terça-feira, 10 de abril de 2018


             UM TEMPO DE NINGUÉM

 
 

Em Salamanca, José Maria de Alpoim passeava com D.Miguel de Unamuno quando lhe chega a notícia do assassínio de D. Carlos. Alpoim não cabe em si de contente. Enfim, lá morreu o canalha, terá ele dito ao grande filósofo espanhol.
 
 
Dias depois, está em Lisboa com Guerra Junqueiro no Hotel do Comércio. E ouvia Junqueiro dizer: se houvesse dependido a morte do rei de que eu, sozinho neste quarto, mexesse o meu dedo mindinho, não o teria feito; nem pela morte do rei nem pela dum Caim nem pela dum Judas; mas enfim, mataram-no, está bem morto.
 
 
Alpoim disse: vou mandar um telegrama de condolências à rainha. Junqueiro agarrou-o, não, não faça tal, não pode fazê-lo…
Mais tarde, Guerra Junqueiro escreveria: lamento de olhos enxutos a execução do monarca. Mas se tivesse o dom de o ressuscitar, não o levantaria do túmulo. Deploro, angustioso, a morte do príncipe. E diante dos cadáveres dos homicidas, descubro-me, ajoelhado, com frémitos de terror, lágrimas de piedade e, porque não hei-de confessá-lo?, de admiração e carinho.
 
 
E Raúl Brandão escreveria: só ele fala e sonha um Portugal esplêndido. O plano estabelecido e iniciado fecha-se com um ponto culminante: o tratado de comércio com o Brasil, que D. Carlos teve, e que, ao que parece, tarde, dificilmente, ou jamais, se conseguirá. Foi este homem que assassinaram como um ladrão a uma esquina de Lisboa.
Diz Rocha Martins que em Lisboa os sinos dobravam, soavam as salvas, rezava-se nas igrejas, e, nas ruas, os políticos oposicionistas davam-se os parabéns vestidos de luto pesado.
 
 
Para os funerais régios, recorrendo a Rocha Martins, direi que Lisboa se encheu de estrangeiros. Todos os países mandavam as suas missões, emplumadas, garridas. Principes, embaixadores e militares da Europa e das américas, chegavam e curvavam-se diante dos ataúdes, enquanto nos núcleos republicanos se preparavam os primeiros comícios.
 
 
Estava um sol triste. Era sábado. O comércio ou estava fechado ou estava à meia porta. Veio gente de fora. Desde as Necessidades até S. Vicente que logo a partir das 8 da manhã que se formaram alas de povo. Havia crepes nos uniformes e nas bandeiras. Etc.
João Franco perspectivava a sua continuação à frente do governo. Pelo menos até que os ânimos acalmassem. Não seria numa emergência daquelas que o iriam afastar do poder. E tudo acontecera logo naquele dia, dia de inauguração da sua nova casa na Alexandre Herculano, com um jantar de cerimónia já marcado.
 
 
Outrossim declaro que me apraz que os actuais ministros e secretários de Estado continuem no exercício das suas funções –concluia a proclamação que João Franco levava a assinar ao novo rei.
João Franco apresenta o texto da proclamação e aguarda as observações do jovem monarca. Diz-se que D. Manuel abriu a boca para recusar assinar o documento, especificamente no ponto que mantinha o governo em funções. Que não passava de um formulário, acorrera João Franco. E que era necessário para que o novo rei pudesse ser investido, e já que aquele governo gozara da confiança do rei falecido. O assinar não comprometeria D. Manuel na obrigação de manter exactamente aquele governo.
 
 
El-rei fará o que entender – remata João Franco. E D.Manuel assina o seu primeiro documento como chefe de Estado. O dia da queda da monarquia aproximava-se.
Os dias que medeiam entre os acontecimentos de 1 de Fevereiro de 1908 e os de 5 de Outubro de 1910, parecem uma espécie de tempo de ninguém, histórica terra de ninguém entre duas idades nacionais. A moral política e institucional dominante e a tradição dos séculos escoavam-se rapidamente.
Um tempo de ninguém e de todos, ou de muitos,o que vem a dar no mesmo. No dia 1 de Fevereiro de 1908 caíra o silêncio sobre Lisboa pelo resto da tarde e pela noite dentro – tive uma avó que me falava sentidamente deste dia. Os transeúntes escapavam-se depressa para as suas casas – e não havia televisão. Lisboa esvaziou-se. Os eléctricos circulavam vazios. As lojas fecharam imediatamente os taipais logo que correu a voz de que o rei acabara de ser assassinado.
 
