terça-feira, 29 de janeiro de 2013


                          A JUSTA LUTA DO PATRONATO POR  MELHORES  
                                  CONDIÇÕES DE VIDA
                                                      (4)


Como poderá um Estado desvitalizado, desacreditado pelos comandantes da finança e tornado fraco, dinamizar meios de ajuda aos pobres? Cá está um ponto a favor da justa luta do patronato.

                                                      

Os pobres, os tesos, os assalariados, ah, esses que não esperem muitas legislações a seu favor. A-ca-bou-se!


A mentalidade (e a realidade, por assim dizer) terceiro-mundista dos povos, é um problema para os mercados. Mas também porque é que os recursos mineiros destes países são sempre explorados por companhias estrangeiras – que pagam as suas concessões de várias maneiras, é bem certo, mas que arrecadam para os respectivos países e patrões proveitos fabulosos? Justamente para darem uma contribuição para a luta do patronato contra os trabalhadores.
Os investimentos e os investidores estrangeiros – patronato -  se puderem escolher (e vão podendo com a graça de Deus) , preferem trabalhar com regimes o menos democráticos possível, senão de todo autoritários. Porquê? Ainda se pergunta? Porque são esses os que melhor sabem lidar com a ingratidão e a revolta dos trabalhadores, a bem ou a mal, e sem grandes remoques de consciência histórica, social ou moral.
Os produtos dos países sub-desenvolvidos… serão os próprios governos a fixar-lhes os preços? Claro que não. Os preços dos produtos dos países sub-desenvolvidos exportadores são fixados por instâncias externas.
Os valores morais, culturais e familiares dos países sub-desenvolvidos, por estas e por outras, são esmagados por quem tem muito de seu. Porque diabo é que as urbanizações nesses países são anárquicas? Porque é que aumenta o número de candidatos à vagabundagem e ao sem-abriguismo? Porque é que campeia a delinquência? Porque é que prolifera a prostituição, designadamente a infantil? Porque é que crescem os sentimentos  de revolta? Porque é que é brutal a repressão?
 A transposição de sistemas de ensino, de formas de entretenimento e  conceitos de cultura  vem no seguimento deste caldinho. Faz tudo parte do mesmo.
A transposição de sistemas e de usos vai criar aos países menos desenvolvidos uma sobrecarga de endividamento em materiais que os países ricos exportam para eles como sinónimos de progresso e de desenvolvimento. E aqui se incluem os armamentos e as bases militares.



Se existem guerras no mundo, deixemos-nos de fantasias, já não será tanto por razões políticas, territoriais, ou mesmo religiosas. Se essas guerras existem é porque há gente influente e poderosa que com toda a justiça precisa de alargar os seus mercados e escoar a sua produção de armas. E para vender as suas armas tem que inventar e incentivar trinta-e-uns e conflitos artificiais (ou esgravatar nas feridas naturais já existentes) de forma desencadear guerras, para as quais são precisas as armas que esse patronato, para sobreviver condignamente, tem de vender a bom preço.
Jean-François Revel, famoso entendido nestas coisas, disse : denunciar o endividamento da América Latina como catástrofe caída do céu é fazer vista grossa acerca do uso que os governos desses países fizeram das gigantescas somas que receberam.
É a globalização aquilo que constrange os estados a conceder prioridade mais alta à economia.
É devido à gula dos governos pelo investimento estrangeiro que a mundialização permite às empresas transferir actividades e custos com um mínimo de inconvenientes. Antes de abrirem uma fábrica em Quadrazais de Cima, o patronato internacional, como moralmente lhe compete. quer saber como é isso da legislação do trabalho em Quadrazais de Cima e como é aplicada.
Os governos, ao quererem atraír a Quadrazais de Cima novas indústrias e novos postos de trabalho, acordam concessões aos patrões de  uma unidade de produção da General Motors ou da Adidas, e para isso desregulam o trabalho, ou fazem-se desentendidos se esse patronato viola as leis existentes, ou pura e simplesmente não aplicam os proteccionismos laborais em vigor no país.
Dizem os entendidos que há um novo direito público a instituir-se, o qual não passará de um Direito Comercial privado, mas de amplitude mundial, reflectindo correlações de forças  e de interesses, interesses que, está bem de ver, não são os dos trabalhadores nem dos candidatos a um emprego. Era o que faltava.
Aquilo a que os mais veteranos de nós na vida estavam habituados, e que lhes pareceu sempre muito normal e muito lógico, foi que a economia e respectivas decisões se subordinassem à política, ao interesse do Estado; a economia era instrumento de uma política e não havia mais conversa. Parecia-nos lógico – mesmo que pudessemos não concordar com a política, e visto que para mudar de modelo económico a primeira coisa a fazer era mudar de política. Por isso havia, e há, apesar de tudo, patrões anti-fascistas e anti-comunistas.
Porém, hoje, as coisas viraram-se de pantanas e é a política que faz de pau mandado da economia. Daí a crise da antiga ideia de Estado – e até de soberania.
Daí que os patrões, muitos deles, os mais avançados de ideias, fossem anti-comunistas e anti-fascistas. Isso cheirava-lhes a intervenção do Estado na liberdade dos negócios – isso mesmo: a liberdade que hoje existe – extrema, total.
Porque se começou a dizer que a hegemonia da política sobre o económico era coisa própria de estados autoritários, de regimes de partido único – partido que era já parte do próprio aparelho de Estado. A Itália, a Alemanha, fascistas e nazis, o Portugal salazarista, a Espanha franquista, a União Soviética comunista: a economia era planificada pela política, segundo objectivos políticos e de Estado a atingir; o Estado intervinha e dizia o que se devia fabricar, vender, consumir. De uma maneira ou de outra, mal ou bem, a missão do Estado era evitar desequilíbrios e arritmias de crescimento e de produção, tendo em vista, repito, mal ou bem, de uma maneira ou de outra – louvável ou perversamente, conforme a ideia de cada um - , o bem comum, o interesse nacional e público.


