terça-feira, 17 de março de 2020


 
 
                         EXISTENCIALISTAS 2
 
 
Os tempos passavam, paulatinos. Colocada em Paris, no Liceu Moliére, Beauvoir não tarda a deslumbrar outra aluna, de seu nome Bianca Bienenfeld, 16 aninhos, loira, bonita, delicada de modos, e depois fascinada com a história dos trios que Beauvoir lhe ia contando. Ao mesmo tempo que Sartre seduzia a tal irmã mais nova de Olga, Wanda, e se deixava seduzir por uma jovem actriz, Colette Gilbert, confessando-lhe que a ama, mas que não há lugar para ela na sua vida, onde já estavam Olga, Wanda, e Beauvoir, claro, Beauvoir primeiro que todas e que tudo. Os trios ampliavam-se, multiplicavam-se.


Quando Sartre se apaixona por Wanda, diz Beauvoir que no Flore as pessoas olhavam de lado para mim.



E a jovem Bianca acabará também por ir parar aos braços de Sartre. E Sartre declara-lhe o seu amor e quer saber se será possível ela vir a apaixonar-se por ele – histórias de cordel, não? Bom, possível era, que a jovem se apaixonasse por ele, o que ela não queria de maneira nenhuma era magoar mademoiselle de Beauvoir. Mas Sartre desvaloriza. Não, Castor não se importaria nada com isso.


E pronto. Era um novo trio fundado por Sartre às escondidas. Sartre passava a noite com Bianca e de manhã ia bater à porta de Beauvoir, no Hotel Mistral, a contar-lhe como tinha sido a noite. Mas também a jovem Bianca se abria com Beauvoir, admitindo que estava apaixonada por Sartre e que tinha medo de o perder. Beauvoir que falasse com ele. Depois de ela me dizer isto descemos para o meu quarto, onde nos envolvemos em carinhos ilícitos. Mas penso que, em última análise, não sou homossexual, uma vez que, sensualmente, não sinto quase nada.


Sartre está na tropa, longe de Paris. Beauvoir vê-se e deseja-se para estar com ele. Para ir ter com ele ao quartel passa estafadeiras entre camionetas e comboios. E num fim de semana da tropa, Sartre mostra-se preocupado. Por causa dessa coisa das mentiras, as mentiras que andava a impingir a Wanda. Parecia-lhe que a rapariga o amava a sério. Começava a questionar-se. E se fosse melhor ficar fiel a uma só pessoa? E é quando o jovem Bost salta da cama da Beauvoir e cai todo juntinho na cama de Olga.


Mas mesmo no meio da balbúrdia de corpos e camas, Sartre não deixava, de pensar, de escrever. E tanto assim que chegamos a 1938 e Sartre, passadas muitas tentativas e cunhas poderosos junto da editora Gallimard, lá consegue ver publicado o primeiro livro, um romance, o celebérrimo A Náusea.


E nem os seres de alta compleição intelectual têm meios de escapar à parvoíce e à toleima barata. Depois de saber que a Gallimard lhe vai publicar a obra – sim, vai, porém na condição de aceitar a sugestão do patrão, Gaston Gallimard, e mudar-lhe o título de Melancholia para A Náusea – sai-se com esta: hoje sim, posso caminhar pelas ruas como um autor. Alguém saberá melhor do que eu a diferença entre o andar na rua como um paisano vulgar e o andar na rua como um autor.


 No caso de Beauvoir, rejeitada pela Gallimard e logo em seguida pela Grasset, demorava a encontrar editora para o primeiro romance. Oiça, Castor, porque não se coloca a si própria na sua escrita? – pergunta-conselho de Sartre. Você é muito mais interessante do que essas olgas, wandas, biancas, lisas. Sobressalto de Beauvoir: cale-se lá homem!, o quê, lançar-me a mim própria num livro, não preservar as distâncias, comprometer-me? Só a ideia de se expor lhe punha os cabelos em pé, Ousar, ousar – recalcitrava Sartre. A minha maneira de sentir, de reagir, era tudo isso o que eu deveria exprimir num livro? Nunca! (Pois, desde então não fez outra coisa em toda a vida e obra.)


A relação de Sartre com Wanda era pública e notória, mas a paixão de Beauvoir e Bost era clandestina, enquanto as relações de Bost com Olga eram oficiais. Mas a relação de Sartre com Beauvoir, estranhamente, também era consumada um pouco às escondidas, porque Sartre não queria que que Wanda soubesse demais. E Sartre e Beauvoir lá continuavam a pagar todas as despesas daqueles trios, ou, sei lá, quartetos, quintetos, às escondidas ou às claras.


Acreditavam firmemente no socialismo, mas o individualismo (em que acreditavam ainda mais) refreava-lhes as posições progressistas, e assim se mantinham no papel de testemunhas silenciosas dos acontecimentos políticos. A guerra! Haveria guerra ou não haveria guerra?


Apoiavam platonicamente as manifestações operárias, as greves nas fábricas, porque eram justas, mesmo sabendo que essas manifestações e greves lesavam gravemente o outro apoio platónico que davam ao governo socialista de Léon Blum, o Front Populaire. Que viria pouco depois a cair por acção da extrema direita.


Numa viagem pela Alemanha ainda lhes custava convencerem-se da realidade, que o nazismo não era aquele fogo de vista político que os comunistas propagandeavam. E assistiram às paradas, viram os braços estendidos e os olhares fixos de um povo em transe.


Sartre já profetizara: se Hitler não fosse derrotado, a França teria a mesma sorte da Áustria (entretanto anexada por Hitler, como se sabe). Mas havia outras correntes de pensamento, a dizer que uma França em guerra seria bem pior do que uma França nazificada. E Sartre continuava a bradar, sem abandonar o seu individualismo burguês e filosófico, somos intelectuais, uma dominação nazi roubará todo o sentido às nossas vidas.


E profetizava mais: aquela seria uma guerra moderna, sem massacres; como a pintura moderna, sem personagens; como a música moderna, sem melodia; como a Física, sem matéria. Profecias erradas. Acontece aos melhores.


Por outro lado, Beauvoir ia dando nota das transformações (e conversões) que se estariam a produzir nela perante a ameaça nazi. 1939 era ano de rupturas pessoais. Renunciava ao individualismo – não percebo como uma pessoa pode renunciar a uma condição que lhe está, digamos, na massa do sangue. Mas Beauvoir, vá lá, dizia estar a aprender a solidariedade.


Mas também retrospectivava os últimos dez anos de vida e as transformações e conversões de 1929, a saída da casa dos pais, a independência económica, o fim das amizades da infância e adolescência e o começo das novas. E Sartre. E a felicidade assegurada por via do pacto com Sartre. E a ambição literária, vamos lá, ainda que baseada, segundo ela, numa vocação abstracta. Queria ser escritora, muito bem, mas iria escrever o quê? Admitia nunca se ter curado dos males do moralismo, do puritanismo, ou de um universalismo tão abstracto como a vocação literária. E era o sonho de felicidade pessoal que a cegava para as realidades políticas.


