domingo, 5 de maio de 2013


                       VIA DEGLI AVIGNONESI
   


         Está a dar-me para falar de uma viagem que realmente me apeteceu fazer, e que realmente fiz, em lugar de falar das outras, das que não fiz porque, entre outras coisas, não me apeteceu fazê-las.
         Na conta das (não muitas, por sinal) cidades que visitei comparece, porque não podia deixar de comparecer, Roma. E estando eu um belo dia em Roma (por acaso não era um belo dia, estava frio e chovia água se Deus a dava), numa ruelazinha estreita, escura, antiquíssima, à porta de um modesto restaurante, fumando o meu cigarrinho enquanto não vinha o spaghetti alle vongole vere, eis que a chuva desaba mais forte e me recolho num portal ao lado do restaurante, fumo o cigarrinho, olho lá para dentro, reparo num balcão, tomo conhecimento de que se trata de uma agência de apostas e lotarias, dou uma última passa, deito fora a beata, vou para voltar ao restaurante, olho um pouco para cima, reparo numa lápide e sinto uma espécie de comoção, uma forte comoção cinéfila. Aquela lápide comemorava o lugar exacto onde Roberto Rossellini executara a primeira volta de manivela do filme que, segundo alguns, inauguraria o neo-realismo cinematográfico. Roma, Cidade Aberta.


         Passaram-se anos. Estou de novo em Roma, e agora está sol e calor, e compro um livrinho de pequeno porte. Título: Fare un Film. Autor: Federico Fellini. Meto-o na bagagem e esqueço-o.

         Passam-se mais um ou dois anos, a minha vida transforma-se num vasto espaço de ociosidades, pego num livro ao calha, pequeno, de bolso, levo-o para a cama para me ajudar a adormecer. Fare un Film. Fellini. E a páginas tantas dou com a história (verdadeira) que aqui me trás hoje, e mui prazeroso revivo aquela hora de almoço numa ruela da Roma fria e chuvosa, acoitado no portal manhoso de uma agência de apostas: Via Degli Avignonesi. E fico a saber umas quantas coisas mais acerca das primeiras voltas de manivela de Roma, Cidade Aberta.
      
  A guerra está a terminar. Fellini, ainda que tendo colaborado de uma maneira ou doutra numa ou noutra produção em tempos de guerra, e feito trabalhos de jornalismo cinematográfico, nunca lhe passou pela cabeça vir um dia a realizar um filme. O que ele gosta mesmo de fazer é desenhar, de fazer caricaturas.
         Quando os aliados chegam a Roma, Fellini ganha a vida a correr as esplanadas e os restaurantes e a oferecer-se para debuxar um ou outro retrato rápido, uma que outra caricatura. Já em tempos de liceu fazia isso, corria as praias da terra natal Rimini, smocking e lacinho, a retratar os banhistas em pelota. 
           Desenhar era um automatismo para ele. Era ter papel e lápis a jeito, fosse qual fosse a situação, o lugar, e punha-se a rabiscar desenhos. E depois desenhara publicidade para algumas revistas e jornais. Em tempos de miséria, quando vem para a capital à procura de vida, são os desenhos e as caricaturas que lhe valem. Diz ele que nessa época era magríssimo e que a sua figura devia fazer pena aos turistas que se deixavam caricaturar e não raro o convidavam a abancar com eles e a comer qualquer coisa.

                                              

         Roma é finalmente libertada e é o caos. Nem pensar em procurar trabalho em cinema ou em jornais. Tinha amigos, muitos, amigos dos cafés e das tratorias, que como ele, é claro, passavam dias de muita penúria.


                                                            

         Mas lá está a tal coisa, é a necessidade que aguça o engenho. E uma noite, ele e os amigos, que também eram da arte, tiveram uma ideia. Abrir uma loja de caricaturas – bottega della caricatura. O nome do negócio saíu-lhes rápido da imaginação e ao nome da loja acrescentaram mais alguns pormenores: Funny Face Shop – Profiles Portraits, Caricatures.

