sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016


                 PARIS, SETEMBRO DE 1968

 
 
(O Cunhal “de” Pacheco Pereira, última incursão.)
Maio em Paris. Primavera/Outono em Praga – Dubcek torturado e sujeito a aparecer morto numa viela da cidade. Esquerdismo em alta. Noção cada vez mais firme de que o PCP, amarrado ao PCUS, não dava um passo para revolução alguma; de que o heroico PCP da luta antifascista era uma entidade política obediente à burocracia soviética. Defecção de personalidades. Carlos Antunes, António José Saraiva (quantas coisas a gente come na nossa simplicidade de intelectuais), Eurico de Figueiredo, António Barreto, Manuel Alegre, Isabel do Carmo, Silva Marques, os “famosos”.

                                                      
      
 
Os comunistas portugueses de Paris, em todo o caso, e na sua maioria, estiveram com a direcção no apoio à invasão da Checoslováquia, invectivando os oportunistas dos PC’s francês e italiano, alertando para o perigo dos desvios de direita, e tocando no caso português, em que uma hipótese de unidade com os chamados católicos progressistas poderia indiciar o mesmo caminho desviante, dada a particular conjuntura nacional.
 
                  

Os militantes do interior dividiam-se entre apoiantes e discordantes da invasão. Havia qualquer coisa no ar. A guerra de África – julgo eu – chegava a um ponto de impasse militar em que declaradamente não se vencia nem se perdia, e sem solução política descortinável.
 
O ano seguinte era de eleições. A proximidade dessas eleições de 1969, que obviamente todos sabiam de antemão tão falseadas pelo regime como as anteriores mas que obrigavam o PCP a uma tentativa de estratégia unitária com forças e personalidades não comunistas da oposição ao regime.
 
                                                
 
Cunhal precisa deles, precisa de todos os antifascistas, mas para poder conversar com eles terá de fazer orelhas moucas à previsível contestação da invasão da Checoslováquia e mais à hostilidade a tudo o que cheirasse a soviético. Para evitar merdas, o melhor era falar com eles antes que a posição favorável do PCP à invasão devidamente se clarificasse.
 
 
A intermediação dos homens da FPLN de Argel seria aconselhável no sentido de um encontro em Paris com o que Cunhal chamava de “novos quadros oposicionistas”. Criar uma organização legal do movimento democrático: era essa a ideia.
 
                          

Na organização do encontro têm função operacional Pedro Ramos de Almeida e Piteira Santos. Jorge Sampaio, personalidade desligada de grupos oposicionistas mas líder das lutas estudantis de 1962 e advogado de presos políticos é um dos convidados. João Bénard da Costa, outro, oposicionista católico e influente no meio cultural.
                     
                                                               

Bénard e Sampaio chegam a Paris e logo são envolvidos nos procedimentos clandestinos e conspirativos tão do gosto de Cunhal.
 
 
Pacheco Pereira conta os casos pelo ponto de vista de Jorge Sampaio, que embarca no Metro até uma das portas de Paris e é encafuado num autocarro em que as cortinas das janelas são descidas; que viaja durante duas horas, possivelmente às voltas para despistar, sem fazer a mínima ideia do local para onde o levam; e que chega a uma espécie de quinta e é descarregado em frente de uma casa solarenga.
A reunião é numa vasta sala de jantar e demora três horas e tal. Estão vinte pessoas, Sottomayor Cardia, Virgínia Moura, Lino Lima, Maria Eugénia Varela Gomes, Piteira Santos, Lopes Cardoso, Manuel Sertório entre elas.
 

           
 
Cunhal chega de Citroën – “boca de sapo”, palpito – acompanhado pelo presidente comunista do município local.
E também palpito – erradamente, pode ser – que havia o sentimento de que alguma coisa de insólito estaria para acontecer em Portugal - ou até já teria acontecido sem ninguém saber; ou só com o PCP a saber. Era imperioso concertar posições.
 
