domingo, 18 de março de 2018


                  A MORAL DO ATENTADO


Era uma época tremenda em que a moral do atentado se impunha aos oprimidos por um Estado esmagador. Aos oprimidos ou àqueles que lhes interpretavam as dores sociais, os bombistas, os carvoeiros, os anarquistas.
 
 
Era uma questão de moral abater um tirano. Na maior parte dos casos, eventualmente, para lá pôr outro. Não me admira que o aspirante a tirano quisesse ver destituído o tirano que o precedeu para ocupar um lugar a que se acha com direito.
 
 
Um povo ou uma clique poderosa só se poderia ver livre de um príncipe ou de uma dinastia deles pela morte; ou pelo menos era esse o caminho mais fácil e seguro para inaugurar novas eras e fazer correr a História. Dessa época de atentados, os meus olhos caem sobre uma lista de vítimas – ainda que incompleta – entre fins do sec XIX e primeiros anos do sec XX.
 
                                                             
 
O czar Alexandre II das rússias fora assassinado. Mais: Sidi Carnot, presidente francês, morto em Lyon, 1894; o político búlgaro Stambuloff, no ano seguinte; o Xá da Pérsia, no ano seguinte, 1896; e no outro ano o conservador espanhol Canovas del Castillo; em 1890 a imperatriz Isabel da Áustria; Umberto I de Itália em 1900; o presidente americano Mac Kinley, em 1901; o político russo Spyaguine, em 1902; o rei e a rainha da Sérvia, em 1903; outro russo Plehev, em 1904; o grão duque Sérgio, também russo, em 1905. Para não ir mais longe e falar no assassinato em Sarajevo do arquiduque Francisco Fernando da Áustria, que abriria caminho ao rebentar da I Guerra Mundial.
 
 
Em 1906 também o rei de Espanha, Afonso XIII, sofre um atentado, e logo no dia do casamento. E escapa. E D. Carlos e seu filho D. Luis Filipe de Portugal estavam presentes.
 
                                                               
 
Para dizer que o atentado a um rei em 1908 não era um acto extraordinário e que andasse assim tão fora da consciência tanto das autoridades e das polícias como do povo. O que menos torna compreensível a negligência de João Franco em não reforçar a segurança naquele dia 1 de Fevereiro. Negligência... se negligência foi.
 
 
Será de presumir que D. Carlos suspeitasse da sede com que alguns sectores lhe andavam – quanto mais não fosse por manter na chefia do governo o homem que lhes era odioso; é de presumir que D. Carlos conjecturasse poder ser assassinado um dia desses, a qualquer  momento.
 
                                                                             
 
Não se daria conta certamente da actividade febril havida nos esconsos mais secretos da vida política e que planeavam o seu apeamento fosse de que maneira fosse. D. Carlos planeava por seu lado uma vista ao Brasil para Março desse ano de 1908. Continuava, pelo menos para consumo alheio, a ter uma visão optimista a respeito da crise; continuava a confiar numa saida airosa, por cima, para si e para o seu homem forte.
 
 
O descarrilamento da Casa Branca. Agora pergunto-me eu – escreve D.Manuel. – Aquele descarrilamento foi um acaso? Ou foi premeditado para que houvesse um atraso e se chegasse mais tarde? Não sei. Hoje fico na dúvida. Depois do horror do que se passou fica-se duvidando de muita coisa.
 
                                                             
 
Mas no geral acreditou-se que o descarrilamento não tivera relação com o atentado, porque descarrilamentos na época, tal como assassínios de reis e políticos eram comuns.
Que a acção foi preparada e contou com várias participações, cabendo a acção apenas ao Buiça e ao Costa, parece não ter deixado dúvidas. Falou-se em 18 elementos espalhados pelo Terreiro do Paço e pelo itinerário previsto do cortejo real até às Necessidades. Seis ou sete homens no Terreiro do Paço e outros acocados em Santos e em Alcântara.
 
