ÓCULOS ESCUROS
As
estrelas de cinema propõem uma moral da individualidade de que deriva uma moral
do ócio moderno.
Falo nisto por ter tido o
ensejo de dar uma vista de olhos por um ensaio de referência na especulação
sobre o fenómeno do cinema, ou sobre um elemento constitutivo da arte
cinematográfica ao ponto de quase sufocar (ou sufocar mesmo) a mesma arte
cinematográfica, e entendendo a arte cinematográfica como a arte do criador de
filmes, do realizador.
O
fenómeno de que falo é o da estrela, a estrela de cinema. E o notável ensaio é
de Edgar Morin, Les Stars, há uns
largos pares de anos traduzido por Salvato Teles de Meneses para a editora
Livros Horizonte como As Estrelas de
Cinema.
Uma
tirada do outrora famoso realizador francês René Clair: os homens da idade das luzes saúdam os
semi-deuses que a si próprios ofereceram.
O
fenómeno da estrela cinematográfica deu com que nos deixássemos de referir com
tanta ênfase a um filme de Godard, de Cecil B. de Mille ou de Fritz Lang – já de
si realizadores estrelas – e falássemos mais de um filme da Greta Garbo, da
Brigitte Bardot, do James Dean ou do Paul Newman...
...ou, actualizando, da
Madonna, do Brad Pitt ou do George Clooney. Edgar Morin diz que os rostos das
estrelas devoram os cartazes.
O
realizador em si, o director, foi
aliás anónimo, ou quase, durante muito tempo. Sairá provavelmente do anonimato
para se defrontar com o prestígio da sua estrela. Não sei. Talvez. Mesmo assim,
o realizador que escolhe uma estrela paga a milhões para integrar o elenco do
seu filme, e sabendo que o nome dessa estrela pode ser sucesso garantido de bilheteira,
terá de se lhe submeter às exigências mais estapafúrdias.
Não
falando já do caso de poder ser a estrela a escolher em vez de ser escolhida –
a escolher o seu realizador; ou a impor um tema ao realizador. O tema… que digo
eu… o tema, os enquadramentos, o ritmo, tudo.
E
pode ser – e tantas vezes é – a estrela, e não o realizador, a escolher o
elenco que queira ter a contracenar com ela. Como também pode ser a estrela a
pagar o filme, a produzir o filme, usando o realizador como simples técnico.
Edgar
Morin, referindo-se a França, e escrevendo, não sei ao certo, mas talvez nos
inícios dos anos 60, fala de filmes com 100/200 milhões francos de orçamento,
dos quais 100/200 milhões, entre 20 e 40 eram afectados ao cachet da estrela, e quando a estrela fosse Gabin, Delon, Belmondo,
Catherine Deneuve ou Jeanne Moreau.
As
estrelas cinematográficas apadrinham campanhas publicitárias, concursos de
beleza, competições desportivas, festas de caridade… eleições presidenciais.
Anos
50. Hollywood. 500 correspondentes de imprensa lá estão instalados em
permanência só para fornecer regularmente ao mundo os últimos mexericos da vida
privada das estrelas.
Antes,
havia as vedetas de teatro. Não duraram muito. Veio o cinema. E actor que se
quisesse alcandorar ao estrelato melhor faria em dedicar-se à nova
indústria.
A
essência da estrela… sim, é difícil a síntese… mas comecemos por dizer, com
Edgar Morin, que é como a crisálida. A pessoa do actor liberta-se da personagem
que interpreta. E o intérprete tornar-se-à mais forte do que a personagem
interpretada. Até porque passa a ser ele a própria personagem, a múltipla
personagem de múltiplos filmes, e todavia personagens sempre semelhantes entre
si e unificadas em imagem pelo corpo e pelo rosto do intérprete, da estrela,
visto ser, segundo diz Morin, na daléctica estabelecida entre o actor e a sua
personagem que irá desabrochar a entidade que se chama estrela.
Mary
Pickford, Theda Bara, Francesca Bertini, Pola Negri, Lilian Gish, Greta Garbo.
