terça-feira, 12 de março de 2013





                   O CORREIO DA NOITE 

     
                                                                   


Lisboa. Estação de Santa Apolónia. Finais dos anos 60. Domingo. Onze e vinte da noite. Vai partir o comboio correio para o Porto.    

                            



O cais de embarque, cheio de movimento, é cuidadosamente observado por patrulhas da Polícia Militar. Despedidas. Namoradas. Amigos. Pais e mães.  Dos que partem, a maioria são militares de baixa patente. E nem lhes vale a pena tirar bilhete de primeira. A composição já está cheia e continuará a estar tão cheia que as classes fatalmente acabarão por se dissolver no espaço reduzido e os da segunda acabarão por invadir os confortos da primeira ao longo do trajecto deste comboio que sai de Lisboa às onze e vinte da noite, pára em todas as estações, e chega ao Porto por volta das sete da manhã – tanto quanto me lembro.

                        
                                            
Em cada estação ou apeadeiro entram e saem homens tristes, mulheres infiéis, mães alentadas, embaciados caixeiros de praça, empregados, operários, cançonetistas de baixo quilate em camisas de cores e viola à tiracolo, caminhantes  novos e sem muito destino, jovens hippies de província com flores murchas no cabelo, indiferenciados do trabalho, aparentemente trolhas, aparentemente serralheiros, pedintes de acordeão, bêbedos, aleijadinhos, e outros náufragos da noite. 
                                                               
                                                                     

E soldados. De pé, sentados, deitados no chão, ao colo, de cócoras, acordados e pensativos uns, esquecidos e ferrados no sono outros, muitos. Acabou mais um fim de semana – para os militares parou  de novo o tempo de uma precária felicidade. A liberdade foi-lhes mais uma vez adiada. A viagem é mesmo até ao fundo da noite. O dia virá a nascer lá para as proximidades de Aveiro. A vida prepara-se para recomeçar.

                                                                                                   


Há militares já mobilizados para os teatros da guerra de África que  falam e fumam até ao fim da viagem. Há militares que ainda não estão mobilizados e que esperam sem esperança nunca vir a estar. Os que falam têm como assunto de conversa a vida que  agora pertence mais aos outros do que a eles,  eles assistem aos actos dos outros enquanto esperam uma salvação pessoal, ou uma fatalidade.
                             

Haverá um cheiro forte nas carruagens daquele comboio, lá mais para o fim da noite, um cheiro não se sabe a quê, misto, os jovens militares ainda não sabem identificar os cheiros mais proibidos porque ainda pouco  sabem da vida e da morte. 

                 

E sobre o dedilhar transtornado de uma viola alguém pode elevar na madrugada vagarosa um cântico cheio de rapazes e de cachopas, de manéis e de marias. A cada paragem do comboio entram novos viandantes e sai, muito às pressas, um  tresnoitado, ou dois. 
Embarquei umas boas dezenas de vezes nesse comboio fantástico de máscaras assombradas por um destino. Chegava ao Porto e tinha que me meter noutro comboio para chegar a outra cidade mais a norte, a tempo de ministrar instrução de guerra a soldados que, como eu, já estavam mobilizados para o ultramar, já estavam, como eu, e como se dizia na gíria, a formar batalhão. Às vezes havia camaradas com quem conversar pela noite interminável. Conversar de quê? As mais das vezes, de tropa. De guerra. Da perspectiva de entrar numa guerra, que era coisa de filmes, coisa que, poucos anos antes, não nos tinha sequer passado pela cabeça. Entrar numa guerra…

                              

“E se um dia, quando isto virar, te perguntarem onde estiveste e o que estiveste a fazer entre 1967 e 1970, que é que tu respondes?”
 Um bom e inquietante tema de conversa. E uma conversa que, entre o sério e o jocoso, de facto aconteceu, e mais do que uma vez, comigo e com outros, com toda a certeza, porque ainda, então, havia no fundo de nós um certo sentimento de responsabilidade pessoal no quadro de uma sorte colectiva – sabe-se lá se uma reminiscência inconsciente das conclusões do processo de Nuremberg…
"Vais dizer que estiveste metido numa guerra e foste a África matar os pretos que já lá estavam milénios antes de tu lá chegares? Vais admitir que estiveste comprometido com o regime ao ponto de matares por ele, de perderes a tua vida por ele, comprometido até aos cabelos, e de armas na mão, para safar o regime, o Salazar, vais dizer isso?”
                                                                  
                                                  
Parecia uma conversa de brincadeira, mas creiam os possíveis leitores que tiveram a sorte ou o azar de não andar nestes assados que esta conversa não era brincadeira nenhuma.

Naquelas viagens de uma noite inteira de comboio aquela geração marcada (ou pelo menos os seus mais conscientes, maniqueístas e politizados representantes) ainda reflectia. Reflectíamos, sim, no limite das nossas pequenas posses intelectuais, acerca da primeira e mais forte responsabilidade pessoal, cívica e nacional, bem vistas as coisas, que nos era dada a viver.