Alguém se preocupava com a dignidade das condições de vida do patronato? Ninguém
A economia sufocava. Ou seja: o patronato acobardava-se e limitava-se a cumprir os ditames do governo; o patronato era, pelo menos teoricamente, fiscalizado pelos governos – veja-se lá se a Coca Cola entrou em Portugal no tempo de Salazar.
Patrões fiscalizados pelo governo em nome, aí é que está, do colectivo nacional, do interesse dos cidadãos. Pelo menos, repito, teoricamente, e segundo a concepção que cada regime tinha do papel do Estado e do que seriam os interesses do cidadão – os quais, já se vê, teriam de ser coincidentes com os do Estado, senão metia pides e gestapos e coisas assim.
As condições de vida de um patronato fiscalizado pelos estados autoritários, totalitários ou fascistas, ou estalinistas, fortes, repressivos, eram miseráveis, não deixando o patronato ganhar tanto e tão à barba longa como seria de justiça ganhar no caso de esses estados serem democráticos, ditos de direito e de livre iniciativa.
E a livre iniciativa seria a económica e mais nenhuma. A iniciativa que era universal e livre seria sem dúvida mais livre quanto mais dinheiro tivesse o patronato para investir e desenvolver negócios. O social? Bem… 
(Lá vêm as choraminguices com o Estado Providência, o Estado Social…)
O ponto nevrálgico da luta do patronato contra a exploração dos trabalhadores é que as ideias de confiança dos investidores e de Estado social ou de Estado Providência não se podem ver uma à outra.
Governo que queira conquistar ou manter o fogo sagrado da confiança dos investidores deve esquecer e depressa as políticas sociais e/ou culturais.
São coisas que mandam muita despesa e alguém, de uma forma ou de outra e mais dia menos dia, vai ter de as pagar; alguém, ou, por melhor dizer, todos, incluindo o patronato investidor. O que é o cúmulo da injustiça social.
 Políticas sociais e culturais de monta são facadas no lucro do patronato investidor. E quanto a cultura, toda a multinacional ou empresa global que se preze tem as suas verbas já destinadas para o mecenato – para calar a boca aos intelectuais, que não fazem nada que dê dinheiro mas que, se os deixarmos, chateiam muito e costumam ser os mais impiedosos e jurados inimigos do patronato.
A confiança do investidor será reforçada e muito mais efectiva a longo prazo se o Orçamento de Estado estiver sob apertado controle, sem os impostos baixarem – ou se não houver maneira de os iludir. Se estas simples coisas não acontecerem num pequeno país, o grande investidor estrangeiro vai investir para outra freguesia.
E por aqui se pode aferir dos graus de independência e soberania das nações no presente estado global da economia do mundo.
As políticas sociais devem ser reformadas, diz o patronato investidor quando está no limiar – ainda no limiar – da eventualidade de montar uma fábrica de água a ferver em Unhais da Serra. E a reforma das políticas sociais na boca dele, investidor, significa esquecê-las pouco a pouco e mui paulatinamente. Significa esquecer de vez a ideia de que o Estado ainda poderá valer eficazmente aos desvalidos. Significa abandonar a ideia de protecção social.
            Que protecção social fica para o patronato? Isso é que é moral, uns terem tudo e outros não terem nada? Nesta vida ou há moral, ou comem todos, sendo que, não há volta a dar-lhe, uns terão de comer mais do que outros.

                                                                                                

Um Estado com um sistema muito estruturado de protecções sociais faz desconfiar o patronato internacional, que pergunta logo a esse Estado, afinal como é?, amas mais os teus trabalhadores do que amas os meus capitais?


Os capitais do patronato internacional não se dão bem com os direitos dos trabalhadores, são incompatíveis, o gato e o rato, o diabo e a cruz. Os lucros do patronato mundial não suportam a ideia de ser, mesmo que infimamente, repartidos pela mão de obra do país em que vão ser aplicados, ou de onde vão ser esmifrados, em troca de nada, só porque sim, só porque há desempregados e doentes e desgraçados. O patronato chega a considerar os trabalhadores de certos países como privilegiados. E se formos a ver bem as coisas até são…
E para acabar com as ideias atrasadas de política de protecção social ao trabalho, a primeira bola a sair do saco é acabar de vez com o que o patronato mundial chama de rigidez dos mercados de trabalho. Flexibilidade, flexibilidade é que se precisa. E muita mobilidade na mão de obra.
Os trabalhadores ouvem a lenga-lenga e, ainda que a custo, começam a compreender. E às vezes até a concordar. Flexibilidade no mercado de trabalho igual a… trabalho nocturno, trabalho nem que seja ao fim de semana, horários móveis e irregulares, grande pressão sobre a produtividade. E aumento consequente dos sinais de stress.
O patronato é a única realidade que pode tornar possível todas as outras. 
É isso que muito injustamente não há meio de se lhe reconhecer.


