domingo, 7 de setembro de 2014

O GIGOLO E A ESTRELA ASSASSINA



Lana Turner teve uma infância difícil, incluindo maus tratos por parte de uma família a quem fora entregue muito miúda.
O choque que sofri na minha infância pode ser uma boa desculpa para os meus comportamentos actuais. Isso pode explicar coisas que ainda hoje não consigo compreender.
Foi descoberta para o cinema aos 15 anos, quando andava no liceu de Hollywood, e contracenou com John Garfield em O Carteiro Toca Sempre Duas Vezes, em 1946. 
                                    
                                                                                          

Nos primeiros anos 50, Lana Turner já era uma estrela mundialmente aclamada, ganhava 5.000 dólares por semana e vivia numa mansão de 15 quartos, com uma fonte de soda para os whiskies, um salão de beleza com todos os matadores, dez criados, entre eles uma rapariga cujo único trabalho era pôr e tirar discos enquanto a patroa se maquilhava.Tudo isso até 1956. Em 1956 viviam-se maus tempos para os grandes estúdios, em boa parte devido ao incremento da televisão que fazia o público afastar-se das salas de cinema e ficar em casa. As receitas dos filmes de Lana Turner baixavam e a Metro negava-lhe a renovação do contrato. Lana sentiu pela primeira vez a carreira a declinar.
No ano seguinte é o divórcio do seu quarto marido, Lex Barker, um dos mais conhecidos tarzans do cinema, e tal acontece quando a filha, Cherryl, acusa o padrasto de a violar regularmente desde os dez anos. Lana fica desfeita e dá a Lex Barker vinte minutos para fazer as malinhas e se pôr a andar da mansão.


(Até à sua morte, em 1973, o pobre Lex Barker jurará a pés juntos a sua inocência.)
Lana Turner não se poupou nos casamentos. 
Entre outros menos assinaláveis foi casada com o músico Artie Shaw e com o milionário Henry Topping Jor., aquele que, ao propor-lhe casamento à mesa do Club 21 de Los Angeles, deixou cair um anel de diamantes dentro do copo de martini que Lana tinha na frente.E, para não variar, Lana Turner, uma estrela de cinema fisicamente entre Jean Harlow e Marilyn Monroe, também teve como amante o célebre mafioso Johnny Rosselli.
Calha bem aqui uma citação da própria Lana Turner, que embora fadada para viver histórias de alguma faca e algum alguidar não devia ser parva nenhuma. Dizia ela: O homem de sucesso é aquele que ganha muito dinheiro e é casado com uma mulher que o gasta. A mulher de sucesso é aquela que consegue encontrar esse homem.
Divorciada de Lex Barker, Lana Turner dá em acompanhar com um homem que diz chamar-se John Steele e lhe oferece flores e jóias. Mas, por intermédio de amigos, Lana vem a saber que o John Steele não era nada John Steele, que o John Steele era Johnny Stompanato. E, ah, é verdade, Johnny Stompanato era um gangster da seita do mafioso Mickey Cohen, já aqui mencionado anteriormente noutras histórias. Johnny Stompanato já por duas vezes havia sido constituído arguido, contudo sem nunca ter sido condenado.
Mais: Stompanato já se repartira por diversas actividades, vendedor de automóveis, armazenista de mobílias, proprietário de uma loja de animais, sendo porém a sua principal fonte de rendimentos a actividade de gigolo, para a qual uma actriz amiga de Lana Turner o dizia muito dotado.


Nunca se sabe se não foi deste ou de outro caso como este que BillyWilder retirou a inspiração para o filme Sunset Boulevard.
Para a polícia, Johnny Stompanato tinha ficha de extorsionário. Extorsionário com a mira assestada para mulheres ricas e sós. E Lana Turner, quando sabedora de tudo isto, passa uma temporada sem atender os telefonemas de Johnny. Johnny andava na roda de gangsters mafiosos e ela temeu a má publicidade que tal lhe traria à carreira.


E a partir daqui só contarei cenas que apesar de reais mais parecem cenas de um filme.
Uma noite, Stompanato, o gigolo, consegue introduzir-se em casa da estrela, acede ao quarto de cama e começa a querer sufocá-la com uma almofada. Sentindo que a actriz está a ficar-se, retira a almofada e desata a beijá-la. Ora, foi o bastante para Lana Turner se apaixonar demencialmente pelo mafioso gigolo. Era excitante até ao limite aquela relação. Aquela relação pedia-lhe um amor obsessivo, cimentado sobre violentas zangas e ternas reconciliações.


