domingo, 2 de novembro de 2014

CÂNDIDO DE OLIVEIRA
NÃO BEBEU
PELA  SUPERTAÇA

                                                                                                   
                                               
                                     


         Em 1941 estaria iminente a invasão da Península pelas tropas do Reich, invasão essa que eventualmente se combinava com a invasão de Portugal pelas forças espanholas conluiadas com Hitler. Lisboa era então, como se sabe, um formigueiro de exilados, refugiados judeus em trânsito para a América e espiões ingleses e alemães.

E se os agentes da Gestapo procurariam criar as condições subjectivas e objectivas para uma invasão, os homens da intelligence inglesa, sob a direcção do chefe das operações secretas para a Península do MI6 - um homem que viria a tornar-se famoso alguns anos depois, Kim Philby, o traidor, o desertor para URSS; por acaso assessorado por outro homem então ainda não tão famoso como viria a ser, Graham Greene, o romancista; e tendo às suas ordens (e este a residir no Hotel Palácio do Estoril) outro romancista que viria a ser famosíssimo, Ian Fleming, o criador de James Bond – seria a organização de pontos de resistência, linhas de comunicação telefónica e radiofónica, desmascaramento de agentes da Gestapo e segurança de circulação dos seus elementos, tudo, enfim, que pudesse ser útil aos ingleses para enfrentar o invasor alemão.

                



A polícia política portuguesa, ao tempo a PVDE (Polícia de Vigilância e Defesa do Estado), antecessora da PIDE, persegue encarniçadamente as organizações subversivas a trabalhar no país, com especial predilecção pelas redes de espionagem aliada – mais especificamente a rede inglesa do SOE (Secção de Operações Especiais).

                                                                                    

A PVDE, pejada de oficiais corruptos e germanófilos (ao que se dizia nos meios secretos, a começar pelo seu chefe o capitão Agostinho Lourenço), mantinha colaboração estreitíssima com a sua congénere espanhola que era abertamente nem mais nem menos do que uma dependência da Gestapo. Mas o mesmo se poderia dizer da PVDE. 


Entre os mais notórios agentes duplos (PVDE/Gestapo) estavam o Henrique de Sá e Seixas – que tantas vezes eu vi muitos anos depois a tomar café na Brasileira; mais tarde guarda-costas de Salazar (ao que se dizia nos anos 60) e chefe do campo de concentração do Tarrafal; um tal capitão Cumano, homem forte da polícia – Cumano que era a adaptação para português do apelido da sua ascendência germânica, Kuhlman, ou coisa assim, e que despachava directamente com Von Kasthorf, o número um dos serviços secretos alemães em Lisboa; um Sidónio Vilasboas; um António Simões especialista de acções de propaganda; um Correia de Almeida – que torturava à base de longos duches gelados (estaria hoje na moda); um capitão Gaspar de Oliveira – que chegou a capturar e a submeter a interrogatório uma telefonista da embaixada inglesa, querendo saber: 1) onde era a sala dos telefones da embaixada e se era de acesso fácil; 2) se era fácil escutar as conversas; 3) o número de chamadas confidenciais recebidas do exterior; 4) quanto ganhava Miss Maria Silva, a telefonista.


Lisboa fervilhava de tensões. 

                                                                   

Os boatos circulavam a grande velocidade e o mais temido deles era os alemães estarem a preparar acções de sabotagem em pontos estratégicos, inviabilizando as defesas da cidade.


As tarefas essenciais da espionagem alemã (e italiana, não esquecer) em Lisboa incluíam a penetração quanto possível intensa dos círculos afectos aos Aliados, com vista a obter informações de tipo militar e a criar condições para o envio de agentes para as colónias, sem falar, evidentemente, das acções de contra-espionagem que comprometessem ou contrariassem as acções dos serviços aliados.


Especial atenção davam os agentes da Gestapo às casas de prostituição do Cais do Sodré.


Por estranho que pareça, fundaram e geriam (indirectamente) algumas. Mas não seria tão estranho assim, posto que o movimento do porto de Lisboa era muito, marinheiros de todas as nacionalidades chegavam e partiam, e, antes de partirem, iam a essas casas, obviamente, pôr a sua escrita sexual em dia, sempre deixando cair uma ou outra informação, sobretudo se estavam bêbedos, de onde vinham, para onde se dirigia o navio, como se chamava o navio, e por aí fora, informações que eram logo transmitidas aos submarinos alemães que infestavam o Atlântico e afundavam sem rebuço qualquer navio mercante com pavilhão aliado. 


De sociedade com os serviços espanhóis de fronteira, os alemães também contrabandeavam à vontade para fora do país, e em escala considerável, produtos de todo o género, alimentares, algodão, couro, minérios diversos (volfrâmio incluído, e sem prejuízo do que era exportado legalmente), óleos, lãs.

                                                                      

Em Março de 1942, em duas ou três semanas, a PVDE faz uma razia entre portugueses e estrangeiros. São presas 500 pessoas. Todas têm um ponto em comum: são suspeitas de trabalhar para a espionagem britânica. Algumas delas terão em comum ainda outra circunstância, que é a de pertenceram aos quadros clandestinos do PCP e fazerem oposição activa ao governo, em simultâneo com as operações da espionagem britânica. Entre esses elementos detidos está Cândido de Oliveira, conhecido homem do futebol.


        Na imprensa portuguesa nem uma linha a noticiar a leva de prisões.


Em Fevereiro de 1941, Cândido de Oliveira e mais dois companheiros jornalistas do Diário de Notícias e do Diário de Lisboa tinham sido convidados pelo British Council a deslocar-se a Londres para intercâmbios relacionados com o jornalismo desportivo. Eram tempos de guerra e os serviços ingleses de informação interna, o MI5, autoriza-os a entrar no país. Quem não os deixa sair é o portuguesíssimo Secretariado da Propaganda Nacional, personalizado em António Ferro.

                                                                                         

        Enfim, a temática desportiva era uma capa para assuntos mais sérios e secretos, porque o verdadeiro sentido da viagem eram os contactos políticos e uma provável formação em técnicas de espionagem, contra-informação e sabotagem. Além disso, a viagem de conceituados jornalistas desportivos portugueses à Grã -Bretanha servia a propaganda aliada num Portugal onde os germanófilos eram em número considerável (a Alemanha ainda estava a ganhar a guerra e o português, por atavicamente desinteressado do que é importante e sempre sem condições para pensar, gosta de alinhar ao lado do vencedor) e particularmente enquistados ao nível do aparelho de Estado e entre a média/alta burguesia.
     Dessa viagem constariam ainda – segundo o informador da Legião Portuguesa que espiava Cândido de Oliveira na redacção da revista Stadium – encontros com Churchill e De Gaulle, e do relato dela seriam editadas 1.000 cópias destinadas a serem apreendidas pela PVDE, e sendo um único exemplar enviado para o Brasil para então ser feita a partir dele uma edição em grande escala.
        É nesse ínterim do ir e não ir a Inglaterra que Cândido de Oliveira é preso.


        Foi no dia 1 de Março já de 1942, em casa, eram 5 horas da manhã. E diz ele que nada sabia dos motivos da prisão. Ninguém se dera ao cuidado de o avisar de que a PVDE tinha dado início a uma vaga de prisões visando elementos da rede secreta do SOE – serviço de operações especiais controlado pelos serviços secretos britânicos do MI6 – com quem ele estaria em contacto.
                                                                 

    
     Objectivamente, a acusação que pesa sobre Cândido de Oliveira é a de organizar comunicações rádio e alugar apartamentos para encontros secretos de agentes e base de acções de espionagem.
    Na realidade, Cândido de Oliveira é um categorizado agente do SOE (ramificação do MI6), com responsabilidades numa rede secreta na área das comunicações, para a qual tinha a vantagem prática de ser inspector superior dos CTT em Lisboa, podendo por isso fornecer caixas-postais para o movimento clandestino de informação.


    Na PVDE, Cândido de Oliveira recusa-se a responder a quaisquer perguntas. E leva um primeiro tratamento… violentamente agredido por quatro agentes que me partiram os dentes do maxilar superior e me racharam um lábio e a cabeça com um banco… é o que ele alega em carta aos seus contactos.

       
    (Atenção, que me estou a basear numa leitura recente do livro de Rui Araújo O IMPÉRIO DOS ESPIÕES – edição Oficina do Livro -, e porque achei piada à ligação bizarra e de todo imprevisível de um nome histórico do futebol português a acções de espionagem já de um certo coturno. E por essa leitura também fico a saber que o acervo documental referente a Cândido de Oliveira, passados tantos anos, ainda continuava classificado no arquivo dos serviços secretos de Sua Majestade, e só desclassificado por diligência do autor do livro.)