E por uma bela tarde de domingo, 3 de Setembro de 1939, a França segue a Inglaterra e declara guerra à Alemanha. Beauvoir estava no Café de Flore a escrever, e o primeiro pensamento dela foi para o jovem Bost, a grande paixão contingente do momento. Bost que estava no serviço militar e que lhe inspirava o pressentimento de que iria morrer na frente. De caminho, escreve-lhe: meu amor, se lhe acontecer algum mal nunca mais sentirei qualquer felicidade nesta vida.


Sartre já tinha acabado o tempo de tropa normal e estava na reserva. Mas, sendo um caso de guerra, também estava à bica para ser mobilizado e enviado para a Alsácia. E se Sartre morresse também? As probabilidades não eram muitas, Sartre não tinha uma especialidade de combate, era meteorologista, mas, mesmo assim, nunca se sabia. Se Sartre morresse, Beauvoir não tinha que pensar senão numa coisa: suicídio. E até achava reconfortante essa ideia suicidária. Ao ler a carta em que ela lhe revela essa intenção, Sartre responde que aquelas ideias de suicídio lhe transmitiam uma paz profunda. Não gostaria nada de a deixar para trás. Nunca senti tão intensamente que você e eu somos um. Ela replica: meu amor, você não é apenas uma coisa da minha vida, pois a minha vida já não me pertence, você é sempre eu.


Mas quando Sartre pensava em Wanda e imaginava a vida no pós-guerra sem ela era como se o mundo ficasse encolhido. Faltar-lhe-ia a dimensão vital.


Ora Wanda entrara para os cursos de teatro de Charles Dullin e andava a ser cortejada por um actor da companhia. Uma corte que não fazia sentido a Sartre. É óbvio que a vida dela sou eu, não pela ternura que lhe possa inspirar, mas pela necessidade intelectual e material que tem de mim. Isso mesmo, Sartre continuava a sustentá-la, como sustentava a irmã Olga, e talvez o jovem Bost, tudo a meias com Beauvoir. Nos tempos desgraçados de guerra e ocupação, sem o apoio financeiro deles, os amantes cairiam na miséria mais negra. E nas notas que tomava para uma próxima obra filosófica (que viria a intitular-se O Ser e o Nada – eu sou o Eu que os outros conhecem), Sartre escrevia que as relações humanas envolvem sempre conflito, e que o amor entre duas pessoas é necessariamente um conflito… cada uma quer que a outra o ame, mas sem levar em conta que amar é querer ser amado, e cá está a perpétua insatisfação do amante. O amor era uma batalha. Dois sujeitos livres a tentarem apoderar-se da liberdade um do outro, e ao mesmo tempo querendo libertar-se do domínio do outro. Nem mais. O Mal existe, e foi inventado pelos homens de bem.


Sinto o avanço alemão como uma ameaça pessoal. A minha única ideia é não ficar separada de Sartre, não ser caçada como um rato numa Paris ocupada.


Claro, vem mesmo a guerra, a derrota, a consequente ocupação E vem a vida tornada um inferno de sobrevivência e de subsistência.
Sartre é feito prisioneiro pelos alemães. Beauvoir tem pesadelos, sim, ele volta, volta mas já não me ama e eu encho-me de desespero.


E de facto, Sartre volta. Volta depois de uma libertação com as estranhas aventuras que mais parecem de uma evasão. Volta e toma uma consciência nova das coisas.


Paris era o enfrentamento da realidade da ocupação alemã, do recolher obrigatório, da penúria, da fome, do risco, dos atentados, da Gestapo, das perseguições, das torturas. E diz que não voltou a Paris para se gozar da liberdade, não, voltou para agir. E como os alemães têm que ser expulsos da França, organiza um minúsculo grupo de amigos como uma célula (privada) de resistência. Reúnem secretamente no quarto do hotel onde Beauvoir está hospedada.



Daí a uns tempos, Sartre vai à zona livre para contactar alguns notáveis possivelmente próximos da verdadeira resistência.


Malraux – que lhe responde que só os tanques russos e os aviões americanos podem ganhar a guerra e salvar a França, nunca os intelectuais pequeno-burgueses.


Gide – que muda de conversa quando Sartre lhe conta os planos da célula privada dele.


Vai falar com os comunistas – que desconfiam abertamente dele; passou o tempo de prisão a ler Heidegger, um nazi; se os alemães o libertaram alguma coisa ele com eles colaborou; e a mesma conversa dura dos intelectuais: do que a resistência menos precisava era de intelectuais pequeno-burgueses. E assim a micro-célula de Sartre se dissolve.
Não era que o epíteto de intelectual pequeno-burguês o incomodasse particularmente, mas tal classificação não era bastante para lhe definir as posições pessoais e a atitude cívica.


Até aí, tinham vivido na militância existencialista, a liberdade individual e sexual acima de tudo, finalidade suprema de vida. Ilusões classistas, já se sabe. Filhos de uma burguesia de privilégio, podiam entregar-se a luxos intelectuais, um deles esse mesmo: o primado absoluto da liberdade individual. E já nos idos anos 30 se tinham perguntado se seria justo contentarem-se intelectualmente com as simpatias que sentiam pelas classes operárias, eles, burgueses bem instalados na vida. Sartre ainda nessa altura pensou em aderir ao Partido Comunista, mas… as ideias dele, o projecto de vida dele, o próprio temperamento dele, recusaram tal hipótese. Dois intelectuais pequeno-burgueses invocando a sua obra, o seu futuro, para evitar o compromisso político: era essa a nossa realidade – lúcido reconhecimento de Beauvoir.
Começavam agora a sentir a História carregar-lhes sobre a consciência, a realidade pungente dos mortos, dos estropiados, dos torturados, dos refugiados, da ocupação pelo inimigo da cidade onde tinham nascido. A História.


Está bem, mas já em pleno tempo de ocupação nazi, Beauvoir, apesar de escrever a Sartre que o sexo com jovens bonitas era só um pobre substituto do artigo genuíno, entusiasmara-se com outra aluna, Nathalie Sorokine, também esta de pais russos. Alta, loira, corpo musculado, arrapazada, ladra de bicicletas. Não há nada a fazer, ela quer dormir comigo. Nas cartas para o jovem Bost minimizava Beauvoir o interesse por aventuras lésbicas. Era estranho ser amada por tantas jovens, mas certamente que não era a ela que amavam, era o reflexo do próprio futuro delas que ela representava.


Da fama de abusadora de raparigas à denúncia não se livrou Beauvoir. Em Março de 42, a mãe da nova conquista, a Sorokine, entra no Ministério da Educação de Vichy com uma queixa contra ela. Mademoiselle de Beauvoir andava a corromper-lhe a filha menor. Ou mais: Mademoiselle de Beauvoir seduzira a filha e a seguir, em acção proxeneta, passara-a para as camas dos seus amigos Sartre e Bost.


