terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

             SÍMBOLOS




Depois das "coisas" da última publicação, os símbolos delas, delas coisas. Há muito quem diga que as sabedorias ancestrais do Homem o têm acompanhado ao longo das idades sob formas crípticas, sinais a que a memória foi dando tratamentos, foi deformando, até à perda dos significados de orígem. Quem perseverou na consideração do valor dos símbolos enquanto mensagem  desbravou o futuro, por saber que uma forma de penetrar as linguagens essenciais do Homem é proceder à decifração dos símbolos.


Se as palavras são símbolos, conhecimento haverá na memória humana impossível de reduzir ao som de uma palavra que o vento leva consigo, podendo todavia consubstanciar-se de modo mais efémero até num gesto, e mais ainda numa imagem de compreensão imediata ou restrita, alcançável quer por maiorias ignaras como por minorias esclarecidas.
Segundo se diz, os Templários, entre outras coisas, foram mestres de simbologia. Eram uma minoria iluminada pela boa decifração dos símbolos – por falar mal e depressa. Há quem diga que só por esse virtuosismo simbolista se mantiveram independentes dos poderes temporais, não perdendo jamais de vista objectivos de conhecimento humano vedados ao vulgo analfabeto. Um conhecimento tido por benéfico ou  maléfico no andar dos séculos, segundo os circunstancialismos históricos e as conveniências e os interesses dos poderes políticos.
O que são as garatujas que indicam os sons que formam as palavras que constituem as línguas? Sinais. Símbolos. Letras são sinais que organizam os símbolos; ou as palavras são símbolos que remetem para coisas; ou as palavras são sinais que remetem para sentidos ora literais ora simbólicos. 

E o espírito tem a faculdade combinatória que cria as noções, as associações, sons com palavras, palavras com coisas, coisas com a realidade, a visível e a abstracta. Concepções complexas, ninguém duvide.

O que é a matemática senão uma teoria de símbolos mais do que uma teoria de coisas?

Símbolos. Sinais. Sinal de mais, de menos, de vezes, a dividir. Sinais arbitrários. Com interpretação fixa e sempre combinável com outros sinais em convenções universalmente aceites, exactamente como as notas de música, que até tempos de duração simbolizam.
Podíamos ate definir, como Boyle, os sinais literais x, y, que podem representar coisas, segundo as nossas concepções. Ou distinguir sinais operacionais como o mais e o menos, que representam operações do espírito no sentido de uma combinatória das coisas atinente a novas concepções dessas mesmas coisas, englobando os mesmos elementos. E depois o sinal de igual. O sinal de uma identidade. E devidamente combinados a gerar as formas conhecidas da linguagem.
E se fossemos por aqui fora neste sentido nunca mais daqui saíamos.


Mas para sermos verdadeiramente, e academicamente, rigorosos, teríamos de distinguir entre símbolos e sinais. Há sinais no comportamento animal. Domesticados, os animais respondem a sinais, os sinais enviados pelo dono. No entanto, daí ao entendimento do elemento simbólico, e retintamente humano, que é a fala, vai certa diferença.
Os símbolos não são redutíveis a simples sinais. Se o sinal é uma componente do mundo físico, o símbolo decorre do mundo do sentido, ou do significado.
O conhecimento. O conhecimento humano é um conhecimento simbólico, porque o intelecto bastante se alimenta de imagens. Se o símbolo não integra o mundo físico através de uma realidade de existência, assume por outro lado a força de um significado. É o dilema posto entre a realidade e a possibilidade.
A dimensão da realidade alterada pela criação de um sistema simbólico deu ao Homem uma faculdade suplementar no concerto dos outros animais, excluindo os limites da vida orgânica.
Há quem diga até que existe um simbolismo natural. Quer dizer, que os símbolos não são exclusiva invenção humana, que a natureza mesma tem os seus símbolos de uma transcendente realidade, sobrenatural realidade, porque toda a coisa que se manifesta constitui-se como símbolo de um patamar superior de realidade, e toca aos fenómenos ditos naturais representar fisicamente princípios superiores.
Os maçons, decerto descendentes dos Templários, são mestres simbolistas. A simbologia alquímica, ou maçónica, da transformação do chumbo em ouro, pode significar um programa político de transformação, ou transfiguração, do povo, até estar preparado para receber a coroa do poder que orna as cabeças régias – ou, num sentido republicano e democrático, até estar preparado para exercer a soberania que sempre lhe fora usurpada pelas cabeças coroadas.
Tempo houve em que se quis significar por esta simbologia alquímica do chumbo transformado em ouro como a profecia de uma queda do poder régio e a utópica subida ao poder e à soberania dos estados de um povo doravante liberto, emancipado de qualquer tutela política ou religiosa.
Aquilo a que os esotéricos chamam de iniciação é, pode dizer-se, e sobretudo, um estudo dos símbolos. Isto porque, dizem, o sagrado é sempre secreto e incomunicável a não ser pelo símbolo que para o profano não-iniciado não significa nada de especial.
O nosso grande Fernando, na sua Poesia Mágica, Profética e Espiritual estabeleceu relações apertadas entre o oculto e os símbolos. Eu próprio me inclino a acreditar, dizia ele, que por detrás dos símbolos, e ainda mais nos símbolos da Obra, jaz um grande mistério cristão. A consumação da maçonaria, de qualquer modo que seja compreendida, é a perfeita Ashlar, ou Pedra Cúbica, e a Pedra Cúbica, se desdobrada, ou revelada, desenrola-se na cruz do calvário. Ou mais ainda: o sentir dos símbolos, sentir que os símbolos têm vida, ou alma – que os símbolos são gente. Mais tarde virá a interpretação, mas sem esse sentimento a interpretação não vem.