 
Discute-se o momento político, o nacional e o internacional. Discutem-se as novas frentes de luta antifascista que é urgente criar em função de um regime que intoleravelmente se vai eternizando. Mas a mais quente das discussões centra-se na crise da Checoslováquia.
 
 
Nesse momento a posição do PCP quanto à invasão soviética ainda não era evidente. E por isso mesmo foi esse o tópico escaldante que dominou a reunião, para maior desconforto de Cunhal e dos comunistas presentes. Que a reunião tinha sido convocada para tratar dos assuntos portugueses e não da Checoslováquia, insistia-se. E é Carlos Brito que num passeio pelos jardins do castelo assume sem sofismas a posição do Partido no caso da Checoslováquia, o que deixa toda a gente estupefacta.
 
                                                                                                      
 
Terminado o encontro, Sampaio é enfiado na mesma camioneta das cortinas corridas, leva as mesmas duas horas de viagem, sai, mete-se no Metro, chega ao centro de Paris, compra o jornal, o Le Monde, e por uns segundos o coração deixa de lhe bater ao ler uma notícia de primeira página referente a Portugal: Salazar tinha caído de uma cadeira e estava internado em S. José em mau estado.
 
 
Salazar dera a queda em princípios de Agosto, como se sabe, mas tudo ficara no segredo e só em Setembro, ainda secretamente, foi em charola, sendo a notícia libertada para os jornais a 4 de Setembro. 
 
 
Pergunto: Cunhal e o PCP sabiam disso e terá sido essa sensacional mudança na situação política portuguesa a razão da reunião, e não as eleições do ano seguinte, que iriam decorrer seguramente como toda as outras? Pergunto.
 
                                                                                                    
 
Pergunto ainda: terá alguma vez a história da queda da cadeira sido bem contada ao pagode? Salazar caiu mesmo de uma cadeira de lona? O PCP terá tido algum papel nessa queda – ou, sei lá, nesse traumatismo craneano, com ou sem queda, com ou sem cadeira?
 
 
Teorias da conspiração, ah, ah, ah. Claro. Nada de admirar naqueles tempos conturbados, naquele ano de 1968 em que aconteceu tanta coisa inesperada e até imprevisível, tão eterno Salazar parecia a todos nós.

 
1968. Grande ano de acontecimentos que me apanharam à traição, confinado nas lonjuras do Leste de Angola, em armas, com tudo a passar-me ao lado e a chegar-me pelos jornais mandados de cá com semanas de atraso.
 
                                                                                              
 
Longe, longíssimo de todos os cenários, o que na minha ingenuidade esperei ansiosamente foi tumultos nas ruas de Lisboa, foi movimentações pré-revolucionárias aproveitando a circunstância, foi alguma acção, foi alguma mudança. E para maior desilusão dos meus vinte e tantos anos, nada, nada mudava – ou pelo menos nada de imediatamente perceptível.
 
 
Também era essa a opinião do PCP, segundo Pacheco Pereira. De que nada mudava quando alguma coisa já estaria a mudar.
Talvez sim. Marcelo Caetano. Ora bolas! Que grande mudança…
 
                                                                           
 
O que sub-repticiamente mudava sem que nas minhas circunstâncias de isolamento me pudesse aperceber era a posição que os mais lúcidos e informados dos cidadãos de esquerda tomavam com referência à URSS e aos partidos comunistas dela subsidiários.
O movimento comunista internacional, conforme bem nota Pacheco Pereira, envelhecia, as referências ideológicas desvaneciam-se, desmoronavam-se. Os que apoiavam incondicionalmente a URSS, e por tabela o PCP, continuavam firmes na sua convicção. Os que depois da Checoslováquia (para não falar da Hungria) e do Maio parisiense se tinham bandeado para outras paragens ideológicas à espera da revolução, olhavam mais para Oriente, para a China.
 