Se há quem deva flexibilizar-se, então serão os trabalhadores. A mudança! A mudança! Mas essa mitologia da mudança serve para os hábitos e para os direitos adquiridos pelos trabalhadores. Não serve à lógica patronal. A  lógica patronal é una, e imutável. De tudo o que os trabalhadores têm conquistado com a sua tão cantada luta deverá ser feita tábua rasa, no caso de o país querer mesmo o investimento estrangeiro, se o país precisar como de pão para a boca de mostrar ao Banco Mundial e ao FMI índices razoáveis de crescimento económico, com os prémios e as benesses a serem-lhe acrescentadas lá mais para o futuro.
O patronato só trabalha com o presente e para o presente. Ninguém pode garantir a um patrão capitalista que haja futuro.
Estavamos nós aqui em Portugal na pasmaceira, na santa paz dos sepulcros, sem sabermos da missa que aí vinha a metade. E como síntese crítica da situação, até se dizia em França, nos tempos de De Gaulle, tu dás-me o teu relógio e eu digo-te as horas.
O trabalhador globalizado começa (até que enfim!) a habituar-se à ordem do mundo nesta entrada de novo milénio, começa a habituar-se a sair vencido das suas lutas. E como sabe que a derrota vai ser certa, porque tudo está coberto com o manto da democracia, já sabe que o melhor será nem lutar, porque se lutar ficará à margem, e hoje todos queremos ser integrados num qualquer sistema, numa ordem, seja como for e seja ela qual for. Ninguém, em democracia, quer ser apanhado em falso e apontado como um apocalíptico. E o patronato marca mais pontos na sua luta.
O trabalhador lê ou ouve o discurso dos políticos da sua confiança, os articulistas da sua preferência, os apresentadores de telejornais da sua simpatia, os amigos do café que lhe dizem que isto agora é assim em todó lado, e todos são unânimes no silêncio e no fingir que não estão a viver a sua vida no fio da navalha, e então tudo lhe parece natural, é assim por todó lado, correctíssimo, e… bom, não será por ele, trabalhador, que as coisas vão deixar de ser o que são e de seguir o seu curso. E o curso natural das coisas e da vida é responsabilidade do patronato.
Em democracia e em sociedade de mercado uma qualidade é obrigatória a todo o cidadão: não ser desmancha prazeres do festim da colectividade. Não ser apontado como um trouble maker. O patronato na sua luta conta com muitos cúmplices e cúmplices que podem muito.
Ser um marginal ao sistema de vida laboral e económica instalado no mundo dito livre é não alinhar com uma classe média intoxicada de informação e de desinformação e que com a garantia de alguns mínimos de protecção social já fica satisfeita.





Ser um marginal a este sistema é experimentar uma revolta mais profunda e estar ao lado daqueles a quem a precaridade de trabalho e de vida empurrou para a violência, violência que será brutal, justa  e friamente reprimida, não tenham dúvidas, por não levar em conta os legítimos interesses do patronato.
Pode ser interessante saber que, por exemplo, o Estado da Califórnia, paraíso americano para o exercício de todas as liberdades, aprovou recentemente um orçamento em que uma instituição foi mais beneficiada do que outras, incluindo universidades de renome mundial.
E qual foi a instituição privilegiada no bolo orçamental californiano, qual foi?
Foi a instituição prisional.
            O mínimo dos mínimos  da instituição minimal que se quer seja o Estado é reprimir os marginais, os inconformistas, os inadaptados, os apocalípticos. As despesas orçamentais com os organismos de polícia, por isto e por aquilo,  vem a aumentar em todo o mundo… livre!



Em economia de mercado, qual é a confiança que é mais compensador conquistar, a confiança do povo ou a confiança mercados? Uma pergunta que todos os governantes se põem. Ou se puseram noutros tempos. Uma interrogação histórica; ou uma demanda que já teve a sua História de ser feita, que já teve, para ser problemática, a sua oportunidade histórica. E que já não tem. Para um governante moderno não haverá que hesitar: o que é preciso conquistar já nem só em primeiro lugar, mas também em segundo, em terceiro e em quarto, é a confiança dos mercados.
O governo hábil na conquista da confiança dos mercados, perde a confiança dos povos. E depois? É preciso salvaguardar a confiança dos mercados (do patronato) seja a que preço for.
Mas que figura fará um governo perante a desconfiança empedernida dos seus governados?
Ora… é para o lado que ele se deita melhor…

                                                        

segunda-feira, 28 de janeiro de 2013


      

      A JUSTA LUTA DO PATRONATO POR  MELHORES   
                            CONDIÇÕES DE VIDA
                                                                     (3)



  
O quê? Eu aumentar o salário dos meus trabalhadores?
Se aumento os salários, o pessoal vai-me amolecer, vai-me trabalhar menos, vai exigir mais tempo para gastar o aumento, começa a pensar em coisas e em grandezas, vai baixar a qualidade da produtividade, porque o trabalhador vai estar a pensar no que vai poder comprar com o dinheiro do aumento. E além disso, já sei que vai fazer uma data de despesas inúteis, vai estafar o dinheiro todo enquanto o diabo esfrega um olho e vai adquirir vícios.  O melhor é aumentar o preço dos produtos de primeira necessidade. Assim já o trabalhador não fará despesas desnecessárias.
Uma reunião de ricos em Davos, na Suiça. Há um patrão multinaconal que declara:
- Quer seja um indivíduo isolado, uma nação ou uma empresa, o que importa mais para sobreviver neste mundo é ser mais competitivo do que o vizinho.

