domingo, 7 de janeiro de 2018


                         A SAZÃO ARDENTE

 

O regicídio foi, logicamente, a eflorescência vermelha de ódios e revoltas semeados às cegas por republicanos e monárquicos na sazão ardente de 19071908. Escreveu Aquilino Ribeiro.
 
                                                                            
 
Fará em Fevereiro cento e dez anos que se deu em Lisboa um dos factos mais trágicos da História portuguesa. Assim, de repente, até me parece o mais trágico depois de Alcácer Kibir. O assassinato de um rei e com a ele o princípio da fundação de uma nova ordem política no país.
 
 
Um acontecimento trágico atravessado em todas as suas facetas por questões de moral, cenários e lances românticos, e ainda hoje, em muitos aspectos, coberto pelo véu do mistério. E está bem de ver que depois das séries televisivas, das conferências, dos livros escritos, não serei eu aqui a desvendar os mistérios ou a dizer sobre o caso alguma coisa que não tenha já sido dita, escrita, conjecturada.
Então para serve esta série de escritos que nos vais impingir? Sei lá.
Em certa medida, algumas coisas parecem tão longínquas, tão fora de moda – sacrificar desinteressadamente a vida por um ideal; assassinar chefes de Estado – que é como se tudo tivesse acontecido noutro país qualquer, num daqueles países onde no antigamente as coisas costumavam acontecer. Noutra medida, é possível que existam aspectos de tão flagrante actualidade na prática política do tempo e na alternância democrárica, e na inépcia do rotativismo instituído – então e agora - que é capaz de nos deixar de boca aberta diante do nosso destino de pátria em constante e atávica crise de valores e de elites.
 
              

            Devo tudo às leituras que fiz. A Carbonária em Portugal, do Prof. António Ventura (Livros Horizonte); D. Carlos, a Vida e o Assassinato de um Rei, de José Castro Pinto (da Plátano); Regicídio, a Contagem Decrescente, de Jorge Morais (Editora Zéfiro); O Regicídio, de Rocha Martins (editora Bonecos Rebeldes).
Foi em 1901 que João Franco se desvinculou do Partido Regenerador e fundou o seu próprio partido, o Centro Regenerador Liberal. Há uma crise académica no ano seguinte, e é em em Maio de 1905 que uma importante personalidade monárquica, José Maria de Alpoim, faz o que João Franco já havia feito: abandona o seu partido, o Progressista, criando o estado de dissidência progressista.
A sazão ardente de 1907/1908, segundo as palavras de Aquilino Ribeiro está a começar
 
 
A sazão ardente avoluma-se em Abril de 1906, as sementes da revolta a germinar nas forças armadas com um motim a bordo do cruzador D. Carlos; com João Franco a formar governo e a romper com a prática do rotativismo; a prosseguir em Maio com a raínha a ser vaiada no Campo Pequeno; e a desembocar na questão de moral que era a chamada lista civil, ou seja os adiantamentos autorizados pelo governo à casa real.
João Franco entendia que o país precisava de uma vida nova. O povo andava a ser enganado pelos partidos do rotativismo, o Regenerador e o Progressista. Tal súbita verve salvífica desinquietou imediatas desconfianças no eleitorado: se havia tantos anos o povo era enganado pelos partidos, por que razão andara tantos anos pelo Partido Regenerador, também ele, a enganar o povo. Porque nunca até então denunciara os ditos “maus costumes políticos”? Porque nunca se revoltara contra as situações?
 
 
Claro que o móbil da súbita conversão de João Franco ao amor do povo tinha sobretudo a ver com os seus interesses pessoais e não com a simpatia pelo povo.
João Franco via um rival alçapremar-se à chefia do seu partido e assim conquistar o primeiro plano das atenções e relegà-lo para uma segunda posição. E o rival era Hintze Ribeiro.
 
 
Dissidente monárquico, José Maria de Alpoim vira a sua oratória contra os seus ex-companheiros e contra o rei – contra o qual, de resto, passaria a conspirar, ou até a incitar ao assassínio – inclusive  a pagar-lhe o assassínio.
 
                                                                                     
 
Como João Franco, também Alpoim se teria decidido à dissidência por ver comprometido o seu protagonismo no interior do partido. Estaria para suceder na chefia do partido ao velho José Luciano de Castro, mas reparara que apesar de velho e paralizado das pernas, José Luciano de Castro não queria dar de mão da sua condição de líder do Partido Progressista.
 
 
No começo do séc. XX português – como no resto da Europa – era evidente o declínio das monarquias. Como por cá era evidente a ingovernabilidade do país. Guerras entre monárquicos; guerras entre republicanos; guerras de monárquicos contra republicanos e de republicanos contra monárquicos. O povo estava fora disto, claro,como sempre.
O povo tinha medo. Medo das bernardas, das bombas, das balas pedidas. E também lá teria as suas convicções. E muito simples, parece-me a mim, básicas: ou se era monárquico, ou se era republicano. A dissidência em cada um destes grupos era entretém dos senhores, tinha essencialmente a ver com interesses pessoais e de casta.
 
 
Se os monárquicos estavam agrupados em dois partidos, o Regenerador e o Progressista, com as dissidências registadas, passou a haver guerras mais intestinas ainda no campo da monarquia. Dissidentes regeneradores contra o Partido Regenerador; dissidentes progressistas contra o Partido Progressista; os dois partidos um contra o outro.
O fim do regime parecia anunciado. Era questão de tempo. Em termos de governabilidade do país era avisado esperar uma emergência de ditaduras.
Nas eleições de Abril de 1906 reclamaram-se irregularidades, e na sequência disso registaram-se recontros entre populares e a polícia.
 
 
Hintze Ribeiro lê a situação e pede ao rei que adie a abertura das Cortes por alguns meses. Para acalmar as hostes. Em compensação, compromete-se a fazer um bom governo. O que ele quer é um tempo de governação sem fiscalização parlamentar, logo, sem oposição, uma vez que o parlamento ainda não abrira. O que ele quer é uma situação de provisória ditadura. Uma emergência. Mas o rei não vai daí abaixo.
Meu querido Hintze, não me parece conveniente o adiamento das cortes. Promoveria uma imediata sublevação no espírito público. Não digo já dos republicanos, o que era lógico, mas de muitos, senão de todos os monárquicos que te não acompanham nesta ocasião – escreveu D. Carlos ao seu primeiro ministro. Não lhe parecia o momento azado para uma aventura ditatorial, alega ainda.
Hintze Ribeiro, em consequência da resposta do monarca, pede a demissão do governo. E se D. Carlos recusa  a Hintze Ribeiro a faculdade de governar em ditadura, não o recusará pouco depois quando é João Franco a assumir a presidência do ministério.
 
 
Meu querido João Franco, tendo o conselheiro Hintze Ribeiro acabado de depor nas minhas mãos a demissão do ministério, e desejando eu que neste momento te encarregues da formação de novo ministério, desejo que aqui venhas falar-me logo que possas e quanto mais cedo melhor…
Pela letra de alguns comentadores, João Franco não mostrara até então, politicamente, nada de mais, tirante os dotes oratórios. E pergunta-se a razão por que D. Carlos terá recorrido a ele para formar novo governo.  
O partido de João Franco era um partido minúsculo, em comparação com os regeneradores e os progressistas. E nunca governara. Tal como o seu maior, João Franco, que, tendo já sido ministro, nunca chefiara um governo.
O programa. As dúvidas – que assolavam o espírito do rei. O partido franquista iria pôr em prática as promessas do seu programa? E se as circunstâncias políticas não permitissem tal?
Mas D. Carlos estava até aos cabelos dos fracassos tanto de regeneradores como de progressistas. A nomeação de João Franco e do seu pequeno partido constituía um risco. Mas D. Carlos talvez não lhe visse alternativa alguma e se sentisse empurrado para o risco.
 