O tópico que por um pouco não nos aliviava a consciência política – podem-lhe chamar ideológica, não me importo nada – presente  no limiar de uma culpa era o de que “aquilo” não virava, o regime não virava, não viraria nunca, a nossa fatalidade era eterna, a nossa responsabilidade era toda – ou nenhuma - porque a nossa deprimida intuição era a da eternidade do Salazar.

                                          

A reviravolta súbita do regime seria outro drama. Significaria automaticamente o absurdo da nossa presença naquele comboio de malditos da noite, mostraria o contrasenso daquela viagem e o disparate da nossa juventude ocupada nas lides da tropa, em função de uma guerra inútil que acabaria apenas “aquilo” virasse, apenas o regime mudasse.
Uma viradeira política implicaria principalmente o absurdo mais inquietante da nossa curta vida, que era a eventualidade da nossa morte em armas, a milhares de quilómetros de casa, e por uma concepção de país, de Estado, de nação, de território que o mundo já condenara. O absurdo da nossa viagem naquele comboio só tinha medida na probabilidade de uma morte  próxima, violenta e sem préstimo.
Que responsabilidade a de um indivíduo anónimo e visceralmente civil quando compelido a participar numa guerra?
 É claro que do ponto de vista cívico, ou político, essa responsabilidade não é nenhuma. Sabe-se hoje. É uma questão que não tira o sono a ninguém. Mas tempo houve em que a coisa dava que pensar. Pelo menos a um certo tipo de pessoas. Nunca se sabe o que se vai encontrar numa situação de guerra. Nunca se sabe o que se pode vir a ser obrigado a fazer, ou a não fazer, no meio do inferno de uma emboscada. A questão da responsabilidade  cívica no contexto de um regime de ditadura era algo que – por razões fortes e fundamentadas de anti fascismo – tínhamos metido na cabeça dizer respeito à comunidade inteira. O que, hoje, se calhar, até dá vontade de rir…
A questão do fim do nazismo e o julgamento de Nuremberg abriu alguns alçapões esquecidos da minha memória pessoal, resfolegar de pânicos adormentados, ecos de sensações, reminiscência de coragens, inocências e culpas, mergulho no passado. A responsabilidade. A responsabilidade moral e política. A responsabilidade cívica de poder dizer sim ou não à guerra. E será que sou capaz de matar? Porquê? Em que circunstâncias? Que direito o meu de praticar ou não praticar um acto continuado e violento, provavelmente injusto?

                     
                        


           Óbvio que a responsabilidade política pela devastação do nazismo foi de Hitler e dos seus vértices político-esotéricos de decisão. Mas a responsabilidade cívica ficou agarrada à consciência colectiva e à reminiscência moral individual de quantos o elegeram e de quantos a ele se submeteram; de quantos o aplaudiram, de quantos passivamente o acompanharam no horror. Quero dizer: todo o povo alemão, o Volk, uma entidade que Hitler invocava como legitimação e que nunca poderia ser condenada pela justiça dos homens. E então comecei a cismar no problema à escala sempre pequenina chamada Portugal.


Quando li o livro do jornalista sueco Stig Dagermann, intitulado Outono Alemão, reencontrei-me com o princípio da responsabilidade pessoal que me turbava a consciência (a mim e, felizmente, a muitos outros) na soleira da minha entrada nesse caos inimaginável que é uma qualquer guerra, mesmo pequena,  mesmo  política, mesmo inútil e historicamente perdida (já se sabia disso ao tempo), feita em nome de uma visão do mundo que já não era a minha, que talvez nunca tivesse sido a minha, irremediavelmente infectado dos valores de esquerda um pouco maniqueísta bebidos nos cafés, nas conversas, nos cinemas, na livralhada e nos lugares de trabalho desse Portugal dos anos 60, e querendo, como muitos outros, ser cidadão, ser consciente, progressista, evoluído, racional, culto, moderno. (Revolucionário, não?) E por consequência responsável total dos meus actos, e responsável parcial pelos actos da minha comunidade.

                         

E ainda, nessa época, acreditando piamente na possibilidade do fim histórico de umas poucas de coisas, a exploração do homem pelo homem, o colonialismo, o fascismo, as ditaduras, as guerras; acreditando que as colónias, tornadas novas nações, seriam prósperas, ricas e livres logo que sacudissem o jugo colonial português; acreditando que Portugal seria mais forte e considerado no concerto das nações se se resumisse à sua estatura territorial originária e europeia…
Por acaso, tal não aconteceu, nada do que acabei de dizer aconteceu, ou não aconteceu tanto assim, ou tanto como esperavamos.
Como eramos ingénuos!

                                      

O salazarismo ditador e colonialista não fora pensado nem feito para ser compreendido por jovens inteligentes, irredutivelmente marcados por leituras marxistas.
O peso da responsabilidade política individual que se seguiu à queda da Alemanha de Hitler foi esmagador. Quem tinha permitido? Quem se tinha calado? Quem tinha alinhado? Em que limites se demarca  a consciência política e moral dos povos e dos indivíduos? Onde está a capacidade de solidariedade das gerações?
Na Alemanha, entre 1925 e 1945, ninguém foi nazi e ninguém deixou de ser – salvo aqueles que se declararam individual, responsável e publicamente para um lado ou para o outro. E, mutatis mutandis, em Portugal, entre 1926 e 1974 ninguém foi salazarista nem ninguém deixou de ser – salvo os que se apresentaram de cara pública e aberta para um lado ou para o outro, completamente inocentes, ou irremediavelmente culpados no fim das contas.