 
Segundo outras opiniões, 18 conspiradores seria gente a mais numa operação que exigia o máximo dos secretismos. Alguns diriam que os preparativos se restringiam ao Terreiro do Paço, com cinco ou seis homens estrategicamente dispostos e prontos a disparar.
Uma das mais sinistras incógnitas do regicídio está na ausência ou escassez de segurança ao cortejo real. Onde estava a polícia? A polícia não se vê, quanto mais segurança específica por se tratar do rei. Quem negligenciou este ponto? O rei não queria segurança em volta dele? Admitia-se. Mas no mínimo, um mínimo de protecção policial. Além do mais, o rei, no dizer do filho mais novo, não se opunha de modo nenhum à vigilância policial.
 
 
No dia 31 de Janeiro de 1908, em vista da agitação política, o major Dias, da polícia, pedia a João Franco o reforço da guarda e do policiamento no trajecto que a família real precorreria no dia seguinte, ao chegar de Vila Viçosa. João Franco perguntava ao major se estava doido. Ó Dias, isso é Rocambole. El-rei irá desembarcar como de costume e não se há-de dizer que entra em Lisboa sob prisão.
Ao jornalista francês que o entrevistara, insinuando-lhe que se poderia até poupar uma revolução desde que se pudesse suprimir a ditadura, João Franco retorquira: nem todos os atentados obtém êxito. E depois, eu tenho nos meus projectos tanto em conta uma morte violenta como a febre tifóide ou a difteria. Bem sei que um dia terei de morrer.
 
                                                                                   
 
Nem todos os atentados obtém êxito.
Alguém ouvira um caixeiro da praça de Lisboa espalhar pela baixa: amanhã mata-se um porco.
Mas João Franco acabará por fazer concessões. 16 guardas secretos, à paisana, claro, para o Terreiro do Paço – era costume serem 40. Mas que não se mostrassem, que ficassem escondidos na Câmara Municipal. O que é estranho, porque da Câmara não se vê o Terreiro do Paço.
 
 
Quem terá, por assim dizer, encenado, organizado, o cortejo real naquele dia? Porque há um pormenor (ou por maior) que atenta contra a inteligência, ou a boa fé, de quem organiza a saida das carruagens e que coloca na mesma viatura o rei e o seu herdeiro. Se houvesse uma bernarda podiam morrer os dois e o trono tremeria.
Quem organizou a viagem pensou nisso, porque era mesmo essa a ideia?
Quem organizou a viagem não pensou nisso por incompetência? Criminoso em qualquer dos casos: incompetência ou conspiração subterraneamente urdida a partir do próprio palácio real?
 
 
As capotas das carruagens. Alguns disseram que o rei mesmo tinha mandado descer a capota da carruagem. O coronel encarregado dos equipamentos nega essa hipótese. Então, alguém terá dado essas ordens. E, se alguém as deu, o próprio rei consentiu.
         Um atentado não traria apenas vantagens a quem o cometesse com sucesso. Poderia trazer vantagens políticas a quem o sofresse e dele saísse com vida.
 
 
Sim. Parece-me que sim. A moral do atentado é ambígua. O atentado pode funcionar como faca de dois gumes. É arriscado. Claro que é. Quando o prosseguimento de uma política impopular também é arriscado, um atentado falhado contra a vida de um tirano, do autor de uma política impopular… ah, coitado, também não há o direito de se matar um homem só por causa da porcaria da política, que ele até teve coisas boas… enfim, pode, pelo menos a prazo, trazer dividendos ao tirano e transformar temporariamente em popular uma política impopular,ou sinistra que seja.
Um atentado falhado pode legitimar moralmente uma ditadura. Terá sido por acaso que Salazar se fez atentar em 1936, e depois disso nunca mais?
 
                                                            
 
Salazar pode-se ter feito “atentar” em 1936, na Avenida Barbosa du Bocage, saindo desse atentado falhado como vítima moral e reforçando as legitimidades também morais para uma política.
Quantas vezes De Gaulle – que nem era um ditador, mas quase - se fez atentar? Algumas foi de verdade; outras talvez nem tanto.
 
 
E aqui a opinião de alguns, Rocha Martins incluído, de que quer o rei quer João Franco concordaram em que as capotas haveriam de seguir descidas e que a viagem, ainda longa, haveria de ser feita totalmente a descoberto. Por motivos exclusivamente políticos. Por uma questão de imagem e propaganda do governo – o que pode constituir sustentáculo moral de uma política.
Um trajecto de rei em carruagem totalmente aberta em situação politica perigosa mostraria ao povo que nada havia a esconder-lhe e que o rei ali estava desprotegido e inocente, em consciência, à mercê dos fados e da iniciativa de um louco ou de um inimigo. E tanto o rei como o seu governo ganhariam bons pontos no favor popular.
 