                                                                             
 
Uma coisa é o falar e o prometer – como todos bem sabemos -, e mais a propaganda que pode transformar (pelo menos por algumas horas) os fracassos em sucessos… - e outra coisa é o fazer.  Mas João Franco ambicionava o poder. João Franco tinha a qualidade inerente  ao seu defeito: uma determinação quase cega. Tinha uma ideia e ia com ela em frente, acontecesse o que acontecesse.
A ordem do dia na vida nacional nesta época era paradoxalmente a desordem. E a desordem era tal que as próprias cortes eram fautoras dessa desordem, promovendo deliberadamente algazarras que justificassem o fim dos trabalhos e o fecho temporário do parlamento.
 
 
O experimentado político José Luciano de Castro oferece ao rei uma escapatória, um acordo de governo entre o seu partido o progressista, e os franquistas, a que chamaria de concentração liberal, permitindo ao pequeno partido de João Franco governar com o apoio do grande Partido Progressista. E tal acontecia como vingança de José Luciano de Castro relativamente a Hintze Ribeiro, acabado de se demitir. José Luciano de Csstro tinha razões de queixa de Hintze e não hesitava em comprometer o destino do país só para ajustar contas com outro político. Uma questão entre senhores. Em 1906/1907.
Também os republicanos, por meio de carta de Bernardino Machado ao rei, se dispunham a deixar governar os franquistas. Preferiam, por razões corporativas, o governo de um pequeno partido ao de um grande, como o Regenerador. Mas o risco de o parlamento se pôr contra o governo minoritário persistia, era imenso, e nem o rei tinha alvedrio para lhe conferir estabilidade.
 
 
Mas vamos lá que o pequeno partido de João Franco lograva sucesso na sua governação. Era certo e sabido que se tal ocorresse tiraria votos (e talvez deputados) aos progressistas de José Luciano. José Luciano estaria atento para ver até quando e a que pontos lhe seria útil ou pernicioso politicamente apoiar um governo de João Franco. A João Franco conviria que as coisas corressem bem para se libertar do colete de forças de progressistas e regeneradores que o aperreava.
João Franco sobe ao poder a 19 de Maio de 1906, as cortes abrem a 1 de Junho. A oposição manifesta-se, provoca tumultos e insulta. A um ponto tal que as mesmas cortes terão de encerrar logo quatro dias depois, com eleições marcadas para Agosto.
 
 
João Franco vai inaugurar uma sede de campanha do seu partido lá para os lados de Alcantara. A confusão é geral. Há gritos e insultos. Republicanos e oposicionistas apareceram e procuraram inviabilizar a sessão.
João Franco grita: os republicanos estão a precisar de uma carga de sabre como de pão para a boca!
As manifestações hostis a João Franco, na opinião do próprio, eram uma provocação para que o governo decretasse violentas medidas repressivas. Se o governo o fizesse estaria a prestar um favor à causa republicana que assim reclamaria para si o estatuto de vítima, o que, em politica, costuma dar dividendos.
Vai-te embora bandido! Fora!Fora! – gritava o populacho quando João Franco, finda a sessão, chegou ao automóvel sob uma chuva de pedradas.
Mas João Franco era corajoso. Manda subir a capota do carro e fica de pé, à disposição das pedradas, a agradecer aos que o aplaudiam, ignorando as invectivas do pagode. As pedradas continuam. Há feridos. Há homens de navalha aberta. Há sangue.
Joga-se a vida! Joga-se a vida!, gritava João Franco aos seus.
Prendia-se um dos desordeiros, um filho da terra, o Chico Teso.
 
 
Era assim. Era Portugal. Pequenino, rasca. D. Carlos estava a águas – não no Cartaxo, mas em Pedras Salgadas, e de lá escreveu  a João Franco.
Meu querido João, felizmente que nada sofreste. Na minha opinião, coisa alguma de maior sorte poderia ter sucedido ao governo em prol das ideias que desejamos levar àvante, as únicas que conseguirão fazer alguma coisa deste nosso tão bom e até hoje tão maltratado país.
 
                                                                                 
 
Na opinião de D. Carlos,os distúrbios de Alcantara acabavam de dar ao governo um excelente pretexo para acabar de vez com tumltos de rua, além de terem posto contra os arruaceiros toda a gente honesta, e esta – remata o rei – felizmente para nós ainda é a maioria.
João Franco era impetuoso. Alguns o dirão precipitado. Outros o dirão imprudente. Sei lá disso. Talvez fosse irresponsável. Cà para mim era simplesmente politico,quer dizer, ambicioso antes de mais, ambicioso de mando. E talvez pensasse mais nos seus interesses e nos do seu grupo, o que iria dar no mesmo,visto que grupo dele era ele. E nem que isso pudesse vir a custar a vida ao seu rei.  
 
 
Governe-se com o parlamento, é esse o meu desejo, mas também é preciso que o parlamento faça alguma coisa. De palavras está o país farto. O país quer é que se discutam no parlamento medidas que lhe sejam úteis – carta de D. Carlos ao seu primeiro ministro João Franco. Dezembro de 1906.
Nos alvores do ano de 1907, João Franco só vê obstáculos à sua governação. Começa a perder os apoios parlamentares prometidos. Vai pelo país um grande surto grevista. Os progressistas monárquicos passam-se para as hostes republicanas e integram um comité revolucionário. Falo dos mais notórios, José de Alpoim, o cavaleiro fidalgo da casa real, visconde da Ribeira Brava e Alexandre Braga.
 
 
João Franco quer remodelar o governo. Já tem nomes. Três. O rei dá-lhe cobertura. Mas os três nomes ideais para João Franco recusam. Pertencem ao Partido Progressista. João Franco quer mostrar ao país o apoio claro desse partido. Pois. Mas os homens fortes desse partido desconfiam dele, desconfiam de que o intento de João Franco é mesmo o de esvaziar o Partido Progressista e atraír para ele os melhores homens.
E o velho José Luciano de Castro roi-lhe a corda. Que João Franco apenas pretenderia criar dissidentes. Quem sabe se não mesmo anexar o Partido Progressista ao seu? Ninguém cairia na esparrela de o encorajar nesse sentido. E também os progressistas esperam a todo o momento a queda do governo do mesmo João Franco, na certeza de serem eles os chamados a formar novo governo.
 
 
Há que tirar dos factos do passado, se tal for possível, algum proveito e esclarecimento para os dias de hoje. Porque é que os políticos querem com tanto afã ser governo, mesmo nas situações nacionais mais infelizes?
Ora ora. Só um partido de governo, de poder, pode distribuir benesses e lugares pelos seus. Digo pelos seus militantes, simpatizantes e clientes – sobretudo clientes. Quando um partido perde eleições ou é apeado do poder o que se passa nas suas hostes é uma trági-comédia. Os clientes ficam sem os seus empregos, e esses seus empregos não são qualquer coisa, eles são presidentes de empresas, de bancos, de organismos vários. Eles são directores gerais. E sendo que esses presidentes e directores, uma vez empregados bem alto, chamam para os cargos mais subalternos e acessórios (vices, chefes, sub-chefes, sub-directores, assessores, disto ou daquilo) os seus amigos, os amigos do partido que lá os pôs, os militantes, os clientes. Parece populismo,ou demagogia, e talvez o seja, mas o diabo é que é verdade.
É verdade e é democracia, pois então…
 
                                                      
 
Se o partido não está no governo e não pode distribuir lugares, entra em crise interna mais ou menos profunda. O nervosismo instala-se. Os descontentamentos minam tudo. Toda a gente quer uma mudança, uma mudança de líder logo para começar. O líder que se segue será o que vai conduzir o partido à vitória nas eleições, ao governo, e ao poder de distribuir as mais lautas gamelas pelos clientes. É este o sentido da nossa vida comunitária. E democrática, pois então…
 
