quarta-feira, 14 de fevereiro de 2018

                           O DUO DA MORTE

O estranho caso da carta do carro eléctrico.
Conta Jorge Morais no seu livro Regicídio, a Contagem Decrescente uma peripécia algo incrível.
 

 
Que o conde de Paçô Vieira tomou um eléctrico e que ao chegar à Rua das Pedras Negras se sentou no lugar deixado vago por um passageiro que saiu.
O passageiro saiu mas deixou esquecido sobre o banco um jornal. Jornal esse em que Paçô Vieira pegou e de dentro do qual caiu uma carta. Carta endereçada a Mr. Buiça, Colégio Moderno, Rua das Pedras Negras. O conde abre a carta. Vem de Vila Viçosa. É assinada por Pad’Zé – o Dr. Alberto Costa, conhecido boémio reviralhista, de quem falei no post passado.
 
 
E diz assim a carta: Querido amigo, Simão vai a Lisboa no dia 20 com o podengo mais novo. Se foi combinado o que sabes, mata-o tu que és bom atirador. Que Lúcifer te proteja. Se não, espera pela entrada triunfal no dia 2.
(É preciso dizer que D. Carlos era chamado nos meios conspirativos o Caçador Simão.)
 
 
Alfredo Luis Costa parece ter sido o chefe daquele grupo de comandos regicidas, o grupo dos 18.
 
 
Alfredo Costa tinha escritório de representações na Rua dos Douradores. E tinha só 23 anos. Aquilino conhecia-o de muito perto, descreveu-o no livro póstumo de memórias Um Escritor Confessa-se e pareceu-me apropriado copiá-lo.
Alto, desengonçado de corpo, fisionomia séria, quase triste, grandes olhos castanhos, lentos a mover-se, com uma fixidez que parecia de sonâmbulo e era de atenção, um nada de barba loura no queixo, o nariz levemente amolgado sobre a esquerda. Homem de uma só peça, crente até ao iluminismo interior, resoluto, imediato, pronto a reagir, mesmo ofegante no que fazia.
 
 
Alfredo Costa não tinha estudos especiais. Na versão de Aquilino educou-se como pôde. O republicanismo de que fazia alarde, Aquilino julgava-o um caso de consciência, soberano e despótico. E diz que não lhe faltava nada para carrasco ou herói. Ai de quem lhe manifestasse uma perplexidade. Ai de quem lhe faltasse à palavra. Diz Aquilino que uma ruptura no dogmatismo a que submetia tudo sofria a condenação da sua boca e o  correctivo dos seus punhos. E Aquilino conclui que na lógica moral da pessoa de Alfredo Costa compreendia-se a vocação para conceber o acto terrível. O Buiça era o braço direito do Costa. Tinha 32 anos. Aquilino escreve largamente sobre ele também.
Tão despótico era nele o instinto da sociabilidade que não sabia enxotar da sua beira indivíduos de má nota e malandrins garantidos.
De corpo era de estatura meã, rosto fino, tez branca, a que dava realce a barba preta com tons de fogo. A testa era espaçosa com arcadas supraciliares marcadas, sem demais. As linhas fisionómicas duma delicadeza que, fora das mulheres, desagrada. Só os olhos, muito móveis e azuis, mas sem crueza, traíam nele o ânimo expedito e a índole que, além de resoluta, era exaltada.
 
 
Era extremoso pai de família, o Buiça. No dizer de Aquilino galante, franco, liberal, corajoso, blasonador, incoerente muitas vezes, parlapatão mais de uma, sem equilíbrio na vida, sem disciplina moral. Viúvo. Aquilino não se esquece de informar de que o homem mantinha uma relação com uma menina de Lisboa. Dois filhos, Elvira e Manuel, sendo deste último o próprio Aquilino padrinho de baptismo. 
E no dizer de Rocha Martins o Buiça era homem de fácil, e também fugaz, irascibilidade. Fácil, fugaz, mas capaz de tudo enquanto ela lhe durasse. Lá na terra chegara uma vez a correr de pistola na mão atrás de um primo para o matar. Quando era sargento de Cavalaria arriava forte e feio nos recrutas madraços que se baldavam aos exercícios.
 