Nem sei se valeria mesmo a pena falar do poder, ou de quanto ele contém de simbólico. O poder é uma condição desprovida de qualquer valor de uso. Já não se podendo dizer o mesmo quanto ao seu valor de troca.

  


O poder pode ser trocado por qualquer coisa realmente valiosa para o uso colectivo. A obediência. Por exemplo. O poder, além de tudo o mais, como factor de troca, simboliza um valor. Um grande valor, visto que  é um símbolo que vale por aquilo que permite obter.
Se o fundamento do poder, em última análise, repousa sobre a prerrogativa de uso da força física, concreta, o direito a utilizá-la não é, visto linearmente, um atributo do poder. O poder sustenta-se sobre fundamentos que são eles mesmos símbolos da força física e capazes de a substituir.
O poder enquanto símbolo aparece-nos, bem vistas as coisas, muito aparentado com a moeda, com um sistema monetário que assentava no fundamento do ouro como padrão de troca.

          

Num sistema simbólico de poder avantaja-se uma ameaça de força. Sendo um elemento dissuasor eficaz, o símbolo do poder, generalizado sob a força de sub-símbolos, alcançará mais longe e pode ser, deve ser, um instrumento de mobilização dos recursos para uma eficácia colectiva. O poder é um intermediário simbólico, e, desde que reconhecidos os seus símbolos, legítimo.

                                  



E quando sou eu a falar de símbolos, já se sabe que não me refiro apenas às alturas do místico, do intelectualizado, do espiritual, falo também das coisas terra-a-terra, como o Audi  topo de gama do meu vizinho de cima, o seu saco de tacos de golfe, os seus fatos Armani, Hugo Boss, Rosa & Teixeira, coisas, e sinais, e símbolos; coisas com as quais ele simboliza a superioridade do seu estatuto perante a vizinhança, os amigos, os colegas, o mundo inteiro por sua vez simbolizado na população do meu bairro, na freguesia do bar onde ele pára, ou do local onde ele trabalha. Qual é o estatuto dele? Isso já é mais complicado. Mas também neste caso profano, que importa a essência, ou a verdade, se tão visível e agressivo é o símbolo?

Dos símbolos psicanalíticos nem é bom falar. Nem seria bom falar dos objectos que, segundo os psicanalistas, representam nos nossos sonhos o nosso pai e a nossa mãe. Isso e mais as sobrecargas afectivas que infiltram algumas palavras e que se relacionam com certas coisas.

Segundo Henri Lefébvre, o símbolo é causa e razão, age de modo directo, produz bloqueios da consciência. O simbolismo pode tornar-se mórbido, seja pela censura que lhe corta circuitos comunicacionais, seja pelo esforço de o transmitir. 

Por mim, gosto das simbólicas do Jung. Os arquétipos, os misteriosos símbolos colectivos, imemoriais, presentes na consciência humana, nascidos na obscuridade mais profunda dessa consciência. Disse assim o Jung: como deveriamos explicar os processos religiosos, cuja natureza é essencialmente simbólica? Sob forma abstracta, os símbolos são ideias religiosas, ou ritos, ou cerimónias, sob forma de acção.

Os símbolos são o nosso inconsciente.Talvez. Representação de recalcamentos. Um tubarão que simboliza uma vagina dentada, que por sua vez simboliza uma mãe castradora. Brrr!

Dizem os esotéricos que sempre que o Homem teve alguma coisa de muito profundo a comunicar o transmitiu por meio de símbolos. E que os símbolos trazem consigo a ideia metafísica, reavivam as almas, esclarecem os corações.


Em todo o caso, o símbolo não há-de significar o mesmo para todas as pessoas. Depende dos contextos. Espaciais, temporais, memoriais. Quer dizer, históricos. Como diz o tão popular Dan Brown, um capuz branco pontiagudo do Ku Klux Klan é símbolo que transmite sentimentos de ódio, de intolerância e de violência racista – na América. Mas o mesmo capuz branco (ou rôxo) e pontiagudo usado numa procissão de Sevilha significa piedade e profissão de fé religiosa.