 
Resolver a contento os problemas reais do país e do povo não é razão bastante para estar no poder. Pode até calhar que esse partido resolva alguns deses problemas, mas o principal móbil das ambições de poder de um partido é esse partido poder distribuir lugares pelos seus clientes. E um partido começa a deixar de ter importância, e militantes, e patrocinadores e clientes, se andar muito tempo fora da área do poder e não puder, como deve, não só fazer os favores devidos aos que financeiramente o patrocinam, como prover devidamente os seus clientes.
Em Maio, João Franco tem o governo composto. Sem gente dos progressistas. E a coisa não anda. E o rei dissolve o parlamento. E João Franco vai governar em ditadura. Não há perspectiva de novas eleições.
Quando João Franco fora ministro de um governo de ditadura chefiado por Hintze Ribeiro, declarara que governar em ditadura era um erro e que não voltaria a cair noutra. E caiu.
Pouco tempo antes, também D.Carlos não permitira a Hintze Ribeiro governar em ditadura. Permitia-o agora a João Franco. Sabe que vai ser alvo de censuras, mas é mais um risco que se propõe correr. Os partidos consideram-se destratados, marginalizados do processo político.
 
                                                                                               
 
Meu querido João, vamos ter uma campanha sobretudo contra nós os dois, mas é para isso que cá estamos. Deste uma sessão parlamentar nunca vista, mas chegaste ao fim convencido de que não era dali que podia vir o restabelecimento da disciplina social nem o renascimento do nosso país. Deixemos falar quem fala e continuemos a nossa obra.
 
 
Meu senhor, a comissão executiva do Partido Progressista, composta por dedicados amigos de V. Majestade, deliberou protestar contra a ditadura. Atrevo-me a suplicar que atenda as vozes e conselhos dos que em tantos anos de serviços têm provado a sua dedicação à monarquia.
 
 
Meu querido José Luciano, compreenderás, tu, que me conheces há longos anos, que eu não tomaria as decisões que tomei se as não julgasse neste momento indispensáveis para bem do nosso país
Meu senhor, tendo sido encarregado pelos meus colegas, como conselheiro de Estado mais antigo, de solicitar a V. Majestade uma audiência para lhe expormos o nosso modo de pensar sobre a actual situação política, peço se digne conceder-nos a honra de nos receber. Permita V.Majestade que lhe beije a mão.
 
 
Meu querido José Luciano, é sempre com muito prazer que ouço e recebo os meus antigos ministros e verdadeiros amigos como tu e teus colegas, e por isso receber-te-ei na 6ª feira pelas duas da tarde. Sucessivamente, e a partir de 2ª feira, irei recebendo cada um dos teus colegas pela uma e meia da tarde.
João Franco prosegue a sua governação em ditadura. Há confrontos de rua com a polícia. Dois mortos. Na desordem do dia estará ainda a questão dos adiantamentos à Casa Real.
 
 
No dia 6 de Agosto, às 9 da manhã, no nº 17 da Rua de Sto. António à Estrela dá-se uma violenta explosão. Há mortos, feridos e prisões.
 
 
Meu querido João, quanto aos anarquistas, não me admira que neste momento alguns apareçam, mas é para isso que cá estamos e por certo nem a ti nem a mim será o medo que nos fará mudar de caminho.  
Na verdade, os anarquistas actuavam em ligação com alguns elementos monárquicos dissidentes, José de Alpoim entre eles. Havia gente de dinheiro a financiar a fabricação e a aquisição das bombas e de outro material de guerra.
 
 
Mas o povo das províncias aclamava el-rei por onde quer que ele andasse. El-rei não dava mostras de temer pela vida, não obstante o exemplo que tinha na família: Umberto I de Itália, seu tio, morto num atentado sete anos antes.
 
                                                                                                
 
A imprensa atacava a raínha, tão esmoler, e desfazia-lhe nas obras de beneficência, chamava-lhe exploradora da miséria. E pressionava o rei a abdicar – e isto tanto a imprensa republicana como a monárquica. Uma personalidade grada das letras porrtuguesas incitava mesmo ao assassínio: Guerra Junqueiro.
 
 
José Luciano de Castro, o maioral do Patido Progressista, opinava para os jornais: estamos num período revolucionário… isto não é uma ditadura, isto é um golpe de Estado, e o meu partido compromete-se a usar todos os meios para que as ditaduras cessem por uma vez.
Júlio de Vilhena, chefe dos regeneradores, dizia: o que estamos presenciando não pode continuar. Isto terminará fatalmente com um crime ou com uma revolução.
 
 
A seguir, veremos como, pela questão de moral que se encobria por detrás de uns miseros 19 contos de reis, a vida do rei e o problema dos adiantamentos à casa real haveira de aquecer ainda mais a sazão já escaldante.

 

terça-feira, 26 de dezembro de 2017


           QUAL CARY GRANT?

   Maria Cavaco Silva comparou o marido ao Cary Grant.
 
 
   Sempre pensei que no imaginário dela emparelhasse o marido com algum grande estadista.Ou com um eminente financeiro.
   Cary Grant?
   Mas qual Cary Grant? O homem, ou as personagens?
 
 
   O Archibald Alexander Leach de quem a posteridade haveria de revelar a homo/bissexualidade e cujo amor secreto da vida terá sido o afamado actor de filmes de cowboys Randolph Scott? Decerto que não.
 
 
 
     Personagens.
   O ladrão de casaca (Hitchcock)? O cientista distraído de A Culpa Foi do Macaco? O publicitário, por acaso também distraído e confundido com um espião, de Intriga Internacional? O amalucado crítico teatral Mortimer Brewster de Arsénico e Rendas Velhas?
 
 
   A figura. Pode ser. A figura que inspirou Ian Fleming para o espião 007.
 
 
                                                                      
 
   Ou o queixo.
   Ah, percebi, a risca do cabelo. Do lado direito.
 
                                                                        

 
 

domingo, 19 de novembro de 2017


                   O LEGADO DE GÖRING

 

      Mondorf-Les-Bains.
         Foi para um hotel termal de luxo que o alto comando aliado, depois de capturados, mandou sob prisão uns quantos máximos responsáveis nazis, Von Ribbentrop, Keitel, Jodl, Dönitz, Rosenberg, Speer, Ley, Streicher, Rosenberg, Kaltenbrunner, Frank, mais uns tantos, e, mais importante do que os ditos, Rudolf Hess; e, ainda mais importante do que Hesse, Hermann Göring.
 
 
         Murmurações nos meios militares vencedores quanto à benevolência carcerária com que os considerados maiores criminosos da História contemporânea eram tratados, bons quartos, boa comida, alguma deferência ainda devida aos altos cargos ocupados no Reich, levaram à transferência deles para a prisão de alta segurança de Nuremberg, próxima do tribunal onde mais tarde viriam a ser julgados.
 
 
         Desde a estadia em Mondorf-Les-Bains que equipas de psicólogos e psiquiatras pairavam em volta dos criminosos nazis na ânsia (por assim dizer) de avaliar o estado mental de cada um deles, posto que parecia impossível ao senso comum das autoridades aliadas que tão sanguinários facínoras pudessem ser gente normal e livre da aleijões psíquicos de monta.
         Sigo um livrinho que me veio parar às mãos escrito por um historiador cujo esquisito nome nunca tinha ouvido, Jack El-Hai. Que me conta que um verdadeiro enxame de psis caíra em peso em Mondorf-Les-Bains à compita para examinar os famigerados responsáveis por uma guerra devastadora e por milhões de mortos.
Era preciso conhecer, e depressinha, as motivações que haviam determinado os campos de concentração, os fornos crematórios, a solução final para os judeus, as perseguições, as torturas e tudo o mais que se sabe. Se conseguissem penetrar aquelas mentes seria um enriquecimento científico que talvez permitisse evitar futuros desastres semelhantes.
 