 
A imprensa das diversas cores políticas – ou mais simplesmente a monárquica e a republicana -, na sua maioria, noticiou o regicídio como noticiaria mais um crime de sangue ocorrido nalguma baiúca. Ninguém vituperou os assassinos. Ninguém exprobou os mandantes. Ninguém louvou o rei assassinado. Ninguém se apiedou do príncipe real desaparecido tão jovem. Ninguém se condoeu da triste sorte da rainha.
 
Dos jornais da época: Deus vele por este pobre Portugal…que o novo rei de Portugal saiba conseguir a acalmia… os acontecimentos de ontem marcam na nossa História uma tenebrosa era que é preciso encarar com serenidade…
 
 
E da imprensa internacional, os ecos. O Figaro: impossível que o cavalheiresco povo português não repudiasse com horror tudo o que lhe pudesse recordar um crime cometido por mãos de carrascos, sublinhando a simpatia que a nação francesa sempre votara a D. Carlos.
Le Journal: ninguém se atreveria a supor que o rancor da oposição fosse até ao assassínio. E o Le Matin profetizava que entre um ditador (cujo valor intelectual e a força moral arrancaram até homenagens dos inimigos) e os partidos que o combatiam com uma cólera que não respeitava nem a vida humana, perspectivava-se uma luta sem quartel.
 
 
Em Espanha, El País, fazia votos para que o novo rei tivesse a força necessária para arrostar com a sua dor e trabalhar na salvação da sua pátria, enquanto El Imparcial achava que o mais provável era a emboscada ter visado algo mais do que um assassínio.
 
 
Machado Santos, o carbonário mestre da Alta Venda, já depois de ter sido declarado o herói da república, declarava em 1914: D. Carlos era um grande rei, e mesmo o pequeno era simpático. Hoje está decaído, mas a culpa foi de quem lhe matou o pai e o irmão. A mim, chamaram-me herói, mas juro que se tal me sucedesse morreria de pavor. Mal sabia ele para o que estava guardado. Nunca se sabe para  que se está guardado…
Os lutos foram ordenados por 8 meses.
        João Franco estaria convicto de que a seguir ao regicídio e por entre a imensa agitação que naturalmente se seguiu, continuaria à frente do governo. Na proclamação anteriormente citada, o novo rei jurava manter a religião católica apostólica romana e mais a integridade do reino.
 
 
Outrossim declaro que me apraz que os actuais ministros e secretários de Estado continuem no exercício das suas funções. E foram estes dizeres – aliás sugeridos por ele mesmo - que alimentaram a fé de João Franco.
João Franco ainda teria veleidades de poder castigar os reais autores da morte do rei. Ainda pensava na ferocidade de uma nova repressão.
A 2 de Fevereiro, o dia seguinte, a vida política continua. Reunião do conselho de Estado. Sob a presidência do novo rei (ferido, de braço ao peito) e na presença de toda a família real. José Luciano de Castro pelos progressistas, todo ele é vindicta, quer o franquismo esmagado, humilhado. Mostrava-se implacável perante o monarca de 19 anos. Júlio de Vilhena, pelos regeneradores, em contrapartida, pensava que João Franco poderia continuar a sua obra no sentido da defesa do trono e do regime, embora com melhor inteligência nos passos a dar. Pensava que um afastamento de Franco enfraqueceria inevitavelmente o regime monárquico e achava que esse afastamento só viria provar a cobardia dos defensores do mesmo regime monárquico.
 
                        
 
             Desejo que todos se agrupem em volta de mim e me ajudem a cumprir os meus deveres de rei constitucional. Esqueçam as inimizades e auxiliem-me – implorava o novo rei na reunião do conselho de Estado. E tentava a quadratura do círculo: um governo em que os dois partidos monárquicos tivessem lugar e o apoiassem com vista à acalmação dos espíritos e à colaboração de todos para bem do país.
 