 
D. Carlos fazia questão em ir de carruagem descoberta, a passo. Não queria nem em sonhos que pensassem que tinha medo do seu próprio povo.
Mas quem de facto pretendiam os atiradores atingir?
 
 
Para lá do óbvio, não se sabe ao certo, evidentemente. Apenas o rei?
O atentado foi só contra el-rei, diz D. Tomás de Melo Breyner, médico da corte. Creio até que nem queriam matar o príncipe real.
 
                                                                                              
 
E para quê matar apenas o rei se não era para pôr fim à dinastia e criar as máximas condições para a implantação da república?
Talvez os conspiradores se temessem de uma futura e demasiada carga moral, humana e historicamente culposa. Podiam não ter querido que os seus braços armados pusessem um fim brusco ao secular regime monárquico e seus valores tão arreigados, e quando essa acção pudesse espertar o exército e desencadear furiosas reacções populares, obstaculizando aquilo que em última análise pretendiam: a instauração da república.
 
 
Talvez que, eliminando D. Carlos, só quisessem pôr de sobreaviso quem lhe sucedesse.
Até se murmurava nos corredores da política que o mais avisado seria D. Carlos abdicar no filho mais velho e retirar-se para o exílio – já Afonso Costa, nas cortes, o recomendara.
Mas então por que foi morto D. Luis Filipe? Porque em má hora se levantou do lugar na carruagem de pistola em punho para defender o pai?
 
 
Empoleirado no estribo da carruagem real, que impediria o Costa de acabar rapidamente com toda a família? Não o fez. Porquê? Porque não seria esse o objectivo? Porque entretanto era atingido? Porque as flores da raínha a fustigar-lhe a cara o terão desorientado?
Há também quem diga que D. Carlos, que nada tinha de parvo, confidenciara a amigos a sua certeza de mais dia menos dia poder ser assassinado. Mas também se devia sentir amarrado à trágica mitologia do poder real. O pior que podia fazer era deixar-se estar encafuado num palácio ou andar rodeado de beleguins. A ideia monárquica estava em crise em toda a Europa e jogava fortemente a sua sobrevivência.
 
 
Será que nos pressupostos da ambiguidade perigosa de uma moral do atentado, o atentado de Lisboa do dia 1 de Fevereiro de 1908 era um atentado desejado?
Desejado, com certeza, mas por quem? Para quê? Ou sob que pressuposto moral?
Desejado pelo governo – ou até pelo rei – como manobra de propaganda e para reforçar medidas de repressão excepcionais?
Desejado nesse caso para falhar, mas para, de qualquer dos modos, justificar essas excepcionais medidas?
Desejado pelos republicanos para derrubar a monarquia e implantar a república  no dia seguinte?
Desejado pelos monárquicos para se vingarem no rei da ditadura de João Franco ou por qualquer outra razão ou conjunto de razões menos claras?
Desejado pelos monárquicos para mudarem de dinastia, desarmar os republicanos e prolongar a vida do regime monárquico?
Desejado simultaneamente por uns e por outros, deixando as consequências ao critério do acaso – e dado haver espalhados por ali mais atiradores do que os dois que actuaram e cada um, ou cada grupo deles, com seus desígnios?
Desejado separadamente por uns e por outros e convergindo as várias motivações para o mesmo dia e hora, com tudo ao molho e fé em Deus – ou no diabo?
 
 
D. Carlos, ao saber do pequeno atentado a João Franco naquela tarde eleitoral em Alcântara ficara satisfeito. O atentado fora uma boa coisa e daria mais força ao governo. E escreveu-lhe.  A minha opinião é que coisa alguma de maior sorte poderia ter sucedido ao governo em prol das ideias que desejamos levar avante.
O atentado, ainda que não desejado, poderia ter sido facilitado pelas autoridades, evidentemente sob directivas superiores, e, também evidentemente, tendo em vista as vantagens morais que podem beneficiar quem é vítima de um atentado – desde que os estragos pessoais sejam controlados.
 