         Os americanos estavam por ali. Os GI’s desembarcavam em Roma aos magotes, davam um giro pela cidade, e diz Fellini que faziam bicha (fila) à porta da bottega na expectativa de levarem para o Michigan ou para a Carolina do Norte um souvenir original e personalizado.
         Mas personalizado como?
      Personalizado porque Fellini e os amigos inventaram umas vinhetas que desenhavam em série e com situações turísticas muito típicas – o corpo fardado de um soldado americano a matar um leão no Coliseu; outro, em Nápoles, dentro de um barquito, a pescar uma sereia; outro em Pisa, a aguentar a torre inclinada só com um braço. Desenhavam uns cinquenta exemplares de cada tema deixando o espaço da cara em branco. 
         Organizaram um album com o mostruário dos produtos. E pronto. O cliente camone aparecia. Escolhia o tema que mais lhe agradasse, olhe faz favor, quero mandar para casa um retrato meu a matar um leão no Coliseu de Roma. Estava escolhido o cartão e em três tempos Fellini e os amigos desenhavam e pintavam a cara do rapaz no espaço em branco. Com a cidade cheia de americanos, sul-africanos, ingleses, australianos cansados de guerra, era uma mina.
         Mas foram mais longe. Um outro amigo deles que tinha trabalhado na rádio e na indústria dos discos inventou uma espécie de massa peganhenta que se aplicava em pequenos discos de metal e que podia conservar uma gravação sonora de minuto e meio. Outro ricordo interessante para juntar ao retrato do soldado yankee que aguentava a torre de Pisa só com um braço. Dear mom, yesterday I’ve hold the Pisa Tower with my arm. Dear Mary, yesterday I’ve killed a lyon in Rome Colosseum…

            

         Havia uma cabina improvisada dentro da lojeca onde os camones gravavam as mensagens na placa peganhenta que depois juntavam ao desenho, pagavam, e estavam despachados dali.
         O que os soldados americanos não sabiam era que aquele disco só se podia ouvir uma única vez. Se o fossem ouvir uma segunda vez o peso da agulha removia a pasta e o disco ficavam parecido com um pirezinho de esparguete. Mas como os desenhadores sabiam que as licenças dos soldados eram, em regra, só por três dias, e que no primeiro desses dias davam uma volta sacramental pela cidade, no segundo apareciam lá pela bottega, e no terceiro iam embora, estavam todos de cavalinho, porque quando a vigarice fosse descoberta o soldadinho texano andaria a milhas da Cidade Eterna.
         O pior é que os cálculos de Fellini and friends nem sempre batiam certos com a realidade e algumas vezes tiveram de aturar as enfurecidas reclamações de militares enganados por aquela raça de caricaturistas latinos e lhes atiravam à cara a massa encarniçada e pegajosa da gravação que tinham tentado ouvir uma segunda vez e lhes chamavam bastards, fascists e outros primores. Oh, sorry, very sorry, replicavam os caricaturistas, technical trouble, very very sorry.  E Fellini pinta esses momentos como cenas escaldantes de uma crise em  saloon de filme de cow-boys.


     Uma tarde, a casa à cunha de fardas, soldados, aviadores, marinheiros, sul-africanos, canadianos, ingleses, australianos, americanos à compita para se fazerem retratar e gravar as mensagens, aparece no meio da balbúrdia um fulano  pálido, vestido à burguês, chapelinho, queixo proeminente, aspecto de emigrante. Quem era? Fellini conhecia-o. E ele estava ali mesmo para falar com Fellini. Era Roberto Rossellini.


         Fellini esta a desenhar e a pintar a cara de um soldado americano, inglês ou australiano, mas com traços de chinês. Rosselini faz-lhe sinal. Queria dar-lhe uma palavrinha. Diz Fellini que no entretanto, enquanto ele trabalhava no retrato do chinês,  Rossellini, para criar uma atmosfera favorável, ia fazendo acenos de aprovação ao que ele estava a fazer, para impressionar bem o chinês. E curvava-se para lhe ir falando ao ouvido, para lhe dizer ao que ia. Ia para lhe pedir uma colaboraçãozinha no argumento que estava a preparar sobre a vida de um padre, Don Morosini.
         (Isto pede uma nota explicativa, peço desculpa, mas tenho que dizer que se tratava da vida de um sacerdote que aderira à célula de Monte Mario da resistência romana; que foi denunciado por um bufo; que foi horrorosamente torturado; que guardou sempre um heróico silêncio sobre as actividades da célula; e que, apesar das pressões do Vaticano, foi fuzilado no dia 3 de Abril de 1944. E este parêntesis pede uma nota arrepiante: Don Giuseppe Morosini dirigiu-se aos homens do pelotão de fuzilamento e gritou-lhes alto e bom som as palavras de Cristo na cruz: “Deus perdoar-vos-à porque vocês não sabem o que fazem.” E ainda outra nota ainda mais arrepiante: dos doze elementos do pelotão de fuzilamento, à voz de fogo, dez dispararam para o ar. Don Morosini, atingido só por duas balas, não morreu, ficou ferido e acabou por ser morto com dois tiros na nuca pelo oficial fascista que comandava o pelotão.)
                                                 