 
João Franco entrou nos reais aposentos e curvou-se. Diz-lhe D.Manuel: pensei muito esta noite na situação política. Imagino que só um ministério de acalmação será desejável. Só lhe pedia que não se opusesse… que não contrariasse tal solução… e que não visse aí nenhum melindre pessoal. D. Manuel acabava de despedir um ainda esperançoso João Franco. Só lhe pedia que não se melindrasse – repete o rei. Vossa Majestade é  o filho de El-rei D. Carlos que servi e amei. Estou pronto a acatar qualquer governo que o rei entenda formar.
À saída do conselho de Estado, o duque de Palmela abraçava João Franco: e eu que tinha tantas esperanças em você! Mas este é o fim da monarquia, não é João Franco?
Ferreira do Amaral, por pouco simpático que fosse para muitos, é o homem indicado para formar o tal governo de acalmação.
 
 
Ferreira do Amaral fazia parte de uma espécie de clube que se reunia na Rua dos Condes, chamado Os Makavenkos. Tinha fama de corajoso e valente, de piadista, de liberal. Era amigo de republicanos mas nunca como tal se assumira. Apontavam-se-lhe na folha alguns senãos, o não ter sufocado como devia uma revolta de marinheiros, o ter mandado açoitar pretos, o de devorar pão com manteiga entre os pratos de um banquete, dado que não concebia banquete onde se parasse de comer.
 
 
O marquês de Soveral, embaixador em Londres, também vai ouvir das boas do rei Eduardo VII: que país é esse onde matam um rei e um príncipe e a primeira medida que se toma é demitir o ministério? Quer dizer que a revolução triunfou!
 
 
Segundo alguns comentadores, teria razão Eduardo VII. Os assassinos saíam moralizados do caso. Só graças a eles fora possível acabar com a ditadura. Segundo outros comentadores, não teria razão Eduardo VII. O erro foi não se ter escolhido bem o ministério do dia seguinte.
Na verdade, o ministério de Ferreira do Amaral toma medidas imediatas. Anula decretos ditatoriais, solta os presos políticos, permite a venda pública de postais ilustrados com os retratos dos assassinos - doravante saudados como heróis nacionais -, e dá toda a liberdade aos organizadores de uma romagem ao Alto de S. João, às campas do Buiça e do Costa.
 
 
Fosse como fosse, João Franco pouco mais tempo poderia continuar como chefe do governo. Era considerado o agente indirecto do regicídio por mor da sua política ditatorial. Era demasiado forte. Todos pediam a sua cabeça. E João Franco é compelido pelo novo governo a abandonar o país.
 
 
Mas mesmo depois de apeado do poder, João Franco continuara a frequentar o paço. E um dia recebe em casa  um telefonema. Era o juíz do instrução criminal Alves Ferreira, que ele próprio nomeara.
- Enquanto o senhor estiver em Portugal, o presidente do governo não vê maneira de restabelecer a ordem no país…
 - E então?
 - Então, pede a V. Exa. que saia do país…
 - Eu? Mas porquê?...
 - Porque é necessário…
 - Bem, o ser expatriado não faz muita diferença, porque felizmente sou rico, mas queria saber porquê…
 - Olhe, porque não podemos responder pela segurança de V.Exa…
 - E que me importa isso? Careço de que o governo me intime…
- Pois então, está V.Exa. intimado a sair de Portugal.
 
 
A viagem de João Franco, de combóio, até ao exílio em Itália (onde tinha propriedades) foi acompanhada pela imprensa estrangeira, que a cada escala do percurso corria a tentar entrevistá-lo.
Essa tragédia foi para mim um golpe doloroso. Conservo, apesar de tudo, a esperança de ver o meu país refeito do abalo e tenho inteira confiança no futuro de Portugal e da monarquia que acaba de se tão cruelmente atingida. Quero viver longe da política, ignorado. Deixo ao tempo o cuidado de julgar do meu procedimento. Oponho o desmentido mais formal à notícia de que a raínha me tivesse acusado de haver sido moralmente o assassino de seu esposo.
 
 
A quem convinha o assassínio do rei? Nanja aos republicanos, não obstante as aparências.
Os republicanos foram logo apontados como grandes responsáveis e logo sairam a terreiro a defender-se com unhas e dentes. Se ainda ao menos a república tivesse sido implantada nesse dia 1 de Fevereiro de 1908, ou nos dias seguintes, era como o outro. Mas não foi.
 