                         

Falo, como bem se percebe, do povo anónimo, do indivíduo indiferenciado. A passividade conformada dos povos é um dos maiores mistérios da natureza das colectividades humanas, não obstante todas as convenientes mitologias inventadas pelos teólogos de massas. Quem esteve contra o 25 de Abril na manhã de 26 de Abril e nas outras manhãs todas que se seguiram por muitos e bons anos? Ninguém. E no entanto, na tarde do dia 24 de Abril tudo parecia, enfim, normal, o povo não aparentava queixas de maior que lhe provocassem os calores da sublevação, e as razões que teria para tal, vastas que fossem, e eram, vinham muitíssimo de trás, e não se pode esquecer que Marcelo Caetano fora muito aplaudido dias antes no Estádio do Sporting.

                 

Ninguém esteve contra o 25 de Abril, salvo os que estiveram – é do amigo Banana – e que eram tão poucos e tão específicos que nem lhes podemos chamar povo.


Dá a ideia de que os povos se comprazem numa ânsia de vitimização, ou seja, de irresponsabilidade histórica perante o próprio destino.

                                                                      

Pela parte que me toca na guerra colonial portuguesa, posso dizer que desde o primeiro dia em que entrei num quartel até ao dia em que saí  nunca deixei de pensar em desertar, dizer não…
Mas fui um fraco e nunca desertei. Fui-lhes dizendo que sim…   Porque pouco resolveria para o caso da responsabilidade geral. Porque  Salazar parecia mesmo eterno, o diacho do homem. Porque seria pior para mim e para a minha família, num certo sentido. Porque não tinha amigos em Paris, Moscovo, Praga, Pequim ou Argel. Porque era um borra-botas de um civil anónimo, com convicções mas sem cartão de partido ou sem clandestina vocação de compagnon de route.
E talvez nessa época nos tivessem querido ensinar que a História não era uma fatalidade na vida dos povos e por isso tenham feito  de nós, modestos cavaleiros analfabetos, os figurantes do  exército que desencadeava uma guerra contra o andamento da História, e quando a História era para nós uma responsabilidade também individual e uma oportunidade de resistência. Isso, claro, antes de suspeitarmos de que a História poderia mesmo ser uma fatalidade repetitiva que se determinava nos esconderijos do tempo.
E eramos inocentes, oh, como eramos inocentes! Não se pode ganhar uma guerra mandando-a fazer a mancebos inocentes.

                                                        
Eu acho que todos, ou quase todos, tivemos a sensação pouco amável de termos nascido num tempo errado, sob a circunstância histórica errada.
Lá diz  mestre Umberto Eco que se nasce sempre sob o signo errado e que a maneira mais digna de estar no mundo é ir corrigindo todos os dias o próprio horóscopo.
Fomos, matámos e viemos, pode dizer-se, mesmo levando em conta a brutalidade da expressão. Fomos, matámos e viemos – os que vieram – de inocências perdidas quanto a muita coisa, o Homem, a política. Sim, a História. De inocências perdidas e mais crescidos mentalmente; ou irremediavelmente fascinados pela experiência orgásmica da morte: dar a morte, arriscar a morte, presenciar a morte violenta ao vivo e muito de  perto, tão de perto, quantas vezes, que era como se ela fosse nossa.
Eramos a geração da guerra fria e atiraram-nos para o centro de uma outra guerra bem quente, apesar das dimensões exíguas dela em termos mundiais.
Eramos a geração da guerra fria e coexistimos com outra guerra, muito maior e ainda mais injusta do que a nossa e de infinitamente mais trágicas proporções: o Vietnam.
E enquanto lá estivemos, moços em armas em defesa da nossa pele e das nossas províncias ultramarinas, a vida continuava a fluír, natural e resignada nas nossas aldeias, nas  nossas cidades, sem sobressaltos, sem revoltas, de modo que tudo parecesse normal. A mim, olhem, perturbavam-me os grandes eventos culturais e artísticos a que eu não podia assistir e que continuavam a acontecer mesmo sem mim. Nunca, mas nunca, poderei perdoar ao meu destino a malfeitoria que me fez de não me ter deixado ver ao vivo o Nureyev e a Margot Fonteyn dançar, de não me ter deixado ver e ouvir a declaração do Maurice Béjart, de não me ter deixado ver o Karajan a reger no Coliseu. Por exemplo.

                                        
Ou de não me ter deixado acompanhar na minha cidade as novas do Maio parisiense, saber da invasão da Checoslováquia pelas tropas soviéticas… de não me ter dado a oportunidade de saber no lugar próprio, isto é, enquanto tomava um café no Chiado, que o Salazar tinha caído da cadeira…

                       

Fomos, matámos e viemos. Outros foram e vieram e nem sequer mataram. Outros foram, mataram ou não mataram, mas também não vieram.  Será que todos estivemos no lugar certo e no tempo certo?