Da mente dos criminosos nazis mais notórios se partiria então para o aprofundamento do carácter do próprio alemão comum, o povo que tinha permitido (e aplaudido) tão calamitosos desmandos. Até houve quem propusesse matá-los com um tiro no coração de forma a não danificar os tecidos cerebrais destinados a ser dissecados. Urgente era detectar naquelas cabeças os sinais de uma doença específica: a forte vontade de praticar o mal.
 
                                                                                           
 
De entre os psiquiatras que se apresentaram, os altos comandos escolheram para chefiar a equipa um que não se tinha apresentado, americano, capitão médico, Douglas Kelley.
Haveria uma particular personalidade nazi a que fosse plausível atribuir tantas e tão desgraçadas malfeitorias? Poder-se-iam extrair das análises psíquicas as razões do fulminante sucesso político e militar nazi e assim prevenir a repetição da tragédia?
Estava-se em 1945, não esquecer.
 
                                                                                                        
 
O Dr. Kelley pretendia com a sua acção retirar lições sobre as forças obscuras que haviam produzido o inimaginável caos na Europa. E de caminho viu o seu furo pessoal e profissional. Chegaria à vida civil e escreveria livros e proferiria conferências baseadas naquela inigualável e inesperada experiência, e assim ganharia fama e bom dinheiro.
Logo desde os primeiros contactos Douglas Kelley registara ser Hermann Göring, o chefe da temível Luftwaffe, o nomeado delfim de Hitler, a personalidade mais marcante do grupo, o tipo mais inteligente, mais subtil e sofisticado, um sedutor, um manipulador. Dava nota de um cérebro desenvolvido, equilibrado, se bem que narcísico em altíssimo grau. Fisicamente, era uma força da natureza, alto, amplo, dinâmico, irradiante de poder. Para um psiquiatra, Göring era de longe o mais interessante.
                                                                                                        
 
Uma piada de Göring; um alemão isolado é um bom tipo, dois alemães formam imediatamente uma aliança, reúnam três alemães e terão uma guerra; um inglês sozinho é um imbecil, dois ingleses juntos fundarão um clube, e quando forem três teremos um império; um italiano é sempre um tenor, se forem dois será um duo de tenores, três são um desastre; e se um japonês é um mistério, dois japoneses serão ainda um mistério e três japoneses um mistério ainda maior.
Göring contava destas e ria que nem um perdido.
 
                                                                                        
 
Ao pretender desvendar os segredos do funcionamento das mentes nazis o psiquiatra Kelley aventurava-se num terreno conceptualmente movediço, tão depressa psiquiatria, tão depressa criminologia. As origens de um comportamento criminoso como coisa do foro genético do indivíduo, ou decorrência de um ambiente social propício, ou as duas coisas combinadas?
Julgo eu que ainda hoje a mesma pergunta é feita.
Evocações do celebérrimo médico patologista Cesare Lombroso, que no princípio do século XX acreditava que o delinquente já nascia com todos os dados psíquicos que mais tarde ou mais cedo o puxariam para a desgraça. Foi desacreditado. Mas a interrogação permaneceu sem resposta convincente.
 
                                                                                           
 
Também foi Lombroso que lançou a criminologia para os lados da psiquiatria. O criminoso, por assim dizer nato, seria um ser impulsivo, desprovido de afectos e auto-controlo, aspectos distintivos a que haveria de se reconhecer alguma razão. E foi então que os psis começaram a ser chamados à barra dos tribunais para testemunhar sobre a saúde mental dos réus – hoje chamados arguidos. E era uma pergunta simples: o réu tem ou não tem condições psíquicas para distinguir o que é bem e o que é mal?
Mais tarde, os estudos desse foro identificaram a importância dos desarranjos de personalidade em grande parte das condutas delinquentes, e falou-se de exacerbação de narcisismos e paranoias como causas de comportamento anti-social.
 
 
Será a Alemanha Incurável? Um livro escrito em 1943 por um psiquiatra americano, Richard Brickner. O capitão médico Douglas Kelley leu esse livro e pensou nos crimes do nazismo como se fosse caso de estudar as condutas de um paciente seu.
          Porque se muitos cidadãos alemães eventualmente gozavam de boa saúde mental, os actos do governo do país configuravam o que os médicos diagnosticavam em indivíduos criminalmente problemáticos.
Teatro da Ópera de Berlim. Uma homenagem a Hitler nos primeiros meses da guerra. Está presente um jornalista americano chamado William Shiver, que olha com atenção para os rostos dos manifestantes, “as caras estavam deformadas pela histeria, as bocas urravam e os olhos brilhavam de fanatismo ao contemplarem o novo messias.”
 
 
Se os alemães daquele tempo não eram paranoicos, eram, de todo o modo, altamente permeáveis a influências paranoicas, conclui o jornalista.
“O Reich está preparado para reduzir a Europa à fome, se tal permitir que a Alemanha conquista a sua auto-suficiência alimentar”. Quem o disse nos primeiros tempos da guerra? Justamente o principal dos pacientes a cargo do Dr. Kelley, o extrovertido sedutor Hermann Göring.
Uma preliminar observação feita por Kelley ao paciente Göring leva-o a pensar que o ex-Marechal do Ar do III Reich aderira ao nazismo por nenhuma outra razão que estivesse para lá da sua ambição pessoal e de uma desenfreada sede de poder. Qual devoção por Hitler, qual carapuça… qual acrisolado amor pela Alemanha, qual quê… a preservação da raça ariana?, pff, era o que menos lhe importava. Aderir ao NSDAP desde os triunfantes primórdios e chegar ao topo. Isso sim. Kelley nunca conhecera ninguém tão exuberantemente egocentrista.
 
 
O topo dos topos atingira-o ele, Göring, mas ai, em deploráveis tempos e condições. Tempos de derrota e condições de aniquilação da Alemanha. Nomeado por Hitler como seu sucessor – depois da queda em desgraça de Hess -, Göring torna-se de facto senhor das alemanhas, mas só depois do suicídio do mestre. Demasiado tarde. E quais alemanhas? Já não havia o que se pudesse chamar de Alemanha. Führer do Reich, enfim. Mas qual Reich? Para mais, quando o verdadeiro Führer o acusara da traição de querer chegar à fala com os Aliados (com o próprio Eisenhower) e por isso, dias antes de se suicidar, o condenara à morte.
Führer sem Reich e marechal sem tropas. Era o estatuto de Göring quando capturado, quando mandado para Mondorf-Les-Bains e a seguir para o xilindró de Nuremberg. Acusado de extermínio de milhões e de fomento de uma guerra de conquista contra povos pacíficos.
Gabava-se. Gabava-se, por exemplo, de ter sido o único entre os seus companheiros de cativeiro em Nuremberg a fazer frente a Hitler, e quando as autoridades americanas o viam como simples yes man do Führer.
 
 
Ou talvez sim, admite Göring ao seu psiquiatra. “Mas então, doutor, apresente-me um no man alemão que pelos dias de hoje não esteja a uns bons seis pés debaixo de terra.”
Não obstante a situação, Göring era um pachola bem disposto, charmeur, contador de histórias. Um psicopata, segundo as normas. Um homem de comportamentos públicos razoáveis, normalíssimo cumpridor das regras sociais, a encobrir os profundos instintos selvagens e a total ausência de empatia.
 
 
Outra personagem. Ernst Röhm. Grande chefe das SA, a milícia para-militar, a tropa de assalto do partido para as lutas de rua contra judeus e comunistas (a cara dele era um mapa de cicatrizes), um duro, apesar de consabidamente homossexual. Nazi da primeira hora, amigo fidelíssimo de Hitler e amicíssimo também de Göring.
 
