sexta-feira, 3 de abril de 2020



                   EXISTENCIALISTAS 4

 

Com os substanciais direitos de autor ganhos com o Segundo Sexo Beauvoir comprou um gira-discos e um automóvel. E escreveu ao seu amado Nelson Algren o seguinte: como o amor é proibido, decidi entregar o meu coração sujo a algo menos grosseiro do que um homem: entreguei-me a um belo carro preto.



Era o tempo dos prometidos compromissos políticos. Manifestos, comícios, campanhas a favor disto e contra aquilo (a favor do casal Rosenberg), posições públicas (a questão da Argélia), apoios (Fidel Castro).



Claro que sim, claro que um certo radical chique, digo eu, uma certa militância caviar. Até às indecisões e às estupefacções – Maio de 68, vamos lá, entre maoístas e feministas. E também num tempo de eleições presidenciais, com Sartre por Giscard d’Estaing e Beauvoir por Mitterrand. E quando chegarem os anos 70 é Beauvoir que sai a terreiro contra as leis antiaborto.



Muito antes disso, em 45, Beauvoir passa umas semanas em Portugal. Conferências a convite do Instituto Francês. Comparado com a França desses anos de imediato pós-guerra, Portugal até parecia um país rico. Havia que comer. Havia que vestir. E Beauvoir enche a barriga de bacalhauzadas e sardinhadas, e abastece-se de sapatos e roupas. Bebe vinho verde, passeia pelo norte e por Sintra, vai aos fados, vai aos touros, vê raparigas andrajosas que remexem nos caixotes do lixo. De 7 milhões de portugueses há 70 mil que se alimentam sem privações; as pessoas aqui são tristes porque têm fome.

Numa passagem do romance Os Mandarins pode ler-se o seguinte fragmento de diálogo: mas ainda tenho imensas perguntas a fazer: que impressões levas tu de Portugal? Henry encolheu os ombros. É uma nojice. Porquê? Por tudo.



Por falar nisso, A Convidada, Os Mandarins… a obra romanesca de Beauvoir faz-me lembrar o dito do poeta Alexandre O’Neil sobre os romancistas… contar a vidinha, não é? E assim estava Beauvoir. Pelava-se por contar a vidinha nos romances – já não falando das memórias, que, claro está, era para isso mesmo que serviam. Em 54, sai Os Mandarins, e ela volta a contar a vidinha. E mal disfarçada. Com personagens que se estava mesmo a perceber que eram Sartre, Camus, Arthur Koestler, Algren, as afinidades, as desavenças domésticas e intelectuais, as dissensões ideológicas, amores, traições, ciúmes. Dedica o livro a Nelson Algren. E vence – acho que já o disse- o Goncourt desse ano.



E Sartre fascina-se com o Partido Comunista e com Moscovo e zanga-se com Camus. Anos passados, quando faz os 70, recorda Camus com afecto.


Foi provavelmente o último bom amigo que tive. As simpatias do pós-guerra pela URSS viriam dar razão muitos anos depois aos chamados Novos Filósofos franceses, que lhe apontaram essa circunstancial simpatia pela União Soviética como a loucura de um estalinista confundido.

Sai a Crítica da Razão Dialéctica. Os indivíduos tinham cada vez menos poder nas sociedades modernas. Só na acção revolucionária de grupo poderiam recuperar a liberdade - estava ele a preparar o espírito para os maoístas que o irão seduzir na velhice.



Nessa fase soviética é constantemente convidado para conferências em Moscovo, e é quando, mais uma vez, como já disse, se apaixona loucamente. Por Lena Zonina, a intérprete russa que a União dos Escritores Soviéticos lhe tinha destinado, a voz grave, os seios macios (é ele que o diz), a pele aveludada, os ombros nus, os cabelos negros, o sorriso.


A Zonina achava que ele estava apaixonado por uma fantasia e recusava ser para ele uma espécie de ícone da Mãe Rússia. Ser amante dele (atenção: às escondidas do Partido) ainda vá que não vá, mas nunca a amante soviética. E foi um caso sério, outro, de paixão. O homem andava na fase dos casamentos e também queria dar à russa uma melhor vida em Paris e casar com ela.



Chega a novidade do julgamento e da deportação dos jovens escritores Siniavsky e Daniel, por terem publicado no Ocidente obras contra o regime, e essa novidade apanha Sartre e Beauvoir em mais uma visita a Moscovo. Pedia-se a libertação dos dois intelectuais, e a amante russa Zonina estava num dilema levado de seiscentos diabos e um bocado esquerda com Sartre. Amara-o pela sua liberdade individual e percebera que ele não era tão livre como queria parecer. E Sartre até concordava com ela. Estava a ficar velho, as obrigações acumulavam-se-lhe na vida, e à medida que envelhecia menos livre se sentia.



Não sei se estão lembrados daquela Wanda, a irmã da outra Olga, a que o leva a cortar as relações sexuais com a Beauvoir. Pois não sei se já o disse, também ela tinha, como a irmã, apanhado o vício do palco e não queria outra vida. Alguém que lhe escrevesse textos e a impusesse como actriz, tivesse ela o talento que tivesse. E Sartre vá de escrever peças para ela, As Mãos Sujas (“suponho que sejas meio cúmplice, meio vítima, como toda a gente”).


 Kean (“pergunto a mim próprio se os sentimentos verdadeiros não serão, simplesmente, sentimentos mal representados”)


 O Diabo e o Bom Deus (“a desordem é o que melhor serve a ordem estabelecida”).


Em Junho de 51. Wanda, sob o nome de Marie Olivier, actua ao lado de três monstros sagrados do teatro francês, nem menos que Pierre Brasseur, Jean Vilar e Maria Casarés. Um triunfo. Olga, a irmã, a primeira que dera em actriz, pobrezita, nessa altura estava tuberculosa e já não tinha forças para subir a um palco.



Andavam a beber muito, eles, Sartre e Beauvoir, a beber e a preocuparem-se com a situação do mundo e da Humanidade. E a preocuparem-se com a quantidade de bebida um do outro. Sartre, sempre escasso de tempo para tanta vida, tantos amores, tanto pensar, tanto escrever, descambava nas anfetaminas. Noites em claro, café, álcool, bebedeiras de cair, precisava de deitar mão a tudo o que o compelisse a pensar.



E também os sentimentos de culpa. As mulheres. As mulheres da vida dele. As mulheres a quem ele ia pagando as despesas. Era como Beauvoir já havia pensado: as relações entre os dois sexos eram mais fáceis para as mulheres do que para os homens. E aí entrava o estatuto secundário atribuído às mulheres, estatuto que levaria os homens a sentirem-se culpados quando as deixavam. E lá estava Sartre a ilustrar-lhe a ideia.



