quinta-feira, 25 de abril de 2013


                         AMARGURA  


Madrugada de 26 de Abril de 1974. Faz amanhã 39 anos.
Marcelo Caetano é metido numa viatura militar e segue da Pontinha para uma base aérea.
Vai sozinho no banco de trás do automóvel. À frente, ao lado do condutor, vai um 1º sargento paraquedista (cara patibular, segundo Marcelo) que passa toda a viagem a olhar para ele com a arma apontada.
Tive a noção clara de que a um gesto equívoco da minha parte, seria abatido.
Marcelo pensou que o paraquedista não teria recebido ordens superiores para assim proceder. Mas se ele disparasse, pergunta Marcelo, quem isentaria o movimento revolucionário das responsabilidades de um frio assassínio a que a ausência de um oficial acompanhante daria toda a verosimilhança?

                                                      

    No avião que os levou à Madeira, Marcelo, Américo Tomás, Silva Cunha e Moreira Baptista sentaram-se cercados por duas filas de paraquedistas armados que nem por um momento largaram as armas. Também desta vez não havia um oficial a comandar uma escolta que levava um almirante e três homens que até horas antes haviam desempenhado altos cargos públicos. Continuava a ser um 1º sargento a  comandar. 

Marcelo Caetano chega ao Funchal e tem muito tempo para pensar na vida. Fica 20 dias sob prisão. Aproveita esse tempo. Começa a escrever um depoimento sobre a sua acção política de quase seis anos de chefia do governo. Parte para o Brasil.
Chega ao Brasil e é imediatamente rodeado por repórteres e fotógrafos. Hospeda-se no Hilton de S. Paulo, é alvo de muitas homenagens quer da colónia portuguesa quer de amigos brasileiros e fica desvanecido. De S. Paulo passou ao Rio de Janeiro e foi recolher-se por algum tempo num convento de beneditinos.


Como seria de esperar, depressa fica a par dos desenvolvimentos da política nacional e do descambar do previsto golpe militar moderadíssimo num estado pré-revolucionário incontrolável. Não sei se alguém lhe prometera alguma coisa para depois do assentar das poeiras, alguma hipótese de regresso com imagem reforçada, sabe-se lá. Se alguém lhe prometeu tal, Marcelo Caetano começou a ver essas promessas a desvanecerem-se e a ver a sua vida a andar para trás.

No seu refúgio brasileiro, Marcelo Caetano recebia muita gente fugida à revolução. Assistiu à chegada de sucessivas vagas de portugueses notáveis que se auto-expatriavam ao ritmo do agravamento das condições revolucionárias em Lisboa: os primeiros, logo a seguir ao 25 de Abril, os de mais nomeada política; depois os náufragos do 28 de Setembro; mais tarde os proscritos do 11 de Março.
Tanta precipitação, tanta lágrima, tanto equívoco numa revolução tão benigna, e para estarem cá todos hoje, bem amesendados, alguns luxuosamente acomodados, melhor até do que estariam no tempo da outra senhora... ou seja no meu tempo – terá pensado Marcelo.
O próprio Marcelo Caetano poderia ter regressado, apesar de tudo, se quisesse, para acabar tranquilamente os seus dias na sua casa de Alvalade. Não quis. Era um ressentido. Só a ideia o horrorizava. Dava-lhe vómitos o reencontrar-se com tantos dos que lhe haviam jurado eterna amizade e fidelidade e se bandearam para o campo da esquerda. A histórica e leonina amargura de Marcelo Caetano nunca pôde reconciliar-se com a realidade histórica do momento da sua pátria.                                                          
Ao digno comportamento dele durante o cerco ao quartel do Carmo (notará mais tarde) só os adversários fariam justiça - casos de Salgueiro Maia e Otelo.

Um jornalista português apresentaria Tomás como modelo de dignidade naquela hora fatídica. E porquê? Porque não tinha saído de casa. O que nem sequer era verdade. Da carga psíquica desse dia, diz Marcelo, que se não o matou o moeu muito.

Ouviu falar na “pesada herança do fascismo”. Achou graça à expressão. Era o modo grosseiro como os jovens gastadores se referiam aos dinheiros paternos que não lhes tinham custado a ganhar.
O meu governo deixou nos cofres do Estado 872 toneladas de ouro em barra, mais 100 milhões em divisas. Nisso consistia a pesada herança do fascismo.

No Brasil era um ex-ditador de água doce, acolhido por uma ditadura militar musculada. Das condições do asilo fazia parte o compromisso de não se envolver em política.
Asilo? Ele não o interpretou assim. Logo que chegou, tratou de regularizar a situação de estrangeiro, preferindo a qualidade não de asilado mas de refugiado. Certamente por uma questão de moral.

Por falar em moral. A palavra moral é recorrente no léxico de Marcelo Caetano, e a diversos propósitos. Vilipêndio moral. Afundamento moral. Energia moral. Valores morais. Sofrimento moral. Ponto de vista moral. Categoria moral. Uma moral da memória muito viva em Marcelo Caetano. Uma memória de si.
Marcelo Caetano pensava nas esquerdas portuguesas sedentas de poder. E pode ser que pensasse mais nas direitas pusilânimes. Doía-lhe a trajectória de muitos dos seus ex-colaboradores que se preparavam para reviravoltas ideológicas espampanantes, para acrobáticos volte-faces nas suas convicções políticas e se passavam a proclamar democratas da primeira hora.
Também lhe doía, e muito, o parecer dos correlegionários que o acusavam de – na mais ligeira das hipóteses - não ter sabido evitar o golpe do 25 de Abril, ou de – na mais sinistra das hipóteses – ter estado de conluio com os golpistas.
Pela minha insignificante parte, e quanto à última das hipóteses, não o classificando de conluio, pressinto que Marcelo Caetano viu na preparação do golpe por Spínola e Costa Gomes (não falo dos capitães) uma nesga de oportunidade para si mesmo, para o que pudesse ser um seu segundo fôlego político num clima doravante desanuviado de ultra-salazaristas. Ou então terá sido um ingénuo ao acreditar na palavra desses generais desavindos com o regime que lhe diziam para se manter no poder que estava lá muito bem.

