terça-feira, 25 de agosto de 2020


          
         MORAL NACIONAL E DEPENDÊNCIA INFANTIL

 

Será que o indesmentível pendor narcísico-exibicionista compulsivo do nosso presidente da República pode configurar alguma distorção psico-patológica? A ser assim, como homem superiormente inteligente que é, o nosso presidente já há muito se deve ter apercebido desse transtorno. Será que já andou (anda) nalgum psicoterapeuta? Ou, optimista empedernido, está feliz e contente com essa sua compulsão narciso-exibicionista e a vê como mais valia admirável posta ao serviço do sempre depauperado moral nacional?



O moral nacional?

Pois regressei ao livro de que falei no post anterior. Estudos Psicanalíticos da Personalidade, do Prof. Fairbairn.



Porque razão haverá soldados que vacilam e se vão abaixo por completo se metidos em situações de perigo e outros não? Será que o sangue frio e a coragem de enfrentar e aguentar os momentos perigosos é variável com o grau de ultrapassagem que um militar conseguiu da sua fase de dependência infantil?

Há, sempre houve, e talvez ainda haja, apesar de tantas mudanças tecnológicas, três tipos de militar: o que gosta da tropa – e eventualmente da guerra – e mais de todas as coisas desagradáveis, incómodas ou perigosas que lhe vão a ela, tropa, por inerência; o que não gosta da tropa mas que, pronto, vá lá, o que é que se há-de fazer?, ainda pode aguentar; e o que tropa nem vê-la nem tolerá-la seja como for, nem com com molho de tomate.



Aquele que, não gostando propriamente da vida militar, ainda a pode tolerar é talvez o tipo mais comum – reparo agora no meu caso pessoal e percebo que foi nesse número que me inscrevi na minha época militar. Também fui o tipo que não gosta de fardas nem de brutezas, mas que, compelido e sem muita alternativa a juntar-me às fileiras em tempo de guerra colonial, é menino para suportar o embrechado, inclusivé em estados de guerra, aquele fulano que com jeitinho e algum êxito conseguiu vencer a inibição de um estádio de dependência infantil na sua vida.

O que não gosta da tropa e que nem por um decreto lhe passa pela cabeça aturar os mil sacrifícios precisos para minimamente a suportar e tem suores frios logo que pensa em fardas, casernas, botas, galões, cheiros corporais, disciplinas, superiores, continências, sacrifícios, marchas, armas, perigo… ah, esse poderá considerar-se do tipo neurótico que no seu desenvolvimento emocional estacionou num certo ponto e psicologicamente ainda não se libertou dos aconchegos da infância.



E depois há os que gostam da tropa, inclusive da guerra, os que se pode dizer que amam mesmo os estados de guerra – e conheci de perto uns quantos, entre profissionais e milicianos, oficiais de carreira e soldados rasos. Nesses, seriam de contar uma boa porção de heróis psicopatas sem tirar nem pôr. Foram esses que terminantemente recusaram a sua dependência infantil; ou os que, pelo menos no palco da sua vida, representaram melhor a recusa da dependência infantil, ao ponto de conseguirem apagar da estrutura das suas personalidades a sensibilidade, a simpatia humana, a compaixão. Ou mesmo o medo, não sei.

Soldado que gosta da guerra? Enfim, lá porque gosta dela não quer dizer que esse soldado tenha toda a estaleca para a suportar. Recusou as mariquices da dependência infantil, está muito bem, mas em alguns casos essa recusa não passou de uma pseudo-recusa, e no acto de demonstrar cabalmente ao mundo que não é um mariquinhas nem um sentimental reage aos estímulos da guerra com exagero, mata e esfola que se farta, e por vezes até ao ponto de se deixar caír sob a alçada disciplinar. E cá para mim será mesmo no número desses que haveremos de encontrar alguns criminosos de guerra.



Identificação. O indivíduo pode identificar-se emocionalmente de modo muito profundo com aqueles de quem depende. Identificação que remete para o estado psicológico da dependência infantil, já se vê.