Ele odiava cenas de ciúmes e com as mentirolas que pregava não fazia senão provocá-las. Teve de se haver com muitíssimas, e duras algumas. As mulheres, diz Beauvoir, encurralavam-no, e ele levava a vida cheio de pesos na consciência. Sentia-se em dívida quando uma mulher o amava. Até se perguntava até que ponto não seria ele o causador da infelicidade delas. E as amantes parisienses, vivendo a dez minutos de caminho umas das outras, raramente se viam, e nenhuma sabia a verdade, toda a verdade, da vida dele.



E até vem ao caso falar na carta que ele recebe de uma jovem franco-argelina de 19 anos, estudante de Filosofia, em trabalhos com uma dissertação sobre Fenomenologia a que gostava que Sartre desse uma vista de olhos. Sartre aceita. Passam a encontrar-se aos domingos à tarde. Sartre dá a esses encontros uma ambiência de psicanálise – ele, que via a psicanálise como uma violência e aderira ao movimento anti-psiquiatria.

E com essa franco-argelina, da psicanálise à mancebia não tardou muito. Mas também durou pouco, meses. A rapariga, chamada Arlette Elkaim, passiva, toda ela problemas íntimos e familiares, má estudante, sem jeito para nada (mais uma), desperta a Sartre sentimentos paternais. Fosse por isso, vem a ser outra a depender financeiramente dele. E tão dependente era ela que ele a adoptou como filha.



Saía a sorte grande à rapariga. Uma vez declarada oficialmente, legalmente, filha de Sartre, ficava com direitos morais e legais que Sartre nunca na vida pensara em dar a qualquer outra das suas mulheres – e se não os dera a Beauvoir fora por causa da proximidade das idades. Seria então a Elkaim a herdeira oficial e a gestora da propriedade literária de Sartre. Não faltaria muito para ser uma mulher rica.

Ora isto foram facadas para as do círculo mais próximo das amantes e ex-amantes, que se sentiram excluídas da secreta família. Estupefacções e mágoas; pranto e ranger de dentes. Quando soube do caso, Wanda, a actriz (Marie Olivier), espatifou o mobiliário do apartamento que Sartre lhe tinha oferecido e Michelle (a ex de Boris Vian) ameaçou matar-se.



Beauvoir não se conformava com aquilo de Sartre sustentar, e prodigamente, a franco-argelina parasita. Beauvoir não gostava nada dela, é verdade, sentia que a rapariga se roía de inveja dela, o que também devia ser verdade. Teria você aceitado que alguém o sustentasse quando você tinha 20 anos? Sartre argumentou com Van Gogh, que tinha sido sustentado pelo irmão. Pois sim, mas Van Gogh fazia alguma coisa, pintava. Dar dinheiro às pessoas por toda a vida e sem nenhuma reciprocidade? Não acha que isso deturpa as suas relações com elas?



Já falei das anfetaminas. Foi assim mesmo. A fama espicaçou-lhe a criatividade e a já de si enorme capacidade de trabalho, e o momento estava a pedir uma intensificação dos estimulantes. Anfetaminas. Pouco ou nenhum cinema à noite, como antigamente. Acabavam-se as passeatas. Poucas leituras. Todo o tempo era de menos para pensar e escrever e não havia tempo para luxos de liberdade individual.

Nas anfetaminas, os campeões parece que eram, nesse tempo, segundo leio, os jornalistas, metade de um comprimido por dia, ou, no limite, conforme a pressão, um comprimido inteiro. Pois Sartre chegaria a tomar quatro. E sem água a empurrar, mastigados. Chegaria aos quatro e, tempos depois, chegaria aos 20 diários. Estava-se a matar. Mais dois maços de cigarros sem filtro por dia. Mais uns litros de chá e café. A noite era para mandar abaixo meia garrafa de whisky e emborcar outras quatro pastilhas, mas estas para dormir. Andava-se a matar. Basta! Você anda-se a matar! – berrava-lhe Beauvoir.



E no meio disto, o rapaz chegava à conclusão de que a escrita era ocupação fútil, irrelevante. Havia crianças a passar fome. Havia injustiças a mais no mundo. A literatura não levava a lado nenhum de jeito. A política, isso sim, a política sim.

Faz 44 anos e não se conforma. A Beauvoir. Ah, o amor. Relegada para o que chamava de terra das sombras. Virou-se para o que tinha sido amante em tempos, o então jovem Bost. Dá em nada. O rapaz andava a dormir com Marguerite Duras. Nelson Algren outra vez? Pois era, mas estava do outro lado do mundo, longe do Café de Flore e não parecia muito interessado. Sartre… vá lá, amigo, vamos matar saudades e reatar… não, Sartre andava nessa altura doido com Michelle, a mulher de Boris Vian, e até queria ter um filho dela.



E ela, Beauvoir, a sensação que tinha era de estar amputada. Detesto a ideia de mulheres de corpos envelhecidos a agarrarem-se ao amor. Pois detestava. Detestava quando era mais nova. Aos 44 anos continuaria a detestar, mas não via alternativa a ser uma dessas mulheres. Já reflectira sobre isso no Segundo Sexo, as mulheres a perderem a capacidade de atracção antes de perderem o desejo sexual. E para ajudar à infortunada festa descobria um caroço numa mama e entregava-se ao desespero.



Isso do caroço, que me conste, e tanto quanto percebi, parece que não foi nada de mais. Foi operada. E atirou-se a um intelectual judeu, Claude Lanzmann – que mais tarde viria a realizar um longo documentário sobre o Holocausto: Shoah, era o título. Atirou-se a ele e jurou que o amaria para todo o sempre. E ainda viveram mais ou menos juntos por esse todo o sempre, que foram sete anos. E mesmo vivendo com ele incitava-o, qual Sartre em 1929, a sair com outras mulheres, a procurar os tais amores contingentes. E ele obedeceu. E uma irmã dele, Evelyne, vai parar à cama de Sartre e com essa Sartre torna-se sombriamente ciumento.




  A existência continuava a ser uma alegria, apesar de tudo. Uma alegria para esse Claude Lanzmann, que no meio da relação com Beauvoir se apaixona por outra mulher, bela e rica, e deixa Beauvoir às aranhas, inconsolável, lavada em lágrimas – a dizer mal aos amores contingentes, acho eu. Mas recompõe-se. Ok, estava disposta a partilhar Lanzmann com a bela ricaça. Três dias com uma e três dias com outra.

Mas ai… aquele amor era mesmo contingente. Lanzmann é enganado pela outra, que lhe dissera ter 30 anos e que quando ele foi a ver tinha 45. Deixa-a. Quer reconstruir a relação com Beauvoir, mas numa base de amizade – ai… e, digo eu, como tudo isto me parece tão imaturo, coisa de garotos, com homens e mulheres feitos e durázios, e cuja experiência de vida talvez não fosse tanto de vida e mais de literatura.



Ora a França, do império já perdera a Indochina, e em 1955 era a Argélia a estar na ordem do dia e a sobressaltar a consciência politicamente activa e militante de Sartre e Beauvoir.