Pensava Marcelo que se o país quisera uma mudança política, ou até se, não a querendo, a permitira, pois que sofresse daí em diante os efeitos de tão ansiada mudança. Por ele, atirado para os brasis, sentia a amargura do abandono. A amargura de só aos 68 anos se ter apercebido do que o Prof. Veríssimo Serrão chama de vilipêndio moral, ou de degradação dos homens quando se assume em formas colectivas.
Fiz tudo para servir a minha pátria e vejo-me agora espoliado dela.
                                                                             
        Do povoléu mais comum ninguém evidentemente sabia, mas estava-se a dias do golpe que iria mudar o viver português. E Marcelo sabia. E tanto que sabia que confidenciava a amigos, e talvez com excesso de dramatismo, estar-se a viver sobre um barril de pólvora.                                                                                
E também os seus ministros militares sabiam do que aí vinha e diziam-se preparados para enfrentar o que viesse. Esperavam os acontecimentos para Maio, por volta do dia 10. Homens totais e totalitários para quem a pátria era o próprio regime ditatorial, afirmavam que o reviralho a vir por aí não se limitaria a ser contra o regime. Seria contra o próprio país.
Mais tarde, Marcelo afirmava saber a razão por que o golpe previsto para Maio fora antecipado. Foi quando os conjurados tomaram conhecimento da ausência do país das principais figuras da PIDE, Barbieri Cardoso e Rosa Casaco, e contando com cumplicidades internas na pessoa do inspector Coelho Dias, amigo de Spínola, que facilitou as coisas. Argumento pouco consistente na minha pobre e desinformada opinião, e sabendo-se o pouco que ainda se sabe hoje. Não sendo embora de esquecer a espantosa passividade da PIDE, que continuava à caça de comunistas, fingindo ignorar os capitães e fingindo-se adormecida ou inepta para correlacionar ambos.



No caso da suposta inépcia da PIDE, como no caso do seu reiterado arreganho contra os subversivos, Marcelo Caetano acabou por, figuradamente, ser preso por ter cão e preso por não ter. Foi atacado pelos correlegionários por ter tirado poderes e margens de manobra à PIDE. E foi atacado pelos adversários por não ter tocado nas estruturas e nos métodos da mesma PIDE, limitando-se a mudar-lhe  nome.                                                
A situação moral de Marcelo Caetano era já deplorável nas vésperas do golpe. Em conversa com o Prof. Veríssimo Serrão perguntara amargurado acerca do que seria possível fazer com um pais que (sic) ainda dispõe de energias próprias mas prefere seguir as vozes das sereias encantadas.                                                                             
Na leitura política de Marcelo prévia aos acontecimentos de Abril de 74, em todas as classes sociais campearia a fraqueza, a demissão, o aviltamento – sem mencionar a quota-parte de responsabilidade dele mesmo nesse estado das coisas.

Eram os militares – juraram defender a pátria e andavam em reuniões com fim mercenário só para poderem dispor das províncias ultramarinas. Era a Igreja – possessa de um progressismo militante que identificava Cristo com Marx. Eram os universitários – que incitavam os alunos à contestação permanente. Eram os novos burgueses – saturados de bem-estar a querer a mudança política para se manterem na crista da onda. 
Restava o povo fiel, manobrado pelo que acoimou de palradores de ocasião, os que chamavam aos homens do regime tiranos e aos outros libertadores.                                                                       
Precisamos acima de tudo que Deus nos valha.
Em Fevereiro de 74, Marcelo clamava ser preciso vencer o que classificava de “hora sombria”. Ingénua ou cinicamente, acreditava ter a nação do seu lado. Acreditava na consciência colectiva quanto ao papel das províncias ultramarinas no futuro nacional. Fosse por deformação profissional do legalista e do administrativista, acreditava na solução teórica e administrativa da “autonomia progressiva e participada”, acreditava nos “novos brasís” a resultar a prazo largo como solução para as questões que se colocavam no imediato e exigiam respostas radicais no imediato.
(A mim, cidadão comum, impressiona-me a falta de rigor e de frieza analítica num homem da mais alta craveira intelectual que não resistiu às circunstâncias históricas adversas que tinha para viver e se deixou dominar pelas emoções e por um ego demasiado exigente.)
Aqueles ciclones da História que sopravam sobre a questão ultramarina, é óbvio que, concomitantemente ao ultramar, ou até prévios a ele, sopravam fortes sobre a situação do Portugal metropolitano. Os anos 70 eram o limite, o muro de encontro ao qual os ventos haviam empurrado o país desde o fim da II Guerra. Mas ainda nos anos 70 havia no regime quem pensasse possível resistir à tal dinâmica desses mesmos anos 70.
Para resistir eficazmente à tal dinâmica dos Seventies teria sido absolutamente precisa a presença de Salazar, ou, em desespero de causa, de um herdeiro à fatal altura do velho ditador.
Marcelo, o ungido, também fora por alguns olhado como aquele que se preparava para desbaratar a herança do velho mestre, enquanto os liberais depressa desconfiaram dele como o homem indicado para a renovação e nele não viram mais do que um seguidor do velho.
O dilema de Marcelo Caetano foi mesmo shakespeareano.  E julgo eu que fosse qual fosse o herdeiro de Salazar o seu destino não seria diferente do que foi o de Marcelo. No seu fechamento político, no seu ultramontanismo cultural, não preparando elites esclarecidas, fossilizando implacavelmente os esquemas mentais colectivos e privando o povo de uma cultura política, Salazar tinha armadilhado tragicamente o caminho de qualquer um que lhe sucedesse.   
Marcelo Caetano queria refazer a vida, dizem os testemunhos. Não se deu por um homem vencido. Não sei se com a compleição psicológica dele a intenção não seria evidenciar ou ampliar pela amargura própria as dimensões do que entendia ser o desastre da sua pátria.        
Fixa residência definitiva no Rio, no bairro do Flamengo. Frequenta as editoras e livrarias cariocas. Busca materiais para continuar um labor nas áreas da História e do Direito. Projecta escrever uma História do Direito Português. Não pode estar parado. Os filhos comprometem-se a ir fazer-lhe companhia segundo uma escala combinada entre eles. Até que fica professor na universidade Gama Filho, a maior universidade privada do Brasil - Direito Comparado. Frequenta a Academia de História e o Instituto Histórico. Tem inúmeras solicitações para o social.

E de todos os pontos do Brasil lhe chovem convites para orações de sapiência, aulas, congressos, conferências, e não versando apenas matéria jurídica, também altos temas de História – aliás, Marcelo era realmente um erudito que se considerava modestamente um historiador amador.
Dá-se com intelectuais e académicos. Quase todos. Uma excepção interessante – e que lhe dá muita pena: a do brilhante filólogo Aurélio Buarque de Holanda, julgo que tio do grande Chico Buarque. Marcelo classifica-o de sujeito tão de esquerda que é o único académico que recusou relações comigo devido a eu ser… fascista.
O principal papel dos estudos históricos é a explicação do presente pelo passado. A História talvez devesse ser lição e exemplo: mas na verdade não é. As gerações nunca aprendem pela experiência alheia. Só à custa do próprio sofrimento.
Sim. Mas então porquê a fé dele na História para repor um dia a justiça quanto à sua acção governativa?
Os portugueses julgam ter conquistado a liberdade quando estão sob a pata de uma feroz ditadura – escreve quando tem notícias da queda do governo de Palma Carlos. As qualidades e o prestígio do amigo Palma Carlos não eram bastantes, pensa, para o impor num ambiente revolucionário.
É vê-los agora no Templo, os vendilhões, prontos a renegar Cristo. São eles os puros democratas, enquanto nós, que sempre  pregámos o convívio e a tolerância, representamos a opressão que cumpre exterminar. A História porá isto, um dia, a claro.
Convívio e tolerância com prisões políticas pelo meio? É preciso lata.
A História porá isto, um dia, a claro.  Cá está. A História pode ser então uma tábua de salvação moral, uma esperança redentora. A confiança que naqueles tempos as pessoas de qualidade punham na História é algo que deveras me admira. Ingenuidade? Ou hipocrisia mesmo na derrota?
A História! Mas quem escreve afinal a História?, pergunto eu.
Impressionavam-no os fenómenos de aceleração histórica que fazem, como ele diz, perpassar aos nossos olhos a série de sucessos extraordinários e instituições fugazes de que se entretece a História contemporânea.