                                                                                                                                                      

A lei das sociedades humanas pode consubstanciar-se, em certas épocas, numa só palavra. Hoje, aqui, a esta hora, a palavra que em tons sacros dá forma a nosso planeta e à nossa vida é… competitividade.
Se a competitividade em si mesma já foi um meio para obter um desiderato, hoje em dia, cuidado, ela já é um fim em si mesma. Ela e o conceito cultural que exprime. É o objectivo de patrões em busca de melhoria de vida. Pode ser finalidade de Estado. É obrigação do indivíduo.
Absolutamente necessário é reformar os sistemas educativos das nações, todas elas, EUA, França, Inlaterra, Portugal, Chipre, Birmânia, Alemanha, Burkina Faso, Timor Leste, Rússia.
Mas reformar em que sentido?
No sentido de construir um Homem preparado para se integrar sem esforço e com alta rentabildade nos sistemas competitivos da sociedade em que vive. Lutar pelo seu bife seja à custa do que for e de quem for. É isto o desenvolvimento. Desenvolvimento, cultura, investigação: tudo concorre para o mesmo.
O princípio da competitividade contempla formulações guerreiras. Há uma guerra mundial. Está neste momento a decorrer. Essa guerra (sem contar com as guerras de tiros e sangue do oriente médio) é financeira e económica, antes de mais. Neste momento. Mas com componentes tecnológicas, industriais. Estão de facto todos contra todos, mas é preciso que ninguém se deixe matar. E também é bom que ninguém seja neutral. É absolutamente preciso sobreviver. E para sobreviver não há outro meio senão ser mais e mais competitivo. A opinião pública, saturada deste discurso, começa a acreditar que é mesmo verdade.
Competitividade é sistema de vida instalado no planeta inteiro desde o começo dos anos 80. Nada lhe escapa. É uma espécie de graça divina: ou se tem ou não se tem. Os que a têm são salvos (cá está a teologia). Os que não a têm, os que não são competitivos, estão condenados.
Os não competitivos desaparecerão em breve sufocados em fumos de enxofre, em pranto e ranger de dentes.
O vencedor leva tudo – the winner take it all. Uma máxima de catecismo existencial moderno, actualizado.
Leio num antigo número do Monde Diplomatique, que, por exemplo, no ténis, o 45º jogador do ranking  pode ser quase tão bom como um  dos primeiros. Mas nem que dispute a meia-final (um dos melhores, portanto) de um afamado torneio conseguirá um único contrato publicitário para uma marca de alpergatas. Vai tudo direitinho para o vencedor. Os patrões só se sentem quentinhos e a melhorar as suas condições de vida de braço dado com os vencedores, e tudo é posto à mão de semear do vencedor, alpergatas, raquetes, bolas, bonés, roupa de baixo, lingerie
As grandes empresas e os grandes grupos económicos de esfera de acção mundializada não tem o menor pejo de saquear o meio ambiente que pertence à comunidade nem de provocar com as suas actividades verdadeiros desastres ecológicos, desde que esses desastres contribuam para a melhoria das condições de vida do patronato degradadas pela democracia e pelas manias socialistas.
Também não se ralam muito com a criminalidade financeira que disparou por todo o belo mundo capitalista – hoje já não há, é verdade, praticamente outro mundo -, desde o momento em que tal seja proveitoso na reciclagem dos mais impuros dinheiros e contribua para o pãozinho de cada dia dos nossos patrões.
A concorrência mundial é o que domina e determina a quantidade e qualidade do trabalho e do salário. A lei do trabalho é a competitividade das empresas. Mais nenhuma. Se o patronato vence na competição, muito bem, há trabalho, o patronato melhora de vida; se o patronato acumular azares sobre azares, nada de excepcionalmente grave para o patronato, que procura logo outro lugar onde investir. Fecha-se a loja e acabou-se o trabalho. O patrão não pode empobrecer por causa disso e a vida continua.

                                                                                                