Os campos começaram a extremar-se radicalmente em vista de uma ameaça muito real de derrocada do império ultramarino francês. Sartre e Beauvoir tomam posições a favor da independência da Argélia. E são apontados como anti-franceses, anti-patriotas.
 

Haverá bombas a rebentar no apartamento da Rue Bonaparte, que era a casa da mãe e onde Sartre estava a morar. Primeiro foi em 61, e um segundo atentado dá-se em Janeiro de 62 e destrói totalmente o apartamento.



Talvez inspirado pelas circunstâncias, Sartre escreve outra peça (a última), e de novo para as ex-amantes, desta vez Wanda e Evelyne (a tal irmã de Lanzmann), Os Sequestrados de Altona. As duas a contracenar com a estrela da companhia, Serge Reggiani. Sobe à cena em 1959. Quem não faz tudo, não faz nada. Quem não faz nada não é ninguém.



As posições de Sartre tinham eco no próprio teatro das operações, em Argel. Os militares em campanha temiam-lhe os artigos que publicava na imprensa de Paris. No filme A Batalha de Argel ouve-se um alto comando operacional dizer que pessoalmente não gosta de Sartre e que não gostava nada de o ter como inimigo. Daí que um batalhão de veteranos da guerra da Argélia a desfilar nos Campos Elísios peçam o fuzilamento de Sartre.



Sartre, com outros intelectuais, assinara o Manifesto dos 121, a exigir a independência da Argélia já!, e mais a amnistia para os militares franceses desertores, e com uma sugestão aos soldados no terreno para se insubordinarem – havia de ser bonito estes manifestos e tomadas de posição acontecerem com intelectuais de cá quando rebentou a guerra em Angola…



Já havia acusações formais contra os signatários do Manifesto. Já havia gente a perder o emprego. E já havia julgamentos e já havia prisões. E Sartre e Beauvoir habilitavam-se ao mesmo e à ira dos veteranos de guerra se no regresso de uma viagem a Cuba e ao Brasil aterrassem em Paris. Não aterraram. Avisados por amigos, não aterraram, foram aterrar em Barcelona e chegaram a Paris por via terrestre. E foram para o apartamento da Beauvoir, e por muito tempo não puderam sair de casa.



E não há outro remédio senão darem uma conferência de imprensa mesmo no apartamento para desafiarem as autoridades a formarem uma acusação contra eles. E as autoridades não formaram acusação alguma. É De Gaulle, a propósito, que se sai com esta: não se pode aprisionar Voltaire. E é quando De Gaulle começa a falar em independência para a Argélia e a concitar, também ele, os ódios da direita colonialista francesa.

Agora era o Prémio Nobel da Literatura que estava na calha para Sartre. Aceitar? Não aceitar? E porquê? Porque não aceitar? Qual era o óbice? Assunto longamente debatido com Beauvoir. O óbice? Se aceitasse, queria dizer que capitulava aos pés da burguesia, ele, o rapaz problemático que finalmente entrava na linha. Então e as 250.000 coroas suecas? Bom dinheiro. Que bem tinha onde empregar – comprar novos apartamentos para as amantes, por exemplo.


A rapaziada da revista que ele tinha fundado, Les Temps Modernes, faz claque para ele aceitar, sim, sim, aceita, aceita, não sejas parvo. Outros amigos acham que não, você não deve aceitar essa merda desse prémio. Sartre nunca mais seria Sartre se aceitasse – não se estava mesmo a ver o cariz político-ideológico do prémio quando dado a Boris Pasternak, e apenas com o fim politico de comprometer a União Soviética?

Sartre escreve à Academia Sueca. Muito respeito por eles, sim senhor, mas eles que fizessem a fineza de não o incluir no rol dos nobelizáveis. E já agora, antecipadamente, e com os melhores cumprimentos, os informava de que se teimassem na ideia de lhe dar o prémio ele não o aceitaria.



No dia 24 de Outubro de 1964, Sartre é declarado vencedor do Prémio Nobel da Literatura. E lá vai ele esconder-se dos repórteres no apartamento da Beauvoir.



É tardíssimo, já passa das duas da manhã, quando ele resolve fazer uma declaração: o escritor não pode permitir que o transformem numa instituição. Os círculos da direita iriam interpretar uma aceitação do prémio como sinal de que tinha sido perdoado pelos pecadilhos esquerdóides do passado.

Aos 55 anos, Beauvoir está novamente a braços com o terror do envelhecimento. Do envelhecimento e do celibato que lhe corresponderia. Será que se lembrou de Ovídio? Peguei num punhado de poeira e segurando-o na mão pedi insensatamente tantos anos de vida quantos grãos de poeira eu tinha na mão: Esqueci-me de pedir que fossem anos de juventude.



Não sei se se lembrou desta. Sei o que ela escreveu, e que foi: Odeio a minha aparência de agora: as sobrancelhas descaídas, os papos debaixo dos olhos, as faces demasiadamente cheias e aquele ar de tristeza em volta da boca que as rugas sempre provocam. O que é que ela queria, menina eternamente mimada e egocêntrica… o que é que ela queria aos 55 anos de copos e de vidas? Que o envelhecimento fosse só para as outras? Conclui que é chegada a hora de dizer nunca mais. Nunca mais a uma quantidade de coisas. Nunca mais um homem…




E começa a identificar-se com uma jovem intelectual apaixonada pela vida. Jovem… sim, 33 anos, e eu reconhecia nela as minhas qualidades e os meus defeitos. Tinha um dom muito raro: sabia ouvir. De seu nome Silvie Le Bon. Depois de breve passagem pela cama de Sartre, nem seria preciso dizer, vão as duas em lua-de-mel à Córsega, em 1965.



Uma infecção no fígado, o ventrículo esquerdo cansado. Sartre envelhecia. Repouso. Mas o médico diz a Beauvoir que o deixasse trabalhar um pouco e sem pressas. A não ser assim, não lhe dava mais de seis meses de vida.



E nisto cai o Maio de 68, e Sartre e Beauvoir declaram-se ao lado dos estudantes.


Sartre participava em sessões públicas e os conselhos que tinha para dar àquela gajada eram nenhuns, não, não tinha conselhos a dar aos estudantes, tinha era muito que aprender com a rapaziada. Notava com gosto que os guedelhudos revoltosos não reclamavam poder, reclamavam liberdade. Se um homem não for contestatário não é nada. 
 
  

Mas também chegou o mês de Agosto desse ano e os carros de combate russos entravam na Checoslováquia.


E Sartre afastava-se da União Soviética e chamava aos russos criminosos de guerra. Não, não voltaria a pôr os pés na União Soviética. Aproximava-se do movimento maoísta a reboque dos estudantes. Iria a Praga com Beauvoir em visita de solidariedade e ambos começariam a andar pelas ruas de Paris a distribuir o jornal maoísta La Cause du Peuple.