                                     
                                                                                     
Matar ou não matar. Aí está a máxima estação de responsabilidade de quem faz uma guerra. Mas que significado tem o acto de matar num quadro geral de guerra?
Morrer ou não  morrer. Eis outra máxima responsabilidade de quem entra numa guerra. Estarei eu ou não disponível para morrer por certos valores? Estarei eu ou não disposto a matar pelos mesmos valores pelos quais estou disposto a morrer? É uma questão simétrica, circular, sim, sim, pois é. E de resposta assustadoramente fácil. E também de resposta impensavelmente difícil quando depende da matriz cultural (evidentemente) em que cada um se inscreve e que cada um não pode mudar nem que se esgatanhe todo.
Eramos, como digo, a geração da guerra fria, que já derivava dos problemas da II Guerra. Eramos a geração que coexistia com um tempo forte de revoluções nacionais e de emancipação dos povos colonizados ou já então neo-colonizados por todo o mundo. Eramos a geração que separava o velho do novo. Eramos, talvez, por causa da revolução tecnológica, a geração que já separava o novo do aflitivamente novo, do novíssimo, a geração que já separava uma civilização de outra civilização, porque já nos andava no sangue a música da estranha civilização que agora começa.
Sabiamos lá nós disso!

                      
                                    










A religião é um embuste necessário. Os maiores meios para embasbacar os tolos não podem ser desprezados quando se lida com uma raça tão imbecil quanto a espécie humana, criada para o erro, e que quando  admite a verdade jamais a admite  por boas razões. Por isso é que é preciso dar-lhe as más razões.
                                                                                
                                                                                                   RENAN                                                 

domingo, 10 de março de 2013


                            
       

                                   

       DEPOIS DE UMA LEITURA (RÁPIDA) DE 
                           BERGSON

        Falar, escrever; a rádio, o blog…
       E depois de uma tangente leitura de Bergson.


                                                     

       A socialização do discurso, dizia ele, Bergson, porque no tempo dele não se falava na ordem do politicamente correcto.
A socialização de um discurso humano, para ser efectiva, implicaria uma impersonalidade (uma impersonalização), a coisa bem feitinha para a maior parte dos gostos públicos, eventualmente com alguma moral para comunicar, quer dizer, ensinar, mas que se não tiver serventías na vida prática e corrente se desvaloriza acto contínuo por intransmissível.
          

Fórmulas há, muitas, que se retêm, por terem a qualidade de serem supostamente aceites por uma maioria. Fórmulas postas em vigor (contra o Passos Coelho, contra o Sócrates, contra o Relvas, contra o Vítor Gaspar, contra a troika, contra o Santos Pereira, contra o Ulrich, contra o Cavaco, contra o governo constituído por uma quadrilha de ladrões, contra a pedofilia, contra a violência doméstica, contra as gorduras, contra o sal e o açúcar, contra a carne de cavalo, a favor das greves e manifestações absolutamente necessárias na construção de conjunturas que farão eclodir a História e que farão cair o governo, o presidente, as instituições…), fórmulas postas em vigor, abençoadas pela maioria de nós, cultivadas na, e pela, televisão; discursos fadados para o sucesso, para a compreensão geral e para a mais alargada aceitação.
Quando um discurso atinge o âmago de uma formulação consabida, absorvida, é um discurso válido, percuciente, não é preciso reflecti-lo, esmoê-lo, pode aplicar-se já no imediato, na próxima convocatória da CGTP (se for contra o status) ou na inauguração de uma próxima dieta (se for contra o sal, as gorduras, o açúcar). Mas não é um discurso pessoal, ou com uma marca pessoal. Alinha no previsível imediato, fácil de digerir. No correcto – mesmo que esteja correcto.
Mente desenxovalhada, espírito aberto, inteligência clara, sim, se a comunicação reverter para o conjunto de ideias aceite pelas maiorias sem discussão. Mente perversa, espírito retorcido, inteligência intermitente, sim, se a comunicação traduz uma concepção um pouco mais personalizada da vida e do assunto sobre o qual se comunica.
O criativo desprestigiou-se. A superioridade intelectual passou a residir na falta de um espírito inventivo.
Não é correcto submeter os destinatários da comunicação  a um pensamento próprio, e menos ainda pretender levá-los a elaborar e emitir o seu próprio e pessoal pensamento. Não é correcto pretender que os destinatários da comunicação escapem, no plano intelectual (e mesmo moral), ao que foi previamente construído por outros para eles pensarem, para o consumo intelectual de todos. Não é correcto querer suscitar nos outros a criatividade que têm em si quando o acervo das ideias aceites pela maior parte estão aí, quentinhas (ou requentadas), mesmo à mão.
Falar. Escrever.Escrever. Falar.



    É mais eficaz a comunicação verbal do que a comunicação escrita. Será por isso que há políticos que (para a mensagem que querem passar) se exprimem razoavelmente pela oratória e que tão mal escrevem.