 
Havia nos seus movimentos, quando calmo, uma coquetterie sem pedantismo, natural, confiando só em si, embebido do tipo do Suvarine do romance Germinal (de Zola), revolucionário descrente dos outros, sentindo-se o único homem de acção. Tinha o seu quê de desordeiro, era admirador dos russos nihilistas, temperado no soalheiro do café lisboeta.
Segundo alguns, o atentado ao rei teria sido organizado nos seus últimos trâmites pouco antes de 3 da madrugada do próprio dia 1 de Fevereiro numa quinta ali aos Olivais, segundo uns Quinta do Ché, segundo outros Quinta do Chéché; e sequentemente a uma reunião conspirativa havida a 30 de Janeiro numa casa de Xabregas.
 
 
Do derradeiro encontro conspirativo na dita Quinta do Ché, dá nota um dos participantes, Fabrício de Lemos. Foi numa adega subterrânea.
Transcrevo directamente, conforme o li no livro de Jorge Morais, que por seu turno cita o texto de Fabrício de Lemos…
Uma mesa de pinho tosca e suja e alguns barris e mochos cosntituiam todo o mobiliário. Espalhadas, algumas velas enterradas em gargalos de garrafas vazias projectavam uma luz vacilante sobre as escuras paredes tristes e lacrimosas da humidade.
 
 
Impressiona-me este romantismo tardio e heróico nas prosas revolucionárias. Parece um atentado concebido e consumado por encenadores de ópera. Ainda por cima, para reforçar os dramatismos, diz Fabrício de Lemos textualmente que chovia a potes, e que os camaradas entraram pela porta estreita que dava para a azinhaga.
Eramos 15 portugueses e 3 estrangeiros: um italiano, um francês e um catalão. 18 homens ao todo. Decididos a levar a cabo o mais justo dos intentos, embora perigoso e difícil. O Buiça é o primeiro a pedir a palavra.
Buiça concordava que tirar a vida nem que fosse ao mais celerado dos homens, seria, pelos mandamentos do seu próprio ideal, desumano e injusto.
Embora a nossa causa seja toda bondade, justiça e perdão, não hesito neste momento único na História do nosso desgraçado país, em vos pedir a morte de todos os descendentes de uma dinastia de hipócritas e de cobardes que sobre nós acarretaram todos os males e todas as vergonhas. Aqueles que não sejam da minha opinião que se  levantem.
Refere quem ouviu o Buiça neste lance que a voz dele era profunda e convicta, que a fisionomia dele era a de um apóstolo, e (sic) frouxamente iluminado pela chama indecisa das velas.
 
 
E ninguém se levantou contra a proposta do Buiça. Os braganças estavam a partir daquele momento, condenados. A seguir falou o Costa.
Amanhã morrerão todos, embora à custa das nossas vidas. Sentimo-nos felizes por poder dá-las pela nossa causa. E ouviu-se um apoiado retumbante. A morte dos braganças estava votada à unanimidade.
 
 
Plano de acção: um primeiro grupo de seis homens a esperar pelo rei no Terreiro do Paço. O Buiça faz uma exigência: que esse grupo seja formado só por conjurados portugueses. Porquê? Por ser o de maior perigo e o de maior glória. Os outros ficariam emboscados junto à rampa de Santos e em Alcântara.
 
 
Escapados os reis do primeiro fogo no Terreiro do Paço, cairiam seguramente em qualquer das outras duas emboscadas. O que me parece uma conclusão demasiado apressada, fácil, quase infantil. A partir do momento em que no Terreiro do Paço soassem tiros contra a carruagem real as circunstâncias mudariam imediatamente. E os itinerários seriam alterados, a guarda reforçada, todas as precauções certamente tomadas
Na adega da Quinta do Ché, de dentro de um barril, ultimadas as combinações, começaram a surdir pistolas e carabinas dos últimos modelos a ser distribuídas por todos os presentes.
 
 
 
Talvez seja interessante e dramático prosseguir, indo atrás dos conspiradores (mais uma vez com a devida vénia ao livro O Regicídio, A Contagem Decrescente, de Jorge Morais).
Era madrugada quando sairam da Quinta do Ché. Parara de chover. A azinhaga estava deserta. O Buiça, o Costa e o Frabrício, sem trocarem palavra, põem-se a caminho de Sta. Apolónia.
 
