terça-feira, 3 de dezembro de 2013

     QUOTIDIANO E MORTE NO PALÁCIO                                VENDRAMIN




Quando Wagner chega a Veneza, em Abril de 1882, tem quase setenta anos. Está velho e cansado. Vem com a  mulher, Cosima, e com os filhos, os dele e os dela.

                
                                                                  
Vai para o Palácio Contarini delle Figure e depois para o Hotel de l’Europe. Por isto ou por aquilo não se sente bem em nenhum deles e acaba por se instalar no Palácio Vendramin-Calergi, sobre o Grande Canal – sempre sobre o Grande Canal. Aluga um andar inteiro. Isto em Setembro desse ano de 1882.

A casa é decorada ao gosto de Wagner. Damascos. Brocados. Antiguidades. Panos de seda de cores vivas. Sugestões orientais. Perfumes intensos. Gosta de se rodear de decorações que lhe lembrem cenários de teatro. Mas também gosta de evocar o ambiente da residência de Wahnfried. E se não está em Wahnfried não é por mais nada senão por causa dos rigores do clima.
O palácio Vendramin-Calergi é hoje o casino de Veneza. Mas dizem-me que é possível ao turista lá ir e recolher-se uns momentos no quarto onde Wagner morreu, enquanto à sua volta se joga a roleta ou o baccarat
Assim como poderá alugar um quarto no Londra Palace Hotel, na Riva degli Schiavoni, onde Tchaikovski compôs a sua 4ª sinfonia.
      Bom, ser-me-ia possível quando estive em Veneza ir e entrar e recolher-me entre jogadores no Palácio Vendramin Calergi se não fosse Natal e o palácio-casino não estivesse fechado ao público.
Fui de volta. Por terra firme. Aqueles antigos nobres venezianos preocuparam-se principalmente com as fachadas dos seus palácios. E mais ainda com as fachadas que deitavam para o Grande Canal. Daí a magnificência, a bebedeira estética que é a subida do dito Grande Canal, fachadas de uma plástica de cortar a respiração (passe a vulgaridade), sem sabermos para onde virar os olhos – isso em comparação com a relativa modéstia das entradas dos palácios por terra firme.
No Vendramin, como disse, fechado por ser Natal, fui de volta. As trazeiras do majestoso palácio Vendramin-Calergi dão para uma ruela sem graça. A porta sim, é relativamente sumptuosa, pintada de um negro brilhante e a lápide a celebrar o mestre é imponente.
Em Veneza naquele ano de 1882, Cosima mantinha fielmente o seu diário. E foi por ele que ousei entrar no quotidiano e na intimidade veneziana da família Wagner e saber que Wagner vai ao barbeiro, estranhamente, a um domingo.


Deitara-se tarde, falara muito de Buda, mas dormira bem. Depois do jantar desse domingo, 24 de Setembro, rebenta sobre Veneza um temporal.
Vão ao padeiro. Wagner tem-se queixado do pão. Não era bastante estaladiço para o gosto dele.
E todos os dias, ao fim da tarde, a família Wagner está caída no café Lavena e dá uma volta pela Praça de S.Marcos. Às vezes apenas se sentam nos bancos de pedra entre as colunas do portal da basílica. Os cruzados  - os templários? - teriam seguramente pisado aquele mesmo chão. Wagner pensa nisso. E diz sentir-se sempre mais alegre quando a mulher está com ele.
Cosima anota no diário a felicidade daqueles dias em Veneza, passados junto do marido, sem dúvidas nem sombras entre eles. Sente-se indigna de tanta felicidade. Gostaria de reprimir em si o acto de respirar… para que ele e só ele domine… - ele, o marido. E bendiz a potência divina que lhe concedeu tão magnífico destino.
Visitando igrejas, vendo pintura, andando de gôndola, apreciando o desenho dos palácios, Wagner exclama no dia 30 de Setembro: é belo viver-se perto destas coisas. Tem-se uma contínua sensação de miragem.
Às vezes, o mestre transgride no seu regime alimentar e não resiste à cerveja.
- Sobre esta a terra todas as culpas se pagam – está ele a dizer à mulher. - Se bebes cerveja sofrerás as consequências.
Na livraria encomenda Walter Scott.
Compra queijos numa loja do Rialto.