 
Antes de o cortejo se pôr em marcha, alguém terá ouvido D. Carlos perguntar a João Franco: vai agora ao Paço, Segue-nos. Asseguras-me de que tudo vai correr bem?
Correr bem o quê? Não haveria novidade? Ou haveria uma novidade, um acontecimento devidamente controlado que, aleatório em si mesmo, era todavia possível de descambar para o torto? Não se pode esquecer que as eleições estavam marcadas para daí a dois meses. E, ontem como hoje, não se pode esquecer que os políticos estão dispostos a vender a alma a Satanaz se preciso for só para ganhar votos.
 
                                                            
 
Terá João Franco, ou outrem a mando dele, sido enganado por alguém? Terá ele, João Franco (ou outrém a mando dele), e até de acordo com o rei, combinado a encenação de um atentado convencido de que era fingido, de que era para falhar, acabando por descambar num atentado real?
Dos cinco operacionais que estavam no Terreiro do Paço, terão sido por acidente escolhidos para o assalto os que estavam de fora da combinação, sem que os agentes de João Franco tivessem tido tempo ou ocasião para modificar as coisas?
 
 
Ou teriam o Buiça e o Costa acedido a um compromisso de falso atentado só para que a polícia descansasse e lhes deixasse o campo livre para o verdaderio atentado que tinham em mente?
É que tanto o Buiça como o Costa, anormalmente nestes casos, falaram tanto do que iam fazer, foram tão pouco discretos, deixaram tantas pistas, que dá para desconfiar de qualquer coisa…
Ou terá João Franco sido traído?
Ou saberia João Franco de alguma coisa e tenha querido poupar o rei, não o informando como devia ser de todo o plano, falso ou real que ele fosse? Ou tudo isto em simultâneo.
 
                                                              
 
Especulações. Evidentemente. Teorias de conspiração em que ninguém gosta de acreditar.
Não se pode minimizar um pequeno pormenor – o qual, aliás, D. Carlos enfatiza, repito, na carta que escreve a João Franco: ser vítima de um atentado é uma vantagem para quem o sofre e consegue escapar ileso. Uma vantagem política. Para o homem e para o grupo que haja por detrás dele.
É como digo, ser vítima compensa quase sempre. Até na política. Ou sobretudo na política. E dir-se-ia, conforme os acontecimentos futuros no-lo demonstrariam, que os homens políticos desta época poderiam ir mesmo à procura do perigo, do atentado. Com alguma sorte escapariam e poderiam capitalizar politicamente o facto.
 
 
Haveria para os homens politicos daquele tempo senhores de uma coragem física que não tem comparação com a dos meninos doutorzecos de copo-de-leite de hoje, uma certa moral no atentado. 
Facilitar um atentado, provocar arranhões insignificantes, ou mesmo fazer abortar na hora esse atentado: podiam ter sido directivas dadas à polícia. João Franco seria sabedor. Mas D. Carlos também seria sabedor? Ou teria sido sabedor na hora de pôr pé na carruagem, e daí a pergunta dele ao seu ministro, asseguras-me de que tudo vai correr bem? Ou, enfim, não saberia de nada?  
 
 
No seu livro de memórias, João Franco escreverá que nunca a nenhum membro do governo passara pela cabeça a probabilidade de um atentado contra o rei. Nunca se teria ouvido a alguém da polícia ou da administração falar, ou sequer aludir, à eventualidade de um atentado. Em nenhuma das inúmeras cartas anónimas que o governo recebia se aventava essa hipótese.
Ah, engano, aventou-se numa carta devidamente assinada por um cidadão respeitável...
Mas como, pelo que diz João Franco, nenhuma carta anónima apontava para a eventualidade de um atentado, ignoravam-se os sinais que a situação não parava de dar; ignorava-se a frustrada revolução do 28 de Janeiro; ignoravam-se uma quantidade de circunstâncias gritantes.
 