Década de 20. O tempo mais glorioso. Cada uma com o seu estilo, o seu tipo, as
suas personagens, os seus alter egos, porque personagens que pouco passarão de
ser ela própria. E os produtores a largarem milhões na disputa das caras e dos
corpos que o público idolatra. Virgem inocente ou rebelde; olhos crédulos; lábios
entreabertos: a vamp, a grande prostituta. E tudo isso desembocará
na mitologia da mulher fatal.
Douglas
Faibanks, Rudolfo Valentino, Tom Mix. Arquétipos masculinos. Valentino: o herói
do amor. Diz Edgar Morin: Valentino opera
uma espécie de síntese perfeita, sheik árabe, romano, aviador, deus que morre,
renasce e se metamorfoseia, como Osiris, Átis, Dioniso, herói de feitos
inomináveis, mas sempre ídolo do amor.
Morin
estabelece o tempo de apogeu no ecran como correspondente ao apogeu da vida a
que chama mítico-real da estrela. As sublimes. As excêntricas.
Moram em
castelos de tipo feudal, ou em casas parecidas com templos antigos. Em qualquer
dos casos não faltam as piscinas de mármore, os animais de colecção, os
combóios que lhes serpenteiam privadamente na propriedade. Vivem longe e acima
do comum. Amam-se e difamam-se e os seus amores são fatais na vida como no
ecran. Ignoram o casamento, a não se
para desposar príncipes e aristocratas. Pola Negri concede sucessivamente a sua
mão ao conde Eugénio Domski e ao príncipe Midvani.
O
momento máximo do grande tempo das estrelas de cinema é determinado pela morte de
Rudolfo Valentino, quando duas mulheres se suicidam à porta da clínica onde
Valentino acabava de falecer.
As
grandes massas consumidoras, por um processo natural, tocam o nível da
personalidade burguesa e adaptam-se-lhe aos padrões de cultura, sempre manipuladas
pelos órgãos de comunicação controlados pela burguesia mesma. Corresponderá ao
aburguesamento de uma mentalidade popular o aburguesamento do imaginário
cinematográfico popular.
O
realismo em cinema pretende passar sem a estrela. O neo-realismo italiano, sim,
dirigido às massas populares que começaram a comungar de um imaginário – e de
um ideário – burguês, vê as suas aspirações de um cinema sem estrelas
fortemente comprometidas.
As massas populares não querem ver cinema sem
estrelas. Não há realismo ou neo-realismo que possa sobreviver fora dos
contextos mentais burgueses. Uma das grandes contradições da arte popular ou de
massas é, além de ser paga, dirigir-se,
afinal, a quem despreza essas massas e lhe subverte os valores. E o grande
público inclina-se também para o happy
end. Para o herói é melhor um destino de felicidade perene do que a heróica
morte no ecran.
A estrela é da mesma natureza dúplice
dos heróis das mitologias, mortais aspirantes à imortalidade, pretendentes á
divindade, génios activos, meio homens, meio deuses.
No
mais antigo tempo do fenómeno das estrelas de cinema, a idade idade ideal de
uma estrela estava entre os 20 e os 25 anos para as mulheres; entre os 25 e os
30 para os homens. Mas, por volta de 1930, aparecem os heróis maduros do teatro
burguês – isto em França – a tipificar uma outra probabilidade de estrelato. Em
1940, Clark Gable, Humphrey Bogart, Gary Cooper pontuam em Hollywood como a
estrela-homem-muito-vivido. Decai a mitologia da virgem ingénua. Empalidece o
brilho mítico da vamp fria e meio
fantástica.
O realismo, ainda assim, impõe regras. A vamp de boquilha e olhares fatais é vista como figura cómica,
caricatural. Marlene Dietrich é obrigada a humanizar-se. Como diz Morin, põe o seu erotismo ao serviço de um grande
coração.
E
quem vai erotizar-se (e apaixonar-se na tela) é o justiceiro, solitário e
assexuado do Far West.
As
novas fornadas de estrelas são erotizadas. O star system recupera num tempo – pós II Guerra – em que começa a
olhar-se para o nome do realizador e se atenta à qualidade do filme.
E recupera
por meio do que Morin chama um relançamento erótico marcado por um renascimento
mamário. Sophia Loren, Gina Lollobrigida, Martine Carrol. Os banhos. O vestir.
O despir. O tornar a vestir. Em alternativa pode cultivar-se a inocência às
vezes perversa, Bardot, Audrey Hepburn.