Foi-se a ver e a mãe da jovem sabia quase tudo dos trios e dos quartetos e das rebaldarias do casal Sartre/Beauvoir. Um ex-namorado da filha tinha-lhe contado tudo. E o caso meteu polícia. E meteu interrogatórios a todos os envolvidos, e até ao pessoal e aos residentes dos hotéis, e aos reitores dos liceus onde Beauvoir leccionara. Os do núcleo dos trios, olha que meninos, mestres da mentira, combinaram cuidadosamente as estratégias, e, claro, negaram tudo. Pois, mas era tudo verdade.


Muito mais tarde, testemunhas abalizadas (Bianca e Nelson Algren, o amor americano de Beauvoir) confessariam que era isso mesmo, que Beauvoir actuava como atravessadora, seduzindo as amiguinhas e atirando-as para os braços de Sartre, que, coitado, feio como uma noite de trovões bem precisava dessa ajuda. E devia essa ajuda a uma cláusula secreta do pacto de 1929.


O reitor da Universidade de Paris considerou inadmissível manter Beauvoir nos corpos docentes. A França queria restaurar valores morais e mademoiselle de Beauvoir vivia há anos em relações de concubinato, não tinha casa, vivia em hotéis de má nota, corrigia os trabalhos dos alunos na mesa dos cafés e ensinava a obra de autores homossexuais, Proust e Gide. Em Junho de 43, o governo de Vichy expulsa Beauvoir do ensino – o que lhe acrescentou prestígio, diga-se, nos meios da esquerda. Viria a ser reintegrada depois da libertação, mas sem nunca ter voltado a dar aulas.


Tenho 32 anos, sinto-me uma mulher feita, mas gostava de saber que mulher. Sou mulher, sim, mas em que sentido eu posso não o ser?
Sartre alinhava novas profecias para o que viria a ser aquela guerra, mas já pensava no pós-guerra. Não poderia mais esquivar-se à participação política. Um homem tinha de assumir aquilo a que chamava de “uma situação”, e assumir uma situação era passar à acção. Ia construindo uma filosofia. O Ser e o Nada. Desejar o Absoluto e sofrer da ausência dele no desolado caminho da inutilidade do Ser e do Nada. Qual a relação entre situação e liberdade?
A jovem Olga, que, como já se disse, não tinha préstimo para grande coisa na vida, frequentava também os cursos do Théatre de L’Atelier e fez uma pontinha numa peça dirigida pelo então jovem prometedor Jean Louis Barrault.


Barrault não desgostou dela e ela perguntou-lhe como poderia vir a fazer papéis mais importantes. O melhor, na opinião de Barrault, ainda seria arranjar alguém que escrevesse uma peça para ela. Olga conta o caso a Sartre e está feito, Sartre não perde tempo: e porque não eu a escrever essa peça para si?


É verdade que já não tinham nada um com o outro, mas o que começara por um trio já era uma família, e Olga fazia parte da família. E é assim que nasce a primeira peça teatral de Sartre, As Moscas, uma inspiração bebida na tragédia dos Átridas, o regresso de Orestes para matar os assassinos do pai – quer dizer, a própria mãe e o amante dela -, e com evidentes alusões à situação política que se vivia.


O doloroso segredo dos deuses e dos reis é que os homens são livres, tu sabe-lo, Egisto, eles é que não. Se o soubessem deitariam fogo ao meu palácio. Represento esta comédia para lhes esconder o seu próprio poder.


Barrault era para montar a peça, mas entendeu que Olga não tinha cabedal técnico-artístico para o papel de Electra e barafustou contra Sartre, alegando – com razão - que o que ele pretendia era promover uma amante. Sartre não cedeu, pôs os pés à parede, queria Olga no papel e acabou-se.


E Barrault abandona o projecto, e a peça vem a ser dirigida por Charles Dullin, grande nome do teatro francês da época. E a estreia dá-se em Junho de 43, com uma certa Olga Dominique no principal papel feminino.


Teve pouco público, mas foi um acontecimento teatral histórico. Críticas mitigadas. Crítica que, aliás, fingiu não ter percebido o panfleto político dissimulado no texto. A palavra liberdade na boca de Orestes explodiu sobre nós como uma bomba – escreveu Beauvoir na noite da estreia. Sou livre, Electra, a liberdade abateu-se sobre mim como um raio.


Nesse verão de 43, Sartre publica o ensaio O Ser e o Nada – dedicado a Castor. Ser é tomar consciência de ser olhado. É o olhar do outro que me conduz a mim mesmo. E em Agosto sai enfim o primeiro romance de Beauvoir, A Convidada – e a despeito das muitas reservas da editora Gallimard. Um romance que de tão autobiográfico lança a público as primeiras luzes sobre as reais relações Sartre/Beauvoir. A teoria que Beauvoir formula, depois de publicado aquele primeiro livro, dizia que o indivíduo não se podia conhecer a si mesmo, só se podia contar.


 E a Wanda, a tal irmã de Olga, e então amante principal de Sartre, também lhe dá para o teatro, também frequenta os cursos do Atelier, e também já fizera um pequeno papel.


Daí que Sartre se sentisse tentado a escrever também uma peça para ela, uma coisa breve, um cenário único, um acto único, duas ou três personagens, uma situação de beco sem saída, ou, como no título original, um Huis Clos.


Ou seja, um inferno – o inferno são os outros: sentença final da peça. Que é uma obra-prima. Que é um sucesso. O maior de Sartre até então. Wanda integra o elenco sob o nome de Marie Olivier.


Numa tarde de princípios desse ano de 43, no Flore, um sujeito que quer editar uma obra sobre as tendências ideológicas do momento, vira-se para Beauvoir e pergunta: e você, é existencialista?
Muitos anos passados, ao contar a peripécia, Beauvoir ainda se lembrava do embaraço dela. Sim, quer dizer, isto é, pois claro… lera Kirkegaard. Sim, sabia que quando se falava de Heidegger, além da palavra fenomenologia, vinha associada a palavra existencialismo, sim, sabia disso. Mas também reconhecia que naquele momento de 1943 ignorava o sentido dessa palavra existencialismo, uma palavra, sim, sabia, acabada de lançar no mundo intelectual francês pelo católico Gabriel Marcel. Também sabia das suas (dela) limitações filosóficas e não se atribuía importância suficiente para ostentar uma etiqueta filosófica.


E agora, a grande sensação. As vidas estavam num tempo de crises demasiadas e, para ajudar à triste festa da vida sob a ocupação, Sartre declara unilateralmente o fim da relação sexual com Beauvoir. A minha relação com Wanda é perfeita, declarou. Wanda a quem a Beauvoir tinha um pó dos diabos, como também o tivera à irmã, a Olga, quando a disputara com Sartre. E filosofava, a Beauvoir: é evidente que nos homens o hábito mata o desejo. Mas estava com 33 anos e custava-lhe engolir que o homem que mais amava não a desejasse. Mais tarde viria a concordar que nos últimos anos, antes da guerra, as relações deles já eram mais de amizade profunda do que de amor.