                                                                                 

Como também o mesmo Dan Brown, esteiado em leituras outras, sustentará que a disposição dos discípulos à mesa da Última Ceia de Leonardo é uma mensagem cifrada, simbólica.

E a propósito, o perigo dos simbolistas mais empedernidos é quererem ver símbolos disto e daquilo onde não os há. Há simbolistas fanáticos nos casais modernos. Especialmente nas mulheres. Se reparam na mais leve marca de baton na camisa do marido concluem rapidamente que ele tem uma amante. Na maior parte dos casos é verdade. Mas também pode não ser. 

Durkheim, o sociólogo, entendia que uma consciência colectiva não podia ficar sobranceira às consciências individuais. Estaria ao alcance de toda a gente, realizada em coisas, emblemas, fórmulas, totens – símbolos, em suma. Diz ele: um trapo velho pode aureolar-se de santidade, um pedaço de papel sem importância pode tornar-se precioso. Isso mesmo, o que essas coisas simbolizassem subalternizar-lhes-ia a realidade, ou o que elas eram em si mesmas – se é que, digo eu, há alguma coisa que o seja apenas em si mesma.

Os objectos simbólicos são-no porque contêm não uma realidade íntima, natural, por assim dizer, mas porque neles reside a substância espiritual, sagrada, mais valiosa do que a substância real da coisa em si mesma. Ou porque neles, em suma, digo eu, habita uma moral.

Lévi-Strauss via os objectos sagrados como sinais, integrantes de um sistema de sinais, não lhes conferindo carácter de símbolos.

                                                  


                                                                                     

E também houve quem dissesse da substância dos símbolos que ela não passava de ser obra daquele que os observava e dos respectivos preconceitos. O lado afectivo do observador transmitia afectividade ao objecto observado. Mas aí está: residirá na afectividade um dos lados mais obscuros do Homem; e esse lado obscuro é renitente às explicações de si.

         É característica das proposições lógicas que só pelo símbolo se possa reconhecer que são verdadeiras. Wittgenstein definiu as características abstractas e formais e funcionais do símbolo lógico-matemático. A linguagem simbólica nada designaria, nada mostraria, a não ser a si mesma.

Fala-se também do símbolo como um extra-sinal. Ou como uma potência superior da linguagem, com funções alargadas quando se acercasse dos temas básicos da sociedade humana, família, paternidade, heroísmo, tragédia, nascimento e morte, dívida, erro…

Nem haveria relações entre dois seres humanos sem um terceiro patamar de linguagem, um terceiro termo.


Os anagramas. Tempo houve em que a importância secreta e simbólica dos anagramas era muita, era mágica. Uma disposição diferente das letras de uma palavra obtinha significados diversos. E tanto assim que os príncipes renascentistas contratavam anagramistas que os aconselhavam nas decisões sobre os mais altos assuntos de Estado. Não era brincadeira. Hoje em dia sim, os anagramas são um passatempo.



Der Letzte MannO Último dos Homens. Numa indústria dominada hoje quase em exclusivo de distribuição por Hollywood e pela pepineira dos efeitos especiais, pouca gente se lembrará do velho cinema. Do velho cinema mudo, ainda por cima. Ou do velho cinema alemão dos anos 20 – a que nem Hitler nem Goebbels achavam por acaso muita piada. Falo da escola expressionista. 
Dentro do expressionismo – aliás todo ele em linguagem construída sobre símbolos fantásticos – avulta um nome: Murnau. Murnau era um fanático dos símbolos visuais – de resto, esse Murnau não destoava da sua cultura germânica natal. Um guarda-chuva de porteiro de hotel pode, em dadas circunstâncias, valer como símbolo de uma qualidade profissional, de uma soberania pessoal. Como um ceptro que esse porteiro preserva das mãos de outro pessoal do mesmo hotel, pessoal não iniciado, quer dizer, não espiritualmente preparado para o empunhar. E se por acaso o porteiro por qualquer razão entregar o símbolo do seu estatuto a um dos paquetes fá-lo com a solenidade de uma cerimónia iniciática de transferência de poderes.
Continuando no porteiro de Murnau em O Último dos Homens, sobressaem outros símbolos de estatuto, ou mesmo de qualidade espiritual. Os botões dourados da libré. Um dia arrancam um desses botões ao porteiro, e a câmara de Murnau, significantemente, acompanha a queda do botão. Como se fosse um acontecimento transcendente. Como se fosse uma degradação moral, uma despromoção militar. O porteiro recordará a queda daquele botão, ou a humilhação de que foi vítima, quando, por velhice, passou das pompas da portaria do grande hotel à insignificância abjecta de guarda das retretes dos cavalheiros.


Uma porta giratória rodando perpetuamente, na luz, e em frente um porteiro, de estatura elevada e rígido como um lacaio – rezava o texto do argumento de Carl Meyer para este filme. O porteiro era admirado e respeitado no seu ofício pela família e vizinhos como um general. Mas um dia o botão cai-lhe da farda. E a dignidade da consciência que tinha de si desaba.