 
A muitos notórios republicanos chegou a repugnar o regicídio. Mas o populacho, intoxicado como vinha a ser pela propaganda da nova ordem a instaurar, aumentava a pressão sobre os notáveis e o Partido Republicano não lhe podia ficar indiferente. Um dilema moral.
Sugere Jorge Morais, no seu livro Regicídio, A Contagem Decrescente, que os republicanos estavam obrigados políticamente (e moralmente, digo eu) a condenar o regicídio para o qual, afinal de contas, e enquanto instituição, não tinham metido prego nem estopa, e logo por saberem que tudo se poderia virar contra eles.
Mas a verdade é que também não podiam deixar de aproveitar a circunstância e o contexto que o destino (e a mão individual que se moveu fora da disciplina partidária) lhes oferecia para prosseguirem os seus intentos.
 
 
E os monárquicos?
Os monárquicos, muito previsivelmente, terão começado a temer pela própria monarquia. Porque sabiam das culpas que tinham no cartório - e também das mãos que se haviam auto-marginalizado à instituição monárquica e se tinham movido para o crime. De uma parte, a condenação de João Franco e da ditadura que levara ao fatal desfecho; da outra parte, os que queriam o reforço político do mesmo João Franco, com endurecimento dos processos ditatoriais. Enfim, andavam tão às aranhas quanto os republicanos.
Monárquicos e republicanos enredados, embora por desígnios opostos, em espinhosas questões de coerência, ou seja, de moral.
 
 
As finanças do país estavam pelas ruas da amargura O atraso nacional generalizava-se a todos os sectores da vida. No princípio do séc. XX, anunciadas as importantíssimas visitas de Eduardo VII de Inglaterra e de Afonso XIII de Espanha, Portugal não tinha um palácio em condições para receber hóspedes de Estado.
 
 
Estava tudo numa ruína. Nem havia carruagens ou parelhas de cavalos em qualidade e quantidade suficiente para transportar monarcas estrangeiros e respectivos séquitos em visita oficial. Tudo estava ao abandono.
 
 
A ordem pública continuava problemática. A propaganda republicana subia de intensidade e intimidava a sério monárquicos e monarquia. D. Manuel, muito novo e impreparado para cavalarias tão altas e complicadas, seria outra dor de cabeça.
 
 
A monarquia tinha escapado à justa. Não se sabia por quanto tempo escaparia ao reviralho, mas previa-se que fosse por pouco. Um regime – e mais do que um regime, uma tradição universal milenar, um estado de alma, uma cultura profunda, uma civilização – agonizavam em Portugal, como no resto da Europa. Uma nova ordem anunciava-se prenhe de incógnitas e hesitante em afirmar-se desassombradamente.
Vai ser Afonso Costa a propor nas cortes um pacto de não agressão entre republicanos e a monarquia, segundo José Relvas. Um pacto logo inviabilizado por uma raínha de alma ferida e com grande e natural influência sobre o filho. E assim a revolução republicana ficará mais próxima. 
 
 
Magalhães Lima, grão-mestre da Maçonaria, mais tarde escreveu: a ditadura franquista, com os seus corregedores à maneira de Pina Manique, irritava a opinião, e pode bem dizer-se que muito contribuiu para acelerar a marcha da República.
 
 
      E Pinheiro Chagas: sabe-se hoje que foi por essa ocasião que maior incremento tomou a propaganda revolucionária e que maior desenvolvimento tomaram as associações secretas, cuja organização até essa data estava apenas vagamente esboçada.
 
 
Monarquia ou república? Não era uma opção de fundo, como se viu antes e depois depois do 5 de Outubro, com tanto monárquico a dissidiar e a passar-se para o inimigo sem rebates de consciência. O contrário não sei se se passou tão frequentemente. Duvido. Mas os tempos eram de reviralho e as monarquias estavam secularmente desgastadas. E ainda ninguém sabia, em república, para o que estava guardado.
Mas o que ocorre perguntar é: então e as culpas?, as culpas morais, as culpas materiais? Como é que ficou o caso? Quem mandou afinal matar o rei? Os mandantes dos assassinos foram castigados? Claro que não. Eram senhores. Eram importantes. Alguém importante em Portugal é lá agora castigado?
 