O mundo mudava agora de ano para ano. Uma angústia para o Homem dos tempos pausados. O universo unificava-se pelos meios de comunicação, registava ele – e ainda ele não tinha visto nada.
Quando antes do nosso século o mundo se transformava imperceptivelmente e só de séculos a séculos era abalado por revoluções que se produziam em espaços restritos…
Mas recalcitrava no culto da História como via indispensável à justiça que o mundo haveria de prestar a Portugal.
Tenho fé em que a poeira das derrocadas se dissipará para, por entre as ruínas, deixar divisar o que constitui ainda material válido para uma reconstrução urgente no meio do afundamento em que soçobrou a nação portuguesa com a dissolução do carácter da quase totalidade do seu povo.
Bom, entre os exageros e o despropósito de considerar que de um dia para o outro (de 24 para 25 de Abril de 74) a totalidade do povo sofrera uma dissolução de carácter, enfim, Marcelo e o seu regime teriam mitificado no povo português características que ele (povo) não tinha e se calhar nunca teve, mas que fazia jeito enaltecer, quanto mais não fosse para enaltecer, moralizar e totalizar o próprio regime. Tem isso a ver com as ditaduras? Não sei. Para as ditaduras, o povo, sendo bom porque as suporta, só não tem razão e se lhe degrada o carácter quando se revolta contra elas – Hitler pensou o mesmo do povo alemão na hora da derrota.

Em democracia arranjam-se outros mitos. O povo, ao votar, tem sempre razão, escolhe sempre bem na sua sabedoria telúrica. O que falta provar que seja verdade. Toda a gente o sabe. Induzido o povo eleitor como é, sempre, e pela sua deficiência colectiva de carácter, por factores estranhos a esse mesmo carácter, a comunicação social, a propaganda partidária, as sondagens pré-eleitorais, o diabo a sete…
Ou… quem tem sempre razão (e poder) são os meios e os métodos que induzem o povo a votar assim ou assado?
Na derrocada do país e das suas gentes antes respeitáveis e fiéis, segundo Marcelo Caetano, poucos se salvaram na hora da debandada, ou na hora da procura desesperada da sobrevivência política e dos tachos respectivos.
E ele sente-se grato a quem acreditou ainda nas possibilidades dos seus 68 anos, e trabalha duramente para não desmerecer essa confiança.
Em Julho de 74 tinha planeado a edição da sua versão dos acontecimentos de Abril; ou mais: da sua acção governativa entre Setembro de 68 e Abril de 74.
Depoimento, veio a chamar-se o livro. Silva Cunha, Moreira Baptista, Elmano Alves, o general Andrade e Silva – presos, ou deportados, ou em fuga. Isso angustiava-o. Pretendia defender-lhes o nome e a honra. E na redacção de As Minhas Memórias de Salazar ocupava ele todas as manhãs e os fins de semana
Muito se especulou acerca das relações entre Caetano e Tomás antes e depois da queda de ambos. Veríssimo Serrão assegura que Marcelo nunca deixou de prodigalizar atenções ao velho almirante. O pior parece que era a delambida da filha, dona Natália, que se mostrava inconveniente com ele, não se cansando de lhe atribuir as culpas pelo que acontecera e assim contribuindo para alguma frieza entre os dois homens. Mas Marcelo não esquecia os favores e as honras devidas ao homem que o ungira para suceder a Salazar.
A feição melómana é-lhe avivada com a ida a um concerto da Sinfónica do Rio de Janeiro, em que escuta a 9ª de Beethoven e onde acha lenitivo para os males da sua alma.
Era um melómano sincero, Marcelo, sem dúvida, como homem superiormente culto que era. Várias vezes o vi em concertos aqui em Lisboa e a assistir a óperas em S. Carlos. Deve mesmo ter sido o último 1º ministro português com cultura musical.
Ah, não. Não foi. Não. Estava a esquecer-me de outro grandíssimo melómano que foi 1º ministro, Vasco Gonçalves. Sim, esse. E, pelo menos como melómano, bastante esclarecido e refinado. É verdade. E mais nenhum.
(Ah, sim… Passos Coelho chegou a estudar canto… nota-se…nota-se…)

Marcelo passa então a ir todas as semanas à sala Cecília Meireles ouvir os concertos da Sinfónica do Rio.
Com a experiência que a vida me deu, como acreditar nos homens, na fraternidade, na regeneração e não sei que mais?
Esse regime de gatunos privou-me da pátria, privou-me dos meus direitos, privou-me da aposentação para a qual contribuíra durante 47 anos, privou-me dos bens que legitimamente adquirira, privou-me dos livros que eram o  meu instrumento de trabalho.
        Regime de gatunos, não é? Sabia lá Marcelo para que medidas e governos e políticos e financeiros o país e o seu povo (cheio de carácter) estavam guardados. E essa do privarem-no da aposentação, não sei se foi verdade, mas se foi, foi medida pioneira dos tempos que estariam para vir e que nem em sonhos naquele tempo passava pela cabeça de ninguém – nem pela de Marcelo Caetano - que pudessem vir.
De qualquer das maneiras, custa-me a entender este rancor burguês de quem fez toda a vida na política, de quem sabia, ou devia saber, o que o esperava na hora da derrota, e de quem seguramente conhecia o destino quantas vezes trágico de tantos ditadores.






segunda-feira, 22 de abril de 2013



           O PASSEIO DE SHAKESPEARE PELO CARMO E                                         
                              PELA TRINDADE




                                     



CENA I
Quarto de dormir de Marcelo (Marcellus) Caetano. Quatro da manhã.
Toca o telefone. Marcelo atende.
- Senhor presidente?
- Sim.
- Fala Silva Pais. A revolução está na rua. O caso desta vez é muito grave. Ocuparam as estações de rádio, a RTP e tomaram o Quartel General.
– Então e agora?
– Estamos a avaliar a extensão do movimento. Aconselho-o a sair de casa com a máxima urgência. A rádio está a dar marchas militares e canções revolucionárias.
– Vou para Monsanto?
– Não, é melhor para o Carmo, senhor presidente. A GNR está fixe.
– Está bem. Os ministros civis que se mantenham nos seus gabinetes.   



CENA II
5.30 da madrugada do dia 25 de Abril de 1974.
Um Opel Manta, verde, com quatro passageiros entra discretamente no Quartel do Carmo pela porta de armas de Cavalaria. Dele saem o presidente do conselho, Marcelo Caetano, o seu adjunto militar e dois inspectores da PIDE. Recebe-os o comandante geral da Guarda, general Adriano Pires. Recebe-os com cortesia, mas à paisana.