 
Em Sta. Apolónia tomam uma tipóia e chegam ao Terreiro do Paço. O Costa e o Fabrício convidam o Buiça para cear qualquer coisa. O Buiça recusa. Despedem-se. O Buiça mete-se pelas ruas da baixa.
Sabendo que ia morrer no dia seguinte – o que deve ser sensação arrepiante -, o Buiça escolhe as últimas acções da sua vida. Entra numa casa onde o aguarda uma pequena. Uma pequena que o narrador desta cena caracteriza como uma burguesinha ansiosa e tímida.  
        Esse dia 1 de Fevereiro de 1908 calhou a um sábado.
E esse dia 1 de Fevereiro de 1908 foi efectivamente o último dia da vida de pelo menos cinco pessoas.
 
 
O professor Manuel dos Reis Buiça sai de casa da amiga da baixa (a que chama Maria). São oito da manhã. Vai ao Colégio das Pedras Negras e começa a dar as suas aulas.
A meio da manhã diz ter que acompanhar um filho ao hospital. E vai mesmo a um hospital, o Hospital Inglês, então situado na Rua do Alecrim, e onde alguém lhe fornece um varino – um grande e largo capote.
Volta à casa de Maria, pega na carabina que lhe tinham fornecido e mete-a debaixo do capote.
 
 
Nessa mesma manhã de 1 de Fevereiro de 1908, o caixeiro Alfredo Luis Costa vai ter com um fulano.
- Temos umas contas a fazer - diz a esse fulano, segundo conta Raúl Brandão. - Ó homem deixe lá as contas, não é pressa, vimos isso depois.
Alfredo Costa ri-se.
- Depois… hoje vamos matar o João Franco. Esperamos por ele na Alexandre Herculano. O Buiça leva a espingarda e dá um tiro na orelha do cavalo, e eu atiro-me para dentro da carruagem e mato-o como um bicho. E talvez até fosse melhor no Terreiro do Paço, porque assim liquidavamos toda a cambada.
Na certeza de que não passará do dia seguinte, Alfredo Costa procurará ainda outro amigo e encarrega-lo-á de proteger uma sua irmã, seguro de que morrerá no dia seguinte.
- Ò homem, deixe-se disso, você vai mas é almoçar comigo…
- Não, amigo, tenho a certeza de que não escaparei.
 
 
Chega a ser tocante o amadorismo romântico-exibicionista destes tenebrosos conspiradores que contam aos amigos os atentados régios que tencionam praticar como se fosse a coisa mais natural desta vida.
Mas, pelo que sabemos hoje, talvez não se tratasse bem de amadorismo este exibir de intenções criminosas ao desbarato. Talvez fosse exactamente para chamar as atenções sobre indivíduos da arraia miúda, desconhecidos dos meios políticos, uns malucos, uns estabanados a quem um belo dia deu na cabeça matar um rei e um primeiro ministro. E isto por forma a manter encobertos os notáveis, os mandantes.   
Ao fim da manhã do dia 1 de Fevereiro, os cinco operacionais destacados na reunião da Quinta do Ché vão Avenida acima fazer uma espera a João Franco logo à saída de casa.
 
 
Chegam à casa de João Franco e não vêem a carruagem e percebem que o ditador já saíu e que mais uma vez trocara as voltas aos conspiradores. Tocante ingenuidade a destes conspiradores. Aliás, a acreditar em Raúl Brandão, um desses operacionais ter-se-á queixado do desleixo do Manuel Buiça na operação. O Buiça ter-se-ia descuidado com as horas e chegado tarde ao atentado. Bem português, vamos lá...  
 
 
O cóio principal dos mais assanhados conspiradores de 1908 era o Café Gelo – que ainda hoje existe, completamente desfigurado, já se vê, em relação ao tempo de que falo, e até ao tempo em que foi ponto de encontro de surrealistas, e até ao tempo em que eu próprio, de vez em quando, lá parava.
Tanto Buiça como Costa vão almoçar juntos – outra imprudência gritante, e suspeita, só lhes faltava andar com um cartaz a anunciar o que iriam fazer.
Almoçam juntos numa sala das traseiras do Café Gelo. Comem umas omeletas e bebem cerveja. E o Buiça escreve uma carta. Maria, escrevo-lhe horas antes de uma morte inevitável…
 