                                                                                               
 
Mas tinha um poder no partido e uma influência sobre Hitler que Göring não tinha e ambicionava ter. E na noite de 30 de Junho para 1 de Julho de 1934 acontece a célebre Noite dos Facas Longas. Centenas de militantes das SA reunidos num hotel à beira de um lago numa orgia de álcool e sexo são friamente assassinados. Ideia de Göring, segundo declarou - o que aliás ponho em dúvida. Os SA sobreviventes são presos, incluindo Röhm, que vem a ser executado na prisão, a mando de Göring – pelo que ele disse.
 
 
Como foi possível que Göring tivesse ordenado o assassínio de um companheiro, de um velho amigo de tantas lutas comuns? Göring fita silenciosamente o Dr. Kelley. E responde:
- Doutor Kelley… eu devo tê-lo sobrestimado. E pelo que percebo, o senhor é um imbecil – Göring (narração de Kelley) levanta então os largos ombros, mostra a palma das mãos, e remata: - Como foi possível ter ordenado a morte do meu companheiro e amigo? Ele estava a barrar-me o caminho para o estatuto que eu queria! Natural, não? Não percebe, doutor?
(Não terá sido só por isso. A questão era infinitamente mais complexa.)
 
 
Kelley teve então a ideia de submeter os seus detidos-pacientes a testes de personalidade. Os de Rorschach entre eles. Os resultados mais originais e criativos vieram de Göring, exactamente. E nessa altura o Dr. Kelley começa a perceber as afinidades que tinha com o seu famigerado paciente Göring. Qualidades pessoais partilhadas, auto-confiança inabalável, perseverança, capacidade de trabalho. Ambição. Egocentrismo de grau elevado. Cada um no seu domínio, eram homens de talento, e sabiam-no, e usavam esse talento.
 
 
Seguiram-se outros exames aos detidos. O tribunal não queria julgar indivíduos que não estivessem na posse plena das suas faculdades mentais.
Reunir peças de um puzzle, associar símbolos e números. Göring atirava-se a esses trabalhos cheio de entusiasmo, e sempre, claro, na convicção própria de que o seu teste seria o melhor. “Como um aluno brilhante e egocêntrico desejoso de realizar o seu número perante o professor”, nota outro dos psis da equipa.
 
 
Göring brilha em testes de memória associativa, e falha ao tentar associar uma sequência de conjuntos de nove algarismos. Dá um murro na mesa. “Dêem-me outra chance, por favor, tenho a certeza de que consigo”. E à segunda tentativa conseguiu, “sem esconder a alegria e o orgulho”.
“Estes testes americanos são muito melhores do que os truques  com que os psicólogos alemães perdiam o seu tempo”, admite Göring. Keitel, o marechal de campo, anuía, os psicólogos militares alemães eram de uma inépcia que tocava o ridículo ao examinarem o pessoal da Wermacht.
 
 
E depois, os testes de QI. Desilusão de Göring. Não era dele o QI mais alto. Era o terceiro, com 138. O primeiro era o ex-banqueiro Hyalmar Schacht, um quase desconhecido com uma carreira excepcional enquanto presidente do Banco da Alemanha nos primeiros tempos, e mais tarde desentendido com Hitler, mandado direitinho para um campo de concentração. Schacht atingira os 143 de QI, e o austríaco Seyss-Inquart era o segundo, com 141.
Comentário do vencedor, Schacht: “um financeiro genial e bom nas aritméticas tem todas as condições para ser um escroque.”
 
                                                                                                            
 
Na ideia de alguns dos elementos da equipa de psis, alguém que tenha sucesso numa dada actividade, incluindo um regime totalitário e assassino, tem seguramente uma inteligência acima da média. E não será essa inteligência acima da média que lhes travará a vontade de cometer atrocidades. A alta craveira intelectual não terá relação com a qualidade moral do indivíduo. E se hoje uma conclusão dessas nos parece óbvia, naquela altura e naquelas circunstâncias, pelos vistos, tomava foros de achado científico.
 
 
O comandante da prisão, o duro coronel americano Burton Andrus, ao tomar conhecimento dos testes comentara: “por aquilo de que me tenho apercebido do intelecto e do carácter destes super-génios não os queria nem como sargentos em regimento meu.”
 
                                                                                                                 
 
A máxima preocupação de Göring não parecia ser tanto a iminência de uma condenação à morte como o paradeiro da mulher e da filha de seis anos, levadas para parte incerta.
 
 
E contava ao Dr. Kelley, alma gémea, passagens da sua vida. A relação com Hitler, uma delas. Nos começos da guerra Hitler nomeara-o seu sucessor. Ficou contente, é verdade, mas…
- Não era o que eu esperava. E por outro lado fiquei furioso porque o Hitler designara esse pateta do Hess como número três do Reich. Meu sucessor, portanto. E disse-o a Hitler. Foi uma fita. E sabe o doutor o que Hitler me respondeu? Disse, “vá lá, Hermann, não sejas nhurro, sê um bocadinho razoável… o Rudolf sempre me foi leal e eu tinha que o recompensar. Dei-lhe este título de meu sucessor número três publicamente, é certo, mas quando tu, Hermann, fores führer do Reich podes muito bem destituir o Rudolf e nomeares tu o teu próprio sucessor.”
 
                                                                                                      
 
Como se juntara ele ao partido nazi?
- Foi logo no fim da grande guerra.
Passara em cuidadosa revista o elenco de grupúsculos de extrema direita que por então pululavam pela Alemanha e deixara-se encantar com o NSDAP pelo apelo que fazia aos antigos combatentes, desanimados com os termos do Tratado de Versailles. E se o NSDAP cresceu e se desenvolveu, e rapidamente se transformou num partido poderoso ao ponto de poder desencadear o putsch de Munique em 1923, podia agradecer a esses antigos combatentes.
Quanto ao anti-semitismo, com todas as ressonâncias emocionais que transportava, muito mais profundas do que a simples revisão de um tratado, sem dúvida que fora o factor decisivo para a adesão em massa ao NSDAP. Göring percebera isso muito cedo
.
 
- Eu tinha razão, pois tinha. Eu tinha razão! Os velhos soldados juraram-me fidelidade e eu tornei-me chefe da nação alemã…
- Chefe da nação alemã? Como…
- Bem, sim, foi demasiado tarde. Assumi essa chefia demasiado tarde, infelizmente. Ou talvez não tão demasiado tarde. Em todo o caso, doutor, cheguei lá. Cheguei onde sempre tinha querido chegar.
Kelley sentia que para Göring o futuro encerraria ainda algumas perspectivas felizes, apesar da certeza que devia ter de que o tribunal aliado dos vencedores o condenaria à pena capital.
- Serei enforcado, acha o doutor? Muito bem. Estou pronto. Mas na certeza porém de que a História da Alemanha reservará um bom lugar para mim. O lugar de um grande homem, não tenha dúvidas.
 
 
Göring poderia não convencer o tribunal quanto à sua inocência dos crimes ignóbeis de que injustamente o acusavam, mas convenceria certamente o povo alemão de que tudo o que fizera o fizera em prol da grandeza do Reich.
 
 
- O doutor duvida que dentro de uns cinquenta anos haverá estátuas de Göring por toda a Alemanha?
- Duvido, sim…
- Pois não duvide, doutor. Pequenas estátuas, seja, mas haverá uma pequena estátua de Göring em cada lar alemão. Pensa que a ideia da morte me perturba? Não, nada. Enquanto chefe militar que conduziu milhares de homens à morte no campo de batalha nunca esqueci a probabilidade forte de ter que enfrentar cara a cara o inimigo…
Não reconhecia a legalidade do Tribunal de Nuremberg, claro que não. Mas conformava-se à realidade. Os Aliados vencedores tinham o direito de impor a sua vontade. Por ele, estava preparado. E Kelley refere estas tiradas de Göring como a primeira vez que o vira tomar verdadeira consciência da impossibilidade de enfrentar sozinho o seu destino de conquistar o mundo.
 