         Bem. Fellini vai desenhando e pintando o chinês e vai falando com Rossellini.
- Sabe, senhor Rossellini, eu agora ando muito ocupado aqui na loja… isto está a dar, com os americanos aqui em Roma não há mãos a medir, as liras estão a cair em grande, e caixas de cigarros, e latas de soup and vegetables, de roast-beef, não há tempo para mais nada, e depois, sabe, senhor Rossellini, o cinema, para mim, pff… é um assunto um bocado… um bocado, como direi, remoto… não é coisa para nós italianos, e para mais agora, que estamos a voltar a ver o Gary Cooper, o Fred Astaire, a Harlow… e aquela rapariga com muita habilidade que está aparecer, a Crawford…

   

         Entretanto, o chinês vê Fellini meter o pincel no amarelo e começa a ficar nervoso. Rosselini continua a bichanar-lhe aos ouvidos…
         - É que eu gostava de ter o Aldo Fabrizi no papel do Don Morosini… eu sei que tu conheces o Aldo Fabrizi… an?, que tal? Se tu pudesses dar um jeito, falar com ele e tal… convencê-lo…


         Nisto, o chinês dá um salto, agarra Fellini pelo pescoço, encosta-lhe uma navalha à garganta e começa a gritar:
         - I’m not yellow! I’m not yellow!
         Rossellini quer agrarrar o chinês, quer acalmá-lo, não, não, que ideia, é agora amarelo…
         - Of course… of course, it is true, you not yellow..
         - He made me yellow!
         - Oh, no… you not yellow… - e grita para Fellini: – Per la madonna, Fedé, fá-lo cor de rosa, Fedé… cor-de rosa… não tens aí o rosa?
         Meteu polícia. Sacaram a navalha ao chinês e correram com ele.
         Isto tudo só para dizer que o filme sobre a vida de Don Morosini em que Rosselini pedia a Fellini (ini) para convencer Aldo Fabrizi a aceitar o papel, era esse mesmo. Ou passou a ser esse mesmo, Roma, Cidade Aberta.


         Primeiras tomadas de vistas justamente num teatrinho da Via Degli Avignonesi – aquele mesmo espaço que meio século depois conheci como agência de apostas de má morte.
         Estão a filmar. Em frente do teatrinho há uma casa de putas. Da casa de putas sai um soldado americano, já meio grosso. Sai, a ruela é muito estreitinha e o rapaz tropeça nos cabos eléctricos que fazem parte da maquinaria das filmagens e se estendem pelo passeio. E cai. E parte o nariz. E levanta-se. E cambaleia. E pragueja. Quer saber o que se passa, quem são aqueles, de quem é a responsabilidade de ele ter caído e partido o nariz, quem é que o vai indemnizar pelo sangue que lhe escorre cara abaixo.
         O soldado americano entra no teatrinho aos gritos. Estão a filmar. Pára tudo. Que se passa? Acalmam-no. Fazem-no sentar. Chegam-lhe um lenço para limpar o sangue. O rapaz ainda está meio tonto, confuso. Olha em redor. Que é isto? Reflectores, cabos, luzes, a máquina. Mas isto é cinema, é uma filmagem! Trazem-lhe gelo para pôr no nariz. Dizem-lhe que se está a meio da rodagem de um filme. E é então que o americano se abre todo num sorriso. Estou com a minha gente, diz – ou pensa.
      