       Sim, eu sei, acabou de sair uma nova obra-prima do habitante de Belém. Não li, não sei se está bem ou mal escrita – pouco relevante, em todo o caso, porque o mais certo foi a obra ter sido escrita por um assessor, ou dois, e só com uns retoques finais do detentor do título. Seja como for, também este político não constitui modelo nem de uma coisa nem de outra, do bem escrever ou do bem falar. Porque falar não fala quando todos o querem ouvir, ou sobre os temas que todos querem ouvir; e escrever, enfim, escreve um livro que essencialmente serve para explicar porque forte razão não fala do que todos gostariam de ouvir…
          
                                   

       Está tudo muito bem, mas os sábios estipularam com razão que a comunicação pela palavra imediata, falada, por menos nobre e reflectida que seja, é mais fácil de compreender (e de convencer os outros) do que a palavra laboriosamente escrita. A palavra falada (o timbre da voz, o ritmo da frase, a inflexão) vai direita aos sentimentos de quem a ouve. Aí é que está. Misterioso, mas verdadeiro. Sentimentos. A palavra dita é carnal, estabelece conexões, estende fios, inaugura uma relação de simpatia ou antipatia mesmo com alguém que não se conhece.
       Ouça-se o discurso de um bom orador, e leia-se depois o texto escrito desse mesmo discurso. O que soou claro e humano e luminoso e racional e correcto na palavra, surge intrincado, evasivo, controverso, discutível, obscuro no texto escrito em papel. Surge, ou pode surgir.
       Mas nesta vida é natural que as funções se distribuam pelos talentos. E o melhor é cada um não forçar os seus talentos até às regiões inóspitas. Têm de existir os que trabalham para uma minoria de cidadãos maduros e meditativos, e os que gostam de impressionar as maiorias com a variação repetida e irrelevante do discurso que eles imemorialmente conhecem, o discurso de todos.
Pode ser que a decadência do génio (como já Bergson notava) se deva a este desdém do grande público pela visão pessoal, mais ou menos original; ou a esta preferência do grande público pela comunicação formatada do que ele já de sobejo conhece e que foi consagrado como válido, e, mais que válido, correcto. Porque era o espírito inventivo de cada um, a capacidade criativa, sim, que deveria ser estimulada, e não a aprovação banal dos consumidores de fórmulas pré-cozinhadas.
     Pois é, o que é preciso é fazer a nação andar para a frente…
       (Façam um esforço, como eu, não riam.)

                               

terça-feira, 5 de março de 2013






              A MORAL DE BAYREUTH 

                       – A REALIDADE

         Wagner foi o que foi preciso ser. Wagner foi o deus dos deuses, Wotan. Wagner foi o safado Alberich. Wagner foi o luminoso Loge e foi a terrena Erda. Wagner foi Siegfried, o herói. Foi gigante, foi anão, foi profeta, foi mágico, foi incendiário. Wagner foi o que foi preciso ser a cada momento. Assim as circunstâncias se lhe apresentassem, assim ele intimamente se metamorfoseava num demiurgo realizador dos prodígios ou num anão sórdido, desprezível e interesseiro.


         Quando assombrado pelo gigantismo do seu ideal, Wagner tomava a lança do deus, e depois admitia que lhe faltava um templo, porque um deus precisa de um tempo para ser incensado. Um templo que comemora um ideal, mas que é, em si, uma realidade material, prática, dispendiosa. E quando posto perante tal realidade, Wagner não hesita, arroja de si a lança e todos os artefactos da divindade, diminui a sua estatura moral natural e aparece como Alberich. E parte em demanda do ouro redentor. Mas uma coisa era certa: para que um deus tenha um templo e funde uma religião cabe mais aos seus fiéis juntar o necessário para erigir esse templo do que ao fundador da sua própria religião.
         Wagner não conhecia Bayreuth. Mas sabia-a uma pequena e provinciana cidade que tinha todo o interesse em ajudá-lo, quer dizer, ajudar-se a si mesma ajudando-o a desenvolver nas suas colinas verdes e saturadas de energia mística uma indústria cultural, por forma a atrair forasteiros e a fazer crescer a pacata economia do burgo. Uma indústria cultural cuja sede deveria ser entendida e frequentada como um santuário.
         Ficava longe de Munique o bastante para se considerar independente, mas não tão longe que impedisse a Wagner uma visita ao seu régio protector, Ludwig, quando, e se, fosse caso disso.
          Quando, em tempos idos, Wagner dissera que para cumprir em cheio a obra da sua vida precisava da protecção de um soberano, tomara os poderes de Erda, a deusa da terra, e fora profeta: dois anos volvidos sobre essa declaração e eis que sobe ao trono da Baviera quem pode, e quer, acorrer ao financiamento das visões wagnerianas, o príncipe Ludwig, feito rei por morte de seu tio Maximiliano II.


         Mas era de capital importância seduzir a pequena Bayreuth e as suas forças vivas e os seus comerciantes, e revelar áqueles provincianos uma faceta simples e bonacheirona do grande génio da música alemã. Havia que fazer visitas extenuantes, interesseiras e protocolares. Havia que suportar com estoicismo a conversa emoliente dos pequenos burgueses.
O  banqueiro Feustel já apoiara o projecto. Bom seria agora varrer da memória dos bayreuthianos a suspeição de imoralidade, oportunismo, revolucionarismo e trapaça que maculava a aura do génio da música alemã.
Fixar residência a cidade e viver sossegadamente, e fazer-lhes ver que o que corria pelas bocas do mundo a se respeito nada mais eram do que boatos postos a circular pelos seus inimigos.
E que tal endereçar uma carta ao pobre chefe da banda local tratando-o de “ilustre colega”?

