memórias, como se para os comentadores nada valesse a pena esgravatar do conteúdo – talvez não valesse mesmo, não sei, não as li e não gostei, como diria o crítico literário brasileiro.
Isto da política é o diabo...
       Quem vai para a política? E porquê?
        Houve quem tivesse ido para salvar o mundo. Em tempos mais puros, diria, quando a ética e a moral ainda tinham algumas possibilidades. Odiernamente pode ser que alguns entrem na política para salvar o mundo, muito bem, mas, perante a enormidade da empresa, acabarão por se salvar a si mesmos, o seu próprio mundo, porque não…
        Há os que vão para política já destinados a voar alto. E há os que querem governar a vidinha e já vão sentenciados à medíocre obscuridade, os proto-caciques autárquicos, por exemplo, ou os vagos deputados da última bancada.
        Professor de Finanças, ministro de Sá Carneiro, Cavaco estava destinado ao voo alto de parecer, pelos modos e pela comunicação pessoal, o Salazar que se podia arranjar em democracia.
        Advogado, com a baixa evidência política enquanto activista nas crises académicas dos anos 60, seguida de acção no civilizado micro-esquerdismo do MES dos anos 70, não seria imediatamente previsível para o apagado Sampaio um destino glorioso nos mais altos cargos – presidente da câmara da capital já não era nada mau.
        Questão de conjunturas. Possivelmente. De tempos históricos mais ou menos propícios. Questão de temperamento ou de qualidade de ambição. Também.
        Ainda assim, gosto de distinguir os dois, Sampaio e Cavaco (por ordem de entrada em cena presidencial). Distinguir as diferenças entre o homem visceralmente de esquerda que era Sampaio, e o homem visceralmente de coisa nenhuma para lá da vaidade sorna e da ambição pessoal que era Cavaco.
        Boas pessoas?
     Bem, não sei se por afinidades mais ideológicas, acho que consigo deduzir essa qualidade de boa pessoa mais presente, infinitamente mais, em Sampaio do que em Cavaco. Acho. Daí à realidade é que não sei. Não conheci nem um nem outro, o que não me autoriza juízos dessa qualidade. Ambos me eram antipáticos por razões substancialmente diferentes que não interessa para agora discriminar.
        Porque, lá está o óbvio, uma coisa é ser-se boa pessoa no concerto dos amigos e da família, enquanto cidadão comum, e outra coisa é sê-lo enquanto dirigente político.
        Então oiça lá, seu bloguista de água doce, mas o político deixa de ser uma pessoa lá por ser político? Pois é. Deixa. Passa a ser um símbolo. Deixa, ou pode deixar, conforme as alturas a que ascenda. Se deve deixar é outra questão. Mas que pode deixar pode, e geralmente deixa.
        Na mais baixa acepção passa a ser símbolo do seu partido, um homem de partido, e por isso mesmo detentor de verdades oscilantes e alinhadas quando ditas da boca para fora, e de decisões que comprometem primeiramente os seus seguidores.
        Na mais alta das acepções passará a ser o homem de Estado, de falas e decisões que antes de mais dependem não tanto dele mas da razão de Estado. É muita carga para um homem comum e boa pessoa.
        Haverá portanto os que se adaptam e esquecem a antiga qualidade de boa pessoa e serão boas pessoas consoante a circunstância. Haverá os que conseguem trazer essa qualidade de boa pessoa para a vida pública e para a decisão nacional. Se tal for compatível. Do que se duvida.
Haverá os que se possam sentir nas suas sete quintas, sem rebates de consciência, e porque, finalmente, se alçaram a uma condição supra-humana em que ser boa pessoa é o que menos importa para o bom cumprimento da função. Mas também temos os que cumprem menos bem a função exactamente porque deixaram à porta do palácio em que trabalham o condicionamento ético-moral de serem bons seres humanos.
        Mas o que é, em suma, isso de ser boa pessoa?
        Pode inclui várias qualidades. Esquecer os agravos. Respeitar os segredos do Estado que serviram. Não serem vulgares maldizentes. Não atacarem o adversário quando ele está na mó de baixo. E assim por diante.
        E assim por diante…

quinta-feira, 27 de julho de 2017


        OU O FASCISMO POR OUTROS MEIOS

      Pasolini (Pier Paolo), poeta, romancista, cineasta, anti-fascista, equiparou um dia (anos 70/80) a sociedade de consumo ao fascismo.
       Ou um passo adiante, ao estabelecer a hierarquia: sociedade de consumo pior do que fascismo.
       Discutível? Sim, infinitamente discutível. Aquele Pasolini era um exagerado, um desesperado, tinha um sentimento trágico da vida.