      
      Declina a identidade e declara ser um grande produtor cinematográfico americano, sim, Hollywood, claro que sim, oh, oh, oh, claro que faço parte da indústria, produzi este e este e aquele filme. A Fellini, os gestos e as falas do rapaz parecem-lhe copiados de Jimmy Durante.
         - Que me caia já um raio em cima se eu, com o faro que tenho de produtor americano, não estou a sentir o cheiro do próximo grande sucesso para o filme que vocês estão aqui a fazer.


         Tinham-no deixado assistir à rodagem de alguns planos e o soldado-produtor  achou tudo maravilhoso. Thank you. E abraçou-se a Rossellini. Thank you. E abraçou os electricistas. Thank you, thank you. E os maquinistas, e os caracterizadores e o moço do bar. Thank you. E, já que apareceu o moço do bar, fez questão de pagar uma rodada.


         A rodagem de Roma, Cidade Aberta terminava e pelos vistos o soldado americano produtor de cinema ainda estava em Roma quando se organizou o primeiro visionamento. Conta Fellini que no fim da sessão o rapaz estava muito emocionado e tinha os olhos húmidos. E que se levantou do lugar e foi para a frente, para debaixo do ecran. E que falou em voz trémula. Trocaria todos os filmes da sua longa carreira de produtor cinematográfico nos States por um só enquadramento do filme que acabava de ver. Era para ele um orgulho sem fim estar presente naquela data histórica para o cinema. O cinema naquele dia tornara-se finalmente uma arte adulta.


         Abraços e beijos e lágrimas. O soldado foi-se embora dias depois e levou o filme para o promover na América.


         Vem a saber-se que o soldado não era nem nunca na vida tinha sido produtor de cinema. Não passava de um publicitário. Produtor tornou-se ele tempos depois, e também por empenho de Rossellini.
         E o soldado falso produtor de cinema volta mais tarde a Itália como produtor de verdade, e produtor vem a ser ele de um novo filme de Rosselini. Paisà.   

sexta-feira, 3 de maio de 2013


                   A  UTOPIA,  A PAZ E A IMORTALIDADE

                          


Utopia é termo que pode significar uma aspiração natural ao Homem e que, eventualmente, e à partida, o Homem entende irrealizável, persistindo contudo em acreditar nela, mesmo para lá do que se possa considerar como imediatamente racional. A paz entre os homens, a paz universal, faz parte do equipamento utópico do género humano. Parece uma impossibilidade, em vista do que sabemos e do que observamos a toda a hora, mas continuamos a acreditar que pode ser possível. Tal como a imortalidade.

Há quem diga que a qualidade de uma utopia só se descobre depois do desaparecimento dessa utopia, ou depois de deixarmos de levar tal utopia a sério. A utopia poderia bem ser um programa para a sociedade perfeita dos tempos a vir. Falanstérios, comunidades anarquistas, comunidades silenciosas, comunidades rurais, comunismo. Mas uma utopia não tem necessidade de vir a ser uma realidade integral e tangível para abanar a sociologia e a História. A qualidade da utopia é a capacidade de exercer uma influência sobre o pensamento e sobre o real que passa por alto a sua possibilidade prática de realização.
     
                                              

Toda a grande utopia irradia realidade. Pode até promover uma teoria.


A utopia pode inspirar o pesadelo – pensamos logo no totalitarismo -, mas a sua irradiação de realidade posta às avessas pode modificar essa iminência de pesadelo, protegendo a própria utopia da sua probabilidade de realização.
A utopia assenta em pressupostos outros que a realidade. A utopia arrasa, queima, destrói e faz renascer.

                                             

A utopia vivifica a realidade. Toda a utopia é uma síntese entre a razão e o imaginário, entre o sonho e o real. E a utopia aparece e desenvolve-se em paralelo com o aparente triunfo do racionalismo. 
Disse Galileu: a natureza é um livro escrito em linguagem matemática.  E abriu-se assim a probabilidade ao mundo moderno, ao desencanto, à decepção da natureza e do Homem.
Os mais famosos e ousados dos utopistas foram talvez aqueles que revestiram a sua utopia de roupagens científicas. E pensamos logo em Marx, em Engels. E no momento exacto em que um e outro proclamaram o fim do socialismo utópico. Provavelmente mantendo-lhe o núcleo intelectual originário. Provavelmente transfigurando-lhe a linguagem e a eficácia comunicacional, ao declararem inaugurado o o tempo de um socialismo científico.
A utopia pode fazer-se passar por uma ciência quando o sonho regressa à razão e arrisca a hiper-racionalidade e se disfarça de ciência. Caso da dita utopia marxista. O sonho pretende impor-se, e, para se impor, dissimula-se nas costas do racional, imiscui-se e participa na tirania da razão. A razão que pode até transportar consigo um sonho utópico.
                                                                               