Em Berlim, Wagner foi recebido principescamente, criando-se logo na capital do império um círculo wagneriano disposto a providenciar uma orquestra de cem músicos. Aliás, círculos wagnerianos que alastrariam por esse mundo, em França, na Rússia, na Holanda, na Bélgica, na Suécia, em Inglaterra, no Egipto e nos Estados Unidos. E arranjou-se logo um arquitecto para riscar o projecto do teatro. A mulher do ministro real da Prússia encarrega-se pessoalmente da tarefa de recolher fundos. Havia muito dinheiro para arrancar aos wagnerianos de toda a Europa. Mas também era verdade que o dinheirinho sonante tardava a chegar.
Viagens. Würzburg, Frankfurt, Darmstadt, Strasburg, Colónia, Dusseldorf, Hannover, Bremen, Magdeburg, Leipzig. E banquetes, reuniões, recepções, galas, concertos, homenagens. Discursos.
Musico algum na velha Alemanha fora até então alvo de tão públicas e luzidas celebrações, tirante o caso, talvez, de Meyerbeer, ou de Mendelssohn. Para arranjar dinheiro, o mestre até compõe uma marcha festiva para a Exposição Universal de Filadélfia. E além de dinheiro precisa de novos artistas. E continua a caminhar sobre a realidade de olhos postos no ideal. Qual deus Wotan, Wagner vê-se na necessidade de sujar as mãos no vil metal e traficar com os nibelungos e os anões se quer levantar para a sua arte uma residência condigna – ou uma fortaleza inexpugnável; ou uma casa de culto; ou o seu pessoal Walhalla…



                                                                                       

             A realidade investe contra os ideais de Wagner: o proprietário do terreno escolhido para a construção do teatro põe os pés à parede e recusa-se a vender o terreno à câmara. Wagner atira-se ao ar:
- O quê? Edificar o meu teatro onde alguém teve o arrojo de se opor à minha vontade? Nunca!
Princípios.
Mas a mulher, Cosima, encarrega-se da parte diplomática.  E obtém resultados.
Os contratempos da realidade económica, política, pessoal, levantam-se aqui e ali. E aplanam-se acolá. De forma que em 1872 já é possível pensar na cerimónia de lançamento da primeira pedra. Uma inauguração muito simbólica. Seria a primeira pedra de um edifício destinado a ser marco indispensável ao renascimento espiritual da Alemanha. Sim, não era um edifício qualquer. E também marcava uma vitória sobre a tentativa de silenciar economicamente um génio a pretexto daquilo a que se usa chamar de progresso social. Já ia a caminho uma carta para o príncipe de Bismarck em petição de apoios de toda a ordem.

          


Em nome do município, o próprio burgomestre acabara de comprar um terreno. As más línguas espalhavam que não o fizera para beneficio  da cidade, que o fizera para favorecer um negócio privado. E no dia do lançamento da primeira pedra a agitação nas ruas da pequena Bayreutth era inusitada.
Chegaram orquestras de de Viena e de Budapeste, coristas de Leipzig e de Magdeburg; e subscritores; e bastantes jornalistas. As pensões e casas particulares esgotavam. A comida escasseava. Era o dia 22 de Maio, o mestre completava nesse exacto dia cinquenta e nove anos. Caía uma chuva diluviana.    
Mas a celebração musical acontecera no dia anterior. Com a tutelar, titânica e redentora Nona Sinfonia de Beethoven. Quatrocentos artistas sob a batuta do próprio Wagner.


A 22, sob a chuva desmobilizadora Wagner pega num martelo, aplica uma pancada, e ritualmente proclama, emocionado:
- Sê bendita, ó pedra! Sê durável e sê firme! 
Há nomeado um conselho de administração, que reúne no dia seguinte com os delegados dos círculos wagnerianos. Feustel, o riquíssimo banqueiro, preside. Os outros são Adolph Gross, Theodor Mencker, Emil Heckel, Friedrich Schoen. E o próprio Wagner. A realidade crua do projecto é discutida. É bom que se proceda rapidamente, e por isso é decidido o início da construção. Até se marca a estreia do grande festival. 1874. E estipula-se a quem futuramente pertencerão os lugares. Aos protectores e aos subscritores, primeiramente. Mas ainda sobravam quinhentos. Wagner considerava-se presente a uma reunião de amigos e protectores, e em volta de uma ideia imaterial (vamos dizer assim), nunca para discutir um qualquer negócio profano. Diz ele que o patrocínio nunca por nunca se poderá fundamentar no espírito leonino de maximização especulativa. O espírito original do projecto nunca por nunca poderá ser desvirtuado.
- Portanto, meus senhores, é de minha vontade que esses quinhentos lugares fiquem reservados para os artistas pobres.
Na imprensa vienense alguém levanta uma questão de moral particularmente interessante. Wagner é mesmo um homem de sorte. Indispõe-se com a realeza e surge um rei a oferecer-lhe o seu amor. Escreve virulências contra os judeus e muitas das musicais intelectualidades hebraicas se contam entre os subscritores do projecto. Esfalfa-se a dizer mal dos pátrios chefes de orquestra e estes fundam círculos wagnerianos e angariam contingentes instrumentais para tocar em Bayreuth. Cantores que sempre disse abominar, lambem-lhe as botas. Acusava os conservatórios germânicos de serem uma vergonha para o mundo e os alunos desses conservatórios quotizavam-se e ofereciam-lhe dinheiro.