O processo de identificação às relações emocionais da infância poderá representar a continuidade na vida extra-uterina de uma atitude emocional existente ainda antes do nascimento. Poderá representar uma tentativa de recuperação de um estado primordial de segurança e estabilidade, estado esse violentamente interrompido pela dolorosa experiência de nascer.

Nascimento. O nosso nascimento é uma primeira experiência de alta ansiedade. É também a nossa primeira experiência de separação.



No nascimento deve estar o núcleo inaugural de todo o sentimento de ansiedade de separação que a vida nos proporciona. O que não quer dizer que haja em nós lembranças conscientes do traumatismo que foi para nós o nascer. Será uma experiência a um nível mental muito profundo, reactivável sob certas condições de vida e de circunstância, e verificável nalguns fenómenos psicopatológicos.

O sonho de caminhar por uma passagem subterrânea que vai ficando estreitinha, estreitinha, até que o sonhador, incapaz de se mexer, acorda em estado agudo de ansiedade. O sonho de cair de um andar alto, que dizem normal nos soldados vítimas de neurose de guerra. Experiências traumáticas que remontam ao traumatismo primeiro de ter nascido. Dizem os sábios.



Na identificação com aqueles de quem dependemos, a figura primeira, original e indiscutível, é, sem dúvida, a mãe. O pai vem depois. E venham as figuras que vierem subsequentemente na nossa vida, a identificação original persiste e sobreleva todas as identificações posteriores. Mas quanto mais maduros nos vamos tornando menos o fenómeno da identificação se manifesta em nós.



Todo o ser incapaz de ultrapassar o estádio da dependência infantil sentirá muito altas dificuldades em estabelecer relações com os outros numa base de independência mútua. E até talvez, pela vida adiante, tenha dificuldade em estabelecer novas relações.

O dependente infantil, se assim lhe posso chamar - e que muitos de nós, todos nós, somos em grau variável – sente-se como parte dos seres identificados, figuras parentais ou não; e sente por consequência que esses seres são parte de si próprio. Na ausência deles, o dependente infantil tende a afrouxar a evidência do seu próprio ser e personalidade, omite-se nos contactos com o mundo, está incompleto, a sua inteireza de personalidade fica diminuída.



Em caso de um militar é patente a dificuldade de obter bases psicológicas de identificação e relações normais com o grupo, com a consequente recusa do espírito de corpo, fundamental à instituição e ao serviço militares. O dependente infantil, ou o militar paciente de neurose de guerra será sempre um diferenciado relativamente ao seu pelotão, à sua companhia. A sua identificação primeira com a casa e com as figuras parentais não suporta facilmente competidores.



Mas soldados há que conseguem surpreendentes identificações com o seu corpo de exército. E essa identificação é tão forte que eles se tornam extremamente activos e competentes. Estão absorvidos pela instituição. Exibem exageradamente o seu zelo. Querem ir a todas. Estão hiper disponíveis para o serviço. Querem estar na primeira linha de qualquer missão. São altamente disciplinados e intolerantes na relação com os outros e não encaram bem tudo o que no serviço seja rotina. Sonham com aventura, risco.


Isto é identificação total com o grupo. E esses esperam ver premiados a sua dedicação, competência e arrojo. E impacientam-se muito se tal não acontece com a presteza que entendem adequada. E se o reconhecimento e o prémio do seu mérito não lhes chegam no tempo justo sentem-se rejeitados pelo grupo, rejeitados afinal na sua desesperada tentativa de identificação e de independentização das tutelas mentais da casa e da família. É um problema levado dos diabos…

         Sente-se a rejeição evidentemente como uma recusa de aceitação por parte do grupo e de tudo o que esses soldados exemplares deram de si ao grupo, e, nessas condições, eis que começam também eles a desenvolver uma ansiedade de separação, e separação justamente daquilo a que se sentem mais chegados na sua actual fase de corte com o estádio de dependência infantil.