Irrita-se com a ausência, a certas horas, de alguém da casa.
- Nós homens, nunca conseguiremos adaptar-nos a uma imagem da Eternidade – diz à mulher.
Visita igrejas, palácios. Vai a Murano, a Torcello, a Modena. Ao Palácio Loredan. Passa horas esquecidas a ver pintura na Accademia. Vai ver a Virgem Negra da Igreja de S. Jorge dos Gregos. 


Ouve, numa gôndola que passa pelo Canal, um motivo verdiano cantado em dueto. Canta-o em casa e ri, ri do ritmo sincopado da melodia, reconhecendo a naturalidade e espontaneidade da linha melódica verdiana. Cosima nota que não obstante a banalidade dessas melodias era forçoso reconhecer-lhes um efeito extraordinário e a perfeita consonância delas com aquele ar,com aquele céu.


Vão ao Jardim Público e ouvem o Lohengrin –  nesta época já não tocado por uma banda militar austríaca, porque os austríacos já se foram embora de Itália.


No Arsenal insiste na contemplação dos leões. 

       
       E experimenta sempre grande prazer quando se detém sobre a ponte de  Rialto, reflectindo que cidade alguma poderá alguma vez competir com Veneza.  
- Quantas histórias, quantos acontecimentos nos poderia contar cada um destes palácios?


Vão comer gelados a S.Marcos. Recebem. O conde Gobineau visita o palácio Vendramin no dia 22 de Outubro de 1882. É um dos primeiros teóricos do racismo, ou do anti-semitismo. Wagner estimava-o e admirava-o muito, mas tinha algumas dificuldades com a língua francesa, achava-a atrozmente dura.
Recebe a carta de um dinamarquês a pedir conselhos: quer deixar tudo para se dedicar à música. Wagner fala-lhe dos aspectos negativos, e até perigosos, da música, a música pode ser uma forma de ócio - e pode. Digo eu. Conheço casos.
As reflexões acerca do budismo continuam a acompanhar Wagner. Só um estudo aprofundado do budismo, segundo ele, nos capacitaria para conhecer efectivamente o Cristianismo e compreender porquê a renúncia pode ser a mais alta e heróica das forças humanas. Buda tem, para Wagner, a grande qualidade de não se ter pronunciado a respeito da orígem e da finalidade das coisas.
Buda não aceitava os doentes nem os estropiados. E Wagner concorda, por cruel que pudesse parecer tal posição, porque ela encerrava um profundo significado, uma imensa sabedoria. O sentido da atitude tem que ver com a vontade de reprimir o desejo. Não podiam ser aceites aqueles a quem a doença tirara todo o estímulo para desejar.
O budismo significava para Wagner toda a força juvenil do intelecto humano. Separar-se do que se ama; viver com o que se odeia – o sentido budista do sofrimento da espécie.
Todas as manhãs Cosima regista obrigatoriamente no diário como foi a noite do marido, se dormiu bem, se dormiu mal, quantas vezes se levantou, se adormeceu depressa e em paz, se fechou os olhos agitado, se acordou bem disposto. Diga-se que na maior parte das vezes Wagner acordava irritado.
Nos começos de Outubro de 1882 já ele se queixa de intensas e espasmódicas dores no peito. O scirocco deixava-o muito em baixo. Continuava a pensar que aos animais fora recusada a faculdade de superar a dor, o dom da resignação e da profunda calma que dela deriva, porque essa superação da dor e essa resignação nunca pode visar, nos animais, um fim superior.
 E quanto ao Homem? O Homem pode recolher a existência falhada do animal, pode reconhecer o erro que é a própria existência, e por esse reconhecimento chegar ao poder de redimir o mundo – tudo isto, afirmava, era musicalmente dito no 3º acto de Parsifal, ao nascer do sol de Sexta-Feira Santa.
Os serões no palácio Vendramin-Calergi quando habitado pelos Wagner, sem televisão, sem rádio, calcula-se como seriam. Wagner hospedou nessa temporada vários músicos, o pianista e compositor Anton Rubinstein, entre eles – não confundir com Arthur Rubinstein, que morreu velho mas não tanto.

A certa altura da estadia chegará o sogro, o grande Franz Liszt. 