                                                          

Quer dizer, Wagner e o seu ideal iam triunfando em toda a linha sobre a crua realidade.


 Mas essa realidade não deixava de se encorpar sobre a cabeça de Wagner e sobre a integridade do projecto. Os círculos wagnerianos davam magníficos jantares, mas, quanto a dinheiro vivo, estavam todos conversados. O conselho de administração andava de péssimo humor. Os artistas que o mestre via e ouvia por toda a Alemanha, e que pretendia afeiçoar aos seus ideais interpretativos, não lhe serviam. As obras estavam quase a parar por falta de fundos. Ninguém quer avançar no escuro. A menos que Wagner se comprometa a dirigir alguns concertos em cidades mais ou menos importantes. Ele não achava muita piada à ideia, mas não teria outro remédio. A realidade gritava-lhe que, no fim das contas, deveria ser ele a prover o mais do financiamento do seu ideal.
Ele rege concertos, ele discursa às plateias burguesas e às carteiras mais recheadas, ele vai a Berlim ver o marechal Moltke, ele vai ao encontro de professores universitários, ele avista-se com financeiros, ele beija a mão a príncipes de sangue.  Assim angaria mais mais dias ou três dezenas de subscritores de peso.

                    


Mas os concertos que dirige não dão resultados financeiros satisfatórios. Em todo o caso, Nietzsche anda por aí a dizer que Wagner está na moda e que finalmente lhe é reconhecida importância. E na verdade Wagner não hesita um segundo em explorar o snobismo dos notáveis, contanto que lhe dêem dinheiro, porque se não houver dinheiro em abundância é escusado pensar mais em arte e em ideal. E o dinheiro sempre fora a mais calamitosa obsessão dele.
Mais dez subscritores em Colónia. Vem um certo interesse de Viena. E de Londres. Tudo isso é muito bonito, mas a necessidade aperta. Pode ser que lá mais para o verão de 1873 a cobertura do teatro esteja pronta.
Pau de fileira em Agosto de 1873. Discursos. Música. Operários a recitar versos escritos pelo próprio Wagner. Banda militar que toca uma marcha de acção de graças. Mas se não há dinheiro, rapazes, não há palhaços, e as obras podem parar em Outubro.
No dia 31 de Outubro de 1873 Wagner convoca os círculos wagnerianos. Eram duzentos. Só quinze compareceram à chamada do mestre.
Um apelo ao povo alemão. Todo o bom alemão tinha o estricto dever de contribuir. Mesmo os mais pobres deveriam comprometer-se com alguma coisita para a ajuda. Era um apelo-proclamação. Foi distribuído. Todos os livreiros alemães o receberam. Nem um respondeu. A subscrição nacional em prol do grande templo da arte alemã rendeu seis taleres.
O círculo wagneriano de Manheim apela: todos os teatros alemães dariam uma récita, uma, de beneficência, a favor da obra de Bayreuth. Oitenta circulares enviadas. Respostas? Três. Negativas.
A realidade continuava a estender o seu manto cinzento sobre o ideal de Bayreuth.
E dívidas. Claro, dívidas. Wagner era um mestre nessa matéria.
Não havia alternativa às dívidas se quisesse realizar capital. O endividamento teria de ser a base operacional para a impossível questão de moral que Bayreuth constituía para Wagner. Bayreuth teria de financiar Bayreuth se nenhum poder régio interviesse, e depressa.
E pagar as dívidas? É a parte chata até para os estados soberanos metidos a iniciativas de duvidosa utilidade no retorno dos investimentos (como a saúde, a educação, a cultura, a segurança social), quanto mais para particulares, ainda por cima artistas…
Vendiam-se quotas de mecenato. Pois era, e garantias a dar a um conselho de administração formado por banqueiros, e burocratas de moral mais restritiva, muito mais, do que a do mestre? Garantia podia ser o rei Ludwig…


Oh, Wagner, o criador, confundia-se com as suas criaturas. 


Tanto era Wotan na nobreza dos perfumes de um ideal elevado, como não se ralava nada de ser o seboso anão Alberich e ir buscar o dinheiro onde quer que ele estivesse, ou entre os seios das filhas do Reno, ou nos cofres da coroa da Baviera.
Mas às finanças bávaras também não lhes soprava vento de feição.