 

 

domingo, 18 de março de 2018


                  A MORAL DO ATENTADO


Era uma época tremenda em que a moral do atentado se impunha aos oprimidos por um Estado esmagador. Aos oprimidos ou àqueles que lhes interpretavam as dores sociais, os bombistas, os carvoeiros, os anarquistas.
 
 
Era uma questão de moral abater um tirano. Na maior parte dos casos, eventualmente, para lá pôr outro. Não me admira que o aspirante a tirano quisesse ver destituído o tirano que o precedeu para ocupar um lugar a que se acha com direito.
 
 
Um povo ou uma clique poderosa só se poderia ver livre de um príncipe ou de uma dinastia deles pela morte; ou pelo menos era esse o caminho mais fácil e seguro para inaugurar novas eras e fazer correr a História. Dessa época de atentados, os meus olhos caem sobre uma lista de vítimas – ainda que incompleta – entre fins do sec XIX e primeiros anos do sec XX.
 
                                                             
 
O czar Alexandre II das rússias fora assassinado. Mais: Sidi Carnot, presidente francês, morto em Lyon, 1894; o político búlgaro Stambuloff, no ano seguinte; o Xá da Pérsia, no ano seguinte, 1896; e no outro ano o conservador espanhol Canovas del Castillo; em 1890 a imperatriz Isabel da Áustria; Umberto I de Itália em 1900; o presidente americano Mac Kinley, em 1901; o político russo Spyaguine, em 1902; o rei e a rainha da Sérvia, em 1903; outro russo Plehev, em 1904; o grão duque Sérgio, também russo, em 1905. Para não ir mais longe e falar no assassinato em Sarajevo do arquiduque Francisco Fernando da Áustria, que abriria caminho ao rebentar da I Guerra Mundial.
 
 
Em 1906 também o rei de Espanha, Afonso XIII, sofre um atentado, e logo no dia do casamento. E escapa. E D. Carlos e seu filho D. Luis Filipe de Portugal estavam presentes.
 
                                                               
 
Para dizer que o atentado a um rei em 1908 não era um acto extraordinário e que andasse assim tão fora da consciência tanto das autoridades e das polícias como do povo. O que menos torna compreensível a negligência de João Franco em não reforçar a segurança naquele dia 1 de Fevereiro. Negligência... se negligência foi.
 
 
Será de presumir que D. Carlos suspeitasse da sede com que alguns sectores lhe andavam – quanto mais não fosse por manter na chefia do governo o homem que lhes era odioso; é de presumir que D. Carlos conjecturasse poder ser assassinado um dia desses, a qualquer  momento.
 
                                                                             
 
Não se daria conta certamente da actividade febril havida nos esconsos mais secretos da vida política e que planeavam o seu apeamento fosse de que maneira fosse. D. Carlos planeava por seu lado uma vista ao Brasil para Março desse ano de 1908. Continuava, pelo menos para consumo alheio, a ter uma visão optimista a respeito da crise; continuava a confiar numa saida airosa, por cima, para si e para o seu homem forte.
 
 
O descarrilamento da Casa Branca. Agora pergunto-me eu – escreve D.Manuel. – Aquele descarrilamento foi um acaso? Ou foi premeditado para que houvesse um atraso e se chegasse mais tarde? Não sei. Hoje fico na dúvida. Depois do horror do que se passou fica-se duvidando de muita coisa.
 
                                                             
 
Mas no geral acreditou-se que o descarrilamento não tivera relação com o atentado, porque descarrilamentos na época, tal como assassínios de reis e políticos eram comuns.
Que a acção foi preparada e contou com várias participações, cabendo a acção apenas ao Buiça e ao Costa, parece não ter deixado dúvidas. Falou-se em 18 elementos espalhados pelo Terreiro do Paço e pelo itinerário previsto do cortejo real até às Necessidades. Seis ou sete homens no Terreiro do Paço e outros acocados em Santos e em Alcântara.
 
 
Segundo outras opiniões, 18 conspiradores seria gente a mais numa operação que exigia o máximo dos secretismos. Alguns diriam que os preparativos se restringiam ao Terreiro do Paço, com cinco ou seis homens estrategicamente dispostos e prontos a disparar.
Uma das mais sinistras incógnitas do regicídio está na ausência ou escassez de segurança ao cortejo real. Onde estava a polícia? A polícia não se vê, quanto mais segurança específica por se tratar do rei. Quem negligenciou este ponto? O rei não queria segurança em volta dele? Admitia-se. Mas no mínimo, um mínimo de protecção policial. Além do mais, o rei, no dizer do filho mais novo, não se opunha de modo nenhum à vigilância policial.
 