Havia um piano na casa. Havia livros, os clássicos, de que os membros da família liam trechos uns para os outros. E acho eu que não devia ser tão enfadonho assim ter, ao piano, aos serões, Liszt e Wagner – Wagner que também cantava, e bem, dizem, e com excelente voz, talvez de tenor, tenor wagneriano, deduz-se.
Wagner pode uma noite dirigir Rubinstein, que toca ao piano a Heróica de Beethoven.
Cosima pode ler trechos das Afinidades Electivas, de Goethe.
Wagner pode ler, em voz alta e comovida, passagens de Wilhelm Meister, comentando a extravagância do estilo goethiano.
Noutra noite, Wagner pode cantar com uma das filhas o dueto de Walter e Eva dos Mestres Cantores, depois de Rubinstein ter tocado ao piano a abertura.
Tudo isto aconteceu mesmo. Nas noites de 14 e 15 de Outubro de 1882, uma 5ª e uma 6ª feiras.


Leituras: do D. Carlos de Schiller;  da História de Veneza, dedicadas aos filhos; de Júlio Verne. Leitura dramatizada, e comovida do Romeu e Julieta. Wagner vai às lágrimas com a cena de Pórcia do Mercador de Veneza.
Siegfried, o filho, que já sabe remar uma gôndola, pergunta ao pai o que quer dizer a palavra cólica.
Execuções inúmeras da música de Beethoven, seguidas de meditações. 
E as partidas de whist, quase obrigatórias nos serões do palácio Vendramin-Calergi. E as discussões sobre o Renascimento: a arte não foi concebida para ser inovadora.
Um raio abate-se sobre a Giudecca no sábado, 28 de Outubro, e cai sobre Veneza uma chuva quente.

Não se pode pintar Cristo. Mas pode apresentar-se Cristo por música. Wagner dizia ter renunciado à figura de Cristo numa ópera sua e por isso criara Parsifal. Seria impensável, terrível, um tenor a representar o papel de Cristo.
       Wagner alarga-se sobre a inutilidade dos conservatórios.
- Aquilo que uma pessoa não aprende sozinha não aprenderá por certo num lugar desses.
Wagner aumenta de uma para cinco as doses prescritas das pílulas que o médico lhe receitou para os espasmos e não dispensa a sua gota de ópio. Com o agravamento das dores irá submeter-se a um tratamento de massagens.
Delicia-se com o canto dos gondoleiros e profetiza o próximo e incontestado domínio do mundo pelos EUA.
Cosima é muito precisa e expressiva a anotar os sonhos, os seus e os do marido. Um sonho de Wagner: ela, Cosima, abandonara-o e ele segue-a, apanhando um comboio, gritando-lhe pelo nome.
Wagner tem frequentes acessos de cólera. Embirra com tudo. Embirra com todos. Constantes mal-estares, inquietações, ansiedades. Irrita-se muito porque o professor de música do filho lhe deu como exercício uma melodia da Lucia, de Donizetti. 
Critica o primeiro casamento de Cosima com Hans von Büllow, o maestro. 
Queixa-se de nunca nada lhe ter sido dado directamente pela natureza, de ter obtido sempre alguma coisa deixada por outros. Critica ainda Cosima por fazer muita sociabilidade em Veneza – enquanto ele quase não se dá com ninguém. Critica a Cosima a galantaria que herdara do pai. Encoleriza-se contra contra o mau tempo, contra o demasiado aquecimento do palácio, contra os criados, contra os filhos, contra a vida.
Na noite de 7 de Novembro Wagner sonhou que chorava e dizia à mulher: eu sei que te queres livrar de mim, que te queres ir embora. E depois de contar esse sonho admitira que a imaginação ocupava um lugar excessivo no seu sofrimento.
Considera Auber superior a Berlioz. Considera Berlioz competente e inteligente mas artificioso.
Cosima sonha que o marido lhe diz:  se Deus me criou, quem lho terá ordenado? Se eu sou feito à sua imagem, põe-se a questão de saber se isso me dá alguma satisfação.
A obsessão dos judeus. Como fora possível os judeus terem tanta importância no mundo, mesmo admitindo entre eles algumas estirpes persistentes e inteligentes?
Uma momentânea decadência só provava a grandeza de uma cultura. A tragédia grega teve vida curta. Idem para a espanhola de Calderon.
- Vejam que até Shakespeare foi esquecido depressa e é agora mais apreciado do que no seu tempo.
Projecta a representação de todas as suas óperas em Bayreuth e pensa colocar o filho, Siegfried, à testa dessa empresa familiar.
- Mas sim, claro, daqui a dez anos, com vinte e três, Fidi estará em boa idade de mostrar o que vale, não achas ? – pergunta à mulher.
Mas lamenta-se de ter prejudicado com a sua fama a vida e a carreira futuras do filho.