  

O botão foi, para o porteiro, o símbolo do destino. Acompanhado pela câmara, o porteiro desce aos lavabos  numa figuração de descida aos infernos, até que os batentes da portinhola dos lavabos se fechem sobre ele sem remissão possível e ele se sinta verdadeiramente o último dos homens.


Continuando por este caminho expressionista e sem sairmos dos símbolos de Murnau: antes da descida aos lavabos, o porteiro governava os movimentos de carrossel da porta giratória. Movimentos incansáveis que simbolizavam o turbilhão da vida e pelo qual circulavam como títeres os pobres seres humanos. Era o porteiro quem dominava esse movimento, quem o dirigia, quem lhe administrava a justiça e a prioridade. Era aquele o seu poder. Demiúrgico. Regulando o passo de quem entrava e de quem partia daquele mundo, o mundo do hotel, o mundo em si. Mas as retretes dos cavalheiros também tinham portas como batentes que iam e vinham e sem que o porteiro exercesse sobre elas alguma prerrogativa. O cliente rico, irritado por não ter sido atendido com a presteza devida, sai, agita os batentes da porta para ir reclamar ao gerente dos serviços do porteiro.


O porteiro, nos lavabos, repara com atenção nos gestos dos clientes que, ao espelho, cofiam os bigodes impantes e penteiam os cabelos rebrilhantes, acertando com rigor o risco do cabelo. Exactamente o que o porteiro fazia quando era porteiro, a preparar-se para pegar ao serviço; e que deixara de fazer com esse rigor cerimonial porque, pela idade, o tinham transformado no último dos homens.

Portugal é uma cultura simbolista. Talvez outra nação não haja a sobreviver e a comprazer-se tanto pelos símbolos. Digo eu. Se calhar é disparate.

Sempre achei que Portugal era, como comunidade e sistema de vida, um campo soberbo para o cultivo das simbólicas. Uma parte importante da História portuguesa, parece-me, foi terreno especialmente fértil para o florescimento dos símbolos e das metáforas. Refiro-me àquele século XVII. Refiro-me à mitologia do sebastianismo.

D. Sebastião, no sentido simbólico, foi uma encarnação de Portugal. Uma simbólica da adversidade, da infelicidade portuguesas. Ele, estouvado, desavisado, heróico e desaparecido, foi Portugal mesmo. Portugal perdera a grandeza com o desaparecimento de D. Sebastião e tornaria a ela logo que D. Sebastião regressasse do seu mistério- disse alguém. Regresso que era já de si simbólico. Tal como a vida e a morte mesma dele foram elementos simbólicos na História da grei.
             
El-Rei Menino regressaria da Ilha ignota onde aguardara a melhor hora para voltar. Por uma manhã de nevoeiro. Montado num cavalo branco. 
A manhã de nevoeiro simbolizaria um renascimento. O facto anunciador desse renascimento seriam os símbolos de decadência que eram os elementos da noite, fragmentos da noite-decadência simbolizados pelo nascer da manhã (que comporta sempre um resto de noite) e talvez pelos flocos de névoa que, como a noite, empanam a clareza da visão das coisas.


Não se pode, no caso, contornar o nosso grande e inevitável Fernando: a alma é imortal, e se desaparece torna a aparecer onde é evocada através da sua forma. Morto D. Sebastião, o corpo, se conseguirmos evocar qualquer cousa em nós que se assemelhe à forma do esforço de D. Sebastião ipso facto o teremos evocado e a alma dele entrará para a forma que evocámos.
Quando houverdes criado uma cousa cuja forma seja idêntica à do pensamento de D . Sebastião, D. Sebastião terá regressado, mas não só regressado modo dizendo, mas na sua realidade e presença concreta, posto que não fisicamente pessoal.


O Brasão português. Uma apoteose simbólica. As  cinco quinas como cinco príncipes infelizes, ou mesmo mártires, cada um a seu modo –D. Duarte, D. Fernando, D. Pedro, D. João, sendo o quinto, obrigatoriamente ele, D. Sebastião.


Que símbolo fecundo vem na aurora ansiosa? Na Cruz morta do mundo, a vida, que é a Rosa.
Que símbolo divino traz o dia já visto? Na Cruz que é o destino, a Rosa que é o Cristo.
Que símbolo final mostra o sol já desperto? Na Cruz morta e fatal, a Rosa do Encoberto.


quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

COISAS




- Responde-me cá, meu rapaz, sabes que isto é um espaço quadrado?
– Sei.        
- O espaço quadrado é aquele que tem os quatro lados todos iguais?
 – É.
– E estas outras linhas tiradas pelo meio não são também iguais?
– Sim.
         – Um espaço deste género não pode ser maior ou menor?
- Sem dúvida.
- Se este lado mede dois pés, e este lado o mesmo, quantos pés terá ao todo? Espera… considera a coisa deste modo: se este lado medisse dois pés e aquele apenas um pé, não é verdade que o espaço mediria uma vez dois pés?
- Sim.
– Mas como este lado mede também dois pés, isso não faz duas vezes dois?
– De facto, faz.
         – Então, o espaço é igual a duas vezes dois pés.
         – Claro.
         – Quanto é duas vezes dois pés?
         – Ó Sócrates, eu acho que são quatro
        – Vês tu, Ménon, que eu nada lhe ensino e que eu apenas o interrogo?
As coisas que são iguais a uma terceira são iguais entre si. Se a coisas iguais se juntarem outras iguais, os todos serão iguais. E se de coisas iguais se tirarem outras iguais, os restos serão iguais.
O que é uma coisa em si? Qual é a coisa que existe em si, e por si, e independentemente do que queiramos perceber ou conceber dela? Berkeley opunha-se a isto. Ao pensar numa árvore situada em lugar solitário onde ninguém estava presente para a ver, pareceu-me que se tratava de conceber uma árvore como existente sem ser percebida nem pensada, esquecendo que eu próprio, entretanto, a concebia.
Como pode a matéria ser causa das nossas ideias? Como pode produzir pensamentos a coisa que não pensa?
Pergunta Roland Barthes: onde estão as coisas? No espaço apaixonado ou no espaço mundano? Onde está o pueril reverso das coisas?
Oh, meu caro Horácio, ficai sabendo que há mais coisas entre céus e terra do que sonha a nossa filosofia… mas vinde como dantes, e sempre, e ajudai-me, por mais estranho que vos pareça o que eu fizer…
Pois é. Coisas. Como se pode falar de coisas? Que coisas? Coisas do arco da velha. Sim, claro. Coisas do diabo. E coisas loucas. Coisas e loisas. Ele há coisas…
Há as coisas da vida. Choses. Choses de la vie. Mas depois das coisas da vida ninguém se refere às coisas da morte.
Coisas de comer, coisas de beber, coisas de vestir; coisas de comprar e de vender. A coisa pública  – que dá uma carga de trabalhos tratar dela; e até conseguir conceber-llhe a existência. E há o dizer coisa com coisa – seria a homossexualidade das coisas. E mais aquelas vezes em que uma coisa não tem nada a ver com a outra.
Ó homem, tu vais buscar cada coisa!
E quanto ao tal assunto, estás a ver, é destas coisas…
Coisas e coisinhas. Beber coisinhas quentes, comer só coisinhas macias. Tocar coisinhas fôfas. Evitar as coisas geladas. As coisinhas boas que comemos. As coisinhas más que de vez em quando nos dão. Ou então… comeste alguma coisa que te fez mal, foi o que foi…
A coisificação da vida também. A coisificação até das próprias coisas. Ora aí está. Estamos nisso. Tudo é um produto. Cada vez menos algo tem alma. Cada vez mais tudo é coisa. E se alguma coisa não é coisa, pois coisifica-se para melhor se dominar. Tudo se pode vender. Tudo se pode comprar. Tudo é cada vez mais concreto e material. O espírito e o respectivo incomensurável metem medo aos simples que cada vez mais somos. Há homens tratados como coisas. E mulheres.
Vivemos entre coisas. Até ao ponto de nos transformarmos em coisas. É preciso reconquistar todos os dias uma soberania de pessoa sempre comprometida pelas coisas que nos rodeiam, que tocamos e nos assolam.
Mas há quem viva entre coisas e contra as coisas. A cada um de nós é dado, num ou noutro momento, o nosso quinhão nesse combate contra as coisas e a sua inércia. Pode entender-se como uma luta da liberdade humana contra uma ordem social.
Há quem tenha o pavor das coisas, do que é só porque sim; ou do que é para uma única finalidade e que por tal existe; ou do que é por si e existe por si e só por si – conheço muitas pessoas/coisas dessas.
Será para uns o viver entre as coisas o que os angustia. Será para outros o viver entre as coisas o que lhes acrescenta o prazer de viver. Será para outros o combate contra as coisas a razão de viver. Será para aqueloutros sumo prazer o suportar apenas o poder das coisas.
Dizia por outro lado certo comentador filosófico: é absurdo pensar que as coisas visíveis nascem dos seus nomes. É impossível. Os nomes são o resultado da convenção. As coisas visíveis não são resultado de convenção, são produtos do impulso natural.
Há as coisas reais e há a nossa opinião a respeito delas. Com o senão de as características qualitativas e intrínsecas das coisas reais dispensarem bem a nossa opinião sobre elas. Já Kant o dizia: os objectos não são rapsódias de sensações.
Quando  as coisas se apoderam do espírito, as palavras acorrem – como queria Séneca, o Velho. Ou como, não menos velho, queria Cícero: as coisas atraem as palavras.
A tremenda força das coisas é aumentada pelo uso da palavra, a palavra que designa a coisa, a palavra que tantas vezes – e cada vez mais – substitui a própria coisa, a palavra que designando a coisa, ou substituindo-a, extrai de cada coisa uma moral, a moral que pode ou não ser a mais intrínseca moral de casa coisa, e que se não for passa a sê-lo por intermediação da palavra. Palavra que aproveita a ausência da coisa, que a representa ou que a mascara tornando a ausência em presença, em alienação, em poder.
A palavra relógio não nos mostra um relógio. Os sons que constituem a palavra relógio não dão horas, não são o relógio, são a fracção imaterial eventualmente contida num relógio.
A palavra relógio cria o conceito e a forma de um relógio, ainda que possam não existir relógios na materialidade do real. Há um significado que adere a um significante, como diziam os antigos – e os antigos são os dos anos 60 do século passado, quero eu dizer. Mas o significante não passa de uma arbitrariedade. O significante sonoro re-ló-gi-o é aleatório. Aquele mostrador com ponteiros poderia ter começado a ser designado por quaisquer outros sons e nesse caso a sua materialidade objectiva talvez fosse diferente.