Não acontecerá também assim na nossa vida civil e burguesa, no  nosso clube, no nosso partido, no nosso trabalho, na nossa empresa?

Oh, sim, na empresa!



O inevitável Freud entra em acção. Já cá faltava.

Psicologia Colectiva e Análise do Eu – obra de 1921 que não recebe, à época, a atenção devida das autoridades médicas.

Freud pôe a tónica na quebra exactamente do esprit de corps - espírito de corpo: essencial nas relações militares.

         Dizem que há um estado de pânico associado à derrota iminente de um exército em campanha. Nas ânsias de uma derrota militar instala-se o espírito do “cada um por si e os outros que se lixem”. O espírito de corpo desintegra-se. Mas Freud interpretou inversamente. É quando o espírito de corpo falece que o pânico individual e a situação do cada um por si acontecem, e não o contrário, como era vulgar pensar-se. Ao sentirem a quebra do espírito de corpo, os indivíduos experimentam uma espécie de orfandade, deixaram de ser membros do grupo, estão a perder as referências identificativas. É o isolamento do Homem. É o pânico nas almas. E pode não acontecer só nos estados de guerra ou nas instituições militares, acho eu.



No soldado neurótico dá-se uma ansiedade de separação até quando os laços que unem o grupo estão intactos e fortes, porque esses laços entre o soldado neurótico e o grupo são precários. O soldado neurótico consumou um grau alto de dependência infantil e tão identificado se manteve com os seus objectos originais de amor no grupo familiar que nunca foi muito competente a contraír relações emocionais com a instituição militar.



E é nesta complicada relação de forças anímicas e psíquicas que assenta o moral. O moral das tropas, como o moral dos grupos de trabalho, ou até o moral de uma nação – em favor do qual o nosso presidente tenta capitalizar o seu exibicionismo televisivo.

A maturidade emocional parece que nunca é um absoluto. É uma questão de grau. A dependência infantil nunca está completamente ausente da nossa vida. O que é é que varia de pessoa para pessoa, e no nível de tensão sem experiência de ansiedade que cada pessoa pode suportar em condições de separação dos entes queridos. E, avaliado em si mesmo, todo o grau de dependência infantil do indivíduo pode ser nocivo ao moral. O das tropas. O das empresas. O das nações.

A existência de uma elevada motivação, ou seja, de um alto grau de moral num grupo, pode, por outro lado, neutralizar os efeitos da dependência infantil entre os membros desse grupo.

A incidência das neuroses de guerra era um critério aferidor do moral das tropas. E se transpusermos a questão para a nossa vida quotidiana de país – e nem será preciso forçar muito os raciocínios – verificaremos o nosso moral nacional na razão da corrida às consultas de neuro-psiquiatria nos nossos hospitais públicos e às crescentes necessidades de acompanhamento psicológico dos nossos cidadãos.



E quando uma nação conta com um exército de civis recrutados, o moral desse exército é inseparável do estado do moral de um país – quem viveu em idade adulta no Portugal de 1962 a 1974 pode tirar as parecenças.



A falta de espírito público e a hipotética baixa do moral nacional podem traduzir-se na relutância do indivíduo em sacrificar-se pelo interesse do grupo a que pertence, pelo grupo nacional que é a sua pátria, decorrendo daí as atitudes burguesas, o privilégio dos interesses exclusivamente pessoais, familiares ou corporativos sobre as exigências do bem comum.

Aliás, percebe-se uma decadência do moral nacional que pode ser acompanhada de um regressivo ressurgimento da dependência infantil da comunidade – e veja-se, de caminho e com atenção, o grau de infantilização que nos é proposto pelas televisões, o grau de infantilização a que o obsessivo consumo de televisão nos faz regredir noite após noite. E perante isto perceba-se a que nível de mobilização de vontades e de esforço geral nacional pode um governo, qualquer governo, aspirar. E é para acudir a tal que em registo de auto-propaganda tenta o nosso presidente lançar mão da sua compulsão exibicionista e narciso-televisiva.