CENA III
Gabinete do comandante e saleta no quartel do Carmo.
Marcelo Caetano e quem o acompanha instalam-se no gabinete do comandante e numa sala contígua. Para descansar e guardar os tarecos têm quartos da messe de oficiais.
O telefone.
- Estou. Fala Marcelo Caetano. Passe-me o senhor presidente da república.
– O senhor  presidente não está.
– Onde está?
– Não posso dizer a V.Exa. Tenho ordens.
 – Mas sabe onde ele está?
– Sei, mas não posso revelar.
– Então, se o vir, diga-lhe que eu estou no Quartel do Carmo.
Esta agora… (pensa Marcelo) não é a mim que compete comandar a repressão contra inssurreições militares, ora essa… o Andrade e Silva, o heróico vencedor das Caldas, que trate disso…
No interior do Quartel do Carmo – para meu grande espanto, confesso – moravam à volta de 20 famílias, mulheres, filhos, pais, genros, noras e netos; famílias de oficiais, sargentos e praças, incluindo a família do comandante geral e 2º comandante. E é claro que este facto faz do Quartel do Carmo um alvo não puramente militar, um alvo também civil, o que estaria  fora dos planos dos tácticos do MFA.
A GNR era uma carta fora do baralho do MFA. Era contada, aliás, como força inimiga, como a polícia, como a Legião ou (ambiguamente) a PIDE. Ninguém se lembrara de que o chefe do governo lá se poderia acolher e fazer do Carmo um objectivo cimeiro das movimentações militares do dia.
Conclusão: os homens do MFA não sabiam História.


Alguém no interior do quartel, porém, sabia do que se iria passar, mas, quanto a providências operacionais, nenhumas parecem ter sido tomadas, o que indicia uma tácita indiferença pelos destinos do regime e uma tácita neutralidade.
Não previram foi aquela encomenda que de madrugada lhes caía nos braços a perturbar a santa paz das 20 famílias – encomenda que era nem menos do que o presidente do conselho, Marcelo Caetano. E Marcelo Caetano fita, pensativo, o general Adriano Pires, comandante do quartel. Mas porque é que este homem, um general, numa situação destas, com o seu chefe de governo dentro da unidade, anda à paisana?, pensa Marcelo.


Estando à civil talvez lhe transmita uma mensagem. E a mensagem pode ser: alheamento perante o problema político-militar em que me envolveram, embora tenha feito parte do grupo de generais que no dia 14 de Março passado lhe prestou vassalagem; desacordo e desagrado quanto ao facto de não ter sido consultado sobre a vinda para aqui do presidente do conselho; a pouca vontade de envolver as tropas sob o meu comando na defesa de uma situação política obviamente decadente e de um regime há muito agonizante. E além disso, tenho cá a minha mulher, o meu filho, a minha nora e o meu neto… -  pensa o general Adriano Pires, comandante do quartel
- Que horas são? - diz o comandante da GNR ao oficial de dia.
- Já passa das oito, meu general.
– Bem, nosso tenente, acompanhe o presidente do conselho aos quartos da messe para ele fazer a barba.
         Entra um dos acompanhantes de Marcelo.
- Senhor presidente, os senhores ministros refugiados no Terreiro do Paço fugiram. Abriram um buraco na parede e foram a toque de caixa para Lanceiros 2…
– Então e quem comanda agora a defesa?
– Talvez ainda seja o general Andrade e Silva, o heróico vencedor das Caldas.
– Pois eu quero que seja o ministro Silva Cunha a reorganizar a resistência lá de Lanceiros.
O oficial de dia à unidade acaba de falar em voz baixa com o general comandante.
- Senhor presidente, - diz o general comandante. Acabo de receber a informação de que o meu chefe de estado maior está a telefonar para todos os batalhões. Estão todos prontos a saír.
– Então que esperam para se pôr em acção?
A porta abre-se e entra o coronel Ferrari. A meio da sala derrapa, trava.
– Está aqui o coronel Ferrari, o meu chefe de estado maior.
Marcelo olha para Ferrari (vermelho), o chefe do estado maior da Guarda, e pensa: também estou bem servido com este… o homem é uma figura caricata… olha para isto… parece um palhaço… mas onde eu me vim meter
- Senhor presidente – aceleração de Ferrari -, foi dada ordem ao 2º Esquadrão de Cavalaria para avançar para o Terreiro do Paço.
– E então?
– O esquadrão avançou.
– E depois?
– E depois nada, senhor presidente.
O almirante Henrique Tenreiro apareceu na saleta. Vinha lívido.
- Senhor presidente, estávamos muito quentinhos ali no Terreiro do Paço… quentinhos mas desamparados… íamos ser abarbatados pela multidão que a coberto dos soldados revoltosos já estava a entrar  no edifício. Mas eu conhecia uma saída. Fomos parar à Rua do Arsenal, metêmo-nos num carro e fugimos de escantilhão para a Ajuda.
         Marcelo recebe uma comunicação.
- Como? Uma fragata no Tejo pronta a bombardear o Terreiro do Paço? Não me diga uma dessas. Eles que não disparem!
Há uma chamada para Marcelo, que pega no telefone.
- Senhor general Santos Costa? Fala Marcelo Caetano. Diga. Unidades do Exército e da Força Aérea prontas, disse? Não. Não quero. Diga ao senhor general Kaúlza de Arriaga que não quero um banho de sangue… aguardem ordens minhas…
Marcelo não larga o estupor do telefone.
- Sim, fala Marcelo Caetano… essa fragata do Terreiro do Paço… sim, pois que faça fogo sobre os revoltosos… sim…
- Está lá? Daqui Marcelo Caetano.. não senhor… essa fragata do Terreiro do Paço… o que eu disse foi para que fizessem fogo para o ar… para o ar… não quero um banho… não, sim, esse já tomei, o que eu não quero é um banho… que horas são isto?
- Já passa das dez -  responde um adjunto.
Ouve-se, de fora, uma voz, alta e exaltada:
- Ó senhor inspector, mas de que é que se está à espera  para sufocar esta rebelião?
– Está tudo nas mãos do senhor presidente do conselho.
Entra o ministro Rui Patrício, visivelmente transtornado.
Marcelo pensa: olha o  Patrício… só me faltava este…
- Quero um comprimido. Acordei cheio de dores de cabeça! – grita Patrício.
– Bom dia, senhor ministro Rui Patrício
– Bom dia senhor presidente… acordei cheio de dores de cabeça…
- O caso não é para menos, senhor ministro. Porque veio?
– Vim por iniciativa própria.
– Pois veio meter-se em boa.
– Esse comprimido que pedi quando é que aparece?
– O senhor está muito agitado, senhor ministro, não berre... 
– Pois estou, senhor presidente, e agora sou eu que lhe digo… o caso não é para menos…


CENA IV
         Aposentos privados do general comandante.
Se ele se sentiu caído numa ratoeira ao vir para aqui a culpa é toda dele e dos conselheiros dele – à janela, o comandante-chefe da GNR continua a reflectir com os seus botões na dramática situação que espera poder viver nesse dia. Porque não houve planos de recolha do governo em caso de emergência?