                                                         

Relógio. Como watch para os saxões – um nome que desencanta uma outra materialidade; um outro mundo interior sob a forma do mesmo objecto; uma outra organização sonora do visível; a palavra que engendra outra forma, um diferente espírito; uma variação moral.
Forma, conteúdo, significante e significado da coisa unidos na sua diferença da coisa.
As coisas são os seres da natureza. Têm essa força. Assumiram o contorno de vida que interveio sobre o caos e sobre a arritmia diabólica, recuperando as coisas essa condição (de coisas) a cada momento, a cada confrontação com a virtualidade do som da palavra que as designa, impondo, as coisas, a temível liberdade da sua estrutura.
Há leis que pretendem organizar o caos, ou seja, deter o movimento irredutível das coisas. Mas são as coisas, com o seu poder, que acabam por desbaratar a força das leis. Porque as leis são as palavras que a todo o momento lutam com a essência das coisas.
A palavra pretende dominar, assenhorear-se da realidade, a  visível e a perceptível. A palavra pode impor o inexistente pela força sonora e implícita de uma moral que não existe nas coisas e no poder delas, essa moral que só a palavra faz existir e impor como verdade às coisas que elas designam apenas um som.
As palavras existem para fechar as coisas numa redoma de destino e significados. Até que as coisas e o seu poder rebentem as grilhetas da moral da palavra e imponham a sua linguagem de mutismos irredutíveis e não morais. E para esta confrontação titânica e eterna concorrem os fenómenos da natureza, da política, do quotidiano individual.
O combate imemorial trava-se entre a superfície e o fundo.
Todo aquele que compreende que duvida, compreende uma coisa verdadeira e está certo dessa coisa que compreende. De uma coisa verdadeira é que ele está certo, logo, quem quer que duvide da existência da verdade possui em si uma verdade acerca da qual é impossível a dúvida. Mas só pela verdade há verdadeiro. Portanto, não deve duvidar da verdade aquele que de alguma maneira duvidar.
O homem sábio, dizem, é o que respeita a ordem das coisas. E não apenas isso. É o que, respeitando a ordem das coisas, as sabe governar, às coisas, como convém.
E ainda com Aristóteles, ficamos na qualidade suprema do homem que é sábio, e que é pôr cada coisa no seu lugar.
Mas será que há um lugar pré-determinado para cada coisa? O que é um lugar? É um compulsivo escrínio para uma coisa? Ou a existência da coisa determina e condiciona o destino de um lugar? O lugar em função da coisa; ou a coisa em função do lugar que a contenha?
Mas uma realidade, quando ordenada para certo fim, acha nesse fim a regra que lhe determinará o lugar na ordem geral do mundo.
Julgo que Tomás de Aquino foi quem disse que a melhor disposição das coisas é a subordinação ao fim que lhes convém. E qual será o fim para as coisas?
O fim para todas as coisas é o bem.
O chefe encaminha os subordinados/coisas para o objectivo da sua actividade. O médico determina a farmácia/coisa porque a saúde é o objecto da medicina e dos medicamentos/coisas cujo lugar é a farmácia. O objectivo da construção de um navio/coisa é a navegação.
Tomás de Aquino chamava às técnicas que comandam as coisas de arquitectónicas, e os que as dirigiam, os arquitectos, podiam ser chamados de sábios.
O último fim de uma coisa é aquele determinado pelo autor da coisa, ou pelo menos pelo promotor dessa coisa. Se a coisa é o universo imenso e inteiro, o seu autor é a inteligência. Donde, o fim supremo do universo ser o bem da inteligência. E sendo o supremo sentido da inteligência a verdade.
A verdade, para Aristóteles, é o princípio primeiro de que depende a existência das coisas. De todas as coisas.
As coisas em si poderiam estar submetidas a leis, ainda que não houvesse entendimento que as conhecesse; mas os fenómenos são apenas representações de coisas que não poderemos conhecer o que são em si. Como simples representações não estão submetidas a nenhuma outra lei de ligação senão a que prescreve a faculdade que conexiona.
Muitos filósofos na esteira de Kant sustentam que as relações são obra do espírito e que as coisas em si não têm relações, que é o nosso espírito que reúne as coisas num acto único de pensamento, e que, assim, é o pensamento que produz as relações que ele julga existentes entre coisas.
Tenhamos a ousadia iluminista de aprofundar a natureza de uma coisa e descubramos que a nossa acção de aprofundamento da natureza dessa coisa desemboca na descoberta de uma nova coisa. E assim se superam as fronteiras entre o real e o ideal.