 
       No entanto, pelas etapas seguintes da sociedade de consumo, a culminar neste capitalismo selvagem que presentemente vivemos, e tendo como corolário a vigilância sempre latente sobre o que é ou o que não é politicamente correcto, assim promovendo a cínica auto-censura que (por outros meios) faz lembrar velhos tempos, a sentença de Pasolini pode nem ser descabida nem exageradamente disparatada como possa parecer à primeira leitura.
       Sim, uma sociedade de consumo, um capitalismo desbragado e sem lei, e uma censura encapotada a pairar sobre as consciências são facadas no coração de quem acreditou que depois dos fascismo o futuro era deslumbrante, e que ao chegar ao futuro viu tristemente embaciados os deslumbramentos.
 
 
       Quem o disse foi Clausewitz, que a política era a continuação da guerra por outros meios. E o paralelismo não sairá muito forçado ao pensarmos  que a sociedade de consumo, o capitalismo selvagem, a censura do politicamente correcto e as câmaras de vigilância que nos seguem os passos desde o Metro ao supermercado podem por vezes parecer a continuação do fascismo por outros meios.
 
 

quarta-feira, 28 de junho de 2017


       RENEGAR É PERTENCER

    (Este meu gosto bizarro, que não me larga, de interpretar a actualidade pela leitura de jornais velhos…)
 
 
    O autêntico escritor escreve primeiramente para si próprio, por necessidade, compulsão, imperativo. E pelo gosto de. Idealmente  escrevemos para toda a gente, ambição nunca preenchida. Todos queremos ser lidos. Só por excesso de timidez ou autodesconfiança, ou sob pressão de circunstâncias hostis, escrevemos para a gaveta. No fundo há senpre uma esperança. Para voar, a asa precisa de encontrar a resistência do ar.
 
 
Talvez não haja muitas entrevistas importantes de escritores nacionais importantes por aí à disposição – repito: entrevistas importantes de escritores importantes.Pode haver um número apreciável de entrevistas ao enfatuado escritor português, aquele modernaço, prolixo, hiper-adjectivante, sentencioso, palavroso, universitário, inautêntico, professoral, pretensioso e quase sempre pseudo-qualquer coisa.
Estou a ser injusto e parvo? Estarei. Devo estar. Que se há-de fazer? Correm-se sempre riscos quando se opina.
 
 
E foi o acaso que veio em meu socorro ao descobrir em papeladas vetustas uma entrevista interessante e justamente com um dos escritores portugueses contemporâneos da minha preferência. Falo de José Rodrigues Miguéis. Gosto. É verdade. Acho-o muito jovem. No melhor dos sentidos. Será por ter vivido tanto tempo fora de Portugal? E logo na América!
 
 
Respiguei de José Rodrigues Miguéis uma entrevista, melhor dizendo, um inquérito do suplemento literário do há muito falecido Diário Popular. Viviamos todos então o mês de Outubro de 1975 - vejam bem onde chega a minha vetustez informativa...
 
 
Sente-se integrado numa geração? - primeira pergunta. Nem por isso – primeira resposta. Que se desenvolve assim: só com a Seara Nova (a original) me senti participante da geração pós-Ultimatum e do jovem fervor republicano; e sobretudo do espírito crítico, reformador, actuante. As ideias impeliram-me desde cedo para fora da minha órbita natural. Poderia ter sido diferente? Não sei. A minha geração não existia quando comecei a romper a casca como um patinho feio. Um estranho.
    Um estranho. Pois se calhar foi por isso que na juventude comecei a apreciar José Rodrigues Miguéis. O cidadão é o escritor por fora, como este é o cidadão por dentro. Como  separá-los?
A retórica da pergunta que segue espelha alguma coisa do que me intimida no intelectual português: Parece-lhe que seja o acto de escrever dissociável da inserção do escritor-cidadão na comunidade? (Uff!) Resposta: escrever é de todas as ocupações a mais pessoal, solitária, ensimêsmica. 