 
- Contra o que muita gente possa pensar, caro doutor Kelley, não vejo como um acto de cobardia a decisão de Hitler de acabar com a vida. Ele era o chefe do Estado alemão! Nem me passaria nunca pela cabeça saber que ele poderia estar a jazer na cela aqui ao lado da minha. Inconcebível! Hitler à espera da decisão de um tribunal de guerra estrangeiro? Inconcebível!
 
 
Mesmo que Hitler nos dias finais do Reich o tenha odiado, Göring guardava Hitler na memória como um símbolo da Alemanha. Preferiria suportar qualquer humilhação a saber que um Hitler vivo estava a ser enxovalhado e infamemente acusado por um tribunal estrangeiro.
- O suicídio é uma escolha lógica, o doutor não acha? Uma escolha, vamos lá, razoável. Extrema mas razoável, penso eu, e logo que a honra e a dignidade nacional sejam postas em causa.
 
 
Uma vez que nos dias de hoje é assunto muito em moda, devo dizer que sobre o Reichmarschall Hermann Göring também impenderam rumores de homossexualidade. Em 1940. Acusações do seu camarada (e igualmente detido em Nuremberg) Julius Streicher, o mais feroz dos anti-semitas do regime. Para o doutor Kelley, a atoarda conteria algum grau de plausibilidade.
Claro que Göring negava em si quaisquer vestígios de tendência homossexual. E passado um tempo de observação, Kelley acredita nele.
Mas emanava de Göring muita energia, inesgotável energia, que o psiquiatra classificava de sexual. E mais os cuidados com a aparência, os cremes para a cara que nem na prisão dispensava, a sombra nos olhos, a espectacularidade do uniforme cinzento-pérola de Marechal do Ar. Sublimaria Göring as pulsões sexuais pela excepcional capacidade de trabalho - ao que constava, 18 horas diárias nos bons tempos do Reich? Talvez. A ambição do poder seria também uma sublimação para as pulsões amorosas. E no entanto, tendências homossexuais à parte, venerava a mulher e tinha tido uma vida conjugal muito feliz.
 
 
E como explicar os esforços para ajudar a família da enfermeira judia que lhe tinha tratado dos ferimentos sofridos durante o putsch de 1923, permitindo à dita enfermeira e respectiva família escapar às perseguições racistas e fugir para Inglaterra?
- Uma decisão absolutamente individual – responde Göring.
Uma decisão que desafiava as estrictas directivas do Estado nazi, mas que não modificava em nada a opinião que ele tinha dos judeus e da influência nefasta deles na sociedade alemã.
 
 
Kelley, o psiquiatra, até admirava a vontade de Göring em assumir a responsabilidade pelas suas acções, ainda que não pusesse de lado a eventualidade de se tratar de um truque dele para chamar as atenções; e porque, percebia-se, chamar sobre ele as atenções fosse lá pelo que fosse era a táctica mais eficaz para lhe restaurar o moral.
Göring nada mudara, a despeito dos rigores prisionais. Continuava fanfarrão, vaidoso e fútil como sempre fora. A conclusão de Kelley era que uma vez que a condenação à morte se apresentava como facto inescapável, Göring desejaria ardentemente ser tomado como o número um do poder nazi e nessa condição vir a ser executado.
Apesar de todas as precauções dos carcereiros, dois dos detidos já se haviam suicidado na prisão. Leonardo Conti, o responsável pelos serviços de saúde do Reich – um réu de menor estatuto em comparação com os Göring, Hess, Von Ribbentrop, Rosenberg, ou Streicher – e Robert Ley, o ministro do Trabalho da Alemanha nazi – e que por acaso até dera bastos sinais de desarranjo mental. Enforcados por processos expeditos e imaginativos, peças de roupa encharcadas e assim rigidificadas.
 
                                                                                                 
 
E cá está um facto que fez brilhar de orgulho os olhos de Göring: acusado no processo de ter pilhado em França o equivalente a 87 milhões de garrafas de champanhe
Göring aproveitava os almoços e jantares em comum com os outros para se arrogar uma posição de (consentida) liderança e rebatendo opiniões dos camaradas que entendia nocivas à causa nazi – e, bem entendido, à causa da inocência deles. 
 
 
 Palpitava-lhe que os seus camaradas se preparavam para admitir culpas. Palpitava-lhe até ainda pior: que Hess, Von Ribbentrop, Keitel, Schirach, Rosenberg, Von Pappen e por aí adiante estariam preparados para renegar publicamente perante o tribunal o regime nazi.
 
                                                                                      
 
E palpitou-lhe isto ao ouvir ao almoço Keitel sugerir como quem não quer a coisa que a haver alguém a levar às costas com toda a responsabilidade do que se passara não deveria ser outro senão o falecido Hitler. Ordens. E ordens são ordens, coisa sagrada para um alemão – e para um militar, claro, pelo menos um daqueles.
Ao ouvir isto, Göring deu um salto na cadeira. “Todos vocês conheciam o Führer, não? E todos sabemos que ele foi o primeiro a dizer: ‘dei as ordens e assumo toda a responsabilidade’. Foi ou não foi? Pois olhem, ainda que assim tenha sido, por mim preferia morrer dez vezes a saber que o nosso Führer, o Führer da Alemanha, se sujeitava a uma humilhação destas”.
Frank irritou-se e defendeu a ideia de Keitel: “outros chefes, e até soberanos, foram julgados pelos tribunais. Hitler? Porque não? Foi ele que nos meteu neste caldinho, e o que nos resta fazer é dizer toda a verdade.”
Dito isto, Frank e os que estavam com Keitel levantaram-se dignamente da mesa e abandonaram o refeitório.
~


        Desolados, alguns deles, quando souberam pelos libelos acusatórios que Göring havia posto a saque os territórios conquistados pelas tropas alemãs e acumulado tesouros de toda a ordem, incluindo a pilhagem das mais valiosas obras de arte. Actos criminosos que comprometiam a valer a idoneidade (e a autoridade) do Reichsmarschall.
 
 
Mesmo assim, Göring continuava a exercer grande influência sobre os outros, e garantia a alguns deles que assumiria a parte que lhe tocava nos desaforos do regime; enquanto a outros procurava fazer-lhes ver, olhos nos olhos, toda a indignidade de que se cobririam se renegassem os actos de um governo de que tinham feito parte importante.
Ao psiquiatra Kelley insistia em não reconhecer autoridade moral aos Aliados vencedores para julgarem as decisões do governo nazi. Deitava-se ao comprido na estreita cama do cárcere e discorria:
- Sim, é verdade, rearmámos a Alemanha e violámos o Tratado de Versailles. A minha pena é que não nos tenhamos rearmado o suficiente. Os tratados, doutor… para mim não valem mais do que papel higiénico. Evidentemente que sim, o que eu queria era restaurar a velha grandeza da Alemanha. Se o pudéssemos fazer pacificamente, tanto melhor. Se não… bem, tanto pior. E olhe que os meus planos de guerra contra os ingleses iam bem mais longe do que hoje sou acusado. Eu dirigia a Luftwaffe, não administrava propriamente um pensionato de raparigas.
 
 
Outro dos prisioneiros, Fritsche, disse a Kelley: “se ele (Göring) quer ficar para a posteridade como um herói da nação alemã que fale por ele, mas que não nos meta a nós nas ambições dele.”
 