      Depois do tratamento da PVDE, Cândido de Oliveira acaba por admitir uma ligação acerta rede secreta, porque percebe que um elemento dessa rede, preso e provavelmente torturado, o denunciara. Cândido de Oliveira fica portanto identificado como importante chefe de um sector de operações clandestinas sob o pseudónimo de Dr. Menezes – um Dr. Menezes que a polícia internacional até aí se esfalfara para identificar e não conseguira.
        A outra identificação de Cândido de Oliveira no trabalho secreto era PAX. E os relatórios do SOE continuavam a mencioná-lo… a organização PAX continua intacta à excepção da arreliadora prisão do próprio PAX, denunciado por um contacto que foi preso.
        E um PAX recalcitrante vai dar com os ossos no segredo. Nove dias – segundo a espionagem britânica. Depois, é posto incomunicável. Atiraram com ele (segundo conta) para uma cela húmida onde a escuridão era total e onde diz que viveu dez dias como um bicho, comendo no chão, sem assistência médica…a polícia pensava que eu era um comunista, um traidor que queria derrubar o governo – e se calhar, digo eu, até pensava bem…
O estado de saúde dele agrava-se e mandam-no para o hospital prisional de Caxias. Estamos, contudo, em contacto com ele desde o dia em que foi preso. E esse contacto é feito por carta ao chefe operacional do SOE, o major John Grosvenor Beevor, adido militar à embaixada inglesa, e intermediado por um dos guardas prisionais metido na conspiração.

                                                                             

        Fui ontem interrogado desde as 15 até às 5 horas da manhã. Ficou tudo na mesma porque eu nada mais sei nem posso acrescentar.
        O que Cândido de Oliveira gostaria de saber era quem estava também preso, para se poder precaver nos interrogatórios. Gostaria de saber, mas o seu chefe não solta essa informação para ele.
      Quem se mexe é a embaixada inglesa. Um protesto em forma ao Ministério dos Negócios Estrangeiros contra a brutal agressão a Cândido de Oliveira. 


   As acusações contra Cândido de Oliveira discriminadas pela PVDE incluem ainda a organização de grupos de resistência activa e passiva na eventualidade da temida invasão alemã; a oposição às actividades ilegais dos serviços secretos alemães em Portugal – bombas a colocar em navios ingleses e montagem de emissores clandestinos; o envio para a Alemanha e territórios ocupados de propaganda dos Aliados. Uma questão crucial ocupava entretanto o espirito de Cândido de Oliveira na prisão… compreendo que não vou ser libertado já, porque as provas demonstram que participei na preparação de uma acção em nome dos Aliados para o caso de a Alemanha invadir Portugal. Mas, sublinho, é importante determinar se essa acção seria executada caso a entrada dos alemães fosse solicitada pelo governo português. Esta hipótese tem, obviamente, que ser encarada, mas não me ocorreu antes…
        E o que os da polícia política portuguesa mais queriam com os tratamentos dados a Cândido de Oliveira era que ele confessasse, pelo meio das actividades a favor da espionagem inglesa, outras actividades possíveis, a saber: a preparação de um golpe de Estado contra o governo português que coincidisse com o também possível desembarque em Portugal (talvez nos Açores) de tropas anglo-americanas. O que seria bem pensado, diríamos nós hoje, mas que Cândido de Oliveira negara com a veemência que lhe terá custado alguns dentes e o lenho na cabeça.


Digo “lhe terá custado”, porque a PVDE, sabedora do protesto de YP (embaixador inglês Sir Ronald Campbell), imediatamente refuta as acusações que lhe são feitas. É falsa a afirmação de que o nacional Cândido de Oliveira foi agredido, e mais falsa ainda a afirmação de que o brutal tratamento era para conseguir a confissão de que as actividades referidas se destinavam a preparar um golpe de Estado contra o governo português.

                                            

A PVDE atira com a informação de que a revista desportiva Stadium (fundada pelo próprio Cândido de Oliveira) era financiada pelos serviços secretos ingleses, era um cóio de espiões e era por conseguinte uma capa para actividades de espionagem cuja caixa de correio que havia na porta não serviria para outra coisa senão para a circulação de mensagens secretas.

 

(Porque que é que o desinteressante e pretensioso cinema nacional não aproveita estas histórias reais.)
        Num dia de Maio desse fatídico ano de 1942, John Beevor, o contacto dos serviços secretos ingleses, prevê para breve a libertação de Cândido de Oliveira. Previsão errada. Tal não acontece.


De relevante importância seria a pessoa de Cândido de Oliveira para os ingleses, pois a 21 de Maio, o directório do SOE propõe ao Foreign Office o suborno de alguns guardas da prisão de Caxias, admissivelmente no sentido de preparar a fuga do seu agente PAX. O Foreign Office não diz que não a uma ajuda ao prisioneiro, mas não concorda com o suborno. Ou pelo menos não concorda sem o parecer de Sir Ronald Campbell, YP, o embaixador, e assim os planos de evasão ficam em águas de bacalhau.
Nada lhe fora solicitado, ou sequer sugerido, que não tivesse por motivação a esperada invasão de Portugal pelas tropas de Hitler, a acontecer em concatenação com um ataque a Gibraltar. Uma invasão que só não passou dos planos por consequência das derrotas na frente russa.


Mas será que Salazar pediria ajuda aos Aliados se a Alemanha invadisse de facto Portugal? Ou, inversamente, será que Salazar pediria socorro as forças do Eixo se se desse o caso de serem os Aliados a invadir Portugal?
Questões que lhe martirizavam o espírito em dias de solidão cativa.
        No dia 18 de Junho, pelas vias de comunicação clandestina habituais, é Cândido de Oliveira quem informa o seu controleiro do SOE da sua próxima deportação para o Tarrafal. Muito agradeço o auxílio à minha família. Eu parto com 5.000$00. Deve chegar-me por algum tempo, pois no campo de concentração não devo ter grandes despesas.
     Cândido de Oliveira parte a 20 de Junho no paquete Mouzinho. A revista Stadium é encerrada e o SOE paga as dívidas e os salários em falta.


        A 28 de Julho, do Tarrafal, Cândido de Oliveira escreve à irmã… minha boa Maria, do coração desejo que estejas bem; eu continuo em tão óptima disposição e excelente saúde que nada admira que obtenha uns cem quilos. Ao menos algo ganho e, quando voltar, estarei mesmo a pedir uma entrada para a troupe de lutadores do Coliseu! Diz-me também algo da bola, o que fizeram, etc., quem ganhou a Taça de Portugal (o Benfica: 5-1 ao Vitória de Setúbal na final – nota minha) e o que eles projectam para o futuro.
     No Tarrafal, Cândido de Oliveira goza de um regime especial, em comparação, claro, com o dos presos anti-fascistas (ou só anti-fascistas e sem protecção de embaixadas estrangeiras). Vive fora do arame farpado e não está sujeito a trabalhos forçados. Ele e os outros, já se vê, porque havia outros também integrantes da rede do SOE. Passeiam. E só são confinados entre as 8 da noite e as 5 da manhã. E é muito devido a esse regime de excepção, compreende-se, que ele pode montar uma linha de comunicação com os serviços ingleses.
      Mas os serviços ingleses não descansavam quanto ao destino do seu agente feito prisioneiro. E decidem raptá-lo. Não são de modas. E o plano é alinhavado. Contam com a colaboração de um navio francês fundeado ao largo da ilha de Santiago.


     Entretanto, intervém o irmão de Cândido de Oliveira, Leonel, que capitaneia um navio mercante português, o Alferrarede, e que sente o dever moral de ter parte activa na libertação do irmão. Entrava o ano de 43. A ideia era levá-lo para Bathurst, capital do que é hoje a Gâmbia, e daí regressar a Lisboa.
        Os homens do serviço secreto inglês pressionam o seu embaixador quanto à situação do agente PAX. Estará YP (o embaixador) na disposição de falar na libertação de PAX no seu próximo encontro com H.001 (Salazar)? Era uma questão de humanidade, mas questão de humanidade essa que YP considera irrelevante para o caso num contexto mundial em que tantos milhares estavam a morrer de morte violenta. 
      
                                                   

      
     E também seguramente que H.001 levaria isso à conta de ingerência nos assuntos internos de um país (apesar de tudo) soberano. O outro óbice era o seguinte: se YP tencionava pedir a H.001 para suster a actuação dos serviços secretos alemães e italianos em Lisboa, que moral teria se logo a seguir lhe solicitasse a libertação de um elemento dos serviços secretos ingleses? H.001 replicaria sem dúvida que, nesse caso, e dada situação portuguesa de neutralidade, teria de libertar igualmente os agentes alemães e italianos detidos – que pelos vistos também os havia...
        O que H.001 faz é considerar o homem do SOE, e adido militar britânico, John Beevor, persona non grata e expulsá-lo do país – teso aquele H.001…
     Leonel, o capitão de navio irmão de Cândido, borrega nas suas intenções de libertar o preso, mas os serviços ingleses não desarmam e esboçam um plano de rapto alternativo em que Cândido e mais uns quantos seus companheiros de cativeiro fugiriam do Tarrafal com a ajuda de um guarda entretanto subornado chamado Gonzaga, e tendo à espera deles na baía um vaso da Royal Navy, nem menos. Era a Operação Disgorge.