Falei em Brigitte Bardot. Pois tomemos Brigite Bardot.
Triunfa no
estrelato porque realiza a síntese. Extrema inocência e extremo erotismo.
Chamada a mais sexy das vedetas bébé, e a
mais bébé das vedetas sexy.
Em
Hollywood, às tantas, vive a nova deusa do amor: Ava Gardner.
Marilyn
Monroe promove um novo relançamento do star
system. É a década de 50, para Morin
o último florescimento desse mesmo star system.
Monroe, como Bardot, são mulheres totais, multidimensionais: deusas da tela e raparigas simples que
resplandecem sexo e alma – nas palavras literais de Edgar Morin.
E
outra coisa deveras interessante: se antes de 1930 a grande estrela não
podia engravidar, nas décadas que se seguem já pode ser mãe – desde que o seja exemplarmente.
Edgar
Morin diz – e eu concordo – que a história das estrelas de cinema era como que
um que um remake da história dos
deuses. O ecran assombrava-se com a ocorrência do duplo: uma personagem que era
um duplo de uma pessoa real. E a história das estrelas é a história de pessoas
reais que, exercendo-se embora como duplas de si mesmas, assumiram o seu corpo
e a sua substância real, existencial, palpável. Como os deuses. Que se
metamorfoseavam em heróis e salvadores e desciam do olimpo e vinham conviver
com os mortais, exercendo-se como mediadores entre os mundos, entre o sonho e a
realidade. Assim as estrelas de cinema.
Ser-se reconhecido como homem é, antes
de mais, ver reconhecido o direito de imitar os deuses - cita Edgar Morin.
Assim
como uma estrela não é só uma actriz, as suas personagens não são só
personagens. São personagens do filme que investem na personalidade das
estrelas e vice-versa; a estrela enverga a personagem e investe-se nela. As pessoas dizem que sou o mesmo na vida e
nos meus filmes, e é por isso que me amam, disse Jean Gabin.
E diz Edgar
Morin que o representador e o
representado se determinam mutuamente. Gary Cooper garycooperiza os heróis que
representa na tela. A estrela ultrapassa o actor que encarna pessoas. A estrela
encarna-se nessas pessoas da mesma forma que essas pessoas se encarnam nela. Morin cita um senhor Gentilhomme, que não faço ideia de quem seja, mas que disse esta muito boa: temos vedeta quando o intérprete excede a personagem, e sempre beneficiando dela no plano mítico. E Morin complete por sua conta:quando a personagem beneficia da estrela nesse mesmo plano mítico.
Uma
pin up, na definição do nosso autor, é uma bela rapariga fotografada, é uma starlet
em potência. Uma estrela em potência,
quer ele dizer, porque a beleza é uma das condições do estrelato. Mas o star system renova-se também nas artes
da maquilhagem, do guarda-roupa, das maneiras, da fotografia. Se for caso disso,
recorre sem hesitar à cirurgia plástica que pode aperfeiçoar uma beleza
natural, ou mesmo, se for caso disso, fabricá-la.
As
figurantes vestem as roupas da produção, mas a estrela está vestida. No coração do Far West a elegância excede a
verosimilhança… a estrela muda de
roupa a cada sequência.
A estrela pode estar vestida com um
impermeável – que é signo de solidão e de penúria – ou mesmo com andrajos. Mas
o impermeável e os andrajos são criação de grandes costureiros.
As
camisolas de Sophia Loren e os trapos de Brigitte Bardot revelam o supremo
ornamento das estrelas: os seus corpos. Nada
as veste melhor do que o nu.
Estrelas
de amor. Igual a beleza física associada a beleza moral.
A
estrela de cinema pode levar um vestido preto à recepção da raínha de
Inglaterra. Estrela real, Ava Gardner
recusa inclinar-se e sorri à raínha, sua igual, diz
Morin. Os reis e os deuses
defendem a ordem, mas podem dispensar-se de lhe obedecer. O mesmo se passa com
as estrelas.
As estrelas sabem que o chic se diverte a pedir emprestadas as aparências
do anti-chique e que o excepcional é por vezes o muito simples; que a modéstia
requintada provoca o deslumbramento supremo.