A vida estava má para todos naquele período, e Hollywood vivia um tempo em que os mafiosos a operar no terreno – segundo suspeitas da polícia – engendravam situações comprometedoras a algumas das estrelas maiores para depois as poderem chantagear. Um dos estratagemas era conseguir gravações de conversas privadas, íntimas, e depois comercializá-las no mercado negro, ou não comercializar, conforme o que o artista – geralmente uma actriz– estivesse disposto a pagar por elas. E as fitas gravadas com as discussões de Lana Turner e o seu gigolo não tardaram a chegar ao mercado e a valer cada conversa umas boas centenas de dólares.


Lana Turner tinha então uma sociedade independente de produção de filmes e o gigolo Stompanato conseguiu que ela lhe desse um lugar na estrutura da empresa, produtor delegado. E nesse pé partiram para Inglaterra para a rodagem do primeiro filme a produzir pela sociedade. O filme chamar-se-ia AnotherTime, Another Place, e a estrela contracenaria com Sean Connery.   
Mas durante as filmagens, Stompanato convence-se de que a amante está em vias de cair nos braços do seu parceiro no filme e um belo dia resolve invadir o plateau e avançar para Sean Connery de pistola na mão, ameaçando-o. Connery, rapidíssimo, aplica-lhe um banano certeiro e bem assente, tira-lhe a arma da mão e exige que ele nunca mais ponha os pés no estúdio.
A patroa Lana Turner demite o gigolo do seu lugar de produtor delegado e ele, quando sabe disso, vai para a estrangular. Falha por pouco, mas as cordas vocais de Lana ficam de tal modo afectadas que por três semanas ela só pode rodar planos sem diálogo.
É aconselhada a apelar à polícia. A Scotland Yard toma conta da ocorrência e opta pela deportação do desordeiro. Em 24 horas Stompanato aparece no aeroporto, pronto a ser recambiado para os EUA. No entretanto, comunica à amante que o nome dela até pode calhar em conversa quando ele falar com o pessoal da Mafia.


Em Janeiro de 58 as filmagens terminam em Londres. Lana concede-se um período de repouso no México. Apanha um avião que faz escala em Copenhaga. E quem está à espera dela em Copenhaga, quem é, rodeado de jornalistas e fotógrafos? Claro, Johnny Stompanato. E acabam por seguir os dois para Acapulco.
A actriz, que segundo todas as aparências transportava para fora dos plateaux as suas personagens, dirá mais tarde – sabe-se lá com que verdade – que foi à força de uma pistola encostada à cabeça que dormira com Stompanato em Acapulco.
Nomeada para um Óscar nesse ano de 58 – suponho que pela interpretação em Peyton Place –, Lana está presente na cerimónia, e, acabada a cerimónia vai para casa. O gigolo está à espera dela. Bate-lhe. Deixa-lhe a cara num bolo e os olhos negros.
A filha de Lana Turner tem agora 14 anos. A mãe confessa-lhe o medo que tem do amante. A miúda aconselha-a muito avisadamente a queixar-se à polícia, mas Lana recusa a ideia, o gang de Mickey Cohen, de que o amante fazia parte, com certeza que mais dia menos dia lhe faria a folha.


Em Abril ainda desse ano de 58, Lana Turner e a filha mudam-se para New Bedford Drive em Beverly Hills. Johhny Stompanato acompanha-as.
As discussões e as violências não cessam. Numa noite há gritos desgarrados no quarto do 1º andar. Só porque Lana Turner, extremamente susceptível no que tocava à idade, com 37 anos se sentia a envelhecer e a decair a olhos vistos, e descobrira que o amante era muito mais novo do que lhe dissera ser, e daí resultaria muito má publicidade para a carreira dela, sim, se se dissesse que ela se entretinha com homens mais novos.
Nessa mesma noite, Lana põe os pés à parede e decreta que as relações entre ela e Johnny Stompanato estavam terminadas. E intima-o a sair-lhe de casa. Ele não concorda e ameaça-a: se lhe der na mona até pode desfigurá-la; até pode fazer mal à filha. É só passar-lhe alguma coisa pela cabeça. 