        O MI6 mandara um emissário, um tipo grego, ao Tarrafal, para ver como era e contar como foi. E o emissário elabora um relatório. O comandante do campo é um anglófilo que fora substituir um cruel germanófilo e autorizou o emissário dos serviços secretos ingleses a visitar o campo, incluindo o avistar-se com Cândido de Oliveira. As condições do campo haviam melhorado com a mudança de comandante. A alimentação era suficiente, apesar de básica – não sei se eles estavam habituados a lagosta e caviar – e os prisioneiros recorriam a produtos clandestinamente introduzidos no campo pelos guardas. Agora quanto à fuga a coisa fiava muito fino, fino de mais, era muito difícil fugir dali, o campo era constantemente patrulhado…
    Mas os serviços ingleses continuam a não desarmar. A certa hora previamente combinada da noite, um navio da marinha inglesa estaria fundeado na baía do Tarrafal. Cândido e outro safar-se-iam num bote salva-vidas, iriam ter ao navio e seriam embarcados. O bote seria abandonado de casco virado para cima, sugerindo que os fugitivos teriam morrido no mar. Tudo deveria passar-se depois do meado de Junho, por causa da ondulação forte no Atlântico por essa época.


        Diz o relatório da abortada Operação Disgorge: quando constatámos que muitos outsiders, incluindo o guarda, tinham conhecimento do plano, vimo-nos obrigados a propor a sua anulação. Logo que os ânimos apaziguarem poderá ser possível fazer escapar Oliveira sozinho. Mas nada se poderia fazer antes do outono.
        Era muita gente a querer pôr-se ao fresco dali, compreende-se. PAX informava que poderiam ser uns seis. E as repercussões políticas não seriam de desprezar. Tudo dependeria da importância das relações que a Grã-Bretanha pretendesse manter com Portugal. E quando H.001 concorda com as facilidades que os Aliados pediam nos Açores, o plano de fuga de Cândido de Oliveira é imediatamente cancelado pelo SOE.
        Em princípios de Dezembro de 43, a embaixada britânica em Lisboa transmite para o Foreign Office a probabilidade da próxima libertação do agente PAX. Afinal, tinha funcionado a pressão diplomática. Cândido de Oliveira poderia chegar a Lisboa no dia 20 de Dezembro, e se assim fosse os ingleses estariam prontos a compensar monetariamente o seu agente PAX pelos dois anos de cativeiro, pela sua acção enquanto agente do SOE, pelos maus tratos e pela perda do emprego.
        E assim acontece. No dia 13 de Dezembro de 43, Cândido de Oliveira e mais quatro embarcam para Lisboa com escala em Bissau.
        Cândido de Oliveira chega a Lisboa a 31 e vai recambiado para o Hospital Júlio de Matos de quarentena, por precaução contra a febre amarela.
        Mas libertado ainda ele não foi.
        Nem a prisão, nem o desterro, nem o paludismo, nem a maldita black-water fever (vi morrer 14, um dos quais tinha ido comigo), nem as ameaças e torturas me modificaram senão no sentido de ter ainda mais ânimo para a luta. Você contará comigo como antes – e como sempre.

                                                     

        Do Júlio de Matos, Cândido de Oliveira vai para a cadeia do Aljube, e da cadeia do Aljube segue direitinho novamente para o forte de Caxias. Andava de Herodes para Pilatos por causa da mesma temática da correlação de forças e liberdades entre agentes ingleses e alemães e italianos a operar em Lisboa.
     Da PVDE, um capitão Catela manda dizer que faziam tenções de libertar Oliveira quando ele regressasse do Tarrafal, mas o embaixador inglês tinha voltado a protestar junto de H.001 contra a ordem de libertação que fora dada para os homens da Gestapo, ao que H.001, teimoso como um corno, havia replicado a YP “pois então, os homens da Gestapo vão continuar presos e o Oliveira e os outros também”.


        Cândido de Oliveira está cheio de dívidas e foi demitido das funções de inspector superior dos CTT. Quando sair finalmente da prisão vai ficar na vida com uma mão atrás e outra à frente.
        Vibrando ligeiramente, na minha opinião, uma corda fadista, continua em comunicação com o seu contacto secreto… nem você nem os nossos amigos têm pois qualquer compromisso formal comigo. Sou o primeiro a reconhecer que os meus sacrifícios, nestes dois anos de prisão, nada são ao pé do sacrifício daqueles que já morreram na luta, dos que combatem nas frentes e dos que estão prisioneiros dos alemães… pois sim, mas também refere que saiu do Tarrafal com a vida completamente arruinada…a polícia, como deve saber, apreendeu todas as minhas economias (cerca de 35 contos) com a alegação de que devia ser dinheiro da Organização…


        
   Cândido de Oliveira, alentejano de Fronteira e casapiano, foi de facto um homem excepcional e uma personalidade das mais importantes do desporto português.


                                                                                               
Foi jogador de futebol, médio-esquerdo, no Casa Pia (cujo clube de futebol fundou) e no Benfica. Foi o primeiro teórico português de futebol – devem-se-lhe algumas máximas ainda hoje citadas: “o treinador quando ganha é bestial e quando perde é uma besta”; ou, por exemplo, que o avançado-centro (no tempo não se falava ainda em pontas de lança) pode passar o jogo todo sem tocar na bola, mas se toca uma única vez e com esse tocar marcar o golo que dá a vitória à sua equipa, pode ser considerado o melhor em campo. Estas e outras, que não conheço ou de que já me esqueci.


Foi o impulsionador da selecção nacional, de que vem a ser o primeiro capitão num Espanha-Portugal disputado em Madrid em 1921.

                                              

É o seleccionador nacional no primeiro brilharete do futebol português, nos Jogos Olímpicos de Amsterdão, 1928. Foi treinador, Académica (onde institui as tabelinhas, ou, acho eu, um tiki-taka avant la lettre), Belenenses, F.C.Porto, Atlético e até do Flamengo do Rio de Janeiro. É ele o treinador (talvez o primeiro) do mais histórico Sporting, o dos cinco violinos.
    Na outra vertente importante da sua vida desportiva há o jornalismo, Diário de Notícias, Século, Diário de Lisboa, talvez mais um ou outro¸ e fundador de jornais, a revista Stadium, e o mais importante de todos, com o seu grande amigo Ribeiro dos Reis, A Bola, em 1945 – acabadinho de sair do Tarrafal, como se viu.

                            

        Enfim, Cândido de Oliveira é libertado. 27 de Maio de 1944. Cinco meses depois de ter regressado do degredo no Tarrafal. E vai para casa de um irmão na Figueira da Foz.
 O SOE vai pagar-lhe daí a pouco uma indemnização de 150 contos. O que na época era dinheiro.
     Mas Cândido de Oliveira quer continuar no trabalho secreto e pede uma transferência para onde fosse possível. O Brasil, por hipótese. Permanecer em Portugal é que não, tudo lhe traz más recordações, maus momentos, má vida. A menos que o SOE ainda precisasse dele – fora de questão, acho eu, visto que era um elemento queimado e provavelmente vigiado pela polícia, e que nenhuma utilidade poderia ter para uma organização secreta. E ele sabe disso, com certeza que sabe. Pensa prosseguir uma actividade subversiva e clandestina mas sabe que tal actividade… de novo me levará às mãos da Gestapo luso-alemã…
        Porém, quando lhe propõem a ida para o Brasil que ele tanto almejava e havia sugerido, recusa.
        É condecorado pelos ingleses. Condecoração que ficará no esquecimento por motivos de ordem política.
        Para não aceitar a proposta para o Brasil – onde já tinha colocação à espera dele, aliás providenciada pelos serviços secretos ingleses a operar no Rio de Janeiro - alega razões de saúde.
         Não sei mais nada da vida secreta de Cândido de Oliveira. Só sei qualquer coisita da actividade desportiva de que falei atrás, a actividade que o tornou realmente prestigiado e famoso no país e impôs o seu nome para uma competição maior do futebol nacional, a Supertaça Cândido de Oliveira. Uma super-taça onde Cândido de Oliveira nunca seguramente bebeu, pelo menos entre 1941 e 1945.
        E sei que morreu a 23 de Junho de 1958, com 61 anos, em Estocolmo, onde, como enviado especial do jornal A Bola, cobria o campeonato do mundo de futebol – pneumonia e complicações cardíacas…  

quinta-feira, 23 de outubro de 2014

                A MÚSICA,
                           A MEDICINA,
                                        O TEMPO E O MEDO


         Em certo sentido, é preciso ver que a medicina, ao cumprir a sua missão de instaurar uma normalidade equilibrada no corpo e no espírito, só desajuda alguns artistas criadores, os que devem muito (ou tudo) nas suas criações aos desequilíbrios da sua mente, ou mesmo aos aleijões do seu corpo, corpo que também, não raro, para o melhor e para o pior, lhe condiciona essa mente.