O que lhes valeu irem dentro à mistura com 16 hirsutos estudantes. Não aqueceram o lugar na cela. Foram prontamente libertados. Mas os 16 estudantes ficaram lá dentro.



Beauvoir, é preciso dizê-lo, não ia muito com maoístas. Achava-os dogmáticos e violentos e não acompanhava Sartre nessa aventura. O melhor era virar-se para a militância feminista.


Depois de O Segundo Sexo, passara a ser um símbolo dessa luta, enquanto Sartre andava a sentir-se à margem do ambiente intelectual da época, um ambiente que considerava anti-humanista.




A tal Wanda vem a cair nas drogas. E das mais duras. A meter tráficos, desfalecimentos na via pública, perdas de consciência. Era uma paranoica violenta que odiava a irmã, Olga. E não só. Odiava muita gente, toda a gente, mas no top da lista dos ódios pessoais dela morava, destacada, uma figura, Beauvoir. Por causa da Beauvoir andou Wanda pelo vudu, a espetar alfinetes em bonecas, a riscar raivosamente alguma foto de Beauvoir que aparecesse na imprensa. Até que comprou uma pistola. E comunicou-o a Sartre. E disse-lhe da finalidade da pistola, acabar com a raça dessa Beauvoir. E Sartre, excelso intelectual, ficou-se nas covas.



Bom, quem passou à acção foi a nova amiga de Beauvoir, a Silvie Le Bon, que arrebanhou um grupo de comandos com raparigas lá da École Normale e montou um golpe de mão ao apartamento de Wanda, elas disfarçadas de jornalistas da revista Elle que desejavam entrevistar a famosa actriz Marie Olivier. Encantada, Wanda abre-lhes a porta e é imediatamente manietada, enquanto a outra secção do comando lhe vai às gavetas. Queriam a pistola e queriam as cartas que Sartre tinha escrito a Wanda. Encontraram a pistola, mas de cartas, nada. Eramos muito loucas naquela época radical. Não me orgulho deste episódio - confessará Silvie muitos anos depois.



Beauvoir adere ao Movimento das 343, a favor da legalização do aborto. As signatárias – as que alguma vez na vida recorreram a abortos clandestinos: Jeanne Moreau, Catherine Deneuve, Giselle Halimi, Simone Signoret, Marguerite Duras, mais as mulheres do clan Sartre/Beauvoir, mais a própria Beauvoir - a quem se punha a questão de nunca na vida ter feito um aborto. Mero pormenor.

Toda a vida Beauvoir sofrera de quebras físicas e morais, choros, ansiedades, angústias, medo da morte e do vazio metafísico. Admitia no entanto que a assombração que mais temia era a inevitabilidade da morte de Sartre. E quando um dia Sartre lhe entra casa dentro com o braço direito paralisado, a boca à banda e as palavras a saírem-lhe distorcidas, Beauvoir precisa de muita força de vontade para dissimular o pânico. Um enfarte. Proibido pelos médicos de andar. Impossível conversar com ele. O cigarro constantemente a cair-lhe da boca. É preciso ajudá-lo até a comer.
Mas Beauvoir ainda terá mais algumas ocasiões para ficar aterrorizada com a saúde de Sartre, entre recuperações e recaídas. Conta Silvie Le Bon que nessa época Sartre não tinha dinheiro nem para comprar um par de sapatos, enquanto as ex-mulheres mudavam calmamente de apartamento. Em particular a filha adoptiva, a tal Arlette Elkaim, asmática, a quem ele comprara uma casa na Côte d’Azur para ela fugir à poluição da capital.



Como o tempo passa. Foi em cheio no verão quente de 1975 que apareceram por cá os dois, a ver como era para contar como foi. Ver como era o 25 de Abril, a revolução, claro está.



Houve um colóquio com estudantes, e Sartre e Beauvoir ficaram para morrer com a falta de participação do auditório. Faziam perguntas: vocês querem uma sociedade socialista, ou acham melhor uma coisa assim a meio caminho, uma democracia burguesa? Resposta: silêncio. O que os leva a concluir que este pessoal de Lisboa não tinha feito revolução nenhuma e que se tinha conformado com uma revolução que alguém fizera por eles. O que era a mais pura das verdades.



Sartre gostou mais dos operários em auto-gestão. E falou com eles. E falou com escritores que não sabiam o que fazer à vida em revolução e lhe perguntaram como Lenine: que fazer? Isto é o que Beauvoir conta na obra final A Cerimónia do Adeus



Beauvoir põe-se à escrita de um novo livro. Sobre a velhice. Os críticos aproveitam o ensejo para ironizar com piada: depois do segundo sexo, vem a terceira idade.



É num tempo de grandes polémicas, centradas nos movimentos maoistas, que Sartre fica cego. Aceita a ideologia maoista que os da velha guarda sartriana, a começar por Beauvoir, rejeitam. Sartre estaria capaz de pensar sem ver? Beauvoir tem dúvidas. Trata dele como esposa amantíssima e dedicada. No tal último livro que escreve, A Cerimónia do Adeus – quem o leu fala dele como uma obra-prima – descreve os últimos tempos de um Sartre definitivamente velho, incontinente, empobrecido.


No leito de morte, Sartre pede-lhe um último beijo. E dedica-lhe as últimas palavras: je vous aime beaucoup, mon petit Castor. Ou mais ainda: você irá na sua caixinha, de onde nunca mais sairá, e eu vou na minha caixinha, e mesmo que nos enterrem lado a lado, das minhas cinzas aos seus restos não haverá nenhuma passagem.

E reparamos como mesmo os génios do pensamento e da razão a certa hora da vida e da morte, como todos nós,  também se podem tornar chéchés…



Pois é, não se tratavam por tu. Nunca se trataram por tu. Diz Beauvoir: achei sempre muito difícil dirigir-me às pessoas em tom familiar. Não sei porquê.

Se calhar ela até sabia. Mas já aos 10 anos, com a grande amiga de infância, Zaza, usava o formalismo do você. Não gostava de familiaridades, pronto. Dirijo-me a quase toda a gente de maneira formal, à parte uma ou outra pessoa que me impôs um tratamento mais familiar.

Uma dessas pessoas foi Claude Lanzmann. Insistiu em tratá-la por tu, porque não podia ser amante de uma mulher que o obrigasse a tratá-la por você. Sartre dizia a isso: Castor não gosta de dizer tu. E não se pense que isso causava alguma distância entre nós. Nunca estive tão próximo de uma mulher como de Castor. Mas não, nunca nos tratámos por tu.




E chega a primeira morte. Em 1980. Para Sartre. Edema pulmonar derivado da hipertensão ou insuficiência cardíaca. Notícia de primeira página em todo o mundo. O presidente Giscard d’EStaing passa uma hora junto ao caixão. Quereria Sartre um funeral nacional? É certo que nunca quisera honras nacionais, mas o governo gostaria de pagar as despesas do funeral – alguma informação o presidente teria da situação financeira de Sartre, que não deixava dinheiro que chegasse para pagar o enterro. Os amigos agradecem ao presidente, mas recusam. Quem pagaria? Alguém havia de pagar.