Seja qual for o aumento da produtividade do trabalho, os salários baixarão na proporção da quantidade disponível de trabalhadores candidatos a um emprego que vai rareando.
A abundância criada pela globalização das massas trabalhadoras acabará sempre em proveito do patronato anónimo.
Os níveis de rendimento e de riqueza marcam muito as diferenças e os antagonismos Norte/Sul. Mas deste conflito estão excluídos os grupos dirigentes do patronato. É claro. Os homens tem de se defender.
Os bens essenciais podem aumentar na ordem dos 30%, enquanto os salários podem subir qualquer  coisa como  7%.
Para quem trabalha aqui, em Portugal, há dois pesos e duas medidas. Uns vivem a pelintrice de não terem para mandar cantar um cego, enquanto outros, os quadros e administradores, alinham os seus rendimentos pela Europa rica, porque isso se inscreve nos imponderáveis da luta do patronato por melhores condições de vida.
Neste  país o custo de vida está ao nível de Paris, Londres, Bruxelas, Madrid  e o povinho ri alegremente julgando-se a vencer o patronato e  procurando imitar os seus patrões, mesmo comprando aos dolorosos bochechos os bens de luxo que os patrões ainda podem pagar a pronto.
Segundo o Banco Mundial, o fosso médio de rendimento por cabeça entre países ricos e países pobres era de 1 para 11 em 1870. Em 1960 esse fosso era de 1 para 38. E era de 1 para 52 nas contas de 1985.
A tendência – que aliás, podemos verificar no dia-a-dia do nosso quotidiano – é para o empobrecimento geral das classes médias trabalhadoras, e uma tendência que, segundo os estudos do Banco Mundial, se vai acentuar, e assim porque o patronato está finalmente a conseguir algumas significativas vitórias na sua justa e centenária luta contra os trabalhadores madraços.
Perceba-se que no quadro amplo da luta do patronato contra os trabalhadores, como é óbvio,  nada se faz em função dos trabalhadores; são os trabalhadores a serem obrigados a deixar o seu destino pessoal à mercê de uma abstracção altamente manipulável por quem pode: o mercado, a economia; economia mundializada, toda ela altos e baixos imprevisíveis e de durações limitadas.
Porque a verdade, meus amigos e irmãos, é que os nossos patrões são geniais, e ninguém poderá pôr cobro à competitividade. A competitividade nasce na negociata internacional, precede o crescimento, permite e comanda o emprego. Toda a regulamentação, toda a medida proteccionista estará em contravenção com a lei fundamental (a do mercado e da competitividade), e só a defesa dos legítimos interesses dos patrões  poderá, se for caso disso,  servir de pretexto para a infracção a essa lei suprema.
Países inteiros serão esmagados por esta lógica, com especial gravidade os do Sul, os do Sudoeste asiático e os da África sub-sahariana.
Aquilo são tudo regiões sem dinamismo nenhum e onde o patronato ainda sofre horrores…
E as transferências de centros de produção de grandes empresas para  o estrangeiro continuará a ser uma estratégia muito eficaz se se trata de aumentar as respectivas quotas de mercado num mundo competitivo, e bem assim de lhes minimizar os eventuais prejuízos.
O capital – isto é, o patronato – é mais móvel e dinâmico no desenvolvimento das suas justas lutas do que o trabalho. E quem é que tem a culpa disso? Querem ver que também é o patronato?
O patronato submete-se menos facilmente à pressão dos impostos, das necessidades, das mais duras realidades, do que o trabalho. Aproveita as migalhas que o àvaro destino lhe deixa. Por isso o patronato, na sua justa luta, pode mais facilmente castigar os trabalhadores do que o contrário, aumentando-lhes os impostos, minimizando-lhes os serviços sociais, reduzindo o investimento público nas áreas que a esses trabalhadores fazem mais jeito, a saúde, a velhice, a habitação, a educação…
Cada um  usa as armas que pode
O patronato é prudente. O mercado financeiro mundial está arranjado para fazer sobressair mais e mais as diferenças entre os que ganham e os que perdem.
E é claro que o desenvolvimento unicamente baseado nas leis da concorrência de mercado não é sistema que possa reduzir desigualdades de qualidade nenhuma, nem entre os sexos, nem entre os grupos étnicos, e muito menos entre os ricos e os pobres.

                                                                 

domingo, 27 de janeiro de 2013


       A JUSTA LUTA DO PATRONATO POR MELHORES
          CONDIÇÕES DE VIDA
                                                      (2)
Os estados autoritários pretensamente providenciavam as coisas em matéria laboral e económica. O social. Daí a figura do Estado Providência. Porque protegia os cidadãos do perigo de um patronato à solta, de um liberalismo sem regras. Porque protegia o emprego. Porque subsidiava os preços – sem deixar funcionar o mercado, intervindo sobre mercado, portanto. E porque o objectivo era político, e o objectivo político primeiro era assegurar a paz social. Isto teoricamente. Já se disse. Nem os trabalhadores podiam andar ao alto e ser sujeitos a regimes de trabalho intensivos. Nem os patrões podiam andar à rédea solta, a declarar falências por dá cá aquela palha, a despedir colectivamente quando lhes apetecesse. Em teoria, claro. E assim dito grosso modo.