Até podia aceitar que Sartre fora para ela um substituto do pai – e que Olga lhe funcionara como sucedâneo de uma filha. A dialéctica que corre da infância à idade adulta transforma as relações afectivas, conserva-as e ultrapassa-as. A minha ligação com Sartre reverte à minha infância, mas também ao que ele próprio era. Para me interessar por Olga seria preciso haver em mim uma disponibilidade, um desejo de me dedicar a alguém, mas foi a personalidade de Olga que determinou a singularidade da nossa relação.


Beauvoir viria a assassinar Olga. Calma. A assassinar literariamente. Assassinar a personagem ficcionada para aplacar os rancores, as irritações que a pessoa real lhe causara, e que era bem assinalável enquanto personagem romanesca. E isso foi logo no romance de estreia, A Convidada, que não era muito mais do que o conto das inter-relações daquele trio. O assassínio da personagem inspirada na pessoa real de Olga foi uma libertação. A passagem do meu coração às palavras (como Sartre lhe havia aconselhado), por momentos, pareceu-me um obstáculo intransponível. A ligação maníaca de dois adultos a uma criança de 19 anos não era explicável senão pela efabulação. Lá estava: o indivíduo não se podia conhecer a si mesmo, só se podia contar.


E vamos do individualismo militante ao compromisso político. Era o que a situação histórica exigia. E tal como nós, Camus passara do individualismo ao compromisso. Sabíamos que ele já tinha responsabilidades no movimento Combat. E acolheu com naturalidade o sucesso literário, a notoriedade, parecia não se tomar muito a sério.


Camus era um tipo engraçado, contador de histórias em linguagem picante, em luta contra a tuberculose, um homem que atraía as mulheres. Atraiu Wanda. E atraiu Beauvoir. Talvez ele e Beauvoir tenham passado os seus bons bocados. A palavra dela a esse respeito é ambígua até mais não. Jantámos Chez Lipp e levámos uma garrafa de champanhe para o quarto do Hotel Louisianne
.

Ocorre dizer que a notoriedade literária também viria a ser festivamente acolhida por Beauvoir. Entrava verdadeiramente no mundo intelectual, as novas amizades, e todas importantes, eram uma festa para ela, que se sentia no huis clos daquele mundo acanhado dos trios, das manigâncias sexuais, das mentiras, as amantes tornadas amigas e as amigas tornadas amantes.


A notoriedade literária proporcionava-lhe a qualidade de vida, e a qualidade de visita de casa e de festas de gente de renome, Picasso, Salacrou, Cocteau, George Bataille, Michel Leiris, Lacan. Foi então que começou a vestir bem.


E é nessa altura que ela e Sartre descobrem os talentos poéticos de um fulano acabado de sair da prisão por roubos e outras malfeitorias de delito comum, um fulano chamado Jean Genet.


Queria que no meu livro entrasse o mundo inteiro, embora não tivesse nada de preciso a dizer, a não ser uma revolta individualista contra uma sociedade corrompida.


Depois, ouviu-se dizer que a bandeira tricolor já tremulava na Torre Eiffel, que o general De Gaulle já tinha chegado a Paris e se preparava para desfilar nos Campos Elísios.


Foi por uma sexta-feira de Agosto de 1944.   
          
                                CONTINUA


domingo, 8 de março de 2020


                                       EXISTENCIALISTAS 1
        
        Mademoiselle Simone de Beauvoir perdeu a virgindade no dia 16 de Outubro de 1929, num 5º andar da Avenida Denfert-Rochereau, em Paris. Não sei precisamente o número da porta, nem a hora exacta, não, não sei. Ah, mas, mais importante do que isso, sei a cor do papel que forrava as paredes do quarto: cor-de-laranja. O operador foi um jovem vesgo chamado Jean Paul Sartre. Que há meses andava de olho vesgo nela.











Foi a liberdade o que mais perturbou mademoiselle de Beauvoir quando começou a viver em Paris, em casa de uma avó, em Setembro desse ano de 1929. E pelos vistos não perdeu demasiado tempo a usar essa liberdade que a perturbava, porque sim, porque compreendeu depressa, e disse-o, que a liberdade era uma fonte inesgotável de invenções que poderiam enriquecer o mundo.



Mademoiselle de Beauvoir tinha 21 anos e preparava na Sorbonne a agrégation em Filosofia. Apresentou uma tese sobre Leibniz que deixou o seu jovem colega Sartre embevecido e ainda mais estrábico. E embevecido, e de olhos tortos, tanto pela beleza da moça, como pela voz rouca da moça, como pelo brilhantismo intelectual da moça.



O jovem Sartre não devia absolutamente nada à beleza, já se percebeu. Com o seu 1,58 m. de altura era chamado pelos do seu grupo de intelectuais de “homenzinho”. Era feio. Era estrábico. Tinha pontos negros na cara. Usava óculos. E fumava cachimbo. Mas gostava de miúdas que se pelava, sabendo embora de todos esses contras nas fainas de sedução feminina. Ai ele é isso? Ai não levo nada delas pelas minhas prendas físicas? Pois eu lhes direi: vou tirar delas tudo o que eu quiser pela palavra. E se não tirou tudo, tirou muita coisa.

O mais engraçado é que as mulheres não corriam atrás de mim. Escreveu muitos anos depois um Sartre já bem maduro. Na verdade era eu que corria atrás delas. Naquela altura, nas poucas aventuras que me apareceram pelo caminho, depois de me dar a grandes trabalhos para me aproximar de uma jovem, sentia-me obrigado a explicar-lhe que ela tinha que ter o cuidado de não contender com a minha liberdade.



Lancei-me numa imprudente aventura quando comecei a falar de mim; começa-se e nunca mais se acaba – escreveu a menina Beauvoir quando também já era crescidíssima, quando já tinha estatuto, tempo e vida para escrever livros de memórias. Impossível fazer luz sobre a própria vida sem fazer luz também, aqui e ali, sobre as vidas dos outros.


                   


           E a menina Beauvoir passou a alinhar no grupo dos amigalhaços do jovem Sartre, entre os quais estava o mais brilhante deles (a seguir a Sartre, bem entendido), Paul Nizan. E a menina Beauvoir vem a escrever que eram de uma linguagem agressiva, de pensamentos categóricos e de julgamentos implacáveis. Queriam provar que os homens eram corpos de carne e osso atormentados por necessidades físicas, grosseiramente envolvidos na aventura brutal que era a vida. E o grupo atribuiu-lhe uma alcunha: Castor.