                                                            
 
O que estamos presenciando não pode continuar. Isto terminará fatalmente com um crime ou com uma revolução – já em tempo o dissera Júlio de Vilhena, chefe do Partido  Regenerador.
Será crível que rei, família real, chefe do governo, corte, notáveis, chefes monárquicos fossem tão amadores quanto nos parecem à distância de um século?
De quem foi a culpa, a culpa moral e histórica? Será que em Portugal, já nesse tempo, ninguém importante tinha culpa de nada? Coisa que tão cara é aos portugueses, e ao mesmo tempo tão difícil lhes é de discernir: a culpa. A culpa…
 
 

 

 

quarta-feira, 28 de fevereiro de 2018


      TERREIRO DO PAÇO, CINCO E MEIA DA TARDE
 
 
 
 
 


No dia 1 de Fevereiro de 1908, eram 11 e meia da manhã, o rei, a raínha e o príncipe D. Luis Filipe metem-se no combóio em Vila Viçosa.
Em Lisboa, o infante D. Manuel tivera estudos da parte da manhã; almoçara com o Visconde de Asseca e com o perceptor Kerausch e depois de almoço sentara-se ao piano a tocar, talvez o Tristão, que nesse dia pela primeira vez era dado a ouvir em S. Carlos.
 
 
Na Casa Branca (Alentejo),o combóio real descarrila. A hora prevista da chegada ao Barreiro, 4 e um quarto, vai ser protelada devido ao incidente. Chegará às 5 e 20 – outros dirão 5 e 30 e outros ainda 5 horas prefixas. Seja como for, cerca de 80 pessoas aguardam na estação fluvial.
Há menos gente a aguardar o rei do que era costume, visto D. Carlos se ter incompatibilizado com os dois grandes partidos monárquicos. Nesse tempo, a Estação de Sul e Sueste era em frente ao torreão oposto àquele defronte do qual ela é hoje. Ficava no enfiamento das arcadas do lado poente da praça.
 
 
Há um grande silêncio no Terreiro do Paço. Teixeira de Sousa, da janela do seu gabinete nas Alfândegas, fuma o seu charuto e sente esse silêncio como sinistro.
                                                                                                 
 
Raúl Brandão diz dessa tarde que está azul, morna, diáfana, sem uma núvem. Jorge de Abreu achou a tarde excessivamente carregada. António Cabral diz que  a luz do sol jorrava, vivíssima, sobre Lisboa e que o Tejo faiscava.
 
                                                                            
 
Fabrício de Lemos, um conspirador, anota que era a luz indecisa e triste de um dia invernoso e húmido. Rocha Martins conta que dealbara a manhã um pouco nublada,mas suavizara-se e enchera-se de alegre sol.
Vá lá a gente da crédito às crónicas de época e aos testemunhos oculares…
A raínha vem à frente, de escuro vestida, casaco de marta e chapéu enfeitado com flores. D. Carlos a seguir, farda de generalíssimo, azul, com capote e debruns vermelhos, boné e luvas.
O príncipe: de sobretudo escuro, gravata de seda vermelha às riscas, chapéu alto e luvas castanhas. Uma menina sua afilhada oferece à raínha um ramo de flores. Há uma pequena recepção.
 
 
E chegam as carruagens. Suas Majestades e Sua Alteza Real aprestam-se para nelas tomarem lugar. As carruagens chegam fechadas, segundo alguns, e é D. Carlos que manda abri-las. João Franco desaconselha-o. Segundo alguns.
 
                                                                                                             
 
O coronel Alfredo de Albuquerque, encarregado das viaturas e equipagens reais, dirá que tinha todos os automóveis em Vila Viçosa e que andava aflitíssimo porque se aproximava o dia do regresso real a Lisboa e não queria mandar para o Terreiro do Paço os landaux, queria ter no Terreiro do Paço os automóveis. Que era preciso mandar vir de Vila Viçosa.
 
 
E vieram. Na véspera da chegada da família real ao Terreiro do Paço já os automóveis estavam em Lisboa prontos a servir. Mas o coronel recebe um telefonema a dizer para não mandar os automóveis para o Terreiro do Paço, para mandar as carruagens. Um telefonema de quem? Do próprio rei D. Carlos.
 
