sábado, 3 de outubro de 2015


          O VOTO INÚTIL


Reflectimos por 24 horas, não compreendemos porque é que eles apelam tão encarniçadamente ao voto, e tornamos a cair no mesmo, sem percebermos que pela nossa presença de quatro em quatro anos antes do almoço numa assembleia de eleitoral estamos a embarcar na ficção democrática que se vive.
 
 
Cairmos no mesmo é sermos recidivos na inesgotável mania de facilitarmos a vida a quem tem por verdadeira missão dificultar a nossa.
          
                                                              
 
Se eles tanto apelam a nosso voto é porque o nosso voto é de facto útil. Para eles.
O meu voto é útil? Útil a quem? Que fazem eles, quaisquer que eles sejam, do meu voto útil?
 
 
O meu voto é muitíssimo útil, isso sim, aos sujeitos que se sentam num hemiciclo e por unanimidade votam o aumento substancial do seu próprio salário e correlativas alcavalas e mordomias. E enquanto aumentam o salário deles, votam de forma a que o meu salário seja, de uma maneira ou de outra, reduzido.
 
                                                             
 
O meu voto é útil aos sujeitos que ganhando eleições em que o meu voto foi útil dão início à gostosa tarefa de distribuir pelos deles, pela família deles, empregos chorudamente pagos. Enquanto o meu próprio emprego, pelo voto deles no hemiciclo, passou a estar constantemente em perigo.
 
 
O meu voto é útil para os sujeitos que passada uma dúzia (ou menos) de anos sentados num hemiciclo têm direito a uma boa quantidade de subsídios de reintegração na vida, na vida real. Ao mesmo tempo que o meu subsídio, se tenho a infelicidade de cair no desemprego, vai minguando até ser eliminado.
 
                                                                    
 
O meu voto é útil para os sujeitos que passada a tal dúzia (ou menos) de anos sentados num hemiciclo se reformam e por se reformarem têm direito a confortável pensão. Enquanto eu, que passei quarenta anos a dar o litro e a oferecer mais-valias ao meu patrão (seja ele qual for), se quiser reformar-me, terei de andar mais um, mais dois, mais três anos a vergar a mola – para me irem escortanhando aos poucos a modesta reforma a que tiver direito.
 
 
O meu voto é útil aos que votam no hemiciclo para aumentar os impostos sobre o meu trabalho e o meu reduzido consumo.
O meu voto é útil aos partidos que recebem fartos subsídios por eu votar neles, e que se por obra e graça do meu voto ascenderem ao poder absoluto me diminuem os subsídios a que eu tiver direito.



                                                                  
 
O meu voto é útil aos que votam no hemiciclo a diminuição progressiva da minha qualidade de vida e melhoram significativamente a vida deles.
O meu voto é útil aos que me condicionam ou dificultam o acesso à saúde.
 
                          

                                                             
O meu voto é útil aos banqueiros e aos CEO indicados pelas respectivas famílias partidárias, a quem se minimizam sempre as culpas pela incompetência, ou a quem se podem perdoar as falcatruas. Enquanto eu sou sistematicamente escrutinado nas minhas competências profissionais e castigado ao mais pequeno deslize inobservante de uma qualquer lei.
 
                                                                      

 
O meu voto é útil aos que me fazem pagar e não bufar os erros políticos, os esbanjamentos, as megalomanias  e as arbitrariedades deles.
 
 
Porque a mim e aos meus insignificantes interesses o meu voto não serve para nada. É inútil.
 

 
Demagogia a minha? Sem dúvida. Sou um simples. E a simplicidade é demagógica.
E que outra atitude se pode esperar de mim enquanto as coisas continuarem a ser aquilo que são?
 
                                                 
 
Demagogikós – preponderância dos interesses do povo, esse povo que pela servidão de um voto de quatro em quatro anos se julga a viver a democracia e melhor não faz do que perpetuar o bem-estar dos seus senhores. Esse povo que desgraçadamente unido ou desunido será sempre vencido, enquanto as coisas continuarem a ser aquilo que são.

 

 

4 comentários:

  1. E que propõe como alternativa a este estado de coisas?

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  2. Não é a política que faz o político virar ladrão.
    É o nosso voto que faz o ladrão virar político.

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