Mas vem a II Guerra. Vem e vai. Ganham os aliados. Os aliados eram as democracias do Ocidente, onde o mercado era já então livre quanto o pudesse ser naquelas circunstâncias extremas, onde os patrões investiam no que lhes apetecia e onde, apesar de tudo, os trabalhadores eram protegidos por leis mais eficazes até, e mais civilmente democráticas, do que as dos estados autoritários. E por ser assim, muita gente acreditou na democracia. E ainda hoje, apesar de tudo, acredita. E ainda bem.
Depois das vitória dos Aliados na Guerra, estavam por outro lado
criadas as condições para a queda da preponderância da política no governo das nações e criadas as condições para o ascenso da economia.
Era preciso reconstruir os países devastados pela guerra, além do mais. Mas isso, sendo o princípio dele, marcava o fim do Estado Providência. Era preciso trabalhar-se muito e ganhar-se pouco, isto para os trabalhadores. Era preciso especular com os capitais para se ganhar o máximo – isto para os patrões.
Era a luta insana do patronato pelo seu pão de cada dia – até me chegam as lágrimas aos olhos.
E os governantes de alta estatura política, intelectual e moral foram desaparecendo. E o lugar deles foi sendo ocupado por gente de gerações novas que o económico tentava, porque se apresentava como ideia nova, modelo moderno de governo dos povos. O discurso económico passou a ser o discurso da vanguarda político-ideológica.
E a política passa a depender da economia, das prioridades económicas. E por conseguinte, da iniciativa do patronato. E desde logo, porquê? Por causa de um acto básico em democracia: as eleições.
Para ganhar eleições é preciso dinheiro. Muito dinheiro.
Para montar uma máquina partidária eficiente e atraír militantes é preciso dinheiro. Muito dinheiro.
E a actividade política em si mesma, pode gerar moral e pode gerar paixões, admito, mas não gera dinheiro. É preciso ir buscar o dinheiro onde o há para manter vitoriosa uma máquina eleitoral partidária.
O mais dinheiro que haja para uma campanha eleitoral, o mais certo se tem a vitória.
O que faz um partido com uma vitória eleitoral? Para que lhe serve? Para ter uma maioria parlamentar e para formar governo. O que faz esse governo? Pela ordem naturalíssima das coisas, tenderá a cumular de atenções as pessoas e empresas que deram dinheiro ao partido que o apoia e lhe permitiu ganhar eleições. É humano.
As campanhas eleitorais, hoje por hoje, pouco passam de campanhas publicitárias de promoção de um produto. Vende-se ao eleitorado – ainda que não directamente a dinheiro – a imagem de um ou vários homens políticos.
Quanto custam os tempos de antena, a produção de spots, os outdoors, os hoteis, as caravanas que correm o país a levar a mensagem? E quem paga isso? As quotizações dos militantes? Nem por brincadeira.
Quem paga isso são empresas e empresários. É o patronato. E seja esse partido de direita ou de esquerda – esquerda relativa, bem entendido.
E será que os patrões na sua justa luta por melhores condições de vida ao entrar com milhares e milhares para a campanha eleitoral de um partido ou de um candidato andam a dormir na forma e vão dispender o seu rico dinheirinho com um homem ou uma organização que não lhes dê certas garantias e que mais tarde os venha a pôr em causa?


Os patrões, na sua justa luta por melhores condições de vida, quando pagam uma campanha eleitoral estão a fazer um investimento – que é político e que se transformará mais tarde em económico. E não é retintamente publicitário esse investimento porque nenhum partido se descai a dizer publicamente quais as empresas e os capitalistas que o financiaram, quais os mecenas que tornaram possível a sua  vitória.
O patronato paga a caríssima, milionária,  campanha eleitoral de um partido e faz um investimento a prazo. Quer ir buscar o capital empatado com juros.  Altos juros.
Fica então subentendido que os actos e o discurso do governo do partido  vencedor – ou mesmo os do perdedor, que passa a ser oposição – nunca poderão voltar-se contra os interesses de quem lhe financiou a campanha. E esses interesses não são certamente os dos trabalhadores. São certamente os do patronato. Na sua luta. Justa. Por melhores condições de vida. Também têm direito. E têm direito a gostar tanto de lagosta como os operários.
Por isso, o financiamento por parte do patronato de uma campanha eleitoral partidária é mais uma arma na luta desse mesmo patronato contra… contra quem? Contra os seus concorrentes no mercado, é verdade. E também contra os trabalhadores, a sua maior dor de cabeça.
Os futuros actos do governo beneficiarão preferencialmente aqueles que o pagam e só por acidente ou por uma questão de salvaguardar as aparências, beneficiarão aquela entidade que é o inimigo natural dos interesses daqueles que pagam campanhas eleitorais.

Isto assim, simplista, e bruto parece… parece isso mesmo… parece aquilo que realmente é, simplista. Por mais edulcorados que sejam os discursos, a realidade é simples, não anda muito longe disto. Anda até muito perto.
Basta perguntar porque é que os partidos comunistas, com  todo o poder mobilizador que tiveram, nunca, em democracia, ganharam eleições? É óbvio. Porque nenhum capitalista digno desse nome, nenhum patrão honrado,  vai armar-se em parvo e financiar um partido comunista, um partido que jura a pés juntos defender até à morte os interesses dos trabalhadores.

Claro que os partidos comunistas – ou de esquerda marxizóide – podem, em democracia aberta, defender quanto quiserem os trabalhadores. Simplesmente, essa defesa não passará do nível do discurso.
(E também resta saber se os partidos comunistas quando tiveram todo o revolucionário e absoluto poder nalguns países defenderam na realidade assim tão acirradamemte os reais interesses dos trabalhadores quanto o fazem moralmente nas democracias onde não têm assento nos postos de decisão.)