 
D. Carlos era corajoso, destemido, detestava as protecções e seguranças policiais. Tinha havido a revolta abortada de pouquíssimos dias antes e o rei, cuidadoso com a imagem, qual político pós-moderno, não se queria mostrar intimidado. Terá sido por isso que recusou os automóveis que melhor o protegeriam de algum percalço.
Mas as capotas das carruagens estão descidas quando surgem no Terreiro do Paço para levar a real família ao Palácio das Nacessidades. Quem as manda levantar? O rei? João Franco? Nem um nem outro? Alguém foi. O rei e João Franco de comum acordo: uma hipótese. E sempre nesse sentido de encenação, de preservar a imagem do poder, de mostrar que a revolta de 28 de Janeiro não chegara para intimidar o rei, e para evidenciar uma tranquilidade e uma normalidade públicas. Que de facto eram falsas. 
 
                                                                                       
 
Os reis e os príncipes sobem para a carruagem. D. Carlos com D. Amélia à sua direita; em frente, em sentido contrário ao do trajecto, os dois irmãos, D.Luis Filipe e D. Manuel. E a carruagem, tirada a quatro cavalos, começa a andar, vagarosa.
 
 
Segue-a o resto do cortejo. Os condes de Figueiró e o marquês do Alvito, a seguir. Na terceira, o visconde de Asseca, o vice-almirante Brito Capelo e o major Waddington. O coupé de João Franco é o quarto da ordem. Pouca gente no Terreiro do Paço, meia dúzia de curiosos.
 
 
D. Amélia vai a contar ao filho mais novo as peripécias do descarrilamento do real combóio quando se ouve um tiro. D. Carlos sorri, a pensar que era mangação. D. Manuel, que não ouviu esse abafado tiro primeiro, caracterizaria depois a situação em termos de caça, uma batida, o primeiro tiro que se dá para começo de uma caçada.
 
 
D. Manuel vê um homem de barba preta abrir o gabão e tirar do corpo uma carabina, e diz para si mesmo “que má brincadeira”. O homem da barba preta sai do passeio coloca-se seis metros atrás da carruagem, ajoelha, põe à cara a Winchester semi-automática e faz fogo. D. Manuel percebe então que não se trata de brincadeira.
Começa a fuzilaria. É tudo muito rápido e embrulhado.
 
 
O Terreiro do Paço está quase deserto, ou assim parece, na certeza de que polícia não se vê. Se durante o ministério dele, na ditadura, cometeu erros, para mim é o menos – escreverá D. Manuel seis meses depois dos factos. Mas quando se dizia que isto ia mal, que havia anarquistas no país, ele não acreditava.
 
 
Pois, João Franco não tomara providências. Era o seu último grande erro. Se erro foi. Porque parece tão inverosímil num governante com responsabilidades sobre as polícias o ter menosprezado os perigos do momento que uma pessoa chega a duvidar de tanta incompetência.
De baixo das arcadas sai um outro homem, o Costa, que faz a abordagem das regras, sobe ao estribo esquerdo da carruagem e e dispara à queima-roupa na nuca do rei. O Buiça dispara uma segunda vez. O Costa, ao disparar a pistola, parece querer certificar-se da morte do rei e de mais ninguém. Escreve Raul Brandão: a raínha, louca de dor, sacudia o Alfredo Costa com um ramo de flores, “então não acodem? Não há quem me acuda?”
 
 
Meu pobre pai, uma das balas entrou pelas costas e outra pela nuca, que o matou instantaneamente. Infames! Para completarem a sua atroz malvadez e a sua medonha covardia fizeram fogo pelas costas.
 
 
O rei foi atingido na coluna e teve morte imediata. D. Amélia, de pé, na carruagem, grita e agita o ramo de flores que levava. Chega a bater com ele na cara do Costa – ou de um outro dos cinco regicidas que andavam pelo Terreiro do Paço, talvez o José Nunes.
Na confusão, junto com os dois assassinos, é morto um rapazito, um caixeirito que tinha ido à estação dos correios da Rua do Arsenal deitar uma carta. Mais tarde haveria quem dissesse era o mesmo que andara no dia anterior a dizer pela baixa que o rei ia ser morto.
 