José Rodrigues Miguéis aponta um supremo alvo para o escritor: a liberdade. Diz: não sendo funcionário público não deve contas a ninguém. E se errar, meu caro Dr. José Rodrigues Miguéis, e se errar? Que o pague. Há obrigações que são impostas, Dr. Miguéis… as obrigações e deveres impostos de fora são invenção de medíocres, oportunistas ou pescadores de águas turvas… procuram servir-se da literatura para atingir os seus fins… extra-literários… ornar-se com plumas alheias… exercer autoridade sobre outros…
 
                                                

Pergunta sobre a profissionalização do escritor…
Nos anos 30, José Rodrigues Miguéis vai tratar do bilhete de identidade. Escritor não é profissão, berrou-me enfurecido o funcionário. Então olhe, ponha… vagabundo… ele pôs um risco. Talvez tivesse razão.
 
 
O profissionalismo é alheio à literatura, à criação, pensava Miguéis. Não era escritor quem queria. Nem as sociedades e agremiações da especialidade resolviam a contento o assunto. Pergunta ele: alguém ousaria dizer que Picasso ou Chagal são pintores profissionais? Ou que Schönberg ou Stravinski são compositores de ofício? E o Eça, cônsul de profissão?
Tudo isso seria exterior ao fundamental, a criatividade. Ninguém se associa para ter talento – nem só porque o tem. Homero, Voltaire, Rousseau, Karl Marx: não precisaram de ser sócios para inventar as ideias e propagá-las.
No entanto, Miguéis não vai fora da hipótese de o escritor poder ter um emprego estranho à literatura que lhe permita escrever com independência. Mas um emprego que não o ocupe todo, que não lhe interfira com as tarefas da escrita, que não lhe condicione os movimentos mentais. Óbvio. Só os que lucravam com a escrita dispensaram outras actividades.
Ninguém nos mandou escolher a via do sacrificio, pois não?
Escritor profissional, que é isso? Aquele que escreve o que lhe mandam? Seria viver em estado de dever. Esse seria um funcionário. Miguéis não podia com isso. Antes a liberdade – que para ele era a mais dura das disciplinas.
Pergunta do inquérito do Diário Popular (de 1975, sublinho): e o Estado? O Estado deveria ajudar o escritor? Resposta: facilitar-lhe a educação, sim. Deixá-lo em paz para escrever o que quiser também. Para lhe assegurar os direitos de autor que sofrem demasiadas limitações, sim… e que  Miguéis particularmente em Portugal considerava uma farsa…

                             

Como o profissionalismo, todo o mecenato me é odioso. Não tem que ver com o génio ou a criação.É certo que grande parte da literatura é vigarice ou fabricação… isto é ele, Miguéis, que o diz, não sou eu, an?
Fala José Rodrigues Miguéis: a sociedade só tem que acatar os génios, reconhecê-los, remunerá-los dignamente – afinal parece que já são deveres a mais.
Mas sim, Dr. Miguéis (quando se fala com um português é sempre de óptimo tom tratá-lo terceiromundisticamente de doutor ou engenheiro. Posso dizer “sr. Faulkner”, “sr. Mauriac”, “sr. Flaubert”, ou “sr. Céline” – este que por sinal era doutor, médico -, porque são escritores de relevância mundial, mas para um português… que não é político, mas enfim, é escritor… é preciso respeitinho, sr. dr. E José Rodrigues Miguéis, como bom escritor português, era doutor, licenciado em Direito.)
Mas ia eu a dizer, Dr. Miguéis…  quem, na sociedade pode julgar ou avaliar o génio? E como? Pelo êxito? É o dr. mesmo que o diz: não basta; e por vezes ilude. Então, como, dr.? Pela duração? Mas aí o dr. diz que pode vir tarde e ninguém a sabe prever. E diz mais, que o gosto, o mérito e tudo isso vai mudando com o tempo, e assim estamos no beco sem saída. E o mais que o dr. ainda diz a isso é: não confundamos democracia com mediocridade – que é o que mais confundimos, por acaso, não podia deixar de ser, em que país estamos? -,  nem confundamos justiça com choradeira. E por aqui se fica o dr. quanto à instância social avaliadora do génio…
 