Edgar
Morin diz que os califas de Bagdad (não os actuais, suponho) disfarçavam o
estatuto sob uma capa de mercador. E pela mesma ordem de ideias, a estrela pode
cultivar o género incógnito, que, na verdade, é o máximo da ostentação da
simplicidade.
E entram aqui os óculos escuros. Óculos escuros como signo de anonimato que se transformam, conforme o lugar onde sejam exibidos, em signo de celebridade.
Cito
literalmente Edgar Morin: o uso de enormes
óculos escuros cercados de branco tem permitido à população de Hollywood
reconhecer as estrelas. Starlets e
figurantes fizeram o mesmo e os óculos escuros dissimularam o seu anonimato sob
o sinal evidente da celebridade.
E
é certo. Experimente o (ou a) eventual leitor (a), se for um anónimo
profissional, se nem nunca sequer nas horas vagas figurou e bateu palmas nalgum
talk-show ou concurso televisivo,
sair à rua de óculos escuros – independentemente do sol ou da chuva - e verá que muito mais gente repara em si para
além do que é costume.
Aprendizagem,
domínio e disciplina pessoal, técnica, eis o que se pede a quem desejar ser
actor de teatro. Muito bem. A estrela é que não precisa de nada disso. Pode
fazer um rápido curso de dicção ou de expressão corporal. Coisa simples. A
personalidade diante da câmara é o que mais conta. E se assim é, qualquer moça
bonitota e de boa carnação pode acalentar quimeras de estrelato. E pode
perguntar a si mesma, porque não eu?
Jovem encontrada na rua, no eléctrico,
abordada, “a menina gostaria de fazer cinema?”.
Figurante notada, manequim, pin up, vencedora de concurso de beleza, tornadas
Silvana Mangano, Ava Gardner, Joan Crawford, Marilyn Monroe.
Morin diz que ser estrela pode ser o
impossível possível. E se tudo, toda a sorte e todo o acaso, pode encorajar uma
rapariga jeitosa, esse mesmo tudo a pode desencorajar. Morin fornece números:
em 12 anos só precisamente 12 figurantes em 20.000 se tornaram vedetas em
Hollywood.
Não
se pense que a actriz de grande talento tem garantido o estatuto de estrela. O
que é irónico. Irónico no sentido em que o mais discreto desconhecido se pode
transformar em estrela de um dia para o outro.
No
entanto, a verdade é mesmo esta: se a actriz de talento ainda têm chances de se
tornar estrela, o mais certo é que o desconhecido tenha todas as hipóteses de
continuar desconhecido.
E
há os talent scouts – ou
descobridores de vedetas. O talent scout
vai por esse mundo fora. Ninguém sabe quem ele é. O que procura? Aquilo a que
Morin apelida de fontes de radioactividade de uma potencial estrela.
O
talent scout é tocado por um rosto
prometedor no metro. Abordagem, teste de
fotografia, ensaio de gravação. Se a prova é concludente, a jovem beldade parte
para Hollywood. Imediatamente presa por contrato, é recriada por massagistas,
estetas, dentistas, eventualmente cirurgiões. Aprende a andar, a perder o
sotaque, a cantar, a dançar, a dominar-se. Ensinam-lhe literatura, ideias.
Ensaia. Rodagens. 30 segundos de close up em technicolor.
Escolhem-lhe o automóvel, os criados, os
cães, os peixes, os pássaros. A sua personalidade amplia-se, enriquece-se.
Espera pelas cartas dos fans.
Nada. É o fracasso. Mas pode acontecer que um dia o Fan Mail Department assinale ao executive producer que a starlet recebe 300 cartas por dia de
admiradores…
A
estrela fabrica-se. Faz-me uma estrela?
Quanto quer gastar? Orçamento habitual.
O
Star system. Edgar Morin associa-lhe
as características às do grande capitalismo industrial. Fabrico – dizia Carl
Laemmle, um dos grandes produtores da época de ouro: o fabrico das estrelas é fase primordial na indústria do filme.
Investimento e fabrico. E fabrico em cadeia. Racionalização. Standardização.
Selecção – eliminando as peças defeituosas. Montagem. Decoração, alindamento.