Porque o culto do moral nacional é sempre um factor decisivo a usar pelos estados totalitários. Rússia, Itália, Alemanha, por exemplo, antes do eclodir da II Guerra – antes e durante, claro -, um moral nacional que lhes permitiu prosseguir uma guerra devastadora.


O caudilhismo. Veja-se o tom exaltado e patriótico do franquismo na sua guerra civil. Ou mesmo do salazarismo – que nem precisou do narciso-exibicionismo que o provinciano presidente do conselho nem tinha.


Honra, Dever, Serviço, Sacrifício: uma divisa chegava, se bem me lembro, a dos tempos da velha Mocidade Portuguesa, a que muitos, ainda assim, se devotaram com toda a convicção.



Sob regimes totalitários cultiva-se objectivamente no espírito de cidadania um princípio de dependência do Estado. Dependência do Estado que pode funcionar como substituição da tal dependência infantil dos objectos familiares mais amados. Ou seja, pode explorar-se a natural dependência infantil presente no indivíduo a favor dos interesses do grupo nacional e em prol do moral da comunidade. E se ocorrerem êxitos político-militares estão todos de cavalinho e tudo é ouro sobre azul – como seria hoje ver a massa dos turistas ingleses esfalfados a correr para o Algarve. O êxito faz disparar sentimentos de plenitude, graça, contentamento, segurança pessoal e colectiva. O pior é se, e quando, em vez do êxito acontece o fracasso e os turistas ingleses não há meio de aparecerem - afinal, parece que estão a começar a aparecer.



Em caso de fracasso nacional, na política e/ou na guerra, o que dá é um forte sentimento de desilusão quanto à capacidade do Estado e dos dirigentes nacionais, o que levará fatalmente a uma inflexão dos impulsos originais de dependência infantil do indivíduo, do cidadão, que os transfere do Estado e do interesse nacional para os originais objectos familiares, em face da ocorrência de agudos sintomas de ansiedade de separação e de fragorosa derrocada do moral nacional. Isto em regimes totalitários.



Ou talvez não só em regimes totalitários se atendermos aos 50% de abstenção a cada acto eleitoral na nossa democracia – e noutras…



Mas também é verdade que nas democracias o indivíduo está menos dependente do Estado. Em democracia, o cidadão experimentará em toda a liberdade de consciência os sentimentos primordiais da dependência infantil e de apego aos objectos do seu amor familiar, a par com uma necessidade e uma oportunidade melhoradas de segurança pessoal.

Em democracia, o que pode acontecer é uma tendência individualística para se ser complacente à vista dos resultados objectivos da performance do grupo, seja, do país. O que pode constituir, a prazo, uma realidade negativa, porque cultivada à sombra das aparências de um moral nacional psicologicamente falseado.



A ansiedade de separação pode caracterizar-se por um decréscimo do sentido do dever, o que significa a desintegração da estrutura mental de uma consciência libertada da autoridade do Super Eu, na regressão ao estádio infantil de desenvolvimento individual em que a estrutura da consciência ainda não se organizou em estabilidade. Nesse caso, o indivíduo, regredindo ao estado emocional da criança, ainda dificilmente aceitará os pais como figuras autoritárias da sua consciência e não se preocupará muito se o seu comportamento é moralmente bom ou mau à vista dos pais. Estará então muito mais interessado em saber se os pais o amam ou não, se os pais lhe aparecem como boas ou más figuras a interiorizar.



Remata o Dr. Fairbairn com a sua convicção de que, do ponto de vista militar como do ponto de vista nacional, os problemas postos por aquilo a que se chama de neurose não são temas da área da psicoterapia.

Diz ele que são mais questões de moral.

 

 

 

 

 


 

1 comentário:

  1. Faz pensar e muito este seu, como sempre, excelente texto sobre um assunto tão complexo e pertinente. Mas não será esta dependência da infância um objecto de manipulação consciente das massas usado por tudo o que nos rodeia e, como tal, pelo próprio presidente. Às vezes até parece que estamos no país de OZ (sem o charme deste entenda-se).

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