       Que seria do mundo cultural sem as perturbações bipolares de Beethoven, Schumann, Edgar Poe, Tchaikovski, Dostoievski, Fernando Pessoa, Lord Byron, Tolstoi, Gauguin; sem a tuberculose de Chopin; sem a depressão alcoólica de Hemingway, de Faulkner, de Tennessee Williams; sem a epilepsia de Van Gogh…
         Por outro lado, que seria do mundo da música se não fosse a medicina a valer aos criadores do segundo escalão da criatividade, os intérpretes, os conexos? Digo dos dedos dos pianistas, da hérnia discal dos maestros, dos joelhos dos bailarinos, das laringes dos cantores…


         A essência da arte do artista está nele próprio, nele inteiro, em corpo e espírito. A técnica e a aprendizagem contam cerca de não muito mais de 20, ou 30%  para o rendimento final.
E todo o grande artista traz obrigatoriamente a sua doença ou a sua saúde para a tela, para o pentagrama, para a folha branca, para a pedra bruta… e para o palco. A doença que lhe entra em conflito com o talento; ou a doença que descobre, provoca e alimenta esse talento. A doença que misteriosamente lhe suscita um particular modo de se exprimir; ou a doença que pode proibi-lo terminantemente de se exprimir. Ou ainda, porque não, o diálogo  permanente entre a doença e a saúde e que define ao Homem os territórios da criatividade e da mediocridade, no conflito eterno entre os doentes geniais e os saudáveis medíocres, os ditos normais, os equilibrados, os correctos!, de expressão e comunicação comparáveis às de todos os outros homens. 


         O mais castiço dos médicos que frequentam a cena lírica pode ser que não seja bem médico, ainda que chame a si mesmo de doutor Dulcamara. Pertence à ópera Elixir de Amor, de Donizetti, e corre mundo a vender um soluto que pode debelar as mais variadas enfermidades. Faz andar os paralíticos, despacha os apopléticos, os asmáticos, os histéricos, os raquíticos, os diabéticos – é o que ele diz; cura os tímpanos, as escrófulas, e até os males de fígado que agora estão na moda… por causa do meu específico, simpático, mirífico, um septuagenário conseguiu ser avô de dez crianças… 

                                                    

         Vamos a ver uma coisa: um médico por acaso também entendido em Verdi, em Puccini, em Bellini, em Rossini, em Wagner poderia, suponho eu, organizar um seminário em que se discutisse tecnicamente o surto de epilepsia do general Otello ao cair em espasmos no 3º acto; em que se abordasse a evolução da tísica que mina duas importantes heroínas do palco lírico, Violetta Valéry, mais conhecida pela Traviata, ou Mimi, a modesta florista de La Bohème. Por exemplo.

                                 
Esse clínico poderia também avançar judiciosos palpites acerca da extraordinária obesidade de Sir John Falstaff, ou da fatal consanguinidade de que vai resultar a morte (real) do Infante D. Carlos de Espanha, consentida (senão ordenada) pelo próprio pai, o rei Filipe II. Saberia esse médico em que parte do próprio corpo o jovem Edgard de Ravenswood, da Lucia de Lammermoor, dá uma facada por forma a permitir-lhe cantar uma ária longa e difícil ainda antes de bater a bota. Um bom especialista explicar-nos-ia o como e o porquê de o barão Scarpia morrer instantaneamente por um único golpe na barriga aplicado com uma simples faca de ir à mesa, ou qual a composição da mistela que La Gioconda dá a outra mulher por forma a simular-lhe a morte e a fazê-la despertar em grande voz no momento conveniente.
     Está visto que na literatura lírica existem intrigas e sub-intrigas romanescas motivadas por patologias diversas. A pobre cantora Antónia, de Os Contos de Hoffmann, de Offenbach, misteriosamente enferma, proibida de cantar e tratada por um médico que é a encarnação do próprio diabo – o que não é caso invulgar mesmo nos nossos dias, segundo me dizem. O sonambulismo de Lady Macbeth e o sonambulismo da própria Sonnambula, de Bellini – de que eu discorreria com gosto no caso de perceber alguma coisa de sonambulismo; como discorreria, se soubesse, do caso famoso de um medicamento ministrado por engano que faz Tristão e Isolda caírem doidamente apaixonados um pelo outro quando, antes de ingerirem a droga, se odiavam. Para não falar da estranha ferida de Amfortas, senhor do Graal, provocada pela ponta aguçada de uma lança e impossível de tratar com anti-inflamatórios ou antibióticos, porque só curada ao toque da mesma ponta da mesma lança que a provocou.


         É o medo que nos leva à medicina, ao médico. É o medo de sofrer, o medo de morrer. E acho que, de certa maneira, é a própria prática da música e do tempo musical, e o medo dela e dele, que pode aproximar a mesma música da medicina e faz dos artistas grandes consumidores do acto médico.
É ver o caso dos pianistas no afã de simular o domínio sobre uma portentosa máquina que lhes escapa, e que tanto recorrem aos feiticeiros da ortopedia por causa daquele malvado quarto dedo que nem sempre funciona na hora do recital, como aos magos da psique para lhes espantarem a fantasmagoria e o medo de deixarem de fazer sentido. Ou dos bailarinos, a correrem Cristianos Ronaldos para os fisioterapeutas com queixas no joelho, nos gémeos, nos adutores, no tendão de Aquiles, na tibiotársica, o menisco, a tendinose...
         Casos interessantes são os dos chefes de orquestra. Uma vida inteira afectada pelo melindroso fluir do tempo musical. Uma vida inteira passada a gesticular música, a sinalizar tempo, de pé, e mais atreitos, se calhar, aos neurocirurgiões, por via das costas, da coluna.



E até tenho belos nomes para meter aqui: o primeiro deles, o celebérrimo Herbert von Karajan, sete operações à coluna ao cabo de uma longa carreira; Daniel Barenboim, caído redondo durante uma récita de Mestres Cantores; James Levine, director musical do Metropolitan Opera de Nova York, constrangido hoje em dia a exercer a profissão sentado numa cadeira construída para ele sob específicas ergonomias.
       
                                
     
       Tudo por causa do gesto e do tempo – o que em música vai dar no mesmo -, e sendo os maestros os donos do tempo musical: nalguns casos os criadores do próprio tempo musical; noutros casos os mercadores (ou implacáveis marcadores) desse tempo musical.
Tempo musical que é o tempo absoluto, o tempo mais que perfeito desta vida, o tempo que encerra todo o tempo, e que por isso intimida quem se mete com ele.
E se algum dia ouvirem um chefe de orquestra dizer “os músicos do meu tempo”, podem crer que não se refere ao bom tempo comum em que ele era jovem. Não, ele refere-se ao tempo musical que marcava com a batuta, que era o verdadeiro tempo dele, e que os tais músicos eram obrigados a seguir.


         E alguns – chefes de orquestra, digo - morreram mesmo no exercício da profissão. Joseph Keilberth, tombado durante uma récita de Tristão e Isolda; ou Dmitri Mitropoulos abatido ao efectivo dos vivos num ensaio de Wozzeck; ou Jascha Horenstein, numa récita de Orfeu - que me lembre assim de repente. E temos o caso do maestro Franco Ferrara, génio da batuta ossanado por todos, mas que quando subia ao pódio para impor o tempo de um concerto desfalecia, e que por via isso passou a carreira a ensinar a outros o mistério do tempo que lhe escapava ao gesto e à cardiopatia. Questão de nervos? Questão de medo? Medo de não ser digno do tempo musical, do tempo todo?
         Mas o medo maior do artista, diga-se o que se disser, é o medo da sua própria e formidável ambição de exprimir o inexprimível.


         Karajan vivia com esse medo e mais com uma dúvida excruciante. Que se passa no corpo de um homem quando dirige uma orquestra? A que alturas andará, e a que níveis do suportável, a pressão arterial do director de orquestra durante as cinco horas de duração de uma normal ópera de Wagner? De que cargas de vontade indómita será ele capaz para dominar o medo do tempo? E tanto assim que, para as sessões de gravação de um Siegfried, se fez observar clinicamente no acto de dirigir, todo ele sensores e fiozinhos ligados a maquinetas. Foi em Março de 1969, e dizem as crónicas que parecia um astronauta.