Mas enfim, o Estado tem que deixar de perseguir o interesse colectivo, até pela simplória razão de que deixou de haver interesse colectivo. Todo o homem competitivo é um ser individual que por sua conta e risco trata da sua própria prosperidade.  E se o Estado quer ser um factor de competitividade tem que ignorar todos os que não querem ou não podem ser competitivos. E o interesse colectivo passou a ser o interesse do colectivo das grandes empresas à escala mundial, dos grandes patrões em busca de melhores condições de trabalho e de vida.
Pois é. Também eu pergunto o mesmo. Como é que ainda há políticos que têm a distinta lata de, muito acaloradamente e sem rir, nos vir falar de democracia?
Mas creiam que é pela razão de o Estado estar a mudar de natureza que os governos e as oposições apresentam crescentemente ao nosso voto políticos de uma extracção intelectual pouco menos que básica. É por estarem assim as coisas ao nível do Estado que os debates eleitorais e parlamentares têm o rasteiro nível que hoje têm. Tudo em prol da justa luta do patronato…
Os governos nacionais, só para obter investimento estrangeiro, estão capazes de vender a alma a todos os demónios que lhes aparecerem e não se coíbem de arriscar a destruição do tecido social dos seus países.
E nas tintas se as reduções drásticas de verbas afectadas ao bem comum criem mais profundas clivagens sociais, renovem as trágicas situações individuais de desemprego ou alarguem as franjas nacionais da pobreza. É tudo para o bem. É tudo em prol da justa luta do patronato contra os trabalhadores.
E porque, vamos lá com Deus, se não houvesse patronato saudável, bem vestido, bem calçado e bem alimentado não seriam precisos trabalhadores para andarem ó tio ó tio, ai que não tenho dinheiro para me vestir, nem para me calçar, nem para me alimentar.
Podia-se viver num mundo sem o patronato em luta contra os trabalhadores? Poder podia.  Mas não era a mesma coisa…






     A JUSTA LUTA DO PATRONATO POR MELHORES
          CONDIÇÕES DE VIDA
                                  (1)



Sempre muito se falou na justa luta dos desgraçados, dos operários, dos camponeses, dos empregados, dos proletários, em suma. Ninguém fala, nem dá vivas, à luta insana e secular do patronato contra os trabalhadores.  Porque o patronato, depois de séculos e séculos de luta sem quartel , ainda não se conseguiu ver livre dos trabalhadores.
- Portanto, o senhor paga o queijo…
- Pago o queijo? Mas qual queijo? Eu não comi queijo.
- Se não comeu foi porque não quis, o queijo estava na mesa.
- Mas então eu vou ter que pagar um queijo que não comi?
- Se não comeu foi porque não quis, o queijo estava na mesa, portanto tem que o pagar.
E o mundo está mais ou menos assim… assim, como esta história de queijo…
A fabulosa queda do muro de Berlim, tão entusiasticamente saudada pelo mundo e pela juventude -  diria mais, pelos trabalhadores, os tais proletários de todo o mundo que pouco se chegaram a unir -  foi o primeiro passo moral dado na cavalgada do patronato para o o poder  e a discricionaridade totais.
A queda do Muro queria também dizer que estavam por terra todas as ilusões. A queda do Muro foi o desencanto global quanto ao socialismo como sistema de vida mais justo.  E esse sistema salvífico –mas que afinal parece que proporcionava um salvação falsificada -  compreendia a estatização da economia, a centralização, a planificação que ordenava que os bens produzidos pela colectividade eram propriedade da totalidade dos cidadãos, que os bens, muitos ou poucos que houvesse, eram para distribuir por todos conforme as suas necessidades. E foram aos milhões os que acreditaram e deram a vida para que esta esperança nobre e grandiosa sorrisse aos homens.
A queda do Muro autenticou, a impossiblidade de uma utopia. Ninguém queria mais aqueles princípios.
Alguém pode ter dito que distribuindo tudo por todos, ficavam  todos pobres na mesma.
E todos queriam ser ricos.


A partir da queda do Muro tudo passava a ser permitido. E foi. E está a ser. E que cada um se salvasse como pudesse.