- Não, não e não – diz o rei.        
E Wagner resmunga:
- Dava a ideia disso, não dava? Mas não, na verdade ele nunca compreendeu a minha arte.       
E ordena que se tapem com tabiques todas as aberturas de estrutura já construida do teatro. Não era por nada, era só para que as corujas não fossem lá fazer os ninhos.
O recurso seria Berlim. Oferecer o empreendimento a Berlim. E Berlim responde politicamente: as coisas de Wagner são assunto bávaro. Nem pensar em cometer a mais pequena ingerência nos negócios do Estado da Baviera.
E como num passe de  mágica. Ludwig adiante o dinheiro em falta, com as contrapartidas já sabidas.
Inauguração marcada para o ano de 1876.


Bayreuth, em termos práticos é um edifício de planta rectangular, em tijolo vermelho e sem muitas pretensões arquitectónicas. Entre 1344 e 1500 lugares, em anfiteatro. Excelente visibilidade. Acústica que num primeiro momento terá defraudado as melhores expectativas. Nove camarotes de fundo de sala, atrás da plateia, chamados dos príncipes e reservados às cabeças coroadas e ouras individualidades convidadas por Wagner. Orquestra invisível e praticamente coberta, organizada em degraus que descem dos violinos (os mais elevados) às tubas, tímpanos e trombones, seis degraus abaixo, e no sentido contrário ao habitual das salas de concerto – o “golfo místico”, como foi chamado, ou “abismo místico”. Nada de foyers para o grosso do público. Foyers só para os notáveis. Mas então… onde se passam os intervalos? Passam-se ao ar livre e campestre. Omessa! E se chove? Se chove passam-se nos restaurantes e cafés que se estabeleceram nas redondezas logo em 1876.
Wagner estava quase a caminhar sobre o arco-íris a caminho da moradia divina, do seu Walhalla. Wagner como o deus Wotan que criara, estava quase a poder declarar urbi et orbi:


- Resplandece, morada gloriosa, resplandece ao crepúsculo, tanto quanto exposta aos dardos do sol e à claridade da manhã. Daqui te saúdo, salva de todos os horrores.
Wagner, de ponto em branco vestido, está na estação e espera o rei Ludwig. É o rei o convidado especial para o ensaio geral do ciclo do Anel do Nibelungo. Já deu a uma da madrugada e o comboio real não há meio de chegar.
Mas o rei sempre aparece. Agitado, doente. Não parece excessivamente entusiasmado com um evento que outrora também seria para ele um ideal.


Ao evento acorrem nomes ilustres da Europa cultural. Num só dia quinhentas pessoas deixaram cartões na salva colocada no vestíbulo de Wahnfried. Elogia-se a tenacidade de um homem. Reis e príncipes e sábios reunidos para homenagear um só homem? Caso nunca visto. E, mais difícil ainda, para homenagear um artista. Onde e que já se tinha visto? Nunca.
No último momento todos pareciam ter compreendido que não estava ali um simples artista. No último momento, finalmente, compreendia-se que a homenagem era prestada mesmo ao templo sagrado da arte alemã.

(Entre a principesca chusma encontra-se um wagneriano de longa data, D. Pedro, imperador do Brasil.)

                                                                  


O pior vai ser o déficit de exploração do grandioso templo da arte alemã, que monta a mais de 120 mil marcos, e com o qual Wagner não está em condições de se haver. O Estado bávaro? Mais uma vez Wagner é avisado de que a régia tesouraria, por via de diversas obras públicas (entre elas alguns castelos inúteis), não está em boa condição. Anunciar o festival do ano seguinte? É uma ideia. Mas alguém terá de o pagar. Quem?
Feustel, o presidente do conselho de administração, comunica-lhe:
- Mestre, compete-lhe  solver todos os défices da empresa. De toda a maneira, o empreendimento é seu, o teatro é seu, a honra é toda sua…
- Ai é a mim que compete?
- Certamente, mestre. Os príncipes, os subscritores e os protectores de Bayreuth não estão dispostos a deixar pingar dos reais bolsos nem mais um cêntimo…
- Ah ele é isso? Pois meus amigos, se esse débito não for regularizado sem mim, acabo por passar o teatro a um desses empresários que praí andam e ele que se avenha, que eu, doente como ando, não estou para me incomodar com mais nada.
- E os lucros que a propaganda do ciclo do Anel estão a ajudar a conseguir por esse mundo?
- Calma aí. Antes de tudo, a cobertura do défice é obrigação de Munique. Ou de Berlim. Tanto se me dá uma como outra. O que posso fazer é repetir o ciclo do Anel à minha custa. Ou então… olhe, Feustel, ou então entrego o teatro inteiro à corte de Munique. É isso. E na corte ele ficará até que a divida para com o rei seja liquidada. Se assim não puder ser, é como lhe digo, pisarei a pés todos os meus ideais, sim, e entrego-o a um empresário.


                                                                           
 

É a realidade que pode levar um idealista, nem que ele se chame Richard Wagner, a essa coisa tão feia que se chama prostituição.
Que a Tetralogia, na mão de um vulgar empresário de teatros, se prostituísse por esse mundo fora já ele dava de barato. Era a evidência da sua renúncia. Bayreuth era um paradigma moral e assim teria de ser defendido, nem que fosse à custa de imorais concessões.


Wagner já estava noutra.
Qual outra? O Parsifal. E esse ninguém teria coragem de o roubar ao teatro de Bayreuth fosse a que preço fosse. Dizia ele.