Nos breves momentos que antecederam o início da função a pulsação dele subia de 67 a 148, descendo vertiginosamente ao normal no preciso instante em que levantava os braços e fazia a música existir, tornando a subir em flecha ao aproximar de um agudo particularmente difícil da soprano.

                                                                        

Terminada a sessão, Karajan vai para a sala de controlo ouvir os takes. Continua ligado às máquinas. E não é que, ouvindo as gravações, a pulsação dele volta a disparar nos mesmos valores e a regressar ao normal nos exactos momentos em que disparara e regressara ao normal horas antes, quando dirigia? Reacção que Karajan tomava como prova de que os estímulos musicais poderiam ocorrer no corpo à revelia da vontade e da razão humanas. Comandados pelo medo, diria eu.
E já para o fim da vida Karajan criou uma fundação para o estudo de ciências que conexão tivessem com a prática musical. Era um curioso dos efeitos da música sobre o Homem, ainda que pensasse que a experiência da sua própria prática musical de tantos anos e o contacto directo que tivera com o fenómeno musical e com a maravilha do tempo fosse mais esclarecedor do que os resultados científicos.
É claro que ele se referia a um certo poder espiritual, esse poder espiritual que ainda mantém nos seus devidos limites o poder científico do Homem moderno. E porque o objectivo da actividade funcional de um músico é alcançar o perfeito intangível, o que equivale a dizer irromper para além dos limites de si próprio – e quando digo si próprio digo do seu próprio corpo, e quando o corpo é a mais poderosa limitação aos prometeicos desplantes do espírito. E assim sem prejuízo do que disse um dia Wittgenstein, de o corpo ser a melhor representação da alma.
Mas também pode ser como o disse um místico qualquer: no interior do corpo de um homem reside toda a História do mundo. É disso que os médicos realmente se ocupam e tratam. Da História do Mundo…


E não se diga que Karajan não era um homem moderno. Era. Moderníssimo! Um furioso das tecnologias mais avançadas. Em 1984 declarava ele o seu ideal de morte. Ou seja, de vida – ideais aliás que podem desembocar no mesmo dilema. 


Karajan gostaria que na hora da morte o congelassem. E que o fizessem reviver passados 20 anos para que pudesse voltar a gravar todo o repertório usando as tecnologias em vigor daí a 20 anos. Isto foi em 1984, portanto, as tecnologias de 2014. Está então na hora. E confesso que não sei se entretanto alguém já tirou o corpo de Karajan do congelador e o meteu no micro-ondas…

                                                                  

Música é arte do tempo, é arte do momento, esse momento que se faz anunciar, existe, marca a ordem do mundo, passa, e nunca mais volta. O que em música – e quem sabe se em cirurgia – não sair bem no momento preciso é uma perda irreparável. É a perda do tempo. Tempo que comporta em si a condição de ser isso mesmo, irreparável.
A música é o que nos impõe esse tempo irreparável. A música é o que estipula a verdade de cada momento de vida, e nunca a mesma verdade do momento precedente, e nunca a mesma verdade do momento seguinte. Uma ética do irremediável. O tempo de atacar a nota, o tempo de tocar a frase, o tempo de a acabar. E sobre esse tempo irremediável pode pairar um silêncio de cuidados intensivos…  
Por isso é costume dizer-se que qualquer descuido ou imprevisto pode ser a morte do artista.
E é da morte do artista que passarei a falar.
Assim como os maestros que já citei – e provavelmente outros que não me ocorrem ou que desconheço – mais músicos houve a morrerem no local de trabalho. E entre esses que morreram em pleno palco durante uma representação, destaco o caso mais impressionante do célebre barítono norte-americano Leonard Warren, uma das maiores estrelas do MET de Nova York, que viveu 49 anos até à tarde do dia 4 de Março de 1960, em que cantava a Força do Destino, um dos cavalos de batalha dele enquanto maior barítono verdiano do mundo.
Mas cuidado que Warren não se apresentava nessa tarde como ele mesmo. Warren era nessa tarde o nobre espanhol Don Carlos de Vargas que correra seca e meca à procura do homem que lhe raptara e desonrara a irmã e lhe assassinara o pai, e que logo nessa tarde o encontrava, e que, acabado de o encontrar, o ia finalmente matar. Mas antes disso tinha que viver o tempo e cantar uma ária bastante trabalhosa. Urna fatale del mio destino.


Cantada a ária, Don Carlos de Vargas, ou o barítono Leonard Warren, solta um grito – um mi agudo – o gioia!, ó alegria. E cai redondo, e morto, sobre as tábuas sagradas do palco. Estava pronto para matar o infame. Mas o tempo escoou-se rápido e fatal na sua própria vida.
A orquestra pára. Os colegas e o coro precipitam-se dos bastidores e rodeiam o corpo. Há pânico na plateia. O pano desce. Leonard Warren, a grande voz, a grande estrela americana da ópera, está morto. Ataque cardíaco, segundo uns; hemorragia cerebral, segundo outros. Venha o diabo e escolha.
Pode ser caso para perguntar qual é o contabilista, o cabeleireiro, o padeiro ou o advogado que aspira a morrer no próprio local de trabalho, e enquanto trabalha. Tenho a certeza de que poucos.
Leonard Warren morreu de morte macaca, sim, de morte pública, longe da cama onde todos nós gostaríamos de acabar. Mas morreu como todos os artistas de palco gostariam de morrer, a trabalhar, a cumprir o seu destino. Morreu numa situação de ficção. Morreu enquanto personagem melodramática que só pensava em matar. E para cúmulo da ironia que reveste estas coisas da vida, da morte e da arte, poderia perguntar-se se o cidadão judeu-novaiorquino chamado artisticamente de Leonard Warren morreu mesmo, ou se quem morreu foi o tal nobre rancoroso Don Carlos de Vargas que ele fingia ser naquela tarde.


Warren morreu vestido de outro, vestido de Don Carlos de Vargas, a dizer as palavras de Don Carlos de Vargas, a fazer os gestos de Don Carlos de Vargas, a experimentar o ódio e o medo de Don Carlos de Vargas. Mas… ora ora… que Warren morreu é uma maneira de dizer. Dizer que morreu na pele de um outro, de Don Carlos de Vargas. Morreu na pele de um outro que, para complicar ainda mais as coisas, nem sequer existia. É o que se pode chamar a morte do artista.
A Força do Destino. Uma ópera que dá azar, e que, diga-se de passagem, Pavarotti sempre se recusou a cantar. E por isso mesmo. Por medo. Por medo do azar que dá cantá-la. E porque Pavarotti era um homem altamente supersticioso que num dia em que experimentou algum medo se lamentou: E pensar que a minha vida depende de dois ou três centímetros de cartilagem.
O tempo e o medo. O tempo musical mete medo. O medo de o perder. Pode não se estar bem quando ele chega, o tempo musical. O génio teme o tempo. Glenn Gould, o pianista iluminado, o excêntrico hipocondríaco, vivia apavorado com várias coisas, entre elas as correntes de ar e os micróbios. E entre essas coisas também, provavelmente, o poder não estar em condições de defrontar em público uma variação de tempo chamada de Goldberg. E por isso deixou pura e simplesmente de tocar em público e optou pelo estúdio, onde o tempo pode ser reversível.