As coisas derivam da substância primordial, queria Anaximandro. E derivam as coisas da substância primordial por um processo de separação. Há uma substância infinita em movimento perpétuo, movimento pelo qual dessa substância se separaram os contrários, quente/frio; seco/ húmido…

O mundo infinito das coisas seria gerado pelos processos de separação que são propriedade da substância primordial. O ciclo das coisas durará então a eternidade. Mas a separação que gera as coisas é uma ruptura da unidade que é própria de todo o infinito. A separação das coisas da sua substância primordial é um princípio de diversidade. De onde imperava a homogeneidade e a harmonia desprenderam-se as coisas e criou-se, com a separação das coisas, o contraste.


A separação que originou as coisas criou para as coisas a condição do finito. A condição de uma morte. Uma morte que é paga da separação das coisas, do movimento das coisas. É paga, pela finitude, do regresso das coisas à Unidade.
E lá dizia o enorme Heraclito que as coisas opostas estavam unidas. O que não era exactamente o mesmo que estarem conciliadas, e sendo a guerra o seu estado permanente.
Mas Hegel teimava, e queria, pelo contrário, para as coisas opostas um estado de conciliação, e porque essa conciliação atestaria das coisas a sua verdade.
Já Pitágoras queria que a substância das coisas fosse o número; e queria que os princípios matemáticos marcassem o princípio das coisas, de todas as coisas. Os números, e não a terra, nem o fogo, nem o ar. Nos números distinguia Pitágoras a semelhança com as coisas, as que eram e as que deviam ser. O número era uma causa material. O número era uma hipótese de compreender as coisas, a probabilidade da moral que pode medir as coisas.
Será o número o modelo mesmo das coisas?
Porquê o número como modelo das coisas?
Por constituir, implícita, a ordem nas coisas, e assim em função de uma perfeição ideal contida no número.
As figuras geométricas são os elementos substanciais das coisas, dos corpos, princípios de realidade do corpo das coisas.
E afinal de contas, a diversidade das coisas depende da diversidade da forma das mais pequenas partículas que compõem as coisas.
Quando é ele que a tem na mão, essa cafeteira parece outra: parece  mais verdadeira. Em contacto com ele todas as coisas parecem verdadeiras. Ele deita o café nas chávenas, vejo-o beber, e bebo, mas sinto que é na boca dele que está o verdadeiro gosto do café. Quando ele se vai embora, o café perde o gosto verdadeiro, desaparece o verdadeiro calor, a  verdadeira luz. Fica apenas isto. Uma cafeteira. (Deixa de uma peça de Sartre já muito fora de moda, Les Mains Sales.)
O magnífico poder das coisas… a incrível inteligência das coisas aparentemente inanimadas… a pequena peça da janela da minha marquise que, inteligente e cruelmente, num dos períodos de maior frio deste inverno, se decidiu pela inércia, impedindo a janela de ser fechada - uma manifestação de poder e inteligência das coisas que me inspirou esta escrita. A soberania esplêndida e o irresistível e dramático humor de uma membrana do meu inteligente esquentador, que de conluio com a inteligência da peça da janela da minha marquise, e que no pino da friagem da invernia decidiu deixar-me tomar em paz e delícia os primeiros cinco minutos do meu banho quente, para depois, passados os cinco minutos, sem aviso, me fustigar sardonicamente com a fracção fria, gelada, da coisa que é a sua água.
As coisas… e o seu poder… e a sua ironia inerte… e a força imbatível da sua moral… . digam os filósofos acerca das coisas o que disserem…
Mas entre a janela da marquise e o esquentador pode erguer-se na nossa vida  uma outra e mais maravilhosa coisa. Um espelho.
O espelho. Lembrei-me agora. Coisa poderosa entre todas as coisas, porque dotada dos mais amplos e sinistros poderes.
O olhar e o sorriso da mãe é o nosso primeiro espelho. Estamos nele. Não o somos. Só lá estamos. Porque desde logo, e enquanto pequena coisa que somos, ansiamos por um lugar que nos contenha. E seguimos o nosso impulso vida fora para abraçar esse espelho e sofremos porque ele se estilhaça mal julgamos que nos temos a nós mesmos nos braços, e quando esse nós-mesmos era somente representado numa coisa que era e ao mesmo tempo não era esse nós-mesmos.