CENA V
Saleta de CENA III.
 Marcelo Caetano está de mãos na cabeça: mas porque não me disseram que o esquadrão tinha saído daqui e que este quartel era só uma companhia de comando e serviços? E ainda por cima com famílias cá dentro, mulheres e crianças?
Pois, ao não lhe dizerem nada disso é como se o tivessem entregue ao carrasco, fazendo dele o bode expiatório do ódio popular ao regime – regime que a nível do inconsciente colectivo, se se pode dizer assim, não era bem dele, era mais, e ainda, o regime de Salazar.
Que sorte será a minha no dia de hoje?, continua a pensar Marcelo. Chegarei vivo ao fim do dia de hoje? Serão estes homens da GNR capazes de impedir que o populacho, sabendo que eu cá estou, invada o quartel e exija a minha cabeça?
 (Sim, digo eu agora, como se Shakespeare redivivo tivesse resolvido ir beber umas canecas e comer uns percebes à Trindade e, passando pelo Carmo, inspirado pelas arquivoltas do convento, tivesse congeminado uma tragédia política das dele. )
Marcelo Caetano senta-se no sofá, bebe um copo de água e acende um cigarro.
Quanto tempo terei mais de vida? Quanto tempo mais de poder? Não terei mais poder. Terei? Se tiver… exijo… exijo que a Guarda ponha todo o seu potencial ao serviço da minha defesa… que abandone os quartéis, que enfrente a revolta e a esmague. Mas talvez eu não tenha mais poder…
  

CENA VI
         Aposentos privados do general comandante.
O general está com alguns oficiais e dois agentes da PIDE. Anda de um lado para o outro.
- Ao mandarem o homem para aqui, os senhores estão a ver o berbicacho levado de seiscentos diabos que nos criaram. A presença dele torna a unidade um objectivo militar para o movimento revolucionário. A qualquer momento se pode desencadear um ataque e eu só penso na minha mulher, no meu filho, na minha nora, no meu genro e no meu neto vocifera o comandante do Quartel.
 Os oficiais do estado-maior da Guarda ali reunidos declamam:
- Também nós, meu general, não queremos sacrificar-nos, e muito menos sacrificar as nossas mulheres, os nossos filhos, as nossas noras, os nossos genros e os nossos netos na defesa de um regime que há muito deu o que tinha a dar e de um homem que está politicamente arrumado.
Alguém faz soar a nota num lamiré.
Os oficiais começam a entoar um coro, em pianíssimo expressivo, uníssono, andante moderato e molto cantabile:
       “Nós temos a nossa vidinha para viver!
Nós temos a nossa vidinha para tratar
Depois de os revoltosos
Tomarem o poder…”


CENA VII
Tudo reunido na messe de oficiais.
- Diga a informação que tem.
– Está uma coluna avançar para cá e a apontar os canhões aqui para a zona do Carmo e da Trindade
– Ai valha-me Nossa Senhora!
– Tenha calma, senhor ministro.
– Mas como posso ter calma, estou cheio de dores de cabeça!
– Tem mais alguma coisa a comunicar, senhor general?
– Saiba V.Exa. que sim.
– Fale, homem!
– Em cima dos carros dos revoltosos vêm civis armados.
– Ai, minha mãezinha! Quero ir para a minha mãe!
– Cale-se senhor ministro!
– Ai Jesus!
- Senhor presidente, daqui da janela estou a ver um formigueiro humano a juntar-se. Vêm atrás dos blindados. Vêm em cima dos blindados.
– Mas estão a juntar-se onde?
– Aqui mesmo no largo… nas ruas adjacentes…
- Senhor general, é preciso romper o cerco.
– Isso só a poder de fogo, senhor presidente. 
- Então, meu general, dou ordem de fogo?
– Será um crime hediondo… um crime contra a humanidade… um crime inútil.
– Defender-me a mim e ao regime é inútil?
– Senhor presidente, o povo parece muito excitado.
– Vão invadir o quartel, vão pedir-vos a minha cabeça.
– Não sei, senhor presidente. O povo está agitado pela iminência da queda do regime.
– Mas eu sei de fonte segura que há oficiais seus com ordens para conter os revoltosos e que quando lá chegam se passam para o lado deles… que estou eu aqui a fazer, então?
– Dilema shakespeareano, senhor presidente… autêntico dilema shakespeareano…
         Entra um oficial:
- Meu general, o povo já está a distribuir comida pelos soldados revoltosos.
– Saberão eles que nós estamos aqui?
– Sim, senhor ministro, sabem, têm um homem cá dentro.
– Um homem? Quem?
- Pois é, senhor general, caímos numa ratoeira. Este quartel não tem defesa. Quando cá cheguei, de madrugada, tinha sido fácil montar um perímetro defensivo. Teria sido fácil mandar sair algumas das unidades de Lisboa. Não se fez isso. Os seus brilhantes oficiais, no meio de uma revolução, e comigo cá dentro, não se lembraram disso. Muito bem. Em que esparrela eu vim cair. “A Guarda está fixe com o governo.” Está-se a ver.
- E eu, que vai ser de mim, meu Deus, com estas dores de cabeça?
– Cale-se senhor ministro!
- Podíamos ter feito o que V.Exa. diz, podíamos – declara o general. - Mas seria sempre uma missão simbólica. Que poderíamos nós fazer para impedir os blindados de avançar? Haveria mortos e feridos… muito sangue…