Há fotógrafos por todo o cemitério de Montparnasse. Beauvoir lança uma rosa vermelha sobre a pedra tumular. O funeral resulta em festa e manif de juventude.


Em Beauvoir vê-se uma viuvez pública. Com grandeza. Sem lágrimas. A filha adoptiva, Arlette Elkaim, a asmática, está nesse momento a esvaziar de mobílias e de tudo o apartamento do falecido.



Na mesma linha de Sartre, Beauvoir adopta uma filha. Quem havia de ser? Silvie Le Bon, última companheira, tornada Silvie Le Bon de Beauvoir. Beauvoir que vem a morrer em Abril de 86.



A publicação da correspondência do casal causa um estrondo escandaloso. Previsível, aliás. Finalmente, o mundo era conhecedor dos meandros do famoso pacto, dos trios, das descrições de Sartre quanto à operação de tirar a virgindade às namoradas que ainda a tinham, as ligações lésbicas de Beauvoir. Um estendal de voyeurismo, de exibicionismo, de mentiras – e de existencialismo, vamos lá, se quiserem.

Falou-se muito disso na época. Bernard-Henry Lévy classificou a relação Sartre/Beauvoir como uma sorte de Liaisons Dangereuses do século XX. E um belo romance de amor, em todo o caso.

Foram inseparáveis, na vida, no pensamento, na escrita. Leram-se obsessivamente um ao outro antes de publicarem o que quer que fosse. A crítica americana arriscou dizer que a parte substancial do pensamento de Sartre lhe vinha de Beauvoir. Não sei se acredite.



Há várias mulheres na minha vida, sabe – uma entrevista ao Nouvel Observateur em 1975. – Embora, num certo sentido, Simone de Beauvoir seja a única.

E como consegue lidar com todas essas suas mulheres?

Minto-lhes.

Mente a todas?

A todas.

Mesmo a Beauvoir?

Particularmente a Beauvoir.

Beauvoir que viria a declarar: Houve um sucesso indiscutível na minha vida: a minha relação com Sartre. Em mais de 30 anos só uma vez nos fomos deitar zangados.




                                    FIM

 

  

quinta-feira, 26 de março de 2020




                      EXISTENCIALISTAS 3
 
       E dizem… li num dossier organizado pela revista Magazine LIttéraire… dizem os críticos, ou aqueles que tudo sabem da vida sexual das grandes personalidades, os historiadores, os investigadores… dizem… disseram… que Sartre nunca terá proporcionado especial prazer sexual a Beauvoir. Deu-lhe, isso sim, quanto a isso tenho a certeza, um imenso prazer intelectual. O que, em certos casos, pode funcionar como um elemento supletivo de sensualidade, também estou convencido disso, uma overdose de líbido… ai que bom estar na cama como este homem (mulher) tão inteligente… ai esta sensibilidade, estas magníficas e tão bem torneadas frases que ele, ou ela, diz… qualquer coisa assim.


E como já se deixou ver, não é precisamente sobre a obra e o pensamento de Sartre e de Beauvoir que eu quis organizar esta minha conversa.
Questão de moral, isso sim, pode ser. E este factor humano que é comum a génios e a destituídos, o desejo, a repulsa, o afecto, o ódio, a liberdade, a solidão e a alegria, o que não for literário nem imediatamente filosófico – sem deixar de o ser, aí é que está a piada; sem deixar de o ser e de intervir na letra e no pensamento. A vida privada. Uma autonomia de vida. Uma soberania pessoal. Liberdade, ora aí está! A existência apela à liberdade individual, a tocar aqui e ali a libertinagem e a felicidade (le bonheur) no desprezo possível dos códigos de classe e de sociedade, das convenções sempre capazes de castrar impulsos e contribuir, quantas vezes, para muito do nosso mal-estar de vida.


Também acho que já o disse, que quando (os cafés!) comecei a ouvir falar das relações deste casal singular, assim por alto, isto do amor livre, anos 60, eu pelos meus 18, 19 anos, a impressão foi de uma idealização dessas míticas vidas de Sartre e Beauvoir. Quando mais recentemente, com os meus 18, 19 anos muitíssimo distantes, me fui às fontes, o meu desconsolo, não posso negar, foi algum. Havia, à superfície da letra, pouco ideal e muito material, e muito físico. Disse à superfície da letra, porque no profundo do espírito é difícil, ou impossível, penetrar. É que as teorias de amor caem sempre em cheio sobre o maravilhoso. É a prática do amor que nos dá a volta à cabeça.
Mas a prática amorosa, ou, talvez melhor, o princípio amoroso Sartre/Beauvoir, foi uma moda conjugal, por assim dizer, para os baby-boomers filhos do pós-guerra, como eu, nesta Lisboa dos anos 60.


 No memorial A Força das Coisas, Beauvoir confirma. Há muitos casais que estabelecem mais ou menos o mesmo pacto que eu fiz com Sartre: manter, a despeito de todos os desvios, o caminho principal, uma certa fidelidade. E um compromisso destes tem os seus riscos. Questão de moral pessoal, sim senhor. Um pacto baseado na verdade, não na paixão, insisto.
Se porém os aliados mantivessem relações sexuais esporádicas, passageiras (contingentes), não haveria crise. Mas isso também quereria dizer que a liberdade deles nem mereceria tal nome. Sartre e eu fomos mais ambiciosos, queríamos viver também os amores contingentes.


Contou Beauvoir que em 1945 o existencialismo andava na boca dos franceses. Uma filosofia da consciência, consciência que era abertura ao mundo e perda nesse mundo. O existencialismo era o existir fora de si. Ou para além de si. O Homem que é atirado para as coisas, para os fenómenos. Coisas, fenómenos, que são o cerne da existência mesma. E se a existência é um dado gratuito, o sentido só poderá ter origem no Eu, nos actos e nas escolhas de um Eu para sempre condenado à liberdade.
Num café de Paris, uma senhora enerva-se, solta um palavrão, depois cai em si, pede desculpas aos circunstantes. Dizendo: perdão, eu devo estar a tornar-me existencialista.


É por essa altura que Sartre profere uma conferência, sob o título O Existencialismo é um Humanismo – que veio a dar em livro e chegou a ser publicado em Portugal (eu li-o no intelectual café, e não me perguntem o que na altura tirei dele).


O existencialismo era, portanto, e essencialmente, um humanismo (o que hoje nos parece mais do que óbvio), e Sartre declara à vasta e douta assistência que a filosofia dele não era a priori positiva nem negativa. Mas o caso é que Deus não existia, e o Homem construía-se a si próprio, sem tutelas espirituais, e assim se tornava responsável pelo seu destino, por aquilo que era ou que viria a ser, sem alibis, sem desculpas.