 
A carruagem vira para a Rua do Arsenal. O príncipe Luis Filipe levanta-se, ergue a sua pistola e descarrega-a sobre o Costa, e nesse instante mesmo cai varado com uma bala na cara, enquanto o Costa cai da carruagem e é atacado à espadeirada e a tiro por guardas que então aparecem. D. Manuel é atingido no braço direito.
Para onde conduzir a carruagem? Para o Hospital da Estrela! Não! Já aqui para o Arsenal! 
 
 
Já no Arsenal, D. Amélia vai direita a João Franco. Minha adorada mãe disse-lhe, ou antes, gritou-lhe, com uma voz que fazia medo: “mataram el-rei! Mataram o meu filho!” Minha pobre mãe parecia doida. Eu também não sei como não endoideci.
A condessa de Figueiró gritava: não havia um polícia! Não havia soldados! A culpa é  deles, do governo!
Um certo capitão Figueira tinha ido ao Ministério da Fazenda e ao sair ouve tiros. E corre. Apanha o Buiça a fugir. O capitão desembainha a espada e trespassa o corpo do Buiça com ela. Ao retirar a espada do corpo do Buiça diz para um polícia: “Tome conta deste homem.”
 
 
O Buiça verga-se, cai de joelhos, engatilha a arma e atira contra as pernas do tal capitão Figueira. Uns quantos homens filam o Buiça, que se debate. Levam-no para a Rua do Arsenal e à esquina ouve-se um tiro. Alguém acabara por matar o Buiça a tiro.
 
 
Tudo se passou em segundos.
O rei está morto! O rei está morto!
Tiros. Espadeiradas a torto e a direito. Gente a fugir: os inocentes e os culpados desconhecidos. Mataram o rei! Mataram o rei! Mas já estão mortos os que o mataram. E o príncipe? O príncipe? Os cocheiros chicotearam asperamente os cavalos. O cortejo entra no Arsenal. Os sinos continuam algures a tocar.
 
 
Por toda a baixa lisboeta corre a notícia. Mataram o rei, mataram o rei. Mil versões da tragédia começavam a circular. Nos cafés era conforme as tendências de cada um. Ora o rei era um pulha que até escrevia cartas anónimas à própria mulher, ora era um soberano exemplar, ora era ele o animador da ditadura, ora a memória do rei haveria de vir a ser reabilitada.
 
 
Numa versão de Raúl Brandão, no Arsenal, consumada a desgraça, perante os corpos, pergunta a raínha a João Franco: foram portugueses? Resposta: foram. Torna a raínha: aí tem o que o senhor fez dos portugueses. Ao que acorreu a raínha-mãe, D. Maria Pia:  diziam que o senhor era o coveiro da monarquia, mas o senhor foi pior, foi o assassino do meu filho e do meu neto.
 
 
Mataram o rei! Mataram o rei!
Os executores iriam por João Franco, não apanhariam João Franco a jeito e, já que estavam ali, e já que o rei ia a passar, aproveitaram, inflectiram de improviso as suas intenções, e mataram o rei, deixando vivo e intacto o que se pode supor ser o objecto primeiro do seu ódio. Houve quem se inclinasse para este cenário. Aquilino Ribeiro parece que foi um dos que o defenderam, ou pelo menos o sugeriram.
 
                                                                                    
 
Claro que se torna difícil imaginar que uma operação desta magnitude possa, numa questão de minutos, em cima do joelho, descambar para uma acção diferente do plano inicial. Raúl Brandão difere de Aquilino, e baseia-se em confidências que gente de destaque lhe teria feito e garante que o plano visava exclusivamente o rei.
O príncipe Luis Filipe, escorrendo abundante sangue da cara, ainda dava sinais de vida ao chegar ao Arsenal, ao ser depositado numa maca. O rosto do rei arroxeara, os lábios enegreciam. Deitam-no num colchão velho e esburacado que há por ali. Desapertam-lhe o dolman e o sangue jorra. Mas há sempre quem tenha esperanças. Um médico do paço, chega-se aos corpos e pede fósforos.
 