         Medicina e música. Estranha afinidade. Muita? Pouca? Sabe-se lá se nenhuma…
         A Arábia Saudita precisa de médicos portugueses. Veio nos jornais. E paga-lhes bem. Não precisa de músicos. Não dá um chavo por um músico. Não são precisos.
Medicina e música. Uma afinidade que eu diria explanada sobre o tempo e sobre o medo. Mas se a mim me fascina o tempo, o que me apaixona é o medo.
Fazemo-nos músicos para experimentarmos o medo exaltante de tocar, de cantar, de dançar. O medo de experimentar o nosso corpo. O medo de experimentar o tempo e de o falhar; a que corresponde a expectativa da graça divina, que é a de afrontar o tempo e de o vencer.
Ou talvez nos façamos médicos para penetrarmos o segredo da carne perecível que nos contabiliza o enigma do tempo, e que é, por isso mesmo, a nascente de onde brota o medo. O músico vive apaixonadamente o próprio medo criativo, intoxicado pela droga da sua vaidade. Talvez o médico viva angustiadamente o medo dos outros… ou se calhar não… só profissionalmente…
Mas sim, o tempo musical mete medo, porque é naquele dia X, àquela hora Y e naquele minuto Z que a voz do cantor tem de lá estar, que os dedos do pianista ou do violinista têm de funcionar. Há para cumprir a cada noite de récita a fracção mágica do tempo universal. Um segundo antes é cedo demais; um segundo depois é irremediavelmente tarde. E ninguém garante ao cantor e ao instrumentista que naquele preciso segundo em que a voz tem de sair e que os dedos têm de funcionar os deuses sejam misericordiosos e se dignem visitá-los.
Tudo pode depender da disposição física e mental do dia – do tempo. Ou da emoção que seja preciso convocar para aquele momento e não para o outro, o antes ou o depois: a emoção que se convoca e se transmite ao público naquele minuto, uma emoção que é falsa, e que todavia é a mais verdadeira, porque vivida sobre o medo.
Deve haver um tempo médico, um tempo clínico. Que é o tempo do corpo, o tempo que o corpo humano concede ao espírito. Que é o medo que o corpo nos infunde. Como o tempo musical é uma representação maravilhosa desse mesmo tempo do corpo, organizada em gesto, sentida em medo, expressa em som. Música é gesto – e gesto é tempo de o fazer. Allegro, andante, largo, presto, forte, legato, stacato. Música é corpo. É o gesto do regente, é a mão do pianista. Sim, o gesto que desencadeia o transcendente das vidas. Ou o acto médico, ou o gesto cirúrgico que nos adia a morte, adiamento que é outra modalidade da vital transcendência.
E há uma justificação evidente para que nesta minha conversa venham com mais acuidade à baila os cantores do que os instrumentistas. É nos cantores que o medo é maior e que por isso a medicina se faz mais precisa. O instrumento dos sopranos e dos tenores é o próprio corpo – como quem diz, é a própria medicina. A dedicação do músico ao instrumento é a dedicação do cantor ao próprio corpo, a si próprio – um alibi para os narcisismos, está certo.
O cantor não pode mudar de instrumento quando o que tem não está em condições. A laringe humana não se pode afinar como um violino ou um piano. O corpo de um tenor sofre as contingências do corpo de qualquer outro ser humano, frio, chuva, humidade, vento, ar inquinado, calor, angústia, stress. Fatiga-se. Dói. Pesa. Aborrece-se. É no anti-histamínico, no anti-inflamatório, no anti-depressivo que o cantor procura, em última análise, a melhor afinação do seu instrumento.


E já agora acompanhemos Nietzsche na caracterização do órgão fisiológico do medo. O ouvido. O órgão excelentíssimo do músico. E também o órgão do medo e da noite. Ou, mais curiosamente, do medo, da noite e da música. Claro. O ouvido humano distingue a música, classifica-a; como distingue os ruídos, particularmente os ruídos ameaçadores de uma noite, e sendo a música por Nietzsche definida como experiência nocturna. No âmago da floresta, o Homem apura o ouvido, identifica o som, a nota de música ou o aproximar da fera, do perigo. Ao nascer do dia o ouvido atenua as suas funcionalidades, o mundo e a vida tornam-se inteligíveis pelo olhar. Os cegos sonham como todos os outros, todavia, sem imagens visuais, só pela actividade auditiva.

                                                  

Hematomas, edemas nas cordas vocais. Traqueítes. Afonias prolongadas. Como terei voz amanhã de manhã cedo para o ensaio. O tempo e o medo. O tempo e o medo no meu primeiro contacto com um otorrinolaringologista, quando tive muito medo, aquele medo que faz lembrar da medicina. Foi então que consultei um especialista muito reputado que me avaliou o exsudado naso-faríngico e decretou que eu estava pejado de estafilococos aureus patogenicus.


Injecções. Comprimidos. Inalações. Bombinhas. A esperança. O tempo. Depois, a cura, o dissipar do medo. E, anos passados, a rinite a carregar com mais vigor sobre o meu tracto naso-faríngico. Nova experiência do medo. A consulta a um outro facultativo de renome. O meu histórico revelado. Os tais estafilococus etc.. Diz-me ele: ah, graças aos estafilococus aureus patogenicus  há colegas meus que têm prédios no Areeiro.


Mas chegou o tempo em que Sherrill Milnes, o sucessor de Leonard Warren no estrelato do MET de Nova York, experimentou o medo.
Artista de carreira fulgurante. Voz de extensões ilimitadas e de poderes expressivos consideráveis. Grande bravura. Grande brilhantismo. Fama mundial. Mas a certa altura a voz rendia-lhe em pleno pelos seus 20 minutos e depois cansava-se, pesava, faltava. Milnes sofria horrores, suava em bica no decorrer das récitas. Problemas técnicos de base? Milnes pensava o que todos pensamos quando sentimos um órgão a falhar: já lá iam tantos anos a cantar com êxito estrondoso sobre a mesma base técnica e nunca lhe tinha acontecido nada que se parecesse com aquilo. E era como shakespeareanamente me disse esse tal primeiro otorrino que consultei: aquilo que nunca aconteceu acontece seguramente um dia. Sim, uma questão de dias. Vivemos suspensos numa questão de dias.        
Em fins de 81, Milnes está em Londres para cantar Simão Boccanegra no Covent Garden e sente-se mal e enche-se de medo. Um médico londrino. Uma hora de exame. Conclusão: ruptura de um vaso capilar numa das cordas vocais, numa das tais membranas de dois ou três centímetros de que depende a vida de um cantor – como disse Pavarotti.
Cirurgia de laser. Uma lotaria. Podia dar para continuar a carreira, ou podia deixá-lo afónico para sempre. Toda a vida e subsistência de Milnes estão ameaçadas, dependem daquele estranho caso de ruptura milimétrica nos seus poucos centímetros de membrana.
Boston. Milnes dá entrada no Massachusetts General Hospital sob nome suposto. Janeiro de 82. Ninguém no mundo da ópera e da edição discográfica pode saber que o maior barítono da América e um dos maiores do mundo se vai sujeitar a uma cirurgia no seu instrumento de trabalho. Milnes, claro, está em pânico. A fortuna bafejara-o muito generosamente até aí, mas o reverso, a hora da pouca sorte, podia estar a chegar. Uma questão de dias.
Uma semana após a operação, tudo voltara à mesma. E em Agosto de 1984 Sherrill Milnes volta ao hospital do Massachusetts. Segunda intervenção a laser. Nos meios da ópera consta que Sherrill Milnes, o grande barítono, está a morrer. Operação. Recuperação. O tempo. Repouso. O tempo. Aproxima-se o dia do grande concerto comemorativo do Centenário do Metropolitan de Nova York. Milnes não quer deixar de comparecer. Mas nem o cirurgião mais desembaraçado lhe garante que possa comparecer. O medo.


Uma noite, está para começar a conversar com a mulher, mas nem começa. Porque não pode. Nem o mais leve sussurro lhe sai da garganta. Duas operações de alto risco. Para nada. A carreira acabou. Sentia-se enlouquecer. A medicina não o ajudou. Mas não morreu. Ainda é vivo.
Quem morreu foi outro infeliz barítono, este italiano, outro dos maiores de todos os tempos, Ettore Bastianini. Um grande. Reclamado no mundo inteiro. Mas em 1963, depois de sete papéis cantados na Ópera de Viena desaparece subitamente da cena lírica mundial. Por dois meses ninguém sabe dele. O tempo. Que se passa? Ninguém sabe o que se passa. Reaparece no Scala em Rigoletto. O medo. A voz não lhe responde nos momentos capitais. É pateado. Vai cantar a Chicago e lá recorre à medicina. Faz-se observar. Diagnóstico: cancro na laringe. O medo.


Isola-se. Químio e rádio na Suíça. Retoma a carreira. Quanto mais o cancro se desenvolvia mais volume de voz ele tinha, dizia-se. E suspende de novo a carreira. Por quatro meses. O tempo. Regressa aos palcos em 1965. No Met de Nova York. Força do Destino, ópera muito fatal e de muito mau agoiro, como vimos. O público não gosta. Medo. O mundo artístico é cruel e ninguém sabia do drama que Ettore Bastianini estava a viver.
A 11 de Dezembro de 1965 decide pôr um fim definitivo a uma gloriosa carreira que se transformara em tormento insuportável. Iria para a sua casa em Sirmione, nas margens do Lago de Garda, aguardar a morte. E foi. Sozinho. O tempo e o medo. Era uma questão de dias. E cumpridos os dias, a morte chega. Em Janeiro de 1967. Com 44 anos.
No caso dos músicos fadados para o mais alto rendimento profissional, e para a grande carreira internacional, haverá sempre que escolher entre, das duas uma: ser um escravo de si mesmo, do seu talento e da sua ambição, ou ser um cidadão livre. Escolher entre ter ou não ter medo, entre convocar ou não convocar os rigores do tempo.