CENA VIII 
Exterior. Ruas.
Tropas em movimento. Em face da realidade do cerco, as forças no interior do quartel tomam posições defensivas, colocam-se nos pontos chave, na proximidade de gabinetes de comando, junto das portas que deitam para o largo do Carmo.
- É pá, seja qual for a missão, pá, não vamos abrir fogo contra camaradas nossos - dizem os oficiais entre si ao conduzir os soldados aos seus postos.
Estranhamente, ninguém saíra em tempo para o exterior, de modo a assegurar um primeiro anel defensivo – elevador de Santa Justa. Trindade. Rua do Duque, Largo Bordalo Pinheiro, etc. Marcelo Caetano reparou nisso. E criticou. E as forças da Guarda Republicana dos diversos quartéis de Lisboa convergiam para a zona do Carmo e da Trindade, mas não mexiam uma palha contra as forças sitiantes. Arrancavam. Chegavam. Alapavam. E não actuavam. E esperavam. Dava-se uma ilusão de força, mas a ninguém passava pela cabeça fazer fogo. Ou seja, as ordens para entrarem em acção eram transmitidas pelo rádio por algum comando governamental. Essas ordens eram recebidas pelos oficiais no terreno e imediatamente ignoradas. O destino do regime era cair. Todos pareciam conformes quanto a isso. E para que o regime caísse sem fogo nem sangue era importante ganhar tempo. Ganhar tempo para quê? Alguém, algures, havia de saber.
Muita gente não compreendeu  - mesmo gente do regime – porque estava Marcelo Caetano ali, no Carmo, e porque se deixara sitiar com tanta probabilidade de poder cair nas mãos dos revoltosos, e até por se saber que na noite do falhado golpe das Caldas ele se tinha acoitado na Base Aérea de Monsanto, unidade muito mais segura.
A ideia  que dá é de que a vitória do 25 de Abril parecia já ter sido decidida por alguma entidade - material ou espiritual. Daí, talvez, o chefe da PIDE ter aconselhado o presidente do conselho a refugiar-se no Carmo com o argumento de que a Guarda Republicana estava fixe com o regime.
Na verdade, Marcelo Caetano, grande entendido em História, devia saber ser o Carmo o refúgio dos chefes do governo e dos notáveis acossados desde os anos agitados do fim da monarquia e da inauguração da república. Em 1908, António José de Almeida lá esteve, recluso. Já no 5 de Outubro o Carmo esteve cercado e foi convidado à rendição. Estava lá Teixeira de Sousa, o último 1ºministro da monarquia. Em Maio de 1915 foi a vez de Pimenta de Castro e Machado Santos lá se esconderem. Em 1919 foi José Relvas. Em 1925 foi Teixeira Gomes. Em 1926 foi Mendes Cabeçadas. Em 1931 foi lá parar o governo todo. Em 1959 toca a vez a Salazar. E em 61 foi de novo Salazar.


CENA IX
         Saleta.
Marcelo e o general comandante.
- Faça favor de entrar, senhor almirante – diz Marcelo.
Tenreiro dirige-se ao general comandante.
– Túneis, general, túneis! – grita Tenreiro.
- Túneis? Que túneis?
– Sim, que conversa é essa?
– Há túneis, eu sei que há, que ligam o Carmo ao Rossio e a outros antigos conventos - diz Tenreiro. - Vamos descobri-los. Quero ir-me embora daqui. Se o povaréu me apanha… e o senhor presidente fugiria também… se quisesse…
– Não conheço a existência desses túneis.
– Não conhece, senhor general?
         - Juro por tudo quanto há de mais sagrado que não.
         Toca o telefone.
         - Está lá?
         - Estou. Fala Marcelo Caetano.
- Daqui fala Silva Pais. Uma brigada nossa irá buscar V.Exa.. Há uma passagem secreta entre o quartel  e a Rua do Carmo. V.Exa. encontrar-se-à com os inspectores Cardoso, Mortágua e Abílio Pires nesse ponto.



CENA X
         Gabinete com vista para um pátio do quartel e traseiras de prédios.
Marcelo com agentes da PIDE.
- Lamento, senhor presidente, a saída de V. Exa. por helicóptero terá de ser posta de parte… tecnicamente impossível descerem aqui no quartel… pronto, paciência…
- E os túneis do Tenreiro?
– Estamos à procura deles. Ainda não foram encontrados.
– Não há mesmo outra saída?
– Só se se tentasse pelas traseiras das  casas… ali…  que dão para a Rua do Carmo…
- O quê, tenho que subir por aquela escadita de madeira e passar pela janela de um prédio? E vou sair ao telhado?
– Afirmativo, senhor presidente.
– Não rapazes, não contem comigo. Hei-de sair daqui pela porta por onde entrei.


CENA XI
         Saleta.
Toca o telefone. Marcelo atende.
- Está lá? Fala o inspector Óscar Cardoso da DGS. Tenho dois carros na Rua do Carmo. Prontos. Estivemos à espera de V.Exa. no sítio combinado mas V. Exa….
– Não é preciso, vão à vossa vida, rapazes, que eu já estou a tratar de tudo com o general Spínola… vão à vossa vida…
Entra o comandante do quartel.
- Senhor presidente, eles estão a fazer-nos ultimatos. Estão a ser apoiados pelo povo…  
- Por essa chusma!
– Ameaçam que vão disparar sobre o quartel. As nossas mulheres, filhos, noras, genros e netos tremem de medo. Eles ocupam posições nos telhados, nos terraços, em postura ofensiva…
- Ai valha-nos Deus!
- E querem, está visto, que o senhor general lhes entregue a minha pessoa.
– Sem dúvida, senhor presidente… oh, sim, sem dúvida…  
– E o que será de mim se o senhor me entregar?
– Não faço ideia.
– E o senhor está disposto a entregar-me à canalha?
– Não, senhor presidente, oh, não, que ideia…
- Que me diz você? Meios aéreos a sobrevoar aqui o Rossio e o Carmo - grita o almirante Tenreiro ao telefone. - Ou duas companhias blindadas e um heli-canhão?
- Senhor presidente, tenho a dizer-lhe… a Legião rendeu-se – informa o general comandante.
– Olha que ricos defensores eu tinha afinal. Eu e o regime. Sim senhor. Bonito serviço. Dei ordens precisas ao general comandante da Legião e afinal… rendem-se ao primeiro grupo de soldadesca insurrecta que lhes aparece lá na Penha de França.
- Senhor presidente, o grande problema é o povo aglomerado ali no largo.
- Sim, o povinho triunfante veio em passeata até aqui ao Carmo e à Trindade para nos ver cair. E ocupam-me o largo sem a menor resistência, senhor general. Eu estou pasmado, senhor general!  Eu estou para a minha vida com a inércia do seu comando e dos seus homens, pasmado…
– É a vida, senhor presidente, um regime vai, outro vem.
- Ai é?
- Pois é, senhor presidente.
– E eu sei de uma força vossa que veio pela Rua D. Pedro V  para apanhar os revoltosos entre dois fogos. Sei que chegaram, pararam e retiraram. Quem os mandou retirar?
– Sabe-se lá, senhor presidente…
- Ai ele é isso?
- Pois é senhor presidente…



CENA XII
         Instalações privadas do comandante do quartel.
Entra o general. A filha corre para ele.
- Ò paizinho, eles vão assaltar o quartel, paizinho!
– Não, filha, não vão. Não podem. As portas estão fechadas.
– Mas ó papá, eles vão rebentar com as portas
- Não vão nada.
– Sim, paizinho, vão… já se ouviu dizer que eles iam bombardear o quartel!
O general arrepela os cabelos, dá punhadas na cabeça. Grita.
- Oh, mas porque é que este homem se veio aqui meter? Porque é que este homem veio estragar a minha vida e a vida da minha mulher e do meu filho e da minha nora e do meu genro e do meu neto?
Entra um oficial. Fica pesaroso ante o estado lastimoso do seu general.
- Ele que se entregue, meu general, queremos lá saber dele para alguma coisa, o alvo é ele e não nós, e por isso não achamos justo, meu general…
- Ó paizinho, eles já estão a entrar pela porta de Cavalaria!
Ouvem-se tiros.
- Fogo! Estão a fazer fogo sobre o quartel!
Entra a mulher do general. Lavada em lágrimas.
- Estamos a esconder as nossas coisas mais valiosas. O povo vai assaltar o quartel. Estamos todos transidos de medo na sala das tintas. Somos vinte.