 
No dia 31 de Janeiro de 1908, em vista da agitação política, o major Dias, da polícia, pedia a João Franco o reforço da guarda e do policiamento no trajecto que a família real precorreria no dia seguinte, ao chegar de Vila Viçosa. João Franco perguntava ao major se estava doido. Ó Dias, isso é Rocambole. El-rei irá desembarcar como de costume e não se há-de dizer que entra em Lisboa sob prisão.
Ao jornalista francês que o entrevistara, insinuando-lhe que se poderia até poupar uma revolução desde que se pudesse suprimir a ditadura, João Franco retorquira: nem todos os atentados obtém êxito. E depois, eu tenho nos meus projectos tanto em conta uma morte violenta como a febre tifóide ou a difteria. Bem sei que um dia terei de morrer.
 
                                                                                   
 
Nem todos os atentados obtém êxito.
Alguém ouvira um caixeiro da praça de Lisboa espalhar pela baixa: amanhã mata-se um porco.
Mas João Franco acabará por fazer concessões. 16 guardas secretos, à paisana, claro, para o Terreiro do Paço – era costume serem 40. Mas que não se mostrassem, que ficassem escondidos na Câmara Municipal. O que é estranho, porque da Câmara não se vê o Terreiro do Paço.
 
 
Quem terá, por assim dizer, encenado, organizado, o cortejo real naquele dia? Porque há um pormenor (ou por maior) que atenta contra a inteligência, ou a boa fé, de quem organiza a saida das carruagens e que coloca na mesma viatura o rei e o seu herdeiro. Se houvesse uma bernarda podiam morrer os dois e o trono tremeria.
Quem organizou a viagem pensou nisso, porque era mesmo essa a ideia?
Quem organizou a viagem não pensou nisso por incompetência? Criminoso em qualquer dos casos: incompetência ou conspiração subterraneamente urdida a partir do próprio palácio real?
 
 
As capotas das carruagens. Alguns disseram que o rei mesmo tinha mandado descer a capota da carruagem. O coronel encarregado dos equipamentos nega essa hipótese. Então, alguém terá dado essas ordens. E, se alguém as deu, o próprio rei consentiu.
         Um atentado não traria apenas vantagens a quem o cometesse com sucesso. Poderia trazer vantagens políticas a quem o sofresse e dele saísse com vida.
 
 
Sim. Parece-me que sim. A moral do atentado é ambígua. O atentado pode funcionar como faca de dois gumes. É arriscado. Claro que é. Quando o prosseguimento de uma política impopular também é arriscado, um atentado falhado contra a vida de um tirano, do autor de uma política impopular… ah, coitado, também não há o direito de se matar um homem só por causa da porcaria da política, que ele até teve coisas boas… enfim, pode, pelo menos a prazo, trazer dividendos ao tirano e transformar temporariamente em popular uma política impopular,ou sinistra que seja.
Um atentado falhado pode legitimar moralmente uma ditadura. Terá sido por acaso que Salazar se fez atentar em 1936, e depois disso nunca mais?
 
                                                            
 
Salazar pode-se ter feito “atentar” em 1936, na Avenida Barbosa du Bocage, saindo desse atentado falhado como vítima moral e reforçando as legitimidades também morais para uma política.
Quantas vezes De Gaulle – que nem era um ditador, mas quase - se fez atentar? Algumas foi de verdade; outras talvez nem tanto.
 
 
E aqui a opinião de alguns, Rocha Martins incluído, de que quer o rei quer João Franco concordaram em que as capotas haveriam de seguir descidas e que a viagem, ainda longa, haveria de ser feita totalmente a descoberto. Por motivos exclusivamente políticos. Por uma questão de imagem e propaganda do governo – o que pode constituir sustentáculo moral de uma política.
Um trajecto de rei em carruagem totalmente aberta em situação politica perigosa mostraria ao povo que nada havia a esconder-lhe e que o rei ali estava desprotegido e inocente, em consciência, à mercê dos fados e da iniciativa de um louco ou de um inimigo. E tanto o rei como o seu governo ganhariam bons pontos no favor popular.
 