E pensar que houve um tempo  em que muitos de nós acreditavam que o socialismo era um sistema viável e vantajoso que poderia assegurar o bem estar material e até, pasme-se, a liberdade.
Quem acredita hoje nisso?
Mas também houve no passado tempos em que muita gente acreditava que o capitalismo privado e a economia de mercado eram sistemas imperfeitos de vida colectiva, económica; um sistema, além do mais, humana e socialmente injusto que não garantia o bem estar geral e empanava as liberdades.
 E hoje? Quem acredita também nesta?
Hoje dificilmente se arranja quem não ache o capitalismo privado e a economia de mercado o sistema único e o único eficiente para assegurar essas duas premissas básicas, o bem estar colectivo e a liberdade. Foi isto que pensou uma das cabeças mais importantes da economia contemporânea, Milton Friedman.
Foi o mercado a fé que veio ocupar o sentimento e a moral das massas que se confrontaram com a queda em fanicos do seu ideal de toda a vida. Afinal, o que era bom era o contrário de tudo aquilo em que haviam acreditado uma vida inteira.
O que era preciso eram reformas. Não revoluções.
O Consenso de Washington. Os países pobres poderiam tornar-se ricos. Como?
Disciplina fiscal. Taxas de câmbio competitivas. Liberalização dos comércios. Investimento – se possível estrangeiro. Privatizações. Desregulamentações.  Ai daquele que duvidasse da eficácia da mézinha e pensasse em resistir a estas ordenações superiores e abstractas.
Em Washington chega-se a um consenso para uma nova moral orçamental – ou seja, uma disciplina férrea nas contas estatais, ou seja, uma redução rigorosa das despesas públicas; ou seja, a liberalização absoluta das trocas comerciais, das regras dos mercados financeiros e da passagem das instituições criadas para servir o bem geral e público para as mãos de particulares; ou seja, uma reforma da fiscalidade. A nova ordem económico-financeira, vai, em termos filosóficos, criar um pensamento universal único.
O Consenso de Washington marcou as fronteiras: uma coisa é a economia do desenvolvimento; outra coisa é a economia ortodoxa.
Naquele dia 15 de Agosto de 1971 muita coisa vai começar no mundo e na vida das nações e dos homens, muitas transformações. Richard Nixon, então na presidência, proclama urbi et orbi  que os EUA acabam de suspender a convertibilidade do dólar em ouro.
É o fim de um sistema de vida monetária que começara no imediato pós-guerra. O capitalismo vai ser outro. Vai reformular-se a liberdade de manobra monetária, vai desregulamentar-se o mundo financeiro, a liberalização vai, enfim, alastrar, invadir as nações, as casas e as famílias.
Ajustamento estrutural!, gritou Washington aos países em vias de desenvolvimento. Toca a desmantelar as estruturas proteccionistas da economia – sobretudo as economias fortemente endividadas. Toca a reduzir os défices orçamentais e comerciais. É preciso saber, e depressinha, que empresas privatizar.
 As reformas liberais, dizem,  resultaram nalguns países e foram positivas e estabilizaram os preços e deram algum crescimento às economias. Os hospitais de alguns desses países é que começavam a sentir a falta de medicamentos. E as bolsas, primeiro eufóricas, também se começaram a tornar perigosas.
A década de 90 foi uma época de crises económicas e financeiras. Já ninguém se lembra?  Crises e retomas. Valorizações e desvalorizações. Nomeadamente entre 1994 e 1999. Crises que atravessaram fronteiras nacionais. Crises que perturbaram  os sistemas financeiros de alguns países, causaram falências, anularam os ganhos económicos anteriores feitos à custa de duras reformas e a provocar conflitos sociais.
À entrada do milénio já se ouviam  vozes preocupadas com a viabilidade das democracias nos países que se sujeitaram às reformas liberais. Irónico, não?
Fundo Monetário Internacional e Banco Mundial serão os novos tribunais de um universo financeiro sem leis. Através deles, o modelo liberal de vida económica vai ser imposto à Ásia, à América Latina. E à Europa. Se não for a bem vai a mal. Se o capital investe milhões nessas regiões do mundo, resulta justo e moral que as queira configurar aos seus interesses. E mais do que isso, à sua maneira de viver a vida e apreciar as coisas.
A missão principal do FMI passa a ser a da abertura dos mercados nacionais, na escala do planeta, ao investimento e à apropriação dos bens humanos e naturais por parte dos países mais ricos, sem a mínima restrição à circulação das mercadorias, dos serviços e dos fundos. É a mundialização liberal.
O repertório de ajustamentos estruturais do FMI, receita de equilíbrio das contas dos estados mais depauperados, não é muito variado. Consta no essencial de: desvalorização da moeda nacional, se a houver; restrições severas nos orçamentos de Estado; despedimentos maciços; subida das taxas de juro; controle apertado dos salários; crédito restrito; corte de subsídios; aumento de tarifas nos bens de interesse e necessidade geral, água, electricidade, transportes; reforço de exportações; privatização de empresas públicas. O velho e conservador liberalismo, herança de um velho mundo com velhas regras e antiquíssima moral, vai passar a chamar-se neo-liberalismo. Vai ser agressivo. Vai varrer tudo à sua frente. Até os fossilizados mundos e as inteligentes e salvíficas ideologias que ficam do outro lado da Cortina de Ferro.
O neo-liberalismo vai ser tão militante que até lhe vão poder chamar neo-totalitarismo de fôlego global.
O primeiro valor moral, até então indiscutível, a caír ferido de morte é a capacidade de intervenção económica do Estado. E depois, a desregulamentação da economia mundial. E por consequência, a progressiva aniquilação da influência dos sindicatos – que só fazem sentido com uma economia e com uma relação de trabalho assente em claras regras de convivência com o capital, claro está. Mas se o capital abandona as regras, fatalmente que o trabalho se desmoraliza. Ou se amoraliza. O que conta é o dinheiro, a capacidade económica. Os sindicatos eram uma reserva moral de compensação de forças antagónicas. Mas quando unilateralmente uma dessas forças deita fora as suas regras de convivência, a outra esbraceja no escuro da selva. E perde-se.
Estado? Mas qual estado! A ordem será doravante o privado, a privatização. Tudo deve ter um proprietário. Todo o homem precisa de um patrão objectivo e concreto para cujo interesse está condenado a trabalhar, que é como quem diz que todo o escravo não o é se não tiver um dono.
O destino da instituição Estado é ser um Estado mínimo, uma regressão ao minimal. E esta regressão ao minimal limita-lhe a acção ao mínimo, é evidente.
Os estados perderam toda a força de se oporem aos mercados, ao mercado. Perderam a vontade de o fazer, antes de mais. E também deram de mão aos meios para tal. Limitaram-se a consagrar as directivas de política económica – e da outra, claro está, por consequência – que lhes são ditadas pelos organismos económicos à escala mundial.
Por isso os políticos favoreceram nas últimas décadas a liberdade de circulação de capitais, a voga das privatizações e a transferência de centros de decisão – mesmo no tocante à saúde pública, à educação, ao ambiente e à cultura – da esfera governamental e do interesse do público nacional em geral para as mãos do capital privado e internacionalizado.
São os dirigentes das empresas privadas e de raio de acção mundial que comandam a economia das democracias através da imposição das medidas  políticas convenientes.