Um poeta deve deixar indícios, não provas. Só os indícios fazem sonhar – escreveu alguém, um poeta por certo, quando se deu conta do enfraquecimento que o mundo contemporâneo provocou ao poder de sonhar.
A utopia talvez possa ser uma hipótese de aplicação das regras da poesia ao real prosaico, no sentido de preservar no Homem uma capacidade de sonho. A utopia pode pretender trazer até ao futuro a memória inconsciente e colectiva das idades de ouro já passadas.
É a utopia, aliás, que faz pensar numa idade de ouro perfeita, já não no ignoto e mítico passado, como é comum pensar, mas no futuro. A utopia resiste à modernidade pela recusa que implica ao ilimitado, pelo eco que transmite do mundo antigo.

                                                                           

Por sua vez, e não sei em que contexto histórico-político, Theodor Adorno escreveu: de todas as abstractas noções, nenhuma se aproxima mais de uma utopia realizada do que aquela que nos fala da paz perpétua.

A utopia da paz, se pudermos definir as coisas, é uma aspiração da Humanidade. Mas, atenção, de uma Humanidade moderna. E uma aspiração herdada de uma Humanidade mais arcaica, todavia não muito, se considerada historicamente. A aspiração da paz universal eterna remonta ao século XVIII. Precisamente. Às Luzes. Ao vislumbre  do humanismo que a filosofia das Luzes trouxe ao pensar humano.
Tem-se ouvido falar numa revivescência dos fantasmas bélicos na Europa. E talvez a situação que se vive no presente europeu, se pensado em quadros históricos e político-militares ligeiramente mais recuados, fosse já razão bastante para estarmos no limiar de uma nova guerra europeia.  Porque a paz é uma aspiração predominantemente europeia. E o cerne do pensamento utópico do pacifismo está em pacificar as relações entre os homens e os povos europeus, em primeiro lugar, e porque era aqui na Europa que  se encenavam todas as guerras.

                                     

O sec XIX trouxe alevantadas e pacíficas esperanças. O positivismo. O começo da era industrial. A aniquilação da idade feudal criadora de militarismos e fautora de muitas das guerras mais famosas. Mas tudo descambou no sec XX. As utópicas intenções pacifistas desvaneceram-se no sec. XX, que começa logo por uma guerra em formato insólito até então – mundial – e de violência nunca antes imaginada. Uma guerra que não serviu de emenda, posto que logo de seguida se foi cair noutra ainda mais sangrenta.
O sec XX, posterior às Luzes e aos positivismos, pode considerar-se o século mais violento e sangrento de toda a História do Homem. E, ilustrado por sabedorias anteriores e óptimas intenções e sistemas de pensamento, seria o século mais obviamente fadado para o progresso das ideias de uma paz universal. 
As guerras do sec XX  decorreram de outros conflitos, de conflitos de ordem, se se pode dizer, espiritual, as ideologias, as quais, por seu turno, reflectem os profundos fossos de ordem social existentes na Europa e no mundo, sem falar do tópico espiritual que também podem ser os nacionalismos. E ainda dentro do foro espiritual não tardará aí a religião para repor algum do antigo sabor feudal nas guerras do sec XX. Mas nem por isso, no sec. XX, os discursos de paz deixaram de se fazer ouvir…
A Sociedade das Nações, antepassada da ONU, chegaria mesmo a estabelecer uma lei universal que tornaria a guerra uma ilegalidade entre as nações.