Viver a vida, somente, sem promessas, e muito menos promessas de casamento, tinha dito o jovem Sartre à menina Beauvoir – provavelmente ainda no apartamento cor-de-laranja da Avenida Denfert-Rochereau – a dois passos de Montparnasse.



Já se disse que o rapaz era feio, baixinho, estrábico, sem gracinha nenhuma; ela era moça burguesmente educada, alta, pele branca, olhar azul-aço. Dizem os admiradores que conservou esta frescura juvenil toda a vida. E se numa primeira fase o rapaz, Sartre, estava apaixonado pela menina Beauvoir, ela nem tanto por ele. Cama? Era coisa de somenos. Podiam deitar-se ou não, muitas vezes ou poucas. Podiam deitar-se com terceiros – e deitaram-se, oh, se se deitaram! Mas tinham que dizer um ao outro como e com quem se deitavam e como tinha corrido. E um pequeno detalhe: Sartre deitava-se com raparigas… e Beauvoir também.



No fim da vida, a sempre mademoiselle de Beauvoir explicaria. Sartre era um heterossexual sem mácula, tout court, e ela era bissexual em toda a linha. E outra nuance: ela engataria para ele. Era assim mesmo, assunto deles, o público não tinha nada que saber – e pouco ou nada soube até saírem memórias e correspondências. E o que se diz é que, neste esquema, Sartre viria a ter poucas mãos a medir e a certa altura já pouca pachorra teria para pensar e escrever. E Beauvoir observava, registava. Nada de especial enquanto o pacto de 1929 se mantivesse. Pacto de verdade, não de paixão.



Tenho que meter aqui uma parte pessoal e tenho que dizer que o casal Sartre/Beauvoir era, chamemos-lhe assim, modelo de um dos mitos da minha juventude de intelectual de café, o amor livre. Quando ainda havia cafés, já se vê. Cafés onde um jovem se intelectualizava. Ou, talvez melhor dito, cafés que intelectualizavam a juventude que tinha tempo e espaço de vida para lá parar. Sartre e Beauvoir ditavam muito da moda do pensar europeu, é certo, do pensar jovem do mais ilustrado, progressista, esquerdista ideológico. O esquema era simples (ou simplificado): homem e mulher gostavam um do outro, sentiam afinidades profundas, mas não era por isso que iam casar. Não. Viveriam cada um na sua casa, poderiam almoçar ou jantar juntos, ou dormir juntos, se e quando apetecesse aos dois. E a não-coabitação era já um factor de liberdade pessoal, de autonomia individual. Cada um reconhecia no outro o direito ao seu corpo, ao seu tempo e ao seu espaço. Coisa linda.

E era inconcebível que Sartre e Beauvoir fizessem cenas de ciúmes quando se sentavam a tomar o pequeno-almoço no Café de Flore. E porque uma relação de tantas larguezas só poderia ser vivida por duas pessoas de envergadura intelectual e cultural que se equivalessem em independência económica. E aí estava um ideal difícil de conseguir para o jovem mediano de cabedais no Portugal grisalho e salazarão dos anos 60.



Anos 60. Justamente. Portugal, primeiros anos 60. O existencialismo não é que tivesse já barbas brancas por esse mundo, mas quase. E estávamos em Portugal, com censura, com polícia política, sem telemóveis, sem internetes, uma televisão a que pouco se ligava – como era possível viver assim? Pois, e a Portugal era costume as coisas chegarem tarde e más horas. E ainda por cima (ou por isso mesmo), o existencialismo era um sistema filosófico (vamos chamar-lhe assim) com foros de subversivo, a encher a boca de liberdades. Mas nos tais cafés que intelectualizavam a juventude ainda se falava do existencialismo e se discutia o existencialismo – ou, vá lá, ainda se tentava compreender em que realmente consistia o existencialismo.

Aliás, mais popularmente, falava-se dos existencialistas como sinónimo de tipos extravagantes. Extravagância e anti-convencionalismo nos modos, no vestir, nas barbas – barbas à existencialista, ainda me lembro; ou talvez ainda julgasse nessa altura que Sartre usava barbas (nunca usou) e andasse ponta abaixo ponta acima (andava de fato e gravata). Uma extravagância que, diga-se, tinha que ver com o existencialismo filosófico essencial, e por demonstrativa de um princípio de liberdade de vida e de comportamento.

Oh, e as poses da juventude que os cafés intelectualizavam eram graves, preocupadas, senão mesmo amarguradas. Angustiadas, por melhor dizer. Era a exibição da tal angústia existencial, do mal-estar sem nome nem origem; ou derivado dessa liberdade, depois de o pessoal ter aprendido com Sartre que, refutada liminarmente a existência de Deus, o Homem estaria condenado à liberdade. O Homem e só o Homem seria responsável pelo seu destino, pelos seus actos, pelas decisões da sua vida.



Ah, sim, pois, era uma chatice. Estava-se melhor com a fé em Deus, com o destino marcado por Deus e assim, ideias que desculpabilizavam muito. Era uma chatice e era mesmo uma angústia por nada de concreto, uma angústia existencial. Era o existencialismo.

E tudo isso ia dar ao amor. O livre, claro. Outra categoria do existencialismo, do primado da existência. A vida, enfim. E na minha ideia, 18, 19 anos, a ser intelectualizado pelos cafés, e mesmo sem me reclamar literariamente do existencialismo – a minha fezada ia então mais para o neo-realismo (ou realismo socialista) – a relação Sartre/Beauvoir apresentava-se-me como tudo o que poderia sonhar com respeito a relações com o outro sexo – o segundo, como estipularia mais tarde, mademoiselle de Beauvoir. Liberdade. Nenhum compromisso de vida inteira. Sinceridade. Lealdade. Ausência de ciúmes e de sofrimentos afectivos. Uma ideologia que vinha mesmo a calhar para mim, que tinha acabado por essa altura um namoro daqueles para casar…

Pois foi, levei quase uma vida para saber que a mítica e gloriosa relação Sartre/Beauvoir não era exactamente assim, idílica.



À apetitosa mademoiselle de Beauvoir e ao feioso jeune homme Sartre faltava então o exigente exame final das provas para professor de Filosofia. Foram-se a elas e passaram na escrita. Faltavam as orais. Sartre vai conversando muito com Beauvoir, e vai-lhe dizendo carrément: daqui em diante vou tomá-la a meu cargo.
Verduras de juventude. Beauvoir contrapõe: sou demasiado inteligente, demasiado exigente e demasiado desembaraçada para que possam tomar conta de mim plenamente. Ninguém me conhece ou ama por inteiro. Tenho-me apenas a mim própria.
Sim, verduras da juventude, também. 

Por esses tempos houve quem dissesse que Sartre era um fulano mais ou menos romântico-sentimental que gostava de passeios ao luar, de conversas ternas à beira-mar, e que alimentava sonhos de tomar conta de uma jovem bonitota para a salvar e proteger. A vida sexual podia bem ser separada dos sonhos de amor.