Cheryl, a filha, está no quarto do lado a fazer os TPC e ouve o que se está a passar no quarto da mãe. E decide-se. Deixa os livros e os cadernos e desce à cozinha. A governanta da casa vê a miúda sair da cozinha com um cutelo de carniceiro de 20 cm., rais parta a miúda para onde é que ela vai com aquilo na mão? E Cheryl, cutelo na mão, sobe ao 1º andar.
Cheryl bate à porta do quarto da mãe. Os gritos continuam. Ouve a mãe gritar que está farta, que está pelos cabelos. Ouve o amante gritar ah, minha cabra que é mesmo esta noite que morres. Cheryl bate outra vez à porta. É a mãe que abre. Cheryl entra e vê Stompanato com um braço alçado. Palpita-lhe que ele vai agredir violentamente a mãe. 
Bem, Stompanato não ia agredir a mãe, estava de braço no ar porque estava compor os suspensórios nas costas. Mas quando vê a rapariga, o gangster precipita-se para ela, cai sobre ela e espeta-se no cutelo de carniceiro. A esvair-se em sangue, consta que terá dito Cheryl, meu Deus, que é que tu fizeste?
Stompanato é acometido por uma convulsão e cai morto no tapete do quarto. Cheryl remove calmamente o facalhão do corpo do gigolo, pousa-a na cómoda e sai do quarto aos gritos. Eram 9,20 da noite de 4 de Abril de 1958.

                         
                                                          

O primeiro a chegar à cena do crime na noite de 4 de Abril foi o médico pessoal da actriz, que imediatamente a aconselhou a recorrer a um advogado da Mafia, Jerry Giesler, um que defendera Bugsy Siegel 18 anos antes. E quem vem identificar o cadáver do gangster não é outro senão o chefe dele na Mafia, Mickey Cohen. 
- Este assunto não me está a agradar nada- diz o mafioso aos jornalistas. - Palpita-me que ainda há muitas perguntas sem resposta, e eu preciso de saber a verdade custe o que custar.
O cutelo não tinha impressões digitais. Fora umas gotinhas num tapete cor de rosa, não havia sangue no quarto. Mickey Cohen era de opinião de que Lana Turner e a filha haviam assassinado Johnny Stompanato enquanto ele dormia.
Num hotel em Westwood guardava Stompanato as suas coisas. Tinha lá um quarto, tratava lá dos negócios, dormia lá de vez em quando. Um dos recepcionistas, ao ouvir falar do crime, usando uma chave mestra, introduziu-se no quarto. As luzes estavam acesas e havia indícios evidentes de arrombamento na janela da casa de banho. Uma das criadas do hotel viria a dar por falta de um saco cheio de cartas que estivera sempre guardado no mesmo sítio.


Cartas? O chefe do gang, Mickey Cohen escrevera essas cartas, endereçadas ao jornal Los Angeles Herald para que Stompanato as remetesse. Cohen queria vê-las publicadas, de modo a informar a opinião pública de que Johnny Stompanato jamais perseguira Lana Turner, como ela afirmava. O que acontecia era Stompanato estar muito apaixonado por ela.
O irmão de Stompanato vem recolher o corpo. Diz à imprensa não acreditar na versão de Cheryl e quer que Lana Turner seja sujeita ao detector de mentiras. E pergunta: como é que uma jovem de 14 anos que nunca na vida se servira de facas para acções violentas teria forças e destreza para assassinar à facada um matulão que tinha sido fuzileiro?

                                                                                     

 Também ele pensava que o irmão estaria a pegar no sono no momento de ser atacado e morto. E até um chefe de polícia de Beverly Hills viria a fazer irónico reparo no facto de os gangsters não poderem acreditar que uma adolescente fosse capaz de assassinar um dos deles.
Entre os objectos pessoais de Stompanato havia um revólver e negativos de fotografias onde algumas actrizes de certa nomeada apareciam nuas e em poses comprometedoras. Entretanto, os advogados de Lana Turner queimam uma quantidade de negativos em que a actriz aparece nua.
Vai tudo para tribunal.


A televisão começa a transmitir em directo as sessões do julgamento do assassínio de Johnny Stompanato. 11 de Abril de 1958. 
Os fans acotovelam-se à entrada do tribunal para ver passar a estrela, tailleur cinzento de factura italiana e cabelo cortado à garçonne-


No tribunal, Lana Turner fala durante uma hora. Há quem diga que foi a melhor interpretação da vida dela. Tudo o que se diga terá de levar o tribunal a acreditar que se tratara de um homicídio, por assim dizer, justificável.
Na assistência do julgamento, alguém se levanta e acusa os investigadores de quererem proteger a estrela de cinema.
Houve quem defendesse que Stompanato se teria também travado de relações íntimas com Cheryl, a filha de Lana. Houve quem pensasse que mãe e filha estariam ambas apaixonadas pelo gangster.