O espelho é a coisa que nos devolve o ser.
O espelho são os olhos que nos devolvem os olhos. De onde pode decorrer o que os entendidos chamam de patologia do amor-próprio.
Entre a minha marquise e o meu esquentador olho para uma coisa que arbitrariamente chamaram de espelho e amo a imagem de um homem. Que sou eu? Sim, mas quem sou eu senão aquele que vejo numa coisa, numa coisa chamada espelho, e de uma forma tão completa e complexa que eu nunca poderei ver-me a mim mesmo num dado momento a não ser por intermediação de uma coisa, um espelho.


Eu não existo. Só existe aquele que se move, e faz caretas e sorri exactamente como eu e que está contido numa coisa. À qual, arbitrariamente, emprestaram o som a que chamaram palavra – espelho; mirror para outros. Logo, eu sou eu e a própria coisa que me informa da minha presença no mundo e na minha primeira qualidade de ser eu, que é a ilusão de uma aparência comigo mesmo.

                              

E entre as coisas e o seu poder descricionário há o amargo sentimentalismo de uma lâmpada que se funde no ponto mais apaixonante da leitura.

Há o moralismo exasperante das molas de uma cama que rangem no momento físico que requer máxima concentração dos sentidos…
O antigo 1ºministro indiano Nehru revelou a André Malraux uma ideia interessantíssima – e orientalíssima – acerca das coisas. Chegara a Inglaterra e ficara muito interessado pelo conceito ocidental de beleza. Entendia que o conceito ocidental de beleza procurava conquistar as coisas, diversamente da ideia oriental de Nehru, que procurava libertar-se delas.


O desejo da coisa, e não a possibilidade de fruição da coisa.
Revertendo ao meu tão frequentado Denis de Rougemont, encalho em Tristão e Isolda. Cada um será uma coisa para o outro. Não se amam. Amam o amor. Amam o facto de amar. E, não se amando, concedem-se uma condição de coisas, cada um como objecto/coisa da paixão do outro. Não se amando, e amando somente a ideia de amar, permanecem sujeitos ao seu próprio mundo, no seu próprio mundo, sem necessidade de objecto a amar, dispensando, por assim dizer, a coisificação do outro. Diz Rougemont: Isolda nada faz para reter Tristão junto de si. Um sonho apaixonado lhe basta.
Tristão e Isolda. Têm necessidade um do outro para arderem de paixão, mas não um do outro tal como cada um é; não da presença do outro; muito mais da sua ausência.
A presença do objecto amado é a coisificação desse objecto. A separação pode compensá-los num subliminar contentamento mais do que a presença do objecto vivo da paixão, a coisa. Sim, digo, a coisa em que cada um de nós se torna logo que desejado e amado pelo outro.
O amor mais sagrado pelo outro/coisa pode ser só a paixão de se sentir só no seu sonho. Um sonho sem coisas.
Há os pensadores que dizem que Deus é um intellectus archetypus, ou um intuitus originarius. O que quer dizer que só pelo acto de pensar uma coisa, cria, realiza, produz essa coisa.
Coisas que nada tenham de comum entre si também não podem ser entendidas umas pelas outras, ou por palavras diversas, o conceito de uma não envolve o conceito de outra.
Nada acontece sem que haja uma causa, ou pelo menos uma razão determinante, ou alguma coisa que faça servir para dar razão a priori, porque dada coisa é existente e não inexistente, e porque dada coisa é de uma forma e não de qualquer outra. Quanto às ideias das coisas corpóreas nada reconheço nessas ideias de tão grande e de tão excelente que de mim não pudesse vir. E se as inspecciono mais de perto acho que muito pouco nelas há que eu não tenha concebido clara e distintamente, a saber: a grandeza (comprimento, largura, profundidade); a saber: a figura; a saber: a situação que entre si mantêm esses corpos; e a saber:  o movimento, a mudança de uma situação para outra. Acrescentando eu ainda: a substância, a duração, o número, e demais qualidades de natureza táctil, luz, cores, sons, cheiros, sabores. Acho-as no meu pensamento tão obscuras e tão confusas que ignoro se as ideias que delas concebo são ideias de coisas reais, ou se me representam seres quiméricos que nunca poderão existir.
É que pode haver nas ideias alguma falsidade material, que é quando representam o nada como se fosse qualquer coisa.
Escrevi isto ao passar uma fase má, em que me deu para ler. Aristóteles, Euclides, Platão, Heraclito, Pitágoras, Anaximandro, Descartes, Bertrand Russell, Michel de Montaigne, Séneca, Tomás de Aquino, Santo Agostinho, Shakespeare, Sartre, Nehru, Berkeley, Denis de Rougemont, Roland Barthes, Kant, Leibniz, Spinosa, eu sei lá…