E nas orais da agrégation na Sorbonne Sartre arranca um brilhante primeiro lugar, a dois pontos do brilhante segundo. E quem era o brilhante segundo, quem era? Mademoiselle Simone de Beauvoir.



Sartre, todo ele eram planos para uma vida futura ao lado de Beauvoir, aventuras, viagens, uma vida empolgante de liberdade e paixão. Daria a Beauvoir tudo o que pudesse dar. Mas uma coisa havia que ele nunca lhe poderia dar, que era a sua pessoa. Precisava de ser livre. Ponto final. Dispensava os bens materiais. Só tinha uma missão na vida: ser um grande escritor. E para se ser um grande escritor tem que se ser livre, livre para poder viver o mundo.

Sartre não é sensual, mas a harmonia dos nossos corpos tem um significado que torna o nosso amor mais belo.

Sartre iria em breve assentar praça. Beauvoir ficaria por uns tempos ainda em Paris e começaria a escrever um romance. Nos projectos de Sartre havia ainda um concurso para professor de Francês no Japão, o que implicava uma separação de dois anos. Passado esse tempo ficariam juntos de novo e estaria na hora de se fazerem à vida. Uma certeza: a relação deles nunca poderia ser uma rotina.



Casamento. Não e não. O amor não era posse. E Sartre nem tencionava abdicar dos seus casos amorosos avulsos. E nem ela, Beauvoir, deveria deixar de ter uma paixoneta ou outra. O amor deles tinha a qualidade de ser essencial. E primário. Ora se a relação deles tinha à partida a vocação de durar uma vida inteira, para quê privarem-se de casos acidentais, secundários, contingentes? O amor deles era um amor necessário, e convinha que ambos conhecessem também os outros amores, esses, os amores contingentes.

Amor era amar outra pessoa enquanto ser livre. Ó homem, então e os ciúmes? Ora ora, fácil de resolver. Mas como? Era contarem um ao outro tudo o que fossem vivendo, todos os casos, as circunstâncias, os pormenores, tudo. E assim nunca se sentiriam excluídos da vida do outro. Nada de segredos. Abertura total, radical.

(Maravilhosa lição de vida, digo eu, para estes nossos tempos de amores homicidas e domésticas violências…)

Beauvoir não vai fora disso. Eram escritores – mesmo sem terem ainda escrito (quer dizer, publicado) nada. Precisavam de liberdade e tempo. Ciúmes? Sartre não podia com essa palavra. Os indivíduos teriam de saber comandar as paixões sem se deixarem levar por elas. Não sendo assim, onde lhes ficava a liberdade? A força de vontade mitigava todas as emoções do indivíduo livre e soberano de si mesmo. E, em conclusão, ficariam assim fiéis a esse pacto. Por dois anos. Depois, logo se veria.



Na firmeza do nosso compromisso intelectual, os luxos, os automóveis, os visons das mulheres, os milionários, não nos impressionavam, e eu experimentava a respeito deles uma espécie de piedosa ironia. Era o que ela pensava ao passar à porta do Maxim’s ou do Fouquet’s, pensando que eram os ricos, confinados ao luxo e ao snobismo, isolados das massas, os excluídos da sociedade. Os refinamentos e os privilégios deles faziam-lhe tanta falta, (segundo diz) como o cinema ou a rádio aos gregos do século V.



Algum tempo passado, ninguém tirava da cabeça da Beauvoir que ela amava mais Sartre do que Sartre a amava a ela. Ainda assim, sentia-se contente por se ter, finalmente, apaixonado por um homem que considerava superior a ela. Não quer dizer que não antevisse os perigos. O mais inteligente dos alunos mais brilhantes da École Normale tinha forte noção do próprio génio, e até confessaria (mais tarde): eu via-me como um génio e falava com os meus amigos como um génio falaria com os amigos – não faço ideia (e não sei se ele faria) de como um génio fala com os amigos, mas está bem. E como tinha uma personalidade forte (e pelos vistos altamente narcísica), aos amigos chamava-lhes seus acólitos.

Não era coisa fútil aquele amor, não, não era, aquele amor e aquele conceito de fidelidade. Depois de ter conhecido Sartre descarreguei sobre ele o cuidado de justificar a minha vida. É obra!

Iam para a cama… sim… ou não iam assim tanto – ou a certa altura deixaram de ir, é verdade, lá mais para a frente. Então, para que queriam estar todo o tempo juntos? Para conversar. Para viajar. Muito. O mais possível. Anos mais tarde, Cuba, Rússia, China, Grécia, Brasil. E até Portugal. Todo o tempo juntos para pensar, numa espécie de polifonia a duas vozes. Para ler, reler e comentar. Para escrever, obviamente, sim, trabalharam em frente um do outro.



A minha sexualidade, como o meu gosto pelo café, está nos meus livros. Cabe aos críticos descobri-la – resposta de um Sartre já bem entrado na idade a um entrevistador.

Em 1929, desafiaram evidentemente as convenções e as respectivas origens de classe, média/alta burguesia. Iam inventando a relação enquanto a iam vivendo, e sempre com a mira na liberdade, e no melhor uso que cada um lhe poderia dar. E como iam tendo outros amantes, também calhava virem a ser amigos dos e das amantes um do outro. Ou, como no caso de Sartre, partilhá-los. O pacto era a dois, muita atenção, não era transmissível a outros envolvidos. Se o amor deles era absoluto, eterno, primordial, as outras ligações seriam sempre secundárias, ou, na definição cara a Sartre, contingentes.

E fizeram-se à vida. 1931. Sartre não vai para o Japão. Vai dar aulas de Filosofia para o liceu do Havre, que por sorte não era assim tão longe de Paris.


Pior para ela, que lhe tinha tocado Marselha, a 800 km da capital.



Sugestão subversiva: e se fossemos casados? Que é que você disse, casados? Sim, filho, casados poderíamos ser colocados na mesma cidade. Valeria a pena aquela separação só por causa de um princípio filosófico, ou de uma mera formalidade legal? Sartre enchia-se de suores frios só de ouvir falar em casamento, em formalidade legal. A solução era só uma: renovar o pacto. O que estava previsto para dois anos passaria a vigorar para toda a vida. Combinado? Combinado.

Gostavam de ensinar. E tinham boa consciência de estarem a servir de modelo para os jovens. E foram-no, de facto. Daí a 40 anos muitos jovens por esse mundo, se calhar intelectualizados como eu pelos cafés, tomaram-nos como exemplo nas relações sentimentais que iam tendo, abertas.

Nos primeiros tempos, Beauvoir olhava com alguma perplexidade os alunos e alunas, aqueles adolescentes a quem tentaria converter às suas próprias maneiras de pensar. De todos eles, quem a seguiria? E até que ponto? E depressa, e muito naturalmente, se desencadearam as simpatias e as antipatias.