 
Acendendo um fósforo, o médico aproxima levemente a chama dos dedos do rei. Morto. Observa a ferida na cara do príncipe. Morto.
Esvaziam-se os bolsos do rei. Um relógio de aço com corrente de ouro; um lenço; um charuto; um saco de moedas; um revólver tirado do estojo. O rei pensara mesmo num ataque. O revólver estava pronto a funcionar. O chão em volta dos corpos está inundado de sangue. Chega um padre. Acendem-se tochas. Vê-se um Cristo pendurado numa parede. Tocou um clarim. Os corpos são cobertos com as bandeiras azuis e brancas.
 
 
Os palacianos presentes prevêem uma revolução. Fala-se de assassinos à solta na noite de Lisboa.
Inventaria-se o landau real e descobrem-se marcas de 17 balas.
 
 
João Franco chegou ao Arsenal. Deu de caras como oposicionista Júlio de Vilhena. Vilhena ofereceu os seus bons ofícios, uma trégua política. Pergunta de que extracto social eram os assassinos. Rapazes do comércio, respondeu João Franco.
Os rapazes do comércio estavam estendidos, mutilados, no átrio da Câmara Municipal, eles e o pobre rapazito que ia deitar uma carta no correio.
A noite é de um silêncio aterrador. Tropas patrulham as ruas.
 
 
No quartel de Artilharia 1 há soldados em pé de sublevação, à espera de um sinal. Os notáveis revolucionários presos na sequência do 28 de Janeiro mal sabiam do acontecido, mas também esperavam qualquer coisa. Noite fora, há tiroteios. As sentinelas dos quarteis percebem vultos rondando e atiram a matar. O velho político José Luciano de Castro confidencia a amigos: receio bem que os regimentos venham para a rua e a revolução rebente esta noite.
 
 
A revolução não rebentaria nessa noite. Mas não tardaria muito, mesmo nada, a comemoração dos regicidas. Os retratos deles apareciam nas montras das lojas, ainda os cadáveres reais estavam quentes.
Na noite mesma do atentado, João Franco apresentava-se no paço com o texto da proclamação real para assinar. Mostra-a primeiro a D. Amélia. Nessa altura D.Maria Pia pergunta-lhe: acha que a morte do rei será muito sentida? Não tenho notícia da resposta dele, mas não pode ter andado longe de… ah, sim, majestade, muito, muito sentida.
Rocha Martins conta que já chegavam os embaixadores e príncipes estrangeiros para as régias exéquias, mas Lisboa, lambida na suavidade do seu sol de inverno só tinha olhos para as vitrinas onde se mostravam os bustos dos assassinos, craionados ou em fotografia.
 
 
Os nomes do Buíça e do Costa corriam heroicamente de boca em boca. Se as mulheres choravam os reais assassinados, os homens compungiam-se pelos assassinos. Abriam-se subscrições para acudir aos filhos do Buiça.
As exposições  nas montras podiam manifestar duplas intenções. Se havia comerciantes que as exibiam por sincera fé republicana, outros faziam-no como chamariz publicitário, tanta era a gente que se aglomerava diante dos retratos. E eram aos milhares os que desfilavam perante os cadáveres. E por todo o lado se  improvisavam comícios.
 
 
Nas ruas passava gente de luto carregado sob olhares irónicos ou indignados. Alguns atrevidos mais sarcásticos indagavam dos enlutados se lhes tinha morrido alguma pessoa de família. Corriam os boatos: haveria grossa balbúrdia no dia dos funerais régios; estalaria a revolução. Houve várias prisões no seguimento do atentado. Entre os presos figurava até um músico de S. Carlos.
 
 
Os funerais régios foram no dia 8 de Fevereiro, um sábado. A pompa foi muita.
 
 
Dois dias depois, a 11, foi o funeral dos regicidas, depois de secretamente feitas as autópsias.
Temia-se o tumulto. Por isso se decidiu a cerimónia para a madrugada, três horas. Rocha Martins ornamenta: a lua branqueara as ruas ladeadas de ciprestes e alvejavam os túmulos; ao longe, uma fita prateada destacava-se. Era o Tejo, na serenidade da madrugada fria.
 
 
Durante muito tempo,à porta do cemitério, vendiam-se postais. Olha o retrato do Buiça e do Costa! Olha o retrato dos mártires! E nas tabernas os cantos ao fado celebraram-nos por muito tempo.
A este dia seguiram-se dois anos que foram uma espécie de tempo de ninguém.