 
Mas na Europa era o impasse para as opções de esquerda. Quem tinha apoiado a invasão da Checoslováquia tinha apoiado e pronto, acabou-se, a URSS continuava para esses a ser o farol da esperança revolucionária. Quem tinha estado contra, quem tinha achado piada aos motins de Maio e se tinha virado para os chineses não se percebe bem o que esperava. Talvez a revolução para semana seguinte.
 
 
E quem nem tinha apoiado a invasão, nem se tinha impressionado com as consequências do Maio, nem se tinha virado para os chineses e se continuasse a reclamar do estatuto de cidadão de esquerda… estava sem saber o que pensar, para onde se virar, o que fazer. É nesse ponto, nesse ano de 1968, que a erosão das ideias de esquerda começa; é nesse vácuo ideológico que os princípios e práticas neo-liberais deixam de ter concorrência político-ideológica e acham terreno fértil para um novo alento, ganham consistência, vislumbram à distância histórica a consistência que têm hoje, o esplendor.
O PCP. Cunhal. A URSS. A China. Mao. Salazar. O vácuo – esse vácuo que escarnece das ideias e que convida às práticas.
Era o princípio do fim do primado da política. E, dada a exaustão da política, era a tecnocracia e a economia que se chegavam à frente para equilibrar e desequilibrar  as relações internacionais, estreitando consideravelmente a margem de escolha entre capitalismo e socialismo.
Anos antes, em 1965, no relatório ao VI Congresso do Partido, realizado na URSS, Cunhal tocara o ponto da previsível (e desejável) morte do ditador e caracterizara como vácuo político o que se seguiria a essa morte.
 
                                                                             
Pois então, em Setembro de 68 essa morte era o facto político mais previsível que se pudesse arranjar. Era a véspera do vácuo político que Cunhal previra. Havia que chamar a Paris as entidades antifascistas e com elas arquitectar estratégias. E ainda por cima na perspectiva de eleições.
Continuo na minha: em princípios de Setembro de 68 Cunhal já saberia o que pouquíssimos (os grandes do regime, só) sabiam: da queda de Salazar.
 
 
Mas o vácuo ideológico seria também onde ele mesmo, Cunhal, iria cair, arredio como era da solução do eurocomunismo que o obrigaria a desviar-se para a direita, também ele, empedernidamente fiel a um sovietismo que historicamente dava as últimas e que ele sabia melhor do que ninguém já não ter condições morais para conduzir o movimento comunista internacional para lá da burocracia conservadora e aparelhista em que mergulhara depois de Stalin. 
  
 
Havia algures um muro. Não sei se alguém já andava a pensar em deitá-lo abaixo. Porque também não sei se em Moscovo, em Praga ou em Paris, alguém nesse ano terá pronunciado duas palavras em russo… glasnost… perestroika…
Talvez não. Ainda faltavam vinte anos.
 

 

1 comentário:


  1. Muito interessante....

    Eu por essa altura era ainda um gaiato feliz e obediente, que frequentava a 3ª Classe numa Vilória do Alto Alentejo, mas dá que pensar saber hoje que já então Aníbal Cavaco Silva tinha proto-ambições políticas e lambia os pés à PIDE, para singrar na sua nascente carreira de "investigador" e académico, que o papá do atual Presidente da República era um alto dignitário de Salazar e que até baptizara o seu rebento - então já quase a chegar à maioridade - com o nome do seu admirado sucessor Caetano, que também o paizinho de Marques Mendes era o lacaio pessoal do Governador-Civil de Braga, entre tantas e tantas outras "coincidências", que poderiam lançar uma outra luz sobre o nosso Portugalinho atual e os seus inefáveis e persistentes contornos salazaristas, se fosse mais cultivado o salutar hábito, entre os portugueses, de ler mais (por exemplo livros, sim, ou até coisas como este "blogue"...) e ver menos televisão comercial...

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