Em Marselha passou Beauvoir o ano mais desgraçado da vida – diria ela, já velha, à biógrafa. Temia por Sartre, apesar de todos os pactos. Bem vistas as coisas, Sartre era um sentimental cheio de pena das raparigas com quem dormira e que deixara ao abandono. Não tardaria nada e ei-lo seduzido pelas lágrimas de uma estúpida qualquer.

E Beauvoir é colocada em Rouen. 1932. As estações de comboio, de Rouen e do Havre, haveriam de ser os pontos centrais das vidas deles naquela época. Rouen ficava a uma hora do Havre e a hora e meia de Paris. Às quintas-feiras, Beauvoir não tinha aulas e metia-se no comboio para o Havre. E noutro dia da semana que calhasse, Sartre fazia o trajecto inverso. Aos sábados encontravam-se em Paris, iam conversar para o Flore, para o Dôme, para o Coupole, para o Deux Magots, e iam fazendo amor em hotéis baratos.



Sartre arranja uma bolsa de estudo para Berlim. Quer estudar Husserl e Heidegger. A fenomenologia, ouvida da boca de Raymond Aron, fascinara-o até à excitação. E chegado a Berlim logo começam os trabalhos de sedução das colegas alemãs. Mas… despojado da minha arma, sentia-me um idiota. A arma dele, está bem de ver, eram as palavras, o parlapiè, a língua francesa. O alemão dele não chegava para altas cavalarias de sedução. E vai daí virou-se para as colegas francesas.



Beauvoir mete um atestado médico (falsificado) e ala a caminho de Berlim para ver em que paravam as modas. E Sartre apresenta-lhe as suas namoradas. Ligações sem futuro, jurou; o pacto continuava em vigor. E Beauvoir regressa a Rouen. E Sartre ainda fica por Berlim mais um tempo, nos braços de uma colega casada.  

Vai começar a nova fase do pacto. Que durará até ao fim da validade deles.

Em Rouen, Beauvoir engraça com uma aluna pálida, loira, etérea, cabelos compridos fatais a caírem-lhe para a cara. Má aluna, por sinal, até ter escrito um trabalho sobre Kant que a Dra. Beauvoir achou o melhor da turma. Nome da moça: Olga Kosakiewicz. 17 aninhos. Ascendência russa e polaca. Aluna que por feliz coincidência também engraça com a mestra. Porque a mestra era jovem, bonita, bem vestida e bem maquilhada…



Nas férias de verão deixam de se ver, mas Beauvoir escreve-lhe. Faz favor de não me chamar mais de mademoiselle. Sinto-me profundamente ligada a si; sinto quase dolorosamente a sua falta; é daquelas pessoas que enriquecem a existência de quem as rodeia. Olga farta-se de escrever à professora, mas depois de escritas rasga muitas das cartas. Porquê rasgar as cartas? – escreve-lhe a professora quando sabe disso. Não há nenhuma das suas expressões faciais, nenhum dos seus sentimentos, nenhum incidente da sua vida que não me interesse. E fala-lhe de Sartre. E fala a Sartre da pequena Olga.



Sartre que regressa de Berlim; que volta às aulas no Havre. Um tanto abatido. O Partido Nazi? Oh não, é um epifenómeno sem gravidade. O que o ralava era o tempo, que passava muito depressa. Tinha 29 anos. Ninguém ainda tinha ouvido falar do grande escritor, do grande génio chamado Jean Paul Sartre. Quem ainda não for famoso aos 28 anos deve renunciar à glória para sempre, confessa a si mesmo.
 

E o grande amigo Paul Nizan era vê-lo, já ia no segundo romance e esse ainda com melhores críticas do que o primeiro. Enquanto ele, o génio Sartre, andava a vaguear pelas editoras com um romance debaixo do braço. Para nada. Frustrado. E até um pouco frustrado na relação com Beauvoir, estávamos cansados da vida respeitadora e virtuosa que levávamos. Sentíamos a falta de uma vida de desordem.

E conhece Olga. E também ele se encanta com a pequena. Vem mesmo a apaixonar-se por ela, e a querer passar cada vez mais tempo com ela. Olga conhecia-lhe a crónica, claro, sabia da especificidade insólita daquele casal. Ele era muito romântico, recordou ela.



Beauvoir escreve: os sentimentos dela em relação a mim alcançaram uma intensidade ardente. E diz à rapariga: neste momento existem no mundo apenas duas pessoas que contam na minha vida, e você é uma delas. E passaram a dormir juntas, a dançar juntas nos bares da pequena Rouen, a embebedarem-se juntas.

Por aqui ia Beauvoir acumulando material para um primeiro romance, que viria, uns bons anos mais tarde, a ter por título A Convidada. Do mais autobiográfico que se pudesse arranjar… Olga não se importava que as pessoas a julgassem lésbica quando entrávamos num local público, e era esse tipo de comportamento que a divertia.

É Sartre que dá a Beauvoir a ideia de tomarem conta de Olga, incluindo sustentá-la, já que os pais da rapariga não deviam nadar em dinheiro e viviam longe; e já que ela falhara nos exames de admissão a Medicina. E não, Olga não tinha jeito nenhum para a Medicina. O caminho dela era a Filosofia. E então inauguraram a modalidade relacional em que viriam a especializar-se: os trios; raparigas seduzidas por Beauvoir que se deixariam seduzir também por Sartre.

De professora a amiga, de amiga a amante, o percurso da dupla Beauvoir/Olga, com intervenção de Sartre na funcional tarefa de lhe ensinar Filosofia e prepará-la para a universidade. Beauvoir diria que naquele trio havia um brilho mágico.



O pior é que Olga era um ser problemático de alto lá com ele. Não era menina que se motivasse para qualquer actividade intelectual. Não tinha a mínima paciência para aturar as longas prelecções filosóficas dos mentores que lhe tinham saído na rifa, uma, duas, três horas de concentração e palestra. Adormecia. E Sartre repreendia-a por indisciplinada. E Olga, que também não era menina para levar reprimendas de um fulano com os olhos tortos, desinteressava-se ainda mais do destino que aqueles dois à viva força lhe queriam traçar. Dormir, ouvir música, dançar, era o que lhe ia mais a gosto, desorientada com todo aquele rigor pedagógico, com toda aquela intelectualidade. Meses passados, Sartre e Beauvoir conviriam que o melhor era desistir. E como Olga não sabia fazer nada, não tinha modo de vida nem parecia interessada em vir a ter, continuaram a sustentá-la.

E atrás dessa Olga chega ao convívio da dupla Sartre/Beauvoir a irmã dela, que se chamava Wanda, que viria igualmente a ter um papel importante nas camas da dupla filosófica. E atrás dessa Wanda vem um rapaz intelectual, fervoroso admirador de Sartre, chamado Jacques-Laurent Bost, que virá a ter um papel importante na cama de Beauvoir – e mais tarde na cama de Olga. Naquele convívio, Olga, Wanda e Bost sentiam-se hipnotizados – palavras do rapaz.