CENA XIII
         Saleta.
- Senhor presidente, o povo já está a gritar por vitória e a dar vivas à liberdade. Estão a gritar “abaixo o fascismo”
– Ai minha mãezinha!
– Ó Rui Patrício tenha termos! Porte-se com a dignidade própria do seu… então, que novas me traz agora, senhor general?
– Bem, senhor presidente, as nossas forças não querem tomar a iniciativa de abrir fogo…
- Ai não? Que ricas forças o senhor comanda. Os túneis?
– Não foram encontrados.
– Estou a ouvir daqui os insultos da populaça!
– Se os meus homens avançarem, o povo arranca as pedras da calçada, atira-lhes com elas e os pobres ainda levam roda de assassinos…
- E depois?
– Será um crime.
- Mandem o heli-canhão varrer essa escumalha! – grita Tenreiro.
– O posto de comando deles exige que lhes entreguemos V. Exa. Fizeram-nos outro ultimato Podem arrasar o quartel.
– Ai podem?
– Podem. Por causa de V.Exa. Não acho justo.  E a minha mulher e o meu filho e a minha nora e o meu genro e o meu neto?
- Bom. O governo está disposto a encetar negociações. O governo está aberto a quaisquer propostas!
- Eles têm a certeza de que V.Exa. está cá. Temos dez minutos para nos rendermos.
– E  senhor general vai-se render?
– Não.
– Ah.
– Ninguém respondeu ao ultimato, mas se eles encostam um blindado ao portão partem tudo e entram por aí dentro…
Entra um oficial da Guarda. Bate a pala.
- Meu general… está a ouvir o fogo?
– Estou.
– É a HK 21. Estão a atingir as janelas de cima e o telhado.
– Que tal, senhor presidente?
– Meu general, o fogo deles está a atingir a cozinha. O pessoal está em pânico. Que fazemos?
O general sai da saleta...



CENA XIV
… e no corredor encontra a mulher em pânico.
- Adriano, Adriano… estão a metralhar a nossa casa! Na cozinha só por sorte não mataram alguém… fazes favor de te veres livre desse Marcelo Caetano imediatamente ou ainda morremos todos por causa dele!
Um outro oficial pede licença para falar.
– Diga. Que foi agora?
– Meu general, foi atingida a mesa de trabalho do capitão Coelho.
– Adriano, Adriano, vamos morrer aqui todos hoje! – grita a mulher do general.
O general vira costas. E diz:
 – Não me rendo. O quartel não se rende.
- Oh, Adriano! – grita a mulher.

                                


CENA XV
         Gabinete do general comandante.
- Faça favor de entrar senhor ministro do Interior…
- Era só para dizer aos seus homens que aguentem mais um pouco e não abram fogo. Já estamos em contacto com o general Spínola.
– Que horas são?
– 16.15.
Entra um oficial esbaforido.
– Meu general, há mais fogo. Eles estão nas varandas da companhia de seguros a fazer fogo de G3. Todos fazem fogo. É uma fuzilaria infernal
– Estou a ouvir. Que será de mim, da minha mulher, do meu filho, da minha nora, do meu genro e do meu neto?


CENA XVI
         Na saleta.
Marcelo fuma um cigarro.
- Mas ó meus senhores, eu vou-me entregar, e entregar o poder a quem? Dizem-me que é um capitãozito de merda que comanda os rebeldes lá em baixo… eu vou-me entregar a um capitão? Se é o general Spínola o cabeça da revolta porque não aparece?
– Senhor presidente, o general Spínola disse que não foi, não é, nem nunca será alguém que pegue em armas contra o seu governo.
– Então quem é que os comanda? Eu só entrego o poder a um oficial general.
         Entra o general comandante e logo a seguir apresenta-se um oficial da Guarda.
- Meu general…
- Diga, homem…
- O fogo atingiu os portões e só por milagre não acertou nos homens que estão nos postos de defesa…
O general vira-se para Marcelo.
– Se acertasse, o senhor presidente do conselho ficaria com uma responsabilidade moral muito pesada em cima dos ombros…
- Eu? Ora essa…
- V. Exa. claro… porque, meus senhores, tudo isto coloca uma grande questão de moral…
- Dizem-me que há senhoras aflitas em correrias pelo quartel…
- Efectivamente, senhor presidente…
         O general parece ter tomado uma decisão. Fala à parte com os seus oficiais.
- Bem, meus senhores, vamos responder ao fogo!
– As consequências serão incalculáveis, meu general.
– Pois serão.
– Será uma tragédia, meu general.
– Pois será.
- Esse ladrão do Shakespeare anda por aí.
- Pois anda.
- Deve estar ali na Trindade… nas canecas…
- É o mais certo.
         Saem.
Entra um oficial desconhecido. Marcelo levanta-se do sofá.
- Quem é o senhor?
– Sou o major Velasco, delegado do MFA, e estou aqui para dizer a V.Exa. que V.Exa. vai desencadear uma tragédia.
– O simples facto de eu existir pode desencadear uma tragédia, já vi.
– Saiba V. Exa. que sim.
 – Ó senhor, vá-se embora. Desampare-me a loja. E tenha calma. Mas olhe, fico a saber que afinal temos o inimigo dentro da praça…


         Entra o Ferrari, o apalhaçado chefe do estado maior da GNR. Trava. Cumprimenta. Diz:
- Na minha qualidade de chefe do estado maior da GNR, quero dizer a V.Exa que a sua presença está a comprometer a segurança de quantos vivem neste quartel.
Marcelo vira-se para os ministros presentes.
- Não sei se os senhores estão a ver a questão por este lado… os insurrectos querem despachar-se porque não podem prolongar as manobras militares por mais de um dia. Se o fizerem, Madrid intervirá ao abrigo do Pacto Ibérico…
Torna a entrar o general comandante.
- Senhor presidente, a situação é extremamente melindrosa. O comandante dos revoltosos mandou abrir fogo de Panhard sobre o quartel. Só não aconteceu nada porque houve um equívoco na ordem de fogo e ninguém disparou. Mas se tivessem disparado…
- Se…
- A granada teria deixado o quartel e o convento em escombros e teríamos morrido todos…
- Mas não morremos.
Entra um ajudante de campo. Cumprimenta. Diz:
– Estão aqui os doutores Feytor Pinto e Nuno Távora com uma mensagem para o senhor presidente do conselho.
– Que façam o favor de entrar.
Entram os doutores.
Senhor Presidente, lá fora foi dado alto ao fogo – diz um oficial da Guarda.
Falam os doutores:
- Senhor presidente, o senhor general Spínola diz que nos arriscamos a um banho de sangue. Cabe ao governo encontrar uma solução. O general Spínola diz-se disposto a tomar conta da situação.
– É ele o chefe?
– O senhor general reitera que não é, nunca foi, nem nunca será. Apenas segue os acontecimentos.
– Rendo-me, porém, na condição de o poder não cair na rua.
– Temos de comunicar ao general Spínola. O comandante dos revoltosos deu-nos dez minutos.
- Passe-me esse telefone…