E se Bastianini e Milnes e Warren traziam a doença para o palco, o lendário tenor Lauri Volpi só trazia saúde. Não apreciava especialmente a medicina no seu trabalho, e daí que exigisse em contrato a prerrogativa de ser ele mesmo, e não o médico do teatro (como era de uso) a decidir se estava ou não em condições de cantar, se estava ou não doente, se podia ou não cancelar uma actuação por motivo de doença. Era o único no mundo artístico com essa cláusula. E pode dizer-se que Lauri Volpi usou e abusou dela. Bastava que pouco antes de começar o espectáculo estivesse à porta do seu camarim e visse alguém aproximar-se com uma cesta de flores. Ah, obrigado (dizia ele), lindas flores, muito obrigado. Desculpe, as flores não são para si. Não são para mim? Então para quem são estas flores? São para a soprano ali do camarim ao lado. Para a soprano? Esta noite não canto. Estou doente, muito doente. E voltava para o camarim, vestia-se e ia à vida dele.
A férrea vontade de vencer o medo e a arriscada ousadia de confrontar o tempo podem prejudicar o juízo inteligente quando canalizadas para uma única obsessão de grande carreira.
E é assim que Franco Corelli, o escultural, o enorme, o heroico tenor dos anos 50 e 60, levou a vida na expectativa torturante e quotidiana de perder a voz. Era uma questão de dias. 30 anos de grande carreira iguais a 30 anos de pânico diário. Dizem que se injectava antes das récitas. Não sei. Sei que aparecia pálido como um morto – eu vi. Mas se se injectava seria com quê? Diziam uns que com um preparado à base de cortisona; diziam outros que com água destilada, só para ter a sugestão de ter tomado qualquer coisa capaz de lhe restituir a voz que na imaginação alucinada sentia faltar-lhe; diziam ainda outros que se injectava com cocaína, ou com qualquer outra coisa parecida que soubesse fazer o que ele não sabia: defrontar o tempo e vencer o medo…
No fim extemporâneo da carreira (carreira que era na verdade a sua doença), com cinquenta e poucos anos, ainda cheio de voz, idolatrado em todo o mundo lírico, deu uma surpreendente entrevista à Newsweek. O medo.


Não nasci para ser cantor. Sempre tive medo de cantar. No começo não tinha o dó sobreagudo e tinha medo. Depois, com o estudo, adquiri o dó sobreagudo com facilidade, mas morria de medo só á ideia de o perder. Podia passar umas três horas seguidas a ouvir a minha voz gravada à procura dos defeitos. Ficava exausto. Muitas vezes, logo de manhã, a minha voz não respondia. Se era dia de descanso e não tinha récita, passava horas a experimentar a voz, a ver se ainda a tinha. Precisava urgentemente de descansar, mas não conseguia dormir de contentamento, se a récita me tinha corrido bem. Não conseguia dormir de angústia se ela me tinha corrido mal. E Corelli remata com uma pergunta ao entrevistador: você acha que isto era vida?
Não era. Para ele não era.
Oiça, amigo, isto não era vida. Isto seria a vida de um prisioneiro, um prisioneiro metido num quarto de hotel, a ouvir-se a si próprio à procura dos seus defeitos, a olhar estupidamente para a televisão e a fazer paciências. E oiça, amigo, eu nasci livre. Eu nasci em Ancona a 50 metros do mar.
Mas também temos o caso dos destemidos. Por exemplo, os irredutíveis fumadores da cena lírica. Ah, a recusa olímpica do medo, o desafiar do tempo. Fumam alegremente toda a vida sem medo de perder a voz. Enrico Caruso é o primeiro deles, e o mais ilustre, a voz histórica. Foi submetido a duas operações aos pulmões, incluindo corte de costelas, e realizadas no próprio quarto de hotel novaiorquino onde residia – tinha 17 quartos permanentemente por conta dele.


A convalescer na terra natal, Nápoles, é entrevistado pelos jornalistas americanos que querem saber da recuperação e se o MET contaria com ele na temporada seguinte. O tempo. Estava tudo bem. Sim, sim, reapareceria na temporada de 1921/1922.
Mas enquanto respondia aos jornalistas não parava de fumar. Espanto. E não deixa de fumar? Deixar de fumar, eu? Quem deixa de fumar são os doentes, amigo, e eu sinto-me em grande forma.
Foi uma questão de dias. O imortal Caruso morreu uma semana depois desta entrevista. Com 48 anos. Sem medo. E depois de esgotada a qualidade do tempo que o destino preparara para ele.
E Di Stefano, o grande companheiro da Callas, fumador incansável. Aliás, ao contrário do que se pudesse pensar, Di Stefano tinha-se na conta não de um grande cantor que pecaminosamente fumava, mas de um homem livre, um fumador que por acaso até cantava. Mas só veio a morrer com oitenta e tantos anos, no Quénia, depois de se envolver numa zaragata com uns homens que lhe assaltavam a casa.


Fumadores… ah… e Dietrich Fischer-Dieskau, e Ferrucio Tagliavini, e Cesare Siepi, e Tito Gobbi, e Piero Cappuccilli, e, e… houve até quem dissesse que a Callas e a Caballé também apreciavam o seu cigarrito…
 Pois todos esses e mais o puríssimo Beniamino Gigli, que só deixou de fumar aos 44 anos e por promessa feita à mãe. E outros, e outros, e outros. Muitos outros. Os que não tiveram medo. Os que se gozaram do tempo.
O azar está sempre à espreita do artista de palco, isso é verdade, e por isso muitos deles, acusando a droga do medo artístico, consultam regularmente bruxos, cartomantes, videntes, astrólogos e deitam terra de cemitério à porta do camarim do rival.
O músico está capaz de recorrer a todas a mesinhas desde que elas lhe dissipem o medo, o medo de ser, de ser artista, lhe revelem as ideais propriedades do tempo e lhe garantam a melhoria da performance.
Mas quem é senhor do seu medo até pode cantar com o diafragma remendado.
Numa noite de 1943, no Porto, enquanto ceava com amigos, depois de ter cantado La Bohème, o grande tenor português Tomás Alcaide, sentiu uma agudíssima dor no estômago. Hérnia diafragmática estrangulada. A carreira dele já não estava grande coisa, depois de ter deixado de cantar em Itália e em França devido à guerra (o tempo, a História do mundo), mas, como é evidente, depois daquele incidente, as coisas não melhoraram para Tomás Alcaide.
Uma questão de dias.
Cinco meses e meio de hospital com operações e sucessivas complicações pós-operatórias. O tempo. Resultado: diafragma remendado com a metade esquerda já de si paralisada; conta do banco nas lonas; voz sem ninguém poder dizer ao certo se estava perdida ou não. O regresso do medo.


O conselho dos clínicos era um ano de repouso e nunca mais pensar em cantar. O tempo. Conselho que ele não seguiu, diga-se. E estreou em S. Carlos – onde misteriosamente até então nunca tinha cantado – com um Pescadores de Pérolas. Mal pensado. Ópera mal escolhida em vista das circunstâncias; ópera que lhe pedia fôlego de gato e domínio absoluto do diafragma para os efeitos de mezzo forte, crescendo e diminuendo que lhe tinham acrescentado fama. Ópera mal escolhida, digo. A voz badalou-lhe aflitivamente, apoiada por um diafragma esburacado. Foi aplaudido por cortesia. Nunca mais foi o mesmo.        
O grande Beniamino Gigli, ídolo incomparável dos meus avós, cantou em S. Carlos já bem entrado na idade. Quando era novo e estudava canto em Roma, na Academia de Santa Cecília, era um rapazinho anafado, de muito alimento, mas muito pobre, e sempre esganado com fome. Fosse por isso, as suas amizades mais chegadas eram cozinheiros, e alguns deles trabalhavam nas boas casas da alta burguesia romana.


Pois pelo final dos anos 40, já sessentão, já uma lenda viva da ópera, já laureado vencedor do tempo e do medo, vem Gigli cantar a S. Carlos. Em tom de queixume, mostra a um funcionário do teatro com quem se tinha travado de amizades um contrato em nome dele para um país sul-americano. Um contrato em que o espaço das condições financeiras estava em branco, e onde ele, Gigli, poderia escrever a soma que muito bem lhe apetecesse. E dizia ele: está a ver como são as coisas e como é a vida? Quando eu era muito novo andava permanentemente cheio de fome e não tinha dinheiro para comer nas quantidades que o meu estômago me pedia; hoje, com 60 anos, apresentam-me um contrato financeiramente ilimitado, em que eu posso ganhar o que quiser… hoje, que não posso comer isto por causa da úlcera, que não posso comer aquilo por causa da diabetes, que não posso comer aqueloutro porque me faz subir a tensão, porque me dá cabo do estômago, do fígado, da vesícula, dos intestinos
No palco, a tocar, a dançar, a cantar, a declamar, em verdade vos digo que ninguém, nem o artista mais pintado, pode prever o que lhe possa acontecer – ou o que o medo lhe possa induzir de desconchavo, ou as perfídias que o tempo lhe reserva.
Contei-lhes alguns casos tristes, e até dramáticos, que acabaram mal. Os que acabam bem não ferem a atenção dos cronistas, como as boas notícias não fazem vender jornais.
                                                                                             

E, vendo as coisas pelo outro lado, talvez o cardíaco Leonard Warren nem tivesse chegado àquele dia e àquela malvada récita da Força do Destino se não tivesse tomado diligentemente as pílulas que o médico lhe receitara – quais, não sei. Porque há um tempo artístico feito para ser vivido sem medo. Há. É uma questão de dias, mas há.