Sartre apaixonara-se por uma qualidade que advertira em Olga, uma autenticidade radical, pura, espontaneamente insensata. Com tudo o que sinto, antes de o sentir já sei que o estava a sentir… - conversa dele. Engano as pessoas, pareço uma pessoa sensível mas sou árido, sei disso, e estou cansado disso. Ao filosofar sobre a liberdade, via em Olga a própria liberdade em movimento, arrebatada, a transbordar violentamente de sentimentos puros. Uma jovem que não fazia planos, que não queria rotinas, responsabilidades, deveres de qualquer ordem. E assim, Sartre passava com ela situações tanto de alarme como de êxtase. E como mandava o pacto, contava tudo a Beauvoir. E Beauvoir, ouvindo-o, definia a sua situação interior como agonia. Mais isso do que ciúmes.

E as coisas descambam numa competição, com Sartre a querer ultrapassar Beauvoir na vida de Olga. E Beauvoir, por não poder admitir a mínima dissonância na relação com Sartre, a deixar-se suplantar. Zangas e pazes. Se Beauvoir acudia por Olga enfurecia Sartre; se acudia por Sartre amuava Olga. Pergunto a mim própria se a minha felicidade não se fundava numa imensa mentira. E outra confissão a si mesma: os meus apetites físicos eram maiores do que eu gostaria que fossem. E envergonhava-se por isso. E porque isso não era problema de que Sartre se queixasse.

Sim, porque, para Sartre, os jogos de sedução eram trabalho literário. Belas palavras, silêncios de entendimento e hábil manejo da técnica do ponto de vista.



No livro autobiográfico As Palavras, muitos anos depois, vem ele a admitir que aquele insofrido gosto pela sedução podia derivar da noção que tinha da própria fealdade. Eram os talentos de comediante e de contador de histórias que encantavam as moças e não o olho vesgo, o metro e 58, o cachimbo, os pontos negros e assim. Já em criança eu era um bobo, um palhaço, um impostor

E Beauvoir envolvia-se entretanto com o intelectual Bost – aventura que naturalmente comunicaria a Sartre… sim, mas neste caso sem partilhas de cama… Sartre não era nada dessas coisas com homens. Ela escreve-lhe: há dois dias dormi com o pequeno Bost. Fui eu que sugeri, claro. As minhas noites eram insuportavelmente opressivas.



       Torciam o nariz ao Freud. Que diabo, a vida não podia ser uma doença, e Sartre andava a matutar num conceito de má-fé em lugar do inconsciente freudiano.

Mal tinham 30 anos e dialogavam muito sobre a monotonia que o futuro parecia querer reservar-lhes. As vidas comprometidas um com o outro, as amizades estabelecidas para sempre, as carreiras profissionais taxativamente definidas… enquanto o mundo seguia o seu curso e nada de novo estaria para lhes acontecer. Angústias, angústias. Angústias existenciais.

Escreve ela que quando bebia o seu copito a mais rebentava em lágrimas pelo irrisório dos destinos humanos na iminência da morte, porque se sentia invadida por aquela velha nostalgia de absoluto. E sentia-se envelhecer, e porque tudo em volta dela ia perdendo a cor. Sartre, por seu lado, reflectia na vacuidade absoluta da consciência e do poder de redução ao Nada dessa consciência – começava então a construir o sistema de pensamento que iria desembocar no chamado existencialismo.

Entretinham-se nas relações em trio, sim. Que comportavam, como parece evidente, não poucos equívocos, ou mentirolas – ou mesmo chorrilhos de mentiras das mais grossas. Geniais que fossem, eram humanos. E mentiras pregadas a pessoas de emoção instável custam o seu preço. Inocentes mentiras, diria Sartre; ou meias verdades; ou mentiras absolutas: a catalogação hierárquica dele, e vigente para todos os aspectos da vida.
                              
                                      CONTINUA

 

 

domingo, 28 de outubro de 2018


                          AFINAL O HITLER SEMPRE FUGIU
                       PARA A AMÉRICA LATINA?

 


Não me digam!
Mas também temos que chegar à conclusão de que a democracia nunca foi um sistema popular, e porque os ditos populistas que apelam ao voto popular trazem sempre no ventre um projecto autoritário.
A democracia foi um sistema imposto pelas elites políticas e intelectuais numa base de racionalidade e equitatividade, e que teve sucesso quando o capital finalmente compreendeu que com boas estratégias publicitárias e empresariais o nível de exploração do trabalho podia ultrapassar os níveis conseguidos pelas ditaduras.
 
 
Mas o pagode que não pensa, que não lê, sempre, lá bem no fundo, desconfiou da democracia. Ou mais: lá bem no fundo tende a encarar de baixa cerviz os autoritarismos; ou então gosta daquilo de que tem medo. E a questão foi saber em qual dos autoritarismos acreditar, posto que, assim de raspão, se conhecem dois principais, que são os ditos de esquerda e os ditos de direita. E quando o sentido dessas designações vai faltando está lançada a confusão nos espíritos e qualquer autoritarismo serve, mesmo quando encapotado por uma democracia formal.
Isto porque 50 milhões de brasileiros estão prontos a votar livremente um presidente que se apresenta autoritário e de discurso fascizante.
A democracia formal, liberal, parlamentar, representativa está doente. Está de rastos. A dona Le Pen lá vai indo na cultíssima França. A Forza Italia e os fascistas da Lega Nord de vento em pôpa se alçapremaram ao poder. Na Espanha temos a encher pavilhões o Vox. Os supremacistas brancos  da América de Trump estão como querem. E agora o Brasil. E por via das urnas. Como Hitler em 33.
 
 
Se a democracia formal, parlamentar, está doente e não pode resolver os problemas concretos que não passem pelas burocracias partidárias e judiciais, logo o imaginário popular clama por autoridade – ou autoritarismo, que é o último recurso da autoridade – e por métodos de que a democracia não pode lançar mão.
Com a epidémica, generalizada e colossal corrupção na classe política, e com um ex-presidente de cana por causa disso, o pessoal brasileiro já não sabe para que lado se virar, e sendo que aquilo no Brasil também já não é democracia que se veja.
 
 
Mas o que vai acontecer ou não durante o mandato do novo presidente (fascista, racista, machista, homofóbico, e sei lá que mais – alegadamente – de repulsivo e incorrecto); ou se o eleito vai ou não cumprir à risca tudo o que ameaçou fazer; ou se o eleito vai ou não conseguir alianças no Congresso ou no Senado, pouco importa. O que importa é a disposição íntima do eleitorado brasileiro, fustigado pelo ambiente geral de rapina, provavelmente assustado com a extrema violência campeante. Um eleitorado indefeso perante propostas que lhe sugiram uma diferença, uma mudança. Qualquer que ela seja.