No dia 19 de Novembro, ao cair da noite, Franz Liszt chega ao palácio Vendramin para passar o Natal com a filha e o genro.
Desembarcado da aparatosa gôndola, Liszt é recebido na escadaria nobre do palácio com todas as lâmpadas de gás acesas – tinham pensado em recebê-lo à luz de archotes, mas não fora possível.
Liszt chega cansado, todavia um pouco melhor do que se poderia esperar. Não há grande conversação entre eles. Há alguma cerimónia. Aliás, Wagner passará a embirrar também com o velho sogro e a criticá-lo por tudo e por nada. Liszt, à época, estaria de longos e lisos cabelos brancos a escorrerem-lhe pelos ombros, devia ter uma aparência de santidade. Devia irritar o genro até por isso.
Escorregando sobre as águas em gôndola nocturna, Wagner e Cosima discorrem sobre o quanto o amor deles foi fácil e o quanto, ao invés, a união deles foi difícil. Cosima diz ter vivido uma vida cheia de maravilhosas experiências e garante poder morrer nessa mesma noite, 23 de Novembro de 1882, com a sensação de ter vivido plenamente a vida.
Liszt vai ocupar outra dependência do palácio e, como era de regra, ele e o casal, apesar de tomarem as refeições juntos, fazem-se visitas quase formais. Mas há um mal estar sempre latente entre Wagner e o sogro, apesar de terem sido, noutros tempos, grandes amigos.
           

Wagner não vê com bons olhos as visitas que a mulher e o sogro fazem à sociedade veneziana - à princesa Hatzfeldt, por exemplo. Wagner irrita-se com Liszt por este estar sempre, depois do jantar, concentrado nas cartas do whist e não lhe prestar a devida atenção. E diz mal das últimas obras dele, chama-lhes loucura em estado de germinação.


A ironia e a crítica a Liszt são cortantes e constantes. Mas Wagner não lhas faz directa e pessoalmente. Desabafa com Cosima. E se Cosima lhe pede para as dizer directamente ao pai, Wagner replica que seria demasiado cruel para ele. Mas nos momentos de boa disposição arrepende-se das más palavras que dedica ao sogro. E acontece, ao jantar, referir-se na frente de Liszt à sua escandalosa fuga com a filha, Cosima, e Cosima não pode compreender aquela atitude ostensiva do marido.
Serões. Leituras de Tolstoi (Guerra e Paz). Wagner toca a sua música ao piano. Cosima lê ao marido os sonetos de Miguel Angelo.
Liszt, amargamente irónico, comenta que o mundo nunca mais dirá dele que é o melhor, a não ser a jogar whist. E também se lamenta de ser sempre nessa fase considerado apenas como pianista. 
Discute-se o guarda-roupa da personagem de Kundry, no Parsifal. O rei Ludwig quer ver Parsifal  representado em Munique.
As despesas com a luxuosa estadia no palácio Vendramin são elevadíssimas e alarmam Cosima. Fala nisso ao marido. Wagner não quer saber de economias.
E Liszt cai à cama em Dezembro. Wagner zanga-se com Cosima por causa de Liszt. Wagner acusa a mulher de ter a mania de ser a virtude personificada. Cosima argumenta em lágrimas que nunca na vida se sentiu superior a ninguém.
Vem a saber-se do precário estado de saúde de Hans von Büllow (que dera uma queda no banho) e Cosima sofre de acentuados sentimentos de culpa para com o ex-marido -  que um dia traiu e abandonou para ir viver com Wagner. Cosima vê, em sonhos e acordada, o ex-marido, triste e só, internado num hospício às portas da morte.
O Natal está aí.
Liszt recompõe-se dos achaques.
Ao jantar, Wagner diz que uma mulher viúva deve ter um negócio e viver com os filhos. Se assim não for, deve ir para um convento. E voltando-se para Liszt diz:
- E os viúvos também!
 Depois, ao deitar, Cosima repreende uma vez mais o marido pelos modos dele para com o pai. Recorda-lhe que Liszt está adoentado e muito cansado e que não tem uma consciência muito lúcida do que se passa à sua volta. Wagner dá-lhe só meia razão.
Wagner começa a ensaiar com a orquestra do La Fenice a sua velha e esquecida sinfonia em Do maior. Aquela sinfonia fora composta cinquenta anos antes em intenção de sua mãe. E diz aos músicos:
- Estejam à vontade comigo, meus senhores… se preferem tocar alguma coisa de novo, de realmente novo, escolham uma sinfonia de Beethoven ou de Haydn.