 
Nascido em Alfama, mais lisboeta do que José Rodrigues Miguéis não pode haver. Formou-se em Direito. Em 1924. E também se licenciou em Ciências Pedagógicas por Bruxelas. Em 33. Era compagnon de route de velhos republicanos e de velhas revoluções, foi amigo de Raul Brandão, de Jayme Cortesão, de António Sérgio, de Bento de Jesus Caraça, de José Gomes Ferreira, e depois expatriou-se. EUA. Em 1935. Lá, foi redactor associado do Reader’s Digest e por lá escreveu grande parte da obra. Literariamente, José Rodrigues Miguéis quer dizer Páscoa Feliz, Leah e Outras Histórias, Saudades para Dona Genciana, A Escola do Paraíso, Gente de Terceira Classe, Nikalai Nikalai, O Espelho Poliédrico, O Milagre Segundo Salomé. Para só mencionar alguns títulos.
 

 
 
Pergunta: quantas horas trabalha e quantas páginas produz por dia? Resposta: estava com 73 anos na altura da entrevista, e naquela idade era imprudente falar em horários.
 
 
Deitava-se tarde, dormia mal, levantava-se a desoras. Lia quanto lho consentisse a saúde, a vista, o cérebro e o coração. De noite. E nem todos os dias escrevia. Ah,quem me dera! Dez ou quinze anos antes ainda era menino para produzir dez ou vinte páginas de 375 palavras. Não se considerava um escritor fácil. Espontâneo sim. E até torrencial… sim, sim, mas insatisfeito, severo, sempre em busca da fluidez da expressão…
No tempo da Páscoa Feliz? Tinha 25 anos… sei lá como a concebi. Dispersava-me por mil tarefas, políticas, pedagógicas, altruístas… perdia o meu tempo. Hoje tenho muito mais ideias. Não vivo para mais nada. Guardei-me para tarde, e a idade não perdoa.Inspiração? Não sei.
Necessidade de um estado de excitação, exaltação mental ou afectiva, sim, creio nisso. A razão intervém depois da escrita espontânea e automática e vem refazer a arquitectura da escrita.
Dr. Miguéis… e planos? Planos? Planos de escrita. Não me lembro de os ter feito. Então e como é que o livro… o livro surge à medida da invenção-criação, como n’O Milagre Segundo Salomé. Admito, está bem, que em certos casos… o plano, o plot, seja indispensável, pelo menos aproximativamente. Tenho histórias que escrevi de um jacto, sem saber para onde ia e em que a minha surpresa de escritor, no fim, era a mesma do leitor desprevenido…
E ambiente de trabalho? Isolamento? Solidão e silêncio. Indispensáveis. E só eu sei quanto lhes sofro o excesso… e a falta… quando rapaz escrevia onde calhava… em cafés, claro… mas, sabe, escrever, como amar, exige certa privacidade… e sempre escrevi à mão, de impulso…
Sim, mas depois vinham as revisões, as recópias, a forma final, legível, sempre, como ele diz, pensando no irmão tipógrafo. Máquina só nas versões finais, três ou quatro, e operando apenas com os dois indicadores. A máquina, pensava ele, tornava um escritor prolixo. A máquina falava demais, desviava-se do assunto.
A mão é um órgão económico, disciplinado, fiel. Embora ainda hoje não possa entender o que escrevi num relâmpago, tão depressa ia a mão. E não me envergonho de dizer que agora, aos 73 anos, a minha mão está mais renitente.
 
                

Dr. Miguéis… há essa coisa a que no seu tempo se chamava vício e que agora é adição… a adição dos artistas criadores, copos, tabaco, algum estimulantezinho… sempre fumei enquanto escrevia. Há um ano deixei de fumar e sinto-lhe terrivelmente a falta. Torna-se mais difícil escrever. E até pensar.
Ainda bem, dr., que não vive já em 2017. Teria que se deixar domesticar e transformar-se num caniche socialmente bem comportadinho e comercialmente útil. Se fumasse enquanto escrevia no café, estava feito, pois estava, estava sujeito a que o denunciassem… não, a PIDE não, que ideia… já não temos disso. Esses eram uns broncos. Agora, por lei, denunciamo-nos uns aos outros. Por causa da política? Não! Por causa do cigarrito. A subversão agora é essa. Claro, dr., mais perigoso do que ser comunista em 1950.
Há quem diga que o fumo estimula o talento, a tal inspiração. Não  sei dessas coisas. Mas estes tempos que o dr. não vive e que são o futuro com que sempre sonhou, não precisam para nada de talento nem de inspiração. Só precisam de saúde – pelo menos física, e aparente. Saúde e respirar os escapes dos carros e sofrer as saudáveis consequências dos transformações climáticas por mor das descargas sei lá de quê para a atmosfera. Descargas de quê? De fumo de cigarro. De que havia de ser?
 