 
Já com o julgamento a decorrer, veio à conversa com Rosenberg (o teórico nazi da pureza racial) a questão judaica e o paralelo possível de estabelecer sobre o tema entre a Alemanha nazi e os EUA. “Diz o doutor que a América não tem um problema racial?” (Rosenberg pode ter dado uma gargalhada sardónica.) “Então espere-lhe pela pancada. Se vocês não têm um problema com os judeus terão um problema com os negros. Questão de tempo, doutor.” E Streicher corroborava: “vocês vão ter um problema racial, isso vão, não tenha dúvidas, doutor, é uma necessidade biológica”.
(E tiveram mesmo. Mais agudo daí a uns vinte anos. E com ressurgências nos dias que correm.)
 
 
As evidências dos diversos crimes nazis iam sendo reveladas pelo tribunal.
- Vocês não têm maneira de negar as evidências – diz o psiquiatra
Göring animava-se:
- O doutor acredita que se alguém me viesse dizer que se estavam a fazer experiências horrorosas com cobaias humanas… ou que se estava a matar gente aos milhares, e gente que era obrigada a cavar a própria cova, eu teria acreditado? Tudo isso me teria parecido impossível e eu teria tomado essas notícias como mera propaganda do inimigo.
 
 
Mas as provas iam fluindo no tribunal. E provava-se que Göring não ignorara nada das atrocidades praticadas nem dos planos da solução final contra os judeus. E se Holocausto houvera tinha contado com o acordo dele, ou mais, com a acção dele para o levar a efeito.
Em face da influência que Göring parecia exercer sobre os outros acusados, em especial quando estavam juntos, durante as refeições, o comandante da prisão decidiu que ele passasse a almoçar e a jantar isolado numa sala. Não é para admirar que Göring tivesse ficado fulo.
 
 
Entretanto, Douglas Kelley, o psiquiatra-chefe da prisão de Nuremberg, ia sendo promovido. Muito naturalmente, de capitão a major, de major a tenente-coronel. E a comissão dele estava a acabar, e ele pensava no magnífico material que ia colecionando, nos livros que ia escrever, nas conferências que iria proferir. Falava constantemente à imprensa internacional, muito interessada, obviamente, nos processos de Nuremberg. Falava nas amnésias verdadeiras e falsas de Hess, da toxicomania compulsiva de Göring (submetido entretanto a uma desintoxicação), das lesões cerebrais (e o alcoolismo) que estavam na base da loucura indisfarçável do já então “suicidado” Robert Ley, da menoridade intelectual de Julius Streicher, dos pavores de Keitel por esperar que em vez de honrosa e militarmente o fuzilarem o fossem enforcar como um bandalho comum.
 
 
- Sem Hitler, é preciso que se saiba que estes homens não são anormais, nem perversos, nem geniais. Parecem-me mais uma espécie de empresários agressivos, matreiros, ambiciosos e sem escrúpulos cujo negócio era implantar um governo mundial.
Em Março de 1946 é dada a ocasião a Göring de se defender perante o tribunal. Acusado de saber de tudo, campos de concentração, gás, solução final, preparativos de guerra, pilhagens, e de nada ter feito para impedir fosse o que fosse, Göring começou por jogar na retranca. Robert Jackson, um dos procuradores americanos provocava-o. E ele passou à ofensiva, justificando as motivações para as decisões que tomava ou não tomava enquanto figura de proa do regime.
 
 
- Uma única razão motivou os meus actos, e essa foi o amor que ardentemente votava aos meus compatriotas, ao seu destino, à sua liberdade, à sua vida. O povo alemão e o Todo-Poderoso são minhas testemunhas.
O tom oratório era o usado em algum dos meetings decorrido por ali perto, Nuremberg, há não muito tempo.
Doze horas de discurso apaixonado, expressivo, jubilatório, repartidos por dois dias. O balanço era elogioso para com a acção do regime – e dele próprio.
Espantou quem o ouviu. Captou as atenções geralmente dispersas dos seus correligionários, “o efeito de um leão fechado numa jaula” (caracterização de outro procurador americano Thomas Dodd), e subjugou mesmo o seu companheiro do lado esquerdo, Rudolf Hess, as mais das vezes a passar pelas brasas ou a ler um romance policial. Estava publicamente feita a triunfal e paroxística apologia do regime nazi.
 
 
No final do depoimento, Göring foi calorosamente felicitado pelos companheiros – segundo o New Yorker, como o gladiador que regressa de um combate.
 
 
A acusação produz provas. Em 1944, Göring tinha ordenado a execução de cinquenta oficiais britânicos capturados. Göring nega. Nada tivera a ver com tão abominável crime de guerra. Solução final? Nada, nem sabia do que se estava a passar a esse respeito. Genocídio dos judeus? Inocente, não sabia de nada, nem ele nem o próprio Hitler.
Acabava de arruinar para sempre alguma credibilidade que até aí puder angariar.
Um dos psis que sucedeu a Douglas Kelley na supervisão da saúde mental dos detidos deu nota de alguma da táctica de Göring nas relações prisionais. Ao psicólogo que o acompanhava dizia mal do psiquiatra que também o observava. Ao padre católico que o assistia arrasava o pastor luterano que também o visitava. E vice-versa. Aos dois religiosos deitava abaixo os psis. E vice-versa. E mostrando-se atencioso e simpático com cada um deles em separado.
 
 
O juiz Robert Jackson fez um requisitório final comparando os argumentos dos réus com as provas que os acusavam. Declará-los não culpados de ter planeado, executado e conspirado com vista à execução de tão longa lista de crimes e de injustiças face às provas apresentadas seria um contra-senso. E traz à baila Shakespeare. Gloucester em Ricardo III: “se alguém diz destes homens que eles não são culpados, equivale a dizer que nunca houve guerra, que não houve mortes, que não houve crime algum.”
No dia 26 de Junho de 1946, os juízes retiraram-se para deliberar. Mas aos chefes nazis são ainda concedidas alegações finais.
 
 
Göring proclama: “quero uma vez mais afirmar perante este tribunal que em momento algum, nunca!, ordenei a morte de alguém, ou, na plenitude dos meus poderes, tolerei as atrocidades de que me acusam, e das quais nunca fui informado a tempo de as evitar.”
A mulher e a filha foram transferidas de uma prisão em Straubling para mais perto, um pavilhão de caça a 60 quilómetros de Nuremberg e o moral dele melhorou.
E quando o moral dele melhorava era condenado à forca.
Não. Quer comparecer diante de um pelotão de execução e ser fuzilado. Petição rejeitada. Forca. A morte ignominiosa.
 
 
Um psicólogo da equipa adverte as autoridades da prisão quanto à real possibilidade de Göring se suicidar. Difícil. Praticamente impossível. Se o enforcamento é pena para criminosos comuns, Göring, esperto e ardiloso como é, ha-de ter montado um plano para lhe escapar. Difícil. Praticamente impossível.
O dia da execução de Göring foi marcado. Na véspera, Göring pediu ao padre católico para comungar. Mas avisou: cria em Deus, mas não cria na divindade de Jesus Cristo nem conferia à Bíblia categoria de livro sagrado. E o padre negou-lhe a comunhão. Claro.
 
 
Göring senta-se à mesa rudimentar da sua cela e escreve uma nota. Escrita a nota, dobra o papel de deixa-o em cima da mesa. Levanta-se e vai para a parte da cela que ficava invisível pelo postigo que dava para o exterior e por onde os guardas o vigiavam 24 sobre 24 horas. A zona da sanita. Minutos volvidos, regressa à zona visível de fora e deita-se descansadamente, barriga para cima, mãos visíveis sobre o peito como mandavam os regulamentos da prisão.
 
 
Mas naquele momento o ex-poderoso Reischsmarschall já não precisava das mãos para nada. Acabava de trincar uma ampola de cianeto de potássio.
O corpo dele agita-se por uns instantes. O guarda de serviço espreita pelo postigo, Göring está imóvel e a cara dele assume uma coloração azul-esverdeada. O guarda dá o alarme e entra na cela. O comandante da prisão, coronel Andrus, não tarda a aparecer. Göring está morto.
 