 
A minha querida Maria tinha, sem saber, uma poderosa rival – a pàtria – pela qual me sacrifico consciente de cumprir um dever. Vou morrer matando – ironia curiosa para muitos, talvez incompreensível e portanto condenável. O tempo porém tudo explica e cura, razão porque algum dia serei compreendido. Morte dolorosa me espera, certamente, mas o amor que voto à minha causa e a sua querida recordação me darão sobejas forças. Um último adeus e perdão. Manuel.
Estranha e trágica moral de certas pessoas: serem os paus-mandados para actos extremos a mando de outros, convencidos de estarem a sacrificar-se, como diz o Buiça, por uma causa, pela sua moral pessoal, quando na verdade, a coberto da luta pela sua causa, mais não fazem do que servir interesses que lhes são estranhos, que talvez sejam mesmo baixos, ou imorais. E tudo isso ao ponto de sacrificarem a vida.
Os tempos eram outros, sem dúvida. E muito mais trágicos.
No Café Gelo, nas últimas disposições, o Costa teimará com o Buiça. Não quer que ele se meta activamente na refrega.
- Não, você é melhor não, porque tem filhos.
 Mas o Buiça não se demoveu, e lá mandaram vir mais uma rodada de cerveja.
 
 
Falhado o primeiro objectivo, vão atacar o segundo. Vai para as quatro da tarde. Manuel Buiça e Alfredo Luis Costa descem a Rua do Ouro.
 
 
A muitos quilómetros da Rua do Ouro, numa taberna das proximidades da cidade da Guarda, dois criados de José Alpoim param o carro onde viajam para tomar um copo. Tinham ido levar o patrão a Espanha, fugido, e regressavam. Vêem as horas. Quatro da tarde.
 
 
Talvez já tocados pelos copos dizem alto e bom som:
- A estas horas, amigos, já não há rei em Portugal. A estas horas já o rei deve estar morto.
Porque, de facto, a essas horas, já a família real deveria ter chegado ao Terreiro do Paço.
Às quatro da tarde, Manuel Buiça e Alfredo Costa já estão no Terreiro do Paço.
 
 
O Costa desaparece entre as arcadas ocidentais e o Buiça fica ao pé do quiosque a conversar com o amigo conspirador Fabrício de Lemos. Um bufo da polícia, chega-se a ele, que é alto, tem umas barbas pretas compridas, enverga um capote enorme, é uma figura ameaçadora, que dá nas vistas.
 
 
- Que é que você está aqui a fazer?
 O Buiça sorri ao polícia à paisana. E responde-lhe suavemente:
- O mesmo que o amigo faz… desejo ver passar o nosso rei e saudá-lo como merece…
Em reunião secreta num hotel parisiense, entre políticos portugueses e revolucionários franceses, se deliberara o assassínio de  João Franco, sem dúvida, e também o do rei, dependendo das circunstâncias mais ou menos favoráveis. Esse encontro deve ter contado com os auspícios do movimento anarquista internacional, activíssimo nessa época por toda a Europa. É neste contexto anarquista que o ministro português em Paris informa Lisboa de um provável atentado.
 
 
Manuel dos Reis da Silva Buíça, viúvo, residente em Vinhais, distrito de Bragança…
O testamento do Buíça fora redigido, admissivelmente na sequência dos acontecimentos revolucionários do dia, logo a 28 de Janeiro de 1908, e reconhecido por tabelião.

 
Ficaram-me de minha mulher dois filhos, a saber, Elvira, que nasceu a 19 de Dezembro de 1900, na Rua de Santa Marta, e que ainda não está baptizada nem registada civilmente, e Manuel, que nasceu a 12 de Dezembro de 1907 nas Escadinhas da Mouraria. Ambos vivem comigo e com a avó materna nas Escadinhas da Mouraria, 4, 4º andar esquerdo…
Minha família vive em Vinhais, para onde se deve participar a minha morte ou o meu desaparecimento, caso se dêem…
         Meus filhos ficam pobríssimos; não tenho nada que lhes legar senão o meu nome e o respeito e compaixão pelos que sofrem…
Peço eduquem os meus filhos nos princípios da liberdade, igualdade e fraternidade que eu comungo e por causa dos quais ficarão, porventura, em breve, órfãos…
 
 
Um dia destes estaremos no Terreiro do Paço por volta das cinco e meia da tarde.

 

 

1 comentário:

  1. Amadorismo e uma certa ingenuidade, bem ao nosso estilo. Texto bem interessante...Obrigada, caro amigo.

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