 
Nunca bebi nem tomei drogas. Mas creio que o tabaco, como certas drogas, anfetaminas, efedrinas, ritalinas, e mesmo bebidas alcoólicas podem reforçar os poderes de expressão e de concepção. Mas ó dr. o mundo já não quer nada disso. Essas coisas desencadeiam os demónios interiores. Ah, pois por isso. Eestamos cheios deles. E agora desencadeiam-se mais em família e pouco lhes dá para a criatividade – a não ser alguma criatividade assassina. Sabe lá o que vai para aí de violência doméstica, da doméstica e da outra, de qualquer outra, de todas as outras! Deve ser por causa do tabaco…
Mas voltando ao que interessa… cadernos de notas, apontamentos…  por muitos anos não tomei notas das ideias que me ocorriam. Tinha a invenção pronta e frequente. Por volta dos 40 anos dei em fazê-lo, ocasionalmente, e só então me dei conta da sua importância. Foi um erro não ter começado mais cedo. Com   a idade a memória torna-se infiel.
Pergunta mecânica: corrige muito os manuscritos? Ou pouco? E as provas tipográficas? 
Resposta: a minha regra é entregar um original definitivo, sem emendas.Nunca altero nada nas provas. Bons tempos os do Eça e do Fialho que podiam arruinar o editor à força de alterações.
Livros de consulta… o meu livro de consulta é a minha reserva de situações, ideias, tempos, modos, afectos, casos, expressões. Evito escrever sobre assuntos que obrigam a demoradas documentações.
Quem diz livros de consulta, diz livros de cabeceira…
Em tempos tinha sempre à cabeceira uma pilha de livros, que não acabava de ler, os convívios absorviam-me o tempo. Leio hoje mais e melhor, embora sem método nem disciplina, três ou quatro livros ao mesmo tempo…
Na cama só leio na doença. Ou para adormecer. Descartes descobriu que a cama é boa para pensar…
A tudo prefiro as memórias. São as vidas, não as ficções, que me empolgam.
 
 
José Rodrigues Miguéis é outro autor que torce o nariz às influências. Que tem dificuldade em assumi-las. Quanto mais não seja directamente. Possivelmente o Camilo, o Eça. Ou o Brandão. Ou o Aquilino. Talvez esses. Esses podem-no ter influenciado alguma coisa. Diz ele: a imitação é o ensaio do vôo literário. E fala dos russos – era um adepto da cultura russa, pelo que me pareceu. Fala dos russos e fala de Balzac, de Flaubert, de Stendhal, de Gide, de Aragon, de Malraux. Fala dos mestres americanos – será por isso que gosto da escrita de José Rodrigues Miguéis, por essa hipotética, mesmo que ténue, influência dos mestres americanos?
 
 
Devo ter aprendido com todos esses alguma coisa. Mas a minha maior influência fui sempre eu próprio, o meu modelo e paradigma.
O inquiridor do Diário Popular quer saber se o Dr. Miguéis já era bom em redacção na escola. Resposta dele: que era, mas que tinha más notas, que só tarde os professores compreenderam. Conheci sobretudo mestres de banalidade. Pois havia de cá vir abaixo outra vez Dr. Miguéis, para conhecer os mais lídimos mestres de banalidade.
Só o leitor e o tempo fazem o escritor, só eles importam.
Autobiográfico na sua ficção, Dr. Miguéis? Toda a obra literária é autobiográfica, mesmo quando virada do avesso. A própria fantasia, a escolha do assunto, as personagens, definem uma propensão.
A obra é um prolongamento da personalidade, e é a revelação de uma personalidade o que entusiasma o leitor, ainda que inconsciente disso.
 
     

O Dr. Miguéis declarava em Outubro de 1975 – nas vésperas da extinção do verão quente -  não cultivar o histórico. Nem o técnico. Nem se dar a excessivas apoquentações com a exactidão cronológica. Só lhe interessava o reflexo que a leitura determinava no espírito do leitor. Preocupava-se com o rigor da caracterização e da expressão, a sugestão de verdade, o ambiente, o modo, o clima, os afectos. E a fluidez do estilo que pudesse penetrar insensivelmente o leitor como se fossem raios cósmicos a produzir um efeito emocional.
 