 
D. Carlos fazia questão em ir de carruagem descoberta, a passo. Não queria nem em sonhos que pensassem que tinha medo do seu próprio povo.
Mas quem de facto pretendiam os atiradores atingir?
 
 
Para lá do óbvio, não se sabe ao certo, evidentemente. Apenas o rei?
O atentado foi só contra el-rei, diz D. Tomás de Melo Breyner, médico da corte. Creio até que nem queriam matar o príncipe real.
 
                                                                                              
 
E para quê matar apenas o rei se não era para pôr fim à dinastia e criar as máximas condições para a implantação da república?
Talvez os conspiradores se temessem de uma futura e demasiada carga moral, humana e historicamente culposa. Podiam não ter querido que os seus braços armados pusessem um fim brusco ao secular regime monárquico e seus valores tão arreigados, e quando essa acção pudesse espertar o exército e desencadear furiosas reacções populares, obstaculizando aquilo que em última análise pretendiam: a instauração da república.
 
 
Talvez que, eliminando D. Carlos, só quisessem pôr de sobreaviso quem lhe sucedesse.
Até se murmurava nos corredores da política que o mais avisado seria D. Carlos abdicar no filho mais velho e retirar-se para o exílio – já Afonso Costa, nas cortes, o recomendara.
Mas então por que foi morto D. Luis Filipe? Porque em má hora se levantou do lugar na carruagem de pistola em punho para defender o pai?
 
 
Empoleirado no estribo da carruagem real, que impediria o Costa de acabar rapidamente com toda a família? Não o fez. Porquê? Porque não seria esse o objectivo? Porque entretanto era atingido? Porque as flores da raínha a fustigar-lhe a cara o terão desorientado?
Há também quem diga que D. Carlos, que nada tinha de parvo, confidenciara a amigos a sua certeza de mais dia menos dia poder ser assassinado. Mas também se devia sentir amarrado à trágica mitologia do poder real. O pior que podia fazer era deixar-se estar encafuado num palácio ou andar rodeado de beleguins. A ideia monárquica estava em crise em toda a Europa e jogava fortemente a sua sobrevivência.
 
 
Será que nos pressupostos da ambiguidade perigosa de uma moral do atentado, o atentado de Lisboa do dia 1 de Fevereiro de 1908 era um atentado desejado?
Desejado, com certeza, mas por quem? Para quê? Ou sob que pressuposto moral?
Desejado pelo governo – ou até pelo rei – como manobra de propaganda e para reforçar medidas de repressão excepcionais?
Desejado nesse caso para falhar, mas para, de qualquer dos modos, justificar essas excepcionais medidas?
Desejado pelos republicanos para derrubar a monarquia e implantar a república  no dia seguinte?
Desejado pelos monárquicos para se vingarem no rei da ditadura de João Franco ou por qualquer outra razão ou conjunto de razões menos claras?
Desejado pelos monárquicos para mudarem de dinastia, desarmar os republicanos e prolongar a vida do regime monárquico?
Desejado simultaneamente por uns e por outros, deixando as consequências ao critério do acaso – e dado haver espalhados por ali mais atiradores do que os dois que actuaram e cada um, ou cada grupo deles, com seus desígnios?
Desejado separadamente por uns e por outros e convergindo as várias motivações para o mesmo dia e hora, com tudo ao molho e fé em Deus – ou no diabo?
 
 
D. Carlos, ao saber do pequeno atentado a João Franco naquela tarde eleitoral em Alcântara ficara satisfeito. O atentado fora uma boa coisa e daria mais força ao governo. E escreveu-lhe.  A minha opinião é que coisa alguma de maior sorte poderia ter sucedido ao governo em prol das ideias que desejamos levar avante.
O atentado, ainda que não desejado, poderia ter sido facilitado pelas autoridades, evidentemente sob directivas superiores, e, também evidentemente, tendo em vista as vantagens morais que podem beneficiar quem é vítima de um atentado – desde que os estragos pessoais sejam controlados.
 