O Homem estava condenado a ser livre – uma chatice. Porque a existência lhe precedia a essência. E a existência era um absoluto de liberdade pessoal. E tal circunstância tinha fatalmente aplicação aos lances do amor. Amor só haveria aquele que era construído. O amor só se manifestaria no decorrer de uma relação amorosa… ui, onde esta conversa nos levaria… e nessa conferência houve desmaios, desacatos, cadeiras pelo ar…


E do companheiro Sartre, Beauvoir disse que no plano literário ele sonhava ser ao mesmo tempo um Stendhal e um Spinoza. Segundo ela, Sartre teria lido a Chartreuse pelo menos vinte vezes. Aliás, Beauvoir elevaria Stendhal às alturas no seu Segundo Sexo. E mais porque Stendhal nos seus livros nunca fez das mulheres simples e irrelevantes objectos, fez delas sujeitos de parte inteira. Stendhal não se limita a descrever as suas heroínas em função dos seus heróis, antes lhes confere um destino próprio. Para ela, Stendhal era o mais moderno dos romancistas, comparado com Lawrence, com Claudel ou Breton, a quem chama de escritores machos, odiosos ou ridículos, embrenhados no mito do Eterno Feminino.


Não nascemos mulher, tornamo-nos mulher. Frase forte do livro O Segundo Sexo. E não se pode esquecer que, não obstante todas as iniciais dúvidas, Beauvoir era existencialista, pensava existencialista. Logo, não jurava pelo que se costuma chamar de natureza humana. Tudo seria construído e a feminilidade também seria uma construção pessoal e social. E em todas as culturas que estudara o homem era o sujeito e a mulher era o Outro. Porquê?


A unidade de medida do existencialismo, já se viu, era a liberdade. Mas a liberdade era um nunca-acabar de obstáculos para as mulheres, e a sociedade ainda não estava preparada para encarar a mulher como ser livre – isto em 1949… hoje já deve estar (ainda não?).


E o livro O Segundo Sexo, em 1949, foi um escândalo. Beauvoir tinha ido longe, mais longe do que as escritoras a que os franceses chamavam travestidas, George Sand e Colette.


Dessa obra – como já da escrita de memórias – ressaltavam certos mal entendidos. Beauvoir perguntava-se: alguma vez eu escrevi que as mulheres eram como os homens? Alguma vez eu pretendi não ser uma mulher? Não. Nunca. O esforço assentava na definição das particularidades individuais de uma condição feminina, que era a dela. Que a feminilidade não era em si mesma uma essência, uma natureza inelutável. Que a feminilidade era, sim, uma situação criada, histórica, civilizacional, a partir de certos elementos fisiológicos, bem entendido. Eu não negava a minha feminilidade. Mas também não a assumia. Nem pensava nisso. Eu tinha as mesmas liberdades e as mesmas responsabilidades que os homens.


Oh, mas será que pesava alguma maldição ancestral sobre as mulheres? Pesava, sim senhora. E era o sofrerem. E era o acomodarem-se. E era o felicitarem-se até pela dependência. Uma dependência a que eu fui poupada. Ser feminina era apenas um dos dados da história pessoal de Beauvoir. Não era uma explicação.


Recuando a 1946, parece que estou a ouvir Beauvoir a discorrer com Sartre. Que significa ser mulher? Sartre a objectar que para ela nem significava assim tanto como isso. Omessa! Pois não, ela levava o mesmo tipo de vida que os amigos homens, era uma privilegiada. Alguma vez você se sentiu inferior por ser mulher? E o resultado desta conversa foi Beauvoir ter posto de lado tudo o que planeava escrever e passar várias semanas encafuada na Biblioteca Nacional a recolher materiais para o que desejava fosse um extenso ensaio. E foi. O Segundo Sexo. E até ganhou a fama de ter sido um marco literário do século XX.


Tudo muito bem. Ou tudo muito mal para as feministas mais radicais, que criticaram com desassombro os valores masculinos em que Beauvoir fundava o seu feminismo, nomeadamente a indulgência para com esse execrável chauvinista-machista que era o Sartre.
A Beauvoir a escrita romanesca começou por não convir muito. A princípio. É Sartre que a convence a experimentar o romance – como já vimos. E enquanto o desenvolto Sartre, heterogéneo e saltitante, dá à evidência a capacidade de transitar calmamente de género para género, romance, teatro, ensaio, tratado filosófico, e até o script para um filme de John Huston – que se realizou de facto, Freud, mas não com o guião de Sartre.


 Beauvoir concentrou-se na coerência e no rigor de pensamento. Ensaios escritos de 1949 a 1974, está muito bem, mas fundamentalmente romances e memórias, desde sempre até à velhice, até aos últimos alentos.

Bom, a escolha deles, deles os dois, estava feita há muito – desde 1929. Prioridade de vida: a literatura. Cada um tinha a sua obra para cumprir, a sua vida de trios e quartetos amorosos, o seu destino, enfim, para viver. Juntos. Livres.
Em 1938, Sartre irrompe pelas consciências contemporâneas quando publica o primeiro romance de grande sucesso, A Náusea. O existencialismo. A angústia. O Nada. A chatice da liberdade, da responsabilidade. Onze anos depois, é Beauvoir quem revoluciona o pensamento francês com O Segundo Sexo. Em 54, Beauvoir ganha o Prémio Goncourt com Os Mandarins.


E dez anos depois do Goncourt de Beauvoir, Sartre ganha o Nobel. E recusa-o.
Desculpar-me-ão, mas… eram tempos infelizes, é verdade, mas podia-se pensar, pensar autonomamente, sem ter que seguir qualquer cartilha de correcções ou corrente de bom comportamentismo, de formatação, de unicidade de pensamento. E até é muito por isso que gosto de falar destes tempos imperfeitos da sociedade humana – ah, sim, imperfeitos para as bitolas de hoje: a perfeição parece que é hoje o mercado soberano, os investidores anónimos, as redes sociais, o pensamento único, a chamada democracia, o santificado Estado de Direito, a inovação tecnológica… só.
Ah, e os vírus... mesmo a calhar para a economia liberal, que (a crer nas estatísticas) se vai vendo livre dos velhos improdutivos que só andam por aí a sobrecarregar os orçamentos de Estado.


Bom, mas eram tempos, aqueles, em que se pensava, sim, mas pensava-se, digamos, comunicativamente. Quer dizer, um pensamento que ultrapassava a cavilação escolástica e era publicado, publicitado, lido, posto ao alcance do vulgo para suscitar adesões e repúdios. Um tempo de intelectuais próximos do homem mediano, apesar de todas as densidades filosofantes. De Sartre, Beauvoir, Camus, Merleau-Ponty, Raymond Aron, e muitos outros, pensadores conhecidos, apreciados, criticados, eram-lhes conhecidas as posições.


