sexta-feira, 20 de maio de 2016


  shakespeare 400 – george steiner
 


         Nenhuma actividade ou profissão se salvou do bisturi shakespeariano, médicos, advogados, agiotas, soldados, marinheiros, magos, putas, padres, políticos, músicos, carpinteiros, reis, assassinos…
         Shakespeare, no dizer do Prof. George Steiner, é um inventário da experiência humana. Um inventário inultrapassável. A obra de Shakespeare é uma soma do mundo.
 
 
Porém, para decepção de Steiner, a relação mestre-discípulo não chamou uma especial atenção do Bardo.
 
 
Está bem, há o didactismo sentencioso de Polónio em Hamlet. Ou sim, Próspero em A Tempestade. Caliban educado em dureza e rigores; Miranda criada entre ríspidas afeições. Mas tudo isso é incidental, ainda assim. Nada disto é fulcro central de uma peça.
 
 
Steiner arrisca que a ausência temática do binómio mestre/discípulo em Shakespeare releva de uma recusa subconsciente das reivindicações e pretensões do academismo autoritário sobre a mente do autodidacta universalista. É bem pensado.
Já em Montaigne Steiner destacava a mesma pecha, digamos assim, o mesmo reflexo.
 
 
E o mais intrigante é que essa eventual recusa inconsciente de Shakespeare contrastava gritantemente com o gosto que tinham pelo ensino formal os contemporâneos dele, Marlowe, Chapman, Ben Johnson…
E quem poderia ensinar Shakespeare nas verdades e mentiras da consciência humana?
Ah, os Sonetos…    

     E tu que conheceste as estrelas e a luz do sol,
      por ti mesmo instruído, perscrutado, honrado, seguro,
        sobre a terra caminhaste insuspeito – tanto melhor!

                      


Sem comentários:

Enviar um comentário