Guerras de emancipação colonial. Guerras regionais e tribais. Genocídios. O Médio Oriente. O Vietnam. A Bósnia. O Kosovo. A Tchechénia. O Ruanda. E mais recentemente a guerra sem fim à vista da actualidade, declarada pelos EUA ao terrorismo maioritariamente islâmico.
Nunca – ou poucas vezes - se esteve tão longe da paz. E nunca a utopia da paz marcou tanto o pensamento do Homem e a acção dos governantes.
A paz perpétua é um sonho, mas nem é um bom sonho – palavras do marechal Moltke.
Mas precisamente a guerra sem fim dos EUA ao terrorismo pretende significar um esforço de paz perpétua pela criação prévias condições à realização dessa paz perpétua, dessa utopia.
Uma paz perpétua parece não ser possível então sem uma quantidade prévia de guerras.
E quem acredita que a multiplicação das guerras conduzirá à paz, nem que seja efémera?

                                                                               

Mas esse desiderato parece ter sido acolhido como destino incontornável pelos EUA no seu esforço de impor uma constituição democrática e republicana a quem quer que seja e funcionando como requisito único de diálogo pacífico entre nações.

Há quantas décadas os EUA, polícias do mundo que, apesar de tudo, ainda se arrogam de ser, não andam por esse mundo a combater guerras como condição de assegurar a paz à escala mundial?
                                                             

Que condições seriam então necessárias para assegurar uma paz mundial e eterna? As melhores condições de vida eternamente garantidas a todos os povos, a todos os homens? Quando chegar o dia em que cada família da África sub-saariana, por exemplo, puder dispor de pleno emprego, uma bela casa, um razoável automóvel, boas roupas, férias pagas, e tudo isto em regime de democracia política e economia de mercado, à ocidental? E como ficará configurado o mundo ocidental quando esse dia nascer?

A criação da ONU, logo após a devastação da II Guerra, visava à erradicação de uma vez por todas do milenar fenómeno da guerra. O primeiro passo para a paz e a felicidade no mundo exterior à Europa e aos EUA era a emancipação do jugo colonial. No seio da ONU a responsabilidade de assegurar o equilíbrio pacífico no planeta recaiu sobre os membros do conselho de segurança.
Está à vista.
Bem podem os estados menos poderosos assinar tratados de intenção pacifista ou constituir tribunais internacionais. Os estados bélicos, mesmo se auto-proclamados garantes da estabilidade e da ordem universais, como os EUA, têm poder e força suficientes para ignorar, se lhes convier, todas as disposições pacificadoras do resto da comunidade internacional.


Mas a guerra, do ponto de vista das relações internacionais, pode ser considerada uma eventualidade normal. Há legitimidades para a guerra. Ou antes: uma guerra pode ser considerada juridicamente justa sem precisão alguma de justificações, ou demasiadas justificações, quanto à justiça ou injustiça das razões de quem a promove, de quem a declara.
Se há circunstâncias no mundo actual que se possam, dentro de certa medida, considerar factores anti-belicistas, um deles é a economia, o crescimento económico, o sistema neo-liberal.
No contexto da convivência económica liberal não há guerra que se possa desejar para lá da guerra da concorrência, dos preços, das taxas de juro, o comércio, as indústrias, o import-export. O liberalismo não olha para as perspectivas de guerra com bons olhos. Bem, a menos que se trate de matérias primas essenciais. Petróleo, nomeadamente. Aí está.
Kant, em tempos de pensamento luminoso, é que chamava a atenção dos príncipes no sentido de compreenderem que a glória deles fundar-se-ia de futuro na cultura interior dos seus estados, mais do que na força das suas armas.
O pensamento medieval, necessariamente cristão, equilibrava-se entre a doutrina da guerra justa – desde que fosse o papa a entidade arbitral – e a ideia de uma paz universal garantida pela estabilidade política do império.
O pensamento moderno tem em conta a limitação das guerras porque também terá de ter em conta que a pluralidade actual dos estados decorre de uma decomposição do mundo cristão.
Deveria caber ao Direito o papel fulcral na garantia da paz perpétua no mundo. As doutrinas do equilíbrio de forças são outras das componentes da utopia, visto que os equilíbrios são precários, sempre foram precários, não obstante as ideias já do sec. XVIII de uma aliança que fosse duradoura entre os estados europeus,  e cristãos. Kant viu bem quando disse que o sistema não funcionaria, a menos que fosse prevista a independência absoluta dos estados e se a totalidade desses estados adoptasse uma constituição republicana.
A paz não poderia ser garantida a não ser entre povos livres e tementes de decretar uma guerra que iria ter desastrosas consequências nos seus próprios territórios e no contexto do belicismo das monarquias absolutas.
Para Hegel, nos seus Princípios da Filosofia do Direito, de 1821, o Direito internacional era uma imperfeição. Faltava uma entidade que lhe arbitrasse superiormente as regras. Para Hegel também a guerra teria a sua moral pela razão simples de poder acrescentar seriedade à existência humana. E o pensamento militarista alemão gostava da ideia de uma moral da guerra e dava-lhe um relêvo que hoje nos custará os olhos da cara a aceitar.