 Pois é… é verdade… os tempos não são comparáveis…

   
E vem a ser o pós-guerra a trazer finalmente a fama mundial ao duo Sartre/Beauvoir. O Homem estava para ser recriado e era essa a missão do casal Sartre/Beauvoir – o homem e a mulher, para sermos mais politicamente correctos. Beauvoir chega a dizer que Sartre vivia, viveu, para escrever e mais nada, como se tivesse mandato para testemunhar sobre todas as coisas que aconteciam, que existiam – existencialismo, está bem.
Ora então, mundialmente famoso, Sartre nunca mais pára e é convidado para conferências por esse mundo fora.





 A primeira viagem é a Nova York, como jornalista, e curiosamente em serviço tanto para o esquerdista Combat – de Camus – como para o conservador Le Figaro. E pronto, apaixona-se por uma americana. Dolores Vanetti – o homem medularmente racionalista era inesgotável nas paixões: vai à União Soviética e apaixona-se pela tradutora Lena Zonina; vai ao Japão e enamora-se pela intérprete japonesa, Tomiko Azabuki; vai ao Brasil e cai de amores no Recife por uma jovem jornalista brasileira, Cristina, 25 anos, ruiva, virgem, com quem pensa logo em casar - ele, que se enchia de urticária em 1929 quando se falava de casamento...
Beauvoir diz-lhe: em quase todas as viagens que fizemos, ou que você fez, houve sempre uma mulher que foi a encarnação do país.


A guerra dividiu a minha vida em duas, diz ele. E foi. Antes da guerra, tirando o círculo apertado dos amigos intelectuais e dos confrades, quase ninguém o conhecia. Depois da guerra, a bem dizer da noite para o dia, Sartre passa a ser um nome mundialmente conhecido. Beauvoir não passa sem comentar: tive pouco peso nisso, mas Sartre foi brutalmente lançado para a arena da celebridade e o meu nome ficou associado ao dele.
Todas as semanas os tabloides parisienses passam a publicar boatos sobre o célebre casal existencialista. Sartre e Beauvoir mal podiam andar na rua sem verem os paparazzi a persegui-los como se fossem estrelas pop. E sai o romance de Boris Vian, A Espuma dos Dias, em que as personagens principais são duas estrelas da intelectualidade parisiense Jean-Sol Patre e a Duquesa de Bovouard. O jornal sensacionalista Samedi Soir chamava a Beauvoir La Grande Sartrienne ou Notre Dame de Sartre.
Caso engraçado, contado pelo escritor espanhol Jorge Semprun, foi que, naquela vaga de existencialismo, havia um homem parecidíssimo com Sartre que batia as mesmas ruas lá de Montparnasse, parava nos mesmos cafés que Sartre costumava frequentar, e que costumava gritar, furioso, da mesa do café onde estava, ou quando na rua alguém passava e olhava para ele, eu não sou Sartre!, sósia, sim, mas não sou Sartre!


E o mais engraçado ainda é que esse homem era mesmo Sartre, no auge da celebridade, a não querer que o incomodassem com conversas ou a pedir autógrafos.
Nova York. Aventuras americanas. Sartre aterrou em Nova York no dia 13 de Janeiro de 1945. Não sabia inglês, nunca tinha andado de avião e apanhou logo uns sustos valentes com os poços de ar, numa viagem que durou dois dias, com três escalas.


E depressa se encantou com essa tal  Dolores Vanetti, moça ainda mais baixinha que ele, de pais italianos, que falava francês e lhe serviu de intérprete. Viria ela a recordar que Sartre estava num estado de tensão e efervescência, sempre a falar e a contar histórias divertidas, e a puxar-me para a vida dele.
Quando a comitiva dos jornalistas franceses volta para Paris, Sartre não descansa enquanto não regressa a Nova York à procura da Dolores Vanetti. E por lá fica algum tempo. E como Sartre não havia meio de voltar a casa, as comunicações eram más e ainda havia guerra – e não havia telemóveis nem internetes, e hoje é sempre bom recordar isso a quem não viveu, ou a quem já não se lembra que houve tempos na História humana sem essas coisas – Beauvoir cumpre a cartilha libertária do existencialismo e a correlativa liberdade individual, e cai nos braços de um actor meio russo que estava justamente a representar um papel numa peça de Sartre, o Huis Clos. Nos braços desse e, já agora, nos braços de outro com quem em tempos idos, antes de Sartre, e platonicamente, ela tinha namoriscado, René Maheu.


Sem querer fazer a parte da alcoviteira, tenho a dizer que nesse entretanto, em Nova York, Sartre (acabadinho de fazer 40 anos) está desgostoso com Dolores, porque ela quer acabar com tudo. Note-se que ainda não havia tempo para ela se ter tornado existencialista, e da moral de vida dela ainda fazia parte a fidelidade tout court e, assim sendo, não podia levar à paciência a existência de outra mulher, a Beauvoir, na vida de Sartre.
Mas é claro que Sartre regressa a Paris. Regressa a Paris, e, apesar das juras que tinha feito a si próprio de nunca mais querer saber dela, não se contém e escreve à Dolores. Ora nessa altura a Dolores (certamente a acusar os primeiros sintomas de existencialismo) começara a dormir com o amigo de Sartre, Bost, sempre ele (se estão lembrados ex-paixão de Beauvoir), que também estava na América como jornalista.


 Mas mesmo assim, Dolores responde carinhosamente à carta de Sartre. E as bombas atómicas caem em Hiroxima e Nagazaki, e Beauvoir sente que para ela o mundo nunca fora tão terrificante como nesse momento.


Com respeito a ciúmes, Beauvoir declara que aquela Dolores foi quem mais a mortificou. Porque a sentia como uma mulher hostil. É que a Dolores queria mesmo casar com Sartre, e é evidente que também nutria ciúmes fatais da Beauvoir, a pontos de proibir Sartre de lhe falar na Beauvoir. A paixão dela assusta-me – escreve Sartre de Nova York. Em especial por não ser esse o meu forte. Estou ansioso por chegar a casa. Estou meio morto de paixão e de tantas palestras. Oh, mas espera aí, a Universidade de Columbia estava a acenar-lhe com um belo contrato de dois anos, e ele, em segredo, já tinha pedido a Dolores Vanetti em casamento.


Honestamente, diga-me lá – a Beauvoir a falar, desabrida, num café de Paris. Quem é mais importante para si, essa Dolores ou eu? Sartre responde, circunspecto: Dolores é muito importante para mim, mas é consigo que eu estou. O que ele queria dizer, pensou ela, é que estava a respeitar o pacto de 1929, quando o casamento para ele eram facadas, e não se falava mais nisso.