 
Com tanta vigilância e constantes rusgas na cela e ao vestuário dos prisioneiros, como fora possível ao Reichsmarschall manter escondida a cápsula de cianeto?
 
 
A nota escrita por Göring momentos antes é dirigida à atenção do coronel americano comandante da prisão.
Sempre mantive a cápsula de cianeto comigo desde o dia em que me capturaram. Tinha até três cápsulas. Uma deixei nas minhas roupas, de modo a que fosse encontrada numa revista. Outra punha-a no cinto logo que me despia, e recuperava-a assim que me tornava a vestir, e mesmo depois das frequentes inspeções nunca foi encontrada. A terceira ainda deve estar nom meu estojo de toilette, enfiada no boião do creme para a pele. Podia ter utilizado uma ainda em Mondorf se o tivesse desejado. Nenhum dos soldados encarregados de me vigiar deve ser castigado. Era quase impossível encontrar a cápsula. Só por acaso. E assim porque fui informado de que o conselho inter-aliado indeferiu a minha petição de enfrentar um pelotão de fuzilamento.
 
 
Para alguns dos juízes do tribunal não restavam dúvidas de que Göring tivera cúmplices. E levantaram-se suspeitas de que um dos militares americanos afectos à guarda do chefe nazi (tenente Jack Tex Weelis) o teria ajudado na ocultação da cápsula. O tenente Weelis teria sido outro dos que caíra rendido ao charme do grande manipulador e que com ele – tal o acontecido com o psiquiatra Douglas Kelley – estabelecera laços de amizade. Teria aceitado fazer-lhe o favor a troco de alguns objectos muito valiosos que Göring levara consigo para a prisão.
 
 
Mas uma investigação de 2005 lançou nova luz sobre os factos. E proporcionou uma confissão. Herbert Lee Stivers, um dos soldados de capacete branco em serviço na sala de audiências do tribunal confessava que a pedido de uma jovem alemã, por então sua namorada, teria passado para a mão de Göring uma caneta contendo no interior a cápsula fatal. Porque o fez? Porque julgava que no interior da caneta ia um medicamento e nem por sombras lhe ocorrera que pudesse ser um veneno.
 
 
Muito longe dali, em S. Francisco da Califórnia, o doutor Kelley, já na vida civil, ficou muito abatido ao saber do suicídio do seu amigo Hermann Göring. Falou à imprensa. Sabedor do quociente intelectual elevado de Göring sempre esperara que ele fizesse boa e honrosa figura até ao fim dos seus dias. “Esperei que ele fizesse uma entrada triunfal e heroica na posteridade quando a plataforma da forca se abrisse e ele gritasse Heil Hitler! Não porque fosse corajoso, mas porque já estaria a ver o seu nome nos livros de História.”
O suicídio de Göring causou muito forte impressão no psiquiatra americano. Um paciente tornado a bem dizer seu amigo íntimo, com quem descobrira uma comunhão de interesses e uma afinidade de carácter.
 
 
Cinco meses de convivência tivera ele com o Reichsmarschall. O suficiente para suscitar admiração pelo exímio manipulador, pela figura extraordinária e carismática. Só nunca lhe teria previsto o gesto final. Mas, por outro lado, também não era de surpreender muito que o Marechal do Ar tivesse feito da morte um último desafio de vida. O gesto dele, afinal, para Kelley, estava em consonância com o ideal e com a imagem mesma de um chefe nazi.
Um acto de cobardia? Não. Não considerava o acto de Göring como prova de cobardia. Como prova de engenho e inteligência, sim. “Para um espírito alemão foi claramente um gesto heroico. Era a quarta grande figura do Reich a suicidar-se, depois de Hitler, Himmler, Goebbels. E se todos esses haviam escapado à desonra da forca, porque não ele?”
 
 
 
E diz mais, Kelley, à imprensa. Diz que Göring foi mais longe do que os outros “suicidados”. Porque aguentou estoicamente um cativeiro, na forte convicção da sua razão, pondo em respeito os carcereiros e impressionando mesmo o douto tribunal. “Um gesto de mistério que sublinhou a impotência dos seus carcereiros americanos e lhe acrescentou à vida um toque de brilhantismo.”
O Dr. Douglas Kelley continuou a trabalhar sobre aquela experiência. Tinha documentos. Tinha amostras – os bombons e os biscoitos que Hess afirmava terem sido envenenados pelos ingleses -, alguns comprimidos da droga favorita de Göring – paracodine. Sabia-se (ou julgava-se) invejado pela comunidade dos psis, qualquer deles capaz de dar um olho para ter em mão tão valioso material de estudo. De vírus nazi é que o doutor não apanhou nada. Tipos parecidos com Göring e seus pares, governados até à demência apenas pelo narcisismo e pela ambição, havia-os seguramente aos milhões, homens de negócios, políticos, gangsters, gente sem o mais leve escrúpulo moral. Ambição desmesurada. Ética atrofiada. Aos milhões.
 
 
E enfim, digo eu, nada que surpreenda comparando com o quotidiano institucional que a imprensa de ontem de hoje e de amanhã nos comunica – só a parte que aos donos das empresas de media interessa comunicar, é claro.
Não era a loucura a explicação do nazismo, segundo um sociólogo que Kelley prezava, Korzybski. Aqueles nazis eram criações de um ambiente social e político específico.
 
 
“Excepção feita ao Dr. Robert Ley, não havia um doente mental naquele grupo de hierarcas nazis”, declara Kelley ao New Yorker. “Não eram homens excepcionais. Também aqui mesmo, na América, há muito daquele tipo”.
E no mesmo registo continuava o Dr. Kelley nas muitas conferências que deu desde 1946. Pessoal daquele havia-o em todos os países do mundo, com as peculiares pulsões de quem almeja o poder, qualquer poder, seja a que custo for.
 
                                                                                                 
 
E acha o doutor que o nazismo poderá algum dia acontecer na nossa América? Evidentemente que sim. Um pequeno grupo de homens poderá sempre apoderar-se do comando de uma nação, EUA incluídos. “E mesmo na América dos nossos dias (1946/47) pouca coisa poderia obstar à efectivação de um poder nazi. Podem-se facilmente descobrir na cultura e na população americanas os traços fascistas, nomeadamente os sentimentos de hostilidade às minorias.”
 
 
Mais tarde, Douglas Kelley tornar-se-ia professor associado da Universidade de Berkeley, continuando com as suas conferências e ocupando-se clinicamente de casos de soldados com patologias pós-traumáticas. “A idade emocional média do povo americano é escandalosamente baixa, entre cinco e sete anos”.
 
 
E o tempo passou, e a vida do Dr. Kelley continuou, mais ou menos normal, rodeado da mulher e dos filhos.
Abreviando muito, direi apenas que ao fim da tarde do primeiro dia do ano de 1958, véspera do seu aniversário, Douglas Kelley está em casa, entra no salão onde ainda está a árvore de Natal, a mulher e os filhos festivamente reunidos em volta da lareira, murmura umas frases incompreensíveis, exibe um pequeno objecto que depois mete na boca e mastiga. Uma cápsula de cianeto de potássio.
E Douglas Kelley, o psiquiatra de Nuremberg, morre envenenado, cumprindo o legado do seu paciente mais célebre, o legado do Reichsmarschall Hermann Göring.
 
 
Investigações feitas, houve quem aventurasse a forte possibilidade de ter sido o próprio Kelley a fornecer a cápsula de cianeto a Göring; assim como também se suspeitou do contrário, que a cápsula de cianeto com que Kelley se suicidou fosse um secreto presente despedida de Göring ao seu médico e amigo. Um presente cheio de subtis significados. Provavelmente.