 
E acerca da escolha dos nomes da suas personagens achava ele que quase sempre os nomes se escolhiam por si. Alípio, Aparício, Engrácia,Buldogov,Orapronobsky.Dona Genciana – o nome de uma planta afrodisíaca cuja flor rôxa produz uma tintura usada no passado em doenças de pele – um nome que se aplicava lindamente à personagem.
    Estou um pouco além da idade de aprender.Assistir a palestras só por obrigação. Tertúlias literárias não as há nos EUA. Bibliotecas. Sim. Trago-as para casa. A Biblioteca Pública de Nova York…
Vai ao cinema? Vai ao teatro? Vê televisão? Visita museus? E galerias? Viaja? As implacáveis inquirições automáticas e impessoais do questonário do saudosíssimo Diário Popular de Outubro de 1975.
 
 
Dantes havia em Nova York casas que mostravam filmes russos. Hoje, que é deles? Franceses e italianos eram a rodos. Hoje rareiam. Ou eu envelheci ou eles. A pornografia invadiu tudo: a prudência não me aconselha a ver esses filmes. Aliás, são de uma monotonia sufocante.
(Pornografia strictu sensu não direi tanto da escolha cinematográfica de hoje, mas porrada, pseudo-antecipação científica - desde que meta porrada -, desastres, catástrofes, sangue a golfar, filmes feitos em computador, o cineasta deixou de ser um artista, passou a ser um técnico, porque o cinema deixou de ser arte e ficou-se pelo entretenimento… é assim dr., que se há-de fazer?)
E será que a opção política, ou a vinculação partidária eventual tiveram influência no que José Rodrigues Miguéis escreveu? Ele admite que sim. Mesmo que não julgue isso imperativo. A opção política fora sempre para ele um estímulo. Uma obsessão também. Uma devastação na minha vida.
Escritores empenhados, comprometidos, engagées. Fala o próprio. Há que distinguir os que o são: 1) em palavras e batendo as mãos no peito; 2) na obra; 3) na vida, como cidadãos. Era aí que se lhe verificava o engagement. Mas excluía a probabilidade de ter sido comandado, ao escever, pelas convicções próprias. Não foi assim? Sim. Foi. Escrevo como se presumisse que a revolução é um facto passado em julgado, consumado, que me torna livre de escrever sem peias. A revolução, porém, não é em si um fim, mas um meio. O seu intuito é realizar a crescente e possível felicidade dos homens no seu conjunto. Não deve sacrificar os homens aos esquemas.
 
 
E por falar em revolução e em possível sacrifício dos homens aos esquemas,aos sistemas, em Outubro de 75 seria inevitável que se perguntasse a José Rodrigues Miguéis pelo 25 de Abril. Que impacto lhe provocara como escritor.
 
 
Diz ele que o 25 de Abril não foi o fim de uma época. Diz que foi o amanhecer de um tempo novo. Restaria saber até que ponto seria eficaz. As revoluções interessam-me como fenómenos de cultura, sintomas de algum estádio cultural. Esta teve sobre mim um efeito quase fulminante…
Agora que todos se proclamam de revolucionários, os antifascistas históricos foram anulados. Quando ouço tanto alarido a respeito de liberdade e de democracia, apetece-me correr a fazer um seguro contra a falta delas, ou agarrar uma bóia de salvação. Chego a recear que tantos revolucionários juntos acabem por não fazer a revolução...
 
 
 “Mas então foi para isto que se fez o 25 de Abril?”, ainda se pergunta hoje, 2017. E pela minha parte só gostaria de lhes poder responder “pois foi”.
José Rodrigues Miguéis não disse o que se leu atrás. Só disse assim: o escritor é um ser que filtra, reflecte e medita o seu mundo e a sua vida, o seu papel e posição neles. É impensável fora da sociedade cujo ar respira… é impensável isolado ou dissociado, mesmo quando julga opõr-se-lhe ou renegá-la. Renegar é pertencer.
 
 

Mas as opiniões do escritor não valem mais do que as de qualquer homem comum. O que lhes dá prestígio é a qualidade publicitária do entrevistado.
A literatura é uma coisa que se faz… e de que se deve falar o menos possível…