Sartre está apaixonado pela Dolores, sim senhor, mas uma coisa era estar apaixonado por uma mulher, e outra coisa era desistir da vida que levava para se casar com ela. Sim, casar com ela, Dolores não fazia a festa por menos do que isso.
E Sartre paga do seu bolso o caro e difícil divórcio de Dolores de um primeiro marido americano, e Dolores fica a viver em Cannes, à grande e, evidentemente, à francesa, à custa de Sartre, e à espera da hora em que ele se case com ela. Mas o pior para ela era que Sartre se tinha entretanto apaixonado pela mulher de Boris Vian, Michelle – Vian viria por muito tempo a chorar-se e a acusar Sartre de lhe ter roubado a mulher.


Vamos lá a ver… sexualmente, o confessado herói da vida de Beauvoir não julguem que foi Sartre. Não, senhor. Foi um apagado escritor americano, de seu nome Nelson Algren. A quem ela até chegou a chamar de marido. De quem ela guardou um anel até à hora da morte.


(Pois é isso, existencialismo, amor livre, amigos, amantes, trios, quartetos… mas a sombra do casamento e da vida burguesmente sossegada não lhes saía da cabeça…)
Já se vê que Sartre não lhe ficava para trás nos projectos com a Dolores. Mas o certo é que se fartou dela. Por uma vez na vida, Sartre ficava pelos cabelos com uma mulher. E rompe com ela – ao que se diz com a ajuda da Beauvoir. E viria o tempo em que o tal plumitivo americano também ficaria pelos cabelos com a Beauvoir e a deixaria. Para os dois existencialistas o mais importante de tudo mantinha-se intocado, ora bem: o pacto de 1929.


Até às três da manhã bebo whisky docilmente. O whisky é uma das chaves para a América. Assim mesmo, Beauvoir também teve a sua conta de aventuras americanas. E resolve tê-las pelo cair da noite de Manhattan, a pensar que o melhor para penetrar aquela cultura estranha era arranjar um amante americano.
Estava lá para fazer conferências, já se percebeu. Mas foi encontrar-se com a rival, Dolores Vanetti. Relutantemente. Se recuarmos só um bocadinho no nosso tempo narrativo, diremos que nesse momento a Dolores estava em vésperas de partir para Paris onde se encontraria com Sartre na expectativa de vir a casar com ele. No encontro dela com Beauvoir, em Nova York, o whisky também escorreu a jorros. E Beauvoir faz o relatório para Sartre: pois olhe, gosto muito dela, fiquei contente, compreendi-lhe os sentimentos e consegui valorizá-los, e a si também, por senti-los. E mais notou que a pequenina e reboluda Dolores Vanetti lhe fazia lembrar um ídolo anamita.
É nesse entremeio que alguém lhe dá - a Beauvoir - a morada e o número de telefone de um escritor americano, o tal Nelson Algren. Quando chegares a Chicago procura Nelson Algren, disse-me um jovem intelectual quando estive em Nova York, em 1947. E ela enche-se de coragem e telefona-lhe. E atende uma voz de homem. E ela fala. E o homem desliga. E ela torna a ligar. E fala mais alto (com o imprescindível sotaque, claro). E o homem diz-lhe que é engano. E ela não desiste e pede ajuda à telefonista. Tenho alguém em linha que deseja falar-lhe, Mr. Algren. Por fim, Algren atende.


Atende e aparece. Aparece para mostrar a Beauvoir as vistas da cidade, clubes de strip tease, bares de negros e pubs de gangsters.


E confessa-lhe: era em sítios daqueles que se sentia em casa. E assim foi. Paixão de caixão à cova.


Mas Beauvoir não se esquece do pacto de 1929. E escreve a Sartre – então já em pulgas para se ver livre da Dolores: mais do que a libertação dos nazis, mais do que a minha viagem à América, é sempre você a experiência mais extraordinária da minha vida, a mais forte, a mais profunda e verdadeira.
Isto é bonito.


Anos passados, bastantes, mesmo assim, Algren vem a ler o livro de memórias de Beauvoir em que é contado o primeiro encontro entre eles, e vá de escrever, ele também, um artigo numa revista americana. Quando chegares a Paris procura Simone de Beauvoir, recomendou-me um pseudo-intelectual. E Algren escreveu estas e outras coisas engraçadas. Diziam-me que para uma boa escritora ela era surpreendentemente sentenciosa, desprovida de sentido de humor e tirânica. E se calhar era mesmo.


É preciso ver que aquele escritor americano, Algren, não fazia a mais pequena ideia, em 1947, de quem fosse Simone de Beauvoir, de quem fosse Jean-Paul Sartre, e muito menos que raio vinha a ser essa bizarria do existencialismo. Mas Beauvoir até se sentia muito bem, muito feliz por essa ignorância do amante. Feliz, pois claro, estava com um homem que a desejava antes de mais como mulher. Como já disse, foram dias e noites de arrebatamento. Diz-lhe ele assim: tem piada, estamo-nos a dar tão bem. Eu, que nunca me dei bem com ninguém.


No regresso a Paris, Beauvoir amaldiçoa aquele Oceano Atlântico que a separava do homem do seu ideal. Mas jura voltar. E volta. Volta a Chicago. E Algren quer que ela fique lá por casa a viver e que juntem os trapos e se case com ele. E ela tem que lhe explicar, num paralelismo flagrante com a aventura de Sartre com Dolores, que a vida dela não era aquilo, não era Chicago coisíssima nenhuma, a vida dela era Paris, eram os cafés, os amigos literatos, as amiguinhas livres. Algren não engole a explicação. Ela fica pesarosa com a incompreensão dele. Se não lhe podia entregar a vida, também não era merecedora do amor dele – coisa linda, coisa fatal, romanesca. Sou muito ambiciosa, Nelsinho querido. Quero tudo da vida. Quero ser uma mulher e ser um homem, ter muitos amigos e estar sozinha, trabalhar muito e escrever bons livros, e viajar, e divertir-me, ser egoísta e ser altruísta.


E já se sabe que se viu obrigada a dizer-lhe o que Sartre representava para ela. E que Sartre precisava dela. Era ela a verdadeira amiga que ele, coitadito, tinha na vida, a única que o compreendia, que lhe dava paz e trabalhava com ele. Há quase vinte anos que ele fez tudo por mim. Ajudou a encontrar-me comigo própria e a viver. Não posso abandoná-lo, estás a compreender Nelsinho. Não posso comprometer a minha vida com outra pessoa. Detesto falar nisso, Nelsinho. Sei que estou em risco de te perder e sei o que significaria para mim perder-te, Nelsinho…
E com as coisas neste pé, Algren farta-se dela, de a ver chegar e partir, chegar e partir. Até ao dia em que a vai esperar com indiferença, sabendo que alguma coisa, muita coisa, estava a morrer entre eles.


Conversa de faca e alguidar, porque, coitado, também tinha a ex-mulher à perna, e ele, que até se dizia já farto de mulheres, começava a cismar se não seria melhor voltar para a ex-mulher e casar com ela outra vez.
 
                      CONTINUA