Rodagem. Lançamento. A própria maneira de viver da estrela é comercialmente
eficaz, continua a ser mercadoria vendável. De resto, diz Morin, que a estrela
é a mercadoria total, não há um
centímetro do seu corpo, uma fibra da sua alma ou uma recordação da sua vida
que não possa ser lançada no mercado.
A
estrela é a mercadoria tipo do grande capitalismo, destinada ao consumo das
massas, o produto de série adoptado pelo mercado mundial...
Mas
se a estrela é produto de série, também é objecto de luxo. Um departamento
especializado de Wall Street cotava as pernas de Betty Grable, os seios de Jane
Russell, a voz de Bing Crosby, os pés de Fred Astaire.
E
a starlet. A que vai ao Festival de
Cannes e se hospeda num quartito mas do Carlton.
Que muda constantemente de toilette. Que circula pela croisette querendo passar por uma
individualidade fora de série. Que pode trazer um carneirinho ou um tigre pela
trela.
Que pretende imitar a estrela, mas que faz poses de pin up para os fotógrafos.
Quer dizer, tanto quanto a estrela foge a sete pés dos admiradores, a starlet procura-os.
A estrela desvenda a
alma. À starlet não resta senão
exibir o corpo.
O
que pode faltar a uma grande vedeta, por exemplo, do teatro, para ser uma
estrela? É a sobrepersonalidade. Ou seja: o suplemento pessoal que amplia uma
personalidade. E o star system o que
faz é fabricar personalidades a partir de uma matéria-prima: a beleza e a
juventude.
No
cinema, a estrela encarna uma vida
privada. Na sua vida privada é obrigada a representar uma vida de cinema.
É
através dos papeis que representa no ecran que a estrela representa o seu
próprio papel. E por meio do seu próprio papel pode desempenhar os papeis que
faz no cinema.
Diz
Edgar Morin: o star system comporta a organização sistemática da vida
privada-pública das estrelas. Buster Keaton estava obrigado por contrato a
nunca rir em público. Os contratos forçam a ingénua a levar uma vida casta na
companhia da mãe – pelo menos na aparência. Mas a glamour girl deve mostrar-se nos clubes nocturnos de
braço dado com cavalheiros escolhidos pelos produtores.
Uma
pessoa vai a Cannes, assiste ao festival, regressa à vida quotidiana, que vedetas viste? Alain Delon, Jeanne
Moreau. Estavam tão bem como no ecran, tão belos, tão frescos?
Aparência
e essência. Confrontação. Mito e realidade. Confrontação. Um festival de cinema
com estrelas também está obrigado a provar pela encenação do real que as estrelas
são sempre fiéis à sua imagem na tela. A estrela, diz Edgar Morin, está contaminada pela sua imagem e tem de
levar uma vida cinematográfica. E
nessa conformidade, Cannes, por exemplo, pode ser o místico palco das
identificações do imaginário e do real.
A
estrela não é nada. A sua imagem é tudo.
Fantasma do seu fantasma, a estrela não
pode escapar ao seu próprio vazio a não ser pelo divertimento, e não pode
divertir-se a não ser pela imitação do seu duplo, mimando a sua vida no cinema.
A
estrela não é cabotina. Não representa um papel exterior a si. Como as raínhas,
vive o seu próprio papel.
O
mortal comum pode apropriar-se de alguma coisa da sua estrela favorita e
incorporá-la em si. Podemos falar de penteados. Podemos falar de maquilhagens e
toilettes. E há a fotografia, óptimo ersatz de uma presença real. Uma presença de bolso,
de apartamento, de toucador. Radioso e tutelar. Pode contemplar-se. Pode
adorar-se. 90% das cartas dos admiradores das estrelas pedem uma fotografia.
E
o século XX até fez dos príncipes e dos reis estrelas. Como já tinha feito das
estrelas reis e princesas. Lembrei-me outra vez de Grace Kelly. E da última
princesa feita estrela, Lady Di.
Diria,
com Edgar Morin, que chega sempre o
momento em que o fan da estrela
também envelhece: a vida real gasta a admiração; o apaixonado, ou apaixonada
reais substituem a estrela. A divindade estrela é efémera. É corroída pelo
tempo. Não pode escapar ao tempo senão no além das recordações. A morte é mais
forte do que a imortalidade.
E
por falar em imortalidade…
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