Os atentados do 11 de Setembro, se, ao contrário do que muito se diz, não mudaram grande coisa na lógica de funcionamento deste mundo, vieram sem dúvida troçar dos dispositivos da segurança internacional inaugurados a seguir à II Guerra, nomeadamente os instituídos pela ONU.


O 11 de Setembro fundou um novo e inusitado e quase implausível tipo de guerra quando a atitude geral do combatente de todas as guerras vinha a ser determinada pelo imperativo de salvar a vida para continuar a combater.  Depois do 11 de Setembro, e das centenas de ataques suicidas que se lhe seguiram, percebeu-se que existia uma estranha guerra e que existiam combatentes cuja finalidade não era salvar a vida mas sacrificá-la, deixando a outros seus irmãos a continuação eterna do combate. Decorre daqui, em boa parte, a teoria anti-terrorista americana da guerra sem fim – nunca deixarão de nascer novos combatentes dispostos a imolar-se  e a sacrificar a vida pela sua causa. Uma guerra sem fim, porque sem fim parece ser a disposição de sacrifício daqueles a quem o Ocidente e os americanos dão combate.


Mas nem os acontecimentos do 11 de Setembro, do Afeganistão, do Iraque, e de tudo o mais que ainda estaremos para ver, extirparam das mentalidades a utopia de uma paz universal eterna, que seria achega de monta a outra utopia, a da imortalidade humana. Uma utopia que, paradoxalmente, a ciência vai mantendo viva.


A abolição da morte implicará uma revolução na Biologia, revolução essa que acha a sua aliada na informática.
Quem dominará e comandará os genes que regulam o desenvolvimento dos órgãos a partir de células omnipotentes e capazes de reconstituir qualquer sorte de tecido corporal?
Quem inventará e porá em execução as próteses cerebrais movidas por nano-robots e actuando sobre os neurónios à escala molecular?
Quando poderemos falar do tele-carregamento de uma personalidade com a clonagem informática e a possibilidade de multiplicação infinita de um indivíduo?
Já se esteve mais longe, quer-me parecer.
A utopia, enfim, pode ser o resistente poder de sonhar até num estádio civilizacional que já não convive bem com o sonho.
Edgar Morin propunha reintegrar a incerteza no estudo e no conhecimento do real. Navegamos num oceano de incertezas semeado de ilhotas de certeza. Em 1941, diz ele, o que era mais do que provável, quase indiscutível, era a estrondosa vitória dos nazis e consequente hegemonia deles sobre a Europa. Mas muitos conseguiram acreditar que o impossível podia acontecer. 

Resistir ao real é desenvolver a esperança e não sucumbir a um realismo fatalista. Ou será também inocular no real a contribuição da vontade.
Porque à primeira vista realismo e utopia parecem contradizer-se. E se, para evitar a contradição, avançamos para a utopia realista poderemos causar estranheza. Mas não será um disparate pegado falar de utopia realista.
Não há utopia digna de ser levada a sério – enquanto utopia, obviamente – se não puser um pezinho na realidade. Ou na probabilidade de si mesma.
Tal como, inversamente, nenhum razoável e lúcido realismo passa bem se não for atravessado por um fio de utopia.
Que sabemos nós… ou o que nos será possível saber… acerca da extensa realidade do nosso presente? O conhecimento é interpretação, reconstituição. Não exactamente uma fotocópia da realidade. Além do mais, confundimos muito realidade com realismo.
Ortega y Gasset fala da nossa inconsciência relativamente ao presente. Não sabemos o que se passa. E talvez o que se passa seja aquilo que nós não sabemos que se passa.
O real não nos dispensa a noção de que as forças subterrâneas que formam o presente das nossas vidas nos passam quase sempre desapercebidas.