A lesão na corda vocal de Sherrill Milnes já lá andaria se calhar desde os primeiros tempos da carreira e não se manifestara mais cedo porque talvez ele tomasse religiosamente as injecções – quais, não sei.

                                                                                              

O desenlace fatal de Bastianini foi sendo retardado pela quimioterapia. Pela medicina, que tem a propriedade de iludir o tempo e retardar o medo.
A hérnia do nosso Tomás Alcaide talvez tivesse sido disfarçada e o estrangulamento adiado, uma questão de dias, por efeito de alguns cuidados médicos.


Até ao dia infeliz em que o nosso corpo cobardemente se revela o maior inimigo do nosso espírito e da nossa vontade e o que de mal nunca fisicamente nos aconteceu, acontece.
Warren, apesar de judeu, era cardíaco, e era católico, e levava uma vida espartana. Mas, como numa novela do Garcia Marquez ou numa tragédia de Sófocles, a sua morte estava anunciada. Questão de dias. Como há as rouquidões anunciadas por uma má técnica vocal, as hérnias anunciadas por exagero nos esforços do músculo, as decadências anunciadas por deficiências congénitas. Questão de dias. O tempo. A categoria de vida que nos toca a todos, mesmo que pelos nossos feitos ou qualidades nos chamem imortais. E nós sabemos disso – o medo – ainda que façamos por esquecer. Não devia ser assim, mas até os médicos adoecem e morrem – pelo menos é o que eles dizem…
Medos antecipados, e desgraças anunciadas. Como anunciada estava a prematura decadência de um dos nomes maiores da cena musical de todos os tempos.
Trata-se do estranho caso da grande lombriga. 

                                                                           

A grande lombriga aplicada ao ventre de uma excelsa artista que, parecendo que não, trazia para o palco e para as personagens a que dava corpo a sua considerável miopia, a sua helénica tragédia e o seu medo indomável na hora de cantar.
Quando, em 1954, Maria Meneghini Callas aparece no mundo da música e do society como paradigma da elegância feminina, porque acabara de perder 36 quilos, as histórias e os boatos nunca mais pararam.
Em todo o caso, parece que foi ela mesma a lançar para o mundo a história sensacional daquela repentina magreza. O estranho caso da grande lombriga. Uma bicha solitária por ela deliberadamente ingerida com uma taça de Dom Pérignon a acompanhar.
Mas enfim… parece que era tudo falso. Sim, falso esse caso da grande lombriga declarado por ela. Dizem os entendidos que semelhante animal engolfado nas entranhas e a absorver-lhe as calorias que ingeria nunca por nunca ser lhe poderia proporcionar uma perda de peso tão radical. Talvez lhe proporcionasse, mais do que elegância e estilo, umas cólicas, uns gazes fétidos e umas solturas de morrer. Uma ténia nunca poderia apropriar-se de 40 quilos de cantora lírica – ainda por cima grega.
E então, Maria Callas, para efeitos publicitários, ou mentia descaradamente e estava a caçoar com os jornalistas sequiosos de notícias retumbantes; ou estaria mesmo convencida de ter ingerido a bicha que alguém à sorrelfa lhe deixara cair na taça de champanhe; ou ainda, ingerido a lombriga acidentalmente na carne que comia, e porque era muito chegada ao seu bifito, de preferência apresentado cru, à moda tártara, mesmo a pedi-las, mesmo a pedir que lhe metessem uma desapercebida lombriga pelo meio...


De uma maneira ou de outra, com ou sem ténia, o certo é que Maria Callas, em 1951, em Florença, fizera uma audição para Rudolf Bing, o patrão do maior teatro de ópera das américas, o tal MET de Nova York. Estava gordíssima. Era uma mastronça e tanto. E Bing não ficou entusiasmado. Mas, lá por causa disso… sim, poderia cantar no MET, Bing é que não dava mais do que 400 dólares por ela em cada récita.


Negociação vai, negociação vem, ela quer mais do que os choradinhos $400. Mas também era uma questão de dias. Passa um ano, passam dois (o tempo), e no verão de 1954 a Callas faz um ultimato ao MET de Nova York: ou lhe dão 750 dólares por noite, ou o MET nunca ouvirá a voz de Madame Callas.
E vai a Nova York. E bate ao postigo de Mr. Bing. E Mr. Bing abre o postigo, olha para ela e tem uma tontura de cabeça por ver a mastronça que audicionara dois anos antes em Florença transformada num chiquíssimo corpo flexível vestido pelos grandes costureiros da Europa.


 E a parada de madame Callas sobe um pouco mais, e Mr. Bing tem que perder o amor a 800 dele em cada noite que madame Callas abrir a boca no MET. Não porque cante melhor do que quando era uma tronchuda e cantara na audição de Florença, segundo disse o próprio Bing, mas porque estava fisicamente muito mais apresentável a uma audiência novaiorquina.
O caso é que, passados anos (o tempo), a refinada e magríssima madame Callas começa a perder a voz – e a ganhar ainda mais medo. E vai perdendo, perdendo, perdendo a voz, até se retirar prematuramente de cena.
Diagnóstico – dermatomiositis.

                                                                                  

Uma doença que era segredo muito bem guardado e que a minava desde 1960, ainda nova – aliás, a Callas nunca chegou a ser velha, morreu com 53 anos.
Médicos da Universidade de Bolonha dedicaram-se ao caso. Ouviram exaustivamente, e comparativamente, gravações da diva e chegaram a essa conclusão.
 A dermatomiositis vai enfraquecendo os músculos do corpo, sem excluir, evidentemente, os músculos comprometidos no acto de cantar. A maleita punha-lhe na pele uma cor vagamente azulada, deixava-lhe manchas vermelhas no lado direito do pescoço e marcas nas mãos. Tratamento: esteróides e anti-inflamatórios. Uma questão de dias, em todo o caso…
Disseram – como é costume dizer-se à falta de explicação para certas coisas – que os abaixamentos vocais da Callas e os sucessivos cancelamentos de actuações tinham causa psico-somática. Mas o testemunho (só em 2002) de um dos médicos que a tinha assistido, Mario Giacovazzi, colocou as coisas nos devidos pontos, depois de ter guardado reserva profissional por muitos anos. Aquilo era uma doença rara, que logo por um bambúrrio da pouca sorte fora bater a porta de um dos maiores fenómenos do mundo do espectáculo e da grande música dos tempos modernos.


(E tudo isto para nada dizer da magna e extravagante questão físio-musical que foi a época dos castrados dos séculos XVII e XVIII.)
Música e medicina.
Richard Wagner, no dia 19 de Janeiro de 1883, no Palácio Vendramin, em Veneza, declarou que meterem-lhe uma sonda no estômago era um atentado aos seus direitos pessoais. Uma questão de moral pessoal, sem dúvida. E uma questão de dias. Porque depois dessa declaração Wagner não chegou a durar um mês.

                                                     

         Tudo isto foram músicas, artistas, personalidades, e talvez medicinas, que pertenceram a um outro tempo, a um tempo de humanidades, a um tempo que ainda nos convidava, citando Goethe, a dizer ao momento que passava “pára, és belo”. Um tempo que nunca mais achará paralelo com um momento que nos é presente e nos será futuro, e obsessivo, de bancos, de banqueiros, de mercados, de taxas de juro, de contenção de custos, de maximização de lucros, de desemprego sistémico, de divertimento vazio, em completo desprestígio da cultura e das humanidades. Um momento que não apetece mandar parar porque ele é apenas muito prático e funcional, e não absolutamente belo.


Ainda assim, e falando de música, da grande música, e de medicina, apraz-me notar a magnífica afinidade entre ambas, dizendo: ai daquele que mais tarde ou mas cedo na sua vida, e seja o momento que for que passe, numa alegria enorme, numa aflição, numa depressão, numa exaltação, não tenha que recorrer aos efeitos de uma e de outra, da música, da medicina… porque todos, tarde ou cedo, uma questão de dias, teremos de vencer o medo, ou conviver com ele revertendo o tempo, redimindo o corpo e o espírito. Pela medicina. Mas também pela música.