Os ensaios correm muito bem, independentemente do cansaço e dos espasmos dolorosos que não largam Wagner. Mas sente-se bem a ensaiar. Vendo bem as coisas, não faz mais do que praticar a sua verdadeira profissão: dirigir orquestras.
A noite de Natal de 1882 coincide com o aniversário de Cosima e é passada pela família no Teatro La Fenice.


Wagner dirige a sua sinfonia. Muita festa, amigos, aplausos, cumprimentos. Em seguida, uma festa privada nos salões do teatro, oferecida pelos músicos em homenagem a Cosima. Brindes à filha de Liszt. Wagner fala ao ouvido do sogro:
- Estás a ver… a tua filha… anh? Que tal? Gostas da tua filha? Então, se gostas da tua filha senta-te ao piano e toca para eles.


Liszt aceita gostosamente a sugestão. A noite vai longa e brilham estrelas quando descem a escadaria do teatro e se metem nas gôndolas de regresso a casa.


O novo ano entrou menos mal no palácio Vendramin. Depois de um dos seus acessos de mau feitio, Wagner conclui que, com ele, as pessoas têm a obrigação de ser cautelosas e indulgentes. Os espasmos no peito são cada vez mais intensos.
No carnaval de 1883, Cosima divertiu-se com os cortejos de máscaras e calculou em 20.000 os mascarados a cirandar pela Praça de S.Marcos.


                                                          

Após um concerto na Alemanha, em Meysenburg, com o Parsifal, o empresário Förster declara no banquete que se seguiu a esse concerto que Wagner não teria muito tempo de vida.
- O homem que criou uma obra como Parsifal não deve poder viver muito mais tempo.


Na 5ª feira, 13 de Fevereiro de 1883, premonitoriamente, ao acordar, Wagner cantarolou a frase do Comendador a D. Giovanni: Don Giovanni, tu m’invitasti a cenna, rematando para a mulher, e referindo-se às dores:
- Hoje tenho que ter cuidado.
Também lhe confessa que todas as mulheres da sua vida lhe apareciam constantemente em sonhos e lhe desfilavam em silêncio diante dos olhos. O inverno parece-lhe eterno.
Nesse dia 13 de Fevereiro de 1883, quando todos se preparam para almoçar, o criado, Giorgio, aparece. O Mestre ainda não descera porque não se sentia bem.
Cosima vai ao quarto ver o marido. Regressa: Richard teve um dos seus habituais espasmos. Quer estar sozinho.
- Mas vamos almoçando, meus queridos.

A família e o amigo pintor russo Jukovski, que está de visita, vão começar a almoçar.
Pouco depois, a campainha toca duas vezes com muita força. A criada Betty, pálida, aparece. Era preciso mandar um criado chamar o medico.
Às três da tarde entra no palácio o Dr. Keppler. Vai ao quarto do doente. Regressa minutos depois. Não havia nada a fazer. Dirige-se aos filhos:
- O senhor vosso pai está morto.
Cosima vela o corpo do marido durante 25 horas seguidas. Pede que lhe cortem os longos cabelos. Não quer receber ninguém.
O anúncio da morte de Wagner corre depressa pelo mundo. O rei Ludwig exige que as honras fúnebres sejam feitas em Munique. 


O féretro abandona o palácio Vendramin pela escadaria que deita para o Grande Canal. A gôndola coberta de crepes e palmas transporta a urna até à estação de caminho de ferro. Estava um maravilhoso sol de primavera.
                    

Dois meses depois da morte de Wagner a Tetralogia do Anel do Nibelungo foi levada à cena integralmente, e pela primeira vez em Itália, em alemão, no Teatro La Fenice.


No Grande Canal, defronte do palácio Vendramin, realizou-se um grande concerto com obras do mestre, a orquestra num barco, os coros noutro barco, os solistas chegando em gôndolas


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