 
Antes de o cortejo se pôr em marcha, alguém terá ouvido D. Carlos perguntar a João Franco: vai agora ao Paço, Segue-nos. Asseguras-me de que tudo vai correr bem?
Correr bem o quê? Não haveria novidade? Ou haveria uma novidade, um acontecimento devidamente controlado que, aleatório em si mesmo, era todavia possível de descambar para o torto? Não se pode esquecer que as eleições estavam marcadas para daí a dois meses. E, ontem como hoje, não se pode esquecer que os políticos estão dispostos a vender a alma a Satanaz se preciso for só para ganhar votos.
 
                                                            
 
Terá João Franco, ou outrem a mando dele, sido enganado por alguém? Terá ele, João Franco (ou outrém a mando dele), e até de acordo com o rei, combinado a encenação de um atentado convencido de que era fingido, de que era para falhar, acabando por descambar num atentado real?
Dos cinco operacionais que estavam no Terreiro do Paço, terão sido por acidente escolhidos para o assalto os que estavam de fora da combinação, sem que os agentes de João Franco tivessem tido tempo ou ocasião para modificar as coisas?
 
 
Ou teriam o Buiça e o Costa acedido a um compromisso de falso atentado só para que a polícia descansasse e lhes deixasse o campo livre para o verdaderio atentado que tinham em mente?
É que tanto o Buiça como o Costa, anormalmente nestes casos, falaram tanto do que iam fazer, foram tão pouco discretos, deixaram tantas pistas, que dá para desconfiar de qualquer coisa…
Ou terá João Franco sido traído?
Ou saberia João Franco de alguma coisa e tenha querido poupar o rei, não o informando como devia ser de todo o plano, falso ou real que ele fosse? Ou tudo isto em simultâneo.
 
                                                              
 
Especulações. Evidentemente. Teorias de conspiração em que ninguém gosta de acreditar.
Não se pode minimizar um pequeno pormenor – o qual, aliás, D. Carlos enfatiza, repito, na carta que escreve a João Franco: ser vítima de um atentado é uma vantagem para quem o sofre e consegue escapar ileso. Uma vantagem política. Para o homem e para o grupo que haja por detrás dele.
É como digo, ser vítima compensa quase sempre. Até na política. Ou sobretudo na política. E dir-se-ia, conforme os acontecimentos futuros no-lo demonstrariam, que os homens políticos desta época poderiam ir mesmo à procura do perigo, do atentado. Com alguma sorte escapariam e poderiam capitalizar politicamente o facto.
 
 
Haveria para os homens politicos daquele tempo senhores de uma coragem física que não tem comparação com a dos meninos doutorzecos de copo-de-leite de hoje, uma certa moral no atentado. 
Facilitar um atentado, provocar arranhões insignificantes, ou mesmo fazer abortar na hora esse atentado: podiam ter sido directivas dadas à polícia. João Franco seria sabedor. Mas D. Carlos também seria sabedor? Ou teria sido sabedor na hora de pôr pé na carruagem, e daí a pergunta dele ao seu ministro, asseguras-me de que tudo vai correr bem? Ou, enfim, não saberia de nada?  
 
 
No seu livro de memórias, João Franco escreverá que nunca a nenhum membro do governo passara pela cabeça a probabilidade de um atentado contra o rei. Nunca se teria ouvido a alguém da polícia ou da administração falar, ou sequer aludir, à eventualidade de um atentado. Em nenhuma das inúmeras cartas anónimas que o governo recebia se aventava essa hipótese.
Ah, engano, aventou-se numa carta devidamente assinada por um cidadão respeitável...
Mas como, pelo que diz João Franco, nenhuma carta anónima apontava para a eventualidade de um atentado, ignoravam-se os sinais que a situação não parava de dar; ignorava-se a frustrada revolução do 28 de Janeiro; ignoravam-se uma quantidade de circunstâncias gritantes.
 
                                                            
 
O que estamos presenciando não pode continuar. Isto terminará fatalmente com um crime ou com uma revolução – já em tempo o dissera Júlio de Vilhena, chefe do Partido  Regenerador.
Será crível que rei, família real, chefe do governo, corte, notáveis, chefes monárquicos fossem tão amadores quanto nos parecem à distância de um século?
De quem foi a culpa, a culpa moral e histórica? Será que em Portugal, já nesse tempo, ninguém importante tinha culpa de nada? Coisa que tão cara é aos portugueses, e ao mesmo tempo tão difícil lhes é de discernir: a culpa. A culpa…