Em suma, as culpas acabam por recair na filha da estrela, Cheryl, de 14 anos.
 

O tribunal decide colocar Cherryl sob tutela num centro para delinquentes juvenis. Esteve lá três semanas e depois foi enviada aos cuidados da avó. Fez duas tentativas de suicídio.
Stompanato teria dito à Turner que a Mafia sem dúvida o vingaria se lhe acontecesse alguma, e Lana Turner muda de poiso. Declara ter recebido cartas anónimas com insultos e ameaças de morte. A polícia vigia-lhe a casa dia e noite.
Lana Turner estava crivada de dívidas, dívidas aos advogados, dívidas até à Metro Goldwyn Mayer. Temia nunca mais vir a ter trabalho depois de tudo aquilo. Mas pouco tempo depois há um produtor que a contrata e lhe propõe o papel de protagonista no remake, dirigido por Douglas Sirk, do filme  nos anos 30. Imitação da Vida. Uma intriga a girar à volta de uma mulher egoísta que ora mimava ora desprezava a filha, e estando ambas apaixonadas pelo mesmo homem.
O filme foi feito e rendeu muito bom dinheiro. Bom dinheiro esse dividido entre o produtor, Ross Hunter, e a estrela. E de tal modo o filme vendeu bem que Lana Turner terá ficado milionária e recomposto as finanças.
O público convenceu-se de que a história do filme, tal como êxito de outro filme anterior, Peyton Place, se relacionava com a própria vida privada da estrela, e talvez daí o sucesso.
Mas o que dá a ideia é de que, na volta, claro, tão mafiosa era a estrela como o seu gigolo. Provavelmente até mais ela do que ele. Ou mafiosa e criminosamente engenhosa, ela ou quem a terá aconselhado a cometer o crime, bem como quem a terá industriado sobre a técnica de o ocultar.
A partir de 1970 Lana vive com um ex-cabeleireiro e ex-professor de dança, Eric Root de seu nome. É este homem que muitos anos depois declara ter-lhe a actriz contado a verdade.
E a verdade (ou a suposta, embora plausível, verdade) é que teria sido a própria Lana Turner a assassinar Johnny Stompanato.
- Matei esse filha da puta… e se tivesse que voltar a fazê-lo não tenhas dúvidas de que o faria.
O tal Root escreve um livro. Nesse livro uma outra versão dos factos aparece à luz do dia.
E recapitulando (flashback)… perante o crime consumado, como já foi dito, comparecera o médico pessoal da actriz que a aconselhara a chamar o advogado Jerry Giesler. Jerry Giesler aparecera, sim senhor, acompanhado por um detective particular. Tudo isto antes da chegada da polícia. O trabalho deles fora o de convencer Lana a deixar que fosse a filha a suportar a responsabilidade do crime em lugar dela.
É o detective particular que limpa os vestígios, todas as impressões digitais do cutelo, afinal as impressões digitais da própria Lana - detective particular foi ele (Frank Otash) que também apareceu, dizem, na cena final da vida de Marilyn Monroe.
- Parece que vocês vieram matar um porco para cima da cama - terá dito o detective particular diante do espectáculo de sangue.
Um escritor virá a classificar o caso como uma luta de poder entre concorrentes, um mistério que se adensou em todas as suas infinitas complicações.  
Mesmo assim, Lana Turner voltará aos estúdios e regressará ao êxito com Um Solteirão no Paraíso (ao lado de Bob Hope), Retrato a Negro e Madame X. Virá ainda, nos anos 80, a aparecer na série televisiva Falcon Crest.
E Lana Turner morre de cancro na garganta em 1995, com 74 anos.

 


Esther Williams, a actriz, declarou um dia que ninguém nunca virá a saber a verdade toda sobre o assassínio de Johnny Stompanato. E porquê? Porque as provas de um delito costumam desaparecer muito naquela zona do mundo chamada Hollywood. E porquê? Porque Hollywood procura sempre, e antes de tudo o mais, proteger-se.    

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