         O telefone é-lhe passado.
- General? Daqui Marcelo Caetano. Tenho de reconhecer que estou vencido. Ouço daqui a multidão ululante. Se tenho de capitular que não seja perante um capitão, que seja perante alguém responsável que mantenha a ordem pública e tranquilize o país. Peço-lhe que venha aqui quanto antes. Obrigado, general. Olhe, telefonista… faz favor… sim, minha senhora… faça favor de pedir que me tragam uma garrafa de Água Castelo e um pacote de bolachas de água e sal. Obrigado.
-  Senhor presidente…
- Diga.
– Os militares lá fora já não conseguem conter o povo. Já romperam os cordões de segurança.
– Hum, hum… justiça popular…vão entrar por aqui dentro e chacinar-nos… afinal não era um exercício de retórica… o poder pode mesmo cair na rua…
Entra um oficial
- Quem é você?
- Apresenta-se o capitão de Cavalaria Salgueiro Maia, comandante das forças sitiantes.
– Olha! Perfilado e em continência… ora toma!, afinal são uns cavalheiros – anima-se o ministro Patrício.
- Cale-se, Patrício!
Marcelo olha com severidade o recém-chegado.
– Que está o senhor aqui a fazer?
– Tenho ordens para fazer um ultimato: ou V. Exa. se rende, ou serei obrigado a arrasar o quartel a tiro de canhão.
– De facto, já não tenho forças para resistir. Mas não concebo sair daqui com vida deixando o país entregue a uma máscara que não sei que rostos encobre… e já que o general Spínola me garantiu não estar dentro da conspiração…
– Arrasarei o quartel.
– O senhor não arrasa coisa nenhuma. O general Spínola está a chegar. Ouça, meu jovem… já sei que não governo. Só espero que me tratem com a dignidade com que sempre vivi. Vá lá para fora e acalme mas é essa populaça.
– Estão tomadas medidas para evitar atentados contra a integridade física de V. Exa.. Será metido numa viatura blindada e ficará às ordens do movimento.  
– Espere lá. Diga-me uma coisa… que vão vocês fazer com o ultramar?
– Evitaremos que o ultramar se transforme numa outra Índia.
– Não é com um golpe de Estado que se resolve o problema do ultramar.




CENA XVII
         Exterior. Porta de armas do quartel do Carmo.
Multidão em gritos e vaias. O capitão Maia é abordado por um camarada ansioso.
- Então, ó Maia, como é que foi?
– Ele acha que somos uns garotos.


CENA XVIII
         Na saleta.
- Estão a ouvir, srs. ministros? Estão a ouvir o regougar dos díscolos na rua? Pois aqui solenemente vos juro que não me apanharão com vida. Se o Spínola não me vier buscar, estou resolvido a dar um tiro na cabeça.
– Ai que horror, senhor presidente!
– Que é isso, Rui Patrício… a chorar que nem um bebé? Senhores ministros, então? A chorar quem umas madalenas? E você Pedro Feytor Pinto… tudo a chorar… em vez de me darem ânimo querem-mo quebrar? 



CENA XIX
         Um corredor do quartel do Carmo.
 O general Spínola e comitiva caminham direitos à saleta onde está Marcelo.
- Olha o estado a que estes gajos deixaram chegar isto – resmunga Spínola.
Entram na saleta.


CENA XX
         Saleta.
Spínola cumprimenta Marcelo.
- Boa tarde, senhor presidente.
– Senhor general, faça favor de se sentar.
– O estado em que V. Exa me entrega o país. Tudo isto poderia ter sido evitado.
– Pois podia, senhor general, isso podia…
- Se V. Exa. me tivesse dado ouvidos…
– A si?
– Sim. A mim. Mas agora é tarde para V.Exa. reconhecer a razão que me assistia.
– O que teria evitado isto era o senhor e o Costa Gomes terem ido expor a situação ao presidente da república quando vos pedi para o fazerem. Mas o momento não é para recriminações. Quais são os seus projectos a meu respeito?                               
                                       

CENA XXI
         Exterior. Noite. Largo do Carmo. Multidão furiosa.
         A porta de armas abre-se e sai uma Chaimite. Consta-se entre o povo que Marcelo Caetano e os ministros presentes no Quartel do Carmo lá seguiam enfiados. Era mentira. Era uma manobra de diversão. Marcelo e os ministros sairiam noutra Chaimite um poco mais tarde. Mas a primeira Chaimite, provavelmente vazia, rompe sob as arruaças e os insultos do povaréu apinhado no Largo do Carmo.



CENA XXII
         Parada do quartel. Noite.
Uma figura das grandes do mais ultra salazarismo, que se fizera de morto e ficara esquecido no interior do quartel, deambula por ali. Ouve um barulho. Esconde-se. Torna a aparecer. Torna a esconder-se. Torna a aparecer. Ninguém se lembrara dele. Nem os revoltosos - partindo do princípio de que sabiam que ele lá estava. É o almirante Henrique Tenreiro.
Fizera-se prudentemente desaparecer da circulação pouco antes do anoitecer, sabendo embora que o quartel estava de prevenção rigorosa e que não podia permanecer lá dentro ninguém estranho à unidade.
Mas está cheio de fraqueza. E por isso entra numa sala, agarra num telefone e pede de jantar.


CENA XXIII
         Messe de oficiais.
As alheiras não lhes estão a cair bem. Ainda estão entre o assustado e o aliviado.
O general comandante recebe um recado do seu oficial às ordens
- Ele quer jantar? – admira-se o general comandante, mal refeito do susto da tarde. - Mandem-lhe ao quarto uma sandes e uma garrafa de água, e é um pau. E amanhã que se ponha na alheta que eu não me quero comprometer mais com essa gente, nem eu, nem a minha mulher, nem o meu filho, nem a minha nora, nem o meu genro, nem o meu neto. Andex, andex…


CENA XXIV
No dia seguinte. Manhã cedo.
Com o furor revolucionário a despontar por toda a cidade, o almirante Tenreiro, uma das mais odiadas figuras do salazarismo, sai do quartel do Carmo por uma porta lateral.
Desce tranquilamente a Calçada do Carmo sem que ninguém o reconheça. Assobia uma canção posta em voga na noite anterior.
E mais uma vez desaparece.
Pode ser que  venha  a aparecer no Brasil.
Pode ser que ainda seja preso às ordens do MFA?



CENA XXV
         Cervejaria da Trindade.
Will Shakespeare está abancado com dois ou três compinchas – Burbage, talvez, Christopher Marlowe, é mais do que certo; Francis Bacon, é muito possível. Está muito bêbedo, mas ainda manda vir mais uma rodada.

                          



(Devo a informação objectiva em que se baseou este texto ao livro Para Além do Portão, do major da GNR  e historiador militar Nuno Andrade – a quem presto a grande e devida